ENSEADA DE BOTAFOGO

ENSEADA DE BOTAFOGO
"Andar pelo Rio, seja com chuva ou sol abrasador, é sempre um prazer. Observar os recantos quase que escondidos é uma experiência indescritível, principalmente se tratando de uma grande cidade. Conheço várias do Brasil, mas nenhuma tem tanta beleza e tantos segredos a se revelarem a cada esquina com tanta história pra contar através da poesia das ruas!" (Charles Stone)

VISTA DO TERRAÇO ITÁLIA

VISTA DO TERRAÇO ITÁLIA
São Paulo, até 1910 era uma província tocada a burros. Os barões do café tinham seus casarões e o resto era pouco mais que uma grande vila. Em pouco mais de 100 anos passou a ser a maior cidade da América Latina e uma das maiores do mundo. É pouco tempo. O século XX, para São Paulo, foi o mais veloz e o mais audaz.” (Jane Darckê Avelar)
Mostrando postagens com marcador Meier. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Meier. Mostrar todas as postagens

12.10.12

MEIER: O MELHOR LUGAR DO MUNDO É AQUI

Sorria, você está no Meier!

Coreto no Jardim do Meier.

Um cruzamento movimentado.

O melhor lugar do mundo é aqui. Tem raiz e tradição.

Pode ser que existam outros lugares com maiores belezas naturais, atrações, porém, nada é mais importante para quem tem um bairro como sua casa.

O que é o Meier senão o nome de uma família; e como tal tem sua historia, e cada morador do local faz parte desta. Os mais antigos componentes deste clã contam que antigamente os jovens se reuniam no Cinema Imperator. Que o primeiro shopping center do Brasil foi inaugurado no Meier; narram sobre as matinês do Clube Mackenzie, a formação da Banda do Meier e as histórias do Bloco Chave de Ouro, que só saía na Quarta-Feira de Cinzas para apanhar da polícia, porque não se podia brincar carnaval naquele dia. Relatam até hoje a importância do trem para o bairro, e que este traz todos os dias aqueles que trabalham, provenientes da zona oeste ou da baixada fluminense. Registram, para manter na memória, o som dos trens passando na estação, os sinos das igrejas ou das propagandas veiculadas por carros que transitam no bairro. Atualmente os jovens se reúnem na pracinha do Meier, a Praça Agripino Grieco, e nos bares e restaurantes do Baixo Meier. O Jardim do Meier, as praças Amambaí e Rio Grande do Norte têm espaço para grupos da terceira idade fazerem ginástica, caminhadas e jogarem “buraco” ou “suecas”. Todos conhecem os caminhos para se chegar ao Norte Shopping ou ao Nova América e a facilidade de ir à Barra da Tijuca pela Linha Amarela. As novas obras criam expectativas, como a construção do Centro Esportivo na antiga área das Oficinas da Rede Ferroviária, no Engenho de Dentro, e a futura ampliação do viaduto que liga os dois lados do Meier.

O coreto do Jardim do Meier é o símbolo do bairro, que preserva o convívio tradicional dos subúrbios, mesmo sem as cadeiras colocadas nas calçadas, como se fazia nos velhos tempos. Todos conversam nas filas dos bancos, nos caixas das lojas, nas esquinas, nas saídas das escolas, trocam receitas de bolos e doces, comentam quando ocorre um acidente grave, como se estivessem num encontro familiar. Os sentidos são aguçados principalmente pelos churrascos de fim de semana nas casas dos vizinhos, pelo feijão queimando na casa de alguém, pelo som do liquidificador preparando vitaminas, pelos gritos das crianças nas piscinas e soltando pipas, pelas preferências musicais, até mesmo pelas orações dos diferentes cultos. Observa-se quando chega algum novo morador nas redondezas, quando uma loja ou casa entra em reforma ou quando vão construir um novo prédio. Sabe-se identificar os locais perigosos, as horas em que as ruas são frequentadas pelos idosos, pelos jovens e também pelos marginais. Têm-se as facilidades de viver perto de um comércio variado, de academias, livrarias, escolas, clínicas, consultórios e escritórios de profissionais liberais, tudo com referências dadas por algum morador do bairro.
Até o comercio informal nas ruas é exercido por conhecidos!

Os moradores se unem para vencer a insegurança, porém sem badalações ou divulgação. Reconhece-se que um vizinho pode ser mais íntimo do que um parente, porque é a família Meier que gera cada dia “o melhor lugar do mundo”.

