ENSEADA DE BOTAFOGO

ENSEADA DE BOTAFOGO
"Andar pelo Rio, seja com chuva ou sol abrasador, é sempre um prazer. Observar os recantos quase que escondidos é uma experiência indescritível, principalmente se tratando de uma grande cidade. Conheço várias do Brasil, mas nenhuma tem tanta beleza e tantos segredos a se revelarem a cada esquina com tanta história pra contar através da poesia das ruas!" (Charles Stone)

VISTA DO TERRAÇO ITÁLIA

VISTA DO TERRAÇO ITÁLIA
“São Paulo, até 1910 era uma província tocada a burros. Os barões do café tinham seus casarões e o resto era pouco mais que uma grande vila. Em pouco mais de 100 anos passou a ser a maior cidade da América Latina e uma das maiores do mundo. É pouco tempo. O século XX, para São Paulo, foi o mais veloz e o mais audaz.” (Jane Darckê Avelar)
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1.3.18

DOCUMENTO HISTÓRICO: CARTA DO PADRE ANCHIETA SOBRE A FUNDAÇÃO DO RIO DE JANEIRO


Esta carta é importante por diversos motivos. Primeiro, trata-se do único documento hoje existente de uma testemunha ocular da fundação do Rio. Segundo, é um dos dois documentos (ambos de Anchieta) que permitiram a Capistrano de Abreu fixar a data de fundação da cidade em 1o de março. Terceiro, nele vemos que a denominação São Sebastião foi adotada desde os primórdios da cidade, e não depois de vencida a batalha contra os franceses no dia de São Sebastião em 1567, como lemos em algumas fontes. Quarto, porque mostra (como também mostram outros documentos e mapas) que, seis décadas após a viagem de exploração de Gaspar de Lemos, em que a baía da Guanabara teria sido confundida com um rio, esta continuava sendo chamada de Rio de Janeiro (ou “boca do Rio de Janeiro” como lemos na carta de Anchieta, ou mesmo Rio da Guanabara como vemos em mapas franceses), ou seja, àquela altura aparentemente ainda se acreditava que fosse a desembocadura de um rio. Finalmente, mostra o incrível heroísmo dos fundadores de nossa cidade, enfrentando o oceano, a fome, a sede e os inimigos franceses e tamoios, sempre confiando na providência divina.

Imagem de Anchieta na Igreja de São Lourenço dos Índios (Niterói)

CARTA DO PADRE ANCHIETA AO PADRE DIOGO MIRÃO, DE 9 DE JULHO DE 1565, NARRANDO A FUNDAÇÃO DE SÃO SEBASTIÃO DO RIO DE JANEIRO (FONTE: CARTAS, INFORMAÇÕES, FRAGMENTOS HISTÓRICOS E SERMÕES do Padre Joseph de Anchieta, S.J. (1554-1594), Editora Civilização Brasileira, 1933)

De São Vicente se escreveu largamente o que aconteceu à armada, que da cidade do Salvador foi povoar o Rio de Janeiro este ano passado de 1564; partiu no fim do ano de 1564 (1), agora darei conta do que mais sucedeu.

Depois de passar muito tempo (2) em se reformar a armada de cordas, amarras e outras cousas necessárias, e esperar pelo gentio dos Tupinanquins, com os quais se fizeram pazes, indo duas vezes em navios às suas povoações a os chamar, para darem ajuda contra os Tamoios do Rio, os quais prometendo de vir, não vieram senão mui tarde e poucos, e tornaram-se logo de São Vicente, sem quererem com os nossos vir ao Rio, a qual foi a principal causa de muita detença que a armada fez em São Vicente; e, finalmente, depois de haver muitas contradições, assim dos povos de São Vicente, como dos capitães e gente da armada, aos quais parecia impossível povoar-se o Rio de Janeiro com tão pouca gente e mantimentos, o capitão-mor Estácio de Sá e o ouvidor geral Braz Fragoso, que sempre resistiram a todos estes encontros e contradições, determinaram de levar ao cabo esta empresa que tinham começado. E confiados na bondade e poder divino assentaram que se ficasse o ouvidor geral em São Vicente, fazendo consertar o galeão e a nau francesa [tomada no Rio de Janeiro], que se achavam comidos de busanos, e não estavam para poder navegar, e depois se viria com socorro ao Rio, e que o capitão-mor se passasse logo em sua nau capitânia e alguns navios pequenos e canoas a começar a povoação.

Mapa da França Antártica mostrando que na década de 1550 ainda se acreditava que a Baía da Guanabara fosse a desembocadura de um rio. A baía é chamada de La Rivière de Ganabara autrement Rio Janeiro, e no fundo da baía desembocam dois rios com as designações "Rivière d'eau douce", rio de água doce (a baía sendo assim o "rio de água salgada"). Fonte: Maurício de Almeida Abreu, Geografia Histórica do Rio de Janeiro.

Partiu o capitão-mor só em sua nau aos 22 de Janeiro de 1565, e no mesmo dia veio ter à ilha de São Sebastião, que está 12 ou 13 léguas de São Vicente, onde esteve esperando pelos navios pequenos que se ficaram aviando, os quais partiram de Bertioga a 27 do mês [20 de janeiro segundo outra fonte], e ao seguinte dia vieram com a capitânia; os navios pequenos eram cinco somente, e os três deles de remos, e com eles vieram oito canoas (3), as quais traziam a seu cargo os Mamalucos de São Vicente, com alguns Índios do Espírito Santo, que o ano passado haviam ido com o capitão-mor, e alguns outros de São Vicente dos nossos discípulos cristãos de Piratininga, de maneira que toda a gente, assim dos navios como das canoas, poderiam chegar até 200 homens, que era bem pouco para se poder povoar o Rio, ao que se ajuntava o pouco mantimento que traziam, que se dizia poder durar 2 ou 3 meses; com tudo isto, como digo, chegamos à Ilha de São Sebastião onde já estava o capitão-mor, e aí dissemos missa, e se confessou e comungou alguma gente; e como comumente vinham com grande alegria e fervor confiados que com aquela pouca força e poder que traziam haviam de povoar, ajudados do braço divino, e que não lhes havia de faltar o mantimento nesta ilha, ordenou o capitão-mor que os navios de remos acompanhassem as canoas que daí por diante entravam já na terra dos Tamoios e era necessário cada dia pousarem em terra em algumas ilhas, e para virem mais seguras mandou meter gente em sua canoa, que vinha por popa de um navio, dando os seus escravos que a remassem com alguns Mamalucos; e deu-lhe Nosso Senhor tão bom tempo, que sempre os navios de remos chegavam a pousar onde elas estavam, até entrar na Ilha Grande (4), onde estiveram muitos dias esperando pela capitânia, a qual teve muitos ventos contra, até não poder aferrar pano como os navios pequenos, e foi forçada a arribar a uma ilha com a verga do traquete [=mastro de vante de navio veleiro] quebrado, e rendido o mastro grande.

