ENSEADA DE BOTAFOGO

ENSEADA DE BOTAFOGO
"Andar pelo Rio, seja com chuva ou sol abrasador, é sempre um prazer. Observar os recantos quase que escondidos é uma experiência indescritível, principalmente se tratando de uma grande cidade. Conheço várias do Brasil, mas nenhuma tem tanta beleza e tantos segredos a se revelarem a cada esquina com tanta história pra contar através da poesia das ruas!" (Charles Stone)

VISTA DO TERRAÇO ITÁLIA

VISTA DO TERRAÇO ITÁLIA
São Paulo, até 1910 era uma província tocada a burros. Os barões do café tinham seus casarões e o resto era pouco mais que uma grande vila. Em pouco mais de 100 anos passou a ser a maior cidade da América Latina e uma das maiores do mundo. É pouco tempo. O século XX, para São Paulo, foi o mais veloz e o mais audaz.” (Jane Darckê Avelar)

8.4.23

CENTRAL DO BRASIL: ESTRADA DE FERRO, DE GENTE E DE MÚSICAS, de ROGÉRIO MARQUES

Texto publicado originalmente no Quarentena News, uma página de jornalistas no Facebook.

Central do Brasil. (Foto: Rogério Marques)

Quantas histórias de trabalhadores e quantas músicas estão gravadas naquele caminho de ferro que começa no grande relógio de quatro faces, o Relógio da Central. Tirei essa foto da janela de um ônibus, a caminho de Niterói, e lá fui eu pensando nessas histórias.

Na minha infância e adolescência morei no Rocha, subúrbio carioca, e usei muito os trens da Central, atualmente SuperVia. Antes da popularização das máquinas de lavar, lembro das lavadeiras que vinham de longe, até de municípios da Baixada Fluminense, com suas trouxas grandes e pesadas. Desciam na estação Central do Brasil, aquelas guerreiras, às vezes acompanhadas de filhos pequenos, que não tinham com quem deixar, e pegavam os ônibus para a Zona Sul, onde moravam seus clientes.

Havia também os baleiros, os vendedores de mariolas, de amendoim, os pingentes que volta e meia despencavam. Na hora do rush, os batedores de carteiras e os famosos bolinas, hoje chamados de assediadores, aproveitavam-se da superlotação dos vagões para agir.

Muito antes das fake news, lendas urbanas corriam os subúrbios na velocidade dos trens. Como a do sujeito que urinou do alto de uma passarela sobre a linha férrea e morreu eletrocutado, quando "acertou" a rede aérea de alta voltagem.

MARCHINHAS DE PROTESTO


Em carnavais passados, a vida dura dos passageiros era retratada em marchinhas de protesto de grande sucesso. Como na música "O trem atrasou" (Paquito, Estanislau Silva, Artur Vilarinho), sucesso no Carnaval de 1941 na voz de Roberto Paiva, mais tarde gravada por outros artistas, entre eles Nara Leão. Naquela época, quando o trem atrasava, a Central do Brasil dava um memorando aos passageiros, para eles apresentarem aos patrões. Velhos tempos!

"Patrão, o trem atrasou
Por isso estou chegando agora
Trago aqui um memorando da Central
O trem atrasou meia hora
O senhor não tem razão
Pra me mandar embora."


"Mundo de zinco", de Wilson Batista e Antônio Nássara, retrata uma época em que as favelas e seus barracos, de madeira com teto de zinco, eram muito mais pobres do que atualmente. Na Rua Visconde de Niterói, de frente para a linha férrea, os trens sempre fizeram parte da Estação Primeira. Gravada por Jorge Goulart, “Mundo de zinco” foi uma das músicas mais cantadas nos carnavais do começo dos anos 1950.

"Aquele mundo de zinco que é Mangueira
Desperta com o apito do trem
Uma cabrocha, uma esteira
Um barracão de madeira
Qualquer malandro em mangueira tem."


Também de Wilson Batista, em parceria com Roberto Martins, a história do pedreiro Valdemar é a mesma de tantos trabalhadores que madrugam diariamente. A "Circular", citada na marchinha, é o bairro Penha Circular, perto da Avenida Brasil. A gravação original foi de Blecaute, cantor de muitos sucessos e pouco lembrado.

"Você conhece o pedreiro Valdemar?
Não conhece, mas eu vou lhe apresentar
De madrugada toma o trem na Circular
Faz tanta casa e não tem casa pra morar."


