ENSEADA DE BOTAFOGO

ENSEADA DE BOTAFOGO
"Andar pelo Rio, seja com chuva ou sol abrasador, é sempre um prazer. Observar os recantos quase que escondidos é uma experiência indescritível, principalmente se tratando de uma grande cidade. Conheço várias do Brasil, mas nenhuma tem tanta beleza e tantos segredos a se revelarem a cada esquina com tanta história pra contar através da poesia das ruas!" (Charles Stone)

VISTA DO TERRAÇO ITÁLIA

VISTA DO TERRAÇO ITÁLIA
São Paulo, até 1910 era uma província tocada a burros. Os barões do café tinham seus casarões e o resto era pouco mais que uma grande vila. Em pouco mais de 100 anos passou a ser a maior cidade da América Latina e uma das maiores do mundo. É pouco tempo. O século XX, para São Paulo, foi o mais veloz e o mais audaz.” (Jane Darckê Avelar)
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11.1.16

ESTÁTUA DE NOSSA SENHORA NO LARGO DO MACHADO: DESMASCARANDO UMA LENDA URBANA



No Largo do Machado, no alto de um pedestal, ergue-se uma estátua de Nossa Senhora da Imaculada Conceição que tem uma história interessante e está ligada a uma lenda urbana. A estátua foi inaugurada em 8 de dezembro de 1954 no dia do centenário da promulgação, pelo Papa Pio IX, do dogma da Imaculada Conceição. A estátua, que antes adornava o jardim do Palácio São Joaquim (Nunciatura Apostólica) na Glória, foi doada à Prefeitura pelo Cardeal Dom Jaime Câmara. Em suas Memórias, o cardeal conta que a estátua seria do escultor genovês Canova e teria sido adquirida pelo Cardeal Arcoverde quando construiu o palácio. Uma estátua do eminente Canova numa praça do Rio de Janeiro? Ampliando a fotografia da base da estátua, obtida no excelente site As histórias dos monumentos do Rio de Janeiro da gerente de Monumentos e Chafarizes da Prefeitura, Vera Dias (a estátua está lá no alto e não dá para você, que passa pela praça, fotografar a base), observa-se que a estátua traz esta assinatura: "G NAVONE GENOVA 1907". Ou seja, a estátua não é realmente do Canova, infelizmente, e sim do escultor genovês Giuseppe Navone, “um daqueles numerosos, hábeis e absolutamente esquecidos artífices que criaram pilhas de monumentos funerários no mundialmente célebre Camposanto di Genova”, segundo informa Alexei Bueno, ex-diretor do INEPAC. Ainda segundo Alexei, “Essa história do Canova é mais uma lamentável lenda urbana. De início, a estátua não tem absolutamente nada do seu estilo, nada a ver com aquele seu classicismo muito limpo e elegante. Depois, ainda me dei ao trabalho de examinar, de cabo a rabo, exaustivamente, o volume, que tenho, da Opera completa del Canova [...] e não existe nada que nem se assemelhe”.

Assinatura da estátua (foto obtida no site de Vera Dias)

Memórias de Dom Jaime Câmara organizadas pelo Monsenhor Ivo Calliari (foto cedida por Vera Dias) 

5.8.15

ALCOOFILIA, de ALEXEI BUENO


No Prefácio Mínimo deste livrinho de bolso com inspirada capa de Jaguar, ideal para se levar ao bar, adverte o autor: "Abstêmios, fugi deste livrinho maldito! Temperantes, afastai-vos às pressas deste sórdido opúsculo! [...] Moralistas, virai as costas para estas páginas estigmatizadas, pois nelas se faz o elogio de algo que solapa alguns valores universalmente sagrados [...] É sob a égide de Dionisos, do desembestado deus [...] que foram escritas as frases aqui reunidas."

O livro pode ser encomendado no site da Livraria da Travessa por módicos 21,90 reais. Para quem não foi ao lançamento, vai aqui uma palinha:

"Gastei metade do meu dinheiro com mulheres e cerveja... o resto desperdicei." Anônima

"Sim, madame, estou bêbado, mas amanhã acordarei sóbrio e a senhora continuará feia." Winston Churchill

"O vinho, a poesia numa garrafa." Robert Louis Stevenson

"Um bom alemão não consegue suportar os franceses, mas bebe os vinhos da França com a maior satisfação." Goethe

"Sem dúvida, a maior invenção da história da humanidade foi a cerveja. Ok! Reconheço que a roda também foi uma boa invenção, mas uma roda não combina tão bem com um salsichão." D. Berry

13.3.15

QUAL A ORIGEM DA EXPRESSÃO "CIDADE MARAVILHOSA"?

UMA VERSÃO AMPLIADA DESTE ESTUDO FOI PUBLICADA EM 2022 PELA REVISTA DO INSTITUTO HISTÓRICO E GEOGRÁFICO BRASILEIRO (NÚMERO 488, PÁG. 265) QUE VOCÊ PODE ACESSAR CLICANDO AQUI
 

O primeiro registro na imprensa carioca do epíteto Cidade Maravilhosa aplicado ao Rio de Janeiro está na página 2 do jornal O Paiz de terça-feira, 16 de fevereiro de 1904, pleno Carnaval. Lemos ali que os foliões de um carro alegórico que criticava as carrocinhas que tolhiam “a canina estirpe de viver e gozar da plena liberdade das ruas desta capital [...] não contentes com os protestos feitos de viva voz, ainda distribuíam estes versos em avulso:

MATRICULADOS E NÃO MATRICULADOS

Esta gaiola bonita
Que ahi vai sem embaraços
É a invenção mais catita
Do genial Dr. Passos

As ruas de ponta a ponta
Subindo e descendo morros
Por onde passa da conta,
Dos vagabundos cachorros.

Agarra! Cerca! Segura!
— Grita a matilha dos guardas —
Correndo como em loucura
Com um rumor de cem bombardas.

Terra sempre em polvorosa
Sem igual no mundo inteiro,
Cidade maravilhosa!
Salve, Rio de Janeiro!

A partir daí, vemos referências esparsas à cidade do Rio como “maravilhosa”, por exemplo:

·       Na pág. 1 de O Paiz de 4/5/1904, em matéria intitulada “Uma Obra Politica”, lemos: “A população comprehendeu bem a grandeza do serviço que o governo lhe vai prestar, negando-se a crear embaraços á sua acção, como queriam agitadores profissionais, antes, facilitando todo os accôrdos e sujeitando-se a todas as prescripções legaes, no bom intento de ver transformada, embellezada e saneada esta cidade maravilhosa, de cuja fama e de cuja força depende o equilíbrio da seiva econômica em todos os órgãos do paiz.”

·       Na pág. 3 de A Notícia de 22-23/5/1907, em matéria intitulada “No Palacio Monroe”, lemos (transcrito na ortografia da época): “Está ainda na lembrança de todos os habitantes desta cidade maravilhosa a rapidez com que o general [...] concluio o Palacio Monroe, para o qual aproveitou o mesmo plano e grande parte de elementos que serviram na architectura do pavilhão brasileiro da Exposição Universal de S. Luiz”.

·     Na pág. 2 de A Notícia de 6-7/7/1909, em matéria intitulada “Dez Annos Atrás”, lemos: “ [...] passeando esta cidade de tão lindas ruas novas, percorrendo as avenidas, respirando um ar que não é o das antigas vielas infectas, habitando uma nova cidade maravilhosa e salubre [...]”.

Em 1908 montou-se na Urca a Exposição Nacional comemorativa do centenário da abertura dos portos, na época uma espécie de "cidade artificial" asséptica & deslumbrante, como hoje, digamos, uma Disneyworld. Nesse período torna-se comum na imprensa designar essa exposição de “cidade maravilha” ou “cidade maravilhosa”

Nesse contexto, Coelho Neto vem a publicar, na página 3 da edição de 29-30 de outubro de 1908 de A Notícia (e não em 28/10 como afirmam quase todas as fontes), a crônica “Os Sertanejos”, à qual se atribui falsamente a “criação” do termo Cidade Maravilhosa para designar o Rio de Janeiro. Nada mais longe da verdade. 


Crônica "Os Sertanejos" de Coelho Neto na edição de 29-30 de outubro de 1908 de A Notícia. Acervo da Fundação Biblioteca Nacional - Brasil.

A crônica narra a história de um grupo de sertanejos “contratados para cantar e dansar no recinto da Exposição”. Após conhecerem a cidade em si, “a cidade formidável, a cidade devoradora d’homens, com as avenidas largas, margeadas de palácios colossaes, com o mover incessante de uma multidão apressada, com o reboliço vertiginoso dos vehiculos, com a zoeira dos automoveis, com o troar dos pregões, com todo esse confuso movimento que é a vida, desde o passo subtil, despercebido de um mendigo andrajoso que se esgueira ao longo dos muros, resmungando lamúrias, até a estropeada heroica de um regimento com a bandeira desfraldada ao vento, as armas lampejando ao sol e os clarins resoando em notas marciaes”, ao adentrarem a Exposição, “na avenida dos palácios brancos”, são tomados pelo assombro:

— Assumpta, Clodina: não parece que a gente tá vendo uma cidade encantada como aquellas das história [sic][...]

Era ao cahir da tarde, uma tarde elegíaca, violácea, quieta, sem o silvo de uma cigarra. Os penhascos pareciam de lápis lazuli e os palacios, ainda mais brancos sobre o fundo escuro das rochas portentosas, alvejavam marmóreos. Longe, nos estábulos, o gado tino mugia, nostálgico, pondo no silêncio enlevado a tristeza bucólica das várzeas, em contraste com o requinte da cidade maravilhosa [a saber, a Exposição; para ler a crônica de Coelho Neto completa clique aqui].

Vemos portanto que constitui um erro atribuir a Coelho Neto a designação de Cidade Maravilhosa para o Rio. E ainda que, em sua crônica, a "cidade maravilhosa" se referisse ao Rio como um todo, ele não teria sido pioneiro nessa designação, como vimos.

De setembro a dezembro de 1911, a poetisa francesa Jane Catulle Mendès, viúva do escritor e poeta Catulle Mendès, visitou o Rio de Janeiro, encontrando uma cidade recém-emergida de um “banho de loja” que foi a reforma urbanística de Pereira Passos. Encantada com a cidade, sobretudo pela flora e belezas naturais, escreveu uma série de poemas de “amor ao Rio” publicados em Paris em 1913 em volume intitulado La Ville Merveilleuse (A Cidade Maravilhosa).

