ENSEADA DE BOTAFOGO

ENSEADA DE BOTAFOGO
"Andar pelo Rio, seja com chuva ou sol abrasador, é sempre um prazer. Observar os recantos quase que escondidos é uma experiência indescritível, principalmente se tratando de uma grande cidade. Conheço várias do Brasil, mas nenhuma tem tanta beleza e tantos segredos a se revelarem a cada esquina com tanta história pra contar através da poesia das ruas!" (Charles Stone)

VISTA DO TERRAÇO ITÁLIA

VISTA DO TERRAÇO ITÁLIA
São Paulo, até 1910 era uma província tocada a burros. Os barões do café tinham seus casarões e o resto era pouco mais que uma grande vila. Em pouco mais de 100 anos passou a ser a maior cidade da América Latina e uma das maiores do mundo. É pouco tempo. O século XX, para São Paulo, foi o mais veloz e o mais audaz.” (Jane Darckê Avelar)
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1.5.18

VIAJANTES ESTRANGEIROS NO RIO DE JANEIRO: ROSE DE FREYCINET (1817-18, 1820)

Vista do Porto do Rio de Janeiro, prancha II do livro Journal du Voyage Autour du Monde (Diário da Viagem ao Redor do Mundo) de Rose de Freycinet

TEXTO (COM ALGUMAS CORREÇÕES PELO EDITOR DO BLOG) DE LUÍS EDMUNDO PUBLICADO ORIGINALMENTE NO CORREIO DA MANHÃ EM 1, 15 E 22 DE MARÇO DE 1931 E INCLUÍDO DEPOIS SOB O TÍTULO "DIÁRIO DE ROSE DE FREYCINET" NA OBRA RECORDAÇÕES DO RIO ANTIGO


Rose de Saulces de Freycinet (nome de solteira: Rose-Marie Pinon) nasceu em Saint-Julien-du-Sault, no Yonne (França), em 29 de setembro de 1794.

Casou-se aos 20 anos, em Paris, com Louis-Claude de Saulces de Freycinet, oficial de marinha, membro da Academia, naturalista, o mesmo que, a bordo da corveta Uranie, por aqui passou, antes da Independência, numa expedição científica ao redor do mundo.

Não viria incorporada Rose, à tripulação do navio, que às mulheres, sobretudo às desse tempo, não se concediam tais favores. Em sua residência de Toulon, deveria ficar, portanto, até que a nau-expedicionária, cansada de sulcar todos os grandes oceanos do planeta, de novo regressasse ao Mar Mediterrâneo.

Deveria mas não ficou. Disfarçada em marujo, vamos encontrá-la clandestinamente penetrando o portaló do Uranie, no dia da partida, que foi o de 17 de setembro de 1817, entre diversos homens da equipagem, uma sacola de viagem ao ombro, o coração aos saltos, trêfega, agitada, cautelosa, porém feliz (não sabemos contudo se com o tácito conhecimento ou ignorância do seu jovem marido.)

Larga o veleiro e afastar-se da costa, mas, só no dia imediato é que o comandante acha de reunir o estado-maior da oficialidade, a fim de apresentar a esposa que, segundo ele disse, a bordo penetrou contra a sua vontade. O formoso “grumete”, no seu uniforme, brejeiro e calmo, aparece sorrindo... Que aventura!

Os oficiais de bordo, cheios da mais polida e mais sincera galantaria, beijam-lhe a mão, comovidos:

– Madame...

E, muito naturalmente, rejubilam, agradecendo a lembrança da providência, tal a de lhes ter dado, para viagem tão áspera e tão longa, aquele sorriso e aquela graça de mulher.

E a Uranie, rompendo Gibraltar, aproa para a América.

Ao lado do marido que labuta, Rose pensa em fazer, por sua vez, alguma coisa. E é assim que começa por escrever um Diário, como deveriam ser escritos todos eles – despretensiosamente; registro natural e sincero do que ia aos poucos ocorrendo. Mal pensava ela, entretanto, que, passados cento e poucos anos, quiçá traindo a sua natural vontade, fossem postos em letras de fôrma todos aqueles pensamentos, impressões e palavras que ela escrevia para enviar a uma querida amiga, Madame Carolina de Nanteuil, companheira de infância e que em Toulon residia. [...]

Dir-se-á que o livro é profundamente indiscreto, uma vez que nem todas as verdades se dizem; mas a indiscrição, no caso, não é da pobre Rose que só escrevia para sua amiga de França, sem prever que o mundo haveria de evoluir, apurando a ganância dos editores e a curiosidade mais do que natural de seus leitores. De qualquer forma, entretanto, a obra legada aos nossos dias é coisa muito interessante, sobretudo se, em consideração, levarmos o que ela representa como depoimento franco, sincero e sem embuços.

Como todos os que aportaram à magnificência desta baía azul que é a Guanabara, Rose encantou-se, mal transposta a barra, embriagada de luz na paisagem magnífica.

Chegou pelo escaldante verão de 1817, e foi ancorar no poço, entre Villegaignon e Cobras, anelante e curiosa.

Veio um escaler pressuroso que ela soube, depois, ser da Casa Real, indagar se o navio que chegava era, na realidade, a corveta Uranie, pelo governo francês, com muita antecipação, anunciada. Era...

Subiu, então, um oficial português, a bordo, a fim de dar as boas-vindas e com elas a certeza de um franco acolhimento por parte de S. M. el-Rei Nosso Senhor.

Tendo livre prática a corveta, mandou Freycinet um oficial com a incumbência de visitar o comandante da esquadra lusa ancorada no porto e saber, depois disso, detalhes sobre a cortesia das salvas que deveria dar.

Rose não se detém em minúcias, mas é curioso ver como era confuso, entre nós, no tempo, o protocolo militar. Freycinet não sabia como agir. Muitos, em suas condições, aqui chegados, não salvaram, por ignorância, ou salvavam e não eram correspondidos. Bougainville que aqui chegou em 1766, como Freycinet, mandou perguntar ao vice-rei Conde da Cunha se, salvando, seriam as suas salvas correspondidas. Resposta do Vice-Rei: – Diga ao Comandante que quando uma pessoa encontra, na rua, uma outra, tira-lhe o chapéu, muitas vezes, sem ter a certeza de ser correspondido...

Picou-se Bougainville com a resposta, e, assim posto, resolveu guardar a sua cortesia e a sua pólvora. E não salvou.

Nada de anormal, entretanto, aconteceu por isso. Bougainville e Vice-Rei, dias depois, encontravam-se amistosamente.

Ao lado de Rose, Arago, cronista da expedição, aturdido ante a paisagem maravilhosa que se desdobrava aos seus olhos, escrevia:

“Gênova, a soberba, com todos os seu palácios de mármore e jardins; Nápoles, risonha, com as suas águas límpidas, o seu Vesúvio e as suas vilas; Veneza, a rica, com as suas cúpulas e monumentos; o Bósforo, mesmo, com os seus imensos minaretes — nada oferece ao olhar deslumbrado tão magnífico panorama. Eis o Brasil! terra fecunda, entre as mais fecundas, natureza à parte, natureza privilegiada!”

As ilhas cobertas de verduras emocionavam a francesa que recebia, com volúpia, o látego do sol. Que delícia! A princípio, gostou; porém, depois, achou demasiado o calor. Consolou-se escrevendo:

Faz muito calor na cidade, mas todos os dias, em torno das 11 da manhã, levanta-se, do porto, um vento fresco que nós, marinheiros, chamamos de brisa leve, que torna o calor suportável e conserva o brilho da vegetação.

A sua primeira impressão do país, naturalmente, foi boa, impressão essa que perdurou até o dia da partida, embora, num arzinho de piedade e de injustiça, nesse mesmo dia, tenha deixado escapar estas linhas ao escrever à sua amiga e que, certamente, não teria escrito se pensasse em fazer publicar o seu diário: – “pena que tão lindo país não seja colonizado por uma nação ativa e inteligente.”

Madame de Freycinet, ávida por descer, devorando com os olhos a edênica frescura da paisagem, ficou a bordo, enquanto o marido baixava à terra de onde trouxe boas notícias, entre elas a de haver encontrado a condessa Roquefeille, amiga do casal, emigrada francesa e que vivia no Rio à sombra generosa de el-rei.

Em pouco, porém, vamos encontrar Rose introduzida, por essa mesma condessa, em casa de algumas figuras da sociedade do tempo. [...]



Suplemento do Correio da Manhã de 1/3/1931 com a primeira parte do texto de Luís Edmundo sobre Rose de Freycinet


Rose é recebida em casa do embaixador americano Sumter, com intimidade e prazer. Para que ela veja o paraíso da Tijuca, organiza ele um convescote. Sente-se na organização da folia o dedo amável da brasileira, a mulher de Sumter, que espalha convites entre as senhoras do corpo diplomático.