Outro grande sucesso de carnavais passados é a marchinha "Zé Marmita", de Luís Antônio e Brasinha, gravada por Marlene. A canção retrata o cotidiano de milhões de trabalhadores, como os camelôs que vemos nas ruas diariamente, almoçando junto às suas bancas, sem interromper o trabalho.

"Quatro horas da manhã
Sai de casa o Zé Marmita
Pendurado na porta do trem
Zé Marmita vai e vem."

ZAQUIA JORGE E O TREM DE LUXO

A atriz Zaquia Jorge, a Vedete do Subúrbio, em 1953 no Teatro Madureira (Foto: Arquivo Nacional)


Atualmente poucos lembram ou mesmo sabem quem foi Zaquia Jorge, atriz e empresária do ramo teatral, conhecida como "A vedete do subúrbio". Zaquia atuou no teatro de revista, também conhecido como teatro de rebolado, um gênero popular que misturava vedetes, humor, sátiras, sensualidade.

As revistas eram alvo de críticas dos conservadores. Para eles, aquele tipo de teatro não era arte. Além de preconceitos, as vedetes às vezes enfrentavam problemas com a censura. Ainda assim, o teatro de revista revelou talentos como Wilza Carla, as irmãs Carmen e Aurora Miranda, Dercy Gonçalves, Luz del Fuego, Virgínia Lane, Sônia Mamede, Elvira Pagã e tantas outras. Feministas desde sempre.

Luz del Fuego, adepta da prática do nudismo, criou o primeiro clube de naturismo do Brasil, em uma pequena ilha da Baía de Guanabara, a Ilha do Sol. Seu sonho de uma sociedade mais livre, sem ver pecado na nudez, acabou em 1967, quando foi assassinada na ilha por dois assaltantes, juntamente com seu caseiro.

Teatro Zaquia Jorge, antigo Teatro de Madureira (Foto: Divulgação)


Em abril de 1952, Zaquia Jorge criou o Teatro Madureira, primeiro e talvez único teatro de revista do subúrbio carioca, na Rua Carolina Machado, em frente à estação ferroviária. A peça de estreia foi "Trem de luxo", de Walter Pinto e Freire Júnior, que fez muito sucesso.

Cinco anos depois, em 1957, também num mês de abril, a carreira da atriz foi interrompida por uma tragédia. Aos 33 anos de idade, Zaquia morreu afogada quando tomava banho de mar com amigas na Barra da Tijuca. A notícia causou comoção na cidade e deu origem à música "Madureira chorou", de Carvalhinho e Júlio Monteiro, gravada por Joel de Almeida no Carnaval de 1958:



"Madureira chorou
Madureira chorou de dor
Quando a voz do destino
Obedecendo ao Divino
A sua estrela chamou."

Em homenagem à atriz, o teatro que ela criou passou a ter o nome de Zaquia Jorge, mas fechou poucos anos depois.

ESTRELA DE MADUREIRA


No Carnaval de 1975, o Império Serrano, escola de Madureira, homenageou a artista e ficou em terceiro lugar no desfile do Grupo 1. O samba-enredo escolhido pela escola foi "Zaquia Jorge, a vedete do subúrbio, estrela de Madureira", de autoria de Avarese, pseudônimo de Abimael Nascimento Álvares. O samba, interpretado por Roberto Ribeiro, começava com esse estribilho, que logo caiu no agrado do povo:

"Baleiro, bala
Grita o menino assim
Da Central a Madureira
É pregão até o fim".

Curiosamente, o samba-enredo que ficou em segundo lugar, de autoria de Roberto Ribeiro, Alcyr Pimentel e Cardoso, fez muito mais sucesso. Mais tarde, foi gravado por Roberto Ribeiro, que encurtou o título para "Estrela de Madureira". Passou, então, a ser tocado nas rádios e acabou tornando-se um clássico do samba.

"Brilhando, um imenso cenário
Num turbilhão de luz, de luz
Surge a imagem daquela
Que meu samba traduz
A estrela vai brilhando
Mil paetês salpicando
O chão de poesia
A vedete principal
Do subúrbio da Central
Foi a pioneira.
E um trem de luxo parte
Para exaltar a sua arte
Que encantou Madureira
Mesmo com o palco apagado
A apoteose é o infinito
Continua a estrela brilhando no céu.”

À noite, voltando de Niterói, a caminho de casa, passo novamente pela estrada de ferro de tantas histórias. Vou no ônibus pensando na Estrela de Madureira e em tantas outras atrizes que, em defesa de sua arte, da liberdade, dos direitos das mulheres, enfrentaram todo tipo de preconceitos e jamais desistiram.

