ENSEADA DE BOTAFOGO

ENSEADA DE BOTAFOGO
"Andar pelo Rio, seja com chuva ou sol abrasador, é sempre um prazer. Observar os recantos quase que escondidos é uma experiência indescritível, principalmente se tratando de uma grande cidade. Conheço várias do Brasil, mas nenhuma tem tanta beleza e tantos segredos a se revelarem a cada esquina com tanta história pra contar através da poesia das ruas!" (Charles Stone)

VISTA DO TERRAÇO ITÁLIA

VISTA DO TERRAÇO ITÁLIA
São Paulo, até 1910 era uma província tocada a burros. Os barões do café tinham seus casarões e o resto era pouco mais que uma grande vila. Em pouco mais de 100 anos passou a ser a maior cidade da América Latina e uma das maiores do mundo. É pouco tempo. O século XX, para São Paulo, foi o mais veloz e o mais audaz.” (Jane Darckê Avelar)
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12.12.15

HANGAR DO ZEPPELIN EM SANTA CRUZ


Dá-se o nome de zeppelin a um charuto de seda, com arcabouço de alumínio e alma de hidrogênio... (Ideias no Ar, Berilo Neves, em O Malho, 21/5/1936)

1936 de Petrarca Maranhão (revista O Malho, 19/3/1936)

Panorama: um avião no céu reboa
O ruído estrepitante dos motores...
No porto, embaixo, o apito dos vapores
Numa rima sincrônica ressoa...

À distância, na altura, lento, voa,
Irradiando centelhas multicores
Que se esbatem do sol nos esplendores,
Um Zeppelin que barra a dentro aproa!...

Perto, o silvo violento, — estranho berro —
De um trem na elétrica estação de ferro
Ecoa... Tudo em torno é vida e excesso...

... E a cidade no brouhaha da rua,
Nos klaxons de automóveis, tumultua,
No simbolismo mesmo, do "Progresso"!...

Zeppelin saindo do Hangar em painel assinado por Creuza de 1999

O Hangar do Zeppelin foi construído entre 1934 e 1936. Suas estruturas vieram da Alemanha e a mão-de-obra foi brasileira, supervisionada por técnicos alemães. Em seu interior podia ser acomodado um Zeppelin. O Hangar mede 274m de comprimento, 58m de altura e 58m de largura. É o único ainda existente, já que os outros dois construídos na Alemanha foram destruídos durante a Segunda Guerra Mundial. Dois Zeppelins faziam a linha da América do Sul, por serem os melhores e os maiores: Graff Zepellin e o Hindenburg. Partiam de Frankfurt, na Alemanha, atracavam em Pernambuco e desciam em Santa Cruz (Rio), onde eram recolhidos dentro do Hangar para a manutenção, o reabastecimento e o embarque de passageiros. Com o incêndio do Hindenburg em 1937, nos Estados Unidos, o projeto dos Zeppelins foi cancelado. O Hangar serviu de base para o 1o Grupo de Aviação de Caça da Força Aérea Brasileira, que atuou na Segunda Guerra Mundial. A escolha de Santa Cruz para sediar o Hangar se deveu às condições climáticas, direção dos ventos, velocidade e possibilidade de locomoção através de outros meios de transporte, ligando o bairro à Cidade. O hangar recebeu o nome de Aeroporto Bartolomeu de Gusmão, onde hoje está localizada a Base Aérea de Santa Cruz, o maior complexo aerotático da América Latina. (Dados obtidos no totem de informações em frente ao Hangar) 


Base Aérea de Santa Cruz

O Hangar

Entrada menor (nordeste)

Dentro do hangar

Dentro (detalhe)


Em 1934 o Governo brasileiro assinou um contrato com a empresa alemã Luftschiffbau Zeppelin para o estabelecimento de uma linha regular de dirigíveis entre o Brasil e a Europa, bem como a construção de um aeroporto para dirigíveis no Rio de Janeiro. A escolha do local deveu-se ao regime de ventos e ausência de nevoeiro e bruma. O hangar foi construído com a entrada principal voltada para sudoeste, de modo que o vento o percorresse longitudinalmente, evitando o desgaste da estrutura se o vento batesse de lado. O então chamado Aeroporto Bartholomeu de Gusmão foi inaugurado na manhã do dia 26 de dezembro de 1936 em cerimônia a que compareceram o embaixador alemão, políticos, o ministro da Viação e o presidente Getúlio Vargas. Ao jornal O Globo declarou o Presidente: “A minha impressão é a mais grata, por isso que é no meu governo entregue ao tráfego aéreo o maior aeroporto do mundo.” Ao arrendar o aeroporto pelo prazo de trinta anos para a Luftschiffbau Zeppelin o governo esperava ressarcir as despesas com a construção do aeroporto. Só que, com o incêndio do Hindenburg e o início da Segunda Guerra Mundial, os voos dos zepelins foram descontinuados, ficando apenas na memória de quem os via flutuando pelos céus cariocas, como o poeta Manuel Bandeira, que escreveu uma crônica intitulada "Zeppelin em Santa Teresa". O Hangar foi tombado pelo Município em 1992, e visitas devem ser agendadas com o Sargento Arruda da Comunicação Social, telefone 3078.0389.


