ENSEADA DE BOTAFOGO

ENSEADA DE BOTAFOGO
"Andar pelo Rio, seja com chuva ou sol abrasador, é sempre um prazer. Observar os recantos quase que escondidos é uma experiência indescritível, principalmente se tratando de uma grande cidade. Conheço várias do Brasil, mas nenhuma tem tanta beleza e tantos segredos a se revelarem a cada esquina com tanta história pra contar através da poesia das ruas!" (Charles Stone)

VISTA DO TERRAÇO ITÁLIA

VISTA DO TERRAÇO ITÁLIA
São Paulo, até 1910 era uma província tocada a burros. Os barões do café tinham seus casarões e o resto era pouco mais que uma grande vila. Em pouco mais de 100 anos passou a ser a maior cidade da América Latina e uma das maiores do mundo. É pouco tempo. O século XX, para São Paulo, foi o mais veloz e o mais audaz.” (Jane Darckê Avelar)
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16.6.17

ARTE DE FLANAR PELO RIO (E POR PARIS)

COM FOTOS DO EDITOR DO BLOG DE SUAS FLÂNERIES PELA MUI LEAL E HEROICA CIDADE DE SÃO SEBASTIÃO DO RIO DE JANEIRO


Flanar - andar ociosamente, sem rumo nem sentido certo; flanear, flainar, perambular (Dicionário Eletrônico Houaiss)




A ARTE DE FLANAR SEGUNDO JOÃO DO RIO

Flanar! Aí está um verbo universal sem entrada nos dicionários, que não pertence a nenhuma língua! Que significa flanar? Flanar é ser vagabundo e refletir, é ser basbaque e comentar, ter o vírus da observação ligado ao da vadiagem. Flanar é ir por aí, de manhã, de dia, à noite, meter-se nas rodas da populaça, admirar o menino da gaitinha ali à esquina, seguir com os garotos o lutador do Cassino vestido de turco, gozar nas praças os ajuntamentos defronte das lanternas mágicas, conversar com os cantores de modinha das alfurjas da Saúde, depois de ter ouvido dilettanti de casaca aplaudirem o maior tenor do Lírico numa ópera velha e má; é ver os bonecos pintados a giz nos muros das casas, após ter acompanhado um pintor afamado até a sua grande tela paga pelo Estado; é estar sem fazer nada e achar absolutamente necessário ir até um sítio lôbrego, para deixar de lá ir, levado pela primeira impressão, por um dito que faz sorrir, um perfil que interessa, um par jovem cujo riso de amor causa inveja.

É vagabundagem? Talvez. Flanar é a distinção de perambular com inteligência. Nada como o inútil para ser artístico. Daí o desocupado flâneur ter sempre na mente dez mil coisas necessárias, imprescindíveis, que podem ficar eternamente adiadas. Do alto de uma janela como Paul Adam, admira o caleidoscópio da vida no epítome delirante que é a rua; à porta do café, como Poe no Homem da Multidões, dedica-se ao exercício de adivinhar as profissões, as preocupações e até os crimes dos transeuntes. [...]

O flâneur é ingênuo quase sempre. Para diante dos rolos, é o eterno "convidado do sereno" de todos os bailes, quer saber a história dos boleiros, admira-se simplesmente, e conhecendo cada rua, cada beco, cada viela, sabendo-lhe um pedaço da história, como se sabe a história dos amigos (quase sempre mal), acaba com a vaga ideia de que todo o espetáculo da cidade foi feito especialmente para seu gozo próprio. [...] Quando o flâneur deduz, ei-lo a concluir uma lei magnífica por ser para seu uso exclusivo, ei-lo a psicologar, ei-lo a pintar os pensamentos, a fisionomia, a alma das ruas. E é então que haveis de pasmar da futilidade do mundo e da inconcebível futilidade dos pedestres da poesia de observação...

Eu fui um pouco esse tipo complexo, e, talvez por isso, cada rua é para mim um ser vivo e imóvel. (João do Rio, A alma encantadora das ruas)




A ARTE DE FLANAR (e ruminar) SEGUNDO MACHADO DE ASSIS

É meu costume, quando não tenho que fazer casa, ir por esse mundo de Cristo, se assim se pode chamar à cidade de São Sebastião, matar o tempo. Não conheço melhor ofício, mormente se a gente se mete por bairros excêntricos; um homem, uma tabuleta, qualquer coisa basta a entreter o espírito, e a gente volta para casa "lesta e aguda", como se dizia em não sei que comédia antiga.