Estação de Madureira em foto antiga, sem data (Foto: site Madureira: Ontem & Hoje)

30.3.23

RIO, DA GLÓRIA À PIEDADE: LIVRO REÚNE ONZE INTELECTUAIS "CARIOCAS DA GEMA OU DE CORAÇÃO"

 


Em 29 de setembro de 2019, um grupo de intelectuais que se reunia regularmente em bares cariocas em tertúlias intelectuais fartamente regadas a vinhos e cervejas, como aquelas talvez que reuniam poetas e prosadores do início do século passado em locais como a Confeitaria Colombo, recebeu pelo e-mail a seguinte mensagem de Helio Brasil, o escritor que se celebrizou por fixar a memória de seu bairro natal São Cristóvão:





Em anexo, as tais "alucinações perigosíssimas": o projeto de um LIVRO DE CRÔNICAS cujo título seria RIO: DA GLÓRIA À PIEDADE.

PROPOSTA:

1. CADA AUTOR ESCREVE TRÊS CRÔNICAS SOBRE A CIDADE.

2. CADA CRÔNICA COM 3 OU 4 LAUDAS, NO MÁXIMO, ABORDANDO A RICA HISTÓRIA DA CIDADE, SUAS QUALIDADES, SUA HISTÓRIA, SEUS MONUMENTOS E SUA POESIA.

3. SE NÃO HOUVER ÓBICES DE DIREITOS, ENTREMEAR COM LETRAS DE MÚSICAS POPULARES QUE EXALTAM O RIO. (Acho que não faltam...)

etc.

Helio Brasil encerrava a sua proposta com esta observação:

PS – NÃO ESTOU ENSANDECIDO. SOU ASSIM MESMO!

Assim foi plantada a semente do recém-lançado Rio, da Glória à Piedade

Parte do grupo em uma de suas tertúlias etílico-intelectuais (2019)

Ocorre-me a máxima do Barão de Itararé: "De onde menos se espera, daí é que não sai nada." Pois bem, acabamos de provar cientificamente que a máxima está errada: de onde menos se esperava, uma conversa de ébrios num bar na remota pré-pandemia, daí foi que saiu a mais importante obra de celebração (glória) e lamentação (piedade) de nossa cidade amada deste primeiro quartel do século XXI (e quartel aqui não tem nada a ver com golpes militares). É verdade que a eclosão da pandemia no início de 2020, inviabilizando por um longo tempo as reuniões do grupo, fez com que o projeto quase descambasse num buraco negro, mas o empenho do nosso querido André Seffrin, amigo do editor lusitano, amante do Rio, Joaquim Emídio, que comparece com um texto no livro, fez com que a fênix renascesse das cinzas. Quem foi ao lançamento testemunhou uma noite memorável, que conseguiu lotar o Lamas numa segunda-feira, dia semimorto, e quase esgotar uma edição nada modesta de trezentos exemplares!



No Prefácio Alexei Bueno explica o título:

O título deste livro talvez soe enigmático para aqueles não nascidos no Rio de Janeiro, ou que nele não tenham vivido. Refere-se ele, metaforicamente, a duas partes da cidade: à Glória, pequeno bairro que faz jus ao nome, entre a Lapa e o Catete, praticamente o início da Zona Sul da urbe, e que tal nome recebeu da magnífica Igreja de Nossa Senhora da Glória do Outeiro, da década de 1730, uma das obras-primas da arquitetura religiosa colonial luso-brasileira e a predileta da nossa família imperial, erguida no outeiro em que se travou uma das batalhas decisivas para a expulsão dos franceses da cidade, e seu renascimento como importante porto lusitano, e à Piedade, pobre e longínquo subúrbio, que tem como seu acontecimento mais notável até hoje, provavelmente, o absurdo assassinato de Euclides da Cunha, em 15 de agosto de 1909, dia de Nossa Senhora da Glória.

Tal aproximação, tal percurso, esboça, portanto, uma ideia de decadência, e a decadência é uma marca inegável e evidente desta que é uma das cidades mais famosas do mundo, e que, no aspecto das belezas naturais em área urbana, tem nele, com poucas dúvidas, a primazia. 

etc.


Alexei Bueno e Helio Brasil. Foto enviada por Nireu Cavalcanti.

Desfilam pelo livro as criações em prosa e verso de: 

Helio Brasil, nosso decano e inspirador, hoje com 91 anos, que no meio da jornada da vida deu uma reviravolta e, de arquiteto consagrado, tornou-se o genial “escritor de São Cristóvão”, autor de romances como A última adolescênciaLadeira do Tempo-Foi e mais recentemente o histórico A pele do soldado (que vocês estão convidados a ler!)


Nireu Cavalcanti, arquiteto, desenhista e historiador, a maior autoridade viva na história do Rio colonial, autor de um clássico da historiografia carioca, O Rio de Janeiro setecentista: A vida e a construção da cidade da invasão francesa até a chegada da Corte.



Rogério Marques, jornalista veterano que trabalhou em importantes órgãos da imprensa, que “nasceu numa rua que já não existe e se chama Rogério meio que por acaso”.



Gustavo Barbosa, professor de comunicação, dirigiu as editoras Codecri e Rocco, consultor editorial e de comunicação institucional, autor do Dicionário de Comunicação, entre outras obras, realizador de projetos editoriais, redator, revisor e editor de texto, atualmente residindo na Bahia.



Ivo Korytowski, tradutor, lexicógrafo, blogueiro, YouTuber, fotógrafo amador e escritor, autor de um livro de memórias, O Rio, o mundo e eu: Uma memória filosófica & sentimental, inspirado no que de melhor se produziu na literatura memorialística brasileira.

Da esquerda para a direita: Helio, Nireu, a garçonete do Angu do Gomes e Ivo

Suzana Vargas, única representante do “sexo forte” neste quase “Clube do Bolinha”, gaúcha como todo bom Vargas, mas carioca de coração, poeta, ensaísta, autora de literatura infantil, criadora e coordenadora da Estação das Letras. 

Suzana e Ivo

Joaquim Emidio, nosso querido editor que apostou suas fichas na edição desta obra, digno representante da “ocidental praia lusitana” que, ao publicar um livro sobre o Rio de Janeiro, aventurou-se por “mares nunca dantes navegados” por uma editora portuguesa, acredito.



Eliezer Moreira, baiano de nascença, mineiro de criação, mas que fez do Rio sua cidade do coração, romancista com texto primoroso, cujo Olhos Bruxos, genial homenagem-fantasia ao bruxo do Cosme Velho, foi finalista do Prêmio Jabuti de 2020.



Eliezer Moreira, Eduardo Mondolfo, Helio Brasil e Gustavo Barbosa num encontro do grupo em 2019

Eduardo Mondolfo, arquiteto dos mais consagrados com escritório na Cinelândia, coração do Rio, “local em que tudo de bom e de ruim, sem acaso, acontece”, e poeta nas horas vagas. (foto acima)

Alexei Bueno, editor (no sentido de organizador de obras completas e edições críticas), ensaísta, um dos maiores poetas vivos do país, que aos dezessete anos cometeu a ousadia de traduzir o dificílimo The Raven (O corvo) do Poe, autor premiadíssimo (Prêmio Jabuti, Prêmio ABL de Poesia, Prêmio Alphonsus de Guimaraens da Biblioteca Nacional, entre outros).



André Seffrin, crítico literário e editor de escol, cuja casa em Laranjeiras abriga uma das maiores bibliotecas de literatura brasileira da cidade, cujo esforço incansável contribuiu para que este livro viesse a lume (foi ele quem conseguiu o editor).



DEPOIMENTOS SOBRE O LANÇAMENTO (extraídos de e-mails que circularam):


Cecília Jucá de Hollanda:


Mais do que uma festa, o evento foi uma celebração de amizades, admiração,  carinho, alegria, fraternidade, encontro de talentos literários e compromisso com a nossa amada cidade do Rio de Janeiro e sua gente, cariocas ou forasteiros de todo Brasil!

 Agora é saborear os textos de cada um de vocês, os autores. Eu já comecei à ler o meu exemplar, ontem mesmo, ao chegar em casa de voltar da festança.


Hélio Brasil:


QUANDO SUGERI A CONSTRUÇÃO DESTE LIVRO, FIQUEI AGRADAVELMENTE SURPRESO (ALIÁS, EUFÓRICO) COM A RECEPTIVIDADE À MINHA SUGESTÃO. E ERA, AINDA, O ANO DE 2020...

ALI NASCEU, DE FORMA CORDIAL, SEM DISPUSTAS, UM LIVRO DO QUAL TENHO ORGULHO DE FAZER PARTE, NUM TIME DE “ASTROS DA INTELIGÊNCIA”.

NASCEU, ENTÃO, DA GLÓRIA À PIEDADE...

