ENSEADA DE BOTAFOGO

ENSEADA DE BOTAFOGO
"Andar pelo Rio, seja com chuva ou sol abrasador, é sempre um prazer. Observar os recantos quase que escondidos é uma experiência indescritível, principalmente se tratando de uma grande cidade. Conheço várias do Brasil, mas nenhuma tem tanta beleza e tantos segredos a se revelarem a cada esquina com tanta história pra contar através da poesia das ruas!" (Charles Stone)

VISTA DO TERRAÇO ITÁLIA

VISTA DO TERRAÇO ITÁLIA
São Paulo, até 1910 era uma província tocada a burros. Os barões do café tinham seus casarões e o resto era pouco mais que uma grande vila. Em pouco mais de 100 anos passou a ser a maior cidade da América Latina e uma das maiores do mundo. É pouco tempo. O século XX, para São Paulo, foi o mais veloz e o mais audaz.” (Jane Darckê Avelar)
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4.10.06

EU NÃO EXISTO SEM O PÃO DE AÇÚCAR

MARIZA DE ALMEIDA REBOUÇAS



Rio, 20 de janeiro de 1998
Querido Dieter



Você entrou naquele avião e eu sabia que o nosso caso de amor estava acabado. Só o caso, o amor não. Vou seguir amando você enquanto respirar, e, se houver vida outra além desta conhecida, creia, o meu amor ainda será você. E os borrões, redesenhando as rosas desse lindo papel de carta que você me trouxe, são lágrimas sobre tinta, testemunhas líquidas e certas do sofrimento que experimento ao decidir permanecer no Brasil.

Dieter, em sua sabedoria germânica, diga-me como vou viver no seu sóbrio país? Dieter, amor meu, como se planta um coqueiro em Berlim? Porque aqui estou como um coqueiro solidamente plantado nas areias asfaltadas de Copacabana onde nos conhecemos, lembra? Fazia um calor dos diabos mesmo nas primeiras horas do dia, eu caminhando descalça nas bordas de mar e areia, exercício lúbrico e eficiente, músculos, tendões, preguiça, um caldo só de bem-aventurança anunciando o privilégio renovado de estar viva em Copacabana, no verão, debaixo do sol, no Rio, meu Rio, meu reino.



Sabe, amor, carioca não emigra. Se emigra, não é: nasceu. Carioca perde a graça se longe está. Os feitiços com que me enfeitas, bobão, fervilham a quarenta graus no caldeirão desta cidade onde o caos se sente em casa e o bem e o mal usam bermudas de janeiro a março. Logo ali, em São Paulo, perco os poderes.

Amor, eu sou daqui, não moro apenas.

Lembra, te levei ao Grajaú, naquelas ruas ladeadas de tamarindeiras carregadas de sementes azedas e doces ao mesmo tempo? Então, te mostrei meu berço. São tantas as esquinas onde dobrei minha vida, a caminhada trabalhosa da zona norte à zona sul, ultrapassando a alagada Praça da Bandeira e, além do Santa Bárbara, a brisa e o cheiro do mar. Gaivota urbana, no concreto fiz meu ninho, que peixe se compra na feira. Tem sido assim, acordar cedo, andar ao longo da calçada, o horizonte ao alcance da mão, o verde nos limites do azul e os dourados da manhã que explode. Às vezes chove, e antes do céu virar em prata, aparece o arco-íris. Não falho um dia. Já vi todas as ressacas encolhendo o Arpoador, conheço os andarilhos diários e os bissextos, sigo acompanhada do costume, quase reconheço as raivosas buzinas que morrem de inveja deste ócio. Injustiça. Depois do meio-dia percorro repartições públicas vendendo artigos do Paraguai. Muambeira, sim, com muita honra. Tenho butique em casa, duas coisas não me faltam: dinheiro para pagar as contas e gente pra conversar. Você sempre reclamou de falta de privacidade lá de casa, a freguesia chegando fora de hora atrás de um presente, uma roupa, os improvisos além do entendimento desse seu cérebro ordenado.



Dieter, tem muambeira na Alemanha?
Tenho visto saudade na tua impaciência. O desconforto substitui o prazer, tá um calor danado, né?
Dieter, meu amado, lembra do princípio, eu voltando do mar, você chegando do hotel, estendendo sem jeito a toalha na areia, o sol do Rio queimando a tua pele conservada virgem pelo sol de Berlim? Tive pena da perda inocente dessa brancura e te emprestei meu filtro solar fator de proteção 30, caríssimo, importado. Até passei nas suas costas, generosamente, saboreando os relevos desses músculos rijos, que não sou de perder o instante.