O Zeppelin dentro do Hangar (foto do Centro de Memória)

O Hangar, o Zeppelin, a alfândega e o trem

Antigo depósito esférico de hidrogênio, agora de água, e o Hangar à direita.

Uns vinte anos atrás o depósito foi pintado como um globo terrestre com indicação da rota do Zeppelin

TRECHO DO ARTIGO "A SEMANA ZEPPELIN" NA REVISTA FON FON DE 24 DE MAIO DE 1930:



A SEGUIR, FOTOS DO ZEPPELIN SOBRE O RIO DE JANEIRO EXTRAÍDAS DA REVISTA O MALHO:








1.6.13

SANTA CRUZ: UMA PAIXÃO



FOTOS DO EDITOR DO BLOG
TEXTOS (exceto legendas das fotos) EXTRAÍDOS DO LIVRO SANTA CRUZ: UMA PAIXÃO, DE NIREU CAVALCANTI (COLEÇÃO CANTOS DO RIO).


Antigo palacete do Senador Júlio Cesário de Melo na Praça Dom Romualdo em Santa Cruz (veja a localização desta e de outras atrações no mapa acima). Construção da primeira metade do século XIX, serviu de cenário para a novela O Bem Amado.

Antigo palacete do Senador Júlio Cesário de Melo na Praça Dom Romualdo em Santa Cruz (veja a localização desta e de outras atrações no mapa acima). Construção da primeira metade do século XIX, serviu de cenário para a novela O Bem Amado.

Ruínas do antigo Matadouro Imperial de Santa Cruz (atrás do palacete acima), cuja sede foi inaugurada em 1881 pelo Imperador Dom Pedro II.

Nave do Conhecimento Tim Lopes, construída na Rua Álvaro Alberto onde havia dois prédios abandonados, em ruínas, e uma cracolândia. A Nave consolida um conjunto de atividades e programas desenvolvidos pela Secretaria Municipal de Ciência e Tecnologia. Inaugurada em junho de 2012.

Palácio Real, capítulo do livro Santa Cruz: Uma paixão de Nireu Cavalcanti

Todo monarca português deveria ter, no mínimo, três imóveis diferentes: um palácio requintado na Cidade-Corte, no caso, Lisboa; um palácio de campo, em quinta (chácara) próxima à Corte e um palácio rural, em grande fazenda, para exercício das nobres atividades agropastoris da equitação e da caça silvestre.

Ao chegar e se instalar na cidade do Rio, a Corte recebeu como palácio urbano o antigo Paço dos Vice-reis — na atual Praça Quinze, prédio onde funciona o centro cultural denominado Paço Imperial —, após reforma apressada de pintura e forração de paredes com tecidos. Obras igualmente ligeiras foram realizadas nos prédios do Convento do Carmo e na Casa da Câmara e Cadeia, para anexá-los ao prédio principal. Portanto, o palácio real, que passou a abrigar o governo monárquico português, ocasionou a expulsão de suas sedes do vice-rei, seus funcionários e lacaios; dos vereadores; dos presos e seu carcereiro e dos frades carmelitas.

O palácio de campo, o príncipe regente D. João ganhou-o de presente do rico negociante Elias Antonio Lopes. Esse senhor era dono de uma chácara localizada em São Cristóvão (parte de uma das propriedades confiscadas aos jesuítas) e a casa sede estava em final de construção, quando D. João foi visitá-la. O príncipe regente ficou admirado com a grandiosidade do imóvel e, ao que dizem, fez comentários elogiosos, o que levou o proprietário a presenteá-lo. Com status de palácio nobre, foi batizado de Palácio Real da Boa Vista

Por fim, o palácio rural da monarquia foi instalado na Real Fazenda de Santa Cruz! Pronto para ser ocupado, tinha muitos quartos — antigas celas dos jesuítas — salão, cozinha e igreja. Na verdade, seus aposentos não eram dignos de um monarca europeu: necessitavam de grandes reformas, decoração requintada e muitas ampliações. Em agosto de 1808, o príncipe regente D. João já despachou do seu Paço de Santa Cruz. Porém, durante os 13 anos em que governou o Brasil, não fez as obras necessárias para adequar melhor o palácio às funções de residência rural da monarquia.

D. Pedro I, entretanto, encomendou ao seu arquiteto particular, o francês Pierre Joseph Pezerat, autor da reforma do palacete da marquesa de Santos, o levantamento das construções existentes no conjunto do palácio e um projeto de reforma do mesmo. [...] Do ponto de vista de quem olha o palácio de frente, ele ainda não possuía o trecho da fachada à direita da igreja, construído posteriormente, no governo do imperador Pedro II. Debret e Thomas Ender registraram, em belas perspectivas, esse conjunto de edificações desenhado em planta baixa por Pezerat.

Muitas obras de urbanização e a edificação de novos imóveis em apoio às funções palacianas foram realizadas. O largo em frente ao palácio foi urbanizado e foi melhorada a Real Estrada de Santa Cruz. Novos logradouros foram abertos e neles aforados terrenos para construção de casas térreas e sobrados, alguns requintados, para abrigar atividades comerciais e os nobres e ricaços sequiosos de desfrutar a convivência com o poder real.

Casarão de 1896 com bela fachada adornada com mísulas "sustentando" a cornija, platibanda vazada e coroada por compoteiras laterais e um frontão de inspiração barroca, na rua Felipe Cardoso, esquina com Dr. Continentino.

Batalhão Vilagran Cabrita na Praça Ruão (300 metros ao norte da estação de trem), antiga sede (ampliada e modificada) e igreja da fazenda dos jesuítas.

Batalhão Vilagran Cabrita: antigo portal da igreja, único traço barroco que restou do conjunto original.

Maquete (no Centro Cultural de Santa Cruz) da antiga sede e igreja da Fazenda dos Jesuítas que depois deu lugar ao Batalhão Vilagran Cabrita.


Matriz Nossa Senhora da Conceição (perto da Praça Dom Romualdo) em dia de chuva intensa.

Igreja de Nossa Senhora da Glória na Praça Santa Cruz num belo dia de sol.

Casas antigas (Rua Senador Câmara).

Lembranças pessoais (1971-2003), capítulo do livro Santa Cruz: Uma Paixão de Nireu Cavalcanti

[...]
Imbuído desse novo espírito, fui in loco reconhecer e apreciar os monumentos históricos de Santa Cruz.

O núcleo principal da fazenda jesuítica, depois, sucessivamente, da Coroa portuguesa e da brasileira, situado em platô no alto de uma suave colina, estava profundamente modificado. Do antigo largo do Paço, hoje praça Ruão, só ficou o traçado, a forma retangular e suas dimensões. No tocante às edificações, resta apenas o conjunto — muito alterado na volumetria e estética — da igreja e do palácio. Dos traços barrocos originais do prédio onde hoje se situa o Batalhão Vilagran Cabrita, só restou o portal da igreja [ver foto acima]. Apesar das transformações, esse prédio principal, com três pavimentos, apresenta volumetria proporcional e guarda certa monumentalidade e traços neoclássicos de boa arquitetura. O largo ou praça e agradável e imponente e merece ser vivenciado por quem for a Santa Cruz.

Possui o bairro outro conjunto de edificações do século XIX, de grande expressividade arquitetônica — que visitei em 1971 e revi recentemente — onde funcionou o antigo Matadouro, inaugurado solenemente às 9 horas da manha de 30 de dezembro de 1881, com a presença do imperador D. Pedro II, dos vereadores, de membros do ministério e de grande multidão, tendo recebido a benção do padre Dâmano do Rego Barros. Localiza-se em ampla quadra entre as ruas das Palmeiras Imperiais, do Matadouro, do Ferreira e o largo do Bodegão. Formava um conjunto arquitetônico significativo, como se pode constatar pelas belas ruínas do bloco principal, do qual restou parte da fachada com sua interessante seqüência de vãos de portas e janelas dotados de vergas circulares [ver foto acima]. As edificações de apoio permaneceram, delas destacando-se o majestoso sobrado onde funcionava a administração do Matadouro, depois ocupado pela Escola Santa Isabel. Se em minha primeira visita a esse belo conjunto senti um misto de emoção estética e tristeza por constatar o abandono em que se encontrava, trinta anos depois encontrei-o revitalizado e abrigando a sede do Cetep Santa Cruz (Centro de Educação Tecnológica e Profissionalizante), ligado à Secretaria de Estado de Ciência e Tecnologia, inaugurado em 26 de setembro de 1998. Nesse Centro funcionam uma escola técnica, uma de ensino industrial, Centro de Informática, um centro referencial de informações, a escola 24 horas de apoio ao estudante, creche e amplo complexo esportivo. Frequentam o Cetep, cerca de 10 mil alunos.

