ENSEADA DE BOTAFOGO

ENSEADA DE BOTAFOGO
"Andar pelo Rio, seja com chuva ou sol abrasador, é sempre um prazer. Observar os recantos quase que escondidos é uma experiência indescritível, principalmente se tratando de uma grande cidade. Conheço várias do Brasil, mas nenhuma tem tanta beleza e tantos segredos a se revelarem a cada esquina com tanta história pra contar através da poesia das ruas!" (Charles Stone)

VISTA DO TERRAÇO ITÁLIA

VISTA DO TERRAÇO ITÁLIA
São Paulo, até 1910 era uma província tocada a burros. Os barões do café tinham seus casarões e o resto era pouco mais que uma grande vila. Em pouco mais de 100 anos passou a ser a maior cidade da América Latina e uma das maiores do mundo. É pouco tempo. O século XX, para São Paulo, foi o mais veloz e o mais audaz.” (Jane Darckê Avelar)

29.10.13

CYRO DE MATTOS NO MIRANTE DO FLAMENGO

Vista do "Mirante do Flamengo" ao anoitecer

Cyro de Mattos — poeta, contista, cronista, ensaísta, antologista, em suma, ativista cultural de Itabuna, sul da Bahia — é velho colaborador deste blog, como você pode constatar clicando em seu nome no menu da barra vertical direita. Seu artigo sobre Lima Barreto é um "campeão de audiência", com mais de 3 mil visitas, e em Uma Amizade Antiga Cyro discorre sobre o segundo melhor amigo do homem, que é o livro (o primeiro dizem que é o cão).

Semana passada (23/10/13) tive a satisfação de comparecer à posse de Cyro como membro titular do PEN Clube do Brasil, na sede do clube, no décimo-primeiro andar de um prédio da Praia do Flamengo, na altura do Largo do Machado, onde tantas vezes no passado eu fora visitar (ou pegar para passear) o grande intelectual e memorialista Antonio Carlos Villaça. Villaça, um homem que vivia num mundo paralelo, puramente intelectual (platônico?), e que nunca amealhou dinheiro por falta de vocação para as insignificâncias materiais, durante muitos anos, por intercessão do acadêmico Marcos Almir Madeira, morou de favor num quarto do clube, cujo terraço apropriadamente chamou de "Mirante do Flamengo". "Aqui estou no mirante do Flamengo. Nunca antes morei assim tão perto do mar. [...] Agora, estou no meu mirante solitário, diante do mar. E vejo a entrada da barra, o Pão de Açúcar", escreveu Villaça em Degustação. "O mirante do Flamengo me liga ao mar. O mar está perto de mim. O vento do mar vem até mim. E eu me debruço na varanda e olho o mar."

Azulejo no terraço do Pen Clube

Em seu discurso de posse, Cyro faz sua profissão de fé no ofício do escritor e na literatura: "Há quem ache que ser escritor é destino, fatalidade que começa mal desponta a manhã. Não deve ser nada bom. Não pode ser mesmo para quem sustenta, na sua maneira de achar estranha a vida, todo o peso terrestre, embora existam os pássaros cantando a madrugada com suas cores suaves. Para que serve a poesia? Respirar e viver, disse Borges. Expressar que dentro de mim o rio flui, o mar cerca por todos os lados, anotou Eliot. Para que serve o romance? Conhecer Deus e o diabo nas vastidões do sertão alado do mineiro Guimarães Rosa. Ler o mundo quando ele diz que maior do que os confins daquele sertão mineiro é o que descamba sem fim depois do lado de lá, naquele destamanho de um enigma que ninguém consegue decifrar. 

Precisamos da literatura como a atmosfera. Dela nos servimos para inaugurar novos sentidos da vida. Sem querer polemizar, penso que a literatura é uma profissão da qual não pode fugir quem a abraçou de verdade. É condição, ato ou efeito de professar, perseguir, proferir crenças e valores. Declarar publicamente ao outro que não vivemos sozinhos, navegamos em águas precárias em que as perplexidades avultam. Nosso discurso não é feito para agradar a grupos. Com a diversidade que celebra seres e coisas, costuma perdurar nas lembranças, incertezas e esperanças. Se quiserem, pode ser uma missão, pois tudo dá ao outro sem nada querer de volta. A literatura é capaz de salvar o mundo. É o caminho para que os povos encontrem-se como irmãos, sintam-se em total união do amor como verdade." 

O editor deste blog concorda em gênero, número e grau, e assina embaixo.


Outra vista do terraço

23.10.13

ADEUS, CASA DE PEDRA


Foi-se abaixo a "casa de pedra", a última casa sobrevivente na Avenida Atlântica (a penúltima foi a "casa rosa", o antigo consulado da Áustria no Posto 6). Em seu lugar será construído o primeiro hotel seis estrelas do Brasil. O projeto da arquiteta iraniana Zaha Hadid prevê a utilização de pedras da casa demolida na construção nova. Mas em meio ao mar de prédios de Copacabana — colados uns nos outros pois foram erguidos numa época (anos 40, 50) em que o zoneamento urbano ainda não previa áreas livres nos terrenos como em bairros mais modernos, tipo Ipanema — ainda sobrevivem algumas casas antigas, umas poucas tombadas pelo Município,* que você pode ver na postagem UMA HISTÓRIA URBANA & ÚLTIMAS CASAS DE COPACABANA clicando aqui.


"RIO — A demolição levou três dias. E desde esta segunda-feira a última casa da Avenida Atlântica, localizada na esquina com a Rua Santa Clara, já não faz parte da paisagem da Praia de Copacabana. No fim da tarde, a retroescavadeira colocava abaixo as últimas paredes do imóvel, conhecido como a “casa de pedra”. Segundo o comprador, o empresário Omar Peres, dono do restaurante La Fiorentina, a propriedade saiu por R$ 32 milhões — corretores estimam entre R$ 30 milhões e R$ 40 milhões o valor de um imóvel do gênero na orla do bairro. 

— A demolição termina hoje, e vai levar ainda cerca de um mês para o terreno ficar todo limpo, explicou. O hotel vai demorar, no mínimo, dois anos para ficar pronto. Vamos inaugurar antes das Olimpíadas — informou Peres, que tem como sócio no negócio o dono da Avianca, German Efromovich. 

O projeto arquitetônico para o hotel inclui, na entrada, uma parede com pedras da casa, que receberá, do designer Aroeira, imagens de grande nomes do Rio. A ideia, do próprio Peres, foi encampada pela arquiteta, a iraquiana Zaha Hadid. A construção terá 12 andares e cerca de cem apartamentos. 

Sobre o hotel, o empresário garante que o diferencial, além da vista (é claro!) serão os mimos aos clientes, como mordomo bilíngue exclusivo — que pode fazer compras e arrumar o armário, por exemplo —, carro para buscar e levar ao aeroporto, bebidas como bons vinhos e uísque na diária e um spa no terraço. Outro destaque pode vir de um restaurante no local: Peres negocia com o chef Alex Atala, dono do D.O.M., que, assim, traria sua marca para o Rio. 

— No setor hoteleiro, é fundamental que o cliente fique satisfeito — afirma Peres, que já construiu outros dois hotéis no Rio, mas pela primeira vez vai administrar uma unidade." (Matéria de Raphaela Ribas publicada no Globo Rio em 21/10/13)



* As casas de Copacabana tombadas pelo Município: Casa de Villiot (Rua Sá Ferreira, 80) e os casarões na Rua Sá Ferreira, 196, Rua Souza Lima, 171 e Rua Xavier da Silveira, 75.


[ESPAÇO RESERVADO PARA A FOTO DO NOVO HOTEL DAQUI A DOIS ANOS]

19.10.13

COSME VELHO, UM ROTEIRO DE VISITA, de FRANCISCO DAUDT

Texto extraído do livro A NATUREZA HUMANA EXISTE E COMO MANDA NA GENTE de FRANCISCO DAUDT com permissão do autor. Fotos do editor do blog.


Visualizar COSME VELHO em um mapa maior

O vale das Águas Férreas, na encosta oeste do Morro de Dona Marta, é por onde passa o rio Carioca, principal abastecimento de água da cidade do Rio de Janeiro depois que ela se mudou para as imediações do morro do Castelo, começando na Mãe d’Água, no alto do Silvestre, e desaguando na praia do Flamengo, percorrendo aproximadamente o trajeto por onde ele hoje passa canalizado: a rua Cosme Velho, a rua Laranjeiras, rua Ipiranga, rua Conde de Baependi, rua Barão do Flamengo, em frente à qual desaguava na baía de Guanabara. [...]

O vale era habitado por índios Tamoios na ocasião do descobrimento, vindo mais tarde a ser ocupado pelos europeus, que ali plantaram vastos cafezais. Entre eles, o General van Hogendorp, holandês exilado depois da derrota de Napoleão, que veio acabar seus dias como fazendeiro nas encostas do vale. Há uma placa em sua homenagem, posta pelo governo holandês na antiga casa da FEBEM (anteriormente SAM) na ladeira do Ascurra, como se ali tivesse morado. Mas é imprecisa a informação.

O fato é que os cafezais degradaram as nascentes do Carioca, ameaçando o abastecimento da cidade, que já recolhia as suas águas, transportando-as ao Centro através de um aqueduto, cuja parte mais conhecida são os arcos da Lapa. De tal forma que o Imperador D. Pedro II ordenou ao major Archer que acabasse com os cafezais e reflorestasse a região. Com a ajuda de doze escravos, este trabalho resultou num dos mais bem sucedidos reflorestamentos (ainda que com espécies exóticas, como a jaqueira) urbanos de que se tem notícia: a floresta da Tijuca, a maior floresta urbana do planeta.

Foi construída uma caixa coletora no alto da ladeira do Ascurra, que rasga o terreno da família Rabello para descer suas canalizações e abastecer o vale e a região a jusante. A família recebeu, por ceder seu terreno, uma “pena d’água” (abastecimento sem custos) permanente, cedida pelo Imperador. Ainda hoje pode se ver o marco zero da estrada das Paineiras, ao pé das ladeiras do Ascurra e dos Guararapes.


Nosso passeio começa num monumento moderno, portal do Cosme Velho: o edifício Águas Férreas [foto acima - número 1 no mapa]Da década de 40, é um belo prédio com jardins à frente, um lago de carpas, e residência de notáveis, como os escritores e acadêmicos Raymundo Faoro e Marques Rebello. 


Em frente a ele, do outro lado da rua (Cosme Velho, nº 9) um sapotizeiro centenário marca onde foi a casa do Prof. Souza da Silveira [foto acima], um dos maiores filólogos que a nossa língua teve.


Mais adiante entramos no colégio Sion [foto acima - 2 no mapa] para conhecer, em seus fundos, um dos afluentes do rio Carioca, que desce em cachoeira antes de ser canalizado. A muralha de sua lateral (divisória entre o colégio e o casario da rua Marechal Pires Ferreira) foi, como contam, construída por escravos. Fato é que seu estilo de construção se assemelha ao das divisórias das fazendas de Minas, essas sim, seguramente, obra deles.


Colado ao colégio resiste uma casa alta pertencente à ordem das irmãs do Sion [foto acima - 3 no mapa], que já foi colégio de crianças pobres (São Luiz Gonzaga), e que já estava presente quando Marc Ferrez fotografou aquele trecho do bairro em 1886, onde também aparecem os trilhos do bonde de burro, e o rio Carioca a céu aberto, com bancos ao longo de seu curso, e pontezinhas levando às casas da margem direita.