Dieter, amor da minha vida, lembra como foi fácil passar da praia ao quarto, sala, banheiro e cozinha na calma Cinco de Julho? É que aqui sou e serei a dona de tudo, faço e desfaço. De posse de mim, tomei você. Trouxe o sonho pra casa.



E agora você quer voltar para si mesmo, é normal. Quer ser o senhor de tudo, na neve de todos os invernos, nas águas dos degelos, não sei, fico imaginando, eu que jamais vi a neve.

Dieter, meu amado, conhecemos a felicidade nesses meses quando enovelamos um inglês alinhavado, quase supérflua comunicação verbal, porque no mais das vezes usamos a linguagem da química dos corpos, da rotina de café da manhã e roupa lavada. Quanta paixão experimentamos, as diferenças que ora nos afastam, antes nos atraíam. Ouro e cobre, nossas bandeiras se embolando, verde, azul, vermelho, preto e o amarelo comum. Era lindo. Você doido por mim, eu louca por você. No travesseiro, nossos tons complementares, meus cabelos escuros, os teus tão louros - ainda que ralos. A noite nos meus olhos, nos teus a clareza azul, espelhos de uma raça eugênica e desenvolvida. Apesar que higiênica sou eu, gosto muito mais de tomar banho que você.



Mas nada é para sempre, seu trabalho no país acabou, o sortilégio também. Outra vez peguei teu olhar vagando, indaguei, é o calor , despistaste. Mentira, era o começo da volta, o canto das valquírias, umas chatas. Você muda, como se outro virasse. Ledo engano, você apenas retoma posse de si: Dieter Uhl.

Ditinho, meu bem, devolvo a passagem, mas guardarei num sacrário as memórias da nossa aventura. Fomos tão felizes, né?

Adeus, meu gringo, e perdão. Ainda que eu pudesse um dia suportar o frio e a neve aninhada nos teus braços, à luz branda de uma lareira elétrica, saboreando beijos e chocolates, ainda assim eu estaria apenas sobrevivendo.

É que eu não existo sem o Pão de Açúcar.

Eternamente sua,
Lucinha


Conto publicado originalmente sob o título "Dieter" no livro A Rainha da Hora. O livro (que eu recomendo) pode ser adquirido diretamente com a autora. Clique no marcador abaixo para ler outro texto de Mariza de Almeida Rebouças. Fotos do Pão de Açúcar de Ivo & Mi.

20.2.06

A RAINHA DA HORA

MARIZA DE ALMEIDA REBOUÇAS


O clássico da literatura de temática carnavalesca no Brasil é A morte da porta-estandarte, de Aníbal Machado, de 1965. O melhor texto literário sobre Carnaval surgido desde então, na minha opinião, foi A rainha da hora, da escritora Mariza de Almeida Rebouças. Confiram e digam se concordam:

Mesmo achando um certo abuso de confiança, remexi a gaveta do doutor, abri o envelope e li o resultado do exame: neoplasia. O medo chegou me esfriando primeiro o peito, foi-se espalhando por onde pôde, quando chegou lá na alma, pronto, estava instalado. Quis correr, não pude sair do lugar, nem havia pra onde, pois onde eu fosse ia meu seio comigo, e o lembrete da morte entranhado num cantinho dele. Tinha tanta certeza de que a mamografia não ia dar em nada, mal completei vinte anos, nunca fiquei doente na vida. Só essa convicção me fez abrir o envelope no fim do expediente, numa sexta-feira, véspera de carnaval. Como é que eu ia saber, afinal nunca vi um caso assim aqui no consultório do doutor Bechtinger, mastologista. Sou secretária dele. Já presenciei muitos dramas de mulheres com diagnósticos de malignidade na mama, o desespero delas, a angústia da mutilação arrebentando em lágrimas. Mas eu? Vinte anos? Li de novo, era verdade. Liguei os fatos, o telefonema do doutor com um outro especialista, me mandou pegar um café, pretexto, lógico, para eu não ouvir. Mas quando voltei, escutei um restos da conversa "segundo exame, é, confirmado... é o procedimento...total, você também acha, total, sei, Marcos". Entendi por que o doutor passou a tarde preocupado, recebendo pessoalmente o rapaz do laboratório, quando normalmente eu é que atendo. Queria me poupar nesses dias de carnaval, não é tempo de pesares. Ele sabia que eu ia desfilar pela primeira vez na Mangueira, falei nisso o ano inteiro, como estava ansiosa pra vestir a fantasia bordada de paetês, colocar o esplendor de plumas e, linda e maravilhosa, samba no pé, deslumbrar a multidão.