Os Mamalucos e Índios enfadados de esperar tanto tempo pela capitânia, e forçados da fome, que quase já não tinham mantimentos, determinaram de o ir buscar a uma aldeia de Tamoios, que estava daí a 2 ou 3 léguas, e ajudou-os Cristo Nosso Senhor, que chegaram à aldeia e queimaram-a, matando um contrário, e tomando um menino vivo, e toda a mais gente se acolheu pelos matos; e com esta vitória alegres se mudaram todos ao outro porto da mesma Ilha Grande, onde tinham muita abundância de peixe e carne; a saber, bugios, cotias, caça do mato, e aí dissemos também muitas vezes missa, e se confessou e comungou muita gente, aparelhando-se para a guerra a que esperavam no Rio de Janeiro; porém ainda que muito trabalhamos nós pela nossa parte, e os capitães dos navios pela sua, não pudemos acabar com os Índios que esperassem pelo capitão-mor, como ele tinha ordenado, antes apartando-se dos navios se vieram para dentro de uma ilha chamada Marambaia, por entre aldeias dos Tamoios, caminho do Rio de Janeiro; e porque eram poucos e vinham em grande perigo, pareceu bem se viessem os Mamalucos após eles, e que todos eles juntos esperassem pelos navios numas ilhas que estão uma légua fora da boca do rio, às quais eles chegaram sem nenhum encontro de Tamoios, ou outro perigo algum (5).

Os navios ficaram esperando pela capitânia cinco ou seis dias, e por derradeiro parecendo-lhes que seria já passada de mar em fora, e temendo o perigo das canoas, partiram-se uma madrugada (6); e saindo pela boca da ilha viram a capitânia que esta noite havia entrado; e assim todos juntos, com muita alegria, começaram com próspero vento a ter vista das ilhas onde as canoas estavam esperando; mas não quis Nosso Senhor que chegassem aquele dia, antes acalmando o vento, e vindo depois outro contrário, junto com as grandes correntes das águas, tomou a capitânia a Ilha Grande, e no caminho esteve em grande perigo de se perder sobre a amarra em uma baixa (7). Os outros navios andaram com muito trabalho, ora a vela, ora a remos, dois ou três dias, para poderem tomar as ilhas (8), e acudir às canoas, que bem adivinhavam seriam tomadas dos contrários, ou tornadas para São Vicente, ou mui perto disso, como em verdade o estavam; porque havendo já seis ou sete dias que estavam esperando, faltando-lhes já o mantimento, comiam somente palmitos e peixes, e bebiam duma pouca água, de que todos estavam debilitados, e alguns doentes de câmaras [=diarreia]; e perdendo já a esperança dos navios chegarem tão cedo, determinaram de partir cada um para sua terra, a saber: os Índios do Espírito Santo com três canoas para a sua, e os Mamalucos com os Tupinanquins para São Vicente. E estando já assentados de efetuar esta sua determinação, viram um dos navios, que a força de braços e remos vinham já perto das ilhas, com cuja vista se alegraram, e esperaram alguns dois dias mais, até que chegaram quatro, que foi aos 27 de Fevereiro; e porque nestas ilhas não havia mais que uma pouca dágua, e a gente era muita; e as secas grandes, acabou-se e não havia mais que para beber um dia. Mas o Senhor, que tomou esta obra a seu cargo, mandou tanta chuva o dia que os navios ali chegaram, que se encheu o poço, e abastou a todos em quanto ali estiveram; e por nos mostrar que um particular cuidado tinha por nós, permitiu que a capitânia com outro navio que haviam arribado não viessem tão cedo, como todos queríamos, donde nasceu tornarem-se a amotinar não somente os Índios e Mamalucos, mas também alguns dos capitães dos navios querendo entrar dentro do rio, contra o regimento que o capitão-mor tinha dado, e tomavam por achaque, principalmente os Índios, não terem que comer, e que dentro do rio, com os combates que esperavam ter dos Tamoios, sofreriam melhor a fome; e começariam a roçar e cercar o lugar onde estava assentado que se havia de fundar a povoação.

Houve muito trabalho em os aquietar (9), porque em verdade o porto em que estávamos era mui perigoso, os navios não tinham breu, e faziam tanta água que era necessário grande parte do dia dar à bomba; os Índios não tinham que comer; os Portugueses não tinham para lho dar; porque havia quase um mês que com os partidos todos andavam fracos, e muitos doentes; finalmente determinaram os Índios de não esperar mais que um dia, e se a capitânia não chegasse, ou se meterem dentro do rio, ou se irem para suas terras, o que fora causa de grande desconsolação. Neste trabalho acudiu a Divina Providência, que logo aquele mesmo dia vimos três navios, que iam de cá da Baía com socorro, de mantimento, que era o de que a armada tinha maior necessidade; e ao seguinte (10), chegou a capitânia e outro navio, e assim todos juntos, em uma mesma maré, com grande alegria entramos pela boca do Rio de Janeiro, começando já os homens de ter maior fé e confiança em Deus, que em tal tempo socorrera as suas necessidades.

Logo ao seguinte dia, que foi o último de Fevereiro, ou primeiro de Março, começaram a roçar em terra com grande fervor e cortar madeira para a cerca (11), sem querer saber dos Tamoios nem dos Franceses, mas como quem entrava em sua terra, se foi logo o capitão-mor a dormir em terra, e dando ânimo aos outros para fazer o mesmo, ocupando-se cada um em fazer o que lhe era ordenado por ele, a saber: cortar madeira, e acarretá-la aos ombros, terra, pedra, e outras cousas necessárias para a cerca, sem haver nenhum que a isso repugnasse; desde o capitão-mor até o mais pequeno todos andavam e se ocupavam em semelhantes trabalhos; e porque naquele lugar não havia mais que uma légua de ruim água, e esta era pouca, o dia que entramos choveu tanto que se encheu, e rebentaram fontes em algumas partes, de que bebeu todo o exercito em abundância, e durou até que se achou água boa num poço, que logo se fez ; e como esta esteve em termos de se poder beber, secou-se de todo a lagoa, e além disto se achou uma fontezinha num penedo d'água muito boa, com que todos se alegraram muito, e se vão firmando mais na vontade que traziam de levar aquela obra ao cabo, vendo-se tão particularmente favorecidos da Divina Providencia.

Os Tamoios começaram logo a fazer ciladas por terra e por mar; mas os nossos não curavam senão de cercar-se e fortalecer-se, parecendo-lhes que não faziam pouco em defender dentro da cerca; mas Nosso Senhor, não querendo que se contentassem com isso, permitiu que aos 6 de Março viessem quatro canoas dos Tamoios, e fazendo uma cilada junto da cerca tomassem um Índio, que se desmandou, e indo já muito longe com sua presa deitaram os nossos as suas canoas ao mar, perseguiram os inimigos, e os fizeram saltar em terra e fugir pelos matos, deixando as canoas, arcos, flechas, espadas, e quanto nelas tinham, e o Índio, que escassamente tiveram tempo para os matar; os nossos os perseguiram pelo mato um bom pedaço, e não os podendo alcançar se tornaram trazendo-lhes as canoas e suas armas, que haviam deixado, e que foi um grande triunfo para os nossos cobrarem ânimo, e os tamoios enfraquecerem e temerem; assim daí por diante não ousavam aparecer senão de longe, e muitas canoas juntas.

Mapa de Luiz Teixeira de cerca de 1574 que permitiu que se determinasse o lugar exato onde a cidade foi fundada, antes objeto de polêmica. Observe que a Cidade Velha situa-se exatamente entre os morros Pao de Sucar e Cara de Cam! Fonte: Maurício de Almeida Abreu, Geografia Histórica do Rio de Janeiro, livro fundamental para quem quer se aprofundar nos estudos cariocas.

A 10 de Março vimos uma nau francesa, que estava légua e meia da povoação dentro do rio; e ao outro dia (12) foi o capitão-mor sobre ela com quatro navios, deixando na cerca a gente que parecia necessária, que ainda não era acabada; e sendo já junto dela, e começando a atirar de sua parte e doutra, os Tamoios, que aquela cilada tinham assim ordenado, saíram detrás de uma ponta em quarenta e oito canoas cheias de gente, e arremeteram com a cerca com tão grande ímpeto, e não havendo nela baluarte nem casa alguma feita em que se pudesse a gente recolher. Ajudou-nos Nosso Senhor, de maneira que andando no meio do terreiro descobertos, e chovendo flechas sobre eles, não os feriram, antes mataram alguns dos inimigos, e feriram muitos; e não contentes com isso arremeteram com eles fora da cerca, e os fizeram fugir e embarcar em suas canoas bem desbaratados. E esta vitória, a que se houve da nau francesa, a qual se entregou sem guerra aos nossos, e foi desta maneira que vendo vir o capitão-mor as quarenta e oito canoas sobre a cerca, meteu-se em um navio de remos por lhes ir acudir, deixando mandado aos outros capitães dos outros navios que ficassem em guarda da nau até pela manhã, que tornasse, ou se lhe mandasse recado; esta noite houveram falas dos Franceses, e falando-lhes um seu parente, que estava num dos navios, e dizendo-lhes que cedessem sem guerra, que o fariam de misericórdia com eles, mostraram folgar muito, e disseram que eram uns pobres mercadores que vinham ganhar sua vida, e que estavam já de caminho, levavam alguns Franceses dos que estavam em terra para França; que deixando-os ir se fiariam deles os outros que ficavam em terra. E porque eles tinham dado uma regueira em terra, e tinham consigo trinta canoas de Tamoios para despejar a nau, se se vissem em pressa, e queimá-la com dois barris de pólvora que tinham desfundados no convés com seus morrões, e eles acolheram-se à terra; porque não fosse o derradeiro erro pior que o primeiro do ano passado, que se fez em tomar outra nau, e deixar mais Franceses em terra; pareceu bem aos capitães, porque havia perigo na tardança de mandar recado ao capitão-mor, dar-lhes segurança, e prometer-lhes que eles alcançariam do capitão-mor que lho confirmasse e houvesse por bem, e com isto se entregaram e se vieram, porém ficando os Tamoios espantados de saber como se fiavam dos Portugueses; mas os Franceses, que estavam já na nau, e se iam para a França com os seus, temendo que lhes não cumprissem o que prometiam, vendo chegar os nossos navios a ela, lançaram-se ao mar, e a nado: fugiram à terra, à vista dos nossos sem se seguir trás deles. O capitão-mor e todos tiveram isto por grande mercê do Senhor, por ser este grande caminho para se desarreigarem do Rio de Janeiro os Luteranos que nele ficam, que serão até trinta homens, repartidos em diversas aldeias, e todos homens baixos, que vivem com os Índios selvagens, e determinou de cumprir o que seus capitães tinham prometido, ainda que teve algumas contradições de homens, que mais olham seu próprio interesse que o bem comum; mas sendo a maior parte de parecer que os devia deixar ir em paz, e que daquela maneira se fazia maior serviço a Deus e a Sua Alteza, e era caminho para mais facilmente se povoar e sustentar o Rio de Janeiro, lhes deu licença que se fossem, tomando-lhes a pólvora e a artilharia que era necessária para a cerca, deixando eles escrito aos seus que se fiassem de nós, e se saíssem dentre os selvagens, e se lançassem conosco, contando-lhes o bom tratamento que dos nossos haviam recebido; estes desta nau eram católicos, segundo as mostras que traziam, a saber: horas de Nossa Senhora, sinais, contas, e cruzes. Pelo que é de crer que lhes fez o Senhor esta misericórdia, porque não ficassem em terra, e se viessem com os outros, e aos nossos dessem grandíssima opressão favorecendo os Tamoios: determinava o capitão-mor à minha partida de lá, que foi o derradeiro de Março, a falar com os Franceses, levando-lhes um seguro real de Sua Alteza, e a carta de seus parentes para poder apartá-los dentre os Tamoios para que esses não sujeitem os Índios e em pouca força na costa do Brasil, se não vem socorro de Sua Altesa, pelo qual todos estão esperando.

Antes que a nau francesa se partisse, fizeram os Tamoios outra cilada de vinte e sete canoas (13), aos quais ela tirou muitos e bons tiros, o que também será a ajuda para eles lhes darem' pouco credito e amor, e facilmente fazerem pazes com os Portugueses, se forem deste Reino favorecidos, e assim ficar são o Rio; e estas traziam nove ou dez e meteram esses nossos mão com tanto pulso que foi flechada a gente de seis aldeias que se fez em terra para os defender, e alguns dos nossos saíram após eles, e houve uma brava peleja, em que foram feridos dez ou doze dos nossos, e alguns de flechadas mui perigosas, as quais pela misericórdia de Deus facilmente sararam; mas dos contrários foram muitos os feridos, os quais os nossos viam levar a rasto pela praia, e meter nas canoas, e assim os foram perseguindo por mar e por terra, quase até meio caminho de suas aldeias, e tomaram-lhes uma canoa, e tornaram-se com grande vitória: gloria seja ao Senhor!

Ao derradeiro dia de Março parti do Rio de Janeiro para esta cidade, por mando da santa obediência (14), com um homem tomado da Capitania de Ilhéus, chamado João D’Andrade, o qual havia sido chamado de São Vicente pelo capitão-mor a buscar mantimentos a estas capitanias, e por sua boa indústria e diligência chegou ele, como acima digo, no mesmo dia e maré que a armada chegou de São Vicente, e de caminho levou cinco homens brancos, que resgatou dentre os Tamoios aquém do Cabo-Frio, os quais se haviam perdido em um navio que antes de João D’Andrade fora mandado a buscar mantimentos; e depois de estar no Rio todo este tempo, e achando-se nos combates que tenho referido, o tornou o capitão-mor, por se fiar de sua diligência, a mandar a negociar mais mantimento, porque a falta dele é que lhes faz uma maior guerra.

Já á minha partida tinham feito muitas roças em derredor da cerca, plantados alguns legumes e inhames, e determinavam de ir a algumas roças dos Tamoios a buscar alguma mandioca para comer, e a rama dela para plantar; tinham já feito um baluarte mui forte de taipa de pilão com muita artilharia dentro, com quatro ou cinco guaritas de madeira e taipa de mão, todas cobertas de telha que trouxe de São Vicente, e faziam-se outras e outros baluartes, e os Índios e Mamalucos faziam já suas casas de madeira e barro, cobertas com umas palmas feitas e cavadas como calhas e telhas, que é grande defensão contra o fogo. Os Tamoios andavam se ajuntando para dar grande combate na cerca (15); já havia dentro do Rio oitenta canoas, e parece-me que se ajuntariam perto de duzentas, porque de toda a terra haviam de concorrer à ilha, e dizia-se que fariam grandes mantas de madeira para se defenderem da artilharia e balroarem [=abalroarem] a cerca; mas os nossos tinham já grande desejo de chegar àquela hora, porque desejavam e esperavam fazer grandes cousas pela honra de Deus e do seu rei, e lançar daquela terra os Calvinos, e abrir alguma porta para a palavra de Deus entrar os Tamoios: todos viviam com muita paz e concórdia; ficava com eles o Padre Gonçalo d'Oliveira, que lhes dizia cada dia missa, e confessava e comungava a muitos para a glória do Senhor.

