ENSEADA DE BOTAFOGO

ENSEADA DE BOTAFOGO
"Andar pelo Rio, seja com chuva ou sol abrasador, é sempre um prazer. Observar os recantos quase que escondidos é uma experiência indescritível, principalmente se tratando de uma grande cidade. Conheço várias do Brasil, mas nenhuma tem tanta beleza e tantos segredos a se revelarem a cada esquina com tanta história pra contar através da poesia das ruas!" (Charles Stone)

VISTA DO TERRAÇO ITÁLIA

VISTA DO TERRAÇO ITÁLIA
São Paulo, até 1910 era uma província tocada a burros. Os barões do café tinham seus casarões e o resto era pouco mais que uma grande vila. Em pouco mais de 100 anos passou a ser a maior cidade da América Latina e uma das maiores do mundo. É pouco tempo. O século XX, para São Paulo, foi o mais veloz e o mais audaz.” (Jane Darckê Avelar)
Mostrando postagens com marcador violência. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador violência. Mostrar todas as postagens

10.10.18

CRIMINALIDADE NO RIO DE JANEIRO NO TEMPO DE MELO MORAIS FILHO



Alguns saudosistas têm a mania de recordar um passado “ideal”– quando os produtos eram mais baratos, havia menos violência, a vida era mais saudável – que só existe em suas fantasias. É só relembrar a história da humanidade com sua sucessão de conflitos sangrentos, invasões, atrocidades. Se o Rio no passado ainda não sofria a “guerra do tráfico”, teve, por exemplo, a Revolta da Armada, cujas balas perdidas, só em 25 de setembro de 1893, mataram um vendedor de balas no Largo do Rocio (Praça Tiradentes), uma dançarina italiana na Rua do Lavradio, além de ferirem duas crianças no Catete e danificarem diversos prédios, entre eles a igreja da Lapa dos Mercadores cuja torre foi atingida.


Nesse sentido, o livro Fatos e Memórias, publicado em 1904 e nunca mais reeditado, de Mello Moraes Filho (Melo Morais Filho na ortografia atual)  sobrinho neto de Antonio de Moraes Silva, autor de um dicionário da língua portuguesa publicado em 1890, e tio-avô de Vinicius de Moraes, que dispensa apresentação  é revelador porquanto ele mergulhou fundo no submundo carioca. “Dos muitos cronistas da vida carioca do período compreendido entre o fim do século XIX e o primeiro quartel do XX, Melo Morais Filho é dos maiores e dos menos lembrados”, diz Alexei Bueno, em Prefácio a uma edição do livro a ser futuramente lançada.

Também Melo Morais, naqueles tempos já distantes, alude a um Rio de Janeiro do passado “quando a confiança predominava entre os pacatos habitantes, e que se podia sem receio dormir a portas abertas”. Porque “agora”, ou seja, no início do século XX, quando ele escreve o livro, “ladrões de rua [...] dia e noite exercem sua arriscada profissão dentro e fora desta cidade, vergonhosamente policiada”. O triste fato é que “Não há contestar que nesta populosa capital assentaram permanentes acampamentos malfeitores e ladrões, que por aí livremente pululam, transfigurando-a em alguma coisa de arriscadamente habitável. Aqui rouba-se por todas as formas, assalta-se a qualquer hora do dia e da noite, e ninguém poderá assegurar, deixando os sobressaltados lares, se a eles voltará sem a carteira, sem o relógio, ou mesmo sem a vida.

A seguir, mais alguns trechos desse curioso livro do alvorecer do século XX que esperamos ver em breve relançado. Você também pode acessar a edição original da obra clicando aqui. As imagens foram extraídas de diversos capítulos da edição original do livro.



Para melhor formular um critério sobre o que a respeito asseguramos, basta percorrer por instantes as folhas diárias, que fatigadas de publicarem ao acaso notícias de repetidos ataques à propriedade e aos domicílios, concentraram em coluna especial tal gênero de narrativas, proporcionando ao historiador futuro fácil busca, com o fim de descrever um período social que envergonha e humilharia a qualquer povo de raso nível.