Partem todos às cinco horas da manhã. Vão as mulheres dentro de um vasto coche puxado por oito mulas, tilintantes de guizos, envernizadas de suor, saltando a galope, sob o chicote sanhudo do sota, cocheiro garboso e chic. Faz-se mister que a francesa veja também as elegâncias da terra... O Rio não é mais aquela pocilga colonial do tempo do Marquês do Lavradio; melhorou, não muito, mas sempre melhorou alguma coisa; já tem foros de Corte, com um rei e o melhor da sua fidalguia, pelo menos a que pôde sair de Portugal, num dia de grande aperto.

Rose sente-se confortada e feliz, atirada ao fundo da sua carruagem, olhando em torno os homens em cabriolés ou a cavalo, de chapéu alto e casaca colorida.

O espetáculo diverte. O carro, aos berros do sota, ao estalar insistente do chicote, pula, rola, avança, precipita-se, vencendo a encosta, sacudido nos seus correões pesados, dançando nas suas molas vindas de Inglaterra. O feminino conteúdo estua, freme, em buquê, transbordando; dá gritinhos e estrídulas risadas que rompem nervosas e altas, em busca dos ecos, na frescura da mata cheirosa e espessa.

Rose extasia-se diante do que vê, embriaga-se no cenário esplêndido, recordando as florestas descritas por Chateaubriand, em Atala, como diz ela mesmo, gozando a vegetação na sua variedade de tons e esplêndida fartura. Que lindo o Rio de Janeiro! Que paisagem! O espetáculo impressiona-a, seriamente, comove-a. A quantidade surpreendente de flores que repontam de quase todos os galhos e os seus perfumes novos e escandalosos, arrancam-na do mundo das realidades. Rose enleva-se, Rose sonha, Rose sente-se, positivamente, no Éden, ouvindo o canto dos pássaros vestidos de plumagens radiosas. [...]

Com um lauto almoço na residência de Sumter, fecha-se a matinée gloriosa.

Madame de Freycinet tendo, largamente, falado, no seu curioso manuscrito, da obra-prima de Deus, a gloriosa Tijuca, achou que deveria falar um pouco da cidade, obra infeliz dos homens, neste canto abandonado da América.

Não descreveu, porém, o desagradável aspecto das nossas ruas estreitas e sujas, nem a tosca aparência do casario pobre, acaçapado, inexpressivo, como linha de arquitetura, execrável, como princípio de higiene ou conforto. Silencia sobre o caso, o que não deixa de ser de uma amabilidade comovedora; mas não pôde, assim mesmo, deixar de falar na sujeira que viu, em outras partes, declarando que a mesma desconcertava sobretudo, “chez les fidalgos (nobles)”.

E a propósito conta o que aqui vai cuidadosamente traduzido, palavra por palavra: “uma dama nobre que acabava de tomar uma criada de quarto francesa, quase a pôs fora de casa só porque esta lhe oferecia um vaso cheio d'água, para lavar as mãos. Encolerizada, disse-lhe a mesma dama que uma pessoa da sua qualidade não tinha nunca necessidade de lavar as mãos, atendendo a que nada de sujo tocava; e que isso de lavar era bom para os criados e povo”. [...]

Fala, a seguir, Rose, da vida de clausura das mulheres cariocas, escravizadas ao ciúme mouro dos maridos, podendo apenas sair para ir à igreja, onde apareciam em “toilettes” de baile...

E, aproveitando o ensejo, descreve uma dessas cerimônias religiosas que ela compara a uma representação de gala num teatro de França. Passa-se a mesma na Capela Real.

“A igreja é forrada de panos de seda, todos eles bordados a ouro, e escandalosamente iluminada”. Os sacerdotes, em roupagens de grande preço, chegam e antes de começar o oremus, voltam-se para a assembleia, “qu’ils devraient plutôt fuir que regarder” [de que deveriam se esquivar em vez de olhar], diz ela, a procurar, com os olhos, as pessoas de suas relações...

Os padres desse tempo – bem diferentes, aliás, dos de hoje – sempre impressionaram mal a todos os estrangeiros que por aqui passaram. [...]

[Na igreja] Rose, de luneta em punho, passa em revistas as senhoras decotadas, vestidas como para um grande sarau.

Acha-as lindas. Naturalmente. Um pouco gordotas, pela falta de exercício, um pouco bisonhas, pela falta de sociabilidade, mas, de qualquer forma, bonitas, mostrando a tez morena e grandes olhos negros.

Em dado momento da cerimônia, conta a francesa que ouviu agradabilíssimas vozes vindas do alto, como um coro do céu. E olhou curiosa a ver se, pelo teto do templo, andavam serafins a cantar. Foi quando alguém, discretamente, murmurou-lhe ao ouvido:

– São os castrati, madame, mandados buscar à Itália pelo Rei. São de primeira ordem! Apenas custam um pouquinho caro...

