ENSEADA DE BOTAFOGO

ENSEADA DE BOTAFOGO
"Andar pelo Rio, seja com chuva ou sol abrasador, é sempre um prazer. Observar os recantos quase que escondidos é uma experiência indescritível, principalmente se tratando de uma grande cidade. Conheço várias do Brasil, mas nenhuma tem tanta beleza e tantos segredos a se revelarem a cada esquina com tanta história pra contar através da poesia das ruas!" (Charles Stone)

VISTA DO TERRAÇO ITÁLIA

VISTA DO TERRAÇO ITÁLIA
São Paulo, até 1910 era uma província tocada a burros. Os barões do café tinham seus casarões e o resto era pouco mais que uma grande vila. Em pouco mais de 100 anos passou a ser a maior cidade da América Latina e uma das maiores do mundo. É pouco tempo. O século XX, para São Paulo, foi o mais veloz e o mais audaz.” (Jane Darckê Avelar)

Cidade de São Sebastião

20.11.21

AFONSO ARINOS DE MELO FRANCO E O RIO DE JANEIRO

Afonso Arinos de Melo Franco foi uma notável figura humana, que herdou do pai e avô o pendor para a atuação política, tendo sido um dos fundadores da UDN; jurista autor de importantes obras de Direito; advogado do Banco do Brasil, emprego do qual foi exonerado por ordem direta do ditador Getúlio Vargas por ter sido idealizador e um dos signatários do Manifesto dos Mineiros pró-restauração da democracia; profundo conhecedor da história econômica, política e cultural brasileira, sobre a qual legou diversos livros, entre eles O índio brasileiro e a Revolução Francesa, apontando a influência do indígena brasileiro sobre a crença,  propugnada por Rousseau, na bondade natural do homem, crença esta subjacente à ideologia da Revolução Francesa; crítico literário; jornalista; tradutorintransigente democrata mesmo quando o Brasil, o mundo e os intelectuais se deixavam seduzir pelo canto da sereia das ideias totalitárias de direita ou esquerda – e o próprio ditador brasileiro e seus acólitos inclinavam-se a favor da aparentemente imbatível Alemanha, no início da grande conflagração mundial; autor de cinco magníficos livros de memórias, que o inscrevem no rol dos eminentes memorialistas brasileiros, como Pedro Nava, Antonio Carlos Villaça, Alberto da Costa e Silva e Gilberto Amado

No primeiro desses cinco livros, A alma do tempo, escrito entre 16 de outubro de 1959 e o dia de Natal de 1960  onde mescla observações sobre a atualidade que está vivendo com reminiscências, em ordem cronológica (exceto um ou outro salto temporal) de sua vida desde o nascimento e infância até a eleição para deputado após a queda do ditador Getúlio a fim de “representar o povo mineiro na casa do povo brasileiro  dedica alguns parágrafos ao Rio de Janeiro que, se não foi sua cidade natal, já que Afonso Arinos nasceu em Belo Horizonte, foi uma das cidades de seu coração, junto com Roma e Ouro Preto, estas duas tendo merecido obras suas, respectivamente, Amor a Roma e Roteiro lírico de Ouro Preto. Reproduzimos aqui o trecho sobre a Cidade Maravilhosa escrito em 18 de julho de 1960, extraído das páginas 373-4 da recente edição da Topbooks, em capa dura, que reúne seus cinco livros de memórias.


Andando a pé, sozinho, pelas avenidas ajardinadas do centro [de Goiânia], eu pensava na frase de Joaquim Nabuco, de que preferia uma curva da Via Ápia ao contorno da baía de Guanabara [ver nota 1 no final]. Eu, também, não consigo me adaptar a uma paisagem destituída de cultura, ou de história, como Goiânia ou Brasília. 

Convento da Ajuda, demolido em 1911, para dar lugar à atual Cinelândia. Hoje o convento de Nossa Senhora da Conceição da Ajuda se situa na Praça Barão de Drummond, Vila Isabel. Foto de Augusto Malta de 1905. Observe a Igreja da Glória no canto superior direito.

Preferia, sinceramente, viver em Ouro Preto do que na nova capital da República. Não direi o mesmo que Nabuco, quanto ao Rio de Janeiro, porque esta grande e querida cidade, além de centro cultural do país, é, também, dos seus primeiros cenários históricos. 