Naturalmente, cansadas as pernas, meto-me no primeiro bonde, que pode trazer-me à casa ou à Rua Ouvidor, que é onde todos moramos. Se o bonde é dos que têm de ir por vias estreitas e atravancadas, torna-se um verdadeiro obséquio do céu. De quando em quando, para diante de uma carroça que despeja ou recolhe fardos . O cocheiro trava o carro, ata as rédeas, desce e acende um cigarro; o condutor desce também e vai dar uma vista de olhos ao obstáculo. Eu, e todos os veneráveis camelos da Arábia, vulgo passageiros, se estamos dizendo alguma coisa, calamo-nos para ruminar e esperar.

Ninguém sabe o que sou quando rumino. Posso dizer, sem medo de errar, que rumino muito melhor do que falo. A palestra é uma espécie de peneira, por onde a ideia sai com dificuldade, creio que mais fina, mas muito menos sincera. Ruminando, a ideia fica íntegra e livre. Sou mais profundo ruminando; e mais elevado também. (Bons Dias, 21 de janeiro de 1889)




A ARTE DE FLANAR SEGUNDO JOSÉ DE ALENCAR

Sabeis o que é a flânerie? É o passeio ao ar livre, feito lenta e vagarosamente, conversando ou cismando, contemplando a beleza natural ou a beleza da arte; variando a cada momento de aspectos, e de impressões. O companheiro inseparável do homem quando flana é o charuto; o da senhora é o seu buquê de flores.
O que há de mais encantador e de mais apreciável na flânerie é que ela não produz unicamente o movimento material, mas também o exercício moral. Tudo no homem passeia: o corpo e a alma, os olhos e a imaginação. Tudo se agita; porém é uma agitação doce e calma, que excita o espírito e a fantasia, e provoca deliciosas emoções.

A cidade do Rio de Janeiro, com seu belo céu de azul e sua natureza tão rica, com a beleza de seus panoramas e de seus graciosos arrabaldes, oferece muitos desses pontos de reunião, onde todas as tardes, quando quebrasse a força do sol, a boa sociedade poderia ir passar alguns instantes numa reunião agradável, num círculo de amigos e conhecidos, sem etiquetas e cerimônias, com toda a liberdade do passeio, e ao mesmo tempo com todo o encanto de uma grande reunião.

Não falando já do Passeio Público, que me parece injustamente votado ao abandono, temos na Praia de Botafogo um magnífico boulevard como talvez não haja um em Paris, pelo que toca à natureza. Quanto à beleza da perspectiva, o adro da pequena igrejinha da Glória é para mim um dos mais lindos passeios do Rio de Janeiro. O lanço d'olhos é soberbo: vê-se toda a cidade à vol d'oiseau, embora não tenha asas para voar a algum cantinho onde nos leva sem querer o pensamento. (Ao correr da pena, 29/10/1854)




A ARTE DE FLANAR SEGUNDO JOAQUIM MANUEL DE MACEDO

Hoje em dia uma viagem a Lisboa é coisa mais simples do que um passeio ao Corcovado.

Entretanto, eu estou convencido de que se podia bem viajar meses inteiros pela cidade do Rio de Janeiro, achando-se todos os dias alimento agradável para o espírito e o coração.

O passado é um livro imenso cheio de preciosos tesouros que não se devem desprezar; e toda a terra tem sua história mais ou menos poética, suas recordações mais ou menos interessantes, como todo o coração tem suas saudades. A capital do Império do Brasil não pode ser uma exceção a esta regra.

Vamos dar princípio hoje a um passeio pela cidade do Rio de Janeiro? É um convite que faço aos leitores do Jornal do Comércio. Se o passeio parecer fastidioso ou monótono, não haverá o menor inconveniente em dá-lo por acabado no fim da primeira hora; se agradar, continuaremos com ele até... até... quem sabe até quando? Provavelmente conversaremos de preferência a respeito dos tempos que já foram e, portanto, não é preciso que nos lembremos já do futuro, marcando o fim da nossa viagem amena.

Vamos passear. (Joaquim Manuel de Macedo, Um passeio pela cidade do Rio de Janeiro)




A ARTE DE FLANAR SEGUNDO HELIO BRASIL

Sugiro ao leitor demorar sua observação em alguns cantos do bairro. Quem sabe, até realizar caminhadas para descobertas de encantos imprevisíveis...

A era do automóvel, este “ente” maravilhoso do qual dependemos excessivamente, cada vez mais nos impede de apreciar o espaço que nos cerca. A velocidade nos rouba o convívio com os lugares por onde passamos e, sem o convívio, os significados empalidecem.

