ENSEADA DE BOTAFOGO

ENSEADA DE BOTAFOGO
"Andar pelo Rio, seja com chuva ou sol abrasador, é sempre um prazer. Observar os recantos quase que escondidos é uma experiência indescritível, principalmente se tratando de uma grande cidade. Conheço várias do Brasil, mas nenhuma tem tanta beleza e tantos segredos a se revelarem a cada esquina com tanta história pra contar através da poesia das ruas!" (Charles Stone)

VISTA DO TERRAÇO ITÁLIA

VISTA DO TERRAÇO ITÁLIA
São Paulo, até 1910 era uma província tocada a burros. Os barões do café tinham seus casarões e o resto era pouco mais que uma grande vila. Em pouco mais de 100 anos passou a ser a maior cidade da América Latina e uma das maiores do mundo. É pouco tempo. O século XX, para São Paulo, foi o mais veloz e o mais audaz.” (Jane Darckê Avelar)
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26.9.21

AFINAL, MACHADO DE ASSIS ERA NEGRO, BRANCO OU MULATO?

Nos últimos tempos virou moda celebrar a "negritude" do escritor-mor brasileiro. Assim, o crítico literário norte-americano Harold Bloom considera-o "the supreme black literary artist to date". Até membros da Academia Brasileira de Letras, com grande bagagem cultural, escrevem asneiras como "Machado era mestiço, filho de um pardo forro e de mãe negra" (Arnaldo Niskier na Revista Brasileira de abril-maio-junho de 2008, pág. 13) e  " [...] filho de Francisco José, um operário mulato pintor de paredes, e de Maria Leopoldina, uma lavadeira negra e neta de escravos" (Murilo Melo Filho, idem, pág. 26). A mãe de Machado, longe de ser negra, era branca nascida nos Açores! 

Assim, a fim de esclarecer esta questão, reproduzo aqui o verbete "MULATO" do DICIONÁRIO DE MACHADO DE ASSIS de UBIRATAN MACHADO (cuja segunda edição foi lançada recentemente pela Imprensa Oficial paulista), QUE ABORDA A QUESTÃO COM OBJETIVIDADE, HONESTIDADE E EQUILÍBRIO. Em seguida faço um levantamento da genealogia de Machado de Assis para ver quais antepassados foram brancos, negros ou mulatos. Depois reproduzo um texto do poeta e ensaísta Alexei Bueno em que sustenta que o lusitanismo foi muito mais determinante em Machado do que suas raízes negras. Finalmente, para aqueles que acusam Machado de ter sido insensível à causa da Abolição, algumas provas de que ele foi contra a escravidão.

Imagens de Machado obtidas na Biblioteca Nacional Digital (exceto a última, do catálogo da exposição Machado Vive). Aos machadianos recomendo a aquisição do dicionário do Ubiratan, não é barato mas vale o investimento.


Machado de Assis em desenho de M.J. Garnier

Machado de Assis em gravura de 1880

Machado de Assis e Joaquim Nabuco em foto de Augusto Malta de 1906

Machado de Assis (esquerda) e grupo em foto de Augusto Malta de 1906

1)  Verbete "MULATO" do DICIONÁRIO DE MACHADO DE ASSIS de UBIRATAN MACHADO:

Há muita especulação a respeito de como Machado encarava o fato de ser mulato. Alguns estudiosos insinuam que ele se ressentia de sua cor, numa sociedade dominada por brancos. Simples hipótese. Nenhuma prova, nenhum registro contemporâneo. Há depoimentos, contraditórios, prestados após a sua morte, por pessoas que com ele conviveram. Em certa ocasião, teria dito a Condessa de São Mamede que a mulatice era para ele “um simples acidente”. Francisca de Basto Cordeiro, sua vizinha e amiga por longos anos, garante que “jamais conseguiu dominar o complexo de inferioridade que lhe amargurou a existência a ponto de evitar em todas as suas obras a palavra ‘mulato’ e, se acaso a ouvia em conversas entartarugava-se todo, franzia o sobrolho como se nela houvesse uma indireta com o fito de magoá-lo e, por mais interessante que fosse a conversa, dava o assunto por encerrado”. Esse depoimento deve ser encarado com extrema cautela, pois a depoente encontrava-se em idade avançada e, em vários trechos, conta um fato para logo adiante afirmar o contrário. A obra machadiana também o desmente. Assim, em “A parasita azul”, conto da mocidade, quando se é mais sensível à crítica alheia, empregou a palavra, sem revelar qualquer ressentimento, mas com simpatia: “Camilo olhou para a porta da cabana e viu uma mulatinha alta e elegante, que olhava para ele com curiosidade”. Há trechos semelhantes em outras obras. 

Isso não significa que não tenha sentido na pele a discriminação racial. Teve de enfrentar o problema pelo menos em uma ocasião, durante o seu noivado, quando encontrou oposição de alguns parentes de Carolina, por ser mulato. Socialmente, impôs-se sem demonstrar qualquer ressentimento racial, e nunca evitou, também, como os mulatos arrivistas, entre brancos, a amizade com pessoas de sua cor, como provam os inúmeros negros e mulatos de suas relações: Paula Brito, Teixeira e Souza, Ferreira de Menezes, Francisco Otaviano. No entanto, havia receio de feri-lo, chamando-o de mulato. Um homem da inteligência de Joaquim Nabuco, abordando a psicologia do amigo, considerou que jamais “teria chamado o Machado mulato e penso que nada lhe doeria mais do que essa síntese (carta a José Veríssimo, datada de Washington, 25 de novembro de 1908). Evidente que sim, pois indicaria uma clara discriminação ou desejo de ferir. De qualquer maneira, se teve ressentimentos raciais, soube com eles conviver e dificilmente o problema assumiria nele, como em Lima Barreto, um aspecto trágico. 

Machado detestava a autopiedade. Inclusive a autopiedade racial. Procurou ajustar-se e se embranquecer através da ascensão social, o que irritou alguns contemporâneos. O professor Hemetério José dos Santos, em seu famoso artigo publicado após a morte de Machado, diz que ele foi um trânsfuga e um traidor de sua raça. Essa opinião teve, e ainda tem, seguidores. Os que consideram que superou os conflitos íntimos decorrentes da mestiçagem lembram a carta que Gonçalves Crespo lhe enviou, datada de 1871, na qual o poeta das Miniaturas escreve que já o conhecia de nome havia algum tempo: “De nome e por uma secreta simpatia que se me levou quando disseram que era... de cor como eu. Será?”. O fato de conservar a carta seria uma prova de superação do problema. A atenuação simbólica da mestiçagem de Machado, e até o seu desaparecimento, por uma espécie de mágica social, encontra um advogado em Joaquim Nabuco, que, na carta acima mencionada, diz considerá-lo “um grego da melhor época”, “um branco, e creio que por tal se tornava; quando houvesse sangue estranho, isto em nada afetava a sua perfeita caracterização caucásica”. Esse processo de embranquecimento culminou com a sua certidão de óbito, onde consta que o falecido era de cor branca. Uma fantasia semelhante à tese de uma corrente atual de que o escritor era negro e determinada foto sua teria sido forjada, como vemos adiante. Machado não era negro. Nem branco. Mas mulato, mestiço, resultado da intensa miscigenação racial brasileira, como demonstra sua ascendência. O pai, Francisco José de Assis, era “pardo forro” (isto é, mulato livre), como consta de sua certidão de batismo, realizado em 11 de outubro de 1806. A mãe, Maria Leopoldina, nasceu na Ilha de São Miguel, nos Açores. Branca pura. O filho do casal era, pois, mestiço

Os testemunhos da época são abundantes e unânimes ao falar de sua mulatice. Nenhum deles lhe atribui a cor branca ou negra. Um dos depoimentos mais importantes é o de um seu inimigo e detrator implacável, o verrineiro Apulco de Castro. Como Machado, era pardo, mais bem mais escuro. Jornalista venal, atacou o colega por diversas vezes. Pois bem, esse sujeito hostil, ao retratar o escritor de forma satírica na série “Retratos a Carvão”, no jornal de escândalos O Corsário, informa com muita clareza a cor de sua pele: “Espiègle [travesso], macambúzio, preocupado, um Hamlet em brochura... porém moreno. Um talento modesto. Dorme no Clube Beethoven”. Moreno, isto é, uma forma brasileira de dizer mulato. Não poderia haver esclarecimento mais imparcial sobre a cor de Machado, exatamente por vir de um inimigo violento, sem qualquer escrúpulo, e pardo. Entre os vários outros testemunhos, podemos lembrar o de Olavo Bilac, que conviveu com Machado por mais de vinte anos e ao retratá-lo nos informa ser ele um homem de altura regular, de 68 anos, mais ou menos. Moreno”. Há inúmeros outros depoimentos de contemporâneos, de José Veríssimo (“mulato, foi de fato um grego da melhor época”), de Joaquim Nabuco, de Francisca de Basto Cordeiro, do negro Hemetério José dos Santos. Apesar de tudo, a citada corrente proclama que uma das fotos mais divulgadas de Machado, tirada na década de 1890, teria sido forjada, embranquecendo a tez negra do escritor. A tal foto utilizou filme fotográfico, inventado poucos anos antes, cuja baixa sensibilidade exigia exposição demorada à luz. O que explica pessoas e paisagens saírem mais claras (e, quando mais claras, mais indistintas, sem contraste, lavadas, como se diz), mas sem chegar à mágica de mudar a cor de ninguém. Não é o caso da foto em questão, perfeita, de alta qualidade, sem sombra de manipulação. As várias outras fotos de Machado, sozinho ou em grupo, são o melhor desmentido a tal tese. Nos retratos coletivos, o criador de Capitu aparece ao lado de várias personalidades, sendo sua pele levemente mais escura do que a dos brancos que o cercam. É o que se pode comprovar nas fotos com Joaquim Nabuco (foto acima), Pereira Passos etc., numa reunião da Panelinha em que se encontra entre João Ribeiro e Lúcio de Mendonça, e em outra fixada em 1906, no almoço oferecido ao presidente da Venezuela Uribes y Uribes (foto acima). Será que os fotógrafos, durante mais de meio século (a primeira foto conhecida de Machado é de 1864), conspirando entre si e apesar de não haver tecnologia disponível para tal, fizeram o milagre de embranquecer a figura de Machado, sem tocar nos demais do grupo? Como explicar tal fenômeno?

2) Genealogia de Machado de Assis:

Genealogia de Machado de Assis segundo o Family Search. Clique na figura para ver em tamanho maior. 