Morro do Castelo, demolido na década de 1920, dando lugar à atual Esplanada do Castelo. Ver postagem neste blog sobre esse histórico morro, clicando em "Morro do Castelo" no menu da barra vertical direita. Foto de Juan Gutierrez de cerca de 1894.

No livro de Pigafetta (a referência feita de memória) se vê que, já em 1519, na passagem de Fernão de Magalhães, muito antes da fundação oficial por Estácio de Sá, havia traços da permanência do homem branco à beira da Guanabara [ver nota 2]. Mas, ainda que consideremos o Rio a partir dos jovem e heroico capitão morto em sua defesa, o certo é que a sua história se conta por quatro séculos, o que é muito, para qualquer cidade do Novo Mundo. 


"Construções coladas à Candelária". Foto de Augusto Malta.

Apesar das enormes transformações que sofreu na sua fisionomia, e da destruição da maior parte dos testemunhos materiais da sua gloriosa e combativa existência, o Rio, para quem lhe conhece a formação e o desenvolvimento, oferece ainda numerosos pontos de enternecida contemplação. 


Igreja de São Pedro dos Clérigos, demolida para a abertura da Avenida Presidente Vargas. Foto de Marc Ferrez de cerca de 1890.

Quando circulo a pé ou de automóvel pelas suas ruas, recomponho mentalmente a sucessão de episódios de transcorridos na Colônia, no Império e na República, à vista de tantas igrejas e conventos, de fortalezas e quartéis, de palácios e construções civis. Os próprios sítios onde nada mais resta do passado prestam-se à evocação do que foram em tempos idos, cenários de episódios capitais da nossa vida antiga, quando não simples visões da cidade familiar da minha infância.


Palacete Abrantes. Foto de Augusto Malta.

Na Praça Floriano recordo os muros altos que circundavam o terreno do demolido convento da Ajuda [ver foto]; na Esplanada revejo o Morro do Castelo, os seus barrancos avermelhados e ladeiras tortuosas; no grande espaço da Avenida Presidente Vargas, reponho, num fácil esforço de memória, as construções coladas à Candelária, os sobrados coloniais da rua de São Pedro, a preciosa igrejinha do mesmo nome [Igreja de São Pedro dos Clérigos], as carroças de burros encostadas no Largo do Capim (chamado, depois, se não me engano, praça Lopes Trovão).

Pavilhão das Regatas em Botafogo. O esporte era tão popular que um clube hoje eminentemente futebolístico, fundado na época, recebeu o nome de Clube de Regatas do Flamengo. Foto de Marc Ferrez de 1905. Ao fundo o Corcovado.

No Flamengo, pelas ruas Senador Vergueiro e Marquês de Abrantes, a casa nobre deste estadista [Palacete Abrantes], com a sua capela ao lado, propriedade que pertencera a d. João VI; a maravilhosa chácara do Marquês de Herval, esplêndido espécime de arquitetura imperial que eu, aluno do D. Pedro II, já admirava, enternecido, quando passava, de bonde, para o internato, e outros imponentes casarões de sacadas de ferro e cantaria lavrada, como os de Miguel Couto, dos Rodrigues Alves ou dos conde de Figueiredo.

Pavilhão Mourisco na ponta da Praia de Botafogo. Foto de autor anônimo de cerca de 1910. As fotos desta postagem foram obtidas no site Brasiliana Fotográfica.

Em Botafogo, o pavilhão catita das regatas (“Botafogo é uma festa de regatas retas”, disse o poeta Austen Amaro) ou a ingênua fantasia do Pavilhão Mourisco; em Copacabana, as casas de fundos voltados para o mar, os terrenos baldios, cheios de pitangueiras, os lampiões a gás, os bondes pachorrentos, as crianças brincando em amplos jardins gradeados...

NOTAS:

1. A frase de Joaquim Nabuco, de seu Minha formação, é: As paisagens todas do Novo Mundo, a floresta amazônica ou os pampas argentinos, não valem para mim um trecho da Via Ápia, uma volta da estrada de Salermo a Amalfi, um pedaço do Cais do Sena à sombra do velho Louvre.

