ENSEADA DE BOTAFOGO

ENSEADA DE BOTAFOGO
"Andar pelo Rio, seja com chuva ou sol abrasador, é sempre um prazer. Observar os recantos quase que escondidos é uma experiência indescritível, principalmente se tratando de uma grande cidade. Conheço várias do Brasil, mas nenhuma tem tanta beleza e tantos segredos a se revelarem a cada esquina com tanta história pra contar através da poesia das ruas!" (Charles Stone)

VISTA DO TERRAÇO ITÁLIA

VISTA DO TERRAÇO ITÁLIA
São Paulo, até 1910 era uma província tocada a burros. Os barões do café tinham seus casarões e o resto era pouco mais que uma grande vila. Em pouco mais de 100 anos passou a ser a maior cidade da América Latina e uma das maiores do mundo. É pouco tempo. O século XX, para São Paulo, foi o mais veloz e o mais audaz.” (Jane Darckê Avelar)
Mostrando postagens com marcador Manuel Bandeira. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Manuel Bandeira. Mostrar todas as postagens

31.10.18

O QUE É FELICIDADE, de MANOEL CARLOS

Crônica de Manoel Carlos transcrita da Veja-Rio de 10/2/2010


Andei pensando nisso ultimamente. Quem me diz? Quem me explica? Quem me define com precisão qual a identidade verdadeira dessa misteriosa e maravilhosa sensação que sentimos, que nos leva a afirmar: sou feliz? Ou, pelo menos: estou feliz? No dicionário está muito claro: felicidade é satisfação. A qualidade de estar e/ou ser feliz.
Os poetas falam muito nesse estado, mais para dizer que o desejam, que o procuram e que não o encontram. Vicente de Carvalho garante que a felicidade...
Existe, sim: mas nós não a alcançamos
Porque está sempre apenas onde a pomos
E nunca a pomos onde nós estamos.

E há também os que a encontram, mas não sabem. Ou que só ficam sabendo quando já é tarde, quando a perderam, quando a deixaram passar. Na mesma hora me vem à memória o verso de Miraí, um lindo samba de Ataulfo Alves, que, ao lembrar-se dos tempos de criança, exclama, emocionado: "Eu era feliz e não sabia!".
Lembro-me também da frase de Dorian Gray no romance de Oscar Wilde, mais ou menos assim: "Não procuro a felicidade, procuro o prazer". Mas sentir prazer não é sentir-se feliz. E estar feliz não é estar repleto de prazer? Mas também sabemos que a satisfação de Dorian Gray era extraída da dor de viver. E, principalmente, da dor que nos causa o tempo, o passar dos anos, o envelhecimento. Por isso, para ele, felicidade era ser eternamente jovem e belo.
Para os poetas e para a poesia, ser infeliz é mais inspirador do que ser feliz. Queixar-se da vida é mais comum do que louvá-la. Até nas novelas. Se o personagem vive sorrindo, logo alguém diz que ele é chato, cansativo, artificial.
Meu amigo Reynaldo é radical:
– Ninguém gosta de pessoa muito feliz. Dessas que exalam euforia e contentamento. Parece um acinte, uma afronta. Como se pode viver sem conflitos? Ser infeliz é que é o normal, porque é mais duradouro.
E Vinicius de Moraes concorda, ao afirmar:
Tristeza não tem fim
Felicidade sim.


Manuel Bandeira

Ah, os poetas! Alguns, como o nosso Manuel Bandeira, louvam a morte num poema precisamente com o nome "Felicidade":
Oh, ter vontade de se matar,
bem sei é coisa que não se diz.
Que mais a vida me pode dar?
Sou tão feliz!

Mas por que estou eu a gastar tinta, como se dizia antigamente, no tempo em que se escrevia a mão, com essa palavra tão usada e ao mesmo tempo tão obscura, que todo mundo conhece, mas que ninguém define com precisão, e que os dicionários registram, sem ênfase, em duas ou três linhas? Conto a vocês. É que lendo Um Ensaio Autobiográfico, de Jorge Luis Borges, livro que nasceu de alguns encontros que o admirável escritor argentino manteve com o americano Norman Thomas di Giovanni, seu amigo e principal interlocutor, deparei com esta declaração que Borges faz no fechamento do livro e que, pedindo licença à editora e aos tradutores Maria Carolina de Araújo e Jorge Schwartz, reproduzo aqui, de presente aos meus queridos leitores:
"Suponho que já escrevi meus melhores livros. Isso me dá uma espécie de tranquila satisfação e serenidade. No entanto, não acho que tenha escrito tudo. De algum modo, sinto a juventude mais próxima de mim hoje do que quando era um homem jovem. Não considero mais a felicidade inatingível, como eu acreditava tempos atrás. Agora sei que pode acontecer a qualquer momento, mas nunca se deve procurá-la. Quanto ao fracasso e à fama, parecem-me totalmente irrelevantes e não me preocupam. Agora o que eu procuro é a paz, o prazer do pensamento e da amizade. E, ainda que pareça demasiado ambicioso, a sensação de amar e ser amado".
Jorge Luis Borges nasceu em 1899 e morreu em 1986, aos 87 anos. O ensaio foi escrito em 1970, quando ele tinha 71 anos.

Busto de Borges em Buenos Aires

13.2.18

CARNAVAIS DE OUTRORA, de MANUEL BANDEIRA (1938)

Carnaval de rua no início do séc. XX. Foto obtida na Biblioteca Nacional Digital.

Conheci ainda o carnaval do papel-picado, dos limões-de-cheiro e do Zé-Pereira. O carnaval do Recife, na Rua da União, entre 1892 e 1896. O Zé Pereira 

Bum! Bum! Bum!
Bum! Bum-bum-bum!
Zé-Pereira!

era o baixo-contínuo que alimentava, sustentava toda a dissonante polifonia carnavalesca. Em casa de meu avô, nas casas da vizinhança, muito antes dos dias gordos, compravam-se as grandes folhas de papel de seda, brancas, verdes, azuis, cor-de-rosa, e durante semanas as tesouras trabalhavam picando papel em minúsculos quadradinhos. Eu ainda não tinha dez anos, mas já achava insensato levar horas preparando um punhado de papel picado que se iria embora pelos ares num gesto de mão que durava um segundo. Assisti ao aparecimento dos primeiros confetti, que me deslumbraram, das primeiras bisnagas, que eram como as de pasta dental atuais, das primeiras serpentinas. Das fantasias, a que mais me impressionava eram os dominós negros, as que me pareciam mais estranhas, mais misteriosas, mais poéticas.

Em 96 vim para o Rio e conheci o carnaval carioca, tão diferente do de hoje. Impossível dizer dele o que mestre Machado de Assis disse do Natal. O centro da cidade não era então a avenida Rio Branco; era uma das ruas mais estreitas e mais curtas da cidade, e também a mais elegante – a Rua do Ouvidor. Imagine-se toda a população da cidade querendo brincar na Rua do Ouvidor! O momento capital do desfile das grandes sociedades era na Rua do Ouvidor. As mais belas senhoras da cidade estavam nas sacadas.

Depois adoeci e durante anos, muitos anos, não vi senão os carnavais das cidadezinhas do interior. No Rio abriu-se a Avenida. A Rua do Ouvidor foi perdendo o seu prestígio. Quando voltei a ver o carnaval carioca, já era ele como o descreve Mário de Andrade no seu grande poema, que é de 1923:

... sangue ardendo povo chiba frêmito e clangor
Risadas e danças
Batuques maxixes
Jeitos de micos piricicas
Ditos pesados, graça popular
Coros luzes serpentinas
Coriscos coros caras colos braços serpentinas serpentinas
Sambas bumbos guizos serpentinas serpentinas


Mário esqueceu-se do éter dos lança-perfumes. Cheirava-se éter à vontade. Havia bebedeiras de éter, sobretudo no bar e no hall do Palace Hotel, o que celebrei devidamente no meu “Rondó do Palace Hotel”:

Deus do céu! que alucinação!
Há uma criatura tão bonita,
Que até os olhos parecem nus:
Nossa Senhora da Prostituição!
– “Garçom, cinco Martinis! Os
Adolescentes cheiram éter
No hall do Palace.

Depois... Depois o carnaval carioca passou a ter fama internacional. Criou-se um Departamento de Turismo, que começou a fazer propaganda do nosso carnaval. Instituíram-se prêmios. Não sei por que, se por isto ou por aquilo, ou por coisa nenhuma, a festa entrou a murchar, e o certo é que o carnaval verdadeiro, o carnaval de rua só serve hoje para fazer cinema ou tentar uma Rita Hayworth a dar as caras por estas bandas. O carnaval visto por Mário de Andrade em 1923 não existe mais...

3.2.16

CARNAVAL CARIOCA DE 1929 SEGUNDO MANUEL BANDEIRA

"O QUE É O CARNAVAL CARIOCA MESMO COM CHUVA", crônica de MANUEL BANDEIRA publicada em A PROVÍNCIA DE 3 de março de 1929. Ilustrações da REVISTA DA SEMANA.


O mau tempo prejudicou muito os festejos do Carnaval carioca, o carnaval popular, o das ruas — porque o dos salões, o da gente rica, esteve mais animado do que nunca. (No Copacabana Palace venderam-se entradas para 3 mil pessoas e setecentas mesas bordavam nos sete salões o retângulo central reservado aos dançarinos. Com a chuva incessante que caía a partir das quatro horas da tarde, não havia outra coisa a fazer senão entrar num teatro ou num hotel para maxixar ou beber. E havia às vezes lá dentro coisas curiosas de ver.

Baile do Copacabana Palace Hotel em foto publicada na Revista da Semana de 8 de março de 1924, segundo ela "a mais brilhante nota do Carnaval deste anno, reunindo em seus vastos e luxuosos salões a grande sociedade brasileira, numa festa admirável de belleza e alegria".

O hall e bar do Palace, por exemplo, é um ponto que intermitentemente assume aspectos divertidos. Ali se juntam os exemplares mais disparatados da sociedade: a menina de olhos ingênuos, prostitutas, artistas, o chefe de polícia, cocainômanos e canalhas, políticos. A alegria é provocada por meia dúzia de rapazes que beberam demais e circulam de copo na mão, cantando, dançando e dizendo à direita e à esquerda bestialidades engraçadas. Cheira-se o éter à vontade. Há quem traga lança-perfume só para o seu lenço. E quem o está gastando nos outros recebe de vez em quando pedidos de prise [=dose de droga na gíria da época] no lenço estendido. Alguns rapazes excedem-se e deitam-se num recanto do bar embriagando-se de éter indiferentes a tudo o mais.

Baile do Copacabana Palace Hotel.

Outro espetáculo curioso é o do Teatro Fênix que se especializou em bailes para homens. Ali as senhoras pagam entrada porque não é possível distingui-las dos tipos que se fantasiam de mulher com uma perfeição em que não entra somente a habilidade e a arte, mas o temperamento também. E há-os de todas as cores, de todas as idades, de todos as classes, nacionais e estrangeiros. O círculo de mirones [=espectadores] toma com eles liberdades cruéis que vão do carinho acanalhado ao pontapé de troça. No meio disso sujeitos maduros, de capote, guarda-chuvas e óculos de tartaruga combinando com seriedade encontros acenando os dedos para ajustar preços. Aqui e ali, nas frisas e camarotes, a timidez de um grupo cuidadosamente mascarado trai a família que veio só para ver. Aquele português porém instalou-se com a sua gente numa mesa da platéia em plena bagunça. A mulher traz ao colo um menino de peito e amamenta-o ali mesmo. De um camarote bisnagam-lhe o seio exposto. O português dana-se, não por causa do seio mas por causa da criança: “Olha a criança, seu estúpido!” Passa lindo rapaz que a assistência aclama de miss Brasil. E João, que está comigo, confessa desesperado que há nos olhos da falsa mulher qualquer coisa que ele nunca encontrou nas mulheres de fato.

Como festa popular a segunda-feira, consagrada aos ranchos, é o dia mais característico. Esses ranchos resultaram da evolução dos antigos cordões, nenhum dos quais substitui na forma e organização primitivas. Eram blocos bem mais reduzidos que os ranchos atuais. Vinha à frente do estandarte um grupo de índios, caprichosamente fantasiados, executando umas danças de guerra que serviam para abrir caminho entre o povo; seguiam-se ao pé do estandarte os “velhos”, de passo grotesco, com as enormes cabeças de papelão oscilando em longos bastões; depois duas alas de sócios vistosamente trajados, tangendo as chulas [=canto seresteiro] no couro teso dos pandeiros; e atrás finalmente a canalha que não teve dinheiro para a fantasia, os amigos do clube ou simples curiosos.


O Ameno Resedá, o Flor de Abacate e outros grupos mais ricos começaram, de uns dez anos para cá, a aumentar e complicar o cortejo. Hoje são sociedades para julgamento de cujos préstitos o Jornal do Brasil, instituidor do Dia dos Ranchos, reúne no júri profissionais de cenografia, dança, música, e até de bordado — porque há um prêmio de estandarte que requer as luzes de um artista bordador. Os outros prêmios são de harmonia e enredo, fora os títulos de campeão e vice-campeão.

Nos ranchos há batedores a cavalo, clarins, comissões de honra precedendo o “enredo”, atrás do qual vem uma verdadeira banda instrumental e coros obrigados a engraçados regentes que andam de um lado para o outro atentos à harmonia do conjunto. A iluminação do cortejo, que a princípio era a querosene ou acetileno, é hoje feita de maneira engenhosa. O rancho inteiro fica envolvido num cordão de fio elétrico ligado a baterias dispostas num caminhão que fecha o préstito. De espaço a espaço saem ramais para as varas dos candelabros de quatro ou cinco lâmpadas elétricas, carregados a mão. Esse cordão ao mesmo tempo isola o rancho da massa popular. O efeito é muito característico.

Rancho carnavalesco Caprichosos da Estopa na noite de segunda-feira na Avenida Rio Branco. Revista da Semana de 25 de fevereiro de 1925.

Para dar uma ideia do que são os “enredos” basta citar dois deste ano. Os Caprichosos da Estopa [foto acima] apresentavam a história de Salomé “baseada na imortal obra do grande escritor inglês Oscar Wilde”. Os Parasitas de Ramos [foto abaixo] buscaram inspiração na história do Brasil revivendo cenas de costumes do nosso passado: os presos carregando água, a sinhá transportada na cadeirinha, o negro apanhando no pelourinho, os anjinhos das procissões… As personagens de todas essas cenas eram criancinhas, o que acrescia ainda mais a deliciosa ingenuidade do cortejo.

"Os ranchos são a nota decorativa da alegria carioca, o carnaval dos pequenos, a kermesse dos humildes." Rancho Parasitas de Ramos na Revista da Semana de 13 de fevereiro de 1932.

É na praça Onze que esses ranchos são mais apreciados. Para lá aflui o povinho miúdo, a mulataria que dá cor e pitoresco ao carnaval famoso da praça. Ali há duas coisas gostosíssimas de ver: os “sambinhas” e as “batucadas”.

Os primeiros são rodas de baianas pegadas de colares de contas doiradas revezando-se em solos de samba. É impressionante espetáculo quando alguma boa velha cai na roda dançando de olhos fechados, religiosamente, como as macumbas.

As “batucadas” improvisam-se e desmancham-se logo porque a polícia dá-lhes caça. Consistem numa dança de capoeiragem ao som do batuque. Formado um largo quadrado ou retângulo o pessoal da rapa [=rasteira] entra a saltar, tentando derrubar uns aos outros ou aos que fecham o quadrado. De vez em quando um tombo de rasteira diverte os espectadores. Mas o prazer é perigoso: toda aquela gente tem cara inquietante e é de fato a pior malandragem da cidade. Volta e meia a brincadeira degenera em conflito e acaba em navalhadas.



Arlequim, ilustração de M. Constantino na Revista da Semana de 9 de fevereiro de 1929

Baile à Fantasia no Tijuca Tênis Clube na Revista da Semana de 9 de fevereiro de 1929

1.8.10

POEMAS DE AMOR AO RIO

VEJA TAMBÉM NESTE BLOG: 33 DECLARAÇÕES DE AMOR AO RIO clicando AQUI.


Três poemas do ROTEIRO SENTIMENTAL DO RIO DE JANEIRO de OSVALDO ORICO, tradução do espanhol para o português de ÉLIO MONNERAT SÓLON DE PONTES (com pequenas modificações pelo editor do blog)



Soneto Introdutório

Depois de ver os mundos que criara,
Cheios de força, cheios de esplendor,
Deus, em certa manhã formosa e clara,
Não bastando ser Deus, fez-se pintor.

Quis dar à vida outro primor,
E com as tintas que o Éden pintara,
Pôs em quadro de cumes e de cor
A curvatura azul da Guanabara.

É assim, oh!, viandante deslumbrado!,
Que vês, de longe, sobre o Corcovado,
O criador em sua pintura estranha;

E miras rutilante de beleza,
Cristo desabrochar da Natureza,
Como um lírio de luz sobre a montanha.


Descobrimento

Sempre que volto a ti de uma jornada,
Compraz-se em seguir, meu pensamento,
O rosário de luz e o movimento
De tua preciosa e límpida enseada.

No esplendor de tal descobrimento,
Não sabe distinguir nossa mirada
Onde fica, afinal, o firmamento:
Se no Alto ou na terra platinada.

Quando te vejo ao despontar do dia,
Sinto um capricho da geografia
Marcar em fímbria azul os horizontes;

A cidade, despindo-se nas raias,
Ao fundo do decote de suas praias,
Mostra os seios de pedra dos seus montes...


O Largo do Boticário

Árvores. Sossego.Tranquilidade.
Aqui não chega o rumor da esquina,
E parece que existe uma cortina,
Separando dois tempos da cidade.

E o silêncio, a alma, a surdina,
O berço pleno de hospitalidade
No qual vem abrigar-se esta cidade,
Recordando seus tempos de menina...

Para o divino alívio dos seus males,
Nada como estes velhos arrabaldes
Que falam de um lirismo feiticeiro,

Em que os dedos de luz de sua mão
Tangiam um piano, com emoção.
Usando um candelabro por luzeiro.

Para adquirir o primoroso livro ROTEIRO SENTIMENTAL DO RIO DE JANEIRO em edição bilíngue espanhol-português visite o blog da Editora Muiraquitã.


RIO DE JANEIRO
Manuel Bandeira

Louvo o Padre, louvo o Filho
E louvo o Espírito Santo.
Louvado Deus, louvo o santo
De quem este Rio é filho.
Louvo o santo padroeiro
— Bravo São Sebastião —
Que num dia de janeiro
Lhe deu santa defensão.

Louvo a cidade nascida
No morro Cara de Cão,
Logo depois transferida
Para o Castelo, de então
Descendo as faldas do outeiro,
Avultando em arredores,
Subindo a morros maiores,
— Grande Rio de Janeiro!

Rio de Janeiro, agora
De quatrocentos janeiros...
Ó Rio de meus primeiros
Sonhos! (A última hora
De minha vida oxalá
Venha sob teus céus serenos,
Porque assim sentirei menos
O meu despejo de cá!)

Cidade de sol e bruma,
Se não és mais capital
Desta nação, não faz mal:
Jamais capital nenhuma,
Rio, empanará teu brilho,
Igualará teu encanto.
Louvo o Padre, louvo o Filho
E louvo o Espírito Santo.


são sebastião
Nel Meirelles

as ruas
me atravessam

as esquinas
guardam meus pedaços

as largas avenidas
amaciam meus passos

o sol do arpoador
me descobre a alma

bangu, campo grande, realengo
são trilhas de longas caminhadas

tijuca, ipanema e são cristóvão
canções de todos os carnavais

e minha mangueira
plantada no alto do morro
é a alma desse rio de janeiro
que vive e revive em mim


cidade da felicidade
CAIRO TRINDADE

cidade da felicidade
a capital do samba & da poesia

Do alto do céu, nas nuvens, vislumbro o Corcovado,
o Pão de Açúcar, a Pedra da Gávea e a Floresta da Tijuca,
– o mistério e a magia da cidade mais bela do mundo.
(Vislumbro e me deslumbro.)
Ao chegar no Galeão, minha alma canta, em tom maior,
e eu vejo o mar, as aves e ilhas – as maravilhas do Rio.
(Todas me arrebatam.)
O ar da terra me invade
– o ar dor da raça, o ar da praia, o ar da graça.
Desço com certa solenidade
como se estivesse chegando no paraíso
– um plano de fantasia e plena liberdade.
Peço licença a São Sebastião, aos deuses do Carnaval
e ao povo carioca – o mais feliz que eu já vi.
Ao pisar o chão do coração do Brasil,
meu peito pulsa e eu sinto, dentro, um frenesi.
Atravesso túneis e sóis, em êxtase e volúpia,
e de repente estou entre os Jardins do Flamengo.
(Dá vontade de viver tanta beleza. E eu quase choro.)
Passeio pela Baía, pela Enseada, pela Lagoa,
até chegar a meu destino – um lugar que não existe!
Copacabana sorri sensual, abre os braços e me envolve.
Avassaladoramente.
Eu me entrego, possuído pela paixão.
(E, enfeitiçado, gozo.)


CANTO DO RIO EM SOL (parte II)
Carlos Drummond de Andrade

Rio, nome sussurrante,
Rio que te vais passando
a mar de estórias e sonhos
e em teu constante janeiro
corres pela nossa vida
como sangue, como seiva
— não são imagens exangues
como perfume na fronha
... como a pupila do gato
risca o topázio no escuro.
Rio-tato-
-vista-gosto-risco-vertigem
Rio-antúrio.

Rio das quatro lagoas
de quatro túneis irmãos
Rio em ã
Maracanã
Sacopenapã
Rio em ol em amba em umba sobretudo em inho
de amorzinho
benzinho
dá-se um jeitinho
do saxofone de Pixinguinha chamando pela Velha Guarda
como quem do alto do Morro Cara de Cão
chama pelos tamoios errantes em suas pirogas
Rio, milhão de coisas
luminosardentissuavimariposas:
como te explicar à luz da Constituição?


NOITE CARIOCA
Murilo Mendes

Noite carioca

Noite da cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro
tão gostosa
que os estadistas europeus lamentam ter conhecido tão tarde.
Casais grudados nos portões de jasmineiros...
A baía de Guanabara, diferente das outras baías, é camarada,
recebe na sala de visita todos os navios do mundo
e não fecha a cara.
Tudo perde o equilíbrio nesta noite,
as estrelas não são mais constelações célebres,
são lamparinas com ares domingueiros,
as sonatas de Beethoven realejadas nos pianos dos bairros distintos
não são mais obras importantes do gênio imortal,
são valsas arrebentadas...
Perfume vira cheiro,
as mulatas de brutas ancas dançam nos criouléus suarentos.

O Pão de Açúcar é um cão de fila todo especial
que nunca se lembra de latir pros inimigos que transpõem a barra
e às 10 horas apaga os olhos pra dormir.


Dois poemas iniciais do ROTEIRO LÍRICO DO RIO DE JANEIRO de GEIR CAMPOS

O AMADOR

Acordo com
                teu nome

na boca
                é doce

nos ouvidos
                é música

nos olhos
                madrugada

no rosto
                é brisa

nas mãos
                é guia

nos pés
                a estrada
                sonhadora

E A COISA AMADA

cidade minha

quasedigo
                    e pauso
                                  e penso

em verdade
                    sou eu
                                que
                                        a ti
                                              pertenço


Dois poemas (em francês) do livro LA VILLE MERVEILLEUSE (A Cidade Maravilhosa) de JANE CATULLE MENDÈS, que visitou o Rio em novembro de 1911 e se encantou com a cidade.

PREMIERS JOURS (início e final)
Tout est couleur de ciel, de soleil, de trésor.
Je ne vous croyais pas si belle, ô Ville d’or,
Majesté souriante et clarté vapoureuse,
Je ne vous croyais pas, avec vos arbres fiers,
Avec vos sommets bleus, avec vos gouffres verts,
          Si touchante et si généreuse.

[...]

O terre triomphale, ardente, révélée,
Que mon instinct d’aimer a choisi pour séjour,
C’est la première fois que mon âme est comblée.
Rio, votre beauté est égale à l’amour,
On n’est pas seule alors que l’on est avec elle
Et chacun de vos jours vous consacre immortelle.
Il est tant de jeunesse et tant de volupté
Dans vos arbres, vos fleurs, vos parfums, votre été,
          Votre grâce chaude et profonde,
Votre luxe fougueux, votre férocité,
Qu’on ne peut convevoir ici la fin du monde.
Vout êtes une reine au front doux et vermeil
Et la sauvage enfant qu’adore le soleil,
          Suave, accomplie, indocile,
Vous êtes fabuleuse encore et puérile.
J’arrive, et ne sais rien de vous que votre nom
Et que votre beauté. Je ne sais rien, sinon
Que je me sens joyeuse en vous, que je vous aime ;
Vous contentez le rêve au-delà de lui-même,
On apprend près de vous le bonheur d’ignorer,
Chaque fois qu’on se penche ou qu’on lève la tête,
On est heureux de vivre, heureux d’être poète
Et d’avoir un cœur prêt toujours à délirer ;
Et je veux, ô Rio splendide et caressante,
                    Charme, émerveillement,
Grandir votre beauté d’une voix qui la chante
                    Mélodieusement.

ADIEU
          
Quelques jours s’éteindront, et puis je partirai.
Je ne serai plus là, tendre et contemplative,
Avec mon cœur docile à ce qui le captive,
Rio douce et fougueuse au visage doré,

J’aurai chanté ta force et ton charme admiré,
Le secret enflammé de ta foi primitive,
Ton angoisse de toute haute tentative,
Et prédit l’avenir qui vient selon ton gré.

Je t’aurai fait le bien que l’on fait quand on aime,
Je te dirai merci de ta beauté suprême,
Et puis, me détournant une dernière fois,

Je partirai. — Puisses-tu, Ville éblouissante,
Garder un peu de temps l’ombre de la passante
Et l’écho recueilli de sa légère voix.


CARTÃO POSTAL
Amélia Alves

Aos pés do Redentor, o tiro no Santa Marta
espalha castelos de cartas no asfalto da zona sul.

Rio que te quero ver,
do alto do Corcovado escorres desejos de ser
somente sol, serra, mar, batuque e carnaval!

Rio que te quero mal,
no espelho da Lagoa,
expias culpas dessa vida boa:
— Copacabana, princesinha do mar,
onde te encontro presente
percebo teu passado
e pressinto o futuro!

Rio que te quero pão, açúcar e verde,
da janela vislumbro cristos e fomes.
E mato e morro.

Do livro Atrás das borboletas azuis (Oficina do Livro, 2005)




MODINHA
Vinicius de Moraes

[...]

Quero brincar com a minha cidade.
Quero dizer bobagens e falar coisas de amor à minha cidade.
Dentro em breve ficarei sério e digno. Provisoriamente
Quero dizer à minha cidade que ela leva grande vantagem sobre todas as
                                                                                          outras namoradas que tive
Não só em km2 como no que diz respeito a acidentes de terreno entre os
                        quais o número de buracos não constitui fator desprezível.
Em vista do que pegarei meu violão e, para provar essa vantagem, sairei
                                                                                             pelas ruas e lhe cantarei
                                                                                                    a seguinte modinha:

MODINHA

Existe o mundo
E no mundo uma cidade
Na cidade existe um bairro
Que se chama Botafogo
No bairro existe
Uma casa e dentro dela
Já morou certa donzela
Que quase me bota fogo.

Por causa dela
Que morava numa casa
Que existia na cidade
Cidade do meu amor
Eu fui perjuro
Fui traidor da humanidade
Pois entre ela e a cidade
Achei que ela era a maior!

Loucura minha
Cegueira, irrealidade
Pois realmente a cidade
Tinha, como é de supor
Alguns milhares de km2
E ela apenas, bem contados
Metro e meio, por favor.


amado
líria porto

rio rio rio rio

quedo-me em teu leito
sem saber direito
onde vou parar
caio nos teus braços
abraços e beijos
levas-me contigo
deságuas-me ao mar

rio rio rio rio

em tua correnteza
roço-te as margens
afundo-me ao meio
mergulho-me em ti
rolo feito seixo
pelas tuas praias
estamos amarrados
atados por um fio

rio rio rio rio

finjo-me sereia
n’areia me deitas
cobres-me o corpo
o céu diz amém
sou tua a amante
assim por inteiro
és meu rio amado
rio de janeiro

rio rio rio rio


UM BAIANO NO RIO
Moraes Moreira

Quatrocentos e cinquenta janeiros
Tem este Rio
Nas águas do desafio
Esta cidade se aguenta
Resiste e se reinventa
Complexa geografia
Revela a fotografia
Na hora que o sol desmaia,
Nas curvas de Niemeyer
Toda beleza irradia

Provoca tanta cobiça
Esta cidade mulher
Nenhuma outra qualquer
Encanta e nos enfeitiça
A sua gente mestiça
Sabe viver nesta terra
Enxerga em meio a esta guerra
O horizonte da paz
Grande é o milagre que faz
Imenso o amor que se encerra

Cidade dos brasileiros
João Gilberto dizia
Na Glória e seus Outeiros
Nas águas dessa Baía
Recebe com simpatia
E uma alegria invulgar
Gente de todo lugar
Seja operário ou artista
O visitante, o turista
E quem vier para ficar

O jeito do carioca
É muito peculiar
Aqui a gente se toca
E sempre quer abraçar
O modo de se falar
É de um sotaque gostoso
Naturalmente charmoso
Baiano aqui não se cala,
Eu sou um deles, que fala:
O Rio é maravilhoso!

Publicado no Caderno Especial de O Globo, de 1/3/2015, dedicado ao aniversário da cidade


CIDADE MARAVILHOSA
Olegário Mariano

Cidade maravilhosa!
Na luz do luar, fluídica e fina,
Lembra excêntrica bailarina,
Corpo de náiade ou sereia,
Desfolhando-se em pétalas de rosa,
Com os pés nus sobre a areia.

Cidade do gozo e do vício!
Flor de vinte anos, rosa do desejo!
Corpo vibrando para o sacrifício,
Seios à espera do primeiro beijo.

Cidade do Amor e da Loucura,
Das estrelas errantes... Para vê-las,
Vibra no olhar de cada criatura
Uma ânsia indefinida
Pelo brilho longínquo das estrelas
Que é, como tudo, efêmero na vida.

Cidade do Êxtase e da Melancolia,
De dias tristes e de noites quietas;
Sombra desencantada da alegria
Dos que vivem de lágrimas, os poetas.

Cidade de árvores e sinos.
De crianças e jardins. Flor das Cidades;
Berço de ouro de todos os Destinos,
Fonte eterna de todas as Saudades.


DOIS POEMAS CARIOCAS
Jamil Damous

BOTAFOGO

aqui estou
no centro da linha que liga
o pão de açúcar ao corcovado
no coração de botafogo
entre a clausura e o abraço
o pecado e a redenção
o crepúsculo e a aurora
entre ícones (cartões postais
que a ninguém envio)
faço minha viagem diária
a bordo do sol ardente
e da melancólica lua

MONTANHA PORTÁTIL

Corcovado,
minha montanha portátil.
Aonde quer que eu vá nesta cidade,
ela vai comigo, em meu olhar.
E mesmo quando saio de viagem,
costumo carregá-la,
compacta e leve,
na mala do meu lembrar.



RIO 450 ANOS
Ivo Korytowski 

Nasceste três vezes, ó minha cidade natal:
Primeiro, por obra dos invasores lá da França;
Segundo, à entrada da barra, onde é a Urca atual;
Terceiro: Morro do Castelo pra mais segurança.

Contornando morros, enfrentando brejos, mangais
Foste te espraiando depois que pra várzea desceste,
Pois, ao contrário de outras cidades convencionais,
Em planície à margem de um grande rio não nasceste.

Sob a proteção do santo flechado, Sebastião,
A capital do vice-reino foste alçada em glória,
Recebeste Dom João fugido de Napoleão,
Testemunhaste grandíssimos eventos da História.

De dois imperadores assististe à coroação,
Aqui a Lei Áurea libertou a raça cativa,
Aqui da República deu-se a proclamação,
Foste a capital da nação até surgir Brasília.

Já são 450 anos de existência.
Que contrastes: mar, mata, metrópole — esplendor!
Favela, asfalto, tradições, samba, malemolência...
À cidade querida declaramos nosso amor!


APELO
Alexei Bueno 

Quando, cidade, eu deixar-te,
Em que mundos pulsará
Esta falta que já está
Por aqui, por tanta parte?

Esta saudade sem termo
Para onde irá? Que desgraça
O exílio do que se passa
No teu corpo infante e enfermo.

Nunca mais, manhã bem cedo,
Caminhar na Rua Larga
Entre os caminhões de carga
E o abrir portas, que degredo.

Nunca mais o Bar do Joia,
O Gaúcho, o Paladino.
O que há depois do destino?
Sem mãos, que mão nos apoia?

Nunca mais os sebos reles
Da Feijó, da Tiradentes,
Nem as luzes descendentes
Sobre as mais diversas peles.

Nunca mais o Hotel Planalto,
O Triângulo das Sardinhas,
Velhas pedintes mesquinhas,
A corrida após o assalto.

O ouro vítreo das tulipas,
Os sinos nas rijas torres,
As querelas entre os porres,
O óleo sujo a fritar tripas.

Nem o Campo de Santana
Com estátuas, ébrios, putos,
Nem pombos nos cocurutos
De uns heróis que a brisa abana.

Nem a Rua do Ouvidor,
Rosário, Gonçalves Dias,
Quilométricas de dias,
De longas filas de dor.

Nem o Largo da Carioca
Pleno de povo e de lixo,
Papéis de jogo de bicho
Que um vento cego desloca.

Nem Lapa, nem Cruz Vermelha,
Gamboa, e os burros-sem-rabo
Rinchando, ou pipas num cabo
De luz, nem matos na telha.

Nem descer a Rio Branco,
Cinelândia, Serrador...
É possível tal horror,
Tal golpe à esquerda, no flanco?

Resta-me ser um fantasma,
Acolhe-me, pois, qual sombra,
Cidade que amo e me assombra,
Num tempo que o tempo plasma.

Deixa-me, espectro, cruzar-te,
Eterno, nesses lugares
Que são e foram meu lares,
Eu, teu cerne e tua parte.

OBRIGADO POR VISITAR MEU BLOG, E VOLTE SEMPRE. CONHEÇA TAMBÉM MEUS VÍDEOS SOBRE O RIO DE JANEIRO: