Texto publicado originalmente no Quarentena News, uma página de jornalistas no Facebook.
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| Central do Brasil. (Foto: Rogério Marques) |
Desde 2005, o melhor blog sobre o Rio de Janeiro, seus encantos, história, literatura, arquitetura e arte. A partir de 2019, mostrando também São Paulo, para onde o editor do blog se mudou.
Texto publicado originalmente no Quarentena News, uma página de jornalistas no Facebook.
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| Central do Brasil. (Foto: Rogério Marques) |
Em anexo, as tais "alucinações perigosíssimas": o projeto de um LIVRO DE CRÔNICAS cujo título seria RIO: DA GLÓRIA À PIEDADE.
PROPOSTA:
1. CADA AUTOR ESCREVE TRÊS CRÔNICAS SOBRE A CIDADE.
2. CADA CRÔNICA COM 3 OU 4 LAUDAS, NO MÁXIMO, ABORDANDO A RICA HISTÓRIA DA CIDADE, SUAS QUALIDADES, SUA HISTÓRIA, SEUS MONUMENTOS E SUA POESIA.
3. SE NÃO HOUVER ÓBICES DE DIREITOS, ENTREMEAR COM LETRAS DE MÚSICAS POPULARES QUE EXALTAM O RIO. (Acho que não faltam...)
etc.
Helio Brasil encerrava a sua proposta com esta observação:
PS – NÃO ESTOU ENSANDECIDO. SOU ASSIM MESMO!
Assim foi plantada a semente do recém-lançado Rio, da Glória à Piedade.
| Parte do grupo em uma de suas tertúlias etílico-intelectuais (2019) |
No Prefácio Alexei Bueno explica o título:
O título deste livro talvez soe enigmático para aqueles não
nascidos no Rio de Janeiro, ou que nele não tenham vivido. Refere-se ele,
metaforicamente, a duas partes da cidade: à Glória, pequeno bairro que faz jus
ao nome, entre a Lapa e o Catete, praticamente o início da Zona Sul da urbe, e
que tal nome recebeu da magnífica Igreja de Nossa Senhora da Glória do Outeiro,
da década de 1730, uma das obras-primas da arquitetura religiosa colonial
luso-brasileira e a predileta da nossa família imperial, erguida no outeiro em
que se travou uma das batalhas decisivas para a expulsão dos franceses da
cidade, e seu renascimento como importante porto lusitano, e à Piedade, pobre e
longínquo subúrbio, que tem como seu acontecimento mais notável até hoje,
provavelmente, o absurdo assassinato de Euclides da Cunha, em 15 de agosto de
1909, dia de Nossa Senhora da Glória.
Tal aproximação, tal percurso, esboça, portanto, uma ideia de decadência, e a decadência é uma marca inegável e evidente desta que é uma das cidades mais famosas do mundo, e que, no aspecto das belezas naturais em área urbana, tem nele, com poucas dúvidas, a primazia.
etc.
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| Alexei Bueno e Helio Brasil. Foto enviada por Nireu Cavalcanti. |
Desfilam pelo livro as criações em prosa e verso de:
Helio Brasil, nosso decano e inspirador, hoje com 91 anos, que no meio da jornada da vida deu uma reviravolta e, de arquiteto consagrado, tornou-se o genial “escritor de São Cristóvão”, autor de romances como A última adolescência, Ladeira do Tempo-Foi e mais recentemente o histórico A pele do soldado (que vocês estão convidados a ler!)
Rogério Marques, jornalista veterano que trabalhou em importantes órgãos da imprensa, que “nasceu numa rua que já não existe e se chama Rogério meio que por acaso”.
Gustavo Barbosa, professor de comunicação, dirigiu as editoras Codecri e Rocco, consultor editorial e de comunicação institucional, autor do Dicionário de Comunicação, entre outras obras, realizador de projetos editoriais, redator, revisor e editor de texto, atualmente residindo na Bahia.
Ivo Korytowski, tradutor, lexicógrafo, blogueiro, YouTuber, fotógrafo amador e escritor, autor de um livro de memórias, O Rio, o mundo e eu: Uma memória filosófica & sentimental, inspirado no que de melhor se produziu na literatura memorialística brasileira.
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| Da esquerda para a direita: Helio, Nireu, a garçonete do Angu do Gomes e Ivo |
Suzana Vargas, única representante do “sexo forte” neste quase “Clube do Bolinha”, gaúcha como todo bom Vargas, mas carioca de coração, poeta, ensaísta, autora de literatura infantil, criadora e coordenadora da Estação das Letras.
