ENSEADA DE BOTAFOGO

ENSEADA DE BOTAFOGO
"Andar pelo Rio, seja com chuva ou sol abrasador, é sempre um prazer. Observar os recantos quase que escondidos é uma experiência indescritível, principalmente se tratando de uma grande cidade. Conheço várias do Brasil, mas nenhuma tem tanta beleza e tantos segredos a se revelarem a cada esquina com tanta história pra contar através da poesia das ruas!" (Charles Stone)

VISTA DO TERRAÇO ITÁLIA

VISTA DO TERRAÇO ITÁLIA
São Paulo, até 1910 era uma província tocada a burros. Os barões do café tinham seus casarões e o resto era pouco mais que uma grande vila. Em pouco mais de 100 anos passou a ser a maior cidade da América Latina e uma das maiores do mundo. É pouco tempo. O século XX, para São Paulo, foi o mais veloz e o mais audaz.” (Jane Darckê Avelar)
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10.4.18

ILHA DE PAQUETÁ

Paquetá já não tem o charme dos anos 1920 quando senhorinhas e rapazes realizavam convescotes na aprazível ilha, com concurso de danças (Revista da Semana, 11 de novembro de 1922), nem é mais cenário de romances como A moreninha. Ninguém mais vem a Paquetá para tratamento de saúde da filha (sol e banhos de mar), como fez Licinio Athanazio Cardoso de 1891-95, e a ilha não recebe mais estadistas caídos em desgraça como o patriarca da independência. Sequer recebe mais elogios de estadistas, como o de Joaquim Nabuco, que em Minha formação escreve que “A ilha de Paquetá é uma joia tropical, sem valor para os naturais do país, mas de uma variedade quase infinita para o pintor, o fotógrafo e naturalista estrangeiro, nem se compõem mais canções como Luar em Paquetá

Ninguém mais convida a menina “pra tomar banho em Paquetá” (ou mesmo “pra piquenique na Barra da Tijuca, ou pra fazer um programa no Joá”), como na canção Vai com jeito imortalizada por Emilinha Borba. Nas revistas de hoje você não lê mais elogios pomposos como a graciosa Paquetá reserva apenas aos que penetram no seu seio de perfumes a contemplação das formosuras que não foram de longe pressentidas (Revista da Semana, 2 de abril de 1921), nem lê mais anúncios dizendo coisas como Aurora, seu procedimento me surpreende e me magoa. Esperei das 3 às 5 por você e só ontem recebi um recado de Lourdes, pelo telefone, dizendo que você não voltou de Paquetá [...] (Revista da Semana, 17 de setembro de 1921).

A classe média da Zona Sul já não passa os domingos lá, como passávamos nós, no meu tempo de criança, nos remotos anos 1960. O público agora é outro, é mais povão, torcida do Mengão, tipo público da Quinta da Boa Vista, que aliás já foi jardim da nobreza brasileira. Após uma campanha contra os maus tratos aos cavalos, as centenárias charretes foram substituídas por umas charretes elétricas que não têm a mesma poesia, mas têm a vantagem de não fazer cocô nas ruas. Tudo mudou.

Apesar dessas mudanças, Paquetá preserva sua essência: as casas ainda conservam muros baixos, jardins fronteiros, janelas sem grades. Carro na ilha só a ambulância (que raramente circula, já que a calma paquetaense favorece a boa saúde). Você entra na Casa de Arte numa tarde de domingo e se surpreende com uma seresta como nos tempos do Maestro Anacleto, que nasceu e sempre viveu na ilha.

Gente ilustre esteve ou morou em Paquetá: é o que nos ensinam as placas que preservam a memória da ilha. Marie Curie, que veio ao Brasil em 1926, teria dito ao jornalista Austregésilo de Athayde, segundo uma dessas placas, que “Paquetá é sem dúvida o mais belo recanto do mundo”. Outra dessas placas revela que Paquetá foi descoberta pelo cosmógrafo francês André Thevet em 18 de dezembro de 1555, ou seja, na época da França Antártica, ocupação que precedeu a fundação oficial da cidade. O Barão de Japurá, em Romances históricos por um brasileiro, que malgrado o título é um livro de poesias, escreveu: “Na Paquetá primorosa / Onde tristes mas sem tacha [=mácula]/ Passam-se os fugazes dias / Do ilustre e imortal Andrada [José Bonifácio]”. Joaquim Nabuco, no capítulo de Minha formação dedicado ao Barão de Tautphoeus, conta que