Garantidos pela quase uniformidade da justiça pública, que indulta horripilantes crimes, acoroçoados por autoridades e agentes de segurança, dispostos a dar-lhes fuga (luceres), porque auferem ocultos proventos, os gatunos e ladrões assenhorearam-se desta cidade, constituídos em classes e em turmas, com organização própria, isto é, com os recursos precisos para escaparem à letra morta da lei, com correspondentes imediatos que lhes restituem em moeda o valor do furto e do saque, com rustidores (depósitos) que resguardam as provas autênticas do delito, e com gíria privativa a cada parcialidade no exercício das depredações.

Salientando-se mais temerosa que os precedentemente assinalados, uma horda de malfeitores recebeu dessa população de réprobos o crisma de escrunchantes (arrombadores de porta), criando para seu uso um argot fixo, no que se refere ao instrumental do ofício e às peripécias decorrentes e intercorrentes à ação.


Assim aparelhada, divide-se a magna classe dos escrunchantes em gravateiros (garroteadores), em as­saltantes à mão armada, sonambulistas (narcotiza­dores), e renas (ladrões de navios ancorados); não mencionando os penosos (ladrões de aves), amostriqueiros (ladrões de amostras), etc., turba anônima do gatunismo das ruas e dos quintais.

Desde 1866 são frequentes, entre nós, os roubos de igreja. O primeiro de que reza a tradição popular foi cometido na matriz de Santo Antônio dos Pobres, à rua dos Inválidos, por um célebre vigarista cearense, punguista e escrunchante, Pamplona de tal, que num ataco (assalto) àquele templo, depois de ter pilhado alfaias e adereços pertencentes às imagens, substituiu o resplandor do pa­droeiro por um chapéu de palha, que trazia na ocasião, pregando em redor larga tira de papel com o seguinte dístico: "Quem é pobre não tem luxo". [...]


Em pequenas quadrilhas, nesta cidade, os assaltos são cometidos ordinariamente à noite.
Nunca menos de quatro se incumbem do trabalho (roubo). A ferramenta do estilo e armas de ataque limitam-se ao pé-de-cabra, à dentosa (chave de abrir burras), ao alfinete (faca), cabelo (serra fina), a lanterneta (lanterna de furta-fogo) e aos berrantes (revólveres), indispensáveis à proteção das saídas e entradas dos referidos malfeitores. [...]


Postos em fuga, é vulgar entre os assaltados e os assaltantes, entre estes e a vizinhança alarmada, haver prolongados tiroteios, verdadeiros combates, dos quais resultam mortes e ferimentos.

Em fins de 1900 registrou a imprensa desta capital um caso de roubo à mão armada, uma escalada de ladrões a uma habitação em freguesia suburbana, que se destacou em meio de dezenas de outros ultimamente praticados, não só pela temeridade dos sicários, como também pela desfaçatez com que esses miseráveis, em face da vítima ultrajada, declararam em seus depoimentos torpezas que lhe macularam o lar.

Os gatunos arrombaram a parede da cozinha, servindo-se do orifício dos tijolos arrancados, penetraram no prédio em horas adiantadas da noite, quando o sono havia irmanado com a morte a quietação dos domiciliados.


E o revólver do bandido, apontado à fronte de uma senhora que acordara em sobressalto, impôs-lhe a revelação dos lugares certos onde existiam jóias e dinheiro, ao passo que as sombras da meia-noite velavam cenas de lubricidade e de desgrenhado pavor.

No extremo pólo, e epilogado de ridículo, figura caricatamente o arrombamento, seguido de roubo, da joalheria Luís de Resende, à rua do Ouvidor.

Trabalho lento, e de penosa execução, os cautelosos e ignorados escrunchantes, escorregando pelo ralo das águas pluviais e tomando a direção da galeria de esgotos, brocaram para cima uma entrada comunicável com o grande compartimento de jóias, pedras preciosas e outros objetos de real valor.

Apropriando-se do opulento acervo, estimado em 200:000$000, os salteadores evadiram-se, deixando unicamente, como rastro maravilhoso da aventura, o célebre buraco, desde logo denominado pelo povo – O buraco do Resende.

6.6.12

O JOGO VIROU





O jogo virou: houve um tempo em que o Rio era um parque de diversões dos bandidos: eles tinham o controle do território e da situação, enquanto a polícia vivia acuada ou fazia corpo mole. No tempo do Brizola cheguei a ser assaltado por quatro bandidos armados de revólveres às sete da noite de um dia útil numa rua movimentada não muito longe do Palácio Guanabara. A foto acima e o texto a seguir são de O Globo online:

RIO - Uma cena inusitada chamou a atenção de quem passava pela Praia de Copacabana, na Zona Sul, na manhã desta quarta-feira. Uma equipe de policiais do Batalhão de Operações Especiais (Bope) sobrevoava o local em um helicóptero blindado quando voltava de Niterói do treinamento para a Rio+20 e avistou um tumulto no calçadão. Ao perceberem que se tratava de um assalto, pousaram o helicóptero na areia. Segundo a polícia, um grupo assaltava turistas japoneses. [...] Dois menores foram apreendidos, e a câmera fotográfica dos turistas foi recuperada. Eles estavam armados com facas. [...]

Leia mais sobre esse assunto em http://oglobo.globo.com/rio/policiais-pousam-de-helicoptero-na-praia-de-copacabana-apreendem-dois-menores-assaltantes-5132507#ixzz1x1fsFBrn 

12.11.11

UM DIA ESPECIAL


"Graças a Deus a Rocinha
que estava mal-afamada
Pelas tropas legais
hoje está sendo ocupada
Aquela comunidade
Passa a ter tranquilidade
E vai ser pacificada"

Em Um dia especial publicado em sua coluna ontem em O Globo, escreveu Merval Pereira: "Ontem foi um dia especial para o Estado do Rio, e não apenas porque estava lindo, um daqueles dias de luz, festa do sol, da canção de bossa-nova que nós cariocas gostamos de afirmar que só mesmo uma cidade como o Rio pode proporcionar. Havia razões concretas, palpáveis, para transformar o dia em especial, e não apenas vantagens intangíveis. Muitos cariocas acordaram com uma boa notícia na manchete dos jornais - outros devem ter sabido na televisão de madrugada: Nem, o chefão do tráfico da Rocinha, havia sido preso." (para ler a matéria completa clique aqui

Míriam Leitão, em sua coluna Panorama Econômico, escreveu: "A prisão do chefe do tráfico na Rocinha e a previsão de uma Unidade de Polícia Pacificadora (UPP) na favela ícone do Rio são promissoras para todos os bairros, seja onde ele se encastelava, seja os bairros do entorno, mas é também uma excelente informação para o Brasil inteiro. Tráfico de drogas existe aqui e em qualquer lugar do mundo, mas no Rio o que se viu por muitos anos foi a consolidação da ideia de que em certas áreas o poder público não podia entrar; as pessoas, as empresas concessionárias de serviço público só poderiam circular se tivessem a ordem ou a aquiescência dos donos do pedaço. É intolerável no Estado de Direito que haja pedaços do país em que a circulação de pessoas e dos representantes dos poderes constituídos não possa ocorrer por determinação de autoridades estranhas à democrática." (para ler a matéria completa clique aqui

Desde a sua criação o blog Literatura & Rio de Janeiro se manifesta contra a ditadura do tráfico (clique no marcador violência abaixo para ler nossas matérias a respeito), e é com satisfação que vemos o Estado retomar os territórios dominados. Assim como Oswaldo Cruz livrou o Rio do flagelo da febre amarela, acredito que a história verá o governador Sergio Cabral (auxiliado pelo incorruptível Secretário de Segurança José Mariano Beltrame e pelos bravos policiais da banda limpa) como aquele que, enfim, devolveu a paz à Cidade Maravilhosa, livrando-a do flagelo do tráfico.

Nota: Os versos de abertura são dos cordelistas Gonçalo Pereira da Silva, Manoel Santamaria e Antônio de Araújo. Saiba mais clicando aqui.

26.11.10

RETOMAR OS TERRITÓRIOS


"Há dois anos estamos mostrando que queremos a pacificação. O nosso objetivo principal é retomar os territórios. Durante anos, os morros do Rio eram usados como portos seguros pelos bandidos, que cometiam suas barbáries e corriam, covardemente, para as favelas. É importante prendê-los, recolher drogas e armamento, mas é imprescindível lhes tirar território."

"Cabe a nós provarmos, com nossas ações, que nós temos as melhores intenções de trazer a paz para os moradores do Alemão. Estamos aqui e vamos permanecer. O que nos interessa é tirar essas quase 400 mil pessoas dessa masmorra de fuzil, dessa masmorra de ditadura."

José Mariano Beltrame, Secretário de Segurança do Rio de Janeiro. Foto superior obtida em O Dia e inferior - do cerco do exército aos complexos da Penha e do Alemão - em O  Globo. Informações detalhadas sobre a operação policial na Veja-RJ.


