ENSEADA DE BOTAFOGO

ENSEADA DE BOTAFOGO
"Andar pelo Rio, seja com chuva ou sol abrasador, é sempre um prazer. Observar os recantos quase que escondidos é uma experiência indescritível, principalmente se tratando de uma grande cidade. Conheço várias do Brasil, mas nenhuma tem tanta beleza e tantos segredos a se revelarem a cada esquina com tanta história pra contar através da poesia das ruas!" (Charles Stone)

VISTA DO TERRAÇO ITÁLIA

VISTA DO TERRAÇO ITÁLIA
São Paulo, até 1910 era uma província tocada a burros. Os barões do café tinham seus casarões e o resto era pouco mais que uma grande vila. Em pouco mais de 100 anos passou a ser a maior cidade da América Latina e uma das maiores do mundo. É pouco tempo. O século XX, para São Paulo, foi o mais veloz e o mais audaz.” (Jane Darckê Avelar)
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20.3.18

O MISTÉRIO DO ORATÓRIO DO MORRO DA PROVIDÊNCIA

ESTUDO DE IVO KORYTOWSKI BASEADO NUMA TESE DE GILMAR JOSÉ SANTANA DE BARROS. PARA FAZER O DOWNLOAD DO PDF DE UM ARTIGO APROFUNDANDO A TESE, CLIQUE AQUI.

PARTE I: O MAPA, AS FOTOS E UM VÍDEO


O agora conhecido como "Oratório do Morro da Providência" com barracos em torno

O Oratório de perto

Altar dentro do Oratório

A porta

Dona Chiquinha (Francisca), a guardiã do Oratório (ver vídeo ao final)

Frente do Oratório. A inscrição "A JESUS CHRISTO" e a cruz no topo se perderam


PARTE II: OS MITOS

O Oratório do Morro da Providência e o próprio morro estão envoltos em mitos. São eles:

1)
lenda urbana de que o oratório foi erguido pelos soldados retornados de Canudos em memória das almas dos colegas que tombaram no conflito. Daí também ser conhecido como Capela das Almas. Na cartilha do teleférico lemos que 
a capela foi erguida em homenagem aos combatentes que não resistiram à Guerra de Canudos, na Bahia. Não é verdade.

2) O mito de que os soldados retornados de Canudos iniciaram a ocupação do Morro, antes desabitado. Tampouco é verdade.


3)  A mentira deslavada de que o morro recebeu esse nome porque os soldados, ante o descumprimento da promessa de receberem residências como prêmio pela vitória, tomaram a providência de ocupar o morro (mentira essa que constava do verbete "Morro da Providência" da Wikipedia antes que o editor deste blog o corrigisse).


O então conhecido como "Santuário do Cristo Redentor" em fotografia do início do século XX de Augusto Malta. Foto obtida na Biblioteca Nacional Digital

Cena aos 59 minutos do filme Tudo Azul, de 1952, disponível no YouTube, filmada no alto do Morro da Providência, com o oratório atrás, mostrando as lavadeiras lavando roupas ou carregando latas d'água, ao som da famosa canção "Lata d'água na cabeça / Lá vai Maria" interpretada por Marlene. 
 
PARTE III: OS FATOS

1) Quando fotografado por Augusto Malta no início do século XX (foto acima), o “Oratório do Morro da Providência” — situado na na parte sudoeste do morro |(ver mapa acima), tombado pela Prefeitura em 1986 e também conhecido por “Capela das Almas”  denominava-se Santuário do Cristo Redentor e em seu frontispício lia-se A JESUS CHRISTO (a inscrição e a cruz superior se perderam). Depois da construção da estátua do Cristo no alto do Corcovado, o santuário ao pé dessa estátua recebeu esse mesmo nome. Uma placa no interior do Oratório indica que foi construído em 1900-1901. 


Placa no interior sugere que o Oratório tenha sido construído em 1900-01

O Oratório foi inaugurado no dia 1 de janeiro de 1901, o primeiro dia do século XX (uma explicação: assim como o século I foi do ano 1 ao 100, o século XIX foi de 1801 a 1900, o século XX começando em 1901; a comemoração do início do século XXI em 2000 foi um grande equívoco). Foi erguido com o objetivo explícito de comemorar a passagem do século, como mostram a foto abaixo da Revista da Semana de 6 de janeiro de 1901 e as notícias na imprensa da época.