Rose, justamente indignada, fremiu cheia de pasmo e de surpresa, evocando uma crueldade, diz ela, no seu diário: que je n’avais jamais pu concevoir jusqu’a ce jour [jamais pude conceber até este dia]! [...]

Conheceu Rose de Freycinet o Jardim Botânico. Do livro Recordações do Rio Antigo. [Observe que a pirâmide à esquerda é do Passeio Público, mas o erro é da obra original de Luís Edmundo.]

Conheceu Rose de Freycinet o Jardim Botânico, que ela nos descreve já com as suas alamedas de palmeiras, risonhamente ajardinado, e, com um campo onde chineses autênticos faziam a plantação do chá. Essa novidade interessou particularmente à madame que, assistindo ao trabalho da colheita, quis conhecer, ainda, o processo de beneficiamento por que passava a planta, antes de ir parar no comércio e na xícara.

Assim, pôde ver folhas da famosa teácea colhidas no momento e atiradas sobre um tacho de cobre posto sobre um forno aceso. Aí ficaram elas até esquentar, em fogo brando, o que não levou muito tempo. Vieram, depois, os chineses revolvê-las, levando-as para uma mesa. Aí se esfriavam, enrolando. Isso feito, passavam-nas por uma espécie de peneira, com largos furos e onde se separavam as mesmas em tipos ou qualidades. Processo simples, rápido, acrescenta-nos ela.

Nascera de Dom João a amável lembrança de tentar fazer do Brasil uma espécie de China Americana, exportadora de chá. A terra de tal maneira graciosa não se negou pagar, em excelentes folhas, as magníficas sementes que lhe lançaram. A coisa ia muito bem. Informes da época, insuspeitos e múltiplos, existem mesmo declarando que esse chá era capaz de satisfazer ao mais exigente dos paladares; contudo, se era a terra fecunda e amiga, fraca foi a perseverança dos experimentadores. Em pouco desapareciam do jardim os homens amarelos que mandamos buscar à Mongólia ou ao Hoango-Ho, com os seus calções tufados do Oriente, chapéus rasos, de palha, rabicho e, com eles, o chá.

Madame de Freycinet passou no Rio o apogeu do verão, com todos os seus incômodos e violentos aguaceiros. A 24 de janeiro vai ela fazer uma visita a madame de Roquefeille, e, logo ao desembarcar, como na famosa tarde em que jantou em casa do seu cônsul, vê que escurece, que cruzam rútilas faíscas pelo céu, ouvindo o trovão desencadeado, que rola em fúria, atordoando, aterrando, infundindo pavor. Não há um carro, uma cadeirinha, uma serpentina, uma liteira, nem mesmo uma porta amiga por onde ela, o marido e o capelão, todos descidos de bordo, possam se enfiar, fugindo ao grande temporal que desaba. Em pouco abre-se o céu e o aguaceiro, em cordas, precipita-se sobre eles. Não dura muito tempo a tormenta mas a cidade transforma-se num verdadeiro lago. Comenta ela, então, a maneira precária por que se fazia, aqui, o escoamento das águas que tornavam, sempre que chovia, as ruas e as praças do Rio de Janeiro perfeitamente intransitáveis.

Descrevendo a lamentável ocorrência, fala madame nos negros que sempre apareciam, no momento, substituindo os veículos de praça e que tomavam sobre as costas os que não desejavam caminhar com água pelas pernas.

A Rose, porém, não agradara o singular transporte. Razões que no fundo se explicam por uma delicadeza de pituitária pouco afeita ao que se chamou, no tempo, “cheiro de natureza”, e que outro não era senão esse odor pouco amável que escapa das axilas do pardo ou do negro africano.

Um padre que os acompanhava, porém, preferindo, ao que parece, o sacrifício do nariz ao das gâmbias [pernas], talvez reumáticas, acabou enforquilhado no pescoço de um negro. Foi um número divertido, muito principalmente quando sabemos que, não se estabelecendo um natural equilíbrio entre montador e montada, quase rolam os dois no lençol do aguaceiro.

Felizmente, madame de Roquefeille, inquieta pela sorte dos convivas que esperava, recebeu-os com ternura, dando-lhes, com novas roupas, um jantar magnífico que Rose não descreve mas que adivinhamos, composto daqueles numerosíssimos e copiosíssimos pratos que se distribuíam por três ou quatro cobertas, da velha mesa carioca, obrigados a talhados de laranja e pimenta.