Texto de Vera Dias, arquiteta (chefe da Divisão de Monumentos e Chafarizes da Prefeitura da Cidade do Rio de Janeiro, editora do blog As histórias dos monumentos do Rio de Janeiro e ex-moradora do Meier)

Hipermercado Extra

Shopping do Meier

Paróquia Sagrado Coração de Jesus

Imperator Centro Cultural João Nogueira

Basílica do Imaculado Coração de Maria inspirada na arquitetura mozárabe, manifestação cristã vigente na Península Ibérica do século XVI ainda muito marcada pela tradição artística islâmica (1929)

Corpo de Bombeiros do Meier em estilo art déco (1942)

Prédio antigo do Corpo de Bombeiros do Meier (1918)

3º Batalhão da PM (1909)

Casarão de 1906 com o térreo descaracterizado

Leão do Lions

30.9.11

SUBÚRBIOS CARIOCAS

Festa da Penha: Lavagem da escadaria

Feijoada da família portelense

Botequim no Riachuelo

Subúrbio é coisa relativa. O que era subúrbio (ou "arrabalde" na terminologia da época) no tempo do Império com a expansão da cidade deixou de ser. Por exemplo, no Cap. XVIII de Lucíola (1862), de José de Alencar, lemos: “Não saía mais durante o dia; à noite pedia-me que a levasse a algum arrabalde distante da cidade, à Lagoa, ou ao Cosme-Velho.”

Durante grande parte do século XX, chamaram-se subúrbios os bairros de população mais humilde que foram crescendo ao longo da linha férrea. Segundo o historiador Oswaldo Porto Rocha, “do mesmo modo que o bonde efetiva a ocupação de bairros na zona sul e norte, o trem possibilita a ocupação de áreas que hoje são chamadas suburbanas, algumas das quais recebem seus nomes em função da própria construção da ferrovia. Cascadura, por exemplo, é um nome originário da resistência do solo na ocasião da abertura dos leitos naquela área.” (A era das demolições

Assim, havia os subúrbios da Central e os da Leopoldina. Observe-se que o trem suburbano existe desde o tempo de Machado de Assis. Tanto é que seu Dom Casmurro começa pela frase: “Uma noite destas, vindo da cidade para o Engenho Novo, encontrei num trem da Central um rapaz aqui do bairro, que eu conheço de vista e de chapéu.”

Quem melhor captou o espírito suburbano em nossa literatura foi Lima Barreto, de quem reproduzimos trecho do Capitulo 2 da Segunda Parte de Triste Fim de Policarpo Quaresma adiante.

Tecnicamente não existem mais subúrbios, a zona urbana engoliu tudo. O trem suburbano hoje se chama trem urbano (vide site da Supervia), e os antigos subúrbios hoje integram a Zona Norte.


Entrada florida (Riachuelo)

Casinhas de subúrbio (Riachuelo)

Capela de Santo Antônio (Riachuelo)

Coreto do Jardim do Méier

Estação Méier: ônibus versus trem

Trecho do Capitulo 2 da Segunda Parte de Triste Fim de Policarpo Quaresma de Lima Barreto:

Os subúrbios do Rio de Janeiro são a mais curiosa coisa em matéria de edificação de cidade. A topografia do local, caprichosamente montuosa, influiu decerto para tal aspecto, mais influíram,porém, os azares das construções.

Nada mais irregular, mais caprichoso, mais sem plano qualquer, pode ser imaginado. As casas surgiram como se fossem semeadas ao vento e, conforme as casas, as ruas se fizeram. Há algumas delas que começam largas como boulevards e acabam estreitas que nem vielas; dão voltas, circuitos inúteis e parecem fugir ao alinhamento reto com um ódio tenaz e sagrado.

Às vezes se sucedem na mesma direção com uma frequência irritante, outras se afastam, e deixam de permeio um longo intervalo coeso e fechado de casas. Num trecho, há casas amontoadas umas sobre as outras numa angústia de espaço desoladora, logo adiante um vasto campo abre ao nosso olhar uma ampla perspectiva.

Marcham assim ao acaso as edificações e conseguintemente o arruamento. Há casas de todos os gostos e construídas de todas as formas.