28.1.10

ESPERANÇA DE PAZ PARA O RIO III

Diagrama obtido em O Dia online. Para ler a matéria completa clique no título da postagem acima. Para ler outras postagens neste blog sobre a violência & pacificação, clique no marcador "violência" abaixo. 


9.12.09

ESPERANÇA DE PAZ PARA O RIO II

TEXTO DE RICARDO ALBUQUERQUE TRANSCRITO DO JORNAL O DIA. FOTO OBTIDA NESSE MESMO JORNAL.




Quem passa pela Rua Sá Ferreira, em Copacabana, percebe que o cenário é de profunda mudança. No alto do Pavão-Pavãozinho, as obras da Unidade Pacificadora de Polícia (UPP) estão mais aceleradas que as do PAC. Ontem, policiais do Bope se reuniram com moradores para explicar detalhes da ocupação. A menos de 100 metros do encontro, o turista australiano Simon Brown, 39 anos, se divertia fazendo fotos sem medo de ter a câmera roubada ou de ser advertido por algum traficante.

“Era comum um ‘avião’ do tráfico vir aqui no hotel pedir para os turistas pararem de filmar e fotografar a ‘firma’”, recorda Plácido Filho, chefe da recepção do Ducasse Rio Hotel, na esquina da Sá Ferreira com a Ladeira Saint Roman, um dos principais acessos ao Pavão-Pavãozinho. “A UPP foi uma grande sacada, trouxe segurança 24 horas por dia”, analisa
.

DESDE A SUA CRIAÇÃO ESTE BLOG SE POSICIONA CONTRA A DITADURA DO TRÁFICO NAS COMUNIDADES. PARA LER NOSSAS OUTRAS MATÉRIAS SOBRE A VIOLÊNCIA NO RIO, CLIQUE NO MARCADOR ABAIXO.

29.5.09

ESPERANÇA DE PAZ PARA O RIO

MATÉRIA TRANSCRITA DO JORNAL O DIA.

Unidade de Polícia Pacificadora é inaugurada no Chapéu Mangueira e Babilônia


Rio - O governador Sérgio Cabral inaugurou, na manhã desta quarta-feira, a Unidade de Polícia Pacificadora (UPP) nas comunidades do Chapéu Mangueira e da Babilônia, no bairro do Leme, Zona Sul. A unidade vai garantir o policiamento da área e dar um fim ao poder paralelo que assustava os moradores. O governo ainda vai investir na capacitação profissional, por meio de cursos, e facilitar o acesso dos moradores ao mundo digital com o Internet na Praça, que já funciona na Praça Maestro Bebetinho e oferece acesso à internet banda larga.

Esta é a quarta UPP instalada no Rio. Ao todo, serão 100 policiais militares que farão o policiamento comunitário. O capitão Felipe Lopez e a subcomandante Renata Matos são os responsáveis pela tropa, em substituição da equipe do Batalhão de Operações Especiais (Bope) e do 19º BPM (Copacabana), que ocuparam, há mais de um mês, os dois morros e neutralizaram o domínio dos bandidos sobre os habitantes.

Em 2008, brigas entre facções rivais levaram pânico aos moradores de ambas as comunidades e do entorno. A sede da UPP, situada em uma posição estratégica da Ladeira Ary Barroso, na Babilônia, foi construída em seis meses pela Empresa de Obras Públicas do Estado do Rio de Janeiro (Emop) e custou R$ 651,8 mil.

Ao lado do prefeito Eduardo Paes, o governador Sérgio Cabral anunciou que o governo do Estado já está se mobilizando para levar programas de revitalização para as comunidades: "A Benedita (da Silva) pediu à Dilma, pediu ao presidente Lula e vamos fazer o PAC aqui, que está orçado em R$ 65 milhões. É um projeto bonito, que já foi entregue à ministra Dilma. Tem também um Plano Inclinado previsto para cá", anunciou Sérgio Cabral.

Capital Humano
Uma das frentes para o desenvolvimento local é a capacitação profissional dos moradores das comunidades. Em até quarenta dias, será instalada na Ladeira Ary Barroso um Centro de Educação Tecnológica e Profissionalizante (Cetep), da Faetec, com 2.772 novas vagas por ano, em cursos de formação inicial de trabalhadores, nas áreas de idiomas (inglês, francês e espanhol), informática, hotelaria e beleza (cabeleireiro, manicura e pedicura).