O maior inconveniente que ali havia, ultra da fome, é que estão lá muitos homens de todas as capitanias, os quais passa de ano que lá andam, e desejam ir-se para suas casas (como é razão): se os não deixam ir perdem-se suas fazendas, e se os deixam ir fica a povoação desamparada, e com grande perigo de serem comidos os que lá ficarem, de maneira que por todas as partes há grandes perigos e trabalhos, e se não fosse o capitão-mor amigo de Deus e afável, que nunca descansa de noite e de dia, acudindo a uns e a outros sendo o primeiro nos trabalhos, e terem todos grande e certa confiança que Sua Alteza proverá, tanto que souber estar já feito pé no Rio de Janeiro, que tão temeroso era, ainda lá nessas partes tão remotas; e que se agora se não leva ao cabo esta obra, e se abre mão dela, tarde ou nunca se tornará a cometer; já creio que houveram rebentados muitos e desamparados quase todos, máxime [=principalmente] tendo novas que deram aqueles homens que saíram do cativeiro dentro os Tamoios, os quais souberam de uma nau francesa, que ali estava, que estava o sobrinho de Villegaignon (16), capitão que foi da antiga fortaleza, para vir ao Rio de Janeiro e São Vicente com uma grossa armada; a cerca que tem feita não é mais que um pé a tomar posse da terra, sem se poder dilatar nem sair dela sem socorro de Sua Alteza, a quem Vossa Reverendíssima deve lembrar e incitar que logo proveja, porque ainda que é cousa pequena a que se tem feito, contudo é maior, e basta-lhe chamar-se cidade de São Sebastião para ser favorecida do Senhor, e merecimentos do glorioso mártir; e acrescentada de Sua Alteza que lhe tem tanta devoção e obrigação (17). Esta é a breve informação do Rio de Janeiro; resta pedir a Vossa Reverendíssima nos encomende e faça encomendar muito a Nosso Senhor, e tenha particular memória dos que residem e ao diante residirão naquela nova povoação, oferecidos a tantos perigos, da qual se espera haver de nascer muito fruto para glória do Senhor e salvação das almas.

Desta cidade do Salvador da Baía de Todos os Santos, aos 9 de Julho de 1565,

Minimus Societatis Jesu.


NOTAS

(1) Deve ser erro de cópia. A armada de Estacio de Sá chegou à barra do Rio de Janeiro em fevereiro de 1564, havendo partido da Baía em princípios desse ano. Como porém aportou no Espírito Santo, onde recebeu numeroso socorro e portanto se demorou, é possível que a partida da Baía se desse em fins de 1563, sendo essa a data escrita por Anchieta. A chegada ao Rio em fevereiro de 1564 é confirmada por B. da Silva Lisboa (Anais, cap. 8), que precisa o dia: 6.
(2) A armada partiu do Rio de Janeiro para São Vicente depois da Páscoa (2 de abril) de 1564.
S. de Vase. (o. c , 1. 3, n. 63-4).
(3) Compunha-se a armada, segundo S. de Vasc., de "seis navios de guerra, alguns barcos ligeiros e nove canoas de mestiços e Índios".
(4) Segundo presume Capistrano, a partida de São Sebastião se deu a 1 de fevereiro e a chegada á Ilha Grande a 4 ou 5.
(5) Segundo Capistrano, a 10 de fevereiro.
(6) A partida da Ilha Grande foi a 15 de fevereiro segundo Capistrano.
(7) Passou-se isso a 16 de fevereiro segundo Capistrano.
(8) Os navios juntaram-se ás canoas nas ilhas fora da baía a 21 de fevereiro, segundo supõe Capistrano.
(9) Foi então que se deu o "caso digno de memória" de que fala S. de Vasconcelos. Para conter os Índios "lhes empenhou Joseph [José de Anchieta] sua palavra", afirmando "que antes que o sol chegasse a tal parte do céu, mostrando-lha, chegariam sem dúvida os mantimentos, e após eles pouco depois a nau capitânia", o que de fato se deu.
(10) A 28 de fevereiro.
(11) Os portugueses se fortificaram "com trincheiras e fossos, no lugar onde depois chamaram Vila Velha, junto a um penedo altíssimo, que pela forma se diz Pão de Açúcar, e outra penedia, que por outro lado cercava, com que ficavam em parte defendidos" (S. de Vasc.). Quase textualmente é também o que diz frei Bernardo da Cruz, na Crônica de D. Sebastião, p. 351, escrita em 1586 mas só publicada em 1837.
(12) A tomada da nau foi a 13 de março, segundo Varnhagen, ou nesse ou no dia anterior, conforme Capistrano.
(13) Foi esta cilada a 10 de março, segundo S. de Vasconcelos, combatendo os portugueses em "dez canoas com duas lanchas de remo".
(14) Anchieta seguiu para a Baía a fim de ser aí ordenado pelo bispo d. Pedro Leitão. Ao passar pelo Espírito Santo, visitou a casa da Companhia e as aldeias indígenas, a mandado de Nobrega. Este partiu logo de São Vicente para o Rio de Janeiro com alguns companheiros. Na Baía Anchieta fez ver a Mem de Sá a necessidade de enviar nova armada ao Rio de Janeiro para consolidar a conquista, armada que partiu da cidade do Salvador em novembro de 1566, nela embarcando o canarino em companhia do governador, provincial Luiz da Grã, visitador Inácio de Azevedo e bispo d. Pedro Leitão. A chegada ao Rio foi a 18 de janeiro de 1567.
(15) O ataque, de que Anchieta só chegou a presenciar os preparativos, se deu nos primeiros dias de junho, feito por 3 naus francesas e 130 canoas tamoias.
(16) Bois-le-Comte se achava na Europa por esse tempo.
(17) D. Sebastião, que reinaria ainda durante treze anos.

20.1.18

SÃO SEBASTIÃO DO RIO DE JANEIRO

SABE O PORQUÊ DO NOME SÃO SEBASTIÃO DO RIO DE JANEIRO? O TRECHO A SEGUIR DO CAPÍTULO "AS PROCISSÕES" DAS MEMÓRIAS DA CIDADE DO RIO DE JANEIRO, DE VIVALDO COARACY, EXPLICA


Estátua de São Sebastião na Glória

Vinte de janeiro é o dia que a igreja consagra a São Sebastião. E São Sebastião é o padroeiro da cidade que foi posta pelo Fundador sob a sua invocação por ser o onomástico do soberano então reinante em Portugal, D. Sebastião, aquele rei-menino que foi morrer em Alcácer-Quibir. Quando Estácio lançou os fundamentos da cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro, que mais tarde havia de receber oficialmente o atributo de “leal”, governava Portugal, como regente, pelo neto ainda na infância, a rainha viúva D. Catarina d’Áustria. Foi ela quem mandou levantar uma cidade às margens da Guanabara. Mas ninguém lhe homenageia a memória por isso. Muitos nem mesmo sabem quem foi. 