Vai-se por uma rua a ver um correr de chalets, de porta e janela, parede de frontal, humildes e acanhados, de repente se nos depara uma casa burguesa, dessas de compoteiras na cimalha rendilhada, a se erguer sobre um porão alto com mezaninos gradeados. Passada essa surpresa, olha-se acolá e dá-se com uma choupana de pau-a-pique, coberta de zinco ou mesmo palha, em torno da qual formiga uma população; adiante, é uma velha casa de roça, com varanda e colunas de estilo pouco classificável, que parece vexada e querer ocultar-se, diante daquela onda de edifícios disparatados e novos.


Grafite (Méier)

Não há nos nossos subúrbios coisa alguma que nos lembre os famosos das grandes cidades europeias, com as suas vilas de ar repousado e satisfeito, as suas estradas e ruas macadamizadas e cuidadas, nem mesmo se encontram aqueles jardins, cuidadinhos, aparadinhos, penteados, porque os nossos, se os há, são em geral pobres, feios e desleixados.

Os cuidados municipais também são variáveis e caprichosos. Às vezes, nas ruas, há passeios em certas partes e outras não; algumas vias de comunicação são calçadas e outras da mesma importância estão ainda em estado de natureza. Encontra-se aqui um pontilhão bem cuidado sobre um rio seco e passos além temos que atravessar um ribeirão sobre uma pinguela de trilhos mal juntos.

Há pelas ruas damas elegantes, com sedas e brocados, evitando a custo que a lama ou o pó lhes empane o brilho do vestido; há operários de tamancos; há peralvilhos à última moda; há mulheres de chita; e assim pela tarde, quando essa gente volta do trabalho ou do passeio, a mescla se faz numa mesma rua, num quarteirão, e quase sempre o mais bem posto não é que entra na melhor casa.

Além disto, os subúrbios têm mais aspectos interessantes, sem falar no namoro epidêmico e no espiritismo endêmico; as casas de cômodos (quem as suporia lá!) constituem um deles bem inédito.Casas que mal dariam para uma pequena família, são divididas, subdivididas, e os minúsculos aposentos assim obtidos, alugados à população miserável da cidade. Aí, nesses caixotins humanos, é que se encontra a fauna menos observada da nossa vida, sobre a qual a miséria paira com um rigor londrino.

Não se podem imaginar profissões mais tristes e mais inopinadas da gente que habita tais caixinhas.Além dos serventes de repartições, contínuos de escritórios, podemos deparar velhas fabricantes de rendas de bilros, compradores de garrafas vazias, castradores de gatos, cães e galos, mandingueiros, catadores de ervas medicinais, enfim, uma variedade de profissões miseráveis que as nossas pequena e grande burguesias não podem adivinhar. Às vezes, num cubículo desses se amontoa uma família, e há ocasiões em que os seus chefes vão a pé para a cidade por falta do níquel do trem.


Festa de São Jorge em Quintino

Casinha de subúrbio (Riachuelo)

Roda de samba (Oswaldo Cruz)

Estação Riachuelo

Casinha de subúrbio (Riachuelo)

Terreno baldio, algo cada vez mais raro na metrópole (Riachuelo)

Ladeira e morros (Cachambi)

Botequim (Oswaldo Cruz)

Estação Oswaldo Cruz

Avenida Dom Hélder Câmara, antiga Avenida Suburbana

Fusca (Jacaré)

Poema suburbano
Luís Peixoto (musicado por Bororó e gravado em 1956 por Orlando Silva — para ouvir clique na caixa MP3 no final)

Subúrbios, subúrbios
das moças prendadas
que fazem bordados
e querem casar,

dos cães vira-lata
que latem à lua,
enquanto as galinhas
se deixam roubar.

Das ruas barrentas,
tão simples e humildes
que até nem o nome
se lê nos jornais,

e sobem ladeiras,
de noite sozinhas,
de cem em cem metros,
um bico de gás.

Subúrbios do tempo
do chá com torradas,
sofá de palhinha,
xadrez e gamão.

Subúrbios teimosos,
dos trens atrasados,
subúrbios pacatos,
do meu coração!

Meu Deus, quem me dera
ir dar um passeio
com as vossas morenas,
cavar um namoro...

ir vê-las, aos pares,
domingo, na praça,
sorrindo pra gente
com um dente de ouro!

Ser noivo no Méier,
ouvindo uma valsa,
o "Sonho de Valsa",
mimoso, sutil...

Ser meio mulato
mulato e foguista
da Estrada de Ferro
Central do Brasil!