Não é à toa que, por vezes, "descobrimos" uma ruela, um beco, um conjunto de casas, um simples muro desenhado pela intempérie pelo qual passamos "batidos", no dia-a-dia, sem a real oportunidade de conhecê-los.

A "medida" do homem ainda é o seu passo. (Helio Brasil, São Cristóvão.)




A ARTE DE FLANAR SEGUNDO PEDRO NAVA

Flanar nas ruas do Rio é prazer refinado. Exige amor e conhecimento. Não apenas o conhecimento local e o das conexões urbanas. É preciso um gênero de erudição. É preciso saber colocar os pés nos locais de Matacavalos onde pisou Osório, na calçada de São Clemente onde andou Tamandaré, nesta Glória onde perpassou o vulto de Capitu — na geografia citadina real e imaginária, no Rio velho de Manuel Antônio de Almeida, Alencar, Macedo, Artur e Aluísio — irmãos Azevedo; de Lima Barreto, João do Rio, Marques Rebelo, Drummond. [...]

O conhecimento puramente local do Rio eu o aprendi numa grande escola: o serviço de ambulâncias do velho Hospital de Pronto Socorro. Dizem que quem mais entende de nossa cidade são os choferes de táxi e os médicos da Assistência. Pertenci ao grupo... E sei descobrir os segredos — a polpa de nossas ruas. Exemplo? Um belo dia verifiquei que o Rio era a cidade mais rica das que eu conhecia em matéria de serralheria. Aprendi a admirá-las. [...]

Mas andando a pé em nossa cidade não são apenas épocas coloniais e imperiais que desvendamos. Tampouco fachadas pernambucanas, baianas ou mineiras que podemos ver. Viaja-se em todas as épocas e províncias do Brasil e pode-se sair também aí afora por esse mundo vasto mundo. [...]

À medida que as obras do Metrô e a insensibilidade dos procônsules nossos governantes vão demolindo de preferência o que há de sentimental, histórico e humano no Rio de Janeiro, multiplico meus passeios nas ruas malferidas — como quem se despede. (Pedro Nava, Galo das trevas, Memórias 5)




A ARTE DE FLANAR SEGUNDO O EDITOR DESTE BLOG

No Capítulo XXI de Quincas Borba, na viagem de trem de Barbacena ao Rio de Janeiro, Rubião observa que, “para quem estava acostumado a costa de burro, a estrada de ferro cansava e não tinha graça; não se podia negar, porém, que era um progresso...”

De progresso em progresso, descartamos o zepelim, o transatlântico, a maria-fumaça, o bonde (com a honrosa exceção do bondinho de Santa Teresa, o último dos moicanos). Viajamos espremidos na classe turística de monstruosos aviões. As atrações turísticas se sucedem qual programas de televisão sob a batuta do controle remoto: chegada em Paris, translado ao hotel, à tarde, city tour pelos principais monumentos, à noite, espetáculo no Lido, manhã seguinte, Museu do Louvre (correria pelos quadros mais “famosos”)...

Tudo muito vertiginoso. Um progresso, não se pode negar. Mas cá entre nós: pra conhecer uma cidade, você tem de caminhar por ela, sentir-lhe o burburinho, os odores, os sabores, o colorido, a paisagem humana.

Com o advento do assalto à mão armada, do poder paralelo dos traficantes, dos arrastões e tiroteios, passamos a temer nossa própria cidade maravilhosa e perdemos o costume de “andar por aí”, “sem lenço, sem documento”. Algumas páginas da literatura talvez nos inspirem a retomarmos esse hábito.

No conto machadiano "O Erradio", o personagem principal é um andarilho urbano. “Ia a toda parte; era comum achá-lo nos lugares mais distantes uns dos outros, Botafogo, São Cristóvão, Andaraí. Quando lhe dava na veneta, metia-se na barca e ia a Niterói. Chamava-se a si mesmo erradio.” Uma noite, após sair no meio de uma peça de teatro e tomar chá (!) no botequim próximo até o fechar das portas, Elisário (assim se chamava o Erradio) vai a pé do centro a São Cristóvão, percorrendo um Rio antigo em grande parte destruído pela abertura da Avenida Presidente Vargas e pelo aterro do Cais do Porto.

Quem leva à perfeição a arte de flanar pelo Rio antigo é Pedro Nava, que em sua obra autobiográfica descreve longos passeios pela Glória, Santa Teresa, Centro, São Cristóvão, Rio Comprido na primeira metade do século XX. E Helio Brasil, em seu primoroso livrinho São Cristóvão, sugere ao leitor “demorar sua observação em alguns cantos do bairro. Quem sabe, até realizar caminhadas para descobertas de encantos imprevisíveis...”