Era esse o jantar de despedida. A simpática diarista interrompia, no seu álbum, a parte dedicada ao Rio de Janeiro. Interrompia-o, apenas.

Deixando esta cidade, em 1818, Rose de Freycinet a ela voltava pelo mês de junho de 1820.

APÊNDICE:

Depois que publiquei esta postagem, o historiador Milton Teixeira enviou por e-mail esta observação interessante: "Ela foi a primeira e única a descrever o primeiro e também único banho de D. João VI, na praia do Caju em 1817". Fui conferir o diário da Rose e de fato lá encontrei (e traduzi ao português):

Uma das pessoas mais poderosas do reino foi acometida por uma doença grave na perna. Vários médicos portugueses, após esgotarem seus conhecimentos sem produzir nenhum efeito, foram substituídos por um clérigo francês que se metia um pouco em medicina e sobretudo em curar feridas. Ele convenceu a pessoa ilustre a lavar sua perna. Foi difícil decidir, pois esse remédio parecia incomum. Ele conseguiu e, por uma ninharia para fechar a ferida, a doença desapareceu em poucos dias. Mas uma vez curada, ele parou de lavar a perna e a doença reapareceu. O monge foi então chamado de volta. Ele recomendou o mesmo remédio, que pareceu tão desagradável que o médico foi dispensado com seus remédios peculiares. E durante nossa estadia no Rio, essa personagem importante não podia ainda sair, imobilizada pela mesma doença na perna.

Rose não cita nominalmente D. João, referindo-se a "une des personnes des plus puissantes du royaume", "uma das pessoas mais poderosas do reino", mas pela história pode ter sido ele mesmo!!! 

27.11.15

ORIGENS DA TATUAGEM NO BRASIL

QUAIS SÃO AS ORIGENS DA TATUAGEM NO BRASIL, ESPECIFICAMENTE NO RIO DE JANEIRO? OS DOIS TEXTOS ABAIXO, DE LUÍS EDMUNDO E JOÃO DO RIO, AJUDAM A DESVENDAR AS ORIGENS DESSE ANTIGO HÁBITO OUTRORA RESTRITO A ESCRAVOS, MARINHEIROS E MERETRIZES, MAS QUE MODERNAMENTE SE GENERALIZOU.


TRECHO DO CAP. 7 DA OBRA CLÁSSICA DE LUÍS EDMUNDO O RIO DE JANEIRO DO MEU TEMPO:

Bem em meio à Ladeira do Castelo mora Florêncio da Palma, conhecido tatuador da Marinha, discípulo do Madruga, figura mais que conhecida na cidade, mestre na arte de tatuar e que, nas horas de sueto, dedilha o violão, criando canções que o povo, depois, gostosamente, decora e canta.

Florêncio, autor e cantor em voga, mais parece uma personagem arrancada às revistas regionais de João Foca, com a sua grenha a escorrer óleo de oriza, o seu bigode falhado e a sua pera-mosca, à Floriano. É tatuador de marinheiros, com especialidade em marcas onde entrem símbolos da arte de navegar. Pela época, é grande moda a tatuagem entre a nossa Maruja, entre soldados do Exército ou da Força Policial.

Foram os negros da África, aqui trazidos pelos portugueses, que introduziram essas fantasiosas marcas que se fazem na epiderme. Quando não vinham tatuados, esses negros aqui se tatuavam, obedecendo a velhas tradições regionais. Debret ensina-nos, por exemplo, que o monjolo tatuava-se, fazendo incisões verticais nas faces; o mina, fazendo uma continuidade de pontos salientes, provocados por tumefações que as agulhas de ferro produziam no rosto; o moçambique trazia, quase sempre, um sulco, uma espécie de crescente na testa, e assim por diante. Essas formas clássicas, entanto, degeneraram com o tempo, sendo, mais tarde, transformadas em símbolos, contando a vida amorosa dos tatuados, a profissão por eles exercida, etc.

Os nossos índios pintavam-se. Algumas vezes lanhavam o rosto, braços e pernas, mas não se tatuavam.

Pratica-se a tatuagem por incisão, por picadas ou por queimaduras subepidérmicas. Completa-se o trabalho com a ajuda de três agulhas que se embebem em anil, em tinta de escrever, em graxa, pólvora ou fuligem. Antes da aplicação das agulhas, traça-se o desenho que se deseja obter sobre a pele: um coração atravessado por uma seta, uma rosa, um navio, uma estrela, umas iniciais que se confundem ou entrelaçam, um nome, uma frase...