Joaquim Maria Machado de Assis nasceu em 21 de junho de 1839, tendo sido batizado cinco meses depois, em 3 de novembro de 1839, na capela de N. S. do Livramento, na chácara do morro de mesmo nome, na zona portuária carioca. “Nada parecia prenunciar que esse menino, filho de pais tão humildes, viesse a se tornar um dos brasileiros mais notáveis do seu tempo.” (R. Magalhães Júnior, Vida e obra de Machado de Assis, volume 1, p. 10) O nome Joaquim foi em homenagem ao padrinho, Joaquim Alberto de Sousa da Silveira, e Maria, em homenagem à madrinha, D. Maria José de Mendonça Barroso, viúva do senador do Império Bento Barroso Pereira, morto em 1837. Na subida da Central do Brasil para o Morro do Livramento existe uma ladeira que faz alusão aos antigos proprietários da chácara, a Ladeira do Barroso.

Para responder à pergunta de se Machado de Assis era branco, mulato (naquela época usava-se mais a denominação “pardo”) ou negro, temos que examinar a árvore genealógica da família. Para isso utilizei os dados do site Family Search baseado nos registros genealógicos armazenados nos bancos de dados da Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias (os chamados mórmons), mostrados na figura acima. Consultei também o Dicionário de Machado de Assis de Ubiratan Machado, obra fundamental aos estudos machadianos, e o recém-lançado excelente livro Machado de Assis: Caminhos de suas moradiasno Rio de Janeiro (Rio de Janeiro: Editora Lacre, 2026) do historiador Nireu Cavalcanti.

A mãe de Machado de Assis, Maria Leopoldina Machado de Assis (nome de solteira: Maria Leopoldina Machado da Câmara), agregada da chácara do Morro do Livramento, nasceu em 7 de março de 1812 em Ponta Delgada, na ilha de São Miguel, no arquipélago português dos Açores. Portanto Machado teve uma mãe de raça branca. A família da mãe emigrou para o Brasil em 1815 e a certa altura se estabeleceu na chácara da família Barroso Pereira.

O pai de Machado, Francisco José de Assis, filho de pais pardos e forros (ou seja, mulatos não escravos) conforme consta de seu registro de batismo (Paróquia do SS. Sacramento da Antiga Sé, livro n° 3-A, fls. 330), portanto pardo também, pintor de casas e dourador, casou-se com Maria Leopoldina em 19 de agosto de 1838, na capela de Nossa Senhora do Livramento, na chácara onde sua cônjuge era agregada e para a qual já em 1830 prestava serviços, como mostra o anúncio abaixo publicado no Diário do Rio de Janeiro em 30 de outubro daquele ano:


O avô paterno, Francisco de Assis, como consta da certidão de casamento e da certidão de batismo de seu filho – embora em muitas fontes, inclusive na árvore genealógica acima, conste que tivesse o mesmo nome do filho, Francisco José de Assis (o pai de Machado) – , é designado como pardo, forro, natural desta Cidade”, ou seja, mulato, não escravo, natural do Rio de Janeiro.

De sua mãe, a bisavó de Machado, sabe-se que se chamava Benta Maria da Piedade, que, segundo o livro do Nireu Cavalcanti supracitado, seria “ex-escrava de dona Maria Thereza dos Santos”, portanto negra. De seu pai nada se sabe, mas não deve ter sido um negro puro, senão o avô paterno seria negro também, não pardo como consta da certidão de batismo do filho. Na época era comum senhores brancos se aproveitarem sexualmente de suas escravas negras.

A avó paterna, Ignacia Maria Rosa (Inácia na atual ortografia) é designada como “parda forra, natural desta Cidade” na certidão de batismo do filho. Sua  mãe, outra bisavó de Machado, chamava-se Rosa e foi escrava do padre José Pereira dos Santos (pág. 57 do livro do Nireu). “Alguns biógrafos da família levantam a hipótese de ser o pai de Inácia o referido padre” (idem).

Portanto, o escritor Machado de Assis, “inegavelmente o maior ficcionista brasileiro do século XIX, e dos maiores da língua portuguesa”, como escreve Alexei Bueno no prefácio ao livro do Nireu, teve duas bisavós negras e escravas, por parte de pai, e ascendentes brancos por parte de mãe, portanto um "quarterão" (=filho de mestiço e branca ou vice-versa, que se considera ter um quarto de sangue negro, segundo o Dicionário Priberam), “o que justifica sua tez mais clara do que a dos demais miscigenados” (Nireu, pág. 49). À guisa de comparação, o sociólogo e ex-presidente Fernando Henrique Cardoso revelou em 1994 que teve uma bisavó negra.

Embora inexistam imagens dos pais de Machado de Assis, o historiador Nireu Cavalcanti assim imaginou a família, no Apêndice de seu livro Machado de Assis: Caminhos de suas moradias no Rio de Janeiro

3) Alexei Bueno sobre o lusitanismo versos raízes negras em Machado de Assis:

O que talvez seja útil lembrar, em meio a estas reflexões, é a profunda ligação biográfica e literária de Machado com Portugal. Nascido no Rio de Janeiro, a metrópole mais lusitana do Brasil, filho de uma portuguesa dos Açores, criado na mansão matriarcal da viúva lusitana do Brigadeiro e Senador Bento Barroso Pereira, mineiro de educação lisboeta, casado finalmente com uma outra portuguesa, por aproximação com o irmão, o poeta Faustino Xavier de Novais, de quem era amicíssimo, frequentador de círculos não alheios ao recente Real Gabinete Português de Leitura, todo esse aspecto ou essa ambiência parecem ter sido continuamente subestimados pela questão da origem mulata e de suas resultantes psicológicas, embora em Machado de Assis o componente português dominasse, sob qualquer aspecto, o componente negro [...] (Alexei Bueno, Uma História da Poesia Brasileira, págs. 160-1) 

4) Provas de que Machado não ficou passivo ante a escravidão:

Machado de Assis estreia sua nova coluna, "Bons Dias!", no jornal Gazeta de Notícias em 5 de abril de 1888, quanto a questão da abolição da escravidão se aproxima do desenlace, que foi a Lei Áurea. Embora "sem os arroubos românticos dos abolicionistas ortodoxos", Machado de Assis, em seu cargo no Ministério da Agricultura, Comércio e Obras Públicas, atuou discretamente em prol dos escravizados, como demonstra o artigo "Manifestação honrosa" de O Paiz de 18 de maio de 1888 (pág. 3), que dizː "No silêncio do gabinete, José Julio, Amarilio de Vasconcellos, Machado de Assis, Pinto Serqueira, Paula Barros e ainda outros, dedicavam-se durante anos a velar com solicitude na defesa dos direitos do escravo, a tirar das leis de liberdade todos os seus naturais corolários, a organizar e a tornar efetiva a emancipação gradual pela ação do Estado [...]".  

Outra prova do empenho de Machado pela causa abolicionista foi o fato de ter sido um dos agraciados com a medalha comemorativa da Lei Áurea concedida pelo Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro em 1889. 

Ainda outra prova do espírito abolicionista de Machado é seu texto de 24/5/1883 para o jornal A Terra da Redenção, comemorativo da libertação dos escravos no Cearáː

"A escravidão é a mancha negra. O Ceará inventou a mancha cristalina. Pingou a liberdade em um ponto do território; o pingo vai-se alargando e invadindo o resto. A mancha da escravidão é passageira, a da liberdade será eterna."

As crônicas machadianas em torno da data da Lei Áurea, longe da euforia que tomou conta de tantos, conservam o espírito irônico, galhofeiro, sarcástico que caracterizava o autor, em especial em sua fase de maturidade. Machado pode em seus textos dar a impressão de distanciamento, de que não se "emocionou" com a libertação dos cativos, mas os fatos imediatamente subsequentes desmentem essa impressãoː sua participação no préstito comemorativo da assinatura da Lei Áurea e sua presença (comprovada por uma fotografia) na missa de ação de graças pela Lei Áurea no Campo de São Cristóvão lotado, em 17 de maio de 1888. (do verbete "Bons Dias!" da Wikipédia, criado por mim)



Machado de Assis aos 57 anos

Machado de Assis aos 25 anos

Outra do Machado, extremamente nítida, aos 25 anos, pelo fotógrafo Pacheco da Casa Imperial

OBRIGADO POR VISITAR MEU BLOG, E VOLTE SEMPRE. VEJA MEUS VÍDEOS SOBRE MACHADO DE ASSIS E O MORRO DO LIVRAMENTO, ONDE ELE NASCEU:
 

11.1.16

ESTÁTUA DE NOSSA SENHORA NO LARGO DO MACHADO: DESMASCARANDO UMA LENDA URBANA



No Largo do Machado, no alto de um pedestal, ergue-se uma estátua de Nossa Senhora da Imaculada Conceição que tem uma história interessante e está ligada a uma lenda urbana. A estátua foi inaugurada em 8 de dezembro de 1954 no dia do centenário da promulgação, pelo Papa Pio IX, do dogma da Imaculada Conceição. A estátua, que antes adornava o jardim do Palácio São Joaquim (Nunciatura Apostólica) na Glória, foi doada à Prefeitura pelo Cardeal Dom Jaime Câmara. Em suas Memórias, o cardeal conta que a estátua seria do escultor genovês Canova e teria sido adquirida pelo Cardeal Arcoverde quando construiu o palácio. Uma estátua do eminente Canova numa praça do Rio de Janeiro? Ampliando a fotografia da base da estátua, obtida no excelente site As histórias dos monumentos do Rio de Janeiro da gerente de Monumentos e Chafarizes da Prefeitura, Vera Dias (a estátua está lá no alto e não dá para você, que passa pela praça, fotografar a base), observa-se que a estátua traz esta assinatura: "G NAVONE GENOVA 1907". Ou seja, a estátua não é realmente do Canova, infelizmente, e sim do escultor genovês Giuseppe Navone, “um daqueles numerosos, hábeis e absolutamente esquecidos artífices que criaram pilhas de monumentos funerários no mundialmente célebre Camposanto di Genova”, segundo informa Alexei Bueno, ex-diretor do INEPAC. Ainda segundo Alexei, “Essa história do Canova é mais uma lamentável lenda urbana. De início, a estátua não tem absolutamente nada do seu estilo, nada a ver com aquele seu classicismo muito limpo e elegante. Depois, ainda me dei ao trabalho de examinar, de cabo a rabo, exaustivamente, o volume, que tenho, da Opera completa del Canova [...] e não existe nada que nem se assemelhe”.

Assinatura da estátua (foto obtida no site de Vera Dias)

Memórias de Dom Jaime Câmara organizadas pelo Monsenhor Ivo Calliari (foto cedida por Vera Dias) 

5.8.15

ALCOOFILIA, de ALEXEI BUENO


No Prefácio Mínimo deste livrinho de bolso com inspirada capa de Jaguar, ideal para se levar ao bar, adverte o autor: "Abstêmios, fugi deste livrinho maldito! Temperantes, afastai-vos às pressas deste sórdido opúsculo! [...] Moralistas, virai as costas para estas páginas estigmatizadas, pois nelas se faz o elogio de algo que solapa alguns valores universalmente sagrados [...] É sob a égide de Dionisos, do desembestado deus [...] que foram escritas as frases aqui reunidas."