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| Suzana e Ivo |
Joaquim Emidio, nosso querido editor que apostou suas fichas na edição desta obra, digno representante da “ocidental praia lusitana” que, ao publicar um livro sobre o Rio de Janeiro, aventurou-se por “mares nunca dantes navegados” por uma editora portuguesa, acredito.
Eliezer Moreira, baiano de nascença, mineiro de criação, mas que fez do Rio sua cidade do coração, romancista com texto primoroso, cujo Olhos Bruxos, genial homenagem-fantasia ao bruxo do Cosme Velho, foi finalista do Prêmio Jabuti de 2020.
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| Eliezer Moreira, Eduardo Mondolfo, Helio Brasil e Gustavo Barbosa num encontro do grupo em 2019 |
Eduardo Mondolfo, arquiteto dos mais consagrados com escritório na Cinelândia, coração do Rio, “local em que tudo de bom e de ruim, sem acaso, acontece”, e poeta nas horas vagas. (foto acima)
Alexei Bueno, editor (no sentido de organizador de obras completas e edições críticas), ensaísta, um dos maiores poetas vivos do país, que aos dezessete anos cometeu a ousadia de traduzir o dificílimo The Raven (O corvo) do Poe, autor premiadíssimo (Prêmio Jabuti, Prêmio ABL de Poesia, Prêmio Alphonsus de Guimaraens da Biblioteca Nacional, entre outros).
André Seffrin, crítico literário e editor de escol, cuja casa em Laranjeiras abriga uma das maiores bibliotecas de literatura brasileira da cidade, cujo esforço incansável contribuiu para que este livro viesse a lume (foi ele quem conseguiu o editor).
DEPOIMENTOS SOBRE O LANÇAMENTO (extraídos de e-mails que circularam):
Cecília Jucá de Hollanda:
Mais do que uma festa, o evento foi uma celebração de amizades, admiração, carinho, alegria, fraternidade, encontro de talentos literários e compromisso com a nossa amada cidade do Rio de Janeiro e sua gente, cariocas ou forasteiros de todo Brasil!
Agora é saborear os textos de cada um de vocês, os autores. Eu já comecei à ler o meu exemplar, ontem mesmo, ao chegar em casa de voltar da festança.
Hélio Brasil:
QUANDO SUGERI A CONSTRUÇÃO DESTE LIVRO, FIQUEI AGRADAVELMENTE SURPRESO (ALIÁS, EUFÓRICO) COM A RECEPTIVIDADE À MINHA SUGESTÃO. E ERA, AINDA, O ANO DE 2020...
ALI NASCEU, DE FORMA CORDIAL, SEM DISPUSTAS, UM LIVRO DO QUAL TENHO ORGULHO DE FAZER PARTE, NUM TIME DE “ASTROS DA INTELIGÊNCIA”.
NASCEU, ENTÃO, DA GLÓRIA À PIEDADE...
MESMO QUE, ÀS VEZES, NELE PERPASSE UMA BRISA DE TRISTEZA, HÁ UMA LUFADA DE JUVENTUDE NOS TEXTOS, NAS PÁGINAS POÉTICAS E COLORIDAS POR VOCÊS. NÃO CARIOCAS, OUTROS DA GEMA, NÃO IMPORTA O BERÇO... UM IRMÃO LUSITANO!... O RIO FOI CANTADO E ABRAÇADO COM O CARINHO, E MESMO A ZANGA E A TRISTEZA, DE QUEM O AMA.
OS SÉCULOS VIVIDOS ME FIZERAM ESTAR NA ABERTURA DA OBRA E O LEITOR ESPERTO, NUM PULINHO, LOGO ENCONTRARÁ OS MELHORES HINOS DE DOR, IRONIA E AMOR.
A TODOS, ABRO MEUS MAGROS BRAÇOS E, EM ABRAÇO FRATERNO , OS APERTO COM A FORÇA QUE A AMIZADE NOS DÁ.
PARABÉNS PELO FEITO, OBRIGADO PELO APOIO E QUE OS DEUSES – EXISTAM OU NÃO – OS ABENÇOEM A TODOS!
Rogério Marques:
Quero agradecer a todos vocês aquela noite de ontem, maravilhosa, no velho restaurante Lamas que me traz tantas recordações. Obrigado ao querido Helio Brasil, nosso bravo timoneiro, pela persistência, por conduzir esse processo sem nunca ter desanimado, nem mesmo naquele período triste e trágico da pandemia. Obrigado ao Joaquim, amigo e editor que fez um belíssimo trabalho e atravessou o oceano para poder estar conosco. Obrigado ao Nireu, velho camarada, que me convidou para participar dessa turma de craques. Obrigado a cada um de vocês, por tudo, pelos textos belíssimos. Ontem, em alguns momentos, me emocionei, entre beijos e abraços de amigos que foram prestigiar nosso livro, entre eles alguns que não via há mais de 10 anos. Foi bom demais. Vamos manter esse grupo, essa amizade, vamos em frente.
Joaquim Emídio:
Joaquim
Alexei Bueno:
Foi muito bom assistir à concretização desse projeto, que eu achava no mínimo "improvável, pela época na qual se desenvolveu e pelo Brasil de todas as épocas.
Eduardo Mondolfo:
| Centro |
Janeiro de 2023. Aos 78, já faz quase 12 anos que deixei de comparecer diuturnamente ao BNDES. Há tempos não
tenho ido ao Centro. A pandemia transformou aquele outrora pujante espaço quase
que em uma Cidade Fantasma. Pagamentos e pendências diversas de toda a família
(sempre sobra para mim...) me fizeram rumar para a região neste começo de ano. As
filas são grandes, sendo essas as únicas ocasiões em que vale a pena ser idoso...
sou atendido com prioridade, mas alegam que tenho muitas guias, e eles só podem
imprimir uma única. Certa vez meu saudoso genitor me mandou comprar uma
passagem; voltei com a resposta de que estavam esgotadas. Aprendi então, ainda
criança, que essas conversas nada mais são que a senha para informar que sim,
poderei ser atendido mediante um certo agrado... então voltei lá no guichê e
como por milagre a passagem apareceu. Dessa vez não foi diferente, e ao final
entreguei discretamente um papelzinho dobrado, contendo o tal agrado.
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| fotografadas por Augusto Malta |
Uma vez cumpridas as missões, meus
passos se perdem pelas ruas outrora elegantes da Belle Époque descritas por
João do Rio e fotografadas por Augusto Malta. A chuvinha miúda, sem pressa de
parar, escorre das nuvens que escurecem a tarde triste. Carioca, Ouvidor, Avenida
Central, Uruguaiana, algumas dão até medo de tão vazias, mais parecendo uma
Cidade Fantasma, tantas são as lojas fechadas, como se fosse um domingo. Em
passado recente chegava a ser difícil esgueirar-se em meio à multidão. Antigas
lembranças do tempo em que levado pela mão da saudosa Mamãe, junto com o
irmãozinho menor, percorria o Centro pontilhado de lojas tradicionais, como a
Perfumaria Kanitz, Casa José Silva, Principe, Clark, Sloper, Mundo dos
Brinquedos, Colombo, Casa Cavé, Manon, endereços elegantes dos quais poucos restaram.
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| antigo prédio de belas linhas neoclássicas no qual estudei |
Quase que por instinto caminho em
direção ao Largo da Cruz de São Francisco, onde ainda altaneiro se ergue o
antigo prédio de belas linhas neoclássicas no qual estudei. Eterna
Polytechnica, no meu tempo a saudosa Escola Nacional de Engenharia da
Universidade do Brasil, hoje Escola Politécnica da UFRJ, na Cidade
Universitária da Ilha do Fundão. Prédio onde Dom Joao VI mandou instalar a
Academia Real em 1811. Ainda é a mesma edificação, pouco mudou. Aqui se
formaram tantas turmas, entre elas a minha, Turma Povo Brasileiro, de 1968.
Alma Mater da Engenharia Nacional, capim e plantas vicejam há anos pelos pisos
e paredes. Na tardinha chuvosa do verão quasi-inverno de janeiro, o prédio é o
retrato do Centro da Cidade, pouco cuidado, vazio, escuro e triste. Cidade
Fantasma. Prédio Fantasma. Anos 60. Que contraste com aquela tarde luminosa,
quando no meio da multidão de candidatos localizei meu nome na lista dos
aprovados no vestibular, as folhas datilografadas afixadas no quadro de avisos
do pátio interno! O prédio cheio de vida, alegria, esperança.”
| sigo depressa em direção à Central, pegar o trem até Madureira |
Passadas tantas décadas, de pé naquele
mesmo pátio, cerrando os olhos pensativo, vejo-me garoto, vibrando com a
aprovação. Com a agilidade dos meus 18 anos, desço correndo as escadas e sigo
depressa em direção à Central, pegar o trem até Madureira e de lá caminhar até
o Campinho. Logo chego em casa para dar a boa notícia aos meus saudosos
genitores. Não tínhamos telefone, celular nem pensar... Eles me abraçam,
emocionados, imigrantes acolhidos aqui nesta terra abençoada, antevendo um
futuro melhor para o filho, diferente das agruras na Polônia sofrida e gelada,
onde o “numerus clausus” barrava
sonhos. Logo desperto das minhas divagações e me entristeço com o prédio
coberto por antigas pichações. As instalações resistem, resta saber até quando.