Denise Araripe: São Sebastião do Rio de Janeiro (técnica mista)

Cumprindo as ordens que da Rainha recebera, Estácio agarrou-se com unhas e dentes àquela língua de terra onde plantara o marco inicial da cidade a que ia sacrificar a vida. E ali ficou por dois anos, numa tenacidade heroica, até que Mem de Sá viesse da Bahia trazer-lhe o auxílio preciso para expulsar e esmagar definitivamente os franceses. Foi a 20 de janeiro de 1567 que se deu a batalha que assegurou o domínio lusitano sobre o Rio de Janeiro. São os combates desse dia, em que Estácio foi ferido de morte, que podem ser legitimamente comemorados nesta data.

Mem de Sá a escolhera para atacar os redutos de franceses e tamoios justamente por ser o dia do Padroeiro. Naqueles tempos de fé robusta e ingênua, confiava-se no santo protetor para dar a vitória à sua gente. Não se afirmava já então que o mártir fora visto, sob a forma de um mancebo “muy fero e fermoso”, combatendo em pessoa ao lado das forças de Estácio, na duvidosa batalha das canoas? Aliás, não se pode desconhecer que essa confiança no apoio dos santos dava valor e ânimo capaz de conduzir, como conduziu, à vitória.

Imagem de São Sebastião na Cidade do Samba, Gamboa

São Sebastião foi sempre o padroeiro do Rio de Janeiro e, como tal, alvo de um culto carinhoso por parte dos cariocas. A ele foi consagrada a primeira capela erguida nestas terras: uma tosca igrejinha de taipa, coberta de sapé que Estácio se apressou em mandar levantar no primeiro sítio da cidade, ao sopé do Pão de Açúcar. Era a matriz, incipiente. E nela foi sepultado, de início, o próprio Fundador. Transferida a cidade para o Morro do Descanso, que depois se chamou do Castelo, um dos primeiros cuidados de Salvador de Sá foi ali erguer a igreja do Padroeiro, a Sé Velha, para onde foram trasladados os restos mortais de Estácio de Sá, hoje repousando na nova igreja de São Sebastião, sob a guarda dos Barbadinhos, na rua Haddock Lobo. 

Uma relíquia carioca: imagem recém-restaurada de São Sebastião do séc. XVI trazida por Estácio de Sá e guardada (e ocasionalmente exposta) na Igreja dos Capuchinhos, na Tijuca

Sempre foi muito devoto do seu patrono o povo do Rio de Janeiro. Nos tempos coloniais e nos da monarquia, a festa de São Sebastião era celebrada com vibrante entusiasmo em que as comemorações oficiais se aliavam às manifestações populares. Salvas das fortalezas e dos navios, parada de tropas em grande gala, cerimônias religiosas com missa solene e sermão adequado, repiques de sinos, foguetório, janelas ajaezadas de colchas de damasco e tapetes do oriente, luminárias em todas as casas, danças populares em plena rua. Os festejos estendiam-se ao mar onde se efetuava um combate simulado, com fogos de artifício, entre dois grupos de embarcações, para rememorar a famosa batalha das canoas em que, segundo a lenda, o Santo em pessoa tomara parte, descendo à terra, vindo combater ao lado de seus devotos, na defesa da sua cidade. Com a vinda para o Rio de Dom João VI, rei beato por excelência, os festejos religiosos e oficiais adquiriram ainda maior pompa e brilho, iniciando-se na noite de 17 de janeiro.

Imagem de São Sebastião na Igreja de São Francisco de Paula

Estátua de São Sebastião na Glória


Grafite de São Sebastião na Zona Portuária


Alberto da Veiga Guignard, São Sebastião, 1960, óleo sobre tela. "O artista parecia ter tomado gosto pelo expressionismo visceral de Van Gogh, e seus quadros de Cristo e de São Sebastião foram adquirindo uma coloração chocante. O marchand Jorge Beltrão especulava que alguns deles fossem produzidos sob o efeito do álcool, refletindo, portanto, de forma mais sincera, o estado de alma e o sofrimento em que o artista estava mergulhado." Marcelo Bortoloti, Guignard: Anjo Mutilado.

Imagem de São Sebastião na Igreja de Santa Luzia, Rio de Janeiro. Fotos do editor do blog, exceto da obra de Denise Araripe, obtida no site do Atellier Villa Olivia.



5.11.17

CHEGADA DA PRINCESA LEOPOLDINA NO RIO DE JANEIRO

Desembarque da Princesa Leopoldina, gravura de Debret. Observe que o pavilhão onde ela desembarcou da galeota (porque os navios ficavam ao largo e os passageiros e cargas eram trazidos ao cais por embarcações menores) fica onde hoje é a Orla Conde. Atrás vemos o mosteiro de São Bento e as torres de sua igreja.

Depois de ter se casado por procuração em Viena em 13 de maio de 1817 com o príncipe D. Pedro, a Princesa Leopoldina (Maria Leopoldine Josepha Caroline, em português Maria Leopoldina Josefa Carolina, da casa de Habsburgo-Lorena) chegou ao Rio de Janeiro em 5 de novembro daquele mesmo ano, exatamente dois séculos atrás. O Padre Perereca, em suas Memórias, assim descreve o fato:

Eram quase duas horas da tarde quando Suas Majestades, e Altezas chegaram ao elegante Pavilhão do Arsenal Real; e ao desembarcar da galeota a Sereníssima Senhora Princesa Real D. Maria Leopoldina Josefa Carolina [sic] pela mão do seu Augusto Esposo, o Sereníssimo Senhor Príncipe Real D. Pedro de Alcântara, deram as fortalezas, e embarcações de guerra uma salva real, todas ao mesmo tempo; e o ar retumbou com os altos brados de repetidos vivas, que deram os numerosíssimos espectadores, que do mar, e da terra presenciavam o desembarque de tão egrégia Princesa: e os sinos de S. Bento, seguidos dos demais sinos das igrejas todas desta cidade, com alegres, e harmoniosos repiques anunciavam ser aquele o feliz momento, em que a augusta filha do César austríaco pisava o solo do Brasil, e ia entrar como em triunfo na mais afortunada cidade do Novo Mundo, por tantos motivos já tão ditosa, e agora ainda mais pela posse de tão preciosa, e inestimável joia, que com os seus brilhantes reflexos vinha realçar a beleza dos luzentes diamantes, que ornam a Real Coroa Portuguesa.

Leopoldina, Arquiduquesa d'Áustria, Princesa Real do Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarves em gravura de Jean François Badoureau

Noticiou a Gazeta do Rio de Janeiro do sábado, 8 de novembro de 1817:


Primeira página da Gazeta do Rio de Janeiro de 8/11/1817

Quarta-feira 5 do corrente pela manhã recebendo-se a mui grata notícia de se avistarem as naus e fragata, que compunham a esquadra, que conduzia Sua Alteza Real a Sereníssima Senhora Princesa Real do Reino Unido de Portugal, do Brasil e dos Algarves, encheram-se logo de alvoroço os ânimos de todos os portugueses, e os montes sobranceiros a essa cidade começaram desde logo a cobrir-se de imenso povo, que com os olhos pregados no horizonte, aguardava impaciente a chegada da afortunada nau, que trazia o complemento dos mais ardentes desejos. [...]  É impossível descrever o alvoroço, com que o povo corria pelas ruas como transportado, e o imenso concurso [=afluência], que juncava o Arsenal Real da Marinha. Com efeito era ele digno de toda a atenção, e foram precisas longas páginas para referir a elegância, que ostentava.