MESMO QUE, ÀS VEZES, NELE PERPASSE UMA BRISA DE TRISTEZA, HÁ UMA LUFADA DE JUVENTUDE NOS TEXTOS, NAS PÁGINAS POÉTICAS E COLORIDAS POR VOCÊS. NÃO CARIOCAS, OUTROS DA GEMA, NÃO IMPORTA O BERÇO... UM IRMÃO LUSITANO!... O RIO FOI CANTADO E ABRAÇADO COM O CARINHO, E MESMO A ZANGA E A TRISTEZA, DE QUEM O AMA.

OS SÉCULOS VIVIDOS ME FIZERAM ESTAR NA ABERTURA DA OBRA E O LEITOR ESPERTO, NUM PULINHO,  LOGO ENCONTRARÁ OS MELHORES HINOS DE DOR, IRONIA E AMOR.

A TODOS, ABRO MEUS MAGROS BRAÇOS E, EM ABRAÇO FRATERNO , OS APERTO COM A FORÇA QUE A AMIZADE NOS DÁ.

PARABÉNS PELO FEITO, OBRIGADO PELO APOIO E QUE OS DEUSES – EXISTAM OU NÃO – OS ABENÇOEM A TODOS!


Rogério Marques:


Quero agradecer a todos vocês aquela noite de ontem, maravilhosa, no velho restaurante Lamas que me traz tantas recordações. Obrigado ao querido Helio Brasil, nosso bravo  timoneiro, pela persistência, por conduzir esse processo sem nunca ter desanimado, nem mesmo naquele período triste e trágico da pandemia. Obrigado ao Joaquim, amigo e editor que fez um belíssimo trabalho e atravessou o oceano para poder estar conosco. Obrigado ao Nireu, velho camarada, que me convidou para participar dessa turma de craques. Obrigado a cada um de vocês, por tudo, pelos textos belíssimos. Ontem, em alguns momentos, me emocionei, entre beijos e abraços de amigos que foram prestigiar nosso livro, entre eles alguns que não via há mais de 10 anos. Foi bom demais. Vamos manter esse grupo, essa amizade, vamos em frente.


Joaquim Emídio:


Amigos
Aqui vai um textinho para marcarmos presença na net. [Para ver o texto citado pelo Joaquim clique aqui.]
Talvez o encontro merecesse um cronista em forma mas confesso que estava pouco inspirado para escrever e o facto de não conhecer a maioria das pessoas limitou os meus desejos e virtudes:).
O livro já está a ficar velho mas ainda são visíveis as marcas que deixou para conseguirmos chegar a bom porto.
O André e a família são os grandes companheiros desta jornada.
Muito lhe agradeço ter-me metido no grupo e não me ter deixado sozinho numa missão que sem ele não tinha dado certo.
No fundo no fundo todos contribuímos um pouquinho mas o André salientou-se e merece o reconhecimento.
Por mim começamos já a falar no próximo livro nem que seja para daqui a 10 anos:))
Abraços e ATÉ SEMPRE

Joaquim


Alexei Bueno:


Foi muito bom assistir à concretização desse projeto, que eu achava no mínimo "improvável, pela época na qual se desenvolveu e pelo Brasil de todas as épocas.


Eduardo Mondolfo:

Foi uma noite incrível e uma realização e tanto!
Normalmente mesas de bar não geram livros!

Ivo Korytowski:
Foi uma noite memorável, conseguimos lotar o Lamas numa segunda-feira, dia semimorto, e quase esgotar uma edição nada modesta de trezentos exemplares!

Suzana Vargas:
Fiquei pensando qual seria meu papel  num time de 10 atacantes, nem como contribuiria. Mas com a alegria, carinho  e receptividade de vocês fui, aos poucos, me sentindo pertencente e pertencida ao grupo (está correto, Alexei? trata-se de um jogo). Foi uma noite muito bonita onde pude conversar pessoalmente com cada um, todos unidos em torno do filho único nessa maternidade Rosmaninho.
Obrigada! Foi , de fato, uma noite inesquecível. Obrigada ! Foi , de fato, uma noite inesquecível. Um obrigada especial ao querido André , meu amigo de tanto tempo pelo qual tenho uma imensa admiração!
Ao Joaquim pelo poético empenho de realizar nosso sonho em questão de meses. 

André Seffrin:
Foi bonita a festa no Lamas, valeu o esforço conjunto.