Nós tínhamos nos últimos tempos da vida de Tautphoeus uma pequena solidão em Paquetá, para as vizinhanças do chamado Castelo, em um remanso daquelas encantadoras paragens. Era uma antiga casa térrea a que um dos proprietários, um inglês, juntara uma varanda em roda e a meio um pequeno sobrado com venezianas verdes e balcão por onde subia uma trepadeira, dando-lhe um aspecto ao mesmo tempo singelo e pitoresco de residência estrangeira. A frente deitava para o mar e a parte baixa da costa do outro lado formava um suave fundo de quadro. A casa estava sobre uma pequena elevação, e o declive para a praia era tomado por um grande tabuleiro de grama, cuidadosamente tratado, como em um parque. [...] A nossa vivenda de Paquetá agradava-lhe por lhe dar com o silêncio e isolamento, que cercava a biblioteca, a escolha, à vontade, do mar, do campo e da montanha: as praias extensas, a floresta acessível, a planície atapetada, se lhe agradava passear; a água serena, o mar fechado à vista, como um lago suíço, se queria tomar o nosso barco e mandar o mudo, nosso saudoso remador, abrir a vela para os pequenos ilhotes de onde se avistam em um extremo os Órgãos de Teresópolis, e no outro a serrania da cidade... Ele vinha sempre aos sábados e ficava o domingo, e às vezes, nas curtas férias que tinha, dias seguidos...

Uma moradora que foi para Paquetá com sete anos e agora está com 77, se empolga e conta que “o imperador e a princesa Isabel frequentavam a ilha [!] e que a Capela de São Roque fica no lugar onde morou o santo [!!]”. Exageros à parte, a Capela é realmente uma das mais velhas do Rio, como você pode conferir na nossa postagem Qual a Igreja mais Antiga do Rio de Janeiro? (para acessar clique aqui).

Dito isto, o vídeo amador acima e as fotos a seguir contam mais que mil palavras!


Na barca

Paquetá

Capela do Cemitério de Paquetá, projeto do artista Pedro Paulo Bruno

Casas antigas & ciclista

Janela & flores

Raízes

Rio visto de Paquetá

Paquetaenses

Árvores

Capela de São Roque em Paquetá. A Capela de São Roque foi construída no finalzinho do séc. XVII (em 1698 segundo o Guia do patrimônio cultural carioca) nas terras da Fazenda de São Roque. O santo padroeiro dos proprietários da fazenda passou a ser também o dos habitantes da ilha. Até então a comunidade da ilha tinha de ir de barco até Magé a fim de participar de cultos religiosos. Tombada por decreto municipal de 1999.

Casa de Artes Paquetá. Vez ou outra rola um chorinho ali, confira no site.

Pescadores

Chalé

Tronco serrado de uma árvore que tombou

As casas ainda conservam muros baixos, jardins fronteiros, janelas sem grades

Na volta, a barca se aproxima do Centro do Rio. Fotos do editor do blog.

HORÁRIO DAS BARCAS para você também ir lá:



24.4.16

JOAQUIM MANUEL DE MACEDO E "A MORENINHA" (COM FOTOS DE PAQUETÁ)

Artigo A MORENINHA, por ESCRAGNOLLE DORIA, publicado na REVISTA DA SEMANA de 9 de junho de 1928, acessada na HEMEROTECA DIGITAL. Fotos de Paquetá do editor do blog.

Chegada em Paquetá

Louras e morenas não se podem fazer amizades. Representam tipos de beleza opostos e gênios insociáveis. Umas e outras, na sua espécie de formosura, no seu gênero de perdição, se julgam supranumeradas [=privilegiadas] no amor.

Louras e morenas são de louvaminhas [=lisonjas] e, para atendê-las no mister, não faltam homens, e ainda menos poetas.

Chalé Rosa, "Casa da Moreninha", 1812

Por eles têm sido louras e morenas decantadas, a par da lua, nem loura nem morena, sempre branca nas diversas e sempiternas fases, revezada em crescente, em redondeza, em fio, em nova.

Não figuram somente poetas nos partidos que tornam altos os méritos de louras e morenas. Neles também se alistam os romancistas quando dão tipos a heroínas.

Praia das Gaivotas

O tipo moreno é o mais frequente na mulher brasileira, que o torna, não raro, admirável e abismal.

A morena encontrou um romancista que não se contentou em descrevê-la, deu-lhe ao nome as honras de título de romance.

Tal romancista foi Joaquim Manoel de Macedo. Adornou o romance de estreia com o título de “A Moreninha”, diminutivo faceiro e caricioso nosso, quase dengue, em louvor da morena, pondo-a entre risos de criança e lágrimas de mulher. Quando diz esta simples palavra brasileira: a moreninha! Quando...