2. O italiano Antonio Pigafetta acompanhou a viagem de circunavegação de Fernão de Magalhães, sendo um dos seus dezoito sobreviventes e tendo escrito um relato precioso sobre as peripécias daquele périplo, cuja tradução em português, A primeira viagem ao redor do mundo, foi publicada recentemente pela editora L&PM. A menção aos “traços da permanência do homem branco à beira da Guanabara” ocorre quando o autor se refere a Giovan Carvajo (Juan Carvalhos) nostro piloto, che quattro anni era stato in questo paese,  nosso piloto que permaneceu quatro anos nesta região, a saber, o porto que adentraram no dia de Santa Luzia, 13 de dezembro de 1519, onde mais tarde se fundaria a cidade do Rio de Janeiro.

26.9.21

AFINAL, MACHADO DE ASSIS ERA NEGRO, BRANCO OU MULATO?

Nos últimos tempos virou moda celebrar a "negritude" do escritor-mor brasileiro. Assim, o crítico literário norte-americano Harold Bloom considera-o "the supreme black literary artist to date". Até membros da Academia Brasileira de Letras, com denso estofo cultural, escrevem asneiras como "Machado era mestiço, filho de um pardo forro e de mãe negra" (Arnaldo Niskier na Revista Brasileira de abril-maio-junho de 2008, pág. 13) e  " [...] filho de Francisco José, um operário mulato pintor de paredes, e de Maria Leopoldina, uma lavadeira negra e neta de escravos" (Murilo Melo Filho, idem, pág. 26). Assim, a fim de esclarecer esta questão, reproduzo aqui o verbete "MULATO" do DICIONÁRIO DE MACHADO DE ASSIS de UBIRATAN MACHADO (cuja segunda edição foi lançada recentemente pela Imprensa Oficial paulista), QUE ABORDA A QUESTÃO COM OBJETIVIDADE, HONESTIDADE E EQUILÍBRIO. Imagens de Machado obtidas na Biblioteca Nacional Digital (exceto a última, do catálogo da exposição Machado Vive). Aos machadianos recomendo a aquisição do dicionário do Ubiratan, não é barato mas vale o investimento.


Machado de Assis em desenho de M.J. Garnier

Machado de Assis em gravura de 1880

Machado de Assis e Joaquim Nabuco em foto de Augusto Malta de 1906

Machado de Assis (esquerda) e grupo em foto de Augusto Malta de 1906

Há muita especulação a respeito de como Machado encarava o fato de ser mulato. Alguns estudiosos insinuam que ele se ressentia de sua cor, numa sociedade dominada por brancos. Simples hipótese. Nenhuma prova, nenhum registro contemporâneo. Há depoimentos, contraditórios, prestados após a sua morte, por pessoas que com ele conviveram. Em certa ocasião, teria dito a Condessa de São Mamede que a mulatice era para ele “um simples acidente”. Francisca de Basto Cordeiro, sua vizinha e amiga por longos anos, garante que “jamais conseguiu dominar o complexo de inferioridade que lhe amargurou a existência a ponto de evitar em todas as suas obras a palavra ‘mulato’ e, se acaso a ouvia em conversas entartarugava-se todo, franziu o sobrolho como se nela houvesse uma indireta com o fito de magoá-lo e, por mais interessante que fosse a conversa, dava o assunto por encerrado”. Esse depoimento deve ser encarado com extrema cautela, pois a depoente encontrava-se em idade avançada e, em vários trechos, conta um fato para logo adiante afirmar o contrário. A obra machadiana também o desmente. Assim, em “A parasita azul”, conto da mocidade, quando se é mais sensível à crítica alheia, empregou a palavra, sem revelar qualquer ressentimento, mas com simpatia: “Camilo olhou para a porta da cabana e viu uma mulatinha alta e elegante, que olhava para ele com curiosidade”. Há trechos semelhantes em outras obras. 