E, LAST BUT NOT LEAST, O GRUPO EM FOTO GENTILMENTE ENVIADA POR NIREU CAVALCANTI:


29.1.23

UMA TARDE NA CIDADE FANTASMA: REMINISCÊNCIAS DO CENTRO DO RIO DE JANEIRO, de ISRAEL BLAJBERG

Centro
 

Janeiro de 2023. Aos 78, já faz quase 12 anos que deixei de comparecer diuturnamente ao BNDES. Há tempos não tenho ido ao Centro. A pandemia transformou aquele outrora pujante espaço quase que em uma Cidade Fantasma. Pagamentos e pendências diversas de toda a família (sempre sobra para mim...) me fizeram rumar para a região neste começo de ano. As filas são grandes, sendo essas as únicas ocasiões em que vale a pena ser idoso... sou atendido com prioridade, mas alegam que tenho muitas guias, e eles só podem imprimir uma única. Certa vez meu saudoso genitor me mandou comprar uma passagem; voltei com a resposta de que estavam esgotadas. Aprendi então, ainda criança, que essas conversas nada mais são que a senha para informar que sim, poderei ser atendido mediante um certo agrado... então voltei lá no guichê e como por milagre a passagem apareceu. Dessa vez não foi diferente, e ao final entreguei discretamente um papelzinho dobrado, contendo o tal agrado.

 

fotografadas por Augusto Malta

Uma vez cumpridas as missões, meus passos se perdem pelas ruas outrora elegantes da Belle Époque descritas por João do Rio e fotografadas por Augusto Malta. A chuvinha miúda, sem pressa de parar, escorre das nuvens que escurecem a tarde triste. Carioca, Ouvidor, Avenida Central, Uruguaiana, algumas dão até medo de tão vazias, mais parecendo uma Cidade Fantasma, tantas são as lojas fechadas, como se fosse um domingo. Em passado recente chegava a ser difícil esgueirar-se em meio à multidão. Antigas lembranças do tempo em que levado pela mão da saudosa Mamãe, junto com o irmãozinho menor, percorria o Centro pontilhado de lojas tradicionais, como a Perfumaria Kanitz, Casa José Silva, Principe, Clark, Sloper, Mundo dos Brinquedos, Colombo, Casa Cavé, Manon, endereços elegantes dos quais poucos restaram.

antigo prédio de belas linhas neoclássicas no qual estudei


Quase que por instinto caminho em direção ao Largo da Cruz de São Francisco, onde ainda altaneiro se ergue o antigo prédio de belas linhas neoclássicas no qual estudei. Eterna Polytechnica, no meu tempo a saudosa Escola Nacional de Engenharia da Universidade do Brasil, hoje Escola Politécnica da UFRJ, na Cidade Universitária da Ilha do Fundão. Prédio onde Dom Joao VI mandou instalar a Academia Real em 1811. Ainda é a mesma edificação, pouco mudou. Aqui se formaram tantas turmas, entre elas a minha, Turma Povo Brasileiro, de 1968. Alma Mater da Engenharia Nacional, capim e plantas vicejam há anos pelos pisos e paredes. Na tardinha chuvosa do verão quasi-inverno de janeiro, o prédio é o retrato do Centro da Cidade, pouco cuidado, vazio, escuro e triste. Cidade Fantasma. Prédio Fantasma. Anos 60. Que contraste com aquela tarde luminosa, quando no meio da multidão de candidatos localizei meu nome na lista dos aprovados no vestibular, as folhas datilografadas afixadas no quadro de avisos do pátio interno! O prédio cheio de vida, alegria, esperança.”

 

sigo depressa em direção à Central, pegar o trem até Madureira

Passadas tantas décadas, de pé naquele mesmo pátio, cerrando os olhos pensativo, vejo-me garoto, vibrando com a aprovação. Com a agilidade dos meus 18 anos, desço correndo as escadas e sigo depressa em direção à Central, pegar o trem até Madureira e de lá caminhar até o Campinho. Logo chego em casa para dar a boa notícia aos meus saudosos genitores. Não tínhamos telefone, celular nem pensar... Eles me abraçam, emocionados, imigrantes acolhidos aqui nesta terra abençoada, antevendo um futuro melhor para o filho, diferente das agruras na Polônia sofrida e gelada, onde o “numerus clausus” barrava sonhos. Logo desperto das minhas divagações e me entristeço com o prédio coberto por antigas pichações. As instalações resistem, resta saber até quando.

densa linha de cumulusnimbus
 

Mais uma breve caminhada, e já estou adentrando o BNDES, pela Av. Paraguai. De novo vêm as lembranças, no silêncio e solidão do prédio que o trabalho à distância mantém quase vazio. Era um final de tarde em pleno verão. Da minha mesa à janela podia ver ao longe a densa linha de cumulusnimbus e ouvir as trovoadas distantes que prenunciavam o aguaceiro. Logo o dia escureceu, faiscaram os relâmpagos, de repente tudo ficava iluminado. A chuvarada logo passou, o sol voltando e permitindo a visão do casario, das montanhas distantes. Foi uma bênção ter passado tantos anos trabalhando naquela supermesa à beira da janela. E pensar que ainda nos pagavam para estar ali, pensando o progresso do Brasil.

eterna saudade 

Seis décadas já se passaram... Nem todos a quem acompanhei nas fantásticas jornadas politécnicas e benedenses ainda estão aqui neste Vale de Lágrimas. Uns partiram cedo, logo nos primórdios, outros prematuramente, nos deixando a eterna saudade de tempos felizes.