Leopoldina a cavalo, fotografia de autor e data desconhecidos. Todas as imagens desta postagem foram obtidas na Biblioteca Nacional Digital.

Os textos a seguir foram extraídos dos "textos de parede" da exposição Leopoldina, princesa da Independência, das artes e das ciências exibida pelo Museu de Arte do Rio de 12/07/2016 a 26/03/2017.  Para ter acesso aos textos completos clique aqui.

O casamento

O marquês de Marialva, emissário da corte de dom João VI para tratar do casamento, apresentou à princesa a imagem de um Brasil paradisíaco, que Leopoldina descreveu para a irmã Luísa, em 4 de outubro de 1816, como

país magnífico e ameno, terra abençoada que tem habitantes honestos e bondosos; além disso louva-se toda família, têm muito bom senso e nobres qualidades... mas esteja convicta que o meu maior empenho será corresponder à confiança que toda família e meu futuro esposo em mim depositam através de meu amor por ele e do meu comportamento

O casamento foi realizado por procuração em Viena, no dia 13 de maio de 1817, data de aniversário de dom João VI. O noivo, que não estava presente, foi representado em cerimônia pelo arquiduque Carlos, tio paterno de Leopoldina. No Rio de Janeiro, também foi festejada a notícia do ajustado enlace. Mas dom Pedro I e a arquiduquesa da Áustria só se viram pela primeira vez cinco meses depois – a bordo do barco que a trouxera. Dona Leopoldina desembarcou no Rio de Janeiro em 5 de novembro. No dia seguinte, as definitivas cerimônias de matrimônio se pronunciavam na Capela Real [atual Igreja de N.S. do Carmo da Antiga Sé, na Praça XV] e enchiam de vida eventos por toda a cidade.

Simplício de Sá, Pedro I e a Imperatriz Leopoldina, óleo sobre tela, Fundação Romão Duarte

A viagem

A viagem de Leopoldina ao Brasil foi difícil e demorada. A arquiduquesa partiu de Viena em direção a Florença em 2 de junho de 1817, onde esperava definições da corte portuguesa para prosseguir com a travessia que a levaria ao marido, dom Pedro. Ainda era recente o restabelecimento da ordem monárquica, destituída em Recife por revoltosos de ideias liberais no episódio conhecido como Insurreição Pernambucana.

Dona Leopoldina embarcou em Livorno, na Itália, na esquadra portuguesa composta das naus D. João VI e São Sebastião. Era a primeira vez que via o mar. Com uma bagagem de princesa e numerosa comitiva, enfrentou 86 dias de travessia nas águas do Atlântico. Quarenta caixas da altura de um homem contendo o enxoval, livros, suas coleções e presentes para a futura família somavam-se a algumas damas da corte, uma camareira-mor, um mordomo-mor, seis damas, quatro pajens, seis nobres húngaros, seis guardas austríacos, seis camaristas, um esmoler-mor, um capelão, um secretário particular, um médico, um mineralogista e seu professor de pintura.

Partiu definitivamente rumo ao Brasil em 15 de agosto. As diferenças de hábitos e costumes, notadas já no período em que esteve embarcada, prenunciavam as dificuldades que teria de enfrentar no Rio de Janeiro. A primeira vez que pisou em território português, contudo, não foi em terra Brasilis, mas na Ilha de Madeira, em 11 de setembro de 1817.


Hippolyte Taunay, Desembarque de S. A. a Princesa Real do Reino Unido, Portugal, Brasil e Algarves na cidade do Rio de Janeiro no Arsenal Real da Marinha

1.11.17

A PROCISSÃO DOS OSSOS, de VIEIRA FAZENDA

TEXTO EXTRAÍDO DA OBRA ANTIQUALHAS E MEMÓRIAS DO RIO DE JANEIRO DE VIEIRA FAZENDA (VOLUME 1)

Procissão dos Encapuzados, desenho de Manuel de Araújo Porto-Alegre (fonte: Biblioteca Nacional Digital)

Começavam, de véspera, os preparativos para a anual comemoração dos mortos, ordenada pela Igreja Católica.

No dia 1 de novembro, depois do meio-dia, dobravam lugubremente a finados todos os templos e capelas desta cidade. E era tal o efeito aterrador desse triste badalar de sinos, que em 1850, por ocasião da primeira epidemia de febre amarela, a polícia o proibiu. Ao entardecer abriam-se de par em par as portas da velha igreja da Misericórdia para, terminadas às Vésperas, deixar passar longo, imponente e significativo cortejo: era a Irmandade, que revestida de seus amplos e negros balandraus [=veste com capuz e mangas largas], ia, em nome de Cristo e da Caridade, disputar à voragem dos urubus e dos cães os restos mortais dos justiçados pela implacável e muitas vezes falível justiça dos homens. 

Resumindo as singelas expressões do Capítulo XXXVII do Compromisso – Do modo com que se hão de ir buscar as ossadas dos que padeceram por justiça, tentaremos descrever a chamada procissão dos ossos [o autor refere-se a um capítulo do Compromisso da Irmandade da Misericórdia no qual se baseia para sua descrição da macabra procissão].

Abria o préstito o irmão oficial da vara com um homem do azul (empregado subalterno) tangendo a campainha.

Em seguida ia a Bandeira da Misericórdia conduzida por um irmão nobre entre dois tocheiros [=castiçal para tocha] levados por um irmão nobre e outro oficial. Após desfilava a Irmandade posta em procissão sem distinção alguma, nem precedência de lugar; e pelo meio ia o mordomo da vara, nobre, governando entre a irmandade, e em lugar conveniente ia a primeira tumba carregada pelos homens ordinários com quatro tocheiros às ilhargas [=ao lado], levados pelos homens que com eles andam nos enterramentos.

Diante dessa tumba caminhava o mordomo dos presos, oficial, levando a competente vara. Seguia-se a segunda tumba conduzida da mesma maneira que a outra, indo diante o mordomo nobre dos presos com a sua vara. No couce [=retaguarda] da procissão caminhavam os capelães da casa com suas sobrepelizes, e no remate deles o crucifixo, levado pelo escrivão da mesa acompanhado por 8 tocheiros. Atrás do crucifixo ia o provedor.

Chegado o préstito à forca, eram recolhidos os ossos nas tumbas, e a procissão voltava na mesma ordem, passando, porém, o provedor para diante do crucifixo, e indo após os capelães encomendando os defuntos, e em último lugar as duas tumbas com os dois mordomos dos presos.

Dentro da igreja eram as tumbas depositadas e, sentados os irmãos, havia pregação, sendo no dia seguinte enterrados os ossos no cemitério da Misericórdia, junto ao Morro do Castelo, na parte posterior do hoje Hospital Velho. Quando o dia de Todos os Santos caía em sábado, a procissão era feita no domingo.

Qual é a origem desta cerimônia religiosa, que de Portugal passou ao Brasil?