Do outro lado da rua resistem casa de uso comercial (destino das grandes casas de beira de rua, pois ninguém rico quer morar nelas) que foram construídas depois das normas arquitetônicas de Pereira Passos, decidindo que todas as casas seriam de estilo eclético, e o bairro ainda tem algumas, como veremos.


Do mesmo lado do Sion, na esquina de Mal. Pires Ferreira fica o prédio que ocupou o local onde Machado de Assis viveu seus últimos anos [4 no mapa]. A AMA-CV (Associação dos Moradores e Amigos do Cosme Velho) lá afixou uma placa comemorativa [foto acima], secundada por outra, da prefeitura.


Na esquina seguinte fica o imponente casarão que foi a sede da fazenda de café onde morou o Visconde de Taíde [foto acima - 5 no mapa], amigo de Machado, que ofereceu a capela de sua residência para que o escritor se casasse com sua Carolina. Esta mesma casa-grande dominava a fazenda de café de toda a margem esquerda do Carioca, no vale. Seu terreno foi cortado no fim dos anos 30 por um loteamento ao longo do afluente que desce das encostas do Sion, formando a Rua Mal. Pires Ferreira. 

Na casa também moraram o próprio marechal que dá nome à rua, Mario de Oliveira (e seu filho Mariozinho, do clube dos Cafajestes); Israel Klabin (sua mulher de então, Lina Paranhos, fez uma reforma caprichada na casa); Alberto Soares de Sampaio foi o último proprietário, tendo-a passado aos herdeiros, Paulo Geier e os filhos deste, que a alugaram para a Agência Contemporânea de publicidade. Hoje a casa está alugada para o canal Fox de TV a cabo.


Vizinho a ela há uma bela casa de tijolinhos, em estilo colonial inglês para as Índias [foto acima - 6 no mapa], que tinha a curiosidade de manter a cozinha separada da casa. Nela moraram Wolf Klabin, pai de Israel, Armando e Daniel Klabin, este seu atual proprietário. No seu terreno, assim como no da casa da esquina, estão plantadas palmeiras imperiais que já eram adultas quando Marc Ferrez fotografou o vale em 1890, tendo, portanto, mais de 150 anos.



Mudando de calçada, em frente à única padaria do bairro, há duas casas geminadas, do estilo eclético de Pereira Passos [foto acima - 7 no mapa]. Na da esquerda, morou Cândido Portinari no fim dos anos 1940, começo dos 50. Ao se mudar, deixou as paredes de seu estúdio cobertas de pinturas suas e estudos para outras, que o proprietário português providenciou que fossem pintadas de branco para receber o próximo locatário.

Entre elas e a bica da rainha há uma ladeira que leva a um conjunto de casas altas na encosta do D. Marta, onde moravam suíços e uma famosa traficante de bebês para adoção.


A bica da rainha [foto acima - 8 no mapa] tem uma história famosa. Uma das fontes de águas ferruginosas do bairro, ela recebia a rainha D. Maria I, a louca, que lá ia se tratar de sua epilepsia, acompanhada de aias, o que gerou a expressão “Maria-vai-com-as-outras”. Um exame feito em 1985 mostrou que suas águas têm excesso de coliformes fecais (das casas a montante), impróprias para o consumo. A reforma da bica, caprichosamente feita em cantaria granítica no fim dos anos 1800, está descaracterizada, coberta de tinta branca.


Ao lado da bica fica uma antiga casa construída trinta metros acima da rua, onde residiram Aderbal e Marília Pougy. Em 1985 entrevistei D. Marília (Rabello de solteira), então a mais antiga moradora do bairro, que andou de bonde na infância acompanhando sua mãe, a qual vinha entretida na conversa com um senhor de barbas e cabelos brancos, que apreciava tanto sua prosa ao ponto de acompanhá-la até depois do “rodo do bonde” (o lugar onde o bonde fazia o retorno para descer a rua, onde hoje passam os viadutos do túnel Rebouças). Era Machado de Assis. Foi assim que conheci alguém que conhecera Machado. A casa de D. Marília é hoje um museu da Associação Brasileira de Pediatria [foto acima - 9 no mapa].