Sonho secreto de menina, pequena ovelha negra no rebanho da família pra lá de careta.

Para realizar meu sonho, depois de concluir o segundo grau, fui trabalhar. Não tive condições de fazer faculdade, somos pobres. Quem estuda em escola pública é assim mesmo, a gente não tem o preparo desses cursos caros e bons, daí não consegue passar no vestibular das universidades do governo. As pagas, como pagar? Me restava arrumar emprego. Boa aparência, boa redação, mexia com computador, agradei ao doutor Bechtinger, me contratou. Desde que recebi meu primeiro salário, dava quase tudo pra mamãe, guardava um dinheirinho pra fantasia do carnaval. Meus pais e o Zeca, meu namorado, se soubessem, iam ficar desgostosos, seria o fim do mundo. Acho difícil acreditar que alegria é pecado, mas lá em casa é assim, o jeito é calar e tocar a vida.

Agora, apertando aquele papel nas mãos, meu sonho perdia o brilho na sentença em preto-e branco.

O carocinho que senti no seio esquerdo tomando banho e pedi ao doutor para examinar era maligno e, como bem ouvi, significava arrancar meu seio fora. Sei lá por que, não conseguia chorar. Também não pude voltar pra casa. Como dizer uma coisa dessas a minha mãe? Fiquei dando voltas em Copacabana, as ruas cheias de camelôs vendendo máscaras, perucas metálicas coloridas, enfeites baratos. Então, peguei meu celular pré-pago, liguei pra casa, inventei que precisava dormir na casa da tia Neide, problemas no consultório, ia ficar tarde, que era pra avisar o Zeca.

Fui pra quadra da Mangueira e sambei como uma condenada.

Depois, Toninho, o encarregado do guarda-roupa, me entregando a fantasia, perguntou pela milésima vez:

– E aí, neném, vai mostrar esses peitinhos lindos na passarela, ou tá com medo do teu boiola?

Meu boiola era o Zeca, meus peitinhos lindos o Toninho conhecia de vista. Malandro, achava um jeito de espiar a prova das fantasias, dava palpites, me tocava disfarçado, eu fingia que não via, achava bom, me arrepiava toda. O Zeca, a gente se amava, mas ele era muito sistemático, me respeitava e guardava para o dia do casamento, coitados de nós dois. Enfim, de madrugada, quando o ensaio acabou, o pessoal saindo animado, sobrou o silêncio. Então a consciência da doença voltou a me assombrar. Perdi o fôlego, a angústia transparecendo no andar arrastado, sem rumo. Toninho percebeu:

– A barra pesou, neném?

Olhei pra ele. No lugar do malandro, um homem que enxergava as lágrimas que eu não sabia derramar, enquanto dedilhava meus cabelos como cordas de violão. Garantiu:

– Tá comigo, tá com Deus. Vem pra minha casa.

Toninho morava na Glória, um prédio feio num lugar horrível, mas o conjugado era limpo e arrumado. Me deu um guaraná, pegou uma cerveja, me acomodou no sofá desbotado, sentou de costas numa cadeira, braços cruzados no encosto, queixo apoiado nas mãos. E ensinou:

– Tem dois jeitos de sofrer: fechando a boca ou abrindo a alma. O primeiro dói mais. Que vai ser?

Escolhi o segundo. Abri os botões da blusa, que era ali que andava a minha alma.

– É câncer, Toninho. Vão tirar meu seio fora...

Toninho empurrou a cadeira, veio vindo mansamente, se ajoelhou aos meus pés e beijou a minha alma. Uma. Depois a outra.

A Mangueira entrou na passarela levantando a multidão delirante, e, como no samba do Chico, como no meu sonho, eu pisava um chão de esmeraldas, soberba, garbosa, ovelha verde e rosa rebrilhando no rebanho do carnaval. E quando a nossa ala passou em frente à comissão julgadora, Toninho, malandro novamente, berrou no meu ouvido:

– Vai ou não vai? Aproveita a tua hora, neném!

A minha hora.

Rainha da minha hora, que fosse a melhor por toda a vida: arranquei o sutiã de paetês, soltei a alma na folia.


Do livro A rainha da hora (Razão Cultural, 2002). Ilustração: Carnaval em Madureira, óleo sobre tela de Tarsila do Amaral (1924)