Por exemplo, na pág. 2 da edição de 15 de dezembro de 1900 do semanário católico O Apóstolo, lemos (texto adaptado à ortografia atual): "Está quase concluído o monumento, a grandiosa Cruz que no Morro da Providência será erigida para comemorar a passagem do século e o amor deste povo a Jesus Cristo Redentor. Será bento e inaugurado a 31 do corrente pelo Ex. Rvm. Sr. Arcebispo. Nossos louvores a seus promotores." Já na pág. 2 da edição de 22 de dezembro do mesmo ano lemos: "A inauguração da Cruz, que como monumento em honra a Jesus Cristo se erguerá no Morro da Providência, se realizará no dia 1 de Janeiro, às 5 horas da tarde, sendo benta pelo Ex. Sr. Arcebispo D. Joaquim Arcoverde." Portanto, sobre a data da construção do Oratório não paira dúvida.

Vejamos outros registros na imprensa sobre a inauguração do monumento.

Gazeta de Notícias de 24 de dezembro de 1900:



Jornal do Brasil de 28 de dezembro de 1900:



O Paiz de 30 de dezembro de 1900:



Estas notícias derrubam o mito de que o Oratório teria sido erigido em homenagem aos soldados tombados em Canudos. Na verdade, homenageou a mudança do século e a devoção a Jesus Cristo.

2) Outro mito que costumamos ouvir é que a ocupação do morro começou pelos soldados retornados de Canudos (1897). O mito cai por terra quando lemos em jornais e outras publicações anteriores menções a moradores e casas do Morro da Providência. Já existiam moradores lá havia tempos. Segundo Milton Teixeira, desde a época colonial. 

O que os soldados criaram foi a favela. Aliás, os soldados mudaram o nome para Morro da Favela em alusão a um morro existente em Canudos, que aliás tinha esse nome devido a um arbusto, denominado "favela" ou "faveleiro", existente na região, como vemos em Os Sertões (ver Anexos ao final da postagem). Mais tarde o morro retomaria o nome original.

Na imprensa do século XIX encontramos fartas indicações de que o morro já era habitado bem antes da chegada dos soldados de Canudos e de que a denominação "Morro da Providência" é bem anterior à chegada desses soldados, derrubando assim também o terceiro mito. 

► Diário do Rio de Janeiro de 30 de agosto de 1838 menciona a cobrança da décima urbana (espécie de IPTU) aos proprietários e inquilinos em vários logradouros, entre eles o Morro da Providência:



► O Diário do Rio de Janeiro de 2 de abril de 1846 publicou esta nota:

Não se sabendo actualmente a residencia do Sr Antonio Luiz Machado que morou no morro da Providencia n 21 A, roga-se lhe que a declare porque uma pessoa lhe deseja fallar para negocio commum.

► No Correio Mercantil de 30 de abril de 1848 encontramos esse retrato nada lisonjeiro do morro:

Tendo-se virado a atenção publica para o museu da rua da Providencia, ninguem se lembra de olhar para o morro da Providencia, ou antes da formiga [nome que tinha na época a vertente sul do morro], porque ali não há providencia de qualidade alguma, nem mesmo de luz, porque a illuminação é coisa que inda lá não chegou, patrulhas até ignorão a existência do morro, pedestres inda menos; entretanto em relação á pouca extensão já ha muito povoado, e os mal feitores e facinorosos tem ali um excellente asylo para se livrarem das pesquisas da polícia.

► Na primeira página do Correio Mercantil de 21 de junho de 1856 lemos esta queixa:

Pedem-nos que chamemos a attenção da autoridade para a falta de asseio que ha na rua do Silva Manoel [atual André Cavalcanti] e para o morro da Providencia, onde mora muita gente, e onde não ha nem illuminação, nem agua, nem asseio, nem policia.

► Em 19 de julho do ano seguinte o Correio Mercantil noticia a chegada da iluminação pública no Morro: O morro da Providencia não tinha lampeões, e pelo desvelo das autoridades competentes forão ultimamente alli postos para conforto e segurança de seus moradores.

► Em 20 de março de 1860 esse mesmo jornal informa que "o morro da Providencia continua, em maior escala do que dantes, a servir de deposito de immundicias".
► O Boletim do Ministério do Império de maio de 1861 cita um ofício ao inspetor geral das obras públicas solicitando um “parecer sobre a necessidade de abastecer de água potável o morro da Providência; propondo ao mesmo tempo os meios convenientes para levar-se a efeito semelhante medida”.