Isso não significa que não tenha sentido na pele a discriminação racial. Teve de enfrentar o problema pelo menos em uma ocasião, durante o seu noivado, quando encontrou oposição de alguns parentes de Carolina, por ser mulato. Socialmente, impôs-se sem demonstrar qualquer ressentimento racial, e nunca evitou, também, como os mulatos arrivistas, entre brancos, a amizade com pessoas de sua cor, como provam os inúmeros negros e mulatos de suas relações: Paula Brito, Teixeira e Souza, Ferreira de Menezes, Francisco Otaviano. No entanto, havia receio de feri-lo, chamando-o de mulato. Um homem da inteligência de Joaquim Nabuco, abordando a psicologia do amigo, considerou que jamais “teria chamado o Machado mulato e penso que nada lhe doeria mais do que essa síntese (carta a José Veríssimo, datada de Washington, 25 de novembro de 1908). Evidente que sim, pois indicaria uma clara discriminação ou desejo de ferir. De qualquer maneira, se teve ressentimentos raciais, soube com eles conviver e dificilmente o problema assumiria nele, como em Lima Barreto, um aspecto trágico. 

Machado detestava a autopiedade. Inclusive a autopiedade racial. Procurou ajustar-se e se embranquecer através da ascensão social, o que irritou alguns contemporâneos. O professor Hemetério José dos Santos, em seu famoso artigo publicado após a morte de Machado, diz que ele foi um trânsfuga e um traidor de sua raça. Essa opinião teve, e ainda tem, seguidores. Os que consideram que superou os conflitos íntimos decorrentes da mestiçagem lembram a carta que Gonçalves Crespo lhe enviou, datada de 1871, na qual o poeta das Miniaturas escreve que já o conhecia de nome havia algum tempo: “De nome e por uma secreta simpatia que se me levou quando disseram que era... de cor como eu. Será?”. O fato de conservar a carta seria uma prova de superação do problema. A atenuação simbólica da mestiçagem de Machado, e até o seu desaparecimento, por uma espécie de mágica social, encontra um advogado em Joaquim Nabuco, que, na carta acima mencionada, diz considerá-lo “um grego da melhor época”, “um branco, e creio que por tal se tornava; quando houvesse sangue estranho, isto em nada afetava a sua perfeita caracterização caucásica”. Esse processo de embranquecimento culminou com a sua certidão de óbito, onde consta que o falecido era de cor branca. Uma fantasia semelhante à tese de uma corrente atual de que o escritor era negro e determinada foto sua teria sido forjada, como vemos adiante. Machado não era negro. Nem branco. Mas mulato, mestiço, resultado da intensa miscigenação racial brasileira, como demonstra sua ascendência. O pai, Francisco José de Assis, era “pardo forro” (isto é, mulato livre), como consta de sua certidão de batismo, realizado em 11 de outubro de 1806. A mãe, Maria Leopoldina, nasceu na Ilha de São Miguel, nos Açores. Branca pura. O filho do casal era, pois, mestiço

Os testemunhos da época são abundantes e unânimes ao falar de sua mulatice. Nenhum deles lhe atribui a cor branca ou negra. Um dos depoimentos mais importantes é o de um seu inimigo e detrator implacável, o verrineiro Apulco de Castro. Como Machado, era pardo, mais bem mais escuro. Jornalista venal, atacou o colega por diversas vezes. Pois bem, esse sujeito hostil, ao retratar o escritor de forma satírica na série “Retratos a Carvão”, no jornal de escândalos O Corsário, informa com muita clareza a cor de sua pele: “Espiègle [travesso], macambúzio, preocupado, um Hamlet em brochura... porém moreno. Um talento modesto. Dorme no Clube Beethoven”. Moreno, isto é, uma forma brasileira de dizer mulato. Não poderia haver esclarecimento mais imparcial sobre a cor de Machado, exatamente por vir de um inimigo violento, sem qualquer escrúpulo, e pardo. Entre os vários outros testemunhos, podemos lembrar o de Olavo Bilac, que conviveu com Machado por mais de vinte anos e ao retratá-lo nos informa ser ele um homem de altura regular, de 68 anos, mais ou menos. Moreno”. Há inúmeros outros depoimentos de contemporâneos, de José Veríssimo (“mulato, foi de fato um grego da melhor época”), de Joaquim Nabuco, de Francisca de Basto Cordeiro, do negro Hemetério José dos Santos. Apesar de tudo, a citada corrente proclama que uma das fotos mais divulgadas de Machado, tirada na década de 1890, teria sido forjada, embranquecendo a tez negra do escritor. A tal foto utilizou filme fotográfico, inventado poucos anos antes, cuja baixa sensibilidade exigia exposição demorada à luz. O que explica pessoas e paisagens saírem mais claras (e, quando mais claras, mais indistintas, sem contraste, lavadas, como se diz), mas sem chegar à mágica de mudar a cor de ninguém. Não é o caso da foto em questão, perfeita, de alta qualidade, sem sombra de manipulação. As várias outras fotos de Machado, sozinho ou em grupo, são o melhor desmentido a tal tese. Nos retratos coletivos, o criador de Capitu aparece ao lado de várias personalidades, sendo sua pele levemente mais escura do que a dos brancos que o cercam. É o que se pode comprovar nas fotos com Joaquim Nabuco (foto acima), Pereira Passos etc., numa reunião da Panelinha em que se encontra entre João Ribeiro e Lúcio de Mendonça, e em outra fixada em 1906, no almoço oferecido ao presidente da Venezuela Uribes y Uribes (foto acima). Será que os fotógrafos, durante mais de meio século (a primeira foto conhecida de Machado é de 1864), conspirando entre si e apesar de não haver tecnologia disponível para tal, fizeram o milagre de embranquecer a figura de Machado, sem tocar nos demais do grupo? Como explicar tal fenômeno?