A ARTE DE FLANAR SEGUNDO VICTOR HUGO

Andar sem destino, isto é, flanar, é um ótimo modo de o filósofo passar o tempo; particularmente nessa espécie de campanha um tanto bastarda, bastante feia, mas interessante, composta de duas naturezas, rodeando sempre as grandes cidades, especialmente Paris. Observar os arredores de uma cidade é ver algo de anfíbio. Finda-se o arvoredo, começam os telhados; acaba-se a relva, começam as calçadas; terminam os sulcos do arado, aparecem as lojas; findam-se as estradas, iniciam-se as paixões; fim do murmúrio divino, começo do rumor humano; daí seu extraordinário interesse.

Daí os passeios do pensador, aparentemente ao léu, a esses lugares tão pouco atraentes, marcados para sempre pelo epíteto de tristes que lhe deram os transeuntes. (Victor Hugo, Os miseráveis, Parte 3, V)




A ARTE DE FLANAR PELAS CALÇADAS DO RIO SEGUNDO JOAQUIM FERREIRA DOS SANTOS

Eu sou pé no chão. Acho que uma cidade se faz especial pelo conjunto de suas calçadas, aquilo que o tecnicismo dos urbanistas chama friamente de “espaço público”. Eu, andarilho, eu, peripatético, eu prefiro a definição do compositor Antônio Maria e aqui dou o primeiro passo digital sobre este grande pátio da felicidade ambulante, a alegria simples de caminhar numa “calçada cheia de gente a passar e a me ver passar”. Uma cidade é feita a partir desta possibilidade. [...]

Existe acima de tudo a calçada e é a partir dela que veremos [...] como caminha a humanidade carioca. Foi por uma calçada que a garota de Ipanema passou. A cena era tão deslumbrante, o balanço tão doce, que a partir dela Tom e Vinicius, a tudo assistindo, musicaram uma revolução sofisticada. O Brasil nunca mais foi o mesmo. Pergunte ao mundo: o Rio de Janeiro é uma calçada onde a vida caminha em sandálias de plástico.

A pompa e a circunstância têm domicílio em outras cidades, algumas mais ricas, outras com melhor arquitetura. Aqui existe a graça divina dos diversos cartões postais e, entre eles, o calçadão de Ipanema, o calçadão de Madureira e tantos outros calçadões, o aumentativo bandeiroso de um sonho de cidade. Todos os seus moradores perambulando vadios ao sol carinhoso do outono. O pedestre finamente no poder, os estranhos marchando sem qualquer sinal de estranhamento. [...]

O pedestre não polui, não engarrafa. Ao caminhar, o movimento básico recomendado para se manter um corpo saudável, ele libera a sua parte na verba da saúde para o estado gastar com outros mais necessitados.

O pedestre é o cidadão orgânico que exigem os tempos modernos e o espaço urbano deve ser organizado sob a sua perspectiva. Tirem esses postes inúteis do caminho, que ele quer passar com o seu andor. Ao pedestre que erra, ao itinerante que zanza, todo o pouco poder que da Constituição municipal lhe emana. Que possa recuperar a calçada. É a sua propriedade inalienável, onde tudo deveria convidar à liberdade de passear, paquerar, conversar, respirar, brincar ou protestar contra a corrupção que permite quiosques no meio do caminho.

Se a sorte estiver ao lado, que possa ver a garota de Ipanema flanar a caminho do mar.



20.12.15

NATAL NOS VELHOS TEMPOS

Igrejinha de Copacabana pelo artista plástico Camões

Como teria sido o Natal brasileiro antes de sua "europeização" e da adoção da árvore de Natal e do Papai Noel? A julgar pelo conto do Machado de Assis, Missa do Galo ("Era noite de Natal. Havendo ajustado com um vizinho irmos à missa do galo, preferi não dormir; combinei que eu iria acordá-lo à meia-noite."), por Um Passeio Pela Cidade do Rio de Janeiro de Joaquim Manuel de Macedo (autor de A Moreninha) e pela crônica Como se Ouve a Missa do Galo de João do Rio, publicada em 1906, a grande atração da véspera do Natal era a missa do galo. As pessoas acorriam à missa em massa como hoje vão à queima de fogos do Réveillon. Mas a missa em si, mero pretexto para brincadeiras, paqueras, bebedeiras. Pelo menos é o que se depreende da crônica saborosa do João.

