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Banco Central, antiga Caixa de Amortização, da primeira geração de prédios da então Avenida Central, contrastando com prédio moderno. |
Em crônica de 22 de março de 1929, escreveu Manuel Bandeira:
O Rio festejou no dia 8 o jubileu da sua grande Avenida. Todas as casas de comércio hastearam a bandeira nacional. À noite houve corso. [...]
A avenida estava linda como sempre. Ela não precisa de decorações suplementares para tomar aspecto festivo. Na realidade de todos os dias já é uma festa perpétua para os olhos: alegria dos cariocas e dos provincianos em trânsito. [...]
Nasceu quase de improviso. Em um mês derrubaram centenas de paredes, trabalho em que se empregou desde a dinamite até a junta de bois. E houve um bloco de casarões que foi arrasado pelo incêndio proposital. A abertura da avenida não foi uma obra friamente projetada e executada. Antes parecia uma obra de paixão. [...]
Houve pessimistas que duvidavam do êxito da empresa. Vamos ter uma avenida de escombros, diziam eles. Nem em cinco anos se edificará... Os preços dos terrenos são excessivos para a escassez atual de dinheiro...
Depois apareceram os críticos que a olho julgaram errado o eixo de abertura. Isso tudo provocava um sem-número de comentários. Foi assim que se rasgou a Avenida, nesse ambiente de viva e controvertida curiosidade.
E como foi por ela que começou a transformação urbanista do Rio, ela ficou como símbolo daquela transformação. (Manuel Bandeira, Crônicas inéditas I, Editora CosacNaify, pp. 177-8)
O Rio festejou no dia 8 o jubileu da sua grande Avenida. Todas as casas de comércio hastearam a bandeira nacional. À noite houve corso. [...]
A avenida estava linda como sempre. Ela não precisa de decorações suplementares para tomar aspecto festivo. Na realidade de todos os dias já é uma festa perpétua para os olhos: alegria dos cariocas e dos provincianos em trânsito. [...]
Nasceu quase de improviso. Em um mês derrubaram centenas de paredes, trabalho em que se empregou desde a dinamite até a junta de bois. E houve um bloco de casarões que foi arrasado pelo incêndio proposital. A abertura da avenida não foi uma obra friamente projetada e executada. Antes parecia uma obra de paixão. [...]
Houve pessimistas que duvidavam do êxito da empresa. Vamos ter uma avenida de escombros, diziam eles. Nem em cinco anos se edificará... Os preços dos terrenos são excessivos para a escassez atual de dinheiro...
Depois apareceram os críticos que a olho julgaram errado o eixo de abertura. Isso tudo provocava um sem-número de comentários. Foi assim que se rasgou a Avenida, nesse ambiente de viva e controvertida curiosidade.
E como foi por ela que começou a transformação urbanista do Rio, ela ficou como símbolo daquela transformação. (Manuel Bandeira, Crônicas inéditas I, Editora CosacNaify, pp. 177-8)
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À esquerda o antigo Morro do Castelo, que veio a ser demolido na década de 1920, dando lugar à Esplanada do Castelo (ou simplesmente "Castelo"). Foto de autor desconhecido obtida no site do BNDES. |
"Hoje deve ser entregue ao transito publico a primeira Avenida construída no Rio de Janeiro, que recebeu o nome de Central [atual Av. Rio Branco].
Como é igualmente sabido, esta grande arteria será officialmente inaugurada hoje pelo Sr. presidente da Republica, que cortará as fitas que a fecham.
Quasi todos os predios concluídos terão as suas fachadas ornamentadas com bandeiras e galhardetes." (Fonte: Hemeroteca Digital)
No dia seguinte, noticiava o Jornal do Commercio:
"Raras vezes um acontecimento publico terá attrahido a uma extensa área da cidade mais gente do que a inauguração da Avenida Central attrahio hontem desde pela manhã á zona urbana, vulgarmente conhecida pelo nome de ‘centro’. [...]