► O Boletim da Câmara Municipal da Corte de 1863 cita à pág. 10 um requerimento para a construção de uma escada da rua do Sacco [Rua do Saco do Alferes, atual Rua da América] ao Morro da Providência:

O Sr. Dr. Monteiro dos Santos apresentou os seguintes pareceres:

"Sobre a informação do engenheiro ácerca do requerimento de alguns moradores e proprietarios do Morro da Providencia, pedindo permissão para fazerem gratuitamente no dito morro uma escada ou rampa para á rua do Sacco, sendo a obra inspeccionada pela directoria das obras municipaes: conformo-me com informação do engenheiro. Rio, 15 de maio de 1863. – Dr. Monteiro dos Santos."
– Foi approvado.

► Notícia publicada na primeira página do Jornal do Brasil de terça-feira, 5 de setembro de 1873:

BAILE A’ NAVALHA

Francisco Miguel do Nascimento dansava hontem alegremente num baile, no morro da Providencia.

Como nessas occasiões o sangue se esquenta e “o sangue é que faz mal ao corpo” o cunhado de Nascimento, de nome Josué José Gomes agrediu-o, dando-lhe tres navalhadas.

E o pobre homem passou do baile para a Misericordia.

► Também em O Paiz encontramos indícios de ocupação pré-Canudos, por exemplo, na edição de 12 de setembro de 1885, na seção ANNUNCIOS, consta: "ALUGA-SE a casa do Morro da Providencia n. 23: está limpa; para tratar na rua do General Camara n. 365." E na pág. 2 da edição de 22 de novembro de 1885 lemos: "Juvencia Maria Rosa da Conceição, moradora em um casebre no morro da Providencia, estando ante-ontem, ás 5 horas da tarde, junto ao fogão, fazendo o jantar, foi presa pelas chammas, resultando ficar bastante queimada." E na edição de 22 de abril de 1886 de O Paiz, lemos:

O governo imperial, que tão solicito se tem mostrado em favorecer a construcção de casas e alojamentos para as classes operarias, concedendo ás emprezas que a isso se propõem os favores marcados em lei, não póde deixar de attender á reclamação que lhe fazem por este meio os moradores do morro da Providencia.

Reside neste logar grande numero de operarios e pessoas que trabalham por soldadas, não só pelo menor aluguel que ali pagam, como pela elevação do solo, que lhes dá presumpção de salubridade, mais do que lhes promettem os bairros baixos da cidade. Essas condições, infelizmente, são destruidas pela má distribuição da agua.

Estas notas & notícias da imprensa daquela época mostram que o morro já era habitado antes da vinda dos soldados de Canudos no final do séc. XIX. 

3) O terceiro mito, de que o nome do morro se deve à providência tomada pelos soldados, as notícias da imprensa que acabamos de ver o desmentem. A menção mais antiga que achei ao Morro da Providência é a de 1938 supracitada. A análise de mapas antigos mostra que, até meados do século XIX, o que viria a ser o Morro da Providência era mostrado como fazendo parte do Morro do Livramento. Geograficamente falando, a Providência não é um morro separado, e sim um "cocoruto" no lado sudoeste do Livramento, tanto é que a Ladeira do Barroso que sobe o Morro do Livramento depois prossegue, por uma escadaria, Morro da Providência acima. Para ver um mapa de 1831 onde só existe o Morro do Livramento clique aqui. Para um mapa de 1858 onde já aparece o Morro da Providência clique aqui.

PARTE IV: O MISTÉRIO

A foto da Estação Marítima, de 1881, abaixo dá a impressão de que o Oratório já existia naquela época. Encontra-se na pág. 30 de Vistas Photographicas da Estrada de Ferro D. Pedro 2 que você pode consultar clicando aqui. A impressão é tão forte que no Inventário de 2015 dos Monumentos do Rio de Janeiro publicado pela Prefeitura lemos que o oratório "já aparece tal qual numa fotografia de 1881, dezesseis anos antes daquela guerra fratricida [Guerra dos Canudos]." Só que vimos farta documentação comprovatória de que o oratório foi inaugurado na virada para o século XX. Como é possível um oratório construído em 1900 constar de uma foto de 1881?

Oratório visto atualmente da Gamboa

Foto da Estação Marítima, de 1881, dando a impressão de que o Oratório já existia naquela época 

Detalhe ampliado da foto anterior. O formato não é exatamente o mesmo do posterior Oratório: as janelas não são ogivais, falta a cúpula e a cruz.

Aumentando ainda mais o mistério, duas gravuras antigas, uma de Martinet de 1847 e a outra de Sisson de data desconhecida aparentemente também mostram o oratório!!!