 
Igrejinha de Copacabana em cartão postal de 1910

COMO SE OUVE A MISSA DO GALO (trechos), de JOÃO DO RIO

Eu estava exatamente defronte da igreja de Santana, dispondo de um automóvel possante. Era a mais que alegre hora da meia-noite que alguns temperamentos românticos ainda julgam sinistra. Aquele trecho da cidade tinha um aspecto festivo, um estranho aspecto de anormalidade. (...)

Grupos de rapazes berravam graças, bondes paravam despejando gente, vendedores ambulantes apregoavam doces e comestíveis; todos os rostos abriam-se em fraterna alegria, e naquela sarabanda humana, naquele vozear estonteante, uma nota predominava – a do namoro. Os rapazes estavam ali para namorar, para aproveitar a ocasião. (...)

Copacabana devia ser divertido. Tomei de novo o automóvel e disse ao chauffeur:

– Para Copacabana.

Naquele delicioso percurso da Avenida Beira-Mar, toda ensopada de luz elétrica, outros automóveis de toldo arriado, outros carros, outras conduções corriam na mesma direção. Homens espapaçados nas almofadas davam vivas, mulheres de grandes chapéus estralejavam risos, era uma estrepitosa e inédita corrida para Cítera [ilha do Egeu famoso pelo templo a Afrodite]

(...) Cerca de três mil pessoas – pessoas de todas as classes, desde a mais alta e a mais rica à mais pobre e à mais baixa, enchia aquele trecho, subia promontório acima [em direção à igrejinha de Copacabana]. E o aspecto era edificante. Grupos de rapazes apostavam em altos berros subir à igreja pela rocha; mulheres em desvario galgavam a correr por outro lado, patinhando a lama viscosa. Todos os trajes, todas as cores se confundiam num amálgama formidável, todos os temperamentos, todas as taras, todos os excessos, todas as perversões se entrelaçavam. (...)

De todos os lados partiam cantos de galo. Os cocoricós clássicos vinham finos, grossos, roufenhos, em falsete: – Cocoricó! Cocoricô!

– Já ouviste cantar o galo?
– Pois hoje não é a missa dele?
Cocoricó! pega ele pra capar!
– Pega!

A igrejinha [de Copacabana] estava toda iluminada exteriormente à luz elétrica. Defronte de sua fachada lateral haviam armado um botequim. A turba arfava aí, presa entre a bodega e o templo...

(Do livro A alma encantadora das ruas, de João do Rio, organizado por Raúl Antelo e publicado pela Companhia das Letras)



Igrejinha de Copacabana em antiga foto de Marc Ferrez

UM PASSEIO PELA CIDADE DO RIO DE JANEIRO (trecho), de JOAQUIM MANUEL DE MACEDO

As festas do Natal estendiam-se, como ainda hoje, do dia 25 de dezembro do ano que acabava até 6 de janeiro do novo que começava. Nelas, porém, predominavam os dias de Natal, de Ano Bom e de Reis. 

O dia de Natal era notável pela missa chamada do galo, pelas ceias alegres que a precediam e que tão famosas eram, e pelos presépios que se abriam ao público, e a que concorriam chusmas de visitadores. 

No fim do século passado, os presépios mais estimados do Rio de Janeiro eram três. O da ladeira de S. António, que os religiosos franciscanos apresentavam anualmente. O do convento da Ajuda [onde hoje fica a Cinelândia], mais pequeno que o precedente talvez, porém mais curioso e atrativo, porque ao mesmo tempo em que se viam as figuras do presépio, se ouviam cantos religiosos e análogos ao assunto, entoados pelas freiras. E incontestavelmente superior a ambos, o presépio do Livramento, na casa que fica ao lado direito da capela de N. S. do Livramento. 

Estes presépios conservavam-se abertos e patentes ao público em todas as noites, desde a do Natal até à de Reis.

(Do capítulo "A Capela e o Recolhimento de N. S. do Parto")

Nota: A igrejinha, citada na crônica de João do Rio, situava-se onde hoje se ergue o Forte de Copacabana. Uma dica para cariocas e visitantes: o forte, que abriga o Museu Histórico do Exército, está aberto à visitação. De lá você desfruta vistas magníficas das praias de Copacabana, Arpoador e Ipanema. Saiba mais sobre o forte clicando em FORTE DE COPACABANA no GUIA DO RIO no cabeçalho deste blog. 

