ENSEADA DE BOTAFOGO

ENSEADA DE BOTAFOGO
"Andar pelo Rio, seja com chuva ou sol abrasador, é sempre um prazer. Observar os recantos quase que escondidos é uma experiência indescritível, principalmente se tratando de uma grande cidade. Conheço várias do Brasil, mas nenhuma tem tanta beleza e tantos segredos a se revelarem a cada esquina com tanta história pra contar através da poesia das ruas!" (Charles Stone)

VISTA DO TERRAÇO ITÁLIA

VISTA DO TERRAÇO ITÁLIA
São Paulo, até 1910 era uma província tocada a burros. Os barões do café tinham seus casarões e o resto era pouco mais que uma grande vila. Em pouco mais de 100 anos passou a ser a maior cidade da América Latina e uma das maiores do mundo. É pouco tempo. O século XX, para São Paulo, foi o mais veloz e o mais audaz.” (Jane Darckê Avelar)
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12.6.14

3 x COPA DO MUNDO



1- COPA DE 1950 (trechos de A HISTÓRIA DA SELEÇÃO BRASILEIRA EM CORDEL do cordelista CLAUDIO ARAGÃO à venda por R$12,00 na LIVRARIA DA TRAVESSA)

Dois de agosto de 1, 9, 4, 8
teve início, afinal, a construção
do maior estádio de futebol
o templo da magia e da paixão
Em um ano e dez meses, tempo recorde
todo o Rio já tinha uma visão
da oitava maravilha do mundo
o mais belo postal desta nação
Em dezesseis de junho, afinal
surge o Maracanã, fenomenal!

Cariocas e paulistas fizeram
a chamada partida inaugural
e o primeiro gol, quem assinalou
foi Didi, numa bomba genial
Os paulistas viraram, três a um
todos acharam muito natural
Os paulistas, por muito tempo, vinham
ao Maraca e faziam carnaval
A Copa, em cinquenta, já estava
contagem regressiva começava

[...]

Nesse tempo, o Brasil de ponta a ponta
não ficava com o radio desligado
Logo após o massacre da Espanha
o povo não fazia de rogado
e o clima "já ganhou" foi se espalhando
Contam que um delegado entusiasmado
deu bandeiras pros presos e os soltou
depois, no xadrez foi trancafiado
Esse era o clima que predominava
a semente do que nos esperava

[...]

Os jornais não cansavam de insuflar
com manchetes pra quebrar o moral
do Uruguai e levantar o Brasil
Pelas ruas, alarido geral
"Hoje é dia de sermos campeões!
Uruguai vai brincar o Carnaval!
Salve o Brasil, o campeão do mundo!"
De todo o território nacional
vinha gente com o mesmo sentimento
Me bateu estranho pressentimento

Uruguai que merecia respeito
a Celeste de glórias mundiais
Obdulio Varela, Schiaffino
Julio Perez e Gigghia, geniais
Pra mexer com os brios uruguaios
Obdulio adquiria jornais
e botando no chão, todos pisavam
e o grande capitão pedia mais
que deixassem o sangue no gramado
e só Deus pra dizer o resultado

Enfim, o dia dezesseis de julho
Jogadores em estado de tensão
acordaram irritados de manhã
tinham tudo, menos concentração
Empresários, repórteres, políticos
nesse dia, chamavam a atenção
"Parecia que a Copa já acabara!"
 As palavras do grande capitão
Mestre Ziza, de um lado pro outro andava
temendo pelo que se aproximava

Aos catorze e cinquenta e cinco deu-se
o toque inicial dessa partida
Ademir pra Danilo, e esse a Bauer
Duzentas mil pessoas, a torcida
Dum lado, a habilidade do Brasil
do outro, a garra uruguaia conhecida
Zero a zero o primeiro tempo e agora
essa Copa seria decidida
Logo o segundo tempo começou
e uma grande surpresa preparou

[...]


A coruja agourenta da má sorte
trinta e quatro minutos nos sorriu
Julio Perez dá combate a Danilo
rouba a bola e velozmente partiu
troca passes com Miguez, toca a Gigghia
devolvendo pra Perez que sentiu
grande espaço no nosso lado esquerdo
com talento, lançou, ninguém cobriu
o Brasil se calou, ele avançou
entre a trave e Barbosa colocou

O Maracanã em sua primeira "encarnação"

Essa foi a tragédia do Maraca
no Brasil, dizem que não houve igual
morreu gente no Brasil e no Uruguai
ambulâncias na porta do hospital
jogadores chorando, pesadelo
ambiente de um grande funeral
Duzentas mil estátuas presas ao solo
era um quadro dantesco, infernal
Se queimavam jornais, sonhos, bandeiras
cinzas junto a lágrimas brasileiras

o soluço foi tanto que no Olimpo
os deuses acordaram, foram ver
Um menino pegou o pai chorando
junto a um rádio de pilha e quis saber
Ele disse: "Meu filho, vai andando
É que o Brasil acaba de perder
uma Copa em pleno Maracanã!"
Respondeu: "Papai, pare de sofrer
uma Copa, prometo conquistar!"
E sapatos saiu pra engraxar

O Maracanã em sua primeira "encarnação" (detalhe)

2- A TAÇA DO MUNDO É NOSSA de IVO KORYTOWSKI

Não sou nenhum Pelé ou Ronaldinho, mas as Copas do Mundo fizeram parte também de minha vida.

Por exemplo — acredite se quiser — estive na fatídica final da Copa de 1950, aqui no Maracanã. É bem verdade que, oficialmente, eu sequer havia nascido (nem se trata de regressão a vida passada), mas minha mãe já carregava a sementinha no ventre quando foram, ela e meu pai, assistir à partida. A vitória brasileira, tão certa como o fato de que no dia seguinte o sol se levantaria. Mas o sol não se levantou! Quantas vezes ouvi meu pai narrando o silêncio, a desolação de enterro que se abateu sobre aqueles quase 200 mil espectadores: todos saíram do estádio cabisbaixos, depressão coletiva, ninguém ousando puxar conversa com ninguém. Meu pai me contou.

Da Copa de 58 guardo vagas lembranças: todos ao pé do rádio, vibrando, brado de guerra: “aleguá” (sabe-se lá o que isso significava?). E a canção:

A Taça do Mundo é nossa,
Com brasileiro não há quem possa!

Na Copa de 62 o rei se contundiu logo nos primeiros jogos e a estrela foi “Seu Mané”: assim os locutores esportivos se referiam a Mané Garrincha, a Alegria do Povo. Alegria de pobre dura pouco.

Quatro anos depois, só um cético empedernido duvidaria de que traríamos o tri. O dia em que Brasil perdeu de Portugal, ainda na primeira fase, de grupos, viu-me em São Paulo, em visita à vovó. Aliás, o apartamento de minha avó, na Avenida Angélica, dava para o Pacaembu: a gente conseguia ver os jogos. Pois foi da janela do apartamento de vovó que, certa feita, vi (com auxílio do binóculo de corridas de cavalo do vovô) Pelé jogando pelo Santos. Teria sido contra o Vasco?

A Taça do Mundo é nossa,
Com brasileiro não há quem possa!

1970. Ditadura militar. Noventa milhões em ação, pra frente Brasil, salve a seleção! Saldanha quis barrar Pelé da Seleção: acabou barrado do cargo de técnico (ao resistir à pressão de Médici pela convocação de Dario). A seleção ia mal das pernas, só mesmo um otimista empedernido acreditava na possibilidade do tri. Foi a primeira Copa televisionada: a imaginação, que antes transformara a descrição radiofônica em imagens do jogo, agora transformaria o preto-e-branco em vistosas cores. A turma se reunia no Castelinho (bar na Vieira Souto em forma de castelo medieval, já demolido), que instalou uma televisão do lado de fora — acho que foi pioneiro nesse hábito hoje generalizado de instalar televisões em locais públicos. Eu andava solitário, sem namorada, na época. Ganhamos o tri!

A Taça do Mundo é nossa,
Com brasileiro não há quem possa!

Levamos longos 24 anos pra repetir a proeza. E muita água rolou sob a ponte: o Brasil se redemocratizou e a Copa de 94 me vê casado, pai de um encantador menino, bem-sucedido tradutor. Meu grande sonho ainda irrealizado: o sucesso como escritor. Sozinho: filho e esposa passam as férias em Minas. Solidão, eterna sina. Meio de porre. O tri de 1970 vem à lembrança: folheio antigos diários em busca de alguma referência à velha Copa. Encontro umas filosofias de botequim que escrevinhei naquela ocasião, embalado pela euforia geral. Euforia que agora se repetia.

A Taça do Mundo é nossa,
Com brasileiro não há quem possa!

E eis que o pentacampeonato, na Copa de 2002, me vê descasado, escritor enfim. E solitário como nas Copas anteriores! Eterna sina?

Assim terminei esta crônica originalmente escrita em julho de 2002 e que agora retomo. (Da Copa de 2002 lembro ainda que foi disputada do outro lado do mundo, as partidas travadas de madrugada pelo horário daqui, deu pra ver quase nada.)  

Desencalhei, voltei a casar. A Copa de 2006  na Alemanha curti a dois (a Alemanha foi a terra pela qual meus dois avôs, materno e paterno, arriscaram a vida na Grande Guerra para depois serem escorraçados por serem judeus). A Copa de 2010 do outro lado do oceano foi bem animada por aqui, a gente se identificou com os irmãos africanos... Vuvuzela, jabulani...

Em 2014, quando enfim a Copa volta às nossas plagas e temos a chance de nos exibirmos ao mundo e alavancarmos nossa indústria do turismo, nosso velho complexo de vira-lata e uma "Santa Aliança" de black blocs fascistas, ultraesquerda, políticos de passado suspeito, sindicalistas radicais, movimentos sociais de sem isto e sem aquilo afagados pelo desgastado PT e os ranzinzas-chatos-de-galocha-mal-humorados-cricris de sempre tenta gorar tudo, pôr água no nosso chope. Mas quando a bola começar a rolar, a verdadeira natureza lúdica e alegre e descontraída do brasileiro virá à tona, e vai rolar a festa, vai rolar!

Reforma do Maracanã para a Copa de 2014



3- COPA DO MUNDO 50, de CYRO DE MATTOS (texto gentilmente enviado pelo autor para este blog)

Já vão longe aqueles idos. Tento tirar da memória alguns momentos daquele mundo que rolava com a infância na bola. Da fumaça do tempo procuro encontrar o menino que jogava pelada nos campinhos improvisados dos terrenos baldios, espalhados pela cidade pequena, com alguns bairros e poucas ruas calçadas. Às vezes o campinho era improvisado em algum fundo de quintal ou pastagem de uma roça perto do centro da cidade. O jogo era disputado debaixo de chuva ou sol escaldante.

Havia o Campinho do Fole no outro lado do rio. Ali eram jogadas aos domingos, pela manhã, as partidas mais importantes. O time de garotos da rua de cima contra o da rua de baixo. No vaivém do jogo não faltavam empurrões, bate-bocas, xingamentos e algumas brigas intensas. Terminando o jogo, o banho na correnteza de águas límpidas serenava os ânimos. Uma amizade feita de relações naturais logo se refazia com mergulhos e saltos a partir dos barrancos íngremes.

O pai levava-me para ver os jogos dos times amadores da cidade no Campo da Desportiva. No início cercado com folhas de zinco, depois murado, o Campo da Desportiva era uma festa aos domingos. As folhas de zinco que cobriam a arquibancada zuniam forte quando as rajadas de vento penetravam entre suas frestas. Dava arrepios, parecia que algumas folhas de zinco na cobertura da arquibancada podiam se soltar a qualquer momento e causar danos entre os torcedores.

Lá, naquele campo de grama maltratada, o menino viu lances para não esquecer. Os dribles do meia-esquerda Macaquinho faziam os torcedores sorrir, a bola ficava grudada no seu pé, ninguém conseguia tomar dele. Delicado era um maestro, como sabia tocar a bola com sutileza para o companheiro. Carrapeta tinha uma visão de jogo que só o craque possui. Distribuía o jogo com a cabeça erguida, lançava a bola para o atacante fazer o gol, sem maior esforço. Mais adiante, na época da seleção amadora de ouro, conheci o centroavante Zé Reis, um artilheiro que se o marcador desse uma bobeira sabia marcar sua presença. Não era jogador técnico, mas longe de ser cabeça de bagre. Cumpria bem a sua missão de fazer gol. Jogou no Fluminense local, na seleção de Itabuna e no Leônico de Salvador, onde foi artilheiro do campeonato por várias temporadas.


E a pior derrota? Em 1950, Brasil contra Uruguai, final do campeonato mundial, no Rio. O Brasil jogava pelo empate. Um gol fazia balançar o estádio com 200 mil pessoas. Foi de Friaça no início do segundo tempo, lenços acenavam para os valentes atletas uruguaios. “É campeão! É campeão!” Todos os brasileiros cantavam o grito de glória numa só corrente de vasto amor. Veio o gol de empate dos uruguaios, Schiafino o autor da proeza. Um calafrio penetrava ossos e nervos do Maracanã com a lotação máxima. O inexorável iria acontecer aos 34 minutos. O ponteiro Gighia chutava a bola e a grama. Ninguém acreditava no que se estava vendo, a bola entrando entre a trave e o goleiro Barbosa. Lenços já não acenavam. Aquela coisa que só infundia medo, estupidamente sem tamanho, percorria todo o estádio. Dominava o ar de milhões de brasileiro. Ninguém podia reverter o capricho dos deuses. Contava o locutor que, encerrado o jogo, a procissão de mortos saía do Maracanã, o país em chuteiras, que pensava e amava pelos pés naquele dia, em caos desencantava-se.

Na cidade pequena, eu via as ruas desertas, bares fechados, a praça em silêncio. O padre não rezou a missa das oito da noite. Daí para frente o canto amargo da memória iria lamber as chagas daquele menino que ficou frustrado no cais da vida, esquecido de si, preso ao nada.

Ainda tentei reagir àquela frustração sem igual com os amigos de minha rua. Soube na semana que, em cada domingo, o Cine Itabuna iria projetar na tela as partidas do Brasil no Campeonato Mundial de Futebol. Meus olhos ávidos não perderiam um lance em cada partida da nossa seleção. Hipnotizados acompanhariam cada jogada, drible, chute contra a meta adversária. Vibraria com a garotada em cada gol que o Brasil marcasse. Contra a Suécia e a Espanha tinha sido demais.

O plano que armei com os outros meninos para driblar as sombras de um pesadelo que se alojava em meu pequeno coração era simples. Não assistiríamos mesmo, na tela do Cine Itabuna, a derrota do Brasil na final contra o Uruguai. Em algazarra sairíamos pela rua gritando “É campeão! O Brasil é campeão!”, batendo com pau nas latas vazias.

Eu liderava o desfile, ia na frente da turma, segurava o cartaz com o letreiro grande:

BRASIL CAMPEÃO MUNDIAL DE FUTEBOL 1950. 


O novo Maracanã

Valeu a pena? Tudo vale a pena se a alma não é pequena.

Fotos do editor do blog
  

1.7.11

MARACANÃ EM OBRAS

O "Maraca" visto da passarela de acesso ao metrô.

Maracanã, Estádio de Atletismo Célio de Barros e Corcovado ao fundo (direita).



Projetado em 1948 pelos arquitetos Antonio Dias Carneiro, Orlando Azevedo, Pedro Paulo Bernardes Bastos e Raphael Galvão, o "Maraca" foi inaugurado em 16 de junho de 1950, com o jogo entre as seleções dos estados do Rio de Janeiro e São Paulo, vencido pelos paulistas pelo placar de 3x1. O primeiro gol do monumental estádio foi marcado pelo jogador Didi, célebre meio armador e jogador do Botafogo de Futebol e Regatas e das Seleções Brasileiras de 1954, 1958 e 1962. Vale destacar que foi marcado neste estádio o famoso milésimo gol do rei Pelé.

Construído em uma área de 195.600 metros quadrados (área construída: 118.459 m2; área livre: 77.141 m2), na sua edificação trabalharam 11.000 operários, tendo sido consumidos mais de 500.000 sacos de cimento e 10.000 toneladas de ferro na armação da estrutura. Seu formato é de uma falsa elipse, seu perímetro externo mede 944 metros, sua altura é de 32 metros e sua capacidade, à época da inauguração, era de 166.369 espectadores.

O Complexo Esportivo do Maracanã, além do Estádio Jornalista Mário Filho, compreende o Estádio de Atletismo Célio de Barros, o Parque Aquático Júlio Delamare e o Ginásio Gilberto Cardoso, mais conhecido como Maracanãzinho, inaugurado em outubro de 1954 para o campeonato mundial de basquete e com capacidade para quase 20.000 espectadores. Abriga também shows e atividades sociais.

O Maracanã está em reforma para se adequar às exigências da FIFA para a Copa de 2014, devendo reabrir no final de 2012 com cara nova. O Centro de Visitação continua funcionando, mas o acesso foi transferido para o portão 18. 


Parece o Coliseu de Roma...



Garrincha, Alegria do Povo (busto no Centro de Visitação)

30.3.10

TRÊS CRAQUES DA CRÔNICA ESPORTIVA:

Nelson Rodrigues, João Saldanha e Armando Nogueira

Texto de Cyro de Mattos. Fotos do Maracanã do editor do blog. O estádio fechará para obras em julho e será reaberto no final de 2012. Para ler matéria da Veja-Rio sobre a reforma do Maracanã clique aqui.


Estátua de Bellini: a pátria em chuteiras

O futebol pentacampeão mundial, tão na pele do brasileiro, serve de motivo aos poetas Carlos Drummond de Andrade, João Cabral de Melo Neto e Vinicius de Moraes. Carlos Drummond de Andrade dedicou versos a Pelé e à nossa conquista da Copa do Mundo nos gramados do México, em 70. Nos versos triviais do poeta mineiro de Itabira, Pelé é “o sempre rei republicano/ o povo feito atleta na poesia/ do jogo mágico.” O pernambucano João Cabral de Melo Neto fez o elogio do goleador Ademir Menezes, traçou o trajeto hábil da bola feita vida com o pé, indo até o gol na surpresa de ser. Teceu o perfil macio de Ademir da Guia e informou em versos concisos sobre a falta de hábito do América do Rio sagrar-se campeão. Vinicius de Moraes deslumbrou num soneto belíssimo o sempre alegre Mané Garrincha, com as incríveis pernas tortas fazendo jogadas geniais em versos medidos e rimas espontâneas.

É na crônica esportiva, com a sua marca de prosa coloquial, que o futebol vai encontrar espaço no início como tema a influenciar a imaginação e a sensibilidade do escritor brasileiro. Natural que isso acontecesse com a crônica, de tal modo é o gênero intermediário entre o literário e o registro objetivo do fato. Presta-se bem na imprensa esportiva para flagrar com digressões uma partida de futebol. Logra extrair em torno do jogo a simbiose perfeita decorrente da literatura, que fantasia a vida, e a notícia do cotidiano, que deve ser objetiva, comprometida com a verdade. A crônica faz com que o autor assuma o papel de contador de histórias, no caso uma partida de futebol, sem com isso o fato que está sendo focado perca a credibilidade na informação.


És, enfim, a vitória e a derrota,
caprichosa imitação da minha vida.
E porque és uma parte da minha memória,
seguirei cantando, comigo, a melodia de teu doce nome.
Maracanã, Maracanã

(Trecho do poema Maracanã de Armando Nogueira)

O mundo apaixonante do futebol inspirou textos admiráveis aos cronistas Nelson Rodrigues, João Saldanha e Armando Nogueira. Os três papas da crônica esportiva trouxeram para o campo de nossa literatura o drama, o humor, o feitiço e o vocabulário, que o futebol manifesta com sua linguagem específica em torno da bola que rola no quadrado mágico do tapete verde.

Reconhecido dramaturgo, Nelson Rodrigues na carreira de cronista esportivo resgata com forte apelo popular o orgulho de ser brasileiro. A descoberta do Brasil por Nelson Rodrigues tem na Taça Jules Rimet papel de fundamental importância. Sua conquista afasta do homem brasileiro o complexo de vira-latas. Ele mostra como o nosso planeta fica pasmado em cada conquista da Taça Jules Rimet pela Seleção Brasileira, em 1958, 1962 e 1970. O autor de “A Dama do Lotação” criou expressões interessantes, o óbvio ululante, a pátria em chuteiras, e o personagem Sobrenatural do Almeida, para explicar a derrota de um time grande por um pequeno. Afirmava que o vídeo tape era burro, criticava a frieza da televisão como a dos idiotas da objetividade.

De jeito simples, João Saldanha coloca nas crônicas e comentários informações importantes sobre o mundo da bola. Enfoca os “subterrâneos do futebol” com o seu calendário desordenado, denuncia o marketing excessivo, as partidas milionárias e as jogadas dos cartolas em prejuízo dos clubes. Escreve, fala e brada como um torcedor qualquer. Cria também expressões que acompanham o ritmo espontâneo de sua fala como num bate-papo enriquecedor. “A vaca vai pro brejo”, “mostrar o mapa da mina”, “entregar o ouro aos bandidos”, “estar no bagaço”, “zona do agrião”, “ir para o vinagre”, “coelhinho de desenho animado” e tantas outras que entraram em definitivo para o vocabulário do nosso futebol.

Em Armando Nogueira sabe-se que “ para entender a alma do brasileiro é preciso surpreendê-lo no instante do gol”. Para o cronista poeta, “a bola rola para todos, mas só dá bola para alguns.” Essas referências de toque admirável, como “se Pelé não tivesse nascido gente, teria nascido bola”, ou “jogador comum vê a jogada, o craque antevê”, encontram-se tão simplesmente no autor de A Ginga e o Jogo como belezas e delícias que o futebol inspira. Nele a escrita da crônica esportiva emerge como fatura exemplar do texto permeado com a metáfora. Esplende a estética do belo casado com a palavra, a crônica assim tem várias vezes um sabor de obra-prima. O cronista sabe que as palavras nascem para encantar com um toque refinado, íntimo da bola.