Bicicletas e a barca ao fundo

Macedo escreveu muito, foi um infatigável, guiando talento por diversas sendas de trabalho. Mas a cabo de vida longa, de afanar [=trabalhar ativamente], era para os da sua geração o Macedinho de “A Moreninha”.

Gravou nome na literatura e no teatro e na pedagogia nacional, leu no Colégio de Pedro II, orou na Câmara dos Deputados, não quis ser ministro, quase foi senador do Império pela província natal. Tudo isso não o impedia de ser para muitos, sempre, o Macedinho de “A Moreninha”.

Relógio da Mesbla e a barca ao fundo

Natural de Itaboraí, reclamando-se [=reivindicando-se] do berço, até na face dos livros, Macedo veio estudar medicina no Rio de Janeiro, de Faculdade médica então no antigo Colégio dos Jesuítas no Castelo.

Seguiu curso de estudos com devida regularidade, doutorando em 1844, às voltas com matérias do sexto ano e a elaboração de tese inaugural.

Sustentou-a a 11 de dezembro de 1844, defendendo curiosa dissertação: “Considerações sobre a nostalgia”.

Escola Municipal Pedro Bruno num casarão neoclássico que abrigou a terceira e última sede da Fazenda de São Roque

No trabalho do acadêmico já apontava o literato, de afirmação no mesmo ano de 1844, vigésimo segundo da Independência e do Império, consoante a fórmula oficial dos decretos da época.

A despedir-se da Faculdade de Medicina, posta no sítio onde os jesuítas tinham doutrinado, insignes sabedores de sempre, Macedo ainda estudante mandou sair de prelos primeiro romance, para muitos pedra angular do romance pátrio.

Banho de mar. As principais praias da ilha, como dos Coqueiros, da Moreninha e José Bonifácio (foto), já não estão mais poluídas, como lemos no boletim do INEA.

De tipografia carioca, com mais de duzentas páginas, estampas e a música de uma balada cantada pela heroína do romance, veio a público “A Moreninha” anunciando o escritor estreante que uma corporação docente ia em breve sagrar doutor.

O êxito do livro foi grande no Rio de Janeiro. Lia-o em breve e ainda não deixou de lê-lo o Brasil, apesar da renovação das escolas literárias, algumas das quais presto aparecem e desaparecem. Como os homens, as obras resistentes ao tempo são vítrices [=vencedoras]. Chi dura vince [o que dura vence] — adverte o provérbio italiano.

Casa onde morou José Bonifácio de 1831 a 1838, hoje residência particular

De segunda edição em 1845, de terceira em 1849, de quarta em 1860, de quinta, em Paris, em 1872, através de editado no Porto em 1845, “A Moreninha” continua a ser editada, propagando até hoje o que alguém chamou “a infantil e virginal feição do nosso romance”.

Sobre ele, na “Minerva Brasiliense”, pronunciou-se Dutra e Mello, em longa análise. Adiantou no correr dela que na época o romance nacional começava a despontar sem haver ainda sido manejado por ninguém, que o soubesse o crítico, o romance histórico ou filosófico.

Pedra dos Namorados

Reconheceu Dutra e Mello, no autor de “A Moreninha”, estilo fino, irônico e singelo, com ordem, luz, graça e ligação, além de outros predicados do escritor novel [=jovem].

A análise de Dutra e Mello figura em edições de “A Moreninha”,  mostrando o apreço do autor pelo crítico. Sabia este reparar sem insultar, exprimir sem deprimir. A crítica é gênero literário que requer apurada educação. Um crítico desprimoroso é labrego [=literalmente camponês, mas usado no sentido pejorativo de ignorante, grosseiro] esgueirado na sociedade, cujas origens é às vezes prudente não perscrutar.

Pedras

Macedo autoprefaciou “A Moreninha”. Antepôs ao romance “Duas Palavras” explicando quanto o livro devia existência a dias de desenfado e folga no pátrio Itaboraí, em férias de quintanista.

Longe do bulício [=agitação] do Rio de Janeiro, já de bulício, afastado da então Corte, quase em ócio, assentou o estudante arquitetar um romance.

Escreveu-o, publicou-o, anunciando que conforme o acolhimento da crítica iria criando e educando melhor “os irmãozinhos da Moreninha”, mais tarde com efeito apresentados a patrícios sob a forma de livros.

Triciclo

“Recebe filha com gratidão — aconselhava o autor à heroína — a crítica do homem instruído; não chores se com a unha marcarem o lugar em que tiveres mais notável.”