Como bom tatuador, Florêncio da Palma tem o corpo coberto de sinais, e, como o seu grande mestre Madruga, também mostra, no peito, a imagem do Redentor. Além disso, espalhados pelas costas, braços, ventre, coxas, mãos e pés, sinais de Salomão, âncoras, datas, nomes de mulheres e ainda marcas misteriosas e indecifráveis. São, por sua vez, de um pitoresco exótico ou disparatado todas essas tatuagens. Sabe-se de um marinheiro, por exemplo, cabo em Villegaignon, que possui, pelo dorso, espalhada, em estético realce, toda uma esquadra, feita a bicos de agulha, nada menos que sete navios nacionais: o Riachuelo, o Aquidabã, inclusive todos os vasos de guerra em que ele serviu embarcado, desde que assentou praça na Marinha. Outros há que mandam tatuar o corpo com emblemas pátrios: escudos da Monarquia, armas da República, quando não se marcam com nomes de heróis da pátria. João do Rio diz-nos ter visto, entre tatuagens interessantes, a do braço de um soldado de polícia onde se escrevia esta legenda patriótica: — Viva o Marechal de Ferro!

Os valentes da Saúde, da Gamboa e do Saco do Alferes tatuam-se bem como as meretrizes de ínfima classe, estas mandando marcar, pelos braços, pelas coxas ou pelo peito, o nome dos seus amados. Convém revelar, ainda, que os negros, outrora introdutores da tatuagem entre nós, já bem pouco se tatuam pela época.


TRECHO DO CAPÍTULO "OS TATUADORES" DA OBRA CLÁSSICA A ALMA ENCANTADORA DAS RUAS DE JOÃO DO RIO: 

Há três casos de tatuagem no Rio, completamente diversos na sua significação moral: os negros, os turcos com o fundo religioso e o bando das meretrizes, dos rufiões e dos humildes, que se marcam por crime ou por ociosidade. Os negros guardam a forma fetiche; além dos golpes sarados com o pó preservativo do mau olhado, usam figuras complicadas. Alguns, como o Romão da Rua do Hospício, têm tatuagens feitas há cerca de vinte anos, que se conservam nítidas, apesar da sua cor – com que se confunde a tinta empregada.

Quase todos os negros têm um crucificado. O feiticeiro Ononenê, morador à Rua do Alcântara, tem do lado esquerdo do peito as armas de Xangô, e Felismina de Oxum a figura complicada da santa d’água doce. Esses negros explicam ingenuamente a razão das tatuagens. Na coroa imperial hesitam, coçam a carapinha e murmuram, num arranco de toda a raça, num arranco mil vezes secular de servilismo inconsciente:

– Eh! Eh! Pedro II não era o dono?

E não se fotografam com um pavor surdo, como se fosse crime usar essas marcas simbólicas.

Os turcos são muçulmanos, maronitas, cismáticos, judeus, e nestas religiões diversas não há gente mais cheia de abusões, de receios, de medos. Nas casas da Rua da Alfândega, Núncio e Senhor dos Passos, existem, sob o soalho, feitiçarias estranhas, e a tatuagem forra a pele dos homens como amuletos. Os maronitas pintam iniciais, corações; os cismáticos têm verdadeiros eikones primitivos nos peitos e nos braços; os outros trazem para o corpo pedaços de paramentos sagrados. É por exemplo muito comum turco com as mãos franjadas de azul, cinco franjas nas costas da mão, correspondendo aos cinco dedos. Essas cinco franjas são a simbolização das franjas da taleth, vestimenta dos Khasan, nas quais está entrançado a fio de ouro o grande nome de Ihaveh.

A outra camada é a mais numerosa, é toda a classe baixa do Rio – os vendedores ambulantes, os operários, os soldados, os criminosos, os rufiões, as meretrizes. Para marcar tanta gente a tatuagem tornou-se uma indústria com chefes, subchefes e praticantes.

Quase sempre as primeiras lições vieram das horas de inatividade na cadeia, na penitenciária e nos quartéis; mas eu contei só na Rua Barão de S. Félix, perto do Arsenal de Marinha, e nas ruelas da Saúde, cerca de trinta marcadores. Há pequenos de dez, doze anos, que saem de manhã para o trabalho, encontram os carregadores, os doceiros sentados nos portais.

– Quer marcar? perguntam; e tiram logo do bolso um vidro de tinta e três agulhas.

Muitos portugueses, cujos braços musculosos guardam coroas da sua terra e o seu nome por extenso, deixaram-se marcar porque não tinham que fazer.