 

Valeu a pena?

 

Como ensinou o piedoso cristão-novo Fernando Pessoa:

 

“Tudo vale a pena... se a alma não é pequena"


Casa Cavé


11.9.22

O RIO DE JANEIRO VISTO POR CARL SEIDLER

TRECHOS DO LIVRO DEZ ANOS NO BRASIL DO AVENTUREIRO ALEMÃO CARL FRIEDRICH GUSTAV SEIDLER QUE, CHEGANDO AO BRASIL EM 1826 COM O INTUITO DE FAZER FORTUNA RÁPIDA, VIU SEUS SONHOS DESFEITOS E, DE VOLTA À TERRA NATAL DEZ ANOS APÓS, ESCREVEU UM LIVRO COM UMA VISÃO NADA LISONJEIRA DE NOSSO PAÍS. PARA ACESSAR UM PDF DA OBRA CLIQUE AQUI.

escravos

       
       A primeira impressão que colhemos da vida humana no Rio de Janeiro foi altamente desagradável e revoltante; destruiu todos os sonhos idílicos que como chuva de maná se derramaram sobre nosso coração ainda enjoado do mar. Passou por nós grande embarcação que levava dezoito negros, quais escravos de galés, dura e estreitamente acorrentados uns aos outros; a pouca distância seguia-se-lhe outra e logo após terceira. É essa a tão gabada emancipação dos escravos, a liberdade brasileira, pensei eu comigo, e desviei meus olhos do espetáculo. Verdade é que depois eu soube que aqueles negros assim comprimidos eram criminosos e condenados, que por aquela forma deviam prelibar na terra o gosto do inferno; não obstante não perdi a primeira impressão. [...]

A província do Rio de Janeiro é das menores das dezenove que ainda constituem o fulgurante firmamento do Império do Brasil, depois que com a paz de outubro de 1828 a Cisplatina foi cedida a Buenos Aires [Erro do autor. Em 27 de agosto, a Província Cisplatina tornou-se independente, constituindo o Uruguai].

a mais linda pedra preciosa da coroa imperial do Novo Mundo


       Contudo, é seguramente a mais rica e mais povoada, pois de acordo com os últimos dados meio oficiais só a capital, Rio de Janeiro, conta 230.000 habitantes. Esta província é a mais linda pedra preciosa da coroa imperial do Novo Mundo, realmente nova, mas sumamente antiquada. Em quase toda parte onde se arrastou a floresta virgem está plantada de café e geralmente o café tem o predomínio entre todos os artigos de exportação do Brasil. Infelizmente as bagas de café tornaram-se na Europa verdadeiros diamantes. Além dele, a exportação consiste em algum algodão, em açúcar, ipecacuanha e algum pau de tinturaria. Mas o câmbio de dinheiro e o tráfico branco de negros são as principais fontes financiais do estado. [...]

Não em vão a cidade imperial da terra colombiana tomou Paris por modelo; tem ela algo de grandioso, voluptuoso e agradável, que lembra o velho dito: “Quem estiver de pé, cuide-se, não vá cair!”

A situação do Rio de Janeiro já foi, se não descrita, pelo menos pintada. Para esgotar minhas comparações ainda acrescentarei – e esta ideia é de época muito ulterior de minha vida – que o Rio de Janeiro, com seus socalcos em forma de terraços é uma gigantesca Gênova [...]