Já no primeiro poema descrevendo a chegada (de navio, na época) na Baía da Guanabara, escreve a poetisa: Jamais tant de splendeurs n’ont ébloui les yeux! C’est ici le pays de toute la lumière (Jamais tantos esplendores deslumbraram os olhos ! Aqui é a terra de todas as luzes) e no poema final, "Adieu" ("Adeus"), escreve: Rio douce et fougueuse au visage doré (Rio doce e briosa de semblante dourado”). E no poema “Dans Longtemps” (Daqui a muito tempo) a autora não poupa declarações de amor à cidade: Cité voluptueuse et tendre (Cidade voluptuosa e meiga) Cité d’or (Cidade de ouro) Rio radieuse, ô Ville des étoiles (Rio radiante, ó Cidade das estrelas) Merveilleuse Rio, Ville de la Beauté (Rio Maravilhoso, Cidade da Beleza). (Saiba mais sobre Jane Catulle Mendès e seu livro de poemas clicando aqui.)

Crônica "A CIDADE MARAVILHOSA" publicada na coluna "Contos de Hoje" de Eugenio de Lemos na edição de 20-21/3/1913 de A NotíciaAcervo da Fundação Biblioteca Nacional - Brasil. 

Na edição de 20-21/3/1913 (pág. 3), A Notícia publica uma crônica, na coluna "Contos de Hoje" de Eugenio de Lemos, sobre como ficou bonita a cidade após as reformas urbanísticas, intitulada A CIDADE MARAVILHOSA (em maiúsculas e negrito). É a primeira vez que o título de uma matéria jornalística refere-se nestes termos ao Rio. A certa altura da crônica, lemos: Cidade Maravilhosa! É a exclamação de todos que nos visitam.” Mais adiante deparamos com este trecho profético: "A cidade progride e avança; toma o mar e toma as montanhas, e estende-se para as costas, varando as rochas. Ainda não temos os caminhos subterrâneos, mas para lá caminhamos acceleradamente. E quando a cidade tiver tudo isso, quando ella não construir os seus palacios apenas na planicie, mas os levar para as montanhas, quando ella habitar tambem os [sic] ilhas encantadoras de sua refulgente bahia e o mar se encher de elegantes yachts, como hoje as avenidas se enchem de automoveis, então ella poderá desafiar as que mais bellas o forem. Ella já é a cidade maravilhosa."

Em 1922 Olegário Mariano publica pela editora Pimenta de Mello (com uma segunda edição em 1930 da Companhia Editora Nacional) um livro de poesias intitulado Cidade Maravilhosa O poema inicial que dá nome ao livro é uma louvação ao Rio de Janeiro, a "Cidade do Amor e da Loucura", “Cidade do Êxtase e da Melancolia”, “Flor das Cidades”, em suma, “Cidade Maravilhosa!”. (O poema completo pode ser lido na postagem Poemas de Amor ao Rio.)

A edição de 10 de novembro de 1927 do Jornal do Brasil (que você pode consultar na Hemeroteca Digital) publica uma nova versão da já citada crônica de Coelho Neto, agora denominada simplesmente "Sertanejos", bastante modificada, onde a Exposição Nacional dá lugar a um cinema e, agora sim, a cidade maravilhosa alude ao Rio.

Em 1928 Coelho Neto publica seu livro de contos A Cidade Maravilhosa, mas ao contrário do que se pensa, a "cidade maravilhosa" que dá nome ao conto inicial não é o Rio, é uma "cidade de sonho", imaginária, evocada à noite por uma queimada. "

Aqui a tem, a sua cidade maravilhosa. Viu-a de longe, era linda. Veja agora. Ilusões, fanciulla [criancice]. Adriana olhava estarrecida. Mas não era a destruição das árvores, não eram aquelas cinzas pardacentas, ainda mornas, não eram aqueles troncos denegridos, aqueles ramos que rechinavam [=queimavam] amojados de seiva que a comoviam, mas a lembrança da cena da estrada, a sedução do homem sinistro a mostrar-lhe, ao longe, no fogaréu rutilante, a cidade maravilhosa, cidade do sonho, cidade do amor." (Para ler o conto inteiro clique aqui.)
Em 1o de setembro de 1933, o locutor César Ladeira estreou na Rádio Mayrink Veiga, lendo as “Crônicas da cidade gozada”, de Genolino Amado, mas depois de receber cartas e telefonemas criticando o título, mudou-o para “Crônicas da Cidade Ma-ra-vi-lho-sa”, conforme lemos em Henrique Foréis Domingues, No Tempo de Noel Rosa: O Nascimento do Samba e a Era de Ouro da Música”.

Em 1935 o mesmo César Ladeira escreve uma revista, que inclui três canções de Ary Barroso (Garota colossal, parceria com Nássara, Grau dez, parceria com Lamartine Babo e o samba Foi ela”), intitulada "Cidade Maravilhosa, apresentada no Teatro Recreio.

No Carnaval de 1935, a marcha Cidade Maravilhosa de André Filho, gravada por Aurora Miranda, enfim consagra o termo pelo qual hoje todos conhecemos o Rio de Janeiro, Patrimônio Cultural da Humanidade, com muito orgulho, com muito amor...


Foto do Mirante do Pasmado tiradas pelo editor do blog. Pesquisas em periódicos antigos realizadas pelo editor do blog na Hemeroteca Nacional e Biblioteca Nacional.

ADENDO EM 20/12/2015: TEXTO DE ALEXEI BUENO SOBRE A ORIGEM DO EPÍTETO "CIDADE MARAVILHOSA":

Jane Catulle Mendès chegou ao Rio de Janeiro com o prestígio, no momento mais francófilo da história do Brasil, de ser a viúva de Catulle Mendès, um dos poetas mais conhecidos da França na segunda metade do século XIX, e fundador, com Jean-Xavier de Ricard, do famoso Le Parnasse Contemporain, publicação da qual surgiu a escola parnasiana, verdadeiro estilo literário oficial entre nós na época. Encarecia-lhe ainda mais o prestigio a aura da tragédia, pois dois anos antes, em 1909, Catulle Mendès morrera de forma estúpida, em Saint-Germain-en-Laye, ao cair e ser esmagado pelo trem em que viajava, pensando já haver chegado à estação.

No período em que esteve no Rio de Janeiro, entre 20 de setembro e 6 de dezembro de 1911, Jane Catulle Mendès foi a convidada de honra das mais importantes figuras da elite da Capital Federal, visitou os mais elegantes salões que entre nós existiam, foi recebida pelo presidente da República e deu três conferências com grande sucesso, uma delas no Theatro Municipal, intitulada "Les femmes de lettres françaises". Se imaginarmos quão bem ela foi recebida, e a época realmente gloriosa para a cidade em que isso se passou — o pouco mais de decênio e meio entre o fim da gestão de Pereira Passos e a destruição do morro do Castelo e inicio da verticalização da cidade — fica claro o motivo do encantamento que a inspirou a escrever e publicar, em 1913, em Paris, o livro de poemas intitulado La Ville Merveilleuse, Rio de Janeiro, poèmes. Extasiada com a beleza da cidade, os poemas, muitos deles dedicados a ilustres figuras da época — o presidente Hermes da Fonseca, o senador Pinheiro Machado, a mecenas e grande dama da sociedade Laurinda Santos Lobo — faziam a apologia em regra da cidade e, graças ao título do livro, nascia o seu epíteto plenamente consagrado. É óbvio que em textos anteriores, especialmente na imprensa, tal expressão ja fora usada, como bem pesquisou Ivo Korytowski, o que deve ter acontecido com todas as cidades notáveis do mundo. Na obra-prima de Jean Vigo, L'Atalante, de 1934, apenas como exemplo, o personagem Père Jules, interpretado por Michel Simon, interpreta uma canção cujo primeiro verso é: “Paris, Paris, ville infâme et merveilleuse”. Apesar do infâme pelo meio, nela encontramos a exata expressão ville merveilleuse, que nunca substitui, no entanto, o de Ville Lumière para Paris. Parece-nos, portanto, que a hoje totalmente esquecida Jane Catulle Mendes foi, senão a criadora, a oficializadora do epíteto do Rio de Janeiro.

(Texto de Alexei Bueno extraído de Rio Belle Époque: Álbum de imagens, Bem-Te-Vi, 2015) 

9.8.13

O RIO DE JANEIRO DE MACHADO DE ASSIS

Texto extraído do ensaio "A Cidade e o Tempo de Machado de Assis" de Alexei Bueno no livro Machado, Euclides & Outros Monstros


Toda a obra de ficção de Machado de Assis se passa, com raras exceções, como já dissemos, no Rio de Janeiro que viu escoarem-se as suas sete décadas de vida. A cidade, que conheceu como corte, depois como capital federal, é o seu microcosmo, como a Paris de Balzac, a São Petersburgo de Gogol, a Londres de Charles Dickens, para citar uns poucos exemplos entre inúmeros. No Morro do Castelo — a acrópole quinhentista da cidade, estupidamente demolida em 1922 — só como exemplo, passa-se um episodio de Esaú e Jacó assim como o capítulo 75 de Memórias Póstumas de Brás Cubas, onde, recontando as origens de Dona Plácida, aparece a Sé Velha do Rio de Janeiro, talvez o trecho da ficção machadiana que, na nossa opinião, melhor sintetize a sua visão schopenhaeuriana da realidade, da vida intrinsecamente como dor. [...]

No Caminho de Mata Cavalos — rua do Riachuelo desde a vitória naval do mesmo nome, em 1865 —, “a mais carioca das ruas”, no dizer do autor, erguem-se as casas contíguas de Bentinho e Capitu. É numa casinha da Gamboa que Brás Cubas, depois morador de uma chácara no Catumbi, monta o seu ninho de amor com Virgínia. A protagonista de “A desejada das gentes” habita a Glória, onde ficava, aliás, o Clube Beethoven, muito frequentado pelo melômano Machado de Assis. É na Igreja do Carmo que Romão Pires, de “Cantiga de esponsais”, exercia suas funções como músico, a Igreja do Carmo na antiga rua Direita — Primeiro de Março a partir do fim da guerra do Paraguai — apesar de ele haver nascido no Valongo, onde existiu o velho mercado de escravos, e habitar a rua da Mãe dos Homens, nome da igreja do mesmo nome, ainda existente, onde Tiradentes chegou a hospedar-se, a atual rua da Alfândega. Defronte à Capela Real, bem ao lado da Igreja do Carmo, na mesma rua Direita, morreu a avó de Quincas Borba, atropelada por uma carruagem. No aristocrático Botafogo da época viviam Cristiano Palha e Sofia, que enfeitiçou o ingênuo Rubião de Quincas Borba. E assim por diante, numa enumeração que tão cedo não terminaria...

O Rio de Janeiro é, portanto, para Machado de Assis, o anfiteatro em que ele vê desfilar a dança macabra do egoísmo e da baixeza dos homens [...].

Do conjunto de chalés da Condessa de São Mamede dos quais Machado ocupou um, este à direita é o único sobrevivente, dando portanto uma ideia de como teria sido o de Machado. O chalé do escritor ficava à esquerda deste, junto com mais um terceiro, na área correspondente ao prédio amarelo baixo, conforme pesquisa do historiador Nireu Cavalcanti a ser publicada oportunamente em livro. Portanto, a placa no prédio alto da esquina (Edifício Machado de Assis, Rua Cosme Velho, 174) de que "NESTE LOCAL VIVEU MACHADO DE ASSIS DE 1883 ATÉ SUA MORTE EM 1908" está equivocada.  

Após sua morte, quase todos os traços físicos de Machado de Assis na sua cidade natal, na sua cidade de eleição, foram desaparecendo, pouco a pouco. Da casa em que nasceu, casa de agregados da Quinta do Barroso, nada resta, como a própria chácara, e nem sabemos o ponto exato em que se erguia. [Nota do editor do blog: No Morro do Livramento, perto da antena da Embratel, existem ruínas do que pode ter sido a chácara onde a mãe de Machado foi agregada. Ver postagem Morro do Livramento: Nos Passos de Machado.] Os prédios que abrigaram as repartições em que trabalhou foram todos demolidos. O chalé da rua Cosme Velho, em que residiu por um quarto de século com Carolina, e no qual escreveu grande parte de sua obra, foi posto abaixo no ano do seu centenário de nascimento, 1939, para dar lugar a uma mansão, demolida por sua vez no final na década de 1980 para que se levantasse um edifício de apartamentos, com uma pizzaria no térreo, que lá esta [foto acima]. Um ano após a sua morte, no dia 29 de setembro de 1909, um grupo de acadêmicos inaugurou uma placa de mármore na fachada do chalé, capitaneados por Rui Barbosa, tendo Olavo Bilac proferido um discurso na ocasião. O chalé foi demolido, mas a placa se conserva no Pátio dos Canhões, no Museu Histórico Nacional, numa grande ironia machadiana, ou um retrato de um pais em que se destroem as casas históricas e se conservam as suas respectivas placas comemorativas. [Nota do editor do blog: A referida placa encontra-se agora na reserva técnica do MHN, que gentilmente cedeu a foto abaixo.] 





Sala Machado de Assis, com a escrivaninha e quadro do autor, no Petit Trianon da ABL. Foto gentilmente cedida pelo Arquivo da ABL. Visitas guiadas podem ser agendadas pelo e-mail visita.guiada@academia.org.br

O Silogeu Brasileiro, onde ele presidiu a Academia e onde foi velado, também foi posto abaixo. De todas as casas em que viveu, a da rua da Lapa, onde esteve com Carolina, por uns poucos meses, logo após o casamento, parece que ainda existe, salvo um erro na confrontação das numerações. [Nota do editor do blog: A casa fica na Rua da Lapa, 242, e foi tombada pelo Município em 2008. Outra casa tombada no mesmo ano onde Machado também teria morado fica na Rua dos Andradas, 147.] Todas as outras desapareceram. A capela em que se casou, nos fundos da casa do conde de São Mamede, no Cosme Velho, esta ainda existe, sem altar ou outro resquício de função religiosa [foto abaixo], assim como a própria casa onde ele ia jogar gamão quase todas as noites. 



Seu túmulo, finalmente, e de Carolina, no Cemitério de São João Batista, o “leito derradeiro” do soneto, foi desmantelado no final da década de 1990. Suas cinzas — pouco mais do que isso resta de um corpo enterrado por noventa anos no úmido e ácido solo carioca — foram, juntamente com as de sua mulher, recolhidas ao Mausoléu dos Imortais, no mesmo cemitério.

Lápide do túmulo original de Machado e Carolina conservada no mausoléu da Academia.
No final da década de 1990 os restos mortais de Machado e Carolina foram transferidos para este jazigo no Mausoléu da Academia Brasileira de Letras.

Seu espectro, este persevera por todos os recantos do velho Rio de Janeiro, um espectro a mais, a observar os outros cinco que enumeramos acima.



Agora você está convidado a assistir ao meu vídeo onde conto a história de minha velha paixão pelo "bruxo do Cosme Velho":


2.11.08

HISTÓRIA DOS CEMITÉRIOS DO RIO DE JANEIRO


No Rio colonial os mortos ligados a alguma irmandade religiosa eram enterrados dentro das Igrejas ou nos seus adros, enquanto os indigentes, pobres ou "pretos novos" eram enterrados em covas coletivas em terrenos disponíveis. O primeiro cemitério a céu aberto da cidade, privativo da colônia inglesa, foi o Cemitério dos Ingleses, de 1811. Em meados do século XIX foram criados os grandes cemitérios abertos a todos os cidadãos, de qualquer religião (tanto é que existe uma "ala judaica" no Caju, túmulos positivistas, sem cruz, no S.J. Batista, etc.): São Francisco Xavier (o “Cemitério do Caju”), São Francisco de Paula (o “Cemitério do Catumbi”) e São João Batista. No Caju existe ainda o Cemitério da Penitência, Comunal Israelita e o Cemitério Vertical Memorial do Carmo. A relação de todos os vinte cemitérios do Rio você encontra aqui. A seguir textos de Alexei Bueno, Pedro Nava, Mauro Matos e Cláudio Henrique (extraídos de diferentes livros) sobre os principais cemitérios cariocas.

CEMITÉRIO DOS INGLESES


Os vivos e os mortos

Lápide no interior da capela, de uma criança, Thomas Barker, falecida em 13 de fevereiro de 1812 aos dez anos. Sob o anjo trombeteiro o versículo de Jó 19:25.