– Que quer V.S.? O pequeno estava a arreliar. Marca, moço, marca! E tanto pediu que pôs pra aí os risquinhos.

Os pequenos, os outros marcadores ambulantes, têm um chefe, o Madruga, que só no mês de abril deste ano fez trezentas e dezenove marcações. Madruga é o exemplo da versatilidade e da significação miriônima da tatuagem. Tem estado na cadeia várias vezes por questões e barulhos, vive nas Ruas da Conceição e S. Jorge, tem amantes, compõe modinhas satíricas e é poeta. É dele este primor, que julga verso:

Venha quanto antes d. Elisa
Enquanto o Chico Passos não atiça
Fogo na cidade...

Homem tão interessante guarda no corpo a síntese dos emblemas das marcações – um Cristo no peito, uma cobra na perna, o signo de Salomão, as cinco chagas, a sereia, e no braço esquerdo o campo das próprias conquistas. Esse braço é o prolongamento ideográfico do seu monte de Vênus onde a quiromancia vê as batalhas do amor. Quando a mulher lhe desagrada e acaba com a chelpa, Madruga emprega leite de mulher e sal de azedas, fura de novo a pele, fica com o braço inchado, mas arranca de lá a cor do nome.

Enquanto andou a fornecer-me o seu profundo saber, Madruga teve três dessas senhoras – a Jandira, a Josefa e a Maria. A primeira a figurar debaixo de um coração foi a Jandira. Um belo dia a Jandira desaparecia, dando lugar à Josefa, que triunfava em cima, entre as chamas. Um mês depois a letra J sumira-se e um M dominava no meio do coração.

Os marcadores têm uma tabela especial, o preço fixo do trabalho. As cinco chagas custam 1$000, uma rosa 2$000, o signo de Salomão,o mais comum e o menos compreendido porque nem um só dos que interroguei o soube explicar, 3$000, as armas da Monarquia e da República 6$ a 8$, e há Cristos para todos os preços.

Os tatuadores têm várias maneiras de tatuar: por picadas, incisão, por queimadura subepidérmica. As conhecidas entre nós são incisivas nos negros que trouxeram a tradição da África e, principalmente, as por picadas que se fazem com três agulhas amarradas e embebidas em graxa, tinta, anil ou fuligem, pólvora, acompanhando o desenho prévio. O marcador trabalha como as senhoras bordam.

Lombroso diz que a religião, a imitação, o ócio, a vontade, o espírito de corpo ou de seita, as paixões nobres, as paixões eróticas e o atavismo são as causas mantenedoras dessa usança. Há uma outra – a sugestão do ambiente. Hoje toda a classe baixa da cidade é tatuada – tatuam-se marinheiros, e em alguns corpos há o romance imageográfico de inversões dramáticas; tatuam-se soldados, vagabundos, criminosos, barregãs, mas também portugueses chegados da aldeia com a pele sem mancha, que influência do meio obriga a incrustar no braço coroas do seu país.

15.12.13

RECORDAÇÕES DO RIO ANTIGO: O CARCELER, de Luís Edmundo



Parece ter sido o italiano Luiz Bassini o introdutor do comércio de gelo e de sorvetes na cidade do Rio de Janeiro. O que se sabe exatamente é que em 1835 ele já desse negócio se ocupava. Em companhia de N. Denis, montou à Rua Direita o “Café do Círculo do Comércio que até possuía uma sala especial para senhoras. Além de um bom sorvete, nele poderia o carioca saborear refrescos de toda espécie, chá, mate e café gelados.

O gelo recebido por Bassini era o gelo natural que se importava dos Estados Unidos. Vinha em lascas, no fundo de embarcações, envolto, cuidadosamente, em camadas espessas de serradura de madeira. Aqui desembarcado, era ele remetido para os depósitos que pelo tempo se encontravam para as bandas de Santa Luzia, sendo logo posta em covas fundas feitas na terra, mantidas as precauções observadas desde o momento em que era retirado das geleiras de origem. As perdas da matéria, não eram, como talvez se acredite, muito grandes. Perdiam-se do gelo, apenas, 30 ou 40 por cento no fim de quatro ou cinco meses. Os americanos chegavam a enviá-lo, em seus navios, até para o Oriente. O gelo que pela primeira vez chegou à Índia era de procedência americana.