Os antigos juízes distinguiam duas espécies de mortes a atroz e a cruel; na primeira, o condenado depois de enforcado era decapitado, e a cabeça ficava exposta no patíbulo; outras vezes era o cadáver esquartejado, podendo também ser queimado e aos ventos lançadas as cinzas! Na segunda, o réu antes de morrer era atormentado, atenazado; podiam ser seus membros quebrados com massas de ferro, etc.

Da primeira temos exemplo com Tiradentes, da segunda com os Távoras! [ver "Processo dos Távoras" na Wikipedia]

Sempre, porém, nos intrigaram as duas fórmulas das sentenças de pena última: morte natural PARA SEMPRE e morte natural.

Deu-nos a chave do enigma uma nota das Ordenações Filipinas comentadas pelo erudito Cândido Mendes, que para explicar tais expressões encontrou fundamento em uma memória do bacharel João José Miguel Ferreira da Silva Amaral. Por aí podemos ter a significação da Procissão dos Ossos.

Os corpos dos condenados à morte natural para sempre ficavam suspensos da forca, e no dia 1 de novembro iam processionalmente os irmãos da Misericórdia buscá-los para os enterrar em lugar sagrado.

Eram passíveis dessa pena os grandes criminosos, contra os quais havia circunstâncias agravantes; os condenados ficaram expostos para exemplo e escarmento [=punição]. Disso nos dá prova o seguinte alvará de d. Manuel em data de 2 de novembro de 1498:

“Nós El-Rei fazemos saber a quantos este Nosso Alvará virem que a Nós praz havendo assim por serviço de Deus e Nosso que a Confraria que agora é feita em esta Cidade, possa tirar os justiçados da forca desta Cidade e ossadas deles, por dia de Todos os Santos de cada um ano e soterrá-los no Cemitério da dita Confraria, isto para sempre em cada ano etc.”

Os que deviam sofrer somente morte natural não tinham por patíbulo a forca de Santa Bárbara, mas o Pelourinho da Ribeira, e os restos deles podiam ser inumados no mesmo dia. Para esse mister, a Misericórdia de Lisboa havia requerido a construção de uma forca levadiça; mas o rei, por outro alvará de 2 de novembro de 1498, declarou: “que se não faça a dita forca levadiça, e os que assim houverem de padecer serão enforcados no Pelourinho.”

Pensamos fossem feitas, até certo ponto, no Brasil, as execuções da pena de morte por esses dois modos, e que entre nós houvesse anualmente a procissão dos ossos. Caiu ela em desuso, quando, com o progresso dos tempos, foram a pouco e pouco sendo abolidos os rigores e crueldades da antiga legislação, principalmente com o decreto do príncipe regente d. João, firmado em 12 de dezembro de 1801.

Já dissera o grande Alexandre de Gusmão: as leis são feitas mais para intimidar do que para punir. E em tempos anteriores um governador-geral pedia ao rei certa benevolência para os criminosos do Brasil: “esta terra não se deve, nem pode regular pelas leis e estilos do Reino; se Vossa Alteza não for muito fácil em perdoar, não terá gente no Brasil.”

Era assim que em santa e gloriosa missão a Misericórdia, fazendo a solene procissão dos ossos, dava prova eloquente de piedade cristã e procurava obrigar aos demais fiéis a se lembrarem dos defuntos – ainda que sejam tão desamparados como estes (os justiçados) parecem.

Não vem longe o dia de finados, e é justo lembrar mais essa feição simpática do sublime instituto, que, tênue arbusto no começo desta cidade, se tornou copada árvore, à cuja sombra, durante três séculos, se tem abrigado milhares e milhares de filhos do desamparo e do infortúnio.

Recordar tais antiqualhas é concorrer com pequeno contingente para a história econômica dos nossos usos e costumes, a qual está ainda por fazer.


15 de outubro de 1901.

30.4.17

DOCUMENTO HISTÓRICO: TRECHO DO DIÁRIO DE BORDO DA EXPEDIÇÃO DE MARTIM AFONSO DE SOUSA QUE ESTEVE NO RIO EM 1531

Capa do vol. 24 da revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro de 1973 que publicou, na pág. 9, o Diário da Navegação de Pero Lopes de Souza (de 1530 a 1532). É possível fazer download da revista clicando aqui.

De 30 de abril até 1o de agosto de 1531 a expedição de reconhecimento da costa brasileira de Martim Afonso de Sousa permaneceu no Rio de Janeiro, que na época era o nome da Baía da Guanabara, supostamente considerada o estuário de um rio, já que a cidade em si ainda nem havia sido fundada. Durante a estadia enviou-se uma expedição ao interior que deparou com um "grande rei" indígena, que veio com ela até o Rio. A expedição também trouxe noticias da existência de "muito ouro e prata" no interior. Quem escreveu o diário da navegação foi Pero Lopes de Souza, irmão de Martim Afonso. A seguir transcrevemos o trecho do diário que narra a vinda de Cabo Frio ao Rio de Janeiro e a estadia de três meses aqui: 

"Sexta-feira pela manhã nos fizemos à vela com o vento nordeste, indo sempre ao longo da costa três léguas dela, per [=por] fundo de cinquenta braças d’área limpa. O cabo do parcel [=recife], que jaz ao mar, se corre da banda do nordeste ao sueste, e da banda do sudoeste aloeste, e às parte a loessudoeste. Quando fui fora do parcel descobriram-se serras mui altas ao sudoeste. Ao meio-dia tomei o sol em vinte e dois graus e três quartos: ao sol posto fui com o cabo Frio: como foi noite amainamos as velas, e fomos com os traquetes [=vela que pende da verga inferior do mastro de vante] toda a noite. O cabo Frio se corre com o Rio de Janeiro leste oeste: há de caminho dezessete léguas.

Sábado trinta dias d’abril, no quarto d’alva, éramos com a boca [=foz] do Rio de Janeiro, e por nos acalmar o vento, surgimos a par de uma ilha, que está na entrada do dito rio, em fundo de quinze braças d’área limpa. Ao meio dia se fez o vento do mar, e entramos dentro com as naus. Este rio é mui grande; tem dentro oito ilhas, e assim muitos abrigos: faz a entrada norte sul toma da quarta do noroeste sueste: tem ao sueste duas ilhas, e outras duas ao sul, e três ao sudoeste; e entre elas podem navegar carracas [=navio mercante português de grande porte e longo curso]: é limpo, de fundo vinte duas braças no mais baixo, sem restinga nenhuma e o fundo limpo. Na boca de fora tem duas ilhas da banda de leste, e da banda d’aloeste tem quatro ilhéus [=ilhotas]. A boca não é mais que de um tiro d’arcabuz; tem no meio uma ilha de pedra rasa com o mar; pegado com ela há fundo de dezoito braças d’área limpa. Está em altura de vinte e três graus e um quarto.