Em frente a ela, do outro lado da rua e colada à padaria, fica outra casa do período Pereira Passos, uma de cômodos. Mais acima, e antes da igreja de são Judas Tadeu, o mais antigo prédio de apartamentos do bairro (anos 40) [foto acima - 10 no mapa] tem um pequeno comércio em baixo. Ao seu lado, uma das duas vilas do bairro. Nesta só se entra a pé. Na outra, colada à padaria, entra-se de carro, e data dos anos 20.


De frente à igreja, a praça são Judas Tadeu é um estacionamento que serve à estação do bondinho do Corcovado [foto acima - 11 no mapa], a primeira linha férrea turística da América do Sul, ainda do tempo do império, que levava visitantes ao topo do morro muitas décadas antes da estátua do Cristo. A estação é ladeada pelas ruas Ephigênio de Salles e Smith Vasconcellos. Na esquina desta última fica uma casa notável, com o topo em cúpula de metal e alpendre de ferro batido vindos da França [foto abaixo - 12 no mapa]. Residência da atriz já falecida Beatriz Veiga, tem em sua frente um magnífico pau-ferro plantado por seu pai. Entre suas raízes, projetadas para fora do muro, cresceu uma jaqueira.



Na mesma Smith Vasconcellos, duas casas adiante da de Beatriz Veiga [no número 30], fica a casa alta em que morou Cecília Meirelles. A rua tem um ar de vila antiga [foto acima], e no fim ela se divide em um beco curto à direita e na rua Felinto de Almeida, que sobe pela encosta do D. Marta até cruzar os trilhos do bondinho, na altura da antiga parada Dr. Ravache (pai da atriz Irene Ravache, que tinha sua casa em estilo normando, e que usava o bondinho para lá chegar). A casa continua lá, hoje é uma pousada.


Voltando à rua Cosme Velho, e subindo, vizinha à casa de Beatriz Veiga há outra, mais que centenária, que, depois de ser residência por décadas, tornou-se o atual museu de arte näif [foto acima - 13 no mapa]. Do outro lado da rua fica o casarão do consulado da Romênia [14 no mapa], colado à igreja, prédio residencial da década de 30 [foto abaixo].





Dois números acima, o estabelecimento comercial mais antigo do bairro, modesto, datado de 1827 [foto acima - número 15 no mapa], já foi quitanda nos anos 50 (tinha tamancos pendurados na porta, vendia miudezas, fogos de artifício, cachaça e refrigerantes) e restaurante. 

Acabou por se fechar a saída do caminho do Chico (alusão ao morro do Chico, por onde se descia de Santa Teresa, um acesso de mais de trezentos anos que era atalho entre as ruas Sen. Pedro Velho e a Cosme Velho), mas o portal ainda ficou. Antes de ser extensão do restaurante, o local abrigou uma vacaria (estábulo com vacas que abasteciam de leite o bairro), mais tarde, uma carvoaria, quando o carvão aquecia fogões e ferros de engomar. 

O economista Eugênio Gudin, nascido no bairro em 1885, contou-me, quando o conheci (ele com 99 anos veio com uma amiga à minha casa para conhecer a novidade fonográfica de então, o CD), ter acompanhado sua ama para comprar leite lá.


Cruzando a rua, vizinha ao museu de arte naïf, fica a casa bem preservada onde morou Austregésilo de Athaíde [foto acima - 16 no mapa], presidente da Academia Brasileira de Letras por décadas, casado com D. Jujuca, pais de Laura, casada com Cícero Sandroni, acadêmico autor de pequeno livro sobre o bairro e morador da Rua Itamonte, no fim de Cosme Velho.