O prédio da antiga Escola Santa Isabel passou por ampla reforma, que o fez renascer e realçou-lhe a beleza neoclássica. Hoje, abriga o Centro Cultural de Santa Cruz [ver foto do Palácio Santa Isabel acima], com varias atividades e funções. Foi tombado pelo município em 7 de maio de 1981 e nele funciona o Ecomuseu e o NOPH, associação cultural guardiã de documentos manuscritos, de publicações e de peças ligadas à história da antiga fazenda dos jesuítas. Acham-se ali expostos uma arca e um sacrário em madeira entalhada, pertencentes à antiga capela do período setecentista.

Outro exemplar significativo do patrimônio histórico do bairro é o hangar do Zeppelin [foto da capa do livro acima], na Base Aérea de Santa Cruz, tombado pelo município em 24 de novembro de 1992, por sua importância para a história da aviação brasileira. Trata-se de edificação de grande porte iniciada em 1934 e inaugurada dois anos depois, para abrigar os dirigíveis (Graff Zeppelin e o Hindenburg) da linha aérea entre a Alemanha e o Brasil, na rota Frankfurt-Recife-Rio de Janeiro.

Para nós, arquitetos e urbanistas, o hangar do Zeppelin tem importância para a história da arquitetura brasileira, pois foi lá que desembarcou Le Corbusier, vindo da França, a fim de divulgar os princípios da arquitetura moderna , convidado pelo ministro Gustavo Capanema, do então Ministério de Educação e Saúde. Em suas memórias, o arquiteto Lúcio Costa registra a sua ida junto a uma comissão para receber o ilustre visitante: “"Fomos todos de madrugada [12/07/1936] esperá-lo em companhia de Hugo Gouthier, então do gabinete do ministro [Gustavo Capanema], chefiado por Carlos Drummond de Andrade.”

O ponto alto dos monumentos históricos de Santa Cruz é, sem dúvida, a Ponte dos Jesuítas [ver fotos abaixo], construída no século XVIII pelos inacianos. Além de ponte, desempenhava a função de comporta reguladora do regime das águas dos rios que transbordavam no período das grandes chuvas. Na época das secas, as comportas dos arcos da ponte eram abertas e a água se esvaía, irrigando e umedecendo o solo ressecado pelo sol. É uma das mais importantes obras de engenharia hidráulica realizada no Rio de Janeiro colonial. É lamentável que em seu entorno não haja um complexo turístico com lojas, restaurantes e salas de exposição com a história das obras jesuíticas no bairro.

Santa Cruz mudou muito ao longo do período de 1971 a 2003: perdeu, sobretudo, seu ar bucólico e tranquilo. A rua Felipe Cardoso (antiga Estrada Real de Santa Cruz), principal artéria do bairro, viu-se privada da maioria dos seus antigos casarões, substituídos por prédios novos com linguagem arquitetônica moderna. [...] Um logradouro que guarda sua imagem de trinta anos atrás é a avenida Isabel, pois lá ainda se encontram velhos casarões e arborização frondosa, com alguns espécimes majestosos.

Os antigos campos agrícolas e pastoris foram ocupados por conjuntos de edifícios residenciais, favelas, galpões e edificações industriais. Sepetiba emancipou-se de Santa Cruz e suas praias foram poluídas pelos rios que nelas deságuam[...]

Sem dúvida, Santa Cruz é um Canto do Rio que merece todo apoio do poder público e de todos os cidadãos que amam a nossa Cidade Maravilhosa, para que as suas qualidades — especificidades diferenciadoras de outros bairros, como o seu rico patrimônio histórico, arquitetônico, artístico e ambiental —, sejam preservadas. Para mim, Santa Cruz continua a ser um belo Canto do Rio.


Fonte Wallace na Praça Dom Romualdo (sob uma chuva torrencial). De autoria de Charles Auguste Lebourg, foi executada pela Fundições Val d'Osne, França. Tombada pelo Município.

Marco 11 da Estrada Real de Santa Cruz na Rua Felipe Cardoso, esquina com Av. Isabel (sob chuva torrencial — observe as pessoas se abrigando na marquise da loja).

Ponte dos Jesuítas no encontro da Estrada do Guandu com a Estrada do Cortume. "Esta ponte-comporta edificada pelos jesuítas nas terras de sua fazenda de Santa Cruz tinha a função de regularizar o curso do rio Guandu. Construção: 1740-1752" (Guia da Arquitetura Colonial, Neoclássica e Romântica no Rio de Janeiro)

Ponte dos Jesuítas (detalhe).