20.8.07

ABAIXO A DITADURA


TRÁFICO IMPÕE LEIS DE EXCEÇÃO PARA 1,5 MILHÃO DE CARIOCAS. DIREITOS BÁSICOS SÃO VIOLADOS TODOS OS DIAS; HÁ 7 MIL DESAPARECIDOS NO RIO.

Com esta manchete, O Globo de 19 de agosto de 2007 anunciou uma série de matérias sobre a ditadura do tráfico. "Vinte e dois anos depois do fim do regime militar, cerca de 1,5 milhão de moradores de favelas do Rio ainda vivem sob terror igual ao de uma ditadura", prossegue o jornal.

Este blog desde seu surgimento defende a tese de que para os moradores de comunidades e periferias, a ditadura não acabou. Por exemplo, em 14/12/05 escrevemos:

"Há tempos o Estado de Direito deixou de prevalecer nas áreas periféricas e marginalizadas das metrópoles brasileiras. Onde estão aquelas vozes corajosas que se manifestaram - e se manifestam até hoje — com tanta coragem contra o arbítrio do regime militar? Por que se calam ante o novo arbítrio?"

Em editorial intitulado "Ditadura na favela" publicado em O Globo de 21 de agosto, lemos:

"O favelado comum, honesto, trabalhador — a grande maioria — é, na verdade, a vítima mais próxima das quadrilhas que usurparam amplas áreas das cidades do alcance do poder público, convertendo os moradores em reféns. Como bem provam as reportagens, boa parte do 1,5 milhão de residentes nas favelas cariocas — cerca de 20% da população total — está fora do alcance do estado de direito, garantido formalmente a todo brasileiro desde a redemocratização de 1985 e a promulgação da Carta de 1988. A favela nada tem de romântico e idílico. Mora-se quase sempre mal e sob risco de vida. Lá, a ditadura não acabou: pessoas desaparecem, vidas são destruídas de forma cruel, a partir do veredicto de tribunais de exceção, formados por bandidos que se colocam acima do bem e do mal, longe do alcance das leis."

11.4.07

VIOLÊNCIA & MARAVILHAS

Notícias no jornal sobre o Rio desalentadoras: violência violência violência. Fazer o quê? Trancar-se em casa? Não, a gente tem que sair às ruas e reconquistar nossa cidade. Vou ao Centro à procura de maravilhas. Vejam o que encontro:


Escadaria Selarón, na Lapa, que vai dar em Santa Teresa


As paineiras da Cinelândia nesta época florescem



Outra paineira na Cinelândia


Na Caixa Cultural (o centro Cultural da Caixa Econômica), exposição sobre a arte dos grafites, Fabulosas Desordens


Igreja e convento de Santo Antônio, Largo da Carioca, uma das construções mais antigas do Rio (1608-1620, com reformas e restaurações posteriores)


Não resisto a mostrar mais esta paineira no Largo da Carioca (tem sempre algum tipo de árvore dando flores aqui no Rio: agora as paineiras, depois virão os ipês, fim de ano os flamboyants; sem falar na pata-de-vaca que floresce quase o ano inteiro)


Manutenção do Relógio da Carioca, que é da época do prefeito Pereira Passos


Estátua do Pequeno Jornaleiro, na Rua Sete de Setembro


Casa França-Brasil, que já foi Praça do Comércio, alfândega, tribunal do júri: projeto neoclássico de Granjean de Montigny, construção de 1820


A Candelária
Fotos do editor do blog.

11.2.07

ESTAMOS DE LUTO

O blog Literatura & Rio de Janeiro tem procurado mostrar aos seus visitantes o Rio Cidade Maravilhosa, o Rio alto-astral. Mas esta semana estamos de luto pelo martírio – sim, esta é a palavra apropriada, aquilo que Jesus Cristo sofreu – do menino João Hélio Fernandes. O blog tem defendido a tese de que o tráfico e banditismo atualmente representam, na prática, uma nova forma de ditadura, privando nós, brasileiros, de nossos direitos constitucionais e ameaçando o Estado de Direito.

Na época da ditadura militar, bravos brasileiros arriscaram sua integridade no combate ao arbítrio. Hoje não vemos o mesmo tipo de reação ante a nova forma de tirania. O que vemos é a omissão e o acovardamento. Cala-se a sociedade civil (OAB, ABI etc.) Cala-se a Igreja (e as outras religiões também). Calam-se os nossos representantes políticos. Cala-se a Magistratura. Calam-se os estudantes. Cala-se a esquerda (que se julga tão combativa). Cala-se a direita. Calam-se todos...

Diante de tanta barbaridade (pessoas queimadas vivas, jovens torturados, crianças martirizadas...) não podemos nos calar. Reação já!

ABAIXO A DITADURA!

21.8.06

O OUTRO LADO DA MOEDA

Está no O Dia on-line de hoje: "O engenheiro Marcos Sérgio Vancelotti, 52 anos, e sua mulher, Carla Vigorito Constância, 44 anos, foram baleados, na noite deste domingo, durante uma tentativa de assalto, na Rua Doutor Garnier, no bairro do Rocha, Zona Norte do Rio. [...]
Moradores do município de Resende, na Região do Médio Paraíba, as vítimas vieram ao Rio para visitar parentes, moradores da Rua Doutor Garnier, no Rocha. Eles foram alertados pelos próprios parentes de que deveriam retornar mais cedo por causa da violência na cidade, mas só iniciaram a viagem de volta pouco antes das 22h.
Tinham percorrido apenas alguns metros da viagem e foram abordados pelos bandidos, todos utilizando armas de grosso calibre. Após os tiros, o carro do engenheiro parou e quatro dos cinco homens ainda roubaram os pertences das vítimas, antes de fugir."
Todo dia nos jornais cariocas a gente lê notícias deprimentes como esta. E olha que é apenas a ponta do iceberg (semana passada mesmo, um turista português foi morto a facada em plena praia de Copacabana, à luz do dia, por um ladrão que lhe tentava levar a mochila). Um sem-número de assaltos a mão armada, furtos e tentativas de furtos ocorrem o tempo todo, e poucas vítimas ou quase vítimas acionam a instituição policial — "pra que, se não fazem nada mesmo?" Como uma cidade que negligencia tanto sua segurança pode pretender sediar os Jogos Pan-americanos? Será que ao menos nas próximas eleições os cariocas saberemos eleger candidatos comprometidos com a causa da segurança? Ou o populismo ganhará pela enésima vez?

8.3.06

INVASÃO, A REPRISE

Zuenir Ventura

A estratégia de invadir favelas para recuperar uma pistola e dez fuzis roubados de um quartel militar pode, na melhor das hipóteses, demonstrar aos bandidos que quando se trata do Exército o crime não compensa. Depois dessa asfixia, os traficantes vão pensar duas vezes antes de invadir estabelecimentos das Forças Armadas para roubar armamentos. É possível até que recebam uma ordem de Bangu para devolver as armas, pois a guerra atrapalha o comércio de drogas.

Do ponto de vista do Exército, nada mais justo do que, além de resgatar as armas roubadas, ele queira recuperar a auto-estima e revidar o ultraje. Do ponto de vista da sociedade, porém, cabe perguntar se terá valido a pena uma mobilização dessa envergadura para mais uma operação enxuga-gelo. Se essa invasão for provisória, como foram todas as anteriores, se não se transformar em ocupação permanente, planejada, seu efeito sobre a criminalidade será passageiro. Já vimos esse filme duas vezes em 2004 (por ocasião de assaltos idênticos), e o final ensinou que em lugar de correr atrás do prejuízo o melhor teria sido proteger o patrimônio — evitar o roubo em vez de reprimi-lo.

Para os que em criança, quando nossos Pracinhas lutavam contra o nazismo na Itália, cantávamos na escola a “Canção do Exército” (“Nós somos da Pátria a guarda/Fiéis soldados,/Por ela amados...”), o que mais inquieta no presente é perceber como estão vulneráveis os depósitos de armamento e munição do Exército, da Marinha e da Aeronáutica, justamente as instituições que são ou deveriam ser guardiões da segurança nacional e da inviolabilidade de nosso território.

Um levantamento realizado por técnicos da Polícia Civil e pesquisadores do Iser concluiu que, das 86.849 armas apreendidas com bandidos entre 1999 e 2005 no estado do Rio e registradas na Delegacia Legal, mais de 8.000 (cerca de 10%) haviam sido desviadas das polícias e das Forças Armadas. Não existem dados sobre os desvios de munição, mas se presume que sejam mais freqüentes.