O facto demonstra o grande interesse da população pelo importante melhoramento que o actual Governo lega á Capital do paiz. Esse interesse, apressamo-nos em dizel-o, é de todo justificado. O extrangeiro que visitar agora a nossa Capital ja tem na Avenida um bello exemplo do progresso material que o Rio de Janeiro se sente resolvido a realizar." (Fonte: O Rio de Janeiro através dos jornais de João Marcos Weguelin)
"A esperança de um bello dia sagrando uma bella data e uma bella obra desfez-se, infelizmente; o sol não veiu, e foi sob um aguaceiro impertinente e odioso, fino e pulverizado a começo, grosso e encharcante depois, que se fez hontem a inauguração da formosa avenida que foi, no dia da festa da Republica, a concretização mais evidente e irrecusavel das suas promessas de melhores dias. O ceo amanheceu turvo e torvo se conservou até a noite, como uma carranca de sebastianista impenitente.
A despeito disto, a inauguração da Avenida Central e as festas commemorativas que se confundiram neste facto, tiveram um brilho consolador. Não houve sol, mas houve enthusiasmo; e a multidão que veiu para a rua e que a despeito do chuveiro se derramou pela grande via, enchendo-a de vida e movimento, nella se conservou até desapparecer no angulo da rua do Passeio o ultimo soldado da desfilada militar; valeu como consagração e calor pelo mais claro sol destes claros dias de novembro." (Fonte: Hemeroteca Digital)
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Sede do Jornal do Brasil na Avenida Central, durante alguns anos o prédio mais alto da cidade. Foto de 1908 de Marc Ferrez obtida no site do Instituto Moreira Salles. |
A cobertura do Correio da Manhã no dia 16/11 foi menos cor-de-rosa, chamando a atenção para supostas "negociatas" durante as obras:
"A chuva interrupta que cae sobre a cidade, desde ante-hontem, à noite, não permittiu que a inauguração da Avenida Central, tivesse o brilhantismo annunciado.
É realmente doloroso que tal acontecesse e somos os primeiros a sentir que as despezas feitas pelo Thesouro não produzissem o effeito desejado.
A inauguração, apezar do numero de pessoas presentes, esteve fria. O conselheiro Rodrigues Alves foi, durante longo tempo, acompanhado por uma enormidade de garotos, que pulavam de um lado para outro lado, formando um sequito incommodo e alvorecido.
O povo, divorciado por completo das festanças e pagodes officiaes, não teve uma acclamação, não teve um viva, para o presidente da República. É que, na sua intelligencia, enxerga bem não só a face brilhante do melhoramento inaugurado, mas também a face repulsiva, representada pelas immorallidades, pelas negociatas, pelas patifarias que acompanharam os progressos da Avenida." (Fonte: Hemeroteca Digital)
Na página 3 da edição de 22-23 de novembro de 1905, o jornal A Notícia, em matéria intitulada "Os passeios da Avenida", previa um futuro jubiloso para nossa cidade:
Nestes últimos tempos nenhum acontecimento, no Rio de Janeiro, se poderá comparar com a inauguração da Avenida Central; nenhum de tamanha magnitude e de tão grande alcance!... Está isso na consciência de todos; ingrato aquelle brasileiro que o negar. O governo da República tem sido fecundo, é o da renovação e do trabalho.
A Avenida Central é hoje realidade, está alli prompta e quase toda edificada. Do grandioso exemplo provirão fatalmente as salutares consequencias. Vislumbro, jubiloso, a prosperidade, sempre crescente, da nossa cidade.
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Palácio Monroe, antigo Senado, já demolido, na extremidade sul da Avenida. Fonte: Biblioteca Nacional Digital |
A revista O Malho, em "Chronica" assinada por J. Bocó na edição 166 de 18/11/1905, ao contrário do Correio da Manhã, considerava bem aplicado o dinheiro da Avenida:
A Avenida ahi está, na sumptuosidade da sua ampla perspectiva, orlada de bellos edificios. O povo esquece as maguas que porventura o possam entibiar, enche a colossal arteria de que elle é o sangue generoso, percorre-a de ponta a ponta, admirando os primores da architectura, compara com o presente os vestígios do passado, expresso na estreiteza das ruas affluentes, e dá por bem empregado o dinheiro que, em vez de sumir no abysmo hiante das revoltas sem pés nem cabeça, apparece-lhe alli representado numa obra realisada para o seu bem estar material e para o credito do seu prestigio moral no estrangeiro, visto como infelizmente la naturaleza não desempenha essas funções internacionaes...
Crônica de O Malho. Fonte: Hemeroteca Digital. |
Em Rio de Janeiro: Uma cidade no tempo (organizado por Evelyn Furquim Werneck Lima et al. e editado em 1992 pela Prefeitura do Rio), lemos:
"Até o final do século XIX, o centro da cidade do Rio de Janeiro, Capital Federal da república do Brasil, tinha a aparência de uma antiga cidade colonial. [...] Entretanto, a nova estrutura política do país exigia a adequação do espaço urbano às necessidades da economia braileira, que se integrava ao mercado mundial através da exportação de café. [...] Indicado em 1902 para Prefeito do Distrito Federal, Pereira Passos foi responsável pela maior reforma urbana executada até então. [...] Do ponto de vista econômico, a remodelação da cidade consistiu primordialmente na transferência e modernização do porto do Rio de Janeiro [...] Seguindo o modelo de outros grandes centros latino-americanos, priorizou-se a construção de grandes avenidas que facilitassem a circulação urbana e embelezassem a cidade. [..] A Av. Central, atual Av. Rio Branco, rasgou o centro da cidade no sentido norte-sul, às custas da demolição de centenas de casas."
Em 1912, com o falecimento do Barão do Rio Branco, a Av. Central recebeu seu nome.
Da primeira geração de prédios da Av. Rio Branco, vencedores de um concurso internacional de fachadas, com prêmios em dinheiro e a participação de 107 concorrentes, promovido pela Comissão Construtora da Avenida Central, sobrevivem dez:
- 1) Hotel São Bento, no número 19 da Av. Rio Branco, no encontro com as Ruas São Bento e Dom Gerardo
- 2) Banco Central (no número 30, antiga Casa de Amortização)
- 3) sede do Iphan (46, prédio que pertenceu à Docas de Santos)
- 4) Antigo Bar Simpatia, atual Simpatia Lotérica e outros (92, bem estreita para preservar a adjacente Igreja de Nossa Senhora da Conceição e Boa Morte)
- 5) prédio comercial (155)
- 6) Clube Naval (180, esquina com Almirante Barroso)
- 7) Teatro Municipal
- 8) Biblioteca Nacional
- 9) Museu Nacional de Belas Artes
- 10) Centro Cultural da Justiça Federal.
Uma série de fotos desses prédios que nasceram com a Avenida pode ser vista em o O Globo.
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Theatro Municipal com Carlos Gomes na frente [depois da restauração a estátua foi transferida para mais perto do teatro] |
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Rio Branco antes da implantação do VLT: uma avenida importante, mas sem o charme de outrora. |
Com a implantação do VLT o trecho da Av. Nilo Peçanha até a Cinelândia tornou-se um aprazível passeio, sem carros, só o bonde, que circula mais ou menos de quinze em quinze minutos. |
Postagem originalmente publicada em 15/11/05 quando a Avenida completou cem anos, e agora acrescida de fotos e textos novos. Outras fotos do Rio Antigo podem ser vistas clicando-se no marcador "fotos do Rio Antigo" abaixo. Saiba mais sobre a Avenida Central fazendo o download da versão em PDF do livro O Rio de Janeiro na época da Avenida Central. Veja as fotos e desenhos das fachadas dos prédios originais da Avenida Central clicando aqui.