A glória e a fama da loja de gelo e de sorvetes de Bassini, a bem-dizer, só terminaram com a inauguração do célebre “Hotel do Norte, na mesma rua, mais próximo à Igreja do Carmo, ns. 7 e 9. Fundara-o outro italiano, Antônio Franzione que, pouco depois de inaugurada a casa, na fachada da mesma suspendia vistosa tabuleta onde fez pintar este letreiro: Antônio Franzione, sorveteiro de S. S. M. M. I. I.

O estabelecimento era modelar para a época, quiçá luxuoso. O Imperador D. Pedro II, não raro, pelos dias calmosos, em companhia da Imperatriz, em sala especial, nele ia tomar o seu sorvete. As pitangueiras de Copacabana, em campo enorme que ia do Leme ao Ipanema, forneciam o ácido fruto que refrigerava a abrasada garganta carioca. O caju, o cajá, a carambola, a manga, o abacaxi e a laranja, não conseguiam disputar a preferência que davam, todos, à pitanga, de exótico sabor, hoje quase desaparecida do comércio de frutas carioca. Era esse delicioso refrigerante tomado em alongadas taças de cristal, iguais às usadas então para beber os vinhos espumantes. Como, porém, era preparado esse sorvete, há mais de um século? Com a velha sorveteira feita em folha de Flandres, cilíndrica, que era metida em um balde ou em uma tina entre blocos de gelo, rodada de um lado para outro lado, durante certo tempo, à mão. E as caldas? As caldas ainda eram geralmente feitas de acordo com as que encontramos no livro de José Bulhões, impresso em Lisboa no ano de 1788. "A arte nova e curiosa para conserveiros, confeitos, copeiros e mais pessoas que se ocupam em fazer doces e outras receitas que pertencem à mesma arte", livro copiado aos que, no gênero, apareciam em França, na Inglaterra e na Itália. Desse manual impresso por Bulhões extratamos a curiosa e exótica receita para um sorvete que se chamou "papinha" — "calda de papinha para gelar, em sorvete". Ei-la: "Esbrugue-se uma mão cheia de pevides de melão, outra de melancia, e com quatro, ou cinco amêndoas doces, se pisará tudo muito bem, depois de estar pisado, se lhe deita o açúcar, e passado por pano ralo se aumenta o que houver com água, até fazer três quartilhos, que se gelarão com mais brevidade que as outras caldas."




O "Hotel do Norte" de Franzione, sorveteria de fama, à Rua Direita, fez-se, pouco depois da sua inauguração, o ponto de encontro mais elegante dos "leões da moda” da cidade. A primeira "terrasse" do café que teve o Rio de Janeiro aí surgiu. Com a passagem da firma para os cuidados comerciais da Viúva Carceler e Filhos essa "terrasse" foi a nota mais distinta e mais comentada da rua carioca. Nela se sentaram figuras como Mauá, Sales Torres Homem, Pereira da Silva, José de Alencar, Maciel Monteiro, Zacarias de Góis, Cotegipe, Sousa Leão, Barões do Catete e de Penedo, Viscondes de Camaragibe. de Jequitinhonha, do Rio Branco; Nabuco de Araújo, Suaçuna, Marquês do Paraná...

Era toda a fina-flor da sociedade nossa, pela época.

Desde os tempos de Antônio Franzione que o estabelecimento se incumbia de organizar banquetes e merendas (lanches) a domicílio, fornecendo iguarias das mais finas, vinhos os mais caros, tudo isso servido em baixelas de luxo — pratos de porcelana esmaltada, pratas, cristais de maior preço maior distinção. Era a copeiragem feita por hábeis criados que vestiam uniformes de seda, à século XVIII.

Numa carta que fomos encontrar nos "Reservados" da Biblioteca de Lisboa, carta de Antônio Dias da Guarda a seu irmão, datada do Rio de Janeiro (25 de março de 1869) arrancamos estas interessantes linhas: "Assim na festa em casa do Silveira babamos de gozo e nos enchemos a valer, que a terra é de fartura e nada deixa desejar a outras terras. O mais interessante, porém, foi ver, na hora da mesa, com comida de fora, em magnífica coberta, entre os servidores dela, dois negros suando debaixo de cabeleiras artificiais, brancas, vestidos à Luís XV, distribuindo guardanapos em dois pratarrazes de porcelana do Japão."

Não será difícil deduzir-se, por estas linhas, que as iguarias, baixelas e até os criados de serviço eram os de Antônio Franzione que só passou o estabelecimento de luxo à viúva Carceler pelo ano de 1861.

“Hotel do Norte e "Confeitaria Carceler, pontos chiques das elegâncias do Rio de Janeiro pelo meado do século XIX, valem, porém, uma evocação em nota especial.