ENSEADA DE BOTAFOGO

ENSEADA DE BOTAFOGO
"Andar pelo Rio, seja com chuva ou sol abrasador, é sempre um prazer. Observar os recantos quase que escondidos é uma experiência indescritível, principalmente se tratando de uma grande cidade. Conheço várias do Brasil, mas nenhuma tem tanta beleza e tantos segredos a se revelarem a cada esquina com tanta história pra contar através da poesia das ruas!" (Charles Stone)

VISTA DO TERRAÇO ITÁLIA

VISTA DO TERRAÇO ITÁLIA
São Paulo, até 1910 era uma província tocada a burros. Os barões do café tinham seus casarões e o resto era pouco mais que uma grande vila. Em pouco mais de 100 anos passou a ser a maior cidade da América Latina e uma das maiores do mundo. É pouco tempo. O século XX, para São Paulo, foi o mais veloz e o mais audaz.” (Jane Darckê Avelar)

Cidade de São Sebastião

8.8.22

LARGO DO BOTICÁRIO REVITALIZADO

Largo do Boticário em pintura a óleo de Thiago Castro de 2012

Depois de anos de abandono, uma de suas casas chegando a ser invadida por sem-tetos, o Largo do Boticário, após obras de revitalização que preservaram as fachadas do velho casario neocolonial da primeira metade do século XX, passou a abrigar um hotel Jo&Joe da rede francesa Accor, inaugurado em julho de 2022.

Largo do Boticário em péssimo estado de conservação (2015)

Largo do Boticário em obras (2021)

Largo do Boticário novinho em folha, abrigando agora um hotel Jo&Joe da rede Accor (agosto de 2022)

“O Largo do Boticário é lindo, mas... é recente. Foi construído por ideia e mando de D. Sylvinha de Bittencourt, mulher do então dono do Correio da Manhã, Paulo Bittencourt, na década de 1940, usando material de demolição das casas centenárias postas abaixo pelo prefeito Henrique Dodsworth. O Largo original, onde o atual foi construído, era um lugar pobre que ganhou o nome por causa de um farmacêutico de então, que lá viveu. Dele, sobrevivem as belas árvores da entrada.” (Francisco Daudt, Cosme Velho, Um Roteiro de Visita) “O Largo do Boticário [...] não é tão antigo, mas tem a sua graça inestimável, o seu encanto, a sua delícia, a sua magia.” (Antonio Carlos Villaça, A Cidade Desfigurada)

Muxarabi colonial no Largo do Boticário

No Largo do Boticário temos talvez o único exemplar autêntico, colonial, de muxarabi sobrevivente no Rio de Janeiro. Comum nos primórdios da cidade, o muxarabi ou rótula, de origem mourisca, trazido de Portugal pelos colonizadores, foi proibido por motivos estéticos em 1808 pelo Intendente-Geral da Polícia Paulo Fernandes, já que “além de serem incómmodas, prejudiciaes á saude publica, interceptando a livre circulação do ar, estão mostrando a falta de civilisação dos seus moradores” (Padre Perereca).


Largo do Boticário em foto preto e branco de 1957 de Marcel Gautherot obtida no site do Instituto Moreira Salles


12.5.22

CONRAD DETREZ NO RIO DE JANEIRO

Conrad Detrez (1937-1985) foi um belga estudante de teologia em Louvain que, para escapar do serviço militar no Congo belga, em 1962 decidiu emigrar para o Brasil como missionário leigo. Lecionou francês na Universidade Santa Úrsula, ao mesmo tempo em que atuou nas favelas. Durante o regime militar, envolveu-se com  atividades políticas ligadas aos meios católicos de esquerda (Ação Popular) e chegou a ser preso e expulso do país em 1967. Contou Detrez ao Jornal do Brasil: "Meu processo de expulsão foi arquivado, voltei à França e retornei a São Paulo em 1968 onde, até 1969, fui redator de política internacional. Com o crescimento da repressão, achei melhor sair do Brasil. Em 1971 fui condenado, à revelia, a dois anos de prisão" (edição de 7 de junho de 1980) Com a redemocratização, favorecido pela anistia, retornou por algumas semanas em 1980, visita essa que narra em seu livro Les noms de la tribu (Os nomes da tribo, sem tradução em português), do qual transcrevemos abaixo um trecho, traduzido para o português pelo editor deste blog.


Aprendi a desconfiar das peregrinações. Geralmente, é melhor não voltar para trás. Não se acham mais as emoções, as sensações outrora conhecidas. A vida converteu-se em morte, macaqueamos o que já fomos, o tempo te vence, és ridículo. Apesar disto, retornei a Brás de Pina. Este bairro do subúrbio jaz por trás de um universo de fábricas, de barracos, de quartéis e de casinhas, depois da interminável Avenida Brasil. Os ônibus, dirigidos a toda velocidade por motoristas kamikazes transportam para lá, em menos de uma hora, os passageiros. À medida que nos aproximamos do bairro, minha curiosidade se aviva. A casinha onde vivi será que sobrevive? “Minha” rua mudou? A colina onde, no fim da tarde, eu subia para espreitar a chegada do meu companheiro, abarcar a extensão do subúrbio, meditar sobre minha vida e os acontecimentos, essa colina em cujo topo se ergue a capela de Santa Cecília ainda estará intocada por qualquer outra construção, por qualquer árvore?

Paróquia de Santa Cecília (1929 - Brás de Pina) no estilo das igrejinhas da Europa Central, como a de St. Cäcilia em Dauchingen, Alemanha.

Ao pé desse montículo, na monotonia dos subúrbios, minha existência mudou. Nasci em 1937 na região de Liège. Uma segunda vida surgiu e subverteu a primeira, em 1963, no Rio de Janeiro. No primeiro período, fui um aldeão, de raça valã, religião católica e língua francesa. No segundo, torno-me suburbano, de filiação carioca, herege e de língua portuguesa. Em Brás de Pina vivi a perda da fé e o engajamento político. Lá também sofri a devastação do amor louco. O Brasil popular, mais africano do que europeu, contestador e despojado, subverteu-me profundamente. O povinho dos subúrbios do Rio me ensinou a vida, a política, o prazer: ele me libertou. O modesto bairro de Brás de Pina foi o local do novo parto. Essa obscura zona suburbana é minha Roma, meu Tombuctu, minha Havana. Foi lá que encontrei Beatriz e vivi com Fernando. Apeguei-me a ela como à minha aldeia. Gostaria de terminar lá meus dias.

Era domingo, um doce domingo de inverno austral, moderadamente ensolarado, modorrento. A parada de ônibus fica a dez minutos a pé da colina. Em quinze anos, o bairro não mudara nada. Eu revi os letreiros, os botecos, os casebres de outrora. Subi as escadas que conduzem à casinha que habitei, no alto da colina, à igrejinha azul celeste em seu topo. Uma vegetação extraordinária circundava a habitação e o santuário. Enormes tufos de bambu apontavam entre flamboyants, bosques de figueiras formavam, acima do caminho estreito que prolonga a escadaria, uma abóbada sob a qual avancei. Reconheci a casa, paredes desbotadas, mal conservada, que parecia servir agora de depósito. Encostei meus lábios sobre o reboco, amarelo e sujo, da fachada. Pela primeira vez após meu retorno ao Rio, as lágrimas me assomaram aos olhos.

Refleti por um longo momento, sentado na capela, acerca da passagem do tempo, as paixões que se extinguem, as metamorfoses da vida. Abandonei a colina e deixei para trás a casinha, os bambus, o santuário. Peguei de novo o ônibus que me levou ao centro da cidade, levemente melancólico, contente sem saber direito por que, e sonhador.

Eu ainda devaneava quando o veículo parou na Praça Tiradentes, ponto final das linhas do subúrbio. Um outro mundo, esta praça, uma outra história, uma outra geografia. Entre seu teatro João Caetano, seus botequins e gafieiras, seus cinemas porcos, seus petiscos e hotéis de má fama, uma fauna desclassificada e composta de todas as classes surge tão logo a noite cai. Em meio aos mendigos, aos paqueras, aos meninos vendedores de amendoins torradinhos, avaliam-se os travestis, os burgueses tornados vulgares, os gigolôs a dez centavos ou quinhentos cruzeiros, de acordo com a idade, o peso, as iscas. Ali se roçam as mulatas de aluguel, os encrenqueiros, os traficantes, os Don Juans de favela e veados ruidosos, exuberantes, envelhecidos, desdentados, vestindo às vezes em vez de blusas as cortinas de seus cortiços. Durante dois anos, atravessei diariamente este lugar. Vinha do meu subúrbio e tinha de baldear de ônibus para me dirigir àquela escola [Universidade Santa Úrsula] dos bairros elegantes onde dava cursos de francês a moças jovens bem nascidas, tediosas como as missas, em troca de um salário miserável mas católico. Ao pé da estátua de Tiradentes, que significa aquele que extrai dentes, herói da independência do país, aprendi mais sobre as classes sociais, sobre seus gostos secretos, seus desejos, do que em todos os tratados de sociologia, de antropologia, as crônicas e até os romances locais [na Praça Tiradentes situa-se a estátua de D. Pedro I].

Que fazem então essas mulheres em andrajos, essas crianças quase nuas e esses velhos, sentados em papelões, na rua da Carioca? A noite vem. Saio de uma livraria e topo com esses grupos humanos. As mães, muito jovens e já desgastadas por três ou quatro gravidezes, dão o seio a recém-nascidos ou distribuem tabefes. Outras mulheres insultam as pestinhas que escapam de seus golpes. Os termos mais grosseiros jorram. Os moleques lutam, as meninas enrolam o coque, bebês choram. E as velhas assistem, indiferentes, às brigas. Sentem frio. O tempo esfria. Elas se estendem e enrolam em velhos jornais. Os pedestres circulam, impassíveis, entre os corpos, os papelões. No largo, que também tem o nome da Carioca, reproduzem-se as mesmas cenas. Por toda parte mulheres esfarrapadas e sujas, truculentas, e por toda parte bandos de crianças descalças, vestidas com um simulacro de calça rígida de sujeira, muitas vezes rasgada. Toda essa gente é negra ou mestiça. Descem, com certeza, das favelas penduradas nos morros da cidade. Curiosamente, entre essa amostra da miséria local, não há homens. Recusam-se a se mostrar? Preferem ficar pelos botecos das favelas? Correm atrás de outras saias, mais limpas e menos esfarrapadas, vestindo corpos de pele mais clara? Um fato que se vê sempre, no Brasil, entre os mendigos, é dez vezes mais mulheres do que homens e cem vezes mais crianças. Aquelas que se acumulam, esta noite, no largo são talvez mães solteiras, uma condição grandemente compartilhada no subproletariado das cidades. Ou talvez seus maridos, após as terem engravidado várias vezes, simplesmente as abandonaram, o que é ainda mais comum. Assim prolifera, neste país, uma sub-humanidade. Um fato perturbador. Pergunta-se qual tipo de revolta poderá ser eficaz. O crime, o roubo, a revolução? Será o caso de acusar o próprio Deus, o Todo-Impotente? Por ora, procuro decifrar o que essa gente faz ali, enquanto, continuando a andar, observo outro grupo de miseráveis acocorado ao pé do rochedo sobre o qual se ergue a venerável igreja barroca e o convento de Santo Antônio. E de súbito compreendo. Amanhã, 13 de junho, é a festa do piedoso português que morreu em odor de santidade em Pádua. E, como todo ano, na aurora desse dia, os padres distribuirão aos pobres o pão. Os mais famintos vieram na frente. Eles se preparam para a vigília, assegurando assim alguma chance de arrebatar das mãos dos religiosos o seu quinhão.