Assim, apropriar-se por furto ou roubo de material de uso privativo dos militares tem sido uma prática constante. Se o assalto de agora chamou a atenção foi por causa do acinte com que os sete bandidos, usando tática de guerrilha, invadiram o quartel e, mesmo no escuro, chegaram ao depósito de armas, depois de agredir e humilhar os soldados de plantão.


É preocupante constatar que a instituição que é “da Pátria a guarda” não consegue guardar seus próprios bens e propriedades. Nada mais vital para a segurança das Forças Armadas, ou seja, para a segurança do país, do que o controle dos estoques e a proteção de seus arsenais e paióis.



Artigo publicado no jornal O Globo de hoje. Zuenir Ventura é autor, entre outros livros, de Cidade Partida, de onde retiramos esta citação: "Enquanto dos morros só se ouviam os sons do samba, parecia não haver problema. Mas agora se ouvem os tiros. Não se trata de uma guerra civil, como às vezes se pensa, mas de uma guerra pós-moderna, econômica, que depende das artes bélicas mas também das leis do mercado, é um tipo de comércio. Por isso não há solução mágica à vista." (pág. 14). O livro foi lançado em 1994. Mais de uma década depois, continua atual.

14.12.05

ATENTADO AO ESTADO DE DIREITO

Está no O Globo de hoje:

"Usando fardas da Polícia Militar, traficantes da Favela da Parada de Lucas invadiram na madrugada de ontem casas na comunidade vizinha, Vigário Geral, e seqüestraram sete jovens — com idades entre 15 e 24 anos — enquanto eles dormiam."

Invadir lares na calada da noite e seqüestrar moradores que dormem constitui um atentado ao Estado de Direito. Lembra bem as ações das polícias políticas nos regimes ditatoriais. Aliás, há tempos o Estado de Direito deixou de prevalecer nas áreas periféricas e marginalizadas das metrópoles brasileiras. Onde estão aquelas vozes corajosas que se manifestaram - e se manifestam até hoje — com tanta coragem contra o arbítrio do regime militar? Por que se calam ante o novo arbítrio?

2.12.05

TERRORISMO & RIO DE JANEIRO PARTE II

Saiu no jornal Extra de 1 de dezembro de 2005:

"Rosinha se calou, Garotinho nada disse, Conde recorreu ao lugar-comum de crime hediondo, Itagiba prometeu como de hábito 'caçar os facínoras', Álvaro Lins minimizou a infâmia. Nem o falante Cesar Maia abriu o bico dessa vez. Nenhuma autoridade parece ter alcançado a gravidade e a dimensão da ação criminosa de terça-feira. Mas Vitória, Wânia, Érika, Dominique, Igor, Roberta, Aline, Áurea, Rogério, Viviane, Úrsula, Luciana, inocentes passageiros, sentiram na pele, e assistiram com dor e pavor, a um ataque impiedoso do crime organizado do Rio. Ao contrário do que o governo tenta fazer crer, o bárbaro atentado a bomba contra um ônibus não é tão-somente mais uma variante da guerra do tráfico. É terrorismo! É desafio ao poder constituído! É ameaça à democracia! É uma afronta ao elementar direito de ir e vir do cidadão! Cinco vítimas morreram, 13 vítimas ficaram feridas. Pior: amanheceu e 15.383.422 fluminenses continuam vítimas."

Saiu na revista Veja de 7 de dezembro de 2005:

"Na semana passada, traficantes tomaram um ônibus e queimaram vivos os passageiros. Cinco pessoas que voltavam para casa morreram carbonizadas, entre elas uma menina de 2 anos. Doze pessoas ficaram feridas. Foi o 73º ataque de traficantes a ônibus no Rio de Janeiro neste ano. Nada foi feito antes para evitar esses ataques. Previsivelmente, nada será feito agora. Em um país civilizado, manifestações de crueldade e impunidade dessa magnitude derrubariam o prefeito, o governador, o ministro da Justiça e o presidente. No Brasil, vai-se colocar a culpa na desigualdade de renda e tudo continuará na mesma."

Nas próximas eleições, lembrem-se disto.

8.11.05

TERRORISMO & RIO DE JANEIRO

Está no Globo de 5 de novembro de 2005: “Traficantes da Favela do Rebu atacaram microônibus a tiros de fuzil. Uma pessoa morreu e oito ficaram feridas. A diarista Janaína Santos de Jesus foi atingida na cabeça e no tórax e morreu na frente dos filhos...”