Machado de Assis aos 57 anos

Machado de Assis aos 25 anos

Outra do Machado, extremamente nítida, aos 25 anos, pelo fotógrafo Pacheco da Casa Imperial

19.9.21

EXPOSIÇÃO "HÁ LUZ ATRÁS DOS MUROS" NO MUSEU DE ARTE OSÓRIO CESAR (MAOC), EM FRANCO DA ROCHA

Você pega o trem na estação paulistana do Brás e em menos de uma hora está em Franco da Rocha, cidadezinha aprazível, colorida, arejada, arborizada, diferente do "mar de prédios" paulistano. À direita, a meio quilômetro da estação, você chega ao museu (e atrás dele, as antigas instalações do complexo psiquiátrico). Você assiste a um vídeo que conta a história do Osório Cesar, marido da artista Tarsila do Amaral, pioneiro na humanização do tratamento psiquiátrico no Brasil, inspirador da doutora Nise da Silveira, e se surpreende com o altíssimo nível do acervo de obras de arte dos antigos internos. Bom passeio para uma tarde de sábado ou domingo.


Istvan Csibak, Museu Dr. Osório Cesar, 1989, acrílica, guache e óleo sobre papel


O museu, instalado na antiga casa do diretor, que compunha o conjunto do projeto original do Hospital Psiquiátrico do Juquery, concluído em 1898. Moraram nesta casa Francisco Franco da Rocha e Antônio Carlos Pacheco e Silva. Com o passar do tempo, também foi sede de uma importante escola de enfermagem. Em 1985 passou a sediar a primeira fase do museu, abrigando também o atelier dos artistas do Juquery. Fechado em 2005, mais adiante foi restaurado e reinaugurado em 2020 com a exposição de longa duração "Há luz atrás dos muros" aqui mostrada.

Na exposição “Há luz atrás dos muros”, que (re)inaugura o Museu de Arte Osório Cesar (MAOC), apresentamos a rica criação de mais de 60 artistas que, em diferentes momentos da vida, tiveram suas trajetórias marcadas pela internação no Complexo Hospitalar do Juquery.

Em meio a um dia-a-dia de violações à dignidade humana, os artistas-internos aprenderam técnicas e conhecimentos em frequências e interesses tão diversos quanto suas trajetórias. Os suportes e seus modos de expressão são também variados, abarcando desenho, cerâmica, gravura, escultura e pintura. A fluência da produção e a espontaneidade alheia às questões que os artistas comuns se debatem são um fator distintivo. Recorrendo a memórias afetivas, extraindo do âmago experiências vividas ou relatando a imposta realidade, os artistas constituíram maneiras inventivas de (re)ver seus mundos, contorcendo o sentido do que é entendido como “normal”.

