
Rio, 20 de janeiro de 1998
Querido Dieter

Dieter, em sua sabedoria germânica, diga-me como vou viver no seu sóbrio país? Dieter, amor meu, como se planta um coqueiro em Berlim? Porque aqui estou como um coqueiro solidamente plantado nas areias asfaltadas de Copacabana onde nos conhecemos, lembra? Fazia um calor dos diabos mesmo nas primeiras horas do dia, eu caminhando descalça nas bordas de mar e areia, exercício lúbrico e eficiente, músculos, tendões, preguiça, um caldo só de bem-aventurança anunciando o privilégio renovado de estar viva em Copacabana, no verão, debaixo do sol, no Rio, meu Rio, meu reino.

Amor, eu sou daqui, não moro apenas.
Lembra, te levei ao Grajaú, naquelas ruas ladeadas de tamarindeiras carregadas de sementes azedas e doces ao mesmo tempo? Então, te mostrei meu berço. São tantas as esquinas onde dobrei minha vida, a caminhada trabalhosa da zona norte à zona sul, ultrapassando a alagada Praça da Bandeira e, além do Santa Bárbara, a brisa e o cheiro do mar. Gaivota urbana, no concreto fiz meu ninho, que peixe se compra na feira. Tem sido assim, acordar cedo, andar ao longo da calçada, o horizonte ao alcance da mão, o verde nos limites do azul e os dourados da manhã que explode. Às vezes chove, e antes do céu virar em prata, aparece o arco-íris. Não falho um dia. Já vi todas as ressacas encolhendo o Arpoador, conheço os andarilhos diários e os bissextos, sigo acompanhada do costume, quase reconheço as raivosas buzinas que morrem de inveja deste ócio. Injustiça. Depois do meio-dia percorro repartições públicas vendendo artigos do Paraguai. Muambeira, sim, com muita honra. Tenho butique em casa, duas coisas não me faltam: dinheiro para pagar as contas e gente pra conversar. Você sempre reclamou de falta de privacidade lá de casa, a freguesia chegando fora de hora atrás de um presente, uma roupa, os improvisos além do entendimento desse seu cérebro ordenado.

Tenho visto saudade na tua impaciência. O desconforto substitui o prazer, tá um calor danado, né?
Dieter, meu amado, lembra do princípio, eu voltando do mar, você chegando do hotel, estendendo sem jeito a toalha na areia, o sol do Rio queimando a tua pele conservada virgem pelo sol de Berlim? Tive pena da perda inocente dessa brancura e te emprestei meu filtro solar fator de proteção 30, caríssimo, importado. Até passei nas suas costas, generosamente, saboreando os relevos desses músculos rijos, que não sou de perder o instante.
Dieter, amor da minha vida, lembra como foi fácil passar da praia ao quarto, sala, banheiro e cozinha na calma Cinco de Julho? É que aqui sou e serei a dona de tudo, faço e desfaço. De posse de mim, tomei você. Trouxe o sonho pra casa.

Dieter, meu amado, conhecemos a felicidade nesses meses quando enovelamos um inglês alinhavado, quase supérflua comunicação verbal, porque no mais das vezes usamos a linguagem da química dos corpos, da rotina de café da manhã e roupa lavada. Quanta paixão experimentamos, as diferenças que ora nos afastam, antes nos atraíam. Ouro e cobre, nossas bandeiras se embolando, verde, azul, vermelho, preto e o amarelo comum. Era lindo. Você doido por mim, eu louca por você. No travesseiro, nossos tons complementares, meus cabelos escuros, os teus tão louros - ainda que ralos. A noite nos meus olhos, nos teus a clareza azul, espelhos de uma raça eugênica e desenvolvida. Apesar que higiênica sou eu, gosto muito mais de tomar banho que você.

Ditinho, meu bem, devolvo a passagem, mas guardarei num sacrário as memórias da nossa aventura. Fomos tão felizes, né?
Adeus, meu gringo, e perdão. Ainda que eu pudesse um dia suportar o frio e a neve aninhada nos teus braços, à luz branda de uma lareira elétrica, saboreando beijos e chocolates, ainda assim eu estaria apenas sobrevivendo.
É que eu não existo sem o Pão de Açúcar.
Eternamente sua,
Lucinha