Atacar transporte público cheio de passageiros a tiros de fuzil constitui terrorismo. Terrorismo em pleno Rio de Janeiro. No subúrbio, contra gente humilde. Se fosse na Zona Sul...

Se eu fosse o presidente Lula teria telefonado para a família de Janaína a fim de expressar minhas condolências — como fez no caso do brasileiro morto por equívoco pela polícia de Londres. Se eu fosse a governadora do Estado anunciaria medidas para trazer a paz de volta à cidade. Se eu fosse o prefeito do Rio, pressionaria a governadora e o presidente por ações mais eficazes contra o banditismo. Se eu fosse um deputado ou senador eleito pelo Rio proferiria um discurso em Plenário repudiando atos de terrorismo como o que vitimou Janaína. Se eu fosse o presidente da OAB, lançaria um manifesto pela restauração do Estado de Direito nas áreas dominadas pelo tráfico. Se eu fosse o presidente da ABI, protestaria contra o cerceamento da ação da imprensa nessas mesmas áreas. Se eu fosse o bispo, mandaria rezar missas pelo restabelecimento da paz na cidade. Se eu fosse a esquerda, organizaria manifestações ruidosas de protesto contra o arbítrio imposto às populações das áreas marginais e periféricas. Se eu fosse...

Este fim de semana não teve literatura nem Rio de Janeiro no blog. Estamos de luto por Janaína.

6.9.05

PROGNÓSTICO, de ALBERTO CARRAZ



— Vai dar merda!

Foi a única coisa que falou durante toda a reunião. Falou, não. Murmurou.

Como estava do lado, apenas eu ouvi. Fingi que nada tinha acontecido, qualquer reação minha poderia chamar a atenção para ele.

E toma falação. Nova estrutura da empresa, contratações de peso e demissões de toda maneira - justas e injustas.

Os que já estavam na companhia há algum tempo sentiram-se preteridos e desprestigiados. Mas ela continuou, ainda tinha muito a informar.

A estabilidade funcional na área de vendas seria determinada pela produtividade mês-a-mês. Metas atingidas, garantia de emprego.

Como teste de compreensão e agressividade de marketing, estabeleceu que cada um dos 18 vendedores, que a empresa chamava de "operadores de mercado" -- também gostavam de presepadas -- teria de vender dois automóveis por dia, nesta primeira semana. Que dessem o seu jeito. Que apelassem pra família. Que recorressem a amigos. Que procurassem por antigos clientes.

Fodam-se! Agora é política de resultados. Temos compromisso sério com a empresa!

Muito prazer em conhecê-los, bom-dia para todos e mãos à obra.

Naquele dia sobrou café na copa. Ninguém deu a costumeira passadinha antes de ir à luta.

Juvenal pegou seu cansado automóvel e, sem marcar visita, resolveu arriscar aquele velho e fiel cliente no outro lado da cidade. Nutria a esperança de, por ali, começar a escalada para a garantia de seu emprego.

Enquanto dirigia, ensaiava o discurso de venda. Procurava uma maneira de mesclar abordagem comercial com entremeios de amenidades, para que o papo ficasse menos pesado.

Tinha que dar o máximo de si. Oportunidade única de mostrar à nova chefe que ele era um dos melhores.

O sinal fechado aumentava-lhe o tempo de reflexão.

Porra, outro ambulante. Agora tem de tudo nos sinais.

Olhou com desinteresse, preparado para a negativa automática.

Que surpresa!

O cromado do revólver foi suficiente para que entendesse tudo.

Levantou a cabeça devagar e pediu calma ao meliante.

Calma é o caralho! Abre logo esta porra e pula pra lá. Perdeu, meu camarada.

Explicou que aquele era o seu único bem. Mais ainda: seu instrumento de trabalho. Seu sustento.

Porra, maluco. Tô ficando bolado.

Dois tiros e nada mais.

Sentiu que o mundo se afastava.

Onde estão minhas mãos? Cadê minhas pernas? Por que este silêncio?

E, num último momento de regozijo, achando que esboçava um sorriso, pensou: "Que bom! Estou liberado da meta desta semana."

Alberto Carraz é professor de língua portuguesa. Teve oportunidade de, por alguns anos, viver fora do Brasil. Por isso, dá muito valor a tudo que o país oferece. Com ressalvas, é claro.