A mostra está organizada em dois blocos interligados. Uma seção agrupa os trabalhos por gêneros e temas transversais que compõem o acervo do MAOC, como registros da arquitetura e paisagem do Juquery; casas, animais e ambientes rurais; naturezas-mortas; construções geométricas abstratas; signos religiosos e do mundo extrassensível.

Uma seção monográfica destaca trabalhos de 14 artistas. Do período de funcionamento da Escola Livre de Artes Plásticas, estão Antônio Sérgio, Aurora Cursino, Farid Geber, Ioitiro Akaba, Masayo Seta, Caraíba, Rubens Neves Garcia e Valeriano; dos artistas que vivenciaram o Atelier de Arte do Museu, além de Masayo Seta (cuja estadia compreendeu os dois períodos), apresentamos obras de Almir D’Avila, Maria Aparecida Dias, Istvan Csibak, Otaviano, Ubirajara e Waldemar.

A apresentação desobedece a ordenamentos lineares. Antes, valorizamos os encontros fortuitos, a quebra de expectativa e caminhos labirínticos. As obras dos artistas do Juquery (artistas do mundo), testemunhos da força de vida de indivíduos que se sobrepuseram ao trauma da internação, são como luzes que, não só no fim, mas por detrás das paredes do túnel, dos muros reais ou imaginários, alargam frestas, alicerçam mundos.

Hélio Menezes

Pedro Quintanilha

Curadores


Esquerda para direita e de cima para baixo: Tamara, Sem título / Autoria desconhecida / José Otaviano Rafael, Sem título, 1998 / Conceição, Sem título, 1989 / Cleusa, Sem título, 1976 / José Valeriano Annes, Sem título

Ioitiro Akaba, Bandiza, óleo sobre papel, sem data

Istvan Csibak, Freud, 1994, acrílica e óleo sobre tela

José Otaviano Rangel, Casal Entrelaçado, 1994, óleo e tinta de tecido sobre tela

Istvan Csibak, Espelho Mágico, 1994, óleo sobre tela: Espelho meu diga se existe homem mais feio do que eu

Farid Geber, sem título, sem data, llnoleogravura

Aurora Cursino dos Santos, Autorretrato, sem data, óleo sobre papel

Quatro obras (década de 1950) de João Rubens Neves Garcia, todas sem título

Waldemar Lúcio Raymond, sem título, 1990, giz de cera, hidrocor e pastel oleoso sobre papel

Quatro obras de José Otaviano Rafael

Istvan Csibak, Autorretrato, 1996, grafite e guache sobre papel: Sou natural da Ungria Capital de Budapest

Almir D'Ávila, O sanhaço comendo goiaba, 1993, grafite e guache sobre papel

Arte no Juquery

A história da arte produzida no Juquery é uma história das técnicas, das palavras e, sobretudo, do tempo e do encontro entre artistas, pesquisadores e profissionais da instituição que promoveram o fazer artístico e a preservação do acervo.

A data da primeira obra de arte é incerta, pois, entre 1920 e 1930, há produções artísticas nas oficinas de ergoterapia, nos desenhos em papéis descartados ou paredes do hospital e com o uso de suportes incomuns, como esculturas feitas de miolo de pão.

Em 1949 é criada a Seção de Artes Plásticas do Juquery, com direção do psiquiatra Mário Yahn. Na década de 1950 a seção foi transformada em Escola Livre de Artes Plásticas (ELAP) e Osório Cesar passa a ser o diretor, até 1964. A ELAP resistiu em suas atividades até a década de 1970, e por ela passaram artistas como Maria Leontina, Clélia Rocha e Moacyr Rocha, que orientaram os artistas do Juquery, procurando manter a liberdade de escolha de cada um/a na utilização de materiais e técnicas para as suas composições.

No ano de 1985 é inaugurado o Museu Osório Cesar, com objetivo de preservar a coleção da ELAP e abrir o Atelier de Arte. Nesta segunda fase, as obras produzidas são incorporadas ao museu, ampliando, assim, seu acervo. Em 2006, a instituição é fechada, após o incêndio que atingiu o prédio administrativo e a biblioteca do Juquery.

A exposição “Há luz atrás dos muros” apresenta obras que foram realizadas durante esse duradouro caminho, reabrindo com o Museu de Arte Osório Cesar.