Gravura de Alfred Martinet de 1847 obtida na Biblioteca Nacional Digital


Gravura intitulada "Cemeterio Inglez na Gamboa" do Álbum do Rio de Janeiro (sem data) de Sebastien Auguste Sisson, artista francês que chegou no Rio de Janeiro em 1852

O historiador amador G. J. Sá Barros tem uma teoria interessante para tentar dirimir esse mistério. Depois que o corsário francês Duguay-Trouin, comandando uma poderosa esquadra, aproveitando a névoa em 12 de setembro de 1711, penetrou na Baía da Guanabara, sem ser interceptado pelas duas fortalezas guarnecendo os dois lados da entrada da barra (Santa Cruz e São João, existentes até hoje), tratou de tomar de assalto a Ilha das Cobras (13/9) e depois desembarcou na Praia de São Diogo, aos pés do morro de mesmo nome, onde fica hoje o Viaduto dos Marinheiros, ocupando os morros da atual Zona Portuária. Neste detalhe de um mapa francês de 1711 sobre a captura do Rio de Janeiro (Prise de Rio-Janeyro que você pode acessar aqui) vemos que o primeiro acampamento (Premier Campement) dos invasores foi nos morros de São Diogo, do Pinto (na época chamado de Morro de Paulo Caieiro, ou Cairô/Cairu), e o Morro do Livramento/Providência. O segundo acampamento (Second Camp) foi no Morro da Conceição.



A tese de G. J. Sá Barros é que o oratório erguido em 1900 mas que misteriosamente "já aparece em fotografias e gravuras anteriores" na verdade não foi construído do nada, mas aproveitou uma velha atalaia abandonada, remanescente dessa ocupação francesa dos morros ou construída logo depois na onda de fortificação da cidade em que se tentou "correr atrás do prejuízo" (da qual resultou a Fortaleza da Conceição). Diz Sá Barros: "IMAGINA aquele morro da Providência que é uma pedra inteira, ardendo no sol de primavera de um Rio de Janeiro com 40 graus? Ficaram dois meses os franceses aqui? Ali vigiando tudo sem um telhado no alto do morro ardente expostos ao sol (insolação) e pegando vento e chuvas? Ali surgiu uma atalaia?" O detalhe de um mapa de 1850 abaixo mostra o local da atalaia, futuro oratório, marcado com um quadradinho (sob a seta no meio do mapa).

A tese de G. J. é reforçada por esta informação do engenheiro militar Augusto Fausto de Sousa no artigo "Fortificações no Brasil", na página 111 do tomo 48, Parte II, da revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro: "vê-se que existia uma multidão de baterias e fortins em todo o contorno desde a Gamboa até a Praia do Arpoador." É possível fazer download da revista no site do Instituto.



PARTE V: APÊNDICES

► TRECHO DE Brasil Gerson, História das ruas do Rio, quinta edição, p. 183

Ao regressarem das expedições contra Antônio Conselheiro, no fim do século passado [XIX], receberam os soldados do Coronel Moreira Cesar e do General Artur Oscar, alguns recursos para instalar-se em casa própria no Rio, e foi ali, nas abas da Providência, que eles o fizeram, e logo disseram que ela era a sua “favela” carioca, numa alusão ao morro do sertão baiano de onde a artilharia legalista bombardeava o reduto daqueles jagunços místicos... E o nome, popularizando-se, ficou sendo também dos nossos demais conglomerados humanos semelhantes para, afinal, figurar depois no dicionário como um novo brasileirismo, bem típico dos tempos modernos, nas nossas atravancadas metrópoles.

► TRECHOS DE Euclides da CunhaOs Sertões, Editora Nova Cultural, págs. 23-4, 31, 37

Todas traçam, afinal, elíptica curva fechada ao sul por um morro, o da Favela, em torno de larga planura ondeante onde se erigia o arraial de Canudos[.]

Galgava o topo da Favela. Volvia em volta o olhar, para abranger de um lance o conjunto da terra.

Do topo da Favela, se a prumo dardejava o Sol e a atmosfera estagnada imobilizava a natureza em torno, atentando-se para os descampados, ao longe, não se distinguia o solo.

As favelas, anônimas ainda na ciência — ignoradas dos sábios, conhecidas demais pelos tabaréus — talvez um futuro gênero cauterium das leguminosas, têm, nas folhas de células alongadas em vilosidades, notáveis aprestos de condensação, absorção e defesa.