Túmulos e capela. Observe que os túmulos protestantes são mais despojados que aqueles encontrados em cemitérios católicos (quase tão despojados quanto os túmulos judaicos).

 Túmulo do General João Tarcísio Bueno (1906-1963), nome lendário na história da FEB e do Exército Brasileiro, um dos grandes heróis brasileiros, ator central do mais sangrento e épico dos ataques brasileiros a Monte Castelo, em 12 de dezembro de 1944. Sobre ele seu neto Alexei escreveu o livro "João Tarcísio Bueno, o herói de Abetaia"

Durante todo o período colonial no Brasil, as inumações foram feitas dentro das igrejas, ou, quando muito, em catacumbas anexas. [...] Tal hábito começou a declinar com a chegada da Corte portuguesa, fugida de Napoleão, em 1808, e sobretudo com a abertura dos portos às nações amigas, entenda-se Inglaterra. Foi numa encosta do morro da Providência, na Gamboa — o mesmo que, em sua outra face, veria nascer a primeira favela após o desmobilizamento das tropas da guerra de Canudos, sendo por isso também conhecido como morro da Favela —, voltada para o mar, que surgiu o Cemitério dos Ingleses, o primeiro a céu aberto do Rio de Janeiro e um dos primeiros do Brasil.

Pelo Tratado de Amizade e Comércio, assinado entre o príncipe regente D. João e o rei Jorge III, no dia 19 de fevereiro de 1810, ficava permitido "o enterramento de vassalos de Sua Majestade Britânica, que morressem nos territórios de Sua Alteza Real o príncipe Regente de Portugal, em convenientes lugares, que seriam designados para este fim, não se perturbando, de modo algum, por qualquer motivo, os funerais e as sepulturas dos mortos".


Do livro de Alexei Bueno, Gamboa, que faz parte da coletânea Cantos do Rio.


CEMITÉRIO DO CAJU


Crematório

Covas rasas

À memória de minha mãe

Ala judaica (do tempo em que ainda não havia o Cemitério Comunal Israelita) na parte nordeste do cemitério. Ao contrário da maioria dos túmulos judaicos, despojados conforme a tradição, este ostenta uma escultura de Moisés segurando uma das tábuas da Lei. 

Não sei se existe uma história dos cemitérios do Rio de Janeiro. Quase todos foram abertos depois das hecatombes da febre amarela, a partir de dezembro de 1849. O do Caju é anterior. É o mais antigo da cidade. Foi instalado em 1839 por José Clemente Pereira, numa gleba comprada a José Goulart, para enterrar os indigentes e escravos até então sepultados nos terrenos de Santa Luzia, onde se ia erguer o atual hospital da Santa Casa de Misericórdia, no Rio de Janeiro. Foi chamado Campo-Santo do Caju. Seu primeiro defunto foi inumado em 1840.

Em 1851 o nome foi mudado para o de Cemitério de São Francisco Xavier. Entretanto, não só persiste a antiga denominação, como ela entrou nas frases feitas. Assim, quando se diz — um dia, Pedro, irás para o Caju — quer dizer — um dia, Pedro, ai! de ti, também morrerás, e serás enterrado. Naquele ano o campo-santo é ampliado e juntaram-se às terras de José Goulart, as da antiga Fazenda do Murundu, de Baltasar Pinto dos Reis. Em 1858 desmembra-se o terreno que vai ser o Cemitério da Venerável Ordem Terceira da Penitência e em 1859 o que vai ser o Cemitério da Venerável Ordem Terceira do Carmo.


Essa vasta área corresponde, mais ou menos, ao que é hoje limitado pela Avenida Brasil, pelas Ruas Carlos Seidl, Indústria e Monsenhor Manuel Gomes e nela estão os quatro cemitérios [os três citados e o Cemitério Comunal Israelita], fábricas, depósitos e favelas; as ruas novas dos fundos das necrópoles; e o Hospital São Sebastião. Os aterros, em frente, fizeram desaparecer os cais [...]

Do segundo livro de memórias de Pedro Nava, Balão cativo.

CEMITÉRIO DO CATUMBI

Portal

Nichos (esquerda), capela do cemitério (direita) e o Corcovado lá atrás (sobre a extremidade direita dos nichos)

Jazigo perpétuo

Nichos no fundo do cemitério e Morro da Mineira atrás


Inaugurado em 19 de março de 1850, o cemitério de São Francisco de Paula ou cemitério do Catumbi, como é mais conhecido, foi o primeiro do Brasil construído a céu aberto destinado a não-indigentes. Antes, somente religiosos e ricos eram sepultados nas criptas das igrejas.


Na época, devido ao efeito devastador das epidemias na cidade do Rio de Janeiro, principalmente da febre amarela, foi construído com urgência o cemitério pela Ordem Terceira de São Francisco de Paula, com aprovação do Império. O resumo histórico e ilustrado da Ordem atesta a compra do terreno que pertencia ao proprietário Dionísio Orioste tendo sido lavrada em cartório pela Irmandade em 12 de maio de 1849.


De fato, já no primeiro ano, foram sepultados cerca de 3 mil corpos com morte provocada pela epidemia da febre amarela, além de 323 irmãos da Congregação, como atestam os documentos da Ordem. Em seguida foram para lá transladados cerca de 450 restos mortais, na sua maior parte da nobreza brasileira que estavam sepultados na igreja de São Francisco de Paula.


Do livro de Mauro Matos, Catumbi, um bairro do tempo do império. Você pode ler o livro em versão pdf clicando aqui.

CEMITÉRIO SÃO JOÃO BATISTA

Pórtico

Capela

Túmulo de Ary Barroso

Mausoléu da Academia Brasileira de Letras

Nelson Rodrigues



Em 1852 foi inaugurado o Cemitério São João Batista, historicamente importante por ter sido, junto com o do Caju, o primeiro da cidade a permitir enterros para pessoas de qualquer classe social. Até então pobres e ricos viravam pó em lugares diferentes — e em igrejas. Há um registro sinistro da "estréia" do cemitério: consta que era uma menina de apenas quatro anos, Rosaura.

Além de abrigar belíssimas obras em gesso, mármore e bronze, o São João Batista, sem dúvida, é o Père Lachaise carioca: estão enterrados ali, entre outros, Vicente Celestino, Evaristo da Veiga, José de Alencar, Benjamim Constant, Floriano Peixoto, Gustavo Capanema, Oswaldo Aranha, Machado de Assis, Ari Barroso, Nelson Rodrigues, Francisco Alves, Miguel Couto, o escultor Rodolfo Bernardelli, Luis Carlos Prestes, Carmem Miranda, Tom Jobim, Vinicius de Moraes, Cazuza, Clara Nunes, Chacrinha, Jardel Filho e Santos Dumont.


Do livro de Cláudio Henrique, Botafogo, pp. 51-2 (Coleção Cantos do Rio).

Visite também a postagem Cemitério São João Batista & Poemas Mórbidos no meu outro blog, o Sopa no Mel. Uma dica: O jornal O Globo de 22/9/14 publicou uma ótima matéria sobre os cemitérios do Rio. Para ler uma monografia de Ana Cristina Alves Gavinha sobre a história dos sepultamentos no Rio clique aqui.

18.2.08

HOMENAGEM À LAPA




UM POUQUINHO DA HISTÓRIA DA LAPA

É a mais antiga e a mais tradicional área de boemia da cidade. Tornou-se famosa, no início do século XX, por sua atmosfera de transgressão aos costumes e por seus "malandros", uma mistura curiosa de marginalidade, pobreza e samba.

Permaneceu isolada e despovoada até o século XVIII, principalmente porque abrigava a Lagoa do Boqueirão, local do atual Passeio Público, que a tornava a região mais insalubre da cidade. Mesmo assim, escassamente povoada, era o principal acesso para a Zona Sul do Rio de Janeiro, caminho para o Engenho D’El Rei, às margens da Lagoa Rodrigo de Freitas e, também, mais tarde, para a Igreja de Nossa Senhora da Glória do Outeiro. Esse caminho passava pelas margens da Lagoa do Boqueirão e pela Praia das Areias de Espanha, um pequeno areal entre a lagoa e os morros do Desterro, atual Santa Teresa, e das Mangueiras, arrasado. Foi a origem das Ruas do Passeio, da Lapa e Visconde de Maranguape. A região permitia também o acesso à região dos atuais bairros do Catumbi, Rio Comprido, São Cristóvão e Engenho Velho, na Zona Norte, através da atual Rua do Riachuelo, então Mata Cavalos, por ser um grande lameiro, conseqüência das enxurradas que desciam dos morros.

O aterro da Lagoa do Boqueirão, no século XVIII, determinou o início da ocupação mais intensa da área. Como parte deste processo, Gomes Freire de Andrade promoveu a construção dos Arcos da Lapa, imponente construção em pedra e argamassa, em estilo romano, a obra mais monumental do Rio de Janeiro durante a época colonial.

Em 1751, junto à Praia das Areais de Espanha, foi construída a Igreja de Nossa Senhora da Lapa do Desterro (foto acima) e, a seu lado, um seminário. As construções ficavam de costas para o mar e o largo em frente recebeu denominações diferentes, em função das instituições. [...] Mais tarde, passou a ser o Largo da Lapa, por causa da igreja.

Extraído do Guia Michelin do Rio de Janeiro (primeira edição)





O carioca às vezes se cansa do abandono a que é relegado pelo poder público e sai de seus cuidados para reinventar a si próprio ou à cidade. Foi assim que, de dez anos para cá, sem um centavo oficial, ele salvou a Lapa da morte a que ela fora condenada pelo desprezo de várias gerações de administradores e transformou-a no que é hoje: o bairro mais vivo e vibrante do Rio.

Às 10 da noite, às 2 da madrugada ou, pelo que escuto dizer, às 6 da matina, o movimento é igual: a avenida Mem de Sá e as ruas do Lavradio e do Riachuelo duras de gente, com tudo funcionando - bares, restaurantes, gafieiras, casas de shows, templos de sinuca. Seu público tem gente de todas as origens, classes sociais, cores e sexos. É de novo a Copacabana dos anos 50, exceto que com chope, jeans e shortinhos em vez de uísque, gravata e decotes, samba no lugar do fox e Teresa Cristina no de Dolores Duran.

Trecho da crônica "A Última do Carioca", de Ruy Castro




TRECHOS DA HISTÓRICA ENTREVISTA DE
MADAME SATÃ AO PASQUIM No. 95 em maio de 1971

O painel acima, na rua lateral à Sala Cecília Meireles, mostra, da esquerda para a direita, João do Rio, Rosinha, Villa Lobos, Noel Rosa, Manuel Bandeira, Madame Satã (no alto), Portinari, Di Cavalcanti.