12.3.21

RIO DE JANEIRO, por FLOOR BOON


Publicado originalmente na revista literária holandesa DAS MAGAZIN (no 6, verão de 2013) e traduzido para o português pelo editor do blog.

INTRODUÇÃO

Em 2013, uma jornalista dos Países Baixos, que me localizou através de meu blog, pediu que eu lhe mostrasse os locais do centro do Rio associados à literatura. Fiz o possível: mostrei a Biblioteca Nacional, o Real Gabinete Português de Leitura, a Confeitaria Colombo, ponto de reunião de intelectuais na Belle Époque, etc. Algum tempo depois, ela me enviou o PDF da revista literária onde saiu publicado seu texto, mas na época eu não entendia xongas do idioma neerlandês (e o Google Tradutor naquele tempo ainda não estava tão desenvolvido quanto hoje). Somente agora (2021), depois de ter estudado tal idioma no Duolingo (valendo-me das semelhanças com o alemão), enfim consigo ler seu artigo e constato que ela observou as coisas com perspicácia. Na época ainda havia recitais regulares de poesia (no Teatro Gláucio Gil, em Copacabana, por exemplo) e novelas de televisão de alta qualidade (com excepcional dialogismo), por grandes autores como Manoel Carlos e Glória Perez. E, como aprendi nos seis anos em que frequentei a oficina literária do grande mestre Ivan Proença, o roteiro de um filme, série ou novela (ou mesmo uma letra da MPB) é uma obra literária, sim, tanto quanto uma peça de teatro ou uma cantiga medieval. Vamos ao texto! 

 



Machado de Assis no Morro do Livramento

Ali, logo atrás do porto, onde está em construção a Vila Olímpica, fica o Morro do Livramento, um dos muitos morros do Rio de Janeiro. Lá nasceu Machado de Assis, o escritor mais importante do Brasil no século XIX. Mais ao sul, em Botafogo, bairro com a mais bela enseada da cidade, veio ao mundo Paulo Coelho. Nenhum escritor brasileiro vendeu mais livros do que ele.

Morros verdes e rochosos (Morro do Urubu)

Os morros verdes e rochosos não são apenas uma festa para o olho, eles abrigam histórias de pequenos e grandes escritores e constituem o cenário de diversos romances. Mesmo assim, esses lugares são desconhecidos por muitos cariocas, como são chamados os moradores do Rio. A literatura é algo como as notícias internacionais: pouco importante e enfadonha.

Aguardando o metrô

No metrô do Rio de Janeiro ninguém lê. Nem nos ônibus. No máximo, brasileiros entediados folheiam o jornal gratuito do metrô, em casos excepcionais alguém pega um livro. Já os salões de cabeleireiro estão cheios de revistas reluzentes com informações sobre quem os atores das famosas telenovelas estão namorando e que locais estão frequentando. Almas românticas que saem ingenuamente em busca do coração literário da cidade se decepcionam, ao menos à primeira vista, porque na superfície se acha pouca coisa. Os brasileiros nem leem jornal, suspira desanimada uma moça cosmopolita e com formação superior. “Música e filmes, eles adoram isso aqui. Nacionais, quero dizer. Mas onde fica Paris ninguém sabe.”

Real Gabinete: livros até o teto

A literatura no Rio de Janeiro é como uma caça ao tesouro, mas quem seguir o caminho encontrará mais do que esperava. No centro da cidade, onde construções portuguesas antigas erguem-se lado a lado com arranha-céus modernos, escondem-se as mais magníficas bibliotecas e livrarias. Na biblioteca portuguesa [Real Gabinete Português de Leitura], com dezenas de metros de altura, os livros vão até o teto. A Academia Brasileira de Letras está abrigada em uma réplica do Petit Trianon de Versalhes.

Recantos escondidos da cidade: Camões diante do Real Gabinete Português de Leitura

Acontece nos nichos, nos recantos escondidos da cidade: noites semanais de poesia, clubes de leitura e discussões literárias. Segundo Ivo Korytowski, amante da literatura com um blog onde associa locais históricos com obras literárias, a literatura está profundamente enraizada em cada brasileiro. “As populares telenovelas, que duram vários meses, são como romances”, diz ele. “Esta é a moderna literatura.” 

15.2.21

ÁLBUM DO RIO DE JANEIRO MODERNO de SÉBASTIEN AUGUSTE SISSON

 


Sébastien Auguste Sisson foi um litógrafo e caricaturista natural da Alsácia que chegou no Rio de Janeiro em 1852 e aqui passou a viver até sua morte em 1898, tendo sido um dos pioneiros da litografia no Brasil. Publicou a Galeria dos brasileiros ilustres (1859-61), com retratos de personalidades históricas do Brasil, e o Álbum do Rio de Janeiro moderno (folha de rosto acima, sem indicação de data, mas provavelmente do mesmo período), com doze cromolitografias de cenários cariocas, das quais nove reproduzimos aqui. As imagens foram obtidas na Biblioteca Nacional Digital.

Sisson é considerado precursor das histórias em quadrinhos no Brasil com seu O NAMORO, QUADROS AO VIVO (abaixo), no estilo de Wilhelm Busch, precursor dos quadrinhos na Alemanha, publicado na revista Brasil Ilustrado em 1855. Também nesta revista publicava caricaturas e charges.



A seguir nove cenas cariocas de Sisson comparadas com imagens atuais do Street View (Google Maps) dos mesmos lugares, na medida do possível.


Cemitério dos Ingleses, então a beira-mar, e o Morro da Providência atrás, ainda sem a favela, vistos do mar em frente (talvez de dentro de um barco). Com o aterro para a construção do moderno cais do porto no início do século XX, o mar se afastou, e no local de onde se tem esta visão hoje existe a Cidade do Samba. 
 
A Cidade do Samba nos impede de reproduzirmos o ângulo da gravura anterior, mas nesta foto do editor do blog tirada do edifício Aqwa Corporate a gente vê o Morro da Providência agora com a favela, a capela do Cemitério dos Ingleses (grandona na gravura acima, aqui indicada pela seta) e a própria Cidade do Samba no canto inferior direito.


Estação antiga (de 1870) da Estrada de Ferro Dom Pedro II, mais tarde substituída pela icônica estação art déco que conhecemos hoje. Para sua construção foi demolida a Igreja de Santana. Atrás o Morro da Providência sem a favela, mas já com a pedreira que vemos até hoje. 

A estação art déco moderna.

Igreja da Glória e antigo Mercado da Glória, que funcionou de meados do século XIX ao início do século XX. Com o aterro para a construção da Avenida Beira Mar, no início do século XX, e na década de 1960 com o enorme Aterro do Flamengo, o mar se afastou.

Igreja da Glória com a praça Nossa Senhora da Glória e estátua de Pedro Álvares Cabral. O mar agora está longe. 

Antigo Hospício D. Pedro II, na Praia da Saudade, a caminho da Urca. Atrás o Morro da Babilônia separando a Urca do Leme.

O antigo hospício agora abriga instalações da UFRJ, na Avenida Pasteur. A Praia da Saudade deu lugar ao Iate Clube.

Antigo hospital da Beneficência Portuguesa, agora Glória D'Or. O prédio, tombado, sobrevive. Atrás o Morro Santo Amaro, onde existe hoje uma favela.

Hospital Glória D'Or no imóvel que pertenceu ao antigo hospital da Beneficência Portuguesa, na Rua Santo Amaro, Catete.

Igreja da Ordem Terceira do Carmo, na Praça XV.

A mesma igreja hoje em dia. Igualzinha.

Jardim Botânico com as palmeiras ainda relativamente baixas.

Jardim Botânico hoje. As palmeiras cresceram. Cresceram tanto que a principal, a palma mater, plantada por D. João VI, morreu em 1972 atingida por um raio.

Hospital da Santa Casa da Misericórdia, na época à beira da Praia de Santa Luzia, hoje Rua de Santa Luzia, no Centro, sem nenhum sinal de mar por perto. Observe que a fachada daquela época foi tapada por uma fachada nova, na frente, o que fica bem evidente na imagem abaixo, do Google Maps, onde a cúpula do corpo central entrou mais para dentro (seta).


Ilha da Boa Viagem em Niterói.