► E para terminar, uns versinhos engraçadinhos que pesquei no Jornal do Povo de 24 de novembro de 1879:

Fui á cata do Bandarra
No morro da Providencia
Para intervir na pendencia
Entre a formiga e a cigarra;
Que eu nunca toquei guitarra
Nos harens de Salatino;
E o cervejeiro Gambrino
Nunca indagou minha sorte
Se eu sou do sul ou do norte
Se Facundes ou Galdino.


17.5.13

DO ATELIÊ DE DALLIER NO MORRO DA CONCEIÇÃO À CASA AMARELA NO MORRO DA PROVIDÊNCIA

Dallier é o idealizador do Projeto Mauá (o correspondente ao "Arte de Portas Abertas" do Morro da Conceição") e seu ateliê na Ladeira João Homem, 52 é uma atração turística desse aprazível morro. Dallier sempre recebe com um sorriso os visitantes do ateliê, contando histórias do morro e de sua longa vida de artista. Para ver mais fotos clique aqui.

Morro do Livramento

Morro do Livramento

"Favela Leite": escadaria ligando o Morro do Livramento ao da Providência

 Dallier diante da Casa Amarela, o Centro Cultural do Morro da Providência

 Exposição de fotos do Morro por Maurício Hora: conheça sua obra no Flickr.

Panorama da Casa Amarela

Grafite em frente da Casa Amarela

Grafite e o antigo Oratório (atrás, à esquerda) tombado

Casa Amarela (lateral)

Projeto "Descascando a Superfície" de intervenção artística coordenado pelo artista Alexandre Farto em setembro/outubro de 2012 no Morro da Providência

Numa tarde ensolarada desse como sempre agradável início de outono (acabou o calor, terminaram de cair as "águas de março"), apanhei o pintor Dallier em seu ateliê do Morro da Conceição para um passeio (através dos morros da Zona Portuária) à Casa Amarela, o Centro Cultural do Morro da Providência que está celebrando os 115 anos da favela mais antiga da cidade com a mostra "Desarquitetura". Segue-se o depoimento de Dallier, "NO DIA QUE PISEI NO PROVIDÊNCIA":

30 de abril de 2013 uma data histórica para mim. Envergonhado de desmarcar com meu amigo Ivo convites que ele por tantas vezes me fez para visitar o Morro da Providência, desta vez resolvi enfrentar a empreitada de subir as ladeiras do morro e principalmente as escadarias que nos levariam à Casa Amarela que eu tinha muita vontade de conhecer e encontrar nela dois amigos: Maurício Hora, grande fotógrafo, e João Guerreiro, que me envia sempre e-mails contando os acontecimentos realizados na Casa Amarela e mesmo fora dela. Pois bem, comecei a subida pensando nas minhas pernas que não aguentariam essa grande aventura, fui subindo, subindo e quando dei por mim, lá estávamos eu e o Ivo dentro da tão badalada casa, orgulho desses dois amigos citados mais acima. Pena que não os encontramos, mais fomos muito bem recebidos por uma jovem cujo nome, Carolina, deve ter sido inspirado na bela música de Chico Buarque. Ela nos acompanhou até o mirante do morro onde se descortinam belas paisagens que a máquina fotográfica do Ivo registrou. Seja no Centro da cidade, Zona Sul ou Zona Norte, lá vai o Ivo , com sua máquina mágica mostrando ao mundo o que é que o Rio de Janeiro tem de mais tradicional e a beleza desta Cidade Maravilhosa. Obrigado, Ivo, por ter me proporcionado uma tarde tão especial. Paulo Dallier.

12.4.12

MORROS DA ZONA PORTUÁRIA


A abertura da Av. Presidente Vargas nos anos 40 (seguindo o traçado do antigo Caminho do Aterrado e das tradicionais ruas do Sabão e de São Pedro) dividiu o Centro carioca em dois "pedaços": no "lado de cá" da avenida ficou o centro de negócios da cidade e no "lado de lá" o centro portuário. Com a mecanização da atividade portuária possibilitada pelo advento dos contêineres, a chamada Zona Portuária entrou em processo de decadência, do qual só em anos recentes começou a sair com a construção da Cidade do Samba em plena Gamboa e agora, em vista da Copa e Olimpíadas, o Projeto Porto Maravilha. Como é típico de muitas áreas do Rio, uma série de morros (a maioria pouco conhecida ou desconhecida pelos cariocas) pontilham essa região: Morro de São Bento (1 no mapa acima), Morro da Conceição (2), Morro do Livramento (3), Morro da Providência (4), Morro da Saúde (5), Morro da Gamboa (6), Morro do Pinto (7) e Morro de São Diogo (8). 