As ruas do Rio são na maior parte compridas, tortas e estreitas, as casas quase todas baixas, sujas e edificadas em estilo vulgar, sem levar em conta questões de gosto e de comodidade da vida social, à feição da vontade no momento e da urgência. Dessas muitas ruas que se arrastam e se cruzam, sobe morro, desce morro, há duas, quando muito, que se podem denominar com algum epitheton ornans: a Rua Direita [atual Primeiro de Março] e a Rua dos Ciganos [atual Rua da Constituição]. Em ambas se deparam vários edifícios mais magnificentes que belos.

a Rua Direita [atual Primeiro de Março]

 
    Poder-se-ia juntar-lhe a Rua do Ouvidor, pois esta recebe encanto singularmente mágico para o forasteiro sem amigos e sem alegria pelas inúmeras casas de modas quando à noite brilhantemente iluminada. Lá dentro, atrás das ramalhantes cortinas das janelas e dos perfumados reposteiros de folhas e de flores de uma natureza transatlântica, estão assentadas as diligentes costureirinhas, e seus olhos muitas vezes brilham mais que a claridade das lâmpadas e dos falsos diamantes e pérolas, que com uma garridice tão ingenuamente artística sabem entremear em seus cabelos.

As casas do Rio são, como disse, em geral baixas, pequenas, sujas, sem gosto e incômodas

       
         As casas do Rio são, como disse, em geral baixas, pequenas, sujas, sem gosto e incômodas; só nas mais ricas se veem tapetes e muitas vezes o rés-do-chão não é assoalhado. Em toda parte reina arranjo barroco do material, da distribuição e dos ornamentos arquitetônicos – quando tais existem. Na verdade, às vezes se nota uma espécie de luxo, mesmo ostentação, mas nunca elegância, simetria ou conforto no interior. O quarto das crianças fica junto ao salão de visitas, o dormitório ao pé da cozinha, o boudoir junto do quarto dos criados, a estrebaria com seu estrume ao lado do belo portal, o escritório ao pé da latrina, tudo à francesa. [...]

[...] não é nada extraordinário que os negros encarregados de transportar das casas para a praia toda sorte de lixo, por sua vez se revelem demasiado comodistas para levarem o vaso transbordante em longa caminhada até o mar, e na primeira esquina despejam toda a porcaria e se vão embora.

A este flagelo da cidade junta-se a velha praga faraônica da terra, os imortais ratos. Esses bichos medram excelentemente no Brasil e se multiplicam todos os anos medonhamente. Tornaram-se uma espécie de alta caça sagrada, apenas perseguida algumas vezes pelos monges nos seus jardins murados. Miríades de mosquitos e de bichos de pé, estes metendo-se debaixo das unhas dos pés pondo seus e aí pondo seus ovos, centenas de centopeias e escorpiões, aumentam com suas picadas venenosas a impressão total capaz de levar ao desespero, quiçá à loucura, o estrangeiro no Rio de Janeiro [...]

8.8.22

LARGO DO BOTICÁRIO REVITALIZADO

Largo do Boticário em pintura a óleo de Thiago Castro de 2012

Depois de anos de abandono, uma de suas casas chegando a ser invadida por sem-tetos, o Largo do Boticário, após obras de revitalização que preservaram as fachadas do velho casario neocolonial da primeira metade do século XX, passou a abrigar um hotel Jo&Joe da rede francesa Accor, inaugurado em julho de 2022.

Largo do Boticário em péssimo estado de conservação (2015)

Largo do Boticário em obras (2021)

Largo do Boticário novinho em folha, abrigando agora um hotel Jo&Joe da rede Accor (agosto de 2022)

“O Largo do Boticário é lindo, mas... é recente. Foi construído por ideia e mando de D. Sylvinha de Bittencourt, mulher do então dono do Correio da Manhã, Paulo Bittencourt, na década de 1940, usando material de demolição das casas centenárias postas abaixo pelo prefeito Henrique Dodsworth. O Largo original, onde o atual foi construído, era um lugar pobre que ganhou o nome por causa de um farmacêutico de então, que lá viveu. Dele, sobrevivem as belas árvores da entrada.” (Francisco Daudt, Cosme Velho, Um Roteiro de Visita) “O Largo do Boticário [...] não é tão antigo, mas tem a sua graça inestimável, o seu encanto, a sua delícia, a sua magia.” (Antonio Carlos Villaça, A Cidade Desfigurada)

Muxarabi colonial no Largo do Boticário

No Largo do Boticário temos talvez o único exemplar autêntico, colonial, de muxarabi sobrevivente no Rio de Janeiro. Comum nos primórdios da cidade, o muxarabi ou rótula, de origem mourisca, trazido de Portugal pelos colonizadores, foi proibido por motivos estéticos em 1808 pelo Intendente-Geral da Polícia Paulo Fernandes, já que “além de serem incómmodas, prejudiciaes á saude publica, interceptando a livre circulação do ar, estão mostrando a falta de civilisação dos seus moradores” (Padre Perereca).


Largo do Boticário em foto preto e branco de 1957 de Marcel Gautherot obtida no site do Instituto Moreira Salles