27.11.15

ORIGENS DA TATUAGEM NO BRASIL

QUAIS SÃO AS ORIGENS DA TATUAGEM NO BRASIL, ESPECIFICAMENTE NO RIO DE JANEIRO? OS DOIS TEXTOS ABAIXO, DE LUÍS EDMUNDO E JOÃO DO RIO, AJUDAM A DESVENDAR AS ORIGENS DESSE ANTIGO HÁBITO OUTRORA RESTRITO A ESCRAVOS, MARINHEIROS E MERETRIZES, MAS QUE MODERNAMENTE SE GENERALIZOU.


TRECHO DO CAP. 7 DA OBRA CLÁSSICA DE LUÍS EDMUNDO O RIO DE JANEIRO DO MEU TEMPO:

Bem em meio à Ladeira do Castelo mora Florêncio da Palma, conhecido tatuador da Marinha, discípulo do Madruga, figura mais que conhecida na cidade, mestre na arte de tatuar e que, nas horas de sueto, dedilha o violão, criando canções que o povo, depois, gostosamente, decora e canta.

Florêncio, autor e cantor em voga, mais parece uma personagem arrancada às revistas regionais de João Foca, com a sua grenha a escorrer óleo de oriza, o seu bigode falhado e a sua pera-mosca, à Floriano. É tatuador de marinheiros, com especialidade em marcas onde entrem símbolos da arte de navegar. Pela época, é grande moda a tatuagem entre a nossa Maruja, entre soldados do Exército ou da Força Policial.

Foram os negros da África, aqui trazidos pelos portugueses, que introduziram essas fantasiosas marcas que se fazem na epiderme. Quando não vinham tatuados, esses negros aqui se tatuavam, obedecendo a velhas tradições regionais. Debret ensina-nos, por exemplo, que o monjolo tatuava-se, fazendo incisões verticais nas faces; o mina, fazendo uma continuidade de pontos salientes, provocados por tumefações que as agulhas de ferro produziam no rosto; o moçambique trazia, quase sempre, um sulco, uma espécie de crescente na testa, e assim por diante. Essas formas clássicas, entanto, degeneraram com o tempo, sendo, mais tarde, transformadas em símbolos, contando a vida amorosa dos tatuados, a profissão por eles exercida, etc.

Os nossos índios pintavam-se. Algumas vezes lanhavam o rosto, braços e pernas, mas não se tatuavam.

Pratica-se a tatuagem por incisão, por picadas ou por queimaduras subepidérmicas. Completa-se o trabalho com a ajuda de três agulhas que se embebem em anil, em tinta de escrever, em graxa, pólvora ou fuligem. Antes da aplicação das agulhas, traça-se o desenho que se deseja obter sobre a pele: um coração atravessado por uma seta, uma rosa, um navio, uma estrela, umas iniciais que se confundem ou entrelaçam, um nome, uma frase...

Como bom tatuador, Florêncio da Palma tem o corpo coberto de sinais, e, como o seu grande mestre Madruga, também mostra, no peito, a imagem do Redentor. Além disso, espalhados pelas costas, braços, ventre, coxas, mãos e pés, sinais de Salomão, âncoras, datas, nomes de mulheres e ainda marcas misteriosas e indecifráveis. São, por sua vez, de um pitoresco exótico ou disparatado todas essas tatuagens. Sabe-se de um marinheiro, por exemplo, cabo em Villegaignon, que possui, pelo dorso, espalhada, em estético realce, toda uma esquadra, feita a bicos de agulha, nada menos que sete navios nacionais: o Riachuelo, o Aquidabã, inclusive todos os vasos de guerra em que ele serviu embarcado, desde que assentou praça na Marinha. Outros há que mandam tatuar o corpo com emblemas pátrios: escudos da Monarquia, armas da República, quando não se marcam com nomes de heróis da pátria. João do Rio diz-nos ter visto, entre tatuagens interessantes, a do braço de um soldado de polícia onde se escrevia esta legenda patriótica: — Viva o Marechal de Ferro!

Os valentes da Saúde, da Gamboa e do Saco do Alferes tatuam-se bem como as meretrizes de ínfima classe, estas mandando marcar, pelos braços, pelas coxas ou pelo peito, o nome dos seus amados. Convém revelar, ainda, que os negros, outrora introdutores da tatuagem entre nós, já bem pouco se tatuam pela época.


TRECHO DO CAPÍTULO "OS TATUADORES" DA OBRA CLÁSSICA A ALMA ENCANTADORA DAS RUAS DE JOÃO DO RIO: 

Há três casos de tatuagem no Rio, completamente diversos na sua significação moral: os negros, os turcos com o fundo religioso e o bando das meretrizes, dos rufiões e dos humildes, que se marcam por crime ou por ociosidade. Os negros guardam a forma fetiche; além dos golpes sarados com o pó preservativo do mau olhado, usam figuras complicadas. Alguns, como o Romão da Rua do Hospício, têm tatuagens feitas há cerca de vinte anos, que se conservam nítidas, apesar da sua cor – com que se confunde a tinta empregada.

Quase todos os negros têm um crucificado. O feiticeiro Ononenê, morador à Rua do Alcântara, tem do lado esquerdo do peito as armas de Xangô, e Felismina de Oxum a figura complicada da santa d’água doce. Esses negros explicam ingenuamente a razão das tatuagens. Na coroa imperial hesitam, coçam a carapinha e murmuram, num arranco de toda a raça, num arranco mil vezes secular de servilismo inconsciente:

– Eh! Eh! Pedro II não era o dono?

E não se fotografam com um pavor surdo, como se fosse crime usar essas marcas simbólicas.

Os turcos são muçulmanos, maronitas, cismáticos, judeus, e nestas religiões diversas não há gente mais cheia de abusões, de receios, de medos. Nas casas da Rua da Alfândega, Núncio e Senhor dos Passos, existem, sob o soalho, feitiçarias estranhas, e a tatuagem forra a pele dos homens como amuletos. Os maronitas pintam iniciais, corações; os cismáticos têm verdadeiros eikones primitivos nos peitos e nos braços; os outros trazem para o corpo pedaços de paramentos sagrados. É por exemplo muito comum turco com as mãos franjadas de azul, cinco franjas nas costas da mão, correspondendo aos cinco dedos. Essas cinco franjas são a simbolização das franjas da taleth, vestimenta dos Khasan, nas quais está entrançado a fio de ouro o grande nome de Ihaveh.

A outra camada é a mais numerosa, é toda a classe baixa do Rio – os vendedores ambulantes, os operários, os soldados, os criminosos, os rufiões, as meretrizes. Para marcar tanta gente a tatuagem tornou-se uma indústria com chefes, subchefes e praticantes.

Quase sempre as primeiras lições vieram das horas de inatividade na cadeia, na penitenciária e nos quartéis; mas eu contei só na Rua Barão de S. Félix, perto do Arsenal de Marinha, e nas ruelas da Saúde, cerca de trinta marcadores. Há pequenos de dez, doze anos, que saem de manhã para o trabalho, encontram os carregadores, os doceiros sentados nos portais.

– Quer marcar? perguntam; e tiram logo do bolso um vidro de tinta e três agulhas.

Muitos portugueses, cujos braços musculosos guardam coroas da sua terra e o seu nome por extenso, deixaram-se marcar porque não tinham que fazer.

– Que quer V.S.? O pequeno estava a arreliar. Marca, moço, marca! E tanto pediu que pôs pra aí os risquinhos.

Os pequenos, os outros marcadores ambulantes, têm um chefe, o Madruga, que só no mês de abril deste ano fez trezentas e dezenove marcações. Madruga é o exemplo da versatilidade e da significação miriônima da tatuagem. Tem estado na cadeia várias vezes por questões e barulhos, vive nas Ruas da Conceição e S. Jorge, tem amantes, compõe modinhas satíricas e é poeta. É dele este primor, que julga verso:

Venha quanto antes d. Elisa
Enquanto o Chico Passos não atiça
Fogo na cidade...

Homem tão interessante guarda no corpo a síntese dos emblemas das marcações – um Cristo no peito, uma cobra na perna, o signo de Salomão, as cinco chagas, a sereia, e no braço esquerdo o campo das próprias conquistas. Esse braço é o prolongamento ideográfico do seu monte de Vênus onde a quiromancia vê as batalhas do amor. Quando a mulher lhe desagrada e acaba com a chelpa, Madruga emprega leite de mulher e sal de azedas, fura de novo a pele, fica com o braço inchado, mas arranca de lá a cor do nome.

Enquanto andou a fornecer-me o seu profundo saber, Madruga teve três dessas senhoras – a Jandira, a Josefa e a Maria. A primeira a figurar debaixo de um coração foi a Jandira. Um belo dia a Jandira desaparecia, dando lugar à Josefa, que triunfava em cima, entre as chamas. Um mês depois a letra J sumira-se e um M dominava no meio do coração.

Os marcadores têm uma tabela especial, o preço fixo do trabalho. As cinco chagas custam 1$000, uma rosa 2$000, o signo de Salomão,o mais comum e o menos compreendido porque nem um só dos que interroguei o soube explicar, 3$000, as armas da Monarquia e da República 6$ a 8$, e há Cristos para todos os preços.