Se você olhar um mapa antigo, como o abaixo (escaneado do livro História dos Bairros: Saúde, Gamboa, Santo Cristo, de 1987, da João Fortes Engenharia), que mostra a Zona Portuária no início do séc. XIX, verá que esses morros ficavam perto do mar. O litoral recortado, com enseadas, ilhas, trapiches e ancoradouros, foi empurrado mais à frente e retificado através de aterros para a construção do Porto Moderno na época de Pereira Passos. Destarte, marcos como o Cemitério dos Ingleses, Igreja de São Francisco da Prainha e Igreja de Santo Cristo (por onde você às vezes passa de carro quando pega a via elevada que dá acesso ao Túnel Santa Bárbara), que ficavam à beira-mar, agora nem maresia recebem. As próprias ilhas do Cães e das Moças (ver mapa) foram vítimas da sanha aterradora. Os morros da Zona Portuária, devido ao relativo isolamento em que permaneceram, ainda guardam muito do espírito e aspecto do Rio Antigo. Vamos fazer um passeio por eles?


MORRO DE SÃO BENTO (1 no mapa)

O mosteiro de São Bento em gravura de 1837 de João D. Sturz, escaneada de História dos Bairros: Zona Portuária da João Fortes Engenharia. Observe as pontas das duas torres da igreja atrás do mosteiro, à esquerda. O mosteiro foi durante três séculos um marco na paisagem da cidade. 

O Morro de São Bento é um dos 4 morros (os outros 3 são o Morro da Conceição, o Morro do Castelo demolido nos anos 20 e o Morro de Santo Antônio) que delimitavam a zona urbana do Rio nos tempos coloniais. Já no final do século XVI ali se instalaram os monges beneditinos, que construíram no século XVII seu convento e a Igreja de N. S. de Montserrat, joias da arte barroca. O conjunto foi considerado Monumento Mundial pela UNESCO. O acesso se dá pela Rua Dom Gerardo, 68 (a 200 metros do edifício pós-moderno Rio Branco 1), onde um elevador conduz ao alto do morro  mas um pouco antes existe uma ladeira que você pode subir de carro ou a pé. As missas em canto gregoriano nas manhãs de domingo (e as Vésperas ao cair da tarde) são o que mais se aproxima neste mundo sublunar de uma experiência celestial. Para ler um texto sobre o mosteiro do escritor memorialista Antonio Carlos Villaça, que chegou a se ordenar monge mas depois se arrependeu, clique em Antonio Carlos Villaça no menu à direita .

Igreja de Nossa Senhora de Monstserrat, anexa ao mosteiro. Construção: 1633-1642. Fachada maneirista sóbria, na linha monástica tradicional, contrastando com o interior barroco exuberante em talha dourada. 

Interior da igreja: explosão barroca.

Vista do Morro de São Bento.

MORRO DA CONCEIÇÃO (2)

Contrastes arquitetônicos: Vista da Ladeira do João Homem.


O Morro da Conceição, um oásis de tranquilidade em meio à agitação do Centro da Cidade, guarda tesouros do Rio Antigo como a Fortaleza da Conceição, concluída em 1718 para defender melhor a cidade depois que os fortes na entrada da baía se mostraram insuficientes para defender a cidade (vítima de dois ataques franceses sucessivos, em 1710 e 1711), e o antigo Palácio Episcopal (ou seja, do bispo) do início do século XVIII, onde hoje funciona o Serviço Geográfico do Exército. Pouca gente sabe, mas lá fica também o Observatório do Valongo. O morro abriga ainda uma série de ateliês, que no fim de semana de dezembro mais perto do dia de Nossa Senhora da Conceição (8 de dezembro), abrem as portas ao público no Projeto Mauá.  Uma oportunidade de ouro de conhecer esse simpático recanto carioca. Ao pé do morro ficam a Igreja de São Francisco da Prainha e a Pedra do Sal, um dos berços do samba. Para ver as várias postagens deste blog sobre o Morro da Conceição (além desta) clique em Morro da Conceição no menu da barra direita do blog.

Janela.

Escadinhas.

Villa Guilhermina: Ateliê do artista Claudio Aun.

Sacolé: observe os belos azulejos esmaltados policromos em dois padrões.

Coqueiro sobre o casarão.

Pedra do Sal.

Obras do Porto Maravilha: Mirante. 

MORRO DO LIVRAMENTO (3)


Igreja de Nossa Senhora do Livramento.