O livro pode ser encomendado no site da Livraria da Travessa por módicos 21,90 reais. Para quem não foi ao lançamento, vai aqui uma palinha:

"Gastei metade do meu dinheiro com mulheres e cerveja... o resto desperdicei." Anônima

"Sim, madame, estou bêbado, mas amanhã acordarei sóbrio e a senhora continuará feia." Winston Churchill

"O vinho, a poesia numa garrafa." Robert Louis Stevenson

"Um bom alemão não consegue suportar os franceses, mas bebe os vinhos da França com a maior satisfação." Goethe

"Sem dúvida, a maior invenção da história da humanidade foi a cerveja. Ok! Reconheço que a roda também foi uma boa invenção, mas uma roda não combina tão bem com um salsichão." D. Berry

13.3.15

QUAL A ORIGEM DA EXPRESSÃO "CIDADE MARAVILHOSA"?

UMA VERSÃO AMPLIADA DESTE ESTUDO FOI PUBLICADA EM 2022 PELA REVISTA DO INSTITUTO HISTÓRICO E GEOGRÁFICO BRASILEIRO (NÚMERO 488, PÁG. 265) QUE VOCÊ PODE ACESSAR CLICANDO AQUI
 

O primeiro registro na imprensa carioca do epíteto Cidade Maravilhosa aplicado ao Rio de Janeiro está na página 2 do jornal O Paiz de terça-feira, 16 de fevereiro de 1904, pleno Carnaval. Lemos ali que os foliões de um carro alegórico que criticava as carrocinhas que tolhiam “a canina estirpe de viver e gozar da plena liberdade das ruas desta capital [...] não contentes com os protestos feitos de viva voz, ainda distribuíam estes versos em avulso:

MATRICULADOS E NÃO MATRICULADOS

Esta gaiola bonita
Que ahi vai sem embaraços
É a invenção mais catita
Do genial Dr. Passos

As ruas de ponta a ponta
Subindo e descendo morros
Por onde passa da conta,
Dos vagabundos cachorros.

Agarra! Cerca! Segura!
— Grita a matilha dos guardas —
Correndo como em loucura
Com um rumor de cem bombardas.

Terra sempre em polvorosa
Sem igual no mundo inteiro,
Cidade maravilhosa!
Salve, Rio de Janeiro!

A partir daí, vemos referências esparsas à cidade do Rio como “maravilhosa”, por exemplo:

·       Na pág. 1 de O Paiz de 4/5/1904, em matéria intitulada “Uma Obra Politica”, lemos: “A população comprehendeu bem a grandeza do serviço que o governo lhe vai prestar, negando-se a crear embaraços á sua acção, como queriam agitadores profissionais, antes, facilitando todo os accôrdos e sujeitando-se a todas as prescripções legaes, no bom intento de ver transformada, embellezada e saneada esta cidade maravilhosa, de cuja fama e de cuja força depende o equilíbrio da seiva econômica em todos os órgãos do paiz.”

·       Na pág. 3 de A Notícia de 22-23/5/1907, em matéria intitulada “No Palacio Monroe”, lemos (transcrito na ortografia da época): “Está ainda na lembrança de todos os habitantes desta cidade maravilhosa a rapidez com que o general [...] concluio o Palacio Monroe, para o qual aproveitou o mesmo plano e grande parte de elementos que serviram na architectura do pavilhão brasileiro da Exposição Universal de S. Luiz”.

·     Na pág. 2 de A Notícia de 6-7/7/1909, em matéria intitulada “Dez Annos Atrás”, lemos: “ [...] passeando esta cidade de tão lindas ruas novas, percorrendo as avenidas, respirando um ar que não é o das antigas vielas infectas, habitando uma nova cidade maravilhosa e salubre [...]”.

Em 1908 montou-se na Urca a Exposição Nacional comemorativa do centenário da abertura dos portos, na época uma espécie de "cidade artificial" asséptica & deslumbrante, como hoje, digamos, uma Disneyworld. Nesse período torna-se comum na imprensa designar essa exposição de “cidade maravilha” ou “cidade maravilhosa”

Nesse contexto, Coelho Neto vem a publicar, na página 3 da edição de 29-30 de outubro de 1908 de A Notícia (e não em 28/10 como afirmam quase todas as fontes), a crônica “Os Sertanejos”, à qual se atribui falsamente a “criação” do termo Cidade Maravilhosa para designar o Rio de Janeiro. Nada mais longe da verdade. 


Crônica "Os Sertanejos" de Coelho Neto na edição de 29-30 de outubro de 1908 de A Notícia. Acervo da Fundação Biblioteca Nacional - Brasil.

A crônica narra a história de um grupo de sertanejos “contratados para cantar e dansar no recinto da Exposição”. Após conhecerem a cidade em si, “a cidade formidável, a cidade devoradora d’homens, com as avenidas largas, margeadas de palácios colossaes, com o mover incessante de uma multidão apressada, com o reboliço vertiginoso dos vehiculos, com a zoeira dos automoveis, com o troar dos pregões, com todo esse confuso movimento que é a vida, desde o passo subtil, despercebido de um mendigo andrajoso que se esgueira ao longo dos muros, resmungando lamúrias, até a estropeada heroica de um regimento com a bandeira desfraldada ao vento, as armas lampejando ao sol e os clarins resoando em notas marciaes”, ao adentrarem a Exposição, “na avenida dos palácios brancos”, são tomados pelo assombro:

— Assumpta, Clodina: não parece que a gente tá vendo uma cidade encantada como aquellas das história [sic][...]