"venerável igreja barroca e o convento de Santo Antônio"


24.2.22

MACHADO DE ASSIS CRONISTA

UMA VERSÃO RESUMIDA DESTA COLETÂNEA FOI PUBLICADA NO JORNAL O TREM ITABIRANO N. 192 DE FEVEREIRO DE 2022 (para fazer download, clique aqui)


Machado de Assis (Rio de Janeiro, 21/6/1839–29/9/1908), filho de mãe branca, açoriana, e de pai “pardo forro” (portanto, longe de ser um “negro” como queria Harold Bloom), além de suas vertentes de romancista e contista mais conhecidas do público leitor atual, foi também tipógrafo e revisor (no início da precoce vida profissional), repórter político (fazendo a cobertura das sessões do Senado), poeta romântico (que, ao contrário dos colegas de estro, não morreu jovem de tuberculose), crítico teatral, censor de peças de teatro, teatrólogo (com peças “datadas”, que não são mais encenadas), funcionário público (no bom sentido, trabalhador, usou de seu poder no serviço público para proteger os escravos), tradutor (sua tradução de Os trabalhadores do mar de Victor Hugo é lida até hoje), colunista de jornal. De 1859 (coluna “Aquarelas” em O Espelho) até 1900 (coluna “A Semana” no Diário de Notícias), escreveu os então chamados “folhetins” onde abordou, em textos plenos de ironia e senso de humor (por vezes com pitada de nonsense, como em “O melhor remédio para não morrer de febre amarela é... morrer de outra moléstia”), os assuntos da época. 

Cabe uma breve explanação sobre os termos “crônica” e “folhetim”. Crônica originalmente designava uma “compilação de fatos históricos” (ver Houaiss). O livro bíblico Crônicas relata episódios da história dos hebreus. A partir da segunda metade do século XIX, o termo passa a designar “um gênero híbrido, situando-se entre o jornalismo e a literatura, alimentando-se de acontecimentos do dia-a-dia” (Petar Petrov, “A Crônica Ensaística de Arnaldo Saraiva”). É neste sentido do termo que Machado de Assis assina uma coluna denominada CHRONICA na revista O Futuro. Já o folhetim era uma seção, geralmente na parte inferior da página do jornal, onde um escritor publicava uma coluna com uma crônica, ou um romance em capítulos (que poderia depois ser lançado em livro). Neste último sentido, nas novas mídias do século XX, deu lugar à “novela” de rádio e televisão.

Os melhores folhetins/crônicas machadianos foram reunidos em duas excelentes coletâneas que estão à venda no mercado: Machado de Assis (coleção Melhores Crônicas) da professora e pesquisadora da USP Salete de Almeida Cara e Crônicas escolhidas do machadólogo inglês John Gledson. Além disso, a Nova Fronteira acaba de lançar um box com três volumes reunindo as crônicas de Machado, organizadas por André Seffrin. Seguem-se trechos extraídos (em ordem alfabética de assunto) de crônicas do autor. Divirta-se! 

Alienado versus ajuizado

Nem sempre é fácil distinguir, neste fim de século, um alienado de um ajuizado; ao contrário, há destes que parecem aqueles, e vice-versa. Tu que me lês, podes ser um mentecapto, e talvez rias desta minha lembrança, tanta é a consciência que tens do teu juízo. Também pode ser que o mentecapto seja eu. [O tema da relatividade da doença mental havia sido explorado por Machado em “O Alienista”, de 1882.] (“A Semana”, Gazeta de Notícias, 30/8/1896)

 

Animais

Cada homem simpatiza com um animal. Há quem goste de cães: eu adoro-os. Um cão, sobretudo se me conhece, se não guarda a chácara de algum amigo, aonde vou, se não está dormindo, se não é leproso, se não tem dentes, oh! um cão é adorável.

Outros amam os gatos. São gostos; mas sempre notarei que esse quadrúpede pachorrento e voluptuoso é sobretudo amado dos homens e mulheres de certa idade.

Os pássaros tem seus crentes. Alguns gostam de todo o bicho careta. Não são raros os que gostam do bicho de cozinha.

Eu não gosto do cavalo.

Não gosto? Detesto-o; acho-o o mais intolerável dos quadrúpedes. É um fátuo, é um pérfido, é um animal corruto. Sob pretexto de que os poetas o têm cantado de um modo épico ou de um modo lírico; de que é nobre; amigo do homem; de que vai à guerra; de que conduz moças bonitas; de que puxa coches; sob o pretexto de uma infinidade de complacências que temos para com ele, o cavalo parece esmagar-nos com sua superioridade. Ele olha para nós com desprezo, relincha, prega-nos sustos, faz Hipólito em estilhas. É um elegante perverso, um tratante bem educado; nada mais.

Vejam o burro. Que mansidão! Que filantropia! Esse puxa a carroça que nos traz água, faz andar a nora, e muitas vezes o genro, carrega fruta, carvão e hortaliças, — puxa o bond [bonde], coisas todas úteis e necessárias. No meio de tudo isso apanha e não se volta contra quem lhe dá. Dizem que é teimoso. Pode ser; algum defeito é natural que tenha um animal de tantos e tão variados méritos. Mas ser teimoso é algum pecado mortal? Além de teimoso, escoiceia alguma vez; mas o coice, que no cavalo é uma perversidade, no burro é um argumento, ultima ratio. (“História de Quinze Dias”, Ilustração Brasileira, 15/8/1876)

 

Ano Novo

Devo despedir-me dos leitores até para o ano. O de 1861 está a retirar-se, e o de 1862 bate à porta. Como todo ano novo, este antolha-se rico de esperanças, com uma cornucópia inesgotável de felicidades. Como todo o ano velho, o de 1861 desaparece coberto de maldições. (“Comentários da Semana”, Diário do Rio de Janeiro, 29/12/1861)

 

Abre-se o ano de 63. Com ele se renovam esperanças, com ele se fortalecem desanimados. Reunida à família em torno da mesa, hoje mais galharda e profusa, festeja o ano que alvoroce, de rosto alegre e desafogado coração. 62, decrépito, enrugado, quebrantado e mal visto, rói a um canto o pão negro do desgosto que lhe atiram tantas esperanças malogradas, tantas confianças iludidas. Pobre ano de 62! Deverei eu entrar no coro dos acusadores? Que podias fazer? Tiveste contra ti os elementos, o céu e a terra, os homens e as coisas; a tua vontade era sincera, mas a tua força era comparativamente nula. Toma o bordão e segue o caminho da eternidade; olha sem desgosto as festas com que é recebido teu jovem irmão; daqui a doze meses, estará como tu, velho, enrugado, mal visto e apupado. É a eterna ordem das coisas. (Crônicas, O Futuro, 1/1/1863

 

Antirrepublicanismo

Quanto às minhas opiniões públicas, tenho duas, uma impossível, outra realizada. A impossível é a republica de Platão. A realizada é o sistema representativo. É sobretudo como brasileiro que me agrada esta última opinião, e eu peço aos deuses (também creio nos deuses) que afastem do Brasil o sistema republicano, porque esse dia seria o do nascimento da mais insolente aristocracia que o sol jamais iluminou..

Não frequento o paço, mas gosto do imperador. Tem as duas qualidades essenciais ao chefe de uma nação: é esclarecido e honesto. Ama o seu país e acha que ele merece todos os sacrifícios. (“Cartas Fluminenses”, Diário do Rio de Janeiro, 5/3/1867)

 

Anúncio de casamento

“Uma viúva interessante, distinta, de boa família e independente de meios, deseja encontrar por esposo um homem de meia idade, sério, instruído, e também com meios de vida, que esteja como ela cansado de viver só; resposta por carta ao escritório desta folha, com as iniciais M. R..., anunciando, a fim de ser procurada essa carta”.

 

Gentil viúva, eu não sou o homem que procuras, mas desejava ver-te, ou, quando menos, possuir o teu retrato, porque tu não és qualquer pessoa, tu vales alguma coisa mais que o comum das mulheres. Ai de quem está só! dizem as sagradas letras; mas não foi a religião que te inspirou esse anúncio. Nem motivo teológico, nem metafísico. Positivo também não, porque o positivismo é infenso às segundas núpcias. Que foi então, senão a triste, longa e aborrecida experiência? Não queres amar; estás cansada de viver só.

E a cláusula de ser o esposo outro aborrecido, farto de solidão, mostra que tu não queres enganar, nem sacrificar ninguém. Ficam desde já excluídos os sonhadores, os que amem o mistério e procurem justamente esta ocasião de comprar um bilhete na loteria da vida. Que não pedes um diálogo de amor, é claro, desde que impões a cláusula da meia idade, zona em que as paixões, arrefecem, onde as flores vão perdendo a pôr purpúrea e o viço eterno. Não há de ser um náufrago, à espera de uma taboa de salvação, pois que exiges que também possua. E há de ser instruído, para encher com as luzes do espírito as longas noites do coração, e contar (sem as mãos presas) a tomada de Constantinopla.

Viúva dos meus pecados, quem és tu, que sabes tanto? (“A Semana”, Gazeta de Notícias, 17/7/1892)

 

Artes, mau gosto das

Acho triste que certo gênero de arte ande muito em moda entre nós, e que se perdessem as tradições das boas obras e do bom gosto. (“Pontos e Vírgulas”, Semana Ilustrada, 10/11/1867)


Astronomia

A astronomia é, com efeito, uma bebedeira de léguas. As léguas são as polegadas do espaço. O menos que ali há, são milhares. Dá vertigem a leitura daqueles milhões de bilhões de trilhões de quatrilhões. Entendamo-nos: dá vertigem aos meus amigos, porque eu cá, – falo a minha verdade – acho que é muito mais longe ir a pé daqui da Rua do Ouvidor ao saco do Alferes [enseada, no atual bairro do Santo Cristo, que com a construção do cais do porto, desapareceu]. Que são trilhões de trilhões de léguas, em relação ao infinito? Nada; ao passo que daqui ao saco do Alferes é deveras um estirão [caminhada extensa]. (“Balas de Estalo”, Gazeta de Notícias, 23/8/1885)

 

O que me agrada particularmente nos mestres da astronomia são os algarismos. Como essa gente joga os milhões e bilhões! Para eles umas mil léguas representam pouco mais que de Botafogo ao Catete… […] E o tempo? Quem não tiver cabeça rija cai por força no chão; dá vertigens todo esse turbilhão de números inumeráveis. Ainda não vi astrônomo que, metendo a mão no bolso, não trouxesse pegados aos dedos uns dez mil anos pelo menos. Como lhes devem parecer ridículas as nossas semanas! A própria moeda nacional, inventada para dar estímulo e grandeza à gente, os seiscentos, os oitocentos mil-réis, que tanto assombram o estrangeiro novato, para os astrônomos valem pouco mais que coisa nenhuma. Falem-lhes de milhões para cima.

Se eu tivesse vagar ou disposição, puxava os colarinhos à filosofia e diria naquele estilo próprio do assunto que esta nossa deleitação a respeito dos trilhões astronômicos é um modo de consolar a brevidade dos nossos dias e do nosso tamanho. Parece-nos assim que nós é que inventamos os tempos e os espaços; e não somente as dimensões e os nomes. Uma vez que os inventamos, é que eles estavam em nós.

Muita gente ficará confusa com o milhão de séculos de duração da Terra. Outras dirão que, se isto não é eterno, não vale a pena escrever nem esculpir ou pintar. Lá, eterno como se costuma dizer, não é; mas aí uns dez séculos, ou mesmo cinco, é o que se pode chamar (com perdão da palavra) um retalho de eternidade. (“Bons Dias”, Gazeta de Notícias, 26/8/1888)

 

Aterro da Baía da Guanabara

Entre parêntesis, não se pense que sou oposto a qualquer idéia de aterrar parte da nossa baía. Sou de opinião que temos baía de mais. O nosso comércio marítimo é vasto e numeroso, mas este porto comporta mil vezes mais navios dos que entram aqui, carregam e descarregam, e para que há de ficar inútil uma parte do mar? Calculemos que se aterrava metade dele; era o mesmo que alargar a cidade. Ruas novas, casas e casas, tudo isso rendia mais que a simples vista da água movediça e sem préstimo. [Aparentemente trata-se de ironia, mas Machado mal imaginava que um dia a baía seria aterrada, sim, para a construção de um parque!] (“A Semana”, Gazeta de Notícias, 25/2/1894)

 

Bom senso, perda do

Ó Bom Senso! ó desterrado do século! quando voltarás a este mundo para repor as coisas nos seus eixos? Sem ti matam-se e descompõem-se os homens, fazem-se desfazem-se governos, cruzam-se os interesses, campeia a vaidade, domina a força, sob todas as formas, da espada e do número, sem ti andamos em perpétuo conflito, sem ti vamos ter a política-xadrez, a política-uniformidade, a política-alinhamento. Quando voltarás a este mundo, ó Bom Senso, ó meu amigo? (“Pontos e Vírgulas”, Semana Ilustrada, 13/12/1868)


Bondes elétricos, inauguração

Não tendo assistido a inauguração dos bonds elétricos, deixei de falar neles. Nem sequer entrei em algum, mais tarde, para receber as impressões da nova tração e contá-las. Daí o meu silêncio da outra semana. Anteontem, porém, indo pela Praia da Lapa, em um bond comum, encontrei um dos elétricos, que descia. Era o primeiro que estes meus olhos viam andar.

Para não mentir, direi o que me impressionou, antes da eletricidade, foi o gesto do cocheiro [por força do hábito, Machado chama o condutor do bonde elétrico de “cocheiro”]. Os olhos do homem passavam por cima da gente que ia no meu bond, com um grande ar de superioridade. Posto não fosse feio, não eram as prendas físicas que lhe davam aquele aspecto. Sentia-se nele a convicção de que inventara, não só o bond elétrico, mas a própria eletricidade. [...]

Em seguida, admirei a marcha serena do bond, deslizando como os barcos dos poetas, ao sopro da brisa invisível e amiga. Mas, como íamos em sentido contrário, não tardou que nos perdêssemos de vista, dobrando ele para o Largo da Lapa e Rua do Passeio, e entrando eu na Rua do Catete. Nem por isso o perdi de memória. (“A Semana”, Gazeta de Notícias, 16/10/1892)

 

Bonde elétrico, foto de 3/4/1907 de Augusto Malta

Calor carioca

O prazo é longo, mas desta vez a história é curta.

Porquanto: — eu não posso gastar cinquenta resmas de papel a dizer:

— Que calor!

—Faz muito calor!

— O calor esteve horrível.

— Estamos ameaçados de uma horrível seca!

—Etc.

—Etc.

Posso? Não posso. Seria matar-me a mim e ao leitor, — dois casos graves, e não sei qual deles mais grave, não sei. Talvez... não, não digo; sejamos modestos e não magoemos o leitor.

Ora, a história do mês passado não é outra. Aqui e ali um acontecimento, raro, medroso e pálido com algumas exceções), mas a grande história, essa pertence ao fogo lento com que este verão assentou de matar-nos.

Felizes os que verão a Petrópolis, Teresópolis, Friburgo, todas essas cidades de nomes gregos ou germânicos, e clima ainda mais germânico do que grego. Esses não sabem o que é pôr a alma pela boca fora, trabalhar suando, como suam as bicas da rua; não sabem o que é ter brotoeja, não dormir, não comer, e (daqui a pouco tempo) não beber ...

Tu e eu, leitor agarrado à capital, tu e eu sabemos o que foi o demônio do Fevereiro, mês inventado pelo diabo. Logo, escusa contar-te a história do calor, que tu sabes tanto como eu, talvez melhor do que eu. (“História dos Trinta Dias”, Ilustração Brasileira, março de 1878)

 

Carrapatos

Vê-se perfeitamente que Deus, depois de formado o grandioso da Criação, quis também mostrar a sua divina perfeição dando vida aos átomos da matéria. É grandeza descer até os insetos! O inseto não é uma excrescência na vida do Cosmos, é uma verdade da harmonia estabelecida pela mão de Deus. Perguntai ao inseto por que existe. Dar-vos-á ele: — Porque existe o homem. Era preciso o contrabalanço nos seres surgidos do caos. O elefante erguia a tromba, o condor esvoaçava entre as nuvens, a baleia chafarizava nos mares, a boa constritor desenrolava-se nas estradas. O inseto tornava-se uma necessidade. Entre as miríadas de insetos, que volteiam nos ares, chamejam nas ervas, escorregam pelos charcos, animalizam a atmosfera, ou se entranham pelas carnes, distingue-se o carrapato, que, pelo seu perfume (ao princípio asqueroso, mas depois reconhecido como muito suave e medicinal), e pela forma chata e arredondada do seu corpo, faz-se querido e apreciado do homem, que, se não for ingrato, deve mostrar-se reconhecido à amizade que lhe consagra, prendendo-se-lhe ao corpo e sugando-lhe o sangue. (Carrapatos Políticos, Crônicas do Dr. Semana, Semana Ilustrada, 28/9/1862)

 

Catastrofismo

Um jornal desta Corte deu, há dias, aos seus leitores uma notícia tão grave quão sucinta. É nada menos que a predição de uma catástrofe universal. Diz a folha que o professor Newmager, de Melbourne, prediz que em 1865 um cometa passará tão próximo à terra, que esta corre sérios riscos de perecer. Renovam-se, pois, os sustos causados pela profecia do cometa 13 de junho, sustos que, por felicidade nossa, não foram confirmados pela realidade. A terra, que tem escapado a tantos cometas – aos celestes, como o de Carlos V [cometa de Halley em 1831] – aos terrestres, como o rei dos Hunos – aos marinhos, como os piratas normandos — a terra acha-se de novo ameaçada de ser absorvida por um dos ferozes judeus errantes do espaço. (“Ao Acaso”, Diário do Rio de Janeiro, 3/7/1864) [Em crônica de 31/1/1865 neste mesmo jornal, Machado relata que “o cometa paira sobre nossas cabeças, mas é um cometa inofensivo, tênue, descorado, que ainda não destruiu a menor coisa, e que promete retirar-se em perfeito estado de paz” Em 1973, a mesma sequência de expectativas estrondosas/decepção deu-se com o Cometa Kohoutek.]

 

Chineses, capacidade de trabalho

Depois, o trabalho. Que outro bicho humano iguala o Chim [chinês]? Um cego, entre nós, pega da viola e vai pedir esmola cantando. Ora, o padre João de Lucena refere que na China todos os cegos trabalham de um modo original. São distribuídos pelas casas particulares e postos a moer arroz ou trigo, mas de dois em dois, “porque fique assim a cada um menos pesado o trabalho com a companhia e conversação do outro”. Os aleijados, se não têm pernas, trabalham de mãos; os que não tem braços, andam ao ganho com uma cesta pendurada ao pescoço, para levar compras às casas dos que os chamam, — ou servem de correio a pé. Aproveita-se ali até o último caco de homem. (“A Semana”, Gazeta de Notícias, 18/9/1892)

 

Chuva

Além de outras diferenças que se podem notar entre o sol e a chuva, há esta – que o sol, quando nasce, é para todos, como diziam as tabuletas de charutaria de outro tempo, e a chuva e só para alguns.

Hoje, por exemplo, levanto-me com chuva, e fico logo aborrecido, desejando não sair de casa, não ler, não escrever, não pensar – não fazer nada. A mesma coisa acontece ao leitor, com a diferença que ele faz ou não faz nada se quer, e eu hei de pegar do papel e da tinta, e escrever para aí alguma coisa, tenha ou não vontade e assunto. (“Balas de Estalo”, Gazeta de Notícias, 26/10/1885)

 

Colônia da Inglaterra

Dizem que somos colônia da Inglaterra; não sei se somos, mas é preciso provar que não. (“Comentários da Semana”, Diário do Rio de Janeiro, 10/11/1861)

 

Constantinopla

Dizem os que têm visitado a antiga cidade de Constantino que há uma grande diferença entre um cemitério turco e um cemitério cristão. Aquele não inspira o sentimento que se experimenta quando se entra neste. O turco entrelaça a morte à vida, de modo que não se passeia com terror ou melancolia entre duas alas de túmulos. A razão desta diferença parece estar na própria religião. O que quereis que seja a morte para um povo a quem se promete na eternidade, a eternidade dos gozos mais voluptuosos que a imaginação mais viva pode imaginar? Esse povo, que vive no requinte dos prazeres materiais, só entende o que fala aos sentidos, e considera bem aventurados os que morreram que já gozam ou estão perto de gozar os prazeres prometidos pelo profeta. (“Comentários da Semana”, Diário do Rio de Janeiro, 1/11/1861)

 

Conto do vigário

De quando em quando aparece-nos o conto do vigário. Tivemo-lo esta semana, bem contado, bem ouvido, bem vendido, porque os autores da composição puderam receber integralmente os lucros do editor. O conto do vigário é o mais antigo gênero de ficção que se conhece. A rigor, pode crer-se que o discurso da serpente, induzindo Eva a comer o fruto proibido, foi o texto primitivo do conto. (“A Semana”, Gazeta de Notícias, 31/3/1895)

 

Cruzeiro como nome da nossa moeda

Tem a Inglaterra a sua libra, a França o seu franco, os Estados Unidos o seu dólar, por que não teríamos nós nossa moeda batizada? Em vez de designá-la por um número, e por um número ideal – vinte mil-réis – por que lhe não poremos um nome – cruzeiro – por exemplo? Cruzeiro não é pior que outros, e tem a vantagem de ser nome e de ser nosso. Imagino até o desenho da moeda; e de um lado a efígie imperial, do outro a constelação... Um cruzeiro, cinco cruzeiros, vinte cruzeiros. [A unidade monetária brasileira viria a receber o nome sugerido por Machado de Assis em 5 de outubro de 1942, sendo que a de 100 ostentaria a efígie imperial, de D. Pedro II.] (“Bons Dias”, Gazeta de Notícias, 30/3/1889)

 

Desenvolvimento do Brasil, obstáculo ao

Mercê de Deus, não é capacidade que nos falta; talvez alguma indolência e certamente a mania de preferir o estrangeiro, eis o que até hoje tem servido de obstáculo ao desenvolvimento do nosso gênio industrial. E pode-se dizê-lo, não é uma simples falta, é um pecado ter um país tão opulento e desperdiçar os dons que ele nos oferece, sem nos prepararmos para essa existência pacífica de trabalho que o futuro prepara às nações. (“Comentários da Semana”, Diário do Rio de Janeiro, 1/12/1861)

 

Dilúvio

O velho Dumas, ou Dumas I, em uma daquelas suas deliciosas fantasias escreveu esta frase: “Um dia, os anjos viram uma lágrima nos olhos do Senhor: essa lágrima foi o dilúvio.”

Uma lágrima! Ai, uma lágrima! Quem nos dera essa lágrima única! Mas o mundo cresceu do dilúvio para cá, a tal ponto que um lágrima apenas chegaria a alagar Sergipe ou a Bélgica. Agora, quando os anjos vêem alguma coisa nos olhos do Senhor, já não é aquela gota solitária, que tombou e alagou um mundo nascente e mal povoado. Caem as lágrimas às quatro e quatro, às vinte e vinte, às cem e cem, é um pranto desfeito, uma lamentação contínua, um gemer que se desfaz em ventos impetuosos, contra os quais nada podem os homens, nem as minhas árvores, que se estorcem com desespero. (“A Semana”, Gazeta de Notícias, 29/5/1892)

 

Espiritismo

Há muito que os espíritas afirmam que os mortos escrevem pelos dedos dos vivos. Tudo é possível neste mundo e neste final de um grande século. (“A Semana”, Gazeta de Notícias, 13/9/1896)

 

Mal adivinham os leitores onde estive sexta-feira. Lá vai; estive na sala da Federação Espírita Brasileira, onde ouvi a conferência que fez o Sr. M. F. Figueira sobre o espiritismo.

Sei que isto, que é uma novidade para os leitores, não o é menos para própria Federação, que me não viu, nem me convidou; mas foi isto mesmo que me converteu à doutrina, foi este caso inesperado de lá entrar, ficar, ouvir e sair, sem que ninguém desse pela coisa.

Confesso a minha verdade. Desde que li em um artigo de um ilustre amigo meu, distinto médico, a lista das pessoas eminentes que na Europa acreditam no espiritismo, comecei a duvidar da minha dúvida. Eu, em geral, creio em tudo aquilo que na Europa é acreditado. Será obcecação, preconceito, mania, mas é assim mesmo, e já agora não mudo, nem que me rachem. Portanto, duvidei, e ainda bem que duvidei de mim.

Estava à porta do espiritismo; a conferência de sexta-feira abriu-me a sala de verdade.

Achava-me em casa, e disse comigo, dentro d'alma, que, se me fosse dado ir em espírito à sala da Federação, assistir à conferência, jurava converter-me à doutrina nova.

De repente, senti uma coisa subir-me pelas pernas acima, enquanto outra coisa descia pela espinha abaixo; dei um estalo e achei-me em espírito, no ar. No chão jazia o meu triste corpo, feito cadáver. Olhei para um espelho, a ver se me via, e não vi nada; estava totalmente espiritual. Corri à janela, saí, atravessei a cidade, por cima das casas, até entrara na sala da Federação. (“Balas de Estalo”, Gazeta de Notícias, 5/10/1885)

 

Estrada de ferro

Nenhum homem de gosto, que tenha em apreço as maravilhas da natureza e os prodígios do braço humano, pôde deixar de ir ver, ao menos uma vez na vida, os trabalhos arrojados e os panoramas esplendidos que lhe oferece uma viagem pela estrada de ferro de D. Pedro II.

Direi mesmo que ali a natureza cede o passo ao homem, tão pasmosas são as dificuldades que a perseverança e a ciência conseguiram vencer.

O futuro das estradas de ferro no Brasil está garantido e seguro. Quem venceu até hoje, vencerá o que falta. (“Ao Acaso”, Diário do Rio de Janeiro, 26/9/1864)

 

Inauguração da Estrada de Ferro Pedro II em 29 de março de 1858

Evangelho do Diabo, versículos 20 e 21

“20. Não queirais guardar para vós tesouros na terra, onde a ferrugem e a traça os consomem, e donde os ladrões os tiram e levam.

“21. Mas remetei os vossos tesouros para algum banco de Londres, onde nem a ferrugem, nem a traça os consomem, nem os ladrões os roubam, e onde ireis vê-los no dia do juízo. (“A Semana”, Gazeta de Notícias, 4/9/1892)

 

Feminismo

Eu quisera uma nação, onde a organização política e administrativa parasse nas mãos do sexo amável, onde, desde a chave dos poderes até o último lugar de amanuense, tudo fosse ocupado por essa formosa metade da humanidade. O sistema político seria eletivo. A beleza e o espírito seriam as qualidades requeridas para os altos cargos do Estado, e aos homens competiria exclusivamente o direito de votar. (“Comentários da Semana”, Diário do Rio de Janeiro, 21/11/1861)


Uma mulher com cem defeitos é preferível a um homem com dez defeitos apenas. Falo dos defeitos morais, porque os físicos... (“Conversa com as Mulheres”, Semana Ilustrada, 28/5-18/6/1865)


 Melhor notícia do que essa é a de ter sido aprovada, na Bahia, uma senhora que fez exame de dentista. Registro o acontecimento, com o mesmo prazer com que tomo nota de outros análogos; vai-se acabando a tradição, que excluía o belo sexo do exercício de funções, até agora unicamente masculinas. É um característico do século: a mulher está perdendo a superstição do homem. Tomou-lhe o pulso; compreendeu que se ele fez a guerra de Troia, e se serviu quatorze anos a Labão, foi unicamente por causa dela; e desde que o reconheceu, subjugou-o. (“Notas Semanais”, O Cruzeiro, 30/6/1878)

 

Finanças, ignorância sobre

E por que não sei eu finanças? Por que, ao lado dos dotes nativos com que aprouve ao céu distinguir-me entre os homens, não possuo a ciência financeira? Por que ignoro eu a teoria do imposto, a lei do câmbio, e mal distingo dez mil-réis de dez tostões? Nos bonds [bondes] é que me sinto vexado. Há sempre três e quatro pessoas (principalmente agora) que tratam das coisas financeiras e econômicas, e das causas das coisas, com tal ardor e autoridade, que me oprimem. É então que eu leio algum jornal, se o levo, ou roo as unhas, — vício dispensável; mas antes vicioso que ignorante. (“A Semana”, Gazeta de Notícias, 14/8/1892)

 

Guanabara

Tudo pode acontecer. Um dia, quem sabe? Lançaremos uma ponte entre esta cidade e Niterói, uma ponte política, entenda-se, nada impedindo que também se faça uma ponte de ferro. A ponte política ligará os dois Estados, pois que somos todos fluminenses, e esta cidade passará de capital de si mesma a capital de um grande Estado único, a que se dará o nome de Guanabara. [A ponte Rio-Niterói foi inaugurada em 1974; o Estado da Guanabara existiu de 1960 a 1975.] (“A Semana”, Gazeta de Notícias, 7/6/1896)

 

Hamlet

Eu, se tivesse de dar Hamlet em língua puramente carioca, traduziria a célebre resposta do príncipe da Dinamarca: Words, words, words, por esta: Boatos, boatos, boatos. Com efeito, não há outra que melhor diga o sentido do grande melancólico. Palavras, boatos, poeira, nada, coisa nenhuma. (“A Semana”, Gazeta de Notícias, 23/4/1893)

 

Inglês

Li até, que um condenado à morte, perguntando-se-lhe, na manhã do dia da execução, o que queria, respondeu que queria aprender inglês. Há de ser invenção; mas achei o desejo verossímil, não só pelo motivo aparente de dilatar a execução, mas ainda por outro mais sutil e profundo. A língua inglesa é tão universal, tem penetrado de tal modo em todas as partes deste mundo, que provavelmente é a língua do outro mundo. O réu não queria entrar estrangeiro no reino dos mortos. (“A Semana”, Gazeta de Notícias, 25/6/1893)


Intolerância

Causa tédio ver como se caluniam os caracteres, como se deturpam as opiniões, como se invertem as ideias a favor de interesses transitórios e materiais, e da exclusão de toda a opinião que não comunga com a dominante. (“Comentários da Semana”, Diário do Rio de Janeiro, 22/2/1862)

 

Inverno

Eu adoro o frio: talvez por ser filho dele; nasci no próprio dia em que o nosso inverno começa. [Machado nasceu em 21 de junho de 1839.] (“A Semana”, Gazeta de Notícias, 1/8/1893)

 

Jogo do bicho

Venceu o burro. Digo venceu para usar do termo impresso; mas o verbo da conversação é dar. Deu o burro, amanhã dará o macaco, depois dará a onça, etc. Sexta-feira, achando-me numa loja, vi entrar um mancebo, extraordinariamente jovial, — por natureza ou por outra coisa — e bradava que tinha dado a avestruz, expressão obscura para quem não conhece os costumes dos nossos animais. É mais breve, mais viva, e não duvido que mais verdadeira. Não duvido de nada. A zoologia corre assim parelha com a loteria, e tudo acaba em ciência, que é o fim da humanidade. (“A Semana”, Gazeta de Notícias, 17/3/1895)

 

Jogo do bicho (gravura do início do século XX)

Jóqueis, suborno dos

Parece que um ou mais diretores de clubes esportivos acusaram os book-makers de atos de corrupção. Já apanhei a questão no meio, não posso dar todos os pormenores. Trata-se do suborno de jóqueis, para que estes façam perder os cavalos que lhes estão confiados, a fim de que tais e tais outros ganhem. Justamente indignados, os book-makers repeliram a acusação, retorquindo que os próprios diretores é que subornam os jóqueis. Não tendo fundamento para crer em nenhum dos dois libelos, rejeito-os ambos. Uma coisa, porém, é afirmada por uma e outra banda, e dada por verdadeira: é que há jóqueis subornados.

Este é o ponto. É o que se pode chamar uma bela sociedade. Todos os domingos e dias feriados, centenas de pessoas atiram-se aos prados de corridas. Outras centenas, menos andareiras, deixam-se ficar aqui mesmo, apostando pelo telefone. (“A Semana”, Gazeta de Notícias, 2/4/1893)

 

Jornais antigos

Ó doce, ó longa, ó inexprimível melancolia dos jornais velhos! Conhece-se um homem diante de um deles. Pessoa que não sentir alguma coisa ao ler folhas de meio século, bem pode crer que não terá nunca uma das mais profundas sensações da vida, - igual ou quase igual à que dá a vista das ruínas de uma civilização. Não é a saudades piegas, mas a recomposição do extinto, a revivescência do passado, a maneira de Ebers, a alucinação erudita da vida e do movimento que parou. Jornal antigo é melhor que cemitério, por esta razão que no cemitério tudo está morto, enquanto que no jornal está tudo vivo. Os letreiros sepulcrais, sobre monótonos, são definitivos: aqui jaz, aqui descansam, orai por ele! As letras impressas na gazeta antiga são variadas, as notícias aparecem recentes; é a galera que sai, a peça que se está representando, o baile de ontem, a romaria de amanhã, uma explicação, um discurso, dois agradecimentos, muitos elogios; é a própria vida em ação. (“Bons Dias”, Gazeta de Notícias, 14/6/1889)

 

Lei Áurea

Houve sol, e grande sol, naquele domingo de 1888, em que o Senado votou a lei, que a regente sancionou, e todos saímos à rua. Sim, também eu saí à rua, eu o mais encolhido dos caramujos, também eu entrei no préstito, em carruagem aberta, se me fazem favor, hóspede de um gordo amigo ausente; todos respiravam felicidade, tudo era delírio. Verdadeiramente, foi o único dia de delírio público que me lembra ter visto. (“A Semana”, Gazeta de Notícias, 14/5/1893)

 

Leitura, falta de

[O] nosso movimento literário é dos mais insignificantes possíveis. Poucos livros se publicam e ainda menos se leem. Aprecia-se mundo a leitura superficial e palhenta, do mal travado e bem acidentado romance, mas não passa daí o pecúlio literário do povo. (“Comentários da Semana”, Diário do Rio de Janeiro, 24/3/1862)

 

Libertação dos escravos

De interesse geral é o fundo da emancipação, pelo qual se acham libertados em alguns municípios 230 escravos. Só em alguns municípios!

Esperemos que o número será grande quando a libertação estiver feita em todo o império.

A lei de 28 de setembro fez agora cinco anos. Deus lhe dê vida e saúde! Esta lei foi um grande passo na nossa vida. Se tivesse vindo uns trinta anos antes estávamos em outras condições.

Mas há 30 anos, não veio a lei, mas vinham ainda escravos, por contrabando, e vendiam-se às escancaras no Valongo. Além da venda, havia o calabouço. Um homem do meu conhecimento suspira pelo azorrague .

– Hoje os escravos estão altanados, costuma ele dizer. Se a gente dá uma sova num, há logo quem intervenha e até chame a polícia. Bons tempos os que lá vão! Eu ainda me lembro quando a gente via passar um preto escorrendo em sangue, e dizia: "Anda diabo, não estás assim pelo que eu fiz!" — Hoje...

E o homem solta um suspiro, tão de dentro, tão do coração... que faz cortar o dito. Le pauvre homme! (“História de Quinze Dias”, Ilustração Brasileira, 1/10/1876)

 

Mato Grosso, tentativa separatista nos primórdios da República

Mato Grosso foi o assunto principal da semana. Nunca ele esteve menos Mato, nem mais Grosso. Tudo se esperava daquelas paragens, exceto uma república, se são exatas as notícias que o afirmam, porque há outras que o negam; mas neste caso a minha regra é crer, principalmente se há telegrama. Ninguém imagina a fé que tenho em telegramas. Demais, folhas européias de 13 a 14 do mês passado, falam da nova república transatlântica como de coisa feita e acabada. Algumas descrevem a bandeira.

Duas dessas folhas (por sinal que londrinas) chegam a aconselhar ao governo da União que abandone Mato Grosso, por lhe dar muito trabalho e ficar longe, sem real proveito. Se eu fosse governo, aceitava o conselho, e pregava uma boa peça à nova república, abandonando-a, não à sua sorte, como dizem as duas folhas, mas à Inglaterra. A Inglaterra também perdia no negócio, porque o novo território ficava-lhe muito mais longe; mas, sendo sua obrigação não deixar terra sem amanho, tinha de suar o topete só em extrair minerais, desbastar, colonizar, pregar, fazer em suma de Mato Grosso um mato fino.

Eu, rigorosamente, não tenho nada com isto. Não perco uma unha do pé nem da mão, se perdermos Mato Grosso. E não é melhor que me fique antes a unha que Mato Grosso? Em que é que Mato Grosso é meu? (“A Semana”, Gazeta de Notícias, 8/5/1892)

 

Mediocridade

Em nosso país a vulgaridade é um título, a mediocridade um brasão; para os que têm a fortuna de não se alarem além de uma esfera comum é que nos fornos do estado se coze e tosta o apetitoso pão-de-ló, que é depois repartido por eles, para glória de Deus e da pátria. (“Comentários da Semana”, Diário do Rio de Janeiro, 1/11/1861)


Mocidade versus velhice

Se a velhice quer dizer cabelos brancos, se a mocidade quer dizer ilusões fracas, não sou moço nem velho. Realizo literalmente a expressão francesa: Un homme entre deux âges. Estou tão longe da infância como da decrepitude; não anseio pelo futuro, mas também não choro pelo passado. Nisto sou exceção dos outros homens que, de ordinário, diz um romancista, passam a primeira metade da vida a desejar a segunda, e a segunda a ter saudades da primeira. (“Cartas Fluminenses”, Diário do Rio de Janeiro, 5/3/1867)

 

Morte

Qualquer de nós teria organizado este mundo melhor do que saiu. A morte, por exemplo, bem podia ser tão-somente a aposentadoria da vida, com prazo certo. Ninguém iria por moléstia ou  desastre, mas por natural invalidez [...] (“A Semana”, Gazeta de Notícias, 6/9/1896)

 

Mulheres

Dedico este folhetim às damas.

Já me aconteceu ouvir, a poucas horas de intervalo e a poucas braças de distância, duas respostas contrárias a esta mesma pergunta:

– Que é a mulher?

Um respondeu que a mulher era a melhor coisa do mundo; outro que era a pior.

O primeiro amava e era amado; o segundo amava, mas não o era. Cada um apreciava no ponto de vista do sentimento pessoal.

Entre as duas definições eu prefiro uma terceira, a de La-Bruyère:

– As mulheres não têm meio termo: são melhores ou piores que os homens. (“Ao Acaso”, Diário do Rio de Janeiro, 7/2/1865)

 

Estudo de Moça (acervo da Biblioteca Nacional)

Noé, arca de

Quinta-feira de manhã fiz como Noé, abri a janela da arca e soltei um corvo. Mas o corvo não tornou, de onde inferi que as cataratas do céu e as fontes do abismo continuavam escancaradas. Então disse comigo: As águas hão de acabar algum dia. Tempo virá em que este dilúvio termine de uma vez para sempre, e a gente possa descer e palmear a Rua do Ouvidor e outros becos. Sim, nem sempre há de chover. Veremos ainda o céu azul como a alma da gente nova. O sol, deitando fora a carapuça, espalhará outra vez os grandes cabelos louros. Brotarão as ervas. As flores deitarão aromas capitosos. (“A Semana”, Gazeta de Notícias, 1/7/1894)

 

Nonsense

Tumores sub epidérmicos. — Operei 200. Estes tumores são formados por uma substância perlea mais ou menos consistente. Opero-os com uma simples manobra digital, ou quando muito com o auxílio da extremidade aberta do cilindro oco da chave da máquina gnomônica de Nuremberg. Todos quantos operei eram do rosto, e foram coroados de sucesso. (Clínica cirúrgica do Dr. Semana, Crônicas do Dr. Semana, Semana Ilustrada, 8/12/1861)

 

Prometo [...] escrever a favor do comércio, da indústria da agricultura, da política, das artes, das ciências, das letras, das tretas, das ruas, das praças, dos becos, dos largos, dos fiscais, dos teatros, das câmaras municipais, dos permanentes, da armada, do exército, das finanças, dos veículos, do asseio público, da polícia, do clero, do povo, dos advogados, dos médicos, das parteiras, dos senadores, dos deputados, dos alfaiates, das camiseiras, das irmandades, dos jornalistas, dos colégios (em geral), dos capitalistas, dos banqueiros, dos proprietários, da guarda nacional, dos carniceiros, dos solicitadores, dos engenheiros, dos construtores, dos estaleiros, dos náuticos, dos homeopatas, das casas de saúde, dos dentistas, dos pedicuros, dos veterinários, dos boticários, dos taquígrafos, dos pintores, dos estatuários, dos professores de línguas, das bordadeiras, dos esgrimidores, dos ginásticos, dos músicos, dos afinadores, dos organistas, dos arquitetos, dos guarda-livros, dos agentes, dos contadores, dos negociantes, dos consignatários, dos mercadores, dos livreiros, dos aferidores, dos ourives, dos cerieiros, dos chapeleiros, dos charuteiros, dos bengaleiros, dos coristas, dos droguistas, dos curtidores, dos fruteiros, dos cerniceiros, dos armadores, dos lojistas, dos ferragistas, dos gravadores, dos marmoristas, dos fogueteiros, dos louceiros, das modistas, dos cabeleireiros, dos barbeiros, dos tabaqueiros, dos arrieiros, dos sementeiros, dos cutileiros, dos tintureiros, dos lapidários, dos cambistas, dos rebatedores, dos leiloeiros, dos despachantes, das floristas, dos trapicheiros, dos cocheiros, dos carros, dos tílburis, dos carroceiros, dos bauleiros, dos banheiros, dos belquiores, dos galvanistas, dos botiquineiros, dos calafates, dos pedreiros, dos caldeireiros, dos carpinteiros, dos colchoeiros, dos confeiteiros, dos corrieiros, dos amoladores, dos fotógrafos, dos douradores, dos empalhadores, dos azeiteiros, dos empresários, dos encadernadores, dos engarrafadores de vinhos, dos esculpidores, dos espelheiros, dos esmaltadores, dos espingardeiros, dos asfaltadores, dos queroseneiros, dos seleiros, das lavadeiras e engomadeiras, dos funileiros, dos maquinistas, das coleteiras, dos marceneiros, dos rolheiros, dos sebeiros, dos vinagreiros, dos foleiros, dos joalheiros, dos ferreiros, dos sineiros, dos picheleiros, dos gaioleiros, dos pasteleiros, dos hoteleiros, dos lampistas, dos litógrafos, dos bombeiros, dos canteiros, dos oleiros, dos padeiros, dos cenógrafos, dos relojoeiros, dos salsicheiros, dos serralheiros, dos urubus, dos tamanqueiros, dos tanoeiros, dos torneiros, dos vidraceiros, dos violeiros, dos pedestres, e mais entidades, que se oferecerem à minha pena. (Manifesto do Dr. Semana aos assinantes do seu jornal, Crônicas do Dr. Semana, Semana Ilustrada, 6/12/1863)

 

Vu pan Lélio,

Lamakatu apá ling-ling "Balas de Estalo", mapapi tung? Keré siri mamma, ulama'i tiká.

Ton-ton pacamaré Rua do Ouvidor nappi Botafogo, nappi Laranjeiras nappi Petrópolis gogô. China cava miraka Rua do Ouvidor! Naka ling! tica milung! Ita marica armarinho, gavamacu moça bonita, vala ravala balvão; caixeiro sika maripu derretido. Moçanigu vaia peça fita, agulha, veludo, colchete, iva curva trapalhada. Moço lingu istu passa na rua, che-beru pitigaia entra, namora, rini mamma.

Viliki xaxi xali xaliman. Acalag ting-ting valixu. Upa Costa Braga relá minag katu Integridade abaxung kapi a ver navios. Lamarika ana bapa bung? Gogô xupitô? Nepa in pavé. Brasil desfalques latecatu. Inglese poeta, Shakespeare, kará: make money; upa lamaré in língua Brasil: — mete dinheiro no bolso. Vaia, Vaia, gapaling capita passa a unha simá teka laparika. Eting põe-se a panos; etang merú xilindró.

[...]

Mandarim de 1ª classe.

TONG KONG SING (Carta de um mandarim ao colunista, “Balas de Estalo”, Gazeta de Notícias, 16/10/1883)

 

Eu, em criança, ouvi contar a anedota de uma casa que ardia na estrada. Passa um homem, vê perto da casa uma pobre velhinha chorando, e pergunta-lhe se a casa era dela. Responde-lhe a velha que sim. – Então permita-me que acenda ali o meu charuto. (“Balas de Estalo”, Gazeta de Notícias, 28/5/1885)

 

DIÁLOGO DOS ASTROS

DOM SOL — Mercúrio, dá cá os jornais do dia.

MERCÚRIO — Sim, meu senhor. (Procurando os jornais). Sempre me admira muito como é que Vossa Claridade pode ler tantos jornais. São todos interessantes? Olhe, aqui tem o Escorpião.

DOM SOL — Uns mais que outros; mas ainda que não tivessem interesse nenhum, era preciso lê-los, para saber do que vai pelo Universo. Já chegou a Via-Láctea?

MERCÚRIO — Aqui está.

DOM SOL — Esta folha é das menores; tem uma circulação de trezentos bilhões de exemplares.

MERCÚRIO — Já não é mau! Aqui está o Eclipse e a Fase...

DOM SOL — Não são tão bons.

MERCÚRIO — O Crescente, a Bela Estrela Canopo e a Revista das Constelações. Creio que é tudo. Falta só o Cometa, mas, como sabe, só aparece de longe em longe; dizem até que vai fechar a porta. [e assim por diante...] (“Balas de Estalo”, Gazeta de Notícias, 20/6/1885)

 

Novidade, desejo de

Bem se podia comparar o público àquela serpente — deus dos antigos mexicanos — que, depois de devorar um alentado mamífero, prostra-se até que a ação digestiva lhe tenha esvaziado o estômago; então o flagelo das matas corre em busca de novo repasto, emborca novo animal pela garganta abaixo e cai em nova e profunda modorra de digestão. Esquisita que pareça a comparação, o público é assim. Precisa de uma novidade e de uma grande novidade; quando lhe aparece alguma, digere-a com placidez e calma, até que desfeita ela, outra lhe fica ao alcance e lhe satisfaz a necessidade imperiosa. Como o réptil monstro de que falei, o público não se contenta com os manjares simples e as quantidades exíguas; é-lhe preciso bom e farto mantimento. (“Comentários da Semana”, Diário do Rio de Janeiro, 7/1/1862)

 

Olimpíadas, ressurreição das

Se quereis ver a diferença de uma e outra ciência, comparai as alegrias vivas do nosso jardim Zoológico [assunto anterior da crônica] com o projeto de ressuscitar em Atenas, após dois mil anos, os jogos olímpicos. Realmente, é preciso ter grande amor a essa ciência de farrapos para ir desenterrar tais jogos. Pois é do que trata agora uma comissão, que já dispõe de fundos e boa vontade.

Está marcado o espetáculo para abril de 1896. [De fato, os primeiros Jogos Olímpicos da Era Moderna ocorreram em Atenas em 1896.] (“A Semana”, Gazeta de Notícias, 17/3/1895)

 

Passeios pela cidade

É meu costume, quando não tenho que fazer em casa, ir por esse mundo de Cristo, se assim se pode chamar à cidade de São Sebastião, matar o tempo. Não conheço melhor ofício, mormente se a gente se mete por bairros excêntricos; um homem, uma tabuleta, qualquer coisa basta a entreter o espírito, e a gente volta para casa “lesta e aguda”, como se dizia em não sei que comédia antiga.

Naturalmente, cansadas as pernas, meto-me no primeiro bonde, que pode trazer-me à casa ou à Rua Ouvidor, que é onde todos moramos. Se o bonde é dos que têm de ir por vias estreitas e atravancadas, torna-se um verdadeiro obséquio do céu. De quando em quando, para diante de uma carroça que despeja ou recolhe fardos . O cocheiro trava o carro, ata as rédeas, desce e acende um cigarro; o condutor desce também e vai dar uma vista de olhos ao obstáculo. Eu, e todos os veneráveis camelos da Arábia, vulgo passageiros, se estamos dizendo alguma coisa, calamo-nos para ruminar e esperar.

Ninguém sabe o que sou quando rumino. Posso dizer, sem medo de errar, que rumino muito melhor do que falo. A palestra é uma espécie de peneira, por onde a ideia sai com dificuldade, creio que mais fina, mas muito menos sincera. Ruminando, a ideia fica íntegra e livre. Sou mais profundo ruminando; e mais elevado também. (“Bons Dias”, Gazeta de Notícias, 21/1/1889)

 

Pessimismo

Quem põe o nariz fora da porta, vê que este mundo não vai bem. A Agência Havas é melancólica. Todos os dias enche os jornais, seus assinantes, de uma torrente de notícias que, se não matam, afligem profundamente. (“A Semana”, Gazeta de Notícias, 6/10/1895)

 

Política, crítica à

O país real, esse é bom, revela os melhores instintos; mas o país oficial, esse é caricato e burlesco. A sátira de Swift nas suas engenhosas viagens cabe-nos perfeitamente. No que respeita à política nada temos a invejar ao reino de Liliput.  (“Comentários da Semana”, Diário do Rio de Janeiro, 29/12/1861)


Em verdade, será preciso esperar o carnaval para ver mascarados? O carnaval nesta terra é constante, e é a política que nos oferece o espetáculo de um contínuo disfarce [...] (“Comentários da Semana”, Diário do Rio de Janeiro, 2/3/1862)


Os Vitrúvios [arquiteto romano antigo] do século querem fazer da política uma arquitetura, e esquecem justamente que a arquitetura compõe-se de linhas curvas e linhas retas. (“Pontos e Vírgulas”, Semana Ilustrada, 13/12/1868)


Povo musical (com pitadas de nonsense)

Um povo musical como é o nosso, pode chegar a substituir a prosa pela solfa, sem prejuízo do pensamento, e até com algum encanto. Quem sabe se os nossos netos, candidatos a um lugar na câmara, não serão compelidos a dar dois dedos de flauta aos eleitores? A zabumba, simples metáfora quando não figura nos batalhões, receberá o seu alvará de capacidade. Os instrumentos serão o distintivo dos partidos no parlamento; a uns a clarineta, que é áspera, impertinente e fanhosa; a outros a flauta e a guitarra. O apito passará a ser o cetro presidencial; o aparte terá um forte substituto no assobio. Quanto aos oradores, haverá a escala inteira, desde a harpa eólia até o realejo napolitano. (“Notas Semanais”, O Cruzeiro, 9/6/1878)


Pró-americanismo

Que os Estados Unidos começam de galantear-nos, é coisa fora de dúvida; correspondamos ao galanteio; flor por flor, olhadela por olhadela, apertão por apertão. Conjuguemos os nossos interesses, e um pouco também os nossos sentimentos; para estes há um elo, a liberdade; para aqueles, há outro, que é o trabalho; e o que são o trabalho e a liberdade senão as duas grandes necessidades do homem? Com um e outro se conquistam a ciência, a prosperidade e a ventura pública. (“Notas Semanais, O Cruzeiro, 2/6/1878)


Quiosques, fim dos

Que metro é preciso para contar que vamos perder os quiosques? Dizem que o conselho municipal trata de acabar com eles. Não quero que morram, sem que eu explique cientificamente a sua existência. Logo que os quiosques penetraram aqui, foi nosso cuidado perguntar às pessoas viajadas a que é que os destinavam em Paris, donde vinha a imitação; responderam-me que lá eram ocupados por uma mulher, que vendia jornais. Ora, sendo o nosso quiosque um lugar em que um homem vende charutos, café, licor e bilhetes de loteria, não há nesta diferença de aplicação um saldo a nosso favor? A diferença do sexo é a primeira, e porventura a maior; a rua fez-se para o homem, não para a mulher, salvo a rua do Ouvidor. O charuto, tão universal como o licor, é uma necessidade pública. Não cito o café; é a bebida nacional por excelência. Quanto ao bilhete de loteria, esse emblema da luta de Jacó com o anjo, que é como eu considero a caça à sorte grande, pode ser que a venda dele nos quiosques diminua os lucros do beco das Cancelas; mas o beco é triste, não solta foguetes quando lhe saem prêmios, se é que lhe saem prêmios. Os quiosques alegram-se quando os vendem, e é certo que os vendem em todas as loterias.

Não obstante, lá vão os quiosques embora. Assim foram as quitandeiras crioulas, as turcas e árabes, os engraxadores de botas, uma porção de negócios da rua, que nos davam certa feição de grande cidade levantina. (“A Semana”, Gazeta de Notícias, 16/4/1893)


Reformas, resistência às

Nenhuma reforma se fez útil e definitiva sem padecer primeiro as resistências da tradição, a coligação da rotina, da preguiça e da incapacidade. É o batismo das boas ideias; é ao mesmo tempo o seu purgatório. (“Notas Semanais”, O Cruzeiro, 9/6/1878)

  

Quiosque na Rua da Saúde (foto de Augusto Malta do início do século XX)

Repressão aos camelôs

Mas vamos ao meu ofício, que é contar semanas. Contarei a que ora acaba e foi mui triste. A desolação da rua Primeiro de Março é um dos espetáculos mais sugestivos deste mundo. Já ali não há turcas, ao pé das caixas de bugigangas; os engraxadores de sapatos com as suas cadeiras de braços e os demais aparelhos desapareceram; não há sombra de tabuleiro de quitanda, não há samburá de fruta. Nem ali nem alhures. Todos os passeios das calçadas estão despejados delas. Foi o prefeito municipal que mandou pôr toda essa gente fora do olho da rua, a pretexto de uma postura, que se não cumprira. (“A Semana”, Gazeta de Notícias, 8/1/1893)

 

Romaria

Conversavam X e Z a propósito da festa da Penha. Z perguntou donde vinha o uso da romaria.

O interrogado ia justamente perguntar a mesma coisa, mas não hesitou em responder:

– É um uso romano. A austera república tinha esses dias de festa, semelhantes às férias latinas, e era então que todo o povo dava largas ao prazer. Pode-se dizer que nessas ocasiões Roma ria. (“Badaladas”, Semana Ilustrada, 20/10/1872)

 

Século XX

Que inveja que tenho ao cronista que houver de saudar desta mesma coluna o sol do século XX! Que belas coisas que ele há de dizer, erguendo-se na ponta dos pés, para crescer com o assunto, todo auroras e folhas verdes! Naturalmente maldirá o século XIX, com as suas guerras e rebeliões, pampeiros e terremotos, anarquia e despotismo, coisas que não trará consigo o século XX, um século que se respeitará, que amará os homens, dando-lhes a paz, antes de tudo, e a ciência, que é ofício de pacíficos. (“A Semana”, Gazeta de Notícias, 6/1/1895)

 

Senado

É tão bom ter uma cadeira no Senado! A gente faz o seu testamento, e ocupa o resto do tempo em precauções higiênicas, a bem de dilatar a vida e gozar por mais tempo das honrarias inerentes ao posto de príncipe do império. [No Império, o cargo de Senador era vitalício.] (“Comentários da Semana”, Diário do Rio de Janeiro, 10/11/1861)


Sol, eclipse

Há hoje um eclipse do sol. Está anunciado. Os astrônomos chegaram a esta perfeição de descrever antecipadamente esta casta de fenômenos, com o minuto exato do princípio e do fim, o primeiro e o último contato. Não há mais que aguardá-lo e mirá-lo, mais ou menos, segundo ele for total ou parcial. E assim se vai o melhor da vida, que é o inopinado. O incerto é o sal do espírito. Ah! bons tempos em que os eclipses não andavam por almanaques, e queriam dizer alguma coisa, tais quais os cometas, que eram um sinal da cólera dos deuses. (“A Semana”, Gazeta de Notícias, 16/4/1893)

 

Sonho com a morte

Faleci ontem, pelas sete horas da manhã. Já se entende que foi sonho; mas tão perfeita a sensação da morte, a despegar-me da vida tão ao vivo o caminho do Céu, que posso dizer haver tido um antegosto da bem-aventurança. Ia subindo, ouvia já os coros de anjos, quando a própria figura do Senhor me apareceu em pleno infinito. Tinha uma ânfora nas mãos, onde espremera algumas dúzias de nuvens grossas, e inclinava-a sobre esta cidade, sem esperar procissões que lhe pedissem chuva. A sabedoria divina mostrava conhecer bem o que convinha ao Rio de Janeiro [...]

Alegrei-me com isto, posto já não pertencesse à terra. Os meus patrícios iam ter um bom carnaval, — velha festa, que está a fazer quarenta anos, se já os não fez. Nasceu um pouco por decreto, para dar cabo do entrudo, costume velho, datado da colônia e vindo da metrópole. [...]

Não obstante as festas da Terra, ia eu subindo, subindo, até que cheguei à porta do Céu, onde São Pedro parecia aguardar-me, cheio de riso.

— Guardaste para ti tesouros no céu ou na terra? perguntou-me.

— Se crer em tesouros escondidos na terra é o mesmo que escondê-los, confesso o meu pecado, porque acredito nos que estão no morro do Castelo [...] [alusão a uma crença então difundida em tesouros dos jesuítas enterrados no morro do Castelo, demolido na década de 1920 sem que se encontrasse tesouro algum] (“A Semana”, Gazeta de Notícias, 12/2/1893)

 

Suicídio

Segundo os cânones, o suicídio é um atentado ao Criador, e o nosso primeiro e recente arcebispo aproveitou o caso Mancinelli [um suicida] para lembrá-lo aos párocos e a todo o clero, e consequentemente que os sufrágios eclesiásticos são negados aos que se matam. A circular de D. João Esberard é sóbria, enérgica e verdadeira; recorda que a sociedade civil e a filosofia condenam o suicídio, e que a natureza o considera com horror. No mesmo dia da expedição da circular (quinta-feira) um homem que padecia de moléstia dolorosa ou incurável, talvez uma e outra coisa, recorreu à morte como a melhor das tisanas. Suponho que não terá lido a palavra do prelado; mas outros suicidas virão depois dela, pois que os cânones são mais antigos, a filosofia também, e mais que todos a natureza. (“A Semana”, Gazeta de Notícias, 9/9/1894)

 

Telegrama, concisão do

O telégrafo é uma invenção econômica, deve ser conciso e até obscuro. O estilo faz-se por extenso em livros e papéis públicos, e às vezes nem aí. Mas nós amamos os ricos vestuários do pensamento, e o telegrama vulgar é como a tanga, mais parece despir que vestir. [Na era pré-Internet, o telegrama, cobrado por número de palavras, tinha de ser conciso para não sair caro demais.] (“A Semana”, Gazeta de Notícias, 13/9/1896)

 

Temporal

Refiro-me ao temporal, a esse temporal único, assombroso, aterrador, que os velhos de oitenta anos viram pela primeira vez, que os adolescentes de quinze anos esperam não ver segunda vez no resto dos seus dias, a esse temporal, que, se durasse 2 horas, deixava a nossa cidade reduzida a um montão de ruínas.

Durante uns dez minutos tivemos, nós, os fluminenses, uma imagem do que seria o grande cataclismo que extinguiu os primeiros homens. Rompeu-se uma catarata do céu; Éolo soltou os seus tufões; o trovão rolou pelo espaço; e um dilúvio de pedras enormes começou a cair sobre a cidade com a violência mais aterradora que se tem visto. (“Ao Acaso”, Diário do Rio de Janeiro, 17/10/1864)

 

Tigre, venda de

Enfim! Os lobos dormem com os cordeiros, e as linguiças andam atrás dos cães. São as notícias mais frescas do dia.

Que os lobos dormem com os cordeiros, basta ver o anúncio que anda nas folhas, um anúncio extraordinário, pasmoso, um anúncio da Rua do Hospício [atual Rua Buenos Aires]. Vende-se ali, está ali à espera de algum amador que o queira comprar, não um chapéu ou um gato, não um jogo de cortinas, um armário, um livro, uma comenda que seja, mas um (custa dizê-lo!) mais um (ânimo!) mas um (palavra, só escrever o nome dá um arrepio pela espinha abaixo), mas um (vamos!) mas um tigre.

Sim, senhores, vende-se ali um tigre. (“Balas de Estalo”, Gazeta de Notícias, 26/4/1884)

 

Caça ao tigre, gravura de Victor Adam (século XIX)

Tiradentes, centenário da morte

Tivemos esta semana o centenário do grande mártir. A prisão do heróico alferes é das que devem ser comemoradas por todos os filhos deste país, se há nele patriotismo, ou se esse patriotismo é outra coisa mais que um simples motivo de palavras grossas e rotundas. A capital portou-se bem. Dos estados estão vindo boas notícias. O instinto popular, de acordo com o exame da razão, fez da figura do alferes Xavier o principal dos Inconfidentes, e colocou os seus parceiros a meia ração da glória. Merecem, decerto, a nossa estimação aqueles outros; eram patriotas. Mas o que se ofereceu a carregar com os pecados de Israel, o que chorou de alegria quando viu comutada a pena de morte dos seus companheiros, pena que só ia ser executada nele, o enforcado, o esquartejado, o decapitado, esse tem de receber o prêmio na proporção do martírio, e ganhar por todos, visto que pagou por todos. (“A Semana”, Gazeta de Notícias, 24/4/1892)

 

Tiros da Revolta da Armada

Neste momento, sete horas da manhã, ouço uns tiros ao longe. São fortes, mas não sei se tão fortes como os de ontem, sexta-feira, à tarde, quando toda a gente correu às praias e aos morros. Nenhum deles, porém, vale o bombardeamento do princípio da semana, entre 2 horas e duas e meia, e mais tarde entre quatro e cinco. Eu, nessa noite, acordei assombrado. Sonhava, ah! se soubessem em que sonhava! Sonhava que dormia, e era despertado por umas cócegas na testa. Abri os olhos, dei com um raio da lua, que entrara pela janela aberta. E dizia-me o raio da lua: “Monta em mim, nobre mortal, anda fazer uma viagem pelo infinito acima.” (“A Semana”, Gazeta de Notícias, 24/9/1893) [Machado de Assis tem um conto cujo personagem morre de uma bala perdida na Revolta da Armada: “Pílades e Orestes”.]

 

Tolerância, espírito de

A primeira vez que assisti a uma sessão do parlamento era bem criança. Recordo-me que ao ver um orador oposicionista, após meia hora de um discurso acerbo, inclinar-se sobre a cadeira do ministro, e rirem ambos, senti uma espécie de desencanto. Esfreguei os olhos; não lhes podia dar crédito. Era tão diferente a noção que eu tinha dos hábitos parlamentares! A reação veio, e então compreendi que a mais bela coisa das lutas partidárias é justamente a estima das pessoas, de envolta com as dissensões de princípios, espécie de tolerância que não conhecem ainda povoações rústicas. (“Notas Semanais, O Cruzeiro, 9/6/1878)


Touradas

[Não pense que Machado viajou até Madrid; na época, promoviam-se touradas no Rio de Janeiro]

O certo é que se eu quiser dar uma descrição verídica da tourada de domingo passado, não poderei, porque não a vi.

Não sei se já disse alguma vez que prefiro comer o boi a vê-lo na praça.

Não sou homem de touradas; e se é preciso dizer tudo, detesto-as. Um amigo costuma dizer-me:

– Mas já as viste?

– Nunca!

– E julgas do que nunca viste?

Respondo a este amigo, lógico mas inadvertido, que eu não preciso ver a guerra para detestá-la, que nunca fui ao xilindró, e todavia não o estimo. Há coisas que se prejulgam, e as touradas estão nesse caso. (“História de Quinze Dias”, Ilustração Brasileira, 15/3/1877)

 

Vegetarianismo

Quando os jornais anunciaram para o dia 1º deste mês uma parede de açougueiros, a sensação que tive foi muito diversa da de todos os meus concidadãos. Vós ficastes aterrados; eu agradeci o acontecimento ao Céu. Boa ocasião para converter esta cidade ao vegetarismo.

Não sei se sabem que eu era carnívoro por educação e vegetariano por princípio. Criaram-me a carne, mais carne, ainda carne, sempre carne. Quando cheguei ao uso da razão e organizei o meu código de princípios, incluí nele o vegetarismo; mas era tarde para a execução. Fiquei carnívoro. Era a sorte humana; foi a minha. Certo, a arte disfarça a hediondez da matéria. O cozinheiro corrige o talho. Pelo que respeita ao boi, a ausência do vulto inteiro faz esquecer que a gente come um pedaço de animal. Não importa, o homem é carnívoro.

Deus, ao contrário, é vegetariano. (“A Semana”, Gazeta de Notícias, 5/3/1893)

 

Vermes do cemitério, conversa com os

Castro Malta? perguntaram-me os vermes.

– Sim, Castro Malta... Uns dizem que ele morreu, outros que não; afirma-se que está enterrado e desenterrado; que faleceu de uma doença, se não foi de outra. Então lembrou-me vir aqui ao cemitério a estas horas mortas, para interrogá-los e para que me digam francamente se ele aqui esteve ou está, e...

Os vermes riram às bandeiras despregadas; eu, menos vexado que medroso, pedi-lhes desculpa, declarando que só o amor da verdade me obrigava a fazer o que estava fazendo.

– Não pense que estamos mofando do senhor, respondeu um dos vermes mais graúdos. Castro Malta é o nome – do homem?

– Justamente. Onde está ele?

Alas, poor Yorick! [citação da cena do cemitério em Hamlet] Não podemos saber nada; isto cá embaixo é tudo anônimo. Ninguém aqui se chama coisa nenhuma. César ou João Fernandes é para nós o mesmo jantar. Não estremeças de horror, meu filho. Castro Malta? Não temos matrículas nem pias de batismo. Pode ser que ele esteja por aí, pode ser também que não; mas lá jurar é que não juramos... [...] Não distinguimos nomes, nem caras, nem opiniões, quaisquer que sejam, políticas e não políticas. Olhe, vocês às vezes batem-se nas eleições e morrem alguns. Cá embaixo, como ninguém opina, limitam-se todos a ser igualmente devorados, e o sabor é o mesmo. Às vezes o liberal é melhor que o conservador; outras vezes é o contrário: questão de idade. Os vermes (não os deuses, como diziam os antigos) os vermes amam os que morrem moços. Você por que é que não fica hoje mesmo por aqui?

– Lisonjeiro! Não posso; tenho que fazer.

– Deixe-se de imposturas! [Castro Malta, vítima inocente de um rumoroso caso de violência policial, foi assassinado no cárcere. O cronista indaga os vermes do cemitério sobre seu paradeiro.] (“Balas de Estalo”, Gazeta de Notícias, 12/12/1884)

 

Voto, pedido de

[Já em 1884, no tempo do Império, quando o voto para a Assembléia Geral era censitário (só votavam pessoas acima de certa renda) e as mulheres sequer tinham esse direito, Machado de Assis escreveu uma crônica – bem atual – satirizando os políticos pedindo votos.]

Venho pedir-lhe o seu voto na próxima eleição para deputado.

– Mas, com o senhor, fazem setenta e nove candidatos que...

– Perdão: oitenta. Que tem isto? A reforma eleitoral deu a cada eleitor toda a independência, e até fez com que adiantássemos um passo. [...]

– Bem; pede-me o voto.

– Sim, senhor.

– Responda-me primeiro. Que é que fazia até agora?

– Eu...?

– Sim, trabalhou com a palavra ou com a pena, esclareceu os seus concidadãos sobre as questões que lhe interessam, opôs-se aos desmandos, louvou os acertos...

– Perdão, eu...

– Diga.

– Eu não fiz nada disso. Não tenho que louvar nada, não sou louva-deus. Opor-me! É boa! Opor-me a quê? Nunca fiz oposição.

– Mas esclareceu...

– Nunca, senhor! Os lacaios é que esclarecem os patrões ou as visitas: não sou lacaio. Esclarecer! Olhe bem para mim.

– Mas, então, o que é que o senhor quer?

– Quero ser deputado.

– Para quê?

– Para ir à câmara falar contra o ministério.

– Ah! é contra o Dantas?

– Nem contra nem pró. Quem é o Dantas? eu sou contra o ministério... Digo-lhe mesmo que a minha ideia é ser ministro. Não imagina as cócegas com que fico em vendo um dos outros de ordenanças atrás... Só Deus sabe como fico!

– Mas já calculou, já pesou bem as dificuldades a que...

– O meu compadre Z... diz que não gasta muito.

– Não me refiro a isso; falo do diploma, o uso do diploma. Já pesou...

– Se já pesei? Eu não sou balança.

– Bem, já calculou...

– Calculista? Veja lá como fala. Não sou calculista, não quero tirar vantagens disto; graças a Deus para ir matando a fome ainda tenho, e possuo braços. Calculista!

– Homem, custa-me dizer o que quero. O que eu lhe pergunto é se, ao apresentar-se candidato, refletiu no que o diploma obriga ao eleito.

– Obriga a falar.

– Só falar?

– Falar e votar.

– Nada mais?

– Obriga também a passear, e depois torna-se a falar e votar. Para isto é que eu vinha pedir-lhe o voto, e espero não me falte.

– Estou pronto, se o senhor me tirar de uma dificuldade.

– Diga, diga.

– O X. pediu-me ontem a mesma coisa, e depois de ouvir as mesmas perguntas que lhe fiz, às quais respondeu do mesmo modo. São do mesmo partido, suponho!

– Nunca: o X. é um peralta.

– Diabo! Ele diz a mesma coisa do senhor. (“Balas de Estalo”, Gazeta de Notícias, 10/11/1884)

 

Xadrez [jogo de que Machado foi aficcionado]

[...] o xadrez, um jogo delicioso, por Deus! imagem da anarquia, onde a rainha come o pião, o pião come o bispo, o bispo come o cavalo, o cavalo come a rainha, e todos comem a todos. Graciosa anarquia, tudo isso sem rodas que andem, nem urnas que falem! (“A Semana”, Gazeta de Notícias, 25/2/1894)

COLUNAS E RESPECTIVOS ÓRGÃOS DE IMPRENSA EM QUE MACHADO PUBLICOU SEUS FOLHETINS JORNALÍSTICOS (informações extraídas do magnífico DICIONÁRIO DE MACHADO DE ASSIS de Ubiratan Machado:

1) Aquarelas, em O Espelho (1859), assinando como M-as

2) Comentários da semana, no Diário do Rio de Janeiro (1861-62), assinando como Gil e M.A.

3) Crônica, em O Futuro (1862-63), assinada com o próprio nome.

4) Correspondência/Correspondência da Corte/Correspondência da Imprensa Acadêmica (a coluna foi mudando de nome), na Imprensa Acadêmica (1864/1868), assinando como Sileno.

5) Novidades da Semana/Pontos e Vírgulas/Badaladas (coluna coletiva que mudou de nome duas vezes), na Semana Ilustrada (1864-76), assinadas como Dr. Semana. Como vários escritores compartilharam o mesmo pseudônimo, diferentes especialistas divergem sobre quais seriam realmente de Machado.

6) Vespas Americanas, na Semana Ilustrada' (1864), assinadas como Gil. A coluna só saiu duas vezes.

7) Ao Acaso (Crônicas da Semana), no Diário do Rio de Janeiro (1864-65), assinando com o próprio nome ou suas iniciais.

8) Cartas Fluminenses, no Diário do Rio de Janeiro (1867), assinando como Job.

9) Correspondência da Corte (segunda fase), na Imprensa Acadêmica (1868), assinando como Glaucus.

10) História de Quinze DiasIlustração Brasileira (1876-78), assinadas como Manassés.

11) História de Trinta Dias, Ilustração Brasileira (1878, quando a revista se tornou mensal), assinadas como Manassés.

12) Notas Semanais, em O Cruzeiro (1878), assinadas como Eleazar.

13) Balas de Estalo, na Gazeta de Notícias (1883-86), a maioria assinada como Lélio. Diferentes cronistas alternavam-se na coluna, usando pseudônimos distintos.

14) A + B, na Gazeta de Notícias (1886), assinadas como João das Regras.

15) Gazeta de Holandana Gazeta de Notícias (1886-88), crônicas humorísticas assinadas como Malvólio.

16) Bons Dias!, na Gazeta de Notícias (1888-89), assinadas como Boas-Noites.

17) Bons Dias!, na Imprensa Fluminense (em número único deste jornal, de 20-21/5/1888, comemorando a libertação dos escravos), assinada como Boas -Noites.

18) A Semana, na Gazeta de Notícias (1892-1900). Publicada aos domingos sem assinatura. Em 28/2/1897 o autor se despede do leitor, mas escreve duas crônicas extras em 4-11/11/1900.