No Morro do Livramento nasceu Machado de Assis. Sua mãe era agregada na chácara da viúva do senador Bento Barroso Pereira, que ocupava boa parte do morro. Mas durante as comemorações do centenário da morte de nosso maior escritor, o morro ficou em brancas nuvens, ninguém (a não ser este blogueiro) se lembrou de subir lá em sua homenagem. Ainda se veem no alto do morro, pertinho da torre da Embratel, ruínas de um casarão que devia fazer parte da sede da Chácara do Barroso (ver foto na postagem Morro do Livramento deste blog). Somente no final do século XIX as chácaras começaram a ser desmembradas e loteadas, dando início à ocupação mais densa do morro. Quem aprecia casas do início do século XX encontrará no morro um excelente local de garimpo. A escadaria que dá acesso ao morro a partir da Rua Alexandre Mackenzie (antiga Rua do Costa, onde decorre o Conto de Escola de Machado) é tombada pela Prefeitura (foto abaixo). Para ver também a outra postagem deste blog sobre o morro clique em Morro do Livramento no menu da direita.

Escadaria tombada pela Prefeitura.

Menino no Morro do Livramento. Também Machado foi menino ali.

Vista do Centro.

Singela casinha.

Antigo cortiço do final do século XIX, uma "avenida" como se dizia na época.

Beco com calçamento de pé-de-moleque.

Chalezinho de curva.

Sombras nos degraus.

Panorama da Praça Américo Brum, ao pé do Morro da Providência.

MORRO DA PROVIDÊNCIA (4)


Morro da Providência com o Oratório no alto.




Se você olhar no Google Earth verá que o Morro da Providência é uma parte mais alta (chegando a uns 90 metros) na extremidade oeste do Morro do Livramento (ou seja, não é um morro separado). Suas duas grandes antigas pedreiras, cujas bases servem de garagem de ônibus, são claramente visíveis na imagem abaixo do Google Earth.




No Morro da Providência encontra-se a mais antiga favela do Rio, criada por soldados retornados de Canudos, que ali construíram moradias precárias enquanto aguardavam que o Ministério da Guerra, ali perto, fornecesse alojamentos apropriados, o que nunca aconteceu. Favela ou faveleiro é o nome de um arbusto grande da família das euforbiáceas. Um dos morros da região de Canudos, com grande quantidade dessa planta, chamava-se Morro da Favela, nome pelo qual foi chamado o Providência por algum tempo. A designação “favela” depois se estendeu a outras comunidades. No alto do morro ergue-se o Oratório do Morro da Providência, tombado em 1986 pelo Município, construído em 1901 pelas mulheres dos soldados. Ali entronizaram a imagem do Cristo, de devoção de Antônio Conselheiro, trazida do interior da Bahia.


O morro recentemente foi pacificado e já se pode subir lá com certa segurança (entrando no Conjunto Habitacional dos Marítimos, na Rua da América, e seguindo “sempre em frente”, você acaba atingindo uma escadaria que dá acesso direto ao oratório — dá para ver no Google Maps). Grandes obras no contexto do Projeto Porto Maravilha, como o teleférico e plano inclinado, poderão transformar o morro em uma atração turística.

"Ai, barracão, pendurado no morro, e pedindo socorro à cidade aos seus pés."

Oratório do início do século XX.

Oratório num desenho de 1938 de J. Sarmento para a Revista da Semana. Imagem escaneada da História dos Bairros: Saúde, Gamboa, Santo Cristo, da João Fortes Engenharia.

Igreja de Nossa Senhora da Penha.

Central do Brasil, Pão de Açúcar e prédios do Centro vistos do alto do Morro da Providência.

Escadaria entre a Providência e o Livramento.

Arte popular.

MORRO DA SAÚDE (5)


Morro da Saúde. Ao centro a Igreja de N. S. da Saúde e à esquerda um dos prédios de um condomínio que existe no alto da Ladeira da Saúde.


O Morro da Saúde é um morrote pouco conhecido perto do Moinho Fluminense e da antiga Praça da Harmonia (atual Praça Cel. Assunção) mas que guarda uma relíquia: a Igreja de Nossa Senhora da Saúde. Outrora à beira-mar, agora entre o monte e o Cais do Porto interpõe-se o mostrengo Perimetral. “Com os aterros, perdeu o mar, a vista, e ficou cercada de armazéns imundos e nuvens de monóxido de carbono.” (Alexei Bueno, Gamboa). A singela igrejinha já chegou a estar em petição de miséria, mas depois de um primoroso trabalho de restauração recuperou seu encanto. Construída em estilo barroco jesuítico em meados do século XVIII, sofreu uma reforma em 1898. Diz Alexei: “Com frontão e sineira barrocos, fachada algo alterada por uma janela oitocentista em arco pleno sobre o portal de granito, possui nave única e um interior de grande elegância.” A entrada se dá pela Rua Silvino Montenegro.