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| densa linha de cumulusnimbus |
Mais uma breve caminhada, e já estou
adentrando o BNDES, pela Av. Paraguai. De novo vêm as lembranças, no silêncio e
solidão do prédio que o trabalho à distância mantém quase vazio. Era um final
de tarde em pleno verão. Da minha mesa à janela podia ver ao longe a densa
linha de cumulusnimbus e ouvir as trovoadas distantes que prenunciavam o
aguaceiro. Logo o dia escureceu, faiscaram os relâmpagos, de repente tudo
ficava iluminado. A chuvarada logo passou, o sol voltando e permitindo a visão
do casario, das montanhas distantes. Foi uma bênção ter passado tantos anos
trabalhando naquela supermesa à beira da janela. E pensar que ainda nos pagavam
para estar ali, pensando o progresso do Brasil.
| eterna saudade |
Valeu a pena?
Como ensinou o piedoso cristão-novo
Fernando Pessoa:
“Tudo vale a pena... se a alma não é pequena"
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| Casa Cavé |
TRECHOS DO LIVRO DEZ ANOS NO BRASIL DO AVENTUREIRO ALEMÃO CARL FRIEDRICH GUSTAV SEIDLER QUE, CHEGANDO AO BRASIL EM 1826 COM O INTUITO DE FAZER FORTUNA RÁPIDA, VIU SEUS SONHOS DESFEITOS E, DE VOLTA À TERRA NATAL DEZ ANOS APÓS, ESCREVEU UM LIVRO COM UMA VISÃO NADA LISONJEIRA DE NOSSO PAÍS. PARA ACESSAR UM PDF DA OBRA CLIQUE AQUI.
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| escravos |
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| a mais linda pedra preciosa da coroa imperial do Novo Mundo |
A situação do Rio de Janeiro já foi,
se não descrita, pelo menos pintada. Para esgotar minhas comparações ainda
acrescentarei – e esta ideia é de época muito ulterior de minha vida – que o
Rio de Janeiro, com seus socalcos em forma de terraços é uma gigantesca Gênova
[...]
As ruas do Rio são na maior parte compridas, tortas e estreitas,
as casas quase todas baixas, sujas e edificadas em estilo vulgar, sem levar em
conta questões de gosto e de comodidade da vida social, à feição da vontade no
momento e da urgência. Dessas muitas ruas que se arrastam e se cruzam, sobe
morro, desce morro, há duas, quando muito, que se podem denominar com algum epitheton
ornans: a Rua Direita [atual Primeiro de Março] e a Rua dos Ciganos [atual
Rua da Constituição]. Em ambas se deparam vários edifícios mais magnificentes
que belos.
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| a Rua Direita [atual Primeiro de Março] |
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| As casas do Rio são, como disse, em geral baixas, pequenas, sujas, sem gosto e incômodas |
A este flagelo da cidade junta-se a velha praga faraônica da terra, os imortais ratos. Esses bichos medram excelentemente no Brasil e se multiplicam todos os anos medonhamente. Tornaram-se uma espécie de alta caça sagrada, apenas perseguida algumas vezes pelos monges nos seus jardins murados. Miríades de mosquitos e de bichos de pé, estes metendo-se debaixo das unhas dos pés pondo seus e aí pondo seus ovos, centenas de centopeias e escorpiões, aumentam com suas picadas venenosas a impressão total capaz de levar ao desespero, quiçá à loucura, o estrangeiro no Rio de Janeiro [...]

Largo do Boticário em pintura a óleo de Thiago Castro de 2012
| Largo do Boticário em péssimo estado de conservação (2015) |
| Largo do Boticário em obras (2021) |
| Largo do Boticário novinho em folha, abrigando agora um hotel Jo&Joe da rede Accor (agosto de 2022) |
| Muxarabi colonial no Largo do Boticário |