No lado oposto da rua, duas casas altas antes da estação de ônibus, residenciais e bem conservadas. A estação [foto acima] ocupa o vasto terreno onde ficava o hotel Cosme Velho, casarão neoclássico margeando à esquerda o último trecho aberto do rio Carioca, a partir daí, canalizado até à praia do Flamengo.


De frente à estação, a casa dos Rabello [foto acima - 17 no mapa], esquina da ladeira do Ascurra, que recentemente recebeu uma restauração caprichada. No encontro das ladeiras do Ascurra e do Cerro Corá, o marco zero da estrada das Paineiras (quem passar por ela verá, a cada quilômetro, marcos iguais).


Acima, colado à Estação, fica uma casa ótima e linda, ainda residencial, lá mora Armando Klabin, irmão de Israel e de Daniel [número 18 no mapa]. Depois da dele começa o casario do beco do Boticário, a parte realmente antiga (final do século XIII) do conjunto beco-largo [foto acima - número 19 no mapa]. A casa do médico e acadêmico Silva Mello (que foi homenageado nomeando a praça depois do Largo, à beira do acesso ao túnel Rebouças), que conheci transitando em roupas de antigamente pelo bairro, no banco de trás de seu Buick negro (1947), e usando pince-nez. Ele se tornou notável pelo projeto de privadas que não respingavam no usuário. Acima dela, a casa de um neto do escritor Bastos Tigre, inteiramente moderna por dentro, conservando a fachada. A seu lado ainda mora, na esquina do beco, a filha da poetisa Ana Amélia e de Marcos Carneiro de Mendonça, a crítica teatral Bárbara Heliodora.


O Largo do Boticário [foto acima - 20 no mapa] é lindo, mas... é recente. Foi construído por ideia e mando de D. Sylvinha de Bittencourt, mulher do então dono do Correio da Manhã, Paulo Bittencourt, na década de 1940, usando material de demolição das casas centenárias postas abaixo pelo prefeito Henrique Dodsworth. O Largo original, onde o atual foi construído, era um lugar pobre que ganhou o nome por causa de um farmacêutico de então, que lá viveu. Dele, sobrevivem as belas árvores da entrada.

Hoje se encontra abandonado e decadente, com ocupações de sem-teto recorrentes. Sua proprietária, herdeira de D. Sylvinha, não o vende, nem aluga, nem preserva. O Estado é impotente diante de tal situação.


Do lado oposto à entrada do Beco do Boticário ficam duas casas notáveis: a primeira foi onde nasceu o patrono dos economistas brasileiros, Eugênio Gudin [foto acima - 21 no mapa], e tem garagem para 2 coches, estreitas e altas. A AMA-CV lá afixou uma placa comemorativa do centenário de Gudin em 1986, quando ele ainda vivia (morreu pouco depois), que foi descerrada pelo antigo goleiro do Fluminense Football Club, e depois historiador Marcos Carneiro de Mendonça, viúvo da poetisa Ana Amélia, pai da crítica teatral Bárbara Heliodora, e dono da casa vizinha, a bela casa dos abacaxis (enfeites em bronze das varandas do segundo andar) [foto abaixo - número 22 no mapa], frontão neoclássico, casa de beira de rua que está hoje vazia e mal cuidada, à espera de um uso comercial que a reanime.


Resultado das demolições para a construção dos acessos do túnel Rebouças, restou um largo com chafariz, homenageando o Acadêmico Dr. Silva Mello.

As detonações de dinamite para abertura do túnel desviaram o curso d’água que jorrava da mais antiga fonte das Águas Férreas, que desapareceu na ocupação irregular das margens daquele acesso, mas cujas ruínas neoclássicas foram registradas em meu documentário, “Cosme Velho – anos 70” [no final desta postagem], e retratada por Bertichen em 1856, numa bela gravura.


Acima dos viadutos do túnel, entre a ladeira dos Guararapes e a continuação da Rua Cosme Velho, há um curioso edifico de apartamentos com um comércio pobre em