Era ao cahir da tarde, uma tarde elegíaca, violácea, quieta, sem o silvo de uma cigarra. Os penhascos pareciam de lápis lazuli e os palacios, ainda mais brancos sobre o fundo escuro das rochas portentosas, alvejavam marmóreos. Longe, nos estábulos, o gado tino mugia, nostálgico, pondo no silêncio enlevado a tristeza bucólica das várzeas, em contraste com o requinte da cidade maravilhosa [a saber, a Exposição; para ler a crônica de Coelho Neto completa clique aqui].

Vemos portanto que constitui um erro atribuir a Coelho Neto a designação de Cidade Maravilhosa para o Rio. E ainda que, em sua crônica, a "cidade maravilhosa" se referisse ao Rio como um todo, ele não teria sido pioneiro nessa designação, como vimos.

De setembro a dezembro de 1911, a poetisa francesa Jane Catulle Mendès, viúva do escritor e poeta Catulle Mendès, visitou o Rio de Janeiro, encontrando uma cidade recém-emergida de um “banho de loja” que foi a reforma urbanística de Pereira Passos. Encantada com a cidade, sobretudo pela flora e belezas naturais, escreveu uma série de poemas de “amor ao Rio” publicados em Paris em 1913 em volume intitulado La Ville Merveilleuse (A Cidade Maravilhosa).

Já no primeiro poema descrevendo a chegada (de navio, na época) na Baía da Guanabara, escreve a poetisa: Jamais tant de splendeurs n’ont ébloui les yeux! C’est ici le pays de toute la lumière (Jamais tantos esplendores deslumbraram os olhos ! Aqui é a terra de todas as luzes) e no poema final, "Adieu" ("Adeus"), escreve: Rio douce et fougueuse au visage doré (Rio doce e briosa de semblante dourado”). E no poema “Dans Longtemps” (Daqui a muito tempo) a autora não poupa declarações de amor à cidade: Cité voluptueuse et tendre (Cidade voluptuosa e meiga) Cité d’or (Cidade de ouro) Rio radieuse, ô Ville des étoiles (Rio radiante, ó Cidade das estrelas) Merveilleuse Rio, Ville de la Beauté (Rio Maravilhoso, Cidade da Beleza). (Saiba mais sobre Jane Catulle Mendès e seu livro de poemas clicando aqui.)

Crônica "A CIDADE MARAVILHOSA" publicada na coluna "Contos de Hoje" de Eugenio de Lemos na edição de 20-21/3/1913 de A NotíciaAcervo da Fundação Biblioteca Nacional - Brasil. 

Na edição de 20-21/3/1913 (pág. 3), A Notícia publica uma crônica, na coluna "Contos de Hoje" de Eugenio de Lemos, sobre como ficou bonita a cidade após as reformas urbanísticas, intitulada A CIDADE MARAVILHOSA (em maiúsculas e negrito). É a primeira vez que o título de uma matéria jornalística refere-se nestes termos ao Rio. A certa altura da crônica, lemos: Cidade Maravilhosa! É a exclamação de todos que nos visitam.” Mais adiante deparamos com este trecho profético: "A cidade progride e avança; toma o mar e toma as montanhas, e estende-se para as costas, varando as rochas. Ainda não temos os caminhos subterrâneos, mas para lá caminhamos acceleradamente. E quando a cidade tiver tudo isso, quando ella não construir os seus palacios apenas na planicie, mas os levar para as montanhas, quando ella habitar tambem os [sic] ilhas encantadoras de sua refulgente bahia e o mar se encher de elegantes yachts, como hoje as avenidas se enchem de automoveis, então ella poderá desafiar as que mais bellas o forem. Ella já é a cidade maravilhosa."

Em 1922 Olegário Mariano publica pela editora Pimenta de Mello (com uma segunda edição em 1930 da Companhia Editora Nacional) um livro de poesias intitulado Cidade Maravilhosa O poema inicial que dá nome ao livro é uma louvação ao Rio de Janeiro, a "Cidade do Amor e da Loucura", “Cidade do Êxtase e da Melancolia”, “Flor das Cidades”, em suma, “Cidade Maravilhosa!”. (O poema completo pode ser lido na postagem Poemas de Amor ao Rio.)

A edição de 10 de novembro de 1927 do Jornal do Brasil (que você pode consultar na Hemeroteca Digital) publica uma nova versão da já citada crônica de Coelho Neto, agora denominada simplesmente "Sertanejos", bastante modificada, onde a Exposição Nacional dá lugar a um cinema e, agora sim, a cidade maravilhosa alude ao Rio.

Em 1928 Coelho Neto publica seu livro de contos A Cidade Maravilhosa, mas ao contrário do que se pensa, a "cidade maravilhosa" que dá nome ao conto inicial não é o Rio, é uma "cidade de sonho", imaginária, evocada à noite por uma queimada. "

Aqui a tem, a sua cidade maravilhosa. Viu-a de longe, era linda. Veja agora. Ilusões, fanciulla [criancice]. Adriana olhava estarrecida. Mas não era a destruição das árvores, não eram aquelas cinzas pardacentas, ainda mornas, não eram aqueles troncos denegridos, aqueles ramos que rechinavam [=queimavam] amojados de seiva que a comoviam, mas a lembrança da cena da estrada, a sedução do homem sinistro a mostrar-lhe, ao longe, no fogaréu rutilante, a cidade maravilhosa, cidade do sonho, cidade do amor." (Para ler o conto inteiro clique aqui.)
Em 1o de setembro de 1933, o locutor César Ladeira estreou na Rádio Mayrink Veiga, lendo as “Crônicas da cidade gozada”, de Genolino Amado, mas depois de receber cartas e telefonemas criticando o título, mudou-o para “Crônicas da Cidade Ma-ra-vi-lho-sa”, conforme lemos em Henrique Foréis Domingues, No Tempo de Noel Rosa: O Nascimento do Samba e a Era de Ouro da Música”.