Escrevendo “A Moreninha” esquecia o doutorando Macedo os livros de medicina, entre eles os de Velpeau, que “só ele faz por sua conta e risco mais citações em cada página do que todos os meirinhos juntos fizeram, fazem e hão de fazer pelo mundo.”

Ilha de Brocoió

Macedo ideou “A Moreninha” em Itaboraí. Aí nascera no dia de S. João, em casa de uma rua do nome do santo. Filho de farmacêutico, boticário dizia-se então, o futuro médico estudara primeiras letras e depois latim, o latim tão assimilável mas tão indigesto para os estudantes de hoje, na vila natal.

Ao que parece, “A Moreninha” brotou de duas fontes eternas: a mocidade e o amor.

Tinha Macedo vinte anos quando compôs o romance. Vinte anos! Idade em que o amor é caminho antes atinado que sabido!

Charrete

Amava, segundo informam, não sem lágrimas, e o chorar é consequência do amar. Desejava casar-se com a amada, mas só realizou o intento anos depois, por oposições e contratempos.

O consórcio foi auspicioso, pois até a morte, não há muito, em Niterói, a esposa de Macedo afirmava a Ernesto Senna, denunciando orgulho por ter sido a inspiradora de “A Moreninha”: “Oh! Ele me queria muito, sinceramente. Raras vezes saía à rua sem ser em minha companhia. Fui feliz, muito feliz.” E algumas lágrimas lentas sagraram a saudade longa.

Igreja de São Roque

A cônjuge de Macedo tinha razão de chorá-lo. Fora-lhe constante e desinteressado. Com efeito, em 1884, o surpreendera em Itaboraí um convite para ministro de Estrangeiros do gabinete Furtado.

Declinou da honra e deu razão da recusa. Era pobre, não podia portanto sustentar a posição... Não comparemos, as reticências já compararam.

Homenagem do Grupo Seresteiro de Paquetá à música "NORMALISTA"

A ação de “A Moreninha” passa-se na ilha de Paquetá, onde em 1844 se ia de batelão. Grande parte do romance vive numa casa paquetaense, no centro da ilha, onde a par dos coqueiros se avistavam belos arvoredos vergando de frutas ou em flores promissoras deles.

Naquela casa, real ou imaginária, porque os episódios mais célebres dos romances são não raro justaposições de saudades, assinalou o autor uma gruta. Era cavada na base de rochedo sobranceiro ao mar, dava-lhe acesso abertura alta e longa. No fundo, numa baciazita de pedra, gota a gota, de cristal e frescura, caía água destilada do alto do rochedo.

Serra do Mar vista da Praia do Catimbau. Dizem que o pôr-do-sol lá é lindo. A conferir.

Fora ele traspassado pelas lágrimas de uma índia, Ahy, ao amar sem correspondência. Aquele que a desprezava, o índio Avitin, vinha descansar na gruta. Adormecia, de volta da caça, e as lágrimas de Ahy, do cimo do rochedo, o banhavam. Caiu-lhe uma delas no coração, abrasando-o de amor partilhado.

Qual Ahy, no romance, a Moreninha de Macedo vinha cantar uma balada:

Pedras

“Eu tenho quinze anos
 E sou morena e linda;
 Mas amo, e não me amam
 E tenho amor ainda.”

Carolina tem o mesmo fado de Ahy. Desposa-a por fim Augusto, o herói do romance, que apostara  escrevê-lo se durante uma quinzena ou mais houvesse amado uma só mulher.

Casa rosa

A memória de Macedo ficou em Paquetá, onde o nome da sua Moreninha ainda tem renovado eco. Bem conhecido é dos moradores e dos visitantes da ilha um rochedo aí tratado por pedra e casa da Moreninha, em lembrança do livro célebre na sua época e do autor célebre depois dela.

Ambos representam um tempo em que a leitura amena, e não raro em voz alta e em comum, deliciava a família.

O velho e o mar

No conceito de Franklin Távora, escritor brasileiro e trabalhador injustamente esquecido, “em A Moreninha o estudante, a donzela, a matrona viram a sua imagem reproduzida no puro aço desse espelho onde há luz sem cintilações estrangeiras”.

Por isso teve a obra de 1844 aclamação unânime. “O Brasil inteiro leu o livro e teve para ele a consagração que merecia tão espontânea revelação do gênio nacional”, assinalou Távora.

À Moreninha disputou popularidade “O Moço Louro”, da mesma pena de Macedo. Triunfou a primeira; e o segundo, como era homem, sorriu à vitória.


Barca que me trouxe de volta para o Rio