Entrada para a igreja na Rua Silvino Montenegro.

Igreja de Nossa Senhora da Saúde.

Interior da igreja.

Azulejos portugueses.

Torre vista por detrás.

Vista do adro da igreja.

Ladeira da Saúde. Observe um pedacinho da Povidência no centro-esquerda.


MORRO DA GAMBOA (6)


Morro da Gamboa visto da Rua da Gamboa, ao lado da Cidade do Samba.


O Morro da Gamboa fica juntinho da Cidade do Samba, à esquerda (oeste), sendo visível de lá. Depois que o herdeiro da chácara do Comendador Machado Coelho lá existente a alugou para uma das primeiras casas de saúde do Rio, em 1841, o morro nunca mais deixou de abrigar instituições de saúde. Ali a Santa Casa instalou em 1853 uma enfermaria para portadores de doenças infecciosas, entre elas febre amarela e cólera, e desde 1871 lá funciona o Hospital de Nossa Senhora da Saúde, popularmente conhecido como Hospital da Gamboa. O hospital e sua capela, de Nossa Senhora das Graças, do final do século XIX, em estilo neogótico inglês, são tombados pelo Município.


Antigo portão.
Acesso ao hospital.

N. S. da Saúde e atrás, sucessivamente: Perimetral, Cais do Porto, Ponte Rio-Niteroi.

Capela de Santo Cristo dos Milagres de 1890 em estilo neogótico.

MORRO DO PINTO (7)


Igreja de Nossa Senhora de Montserrat no Morro do Pinto.


Quem passa pela Avenida Presidente Vargas vê, na altura da Cidade Nova (quem sobe para a Praça da Bandeira vê à direita, quem vem de lá vê à esquerda), uma igrejinha numa colina cercada de casinhas: a Igreja de N.S. de Montserrat, no Morro do Pinto. O morro, que já se chamou Morro do Nheco e Morro Paulo Caieiro (ou Cairô como consta de alguns mapas) deve seu nome ao comerciante Antônio Pinto Ferreira Morado, antigo proprietário de terras ali e nas proximidades (segundo Brasil Gerson). Nas ruas de paralelepípedos do morro você respira um ar tranquilo, de cidade do interior (como mostram as fotos). Somente a partir de 1874, com a abertura da Rua do Pinto (primeira foto abaixo) que levava ao alto do morro, começou sua ocupação efetiva. Em 2009 o editor deste blog fez uma visita ao morro acompanhado da poetisa Conceição Albuquerque, que foi criada no morro mas depois de adulta não voltara mais lá. Para ver a postagem resultante (além desta) clique em Morro do Pinto no menu à direita.

Rua do Pinto.

Chalé.

Escadaria (observe as senhoras sentadas à porta de casa como em cidade do interior).

Prédios e casas morro acima.

Vista da antiga fábrica da Bhering (onde está a chaminé).

Travessa Souza.

"Cidadezinha do interior" em pleno Rio.

Morro abaixo.

MORRO DE SÃO DIOGO (8)


Pedreira de São Diogo e Favela Moreira Pinto.


O Morro de São Diogo é uma ponta do Morro do Pinto, do qual é separado pela Rua Moreira Pinto. Abriga a favelinha de mesmo nome (Moreira Pinto) e teve sua ponta corroída pela antiga Pedreira de São Diogo, até hoje visível das Avenidas Francisco Bicalho e Presidente Vargas. Nos tempos de antanho “quebrar pedra em São Diogo” era sinônimo de “dar duro” como mostra velho samba de breque do Moreira da Silva de 1942 que você pode ouvir no YouTube. O nome se deve ao alferes Diogo de Pina que erigiu uma capela em louvou do santo nesse morro. O alferes se celebrizou por enfrentar os invasores franceses comandados por Duguay Trouin e deu nome também aos antigos Mangal de São Diogo e Saco do Alferes. O quinto episódio de Cinco Vezes Favela de 1962, dirigido por Leon Hirszman, chama-se Pedreira de São Diogo, embora fosse filmado na Pedreira da Providência.


A pedreira vista do Morro do Pinto.

A pedreira vista da passarela em frente à Leopoldina.  A chaminé é da antiga fábrica de açúcar que existiu no local.