Como fomos dentro, mandou o capitão J. fazer uma casa forte, com cerca por derrador; e mandou sair a gente em terra, e pôr em ordem a ferraria para fazermos cousas, de que tínhamos necessidade. Daqui mandou o capitão J. quatro homens pela terra dentro: e foram e vieram em dois meses; e andaram pela terra cento e quinze léguas; e as sessenta e cinco delas foram por montanhas mui grandes, e as cinquenta foram por um campo mui grande; e foram até darem com um grande rei, senhor de todos aqueles campos, e lhes fez muita honra, e veio com eles até os entregar ao capitão J.; e lhe trouxe muito cristal, e deu novas como no Rio de Peraguai havia muito ouro e prata. O capitão lhe fez muita honra, e lhe deu muitas dádivas, e o mandou tornar para as suas terras. A gente deste rio é como a da Bahia de todolos Santos; senão quanto é mais gentil gente. Toda a terra deste rio [Rio de Janeiro, ou seja, Baía da Guanabara] é de montanhas e serras mui altas. As melhores águas há neste rio que podem ser. Aqui estivemos três meses tomando mantimentos, para um ano, para quatrocentos homens, que trazíamos; e fizemos dois bargantins [=bergantim, tipo de veleiro] de quinze bancos.

Terça-feira, primeiro dia d’agosto de mil e quinhentos e trinta e um partimos deste Rio de Janeiro com vento nordeste. Fazíamos o caminho a loeste [=oeste] a quarta do sudoeste."

21.12.16

CAIS DO VALONGO, de NIREU CAVALCANTI

TEXTO ESCRITO PELO HISTORIADOR NIREU CAVALCANTI EM 20 DE DEZEMBRO DE 2016 E ENVIADO AOS AMIGOS, ENTRE OS QUAIS TENHO A SORTE DE ESTAR

Pessoal amigo

Venho há muito tempo tentando trazer para a reflexão na mídia essa farsa do “Cais do Valongo” destinado ao desembarque de escravos. Assim, trago algumas de minhas conclusões sobre a questão resultantes de árduas pesquisas.

O comércio de escravos (os armazéns) no Valonguinho (a primeira parte da imensa praia que se estendia da Pedra do Sal até o morro da Saúde), seguida da parte chamada de Valongo, transferiu-se para a região por iniciativa da Câmara de Vereadores, dos comerciantes de grosso-trato não envolvidos com o comércio negreiro, dos cirurgiões e médicos, dos profissionais de engenharia e arquitetura, a partir de janeiro de 1758.

Naquela época acreditava-se que as epidemias que grassavam na cidade tinham origem nos armazéns situados na área central – região do entorno da atual Praça XV – condição incompatível, segundo os contemporâneos, com cidade do porte e da importância do Rio de Janeiro.

Alguns negociantes negreiros entraram no Tribunal da Relação questionando se procedia, de fato, a relação entre as epidemias e os armazéns de escravos. O processo arrastou-se naquele Tribunal, mas por decisão do vice-rei Marquês do Lavradio, aqueles comerciantes foram obrigados a se deslocar a nova região demarcada pela Câmara de Vereadores.

O comércio negreiro no Valongo teve sua duração de 1760 até 1830, ano em que o tráfico negreiro efetivamente já estava reduzido. Para alcançar 1.000.000 de escravos seria necessário que entrassem mais de 14 mil escravos por ano. Os livros da Alfândega durante o século XVIII registram no máximo 11.000 em alguns anos (cerca de cinco).

Com a chegada da Corte e assinatura de tratado comercial com a Inglaterra, um dos seus itens estabelecia o compromisso da monarquia portuguesa iniciar a redução do tráfico negreiro, até sua total extinção (que só veio a ocorrer em 1850). Os comerciantes negreiros apressaram-se, então, em trazer mais escravos. Registros na Alfândega para os anos de 1810 e 1811 mostram a chegada de 20.000 escravos, em cada ano.

O cais da cidade (da Misericórdia até o Arsenal da Marinha) ficou incompatível com a demanda oriunda da abertura dos portos do Brasil, pelo príncipe regente D. João, ao comércio com as nações amigas. O número de navios mercantes estrangeiros aumentou significativamente, além dos navios originários do crescimento do comércio interno entre as províncias.

Na última década do século XVIII os comerciantes que usavam os portos do interior da Baía de Guanabara, principalmente os negociantes de Minas Gerais, solicitaram permissão para construírem, às suas custas, um cais na região do Valongo, ou Gamboa. Argumentavam sobre o prejuízo que tinham com a pequenez do “Cais dos Mineiros”, vizinho à Alfândega. Foi negado o pedido pelo vice-rei conde de Resende, sob o argumento de que seria perigoso incentivo ao contrabando de mercadorias, principalmente de escravos.


Este perfeito mapa da região (1791) do Valonguinho-Valongo mostra a Pedra do Sal (“Pedra da Prainha”) avançando pelo mar da baía, interrompendo a ligação entre o trecho da Prainha (atual Praça Mauá) e a marinha do Valongo. Assim como não registra nenhum cais público, apenas os atracadouros dos diversos trapiches.


A ausência de cais público ocorre neste mapa de 1808. Mostra a cidade que D. João encontrou quando chegou.

Dom João, em 1809, resolveu fazer um cais do Largo da Prainha até o morro da Saúde. Foi feito o projeto, mas não tinha o Tesouro recursos para arcar com essa despesa, principalmente fazer o corte na Pedra do Sal e indenizar todos os proprietários que tinham trapiches, ou moradias e comércio ao longo desse cais. A obra se arrastou por anos e a partir de 1821 já há citação documental de que foram construídos parte do cais (muralha), algumas rampas e degraus. É importante frisar que esse cais Joanino destinava-se aos navios mercantes, não negreiros. Os escravos continuavam a desembarcar, serem cadastrados e pagos os impostos na Alfândega [atual Casa França-Brasil], como registra Rugendas em 1828.



Esta aquarela de Thomas Ender (c. 1818) mostra a Pedra do Sal ainda em processo de corte e a praia do Valonguinho-Valongo sem cais.


Neste mapa (1829) observamos que o corte da Pedra do Sal foi totalmente realizado e feito para a nova urbanização da orla, registrando ainda o aparecimento de vários atracadouros e novos trapiches ao longo de toda a marinha.


Gravura de Rugendas (1828) mostrando o processo de chegada dos escravos novos na Alfândega.

Uma grande obra de renovação, ampliação e embelezamento do cais do Valongo foi realizada para o desembarque da imperatriz Theresa Cristina (03/09/1843), esposa de D. Pedro II.


Mapa de 1844, um ano após a construção do cais da Imperatriz (Praça Municipal), mostra a nova zona portuária da cidade do Rio de Janeiro.

Portanto, o cais descoberto na região do Valongo e que poderemos ter a felicidade de visitar é o construído para aquele importante marco político-histórico no Brasil.

O tombamento da região do Valongo como Patrimônio da Humanidade é mais do que recomendável: zona do comércio negreiro, abrigo do campo santo dos escravos novos. O cemitério lá se encontra, sob várias construções da Rua Pedro Ernesto – a antiga rua do Cemitério ─, além de ter sido o cenário vivo da união das nobrezas europeias: os Bourbon e os Bragança, nos trópicos e continente Americano.

Cabe, por fim, destacar que o Brasil é o único país da América que foi reinado e império.


Grandjean de Montigny: Projeto de fonte comemorativa da chegada da imperatriz D. Theresa Cristina. (1843).

Observação: todos os mapas e iconografias pertencem ao Acervo da Biblioteca Nacional e podem ser acessados no seu portal digital.

Escrito por Nireu Cavalcanti. Rio de Janeiro, 20 de dezembro de 2016. Clique no label "História do Rio" abaixo para ler outras matérias neste blog sobre a história da cidade.