Os tatuadores têm várias maneiras de tatuar: por picadas, incisão, por queimadura subepidérmica. As conhecidas entre nós são incisivas nos negros que trouxeram a tradição da África e, principalmente, as por picadas que se fazem com três agulhas amarradas e embebidas em graxa, tinta, anil ou fuligem, pólvora, acompanhando o desenho prévio. O marcador trabalha como as senhoras bordam.

Lombroso diz que a religião, a imitação, o ócio, a vontade, o espírito de corpo ou de seita, as paixões nobres, as paixões eróticas e o atavismo são as causas mantenedoras dessa usança. Há uma outra – a sugestão do ambiente. Hoje toda a classe baixa da cidade é tatuada – tatuam-se marinheiros, e em alguns corpos há o romance imageográfico de inversões dramáticas; tatuam-se soldados, vagabundos, criminosos, barregãs, mas também portugueses chegados da aldeia com a pele sem mancha, que influência do meio obriga a incrustar no braço coroas do seu país.

12.10.05

PROGRAMAS DE BIBLIÓFILO


Três programas pra bibliófilo nenhum botar defeito, carioca ou em visita ao Rio. Primeiro, conhecer a Academia Brasileira de Letras. Pode ser uma visita virtual ao Petit Trianon (o prédio antigo da Academia, cópia de uma construção existente em Versalhes, doado pelo governo francês em 1923). Mas também é possível fazer uma visita guiada gratuita, nos meses de abril, maio, junho, agosto, setembro e outubro, às segundas ou quartas, às 14 ou 16 horas. Reservas devem ser feitas com Therezinha pelo telefone 3974.2526 ou pelo e-mail visita.guiada@academia.org.br. A Academia fica à Avenida Presidente Wilson, 203 - Centro.


Programa número 2: a Folha Seca, na rua do Ouvidor, 37 (perto da Praça XV), uma simpática livraria especializada em MPB, futebol e Rio de Janeiro. Lá você encontrará maravilhas como A alma encantada das ruas, de João do Rio (ver trecho abaixo), História das ruas do Rio, de Brasil Gerson ou Um passeio pela cidade do Rio de Janeiro, de Joaquim Manuel de Macedo (autor de A Moreninha). Lá tem até o Édipo, meu livro de contos premiado pela União Brasileira de Escritores.



Terceiro programa: Real Gabinete Português de Leitura, à Rua Luís de Camões, 3 (entre o Largo de São Francisco e a Praça Tiradentes - foto acima). A maior biblioteca de autores portugueses fora de Portugal, em prédio no estilo manuelino que lembra o Mosteiro dos Jerônimos de Lisboa, existe desde os tempos de Machado de Assis. Aliás, Machado a freqüentou, e algumas das primeiras reuniões da Academia (ainda sem sede própria) realizaram-se ali. É inacreditável, é ver pra crer. Parece uma daquelas bibliotecas saídas da imaginação de um Borges.


A RUA
João do Rio

Eu amo a rua. (...) Os séculos passam, deslizam, levando as coisas fúteis e os acontecimentos notáveis. Só persiste e fica, legado das gerações cada vez maior, o amor da rua. (...) A rua é um fator da vida das cidades, a rua tem alma! (...)

Para compreender a psicologia da rua não basta gozar-lhe as delícias como se goza o calor do sol e o lirismo do luar. É preciso ter espírito vagabundo, cheio de curiosidades malsãs e os nervos com um perpétuo desejo incompreensível, é preciso ser aquele que chamamos flâneur e praticar o mais interessante dos esportes – a arte de flanar. (...)

Que significa flanar? Flanar é ser vagabundo e refletir, é ser basbaque e comentar, ter o vírus da observação ligado ao da vadiagem. Flanar é ir por aí, de manhã, de dia, à noite, meter-se nas rodas da populaça, admirar o menino da gaitinha ali à esquina, seguir com os garotos o lutador do Cassino vestido de turco, gozar nas praças os ajuntamentos defronte das lanternas mágicas, conversar com os cantores de modinha das alfurjas da Saúde...

É vagabundagem? Talvez. Flanar é a distinção de perambular com inteligência. Nada como o inútil para ser artístico. Daí o desocupado flâneur ter sempre na mente dez mil coisas necessárias, imprescindíveis, que podem ficar eternamente adiadas.

Do livro A alma encantadora das ruas (Companhia das Letras, 1997). Também é possível fazer download do livro no site
Domínio Público.

Fotos de Ivo & Mi: Estátua de Machado de Assis na Academia Brasileira de Letras; Livraria Folha Seca; Real Gabinete Português de Leitura; clarabóia do Real Gabinete.