Em 1935 o mesmo César Ladeira escreve uma revista, que inclui três canções de Ary Barroso (Garota colossal, parceria com Nássara, Grau dez, parceria com Lamartine Babo e o samba Foi ela”), intitulada "Cidade Maravilhosa, apresentada no Teatro Recreio.

No Carnaval de 1935, a marcha Cidade Maravilhosa de André Filho, gravada por Aurora Miranda, enfim consagra o termo pelo qual hoje todos conhecemos o Rio de Janeiro, Patrimônio Cultural da Humanidade, com muito orgulho, com muito amor...


Foto do Mirante do Pasmado tiradas pelo editor do blog. Pesquisas em periódicos antigos realizadas pelo editor do blog na Hemeroteca Nacional e Biblioteca Nacional.

ADENDO EM 20/12/2015: TEXTO DE ALEXEI BUENO SOBRE A ORIGEM DO EPÍTETO "CIDADE MARAVILHOSA":

Jane Catulle Mendès chegou ao Rio de Janeiro com o prestígio, no momento mais francófilo da história do Brasil, de ser a viúva de Catulle Mendès, um dos poetas mais conhecidos da França na segunda metade do século XIX, e fundador, com Jean-Xavier de Ricard, do famoso Le Parnasse Contemporain, publicação da qual surgiu a escola parnasiana, verdadeiro estilo literário oficial entre nós na época. Encarecia-lhe ainda mais o prestigio a aura da tragédia, pois dois anos antes, em 1909, Catulle Mendès morrera de forma estúpida, em Saint-Germain-en-Laye, ao cair e ser esmagado pelo trem em que viajava, pensando já haver chegado à estação.

No período em que esteve no Rio de Janeiro, entre 20 de setembro e 6 de dezembro de 1911, Jane Catulle Mendès foi a convidada de honra das mais importantes figuras da elite da Capital Federal, visitou os mais elegantes salões que entre nós existiam, foi recebida pelo presidente da República e deu três conferências com grande sucesso, uma delas no Theatro Municipal, intitulada "Les femmes de lettres françaises". Se imaginarmos quão bem ela foi recebida, e a época realmente gloriosa para a cidade em que isso se passou — o pouco mais de decênio e meio entre o fim da gestão de Pereira Passos e a destruição do morro do Castelo e inicio da verticalização da cidade — fica claro o motivo do encantamento que a inspirou a escrever e publicar, em 1913, em Paris, o livro de poemas intitulado La Ville Merveilleuse, Rio de Janeiro, poèmes. Extasiada com a beleza da cidade, os poemas, muitos deles dedicados a ilustres figuras da época — o presidente Hermes da Fonseca, o senador Pinheiro Machado, a mecenas e grande dama da sociedade Laurinda Santos Lobo — faziam a apologia em regra da cidade e, graças ao título do livro, nascia o seu epíteto plenamente consagrado. É óbvio que em textos anteriores, especialmente na imprensa, tal expressão ja fora usada, como bem pesquisou Ivo Korytowski, o que deve ter acontecido com todas as cidades notáveis do mundo. Na obra-prima de Jean Vigo, L'Atalante, de 1934, apenas como exemplo, o personagem Père Jules, interpretado por Michel Simon, interpreta uma canção cujo primeiro verso é: “Paris, Paris, ville infâme et merveilleuse”. Apesar do infâme pelo meio, nela encontramos a exata expressão ville merveilleuse, que nunca substitui, no entanto, o de Ville Lumière para Paris. Parece-nos, portanto, que a hoje totalmente esquecida Jane Catulle Mendes foi, senão a criadora, a oficializadora do epíteto do Rio de Janeiro.

(Texto de Alexei Bueno extraído de Rio Belle Époque: Álbum de imagens, Bem-Te-Vi, 2015) 

9.8.13

O RIO DE JANEIRO DE MACHADO DE ASSIS

Texto extraído do ensaio "A Cidade e o Tempo de Machado de Assis" de Alexei Bueno no livro Machado, Euclides & Outros Monstros


Toda a obra de ficção de Machado de Assis se passa, com raras exceções, como já dissemos, no Rio de Janeiro que viu escoarem-se as suas sete décadas de vida. A cidade, que conheceu como corte, depois como capital federal, é o seu microcosmo, como a Paris de Balzac, a São Petersburgo de Gogol, a Londres de Charles Dickens, para citar uns poucos exemplos entre inúmeros. No Morro do Castelo — a acrópole quinhentista da cidade, estupidamente demolida em 1922 — só como exemplo, passa-se um episodio de Esaú e Jacó assim como o capítulo 75 de Memórias Póstumas de Brás Cubas, onde, recontando as origens de Dona Plácida, aparece a Sé Velha do Rio de Janeiro, talvez o trecho da ficção machadiana que, na nossa opinião, melhor sintetize a sua visão schopenhaeuriana da realidade, da vida intrinsecamente como dor. [...]

No Caminho de Mata Cavalos — rua do Riachuelo desde a vitória naval do mesmo nome, em 1865 —, “a mais carioca das ruas”, no dizer do autor, erguem-se as casas contíguas de Bentinho e Capitu. É numa casinha da Gamboa que Brás Cubas, depois morador de uma chácara no Catumbi, monta o seu ninho de amor com Virgínia. A protagonista de “A desejada das gentes” habita a Glória, onde ficava, aliás, o Clube Beethoven, muito frequentado pelo melômano Machado de Assis. É na Igreja do Carmo que Romão Pires, de “Cantiga de esponsais”, exercia suas funções como músico, a Igreja do Carmo na antiga rua Direita — Primeiro de Março a partir do fim da guerra do Paraguai — apesar de ele haver nascido no Valongo, onde existiu o velho mercado de escravos, e habitar a rua da Mãe dos Homens, nome da igreja do mesmo nome, ainda existente, onde Tiradentes chegou a hospedar-se, a atual rua da Alfândega. Defronte à Capela Real, bem ao lado da Igreja do Carmo, na mesma rua Direita, morreu a avó de Quincas Borba, atropelada por uma carruagem. No aristocrático Botafogo da época viviam Cristiano Palha e Sofia, que enfeitiçou o ingênuo Rubião de Quincas Borba. E assim por diante, numa enumeração que tão cedo não terminaria...

O Rio de Janeiro é, portanto, para Machado de Assis, o anfiteatro em que ele vê desfilar a dança macabra do egoísmo e da baixeza dos homens [...].

Do conjunto de chalés da Condessa de São Mamede dos quais Machado ocupou um, este à direita é o único sobrevivente, dando portanto uma ideia de como teria sido o de Machado. O chalé do escritor ficava à esquerda deste, junto com mais um terceiro, na área correspondente ao prédio amarelo baixo, conforme pesquisa do historiador Nireu Cavalcanti no livro Machado de Assis: Caminhos de suas moradias no Rio de Janeiro (Editora Lacre, pp. 217-18) Portanto, a placa no prédio alto da esquina (Edifício Machado de Assis, Rua Cosme Velho, 174) de que "NESTE LOCAL VIVEU MACHADO DE ASSIS DE 1883 ATÉ SUA MORTE EM 1908" está equivocada.  

Após sua morte, quase todos os traços físicos de Machado de Assis na sua cidade natal, na sua cidade de eleição, foram desaparecendo, pouco a pouco. Da casa em que nasceu, casa de agregados da Quinta do Barroso, nada resta, como a própria chácara, e nem sabemos o ponto exato em que se erguia. [Nota do editor do blog: No Morro do Livramento, perto da antena da Embratel, existem ruínas do que pode ter sido a chácara onde a mãe de Machado foi agregada. Ver postagem Morro do Livramento: Nos Passos de Machado.] Os prédios que abrigaram as repartições em que trabalhou foram todos demolidos. O chalé da rua Cosme Velho, em que residiu por um quarto de século com Carolina, e no qual escreveu grande parte de sua obra, foi posto abaixo no ano do seu centenário de nascimento, 1939, para dar lugar a uma mansão, demolida por sua vez no final na década de 1980 para que se levantasse um edifício de apartamentos, com uma pizzaria no térreo, que lá esta [foto acima]. Um ano após a sua morte, no dia 29 de setembro de 1909, um grupo de acadêmicos inaugurou uma placa de mármore na fachada do chalé, capitaneados por Rui Barbosa, tendo Olavo Bilac proferido um discurso na ocasião. O chalé foi demolido, mas a placa se conserva no Pátio dos Canhões, no Museu Histórico Nacional, numa grande ironia machadiana, ou um retrato de um pais em que se destroem as casas históricas e se conservam as suas respectivas placas comemorativas. [Nota do editor do blog: A referida placa encontra-se agora na reserva técnica do MHN, que gentilmente cedeu a foto abaixo.] 





Sala Machado de Assis, com a escrivaninha e quadro do autor, no Petit Trianon da ABL. Foto gentilmente cedida pelo Arquivo da ABL. Visitas guiadas podem ser agendadas pelo e-mail visita.guiada@academia.org.br

O Silogeu Brasileiro, onde ele presidiu a Academia e onde foi velado, também foi posto abaixo. De todas as casas em que viveu, a da rua da Lapa, onde esteve com Carolina, por uns poucos meses, logo após o casamento, parece que ainda existe, salvo um erro na confrontação das numerações. [Nota do editor do blog: A casa fica na Rua da Lapa, 242, e foi tombada pelo Município em 2008. Outra casa tombada no mesmo ano onde Machado também teria morado fica na Rua dos Andradas, 147.] Todas as outras desapareceram. A capela em que se casou, nos fundos da casa do conde de São Mamede, no Cosme Velho, esta ainda existe, sem altar ou outro resquício de função religiosa [foto abaixo], assim como a própria casa onde ele ia jogar gamão quase todas as noites. 



Seu túmulo, finalmente, e de Carolina, no Cemitério de São João Batista, o “leito derradeiro” do soneto, foi desmantelado no final da década de 1990. Suas cinzas — pouco mais do que isso resta de um corpo enterrado por noventa anos no úmido e ácido solo carioca — foram, juntamente com as de sua mulher, recolhidas ao Mausoléu dos Imortais, no mesmo cemitério.

Lápide do túmulo original de Machado e Carolina conservada no mausoléu da Academia.
No final da década de 1990 os restos mortais de Machado e Carolina foram transferidos para este jazigo no Mausoléu da Academia Brasileira de Letras.

Seu espectro, este persevera por todos os recantos do velho Rio de Janeiro, um espectro a mais, a observar os outros cinco que enumeramos acima.



Agora você está convidado a assistir ao meu vídeo onde conto a história de minha velha paixão pelo "bruxo do Cosme Velho":