Sérgio Cabral — Eu sempre ouvi falar, desde garotinho, quando eu ia passear na Lapa e falavam comigo: cuidado que o Madame Satã vai te pegar.

SATÃ — Conversa fiada, eu não era tão tarado assim.

Millôr — A Lapa foi durante muito tempo um centro de boemia. Você conheceu gente famosa, além dos marginais?

SATÃ — Fui amicíssimo do Chico Alves, fiz muitas serenatas com ele, Noel Rosa, Orlando Silva, Vicente Celestino.

Chico Júnior — Quem é que te deu esse apelido de Madame Satã?

SATÃ — Esse apelido de Madame Satã ganhei em 1938, no Bloco Caçador de Veados (...).

Sérgio — Mas você era caçado ou caçador?

SATÃ — Eu era caçador.

Chico — Mas conta a história do apelido.

SATÃ — Bem, havia o baile de carnaval e o concurso. Então eu me exibi com a fantasia de Madame Satã no Teatro República e ganhei o primeiro lugar.

(...)

Fortuna— Qual é a sua concepção da Lapa de hoje?

SATÃ — Olha, enquanto eu for vivo a Lapa não morrerá.




CANÇÃO DE CRIANÇA
Adriana Montenegro


Sete anjos me beijaram
esta noite, na Lapa.
Sete vezes sete bocas
sibilantes
tocaram minh’alma
em sete repartiram
o pão da minha fome.

Sete rostos descarnados
e um pão.
Sete e sete setecentos
tantas vezes sete vezes
(não sei que reza
ou multiplicação)
um tiro
o chão.

Sete anjos, sorrindo
me pediram um trocado
e partiram, dependurados
nos bondes de sua agonia
de última viagem.

Do livro Pássara (Editora Aeroplano, 2004)





TRÊS POEMAS DA LAPA
Alexei Bueno

LAPA


Nesta casa antiga,
Sob estas volutas,
Como ri com as putas
Entre uma e outra briga.

Como virei copos
E extingui charutos,
Discuti com brutos,
Vaiei misantropos.

Urinei nas pias,
Vomitei nas portas,
Com passadas tortas
Vi nascer os dias.

Velha, velha casa,
Como ainda és a mesma.
(Não tens dentro a lesma
Que nos funda e abrasa.)

          19-9-2004

LÁZARO


Cobrimos o mendigo que dormia
Com jornais, os jornais do extinto dia.

De fora só ficaram os sapatos
Cambaios, já roídos pelos ratos.

Acendemos então, junto, uma vela
E arengamos na luz branca e amarela.

Um círculo de povo já envolvia
Nosso pranto, e o pinguço nem tremia.

Volveu por fim do reino dos defuntos.
Debandada! E ele riu. Ríamos juntos.

          21-9-2004

TROTTOIR

Os homens vão e vêm na íris das putas
     E nenhum pára.
Nenhum ouve suas vozes dissolutas
     Nem as encara.

São inúteis as frases mais argutas
     Ou sobre a cara
A tinta, o pó. E a vida, quantas lutas,
     Como está cara!

Ao longe os filhos, os filhos das putas
Com ladrões, ou pinguços, ou recrutas,
     Na noite avara

Dormem cingindo palhaços birutas,
Bonecas louras relesmente hirsutas
     Que a lua aclara.

          12-11-2004






LAPA DE BANDEIRA
Vinicius de Moraes
                  A Manuel Bandeira


Existia, e ainda existe
Um certo beco na Lapa
Onde assistia, não assiste
Um poeta no fundo triste
No alto de um apartamento
Como no alto de uma escarpa.

Em dias de minha vida
Em que me levava o vento
Como uma nave ferida
No cimo da escarpa erguida
Eu via uma luz discreta
Acender serenamente.

Era a ilha da amizade
Era o espírito do poeta
A buscar pela cidade
Minha louca mocidade.
Como uma nave ferida
Perambulando patética.

E eu ia e ascensionava
A grande espiral erguida
Onde o poeta me aguardava
E onde tudo me guardava
Contra a angústia do vazio
Que embaixo me consumia.

Um simples apartamento
Num pobre beco sombrio
Na Lapa, junto ao convento…
Porém, no meu pensamento
Era o farol da poesia
Brilhando serenamente.

(do livro Roteiro lírico e sentimental da cidade do Rio de Janeiro, editado pela Companhia das Letras.)

Jorge Selarón (1947-2013)


Aqueduto da Carioca (Arcos da Lapa)

Construído em alvenaria, o aqueduto, que levou cerca de meio século para ser concluído, apresenta duas fileiras superposas de arcos plenos. Trata-se de construção monumental, mas de aspecto simples, e caráter eminentemente funcional, que conduzia as águas do rio Carioca aos tanques e chafarizes que abasteciam a cidade. Em 1896 foi convertido em via para os bondes de Santa Teresa, quando se acrescentou um parapeito de alvenaria com pequenos arcos ogivais. Na década de 1960, foi demolido o casario apoiado em longo trecho do aqueduto, recuperando dessa forma o destaque do monumento na paisagem da cidade. Na mesma época, fecharam-se os arcos ogivais com vistas ao resgate da imagem colonial do monumento.

Extraído do livro Guia da arquitetura colonial, neoclássica e romântica no Rio de Janeiro.





Fotos do editor do blog. Esta é uma ampliação de uma postagem de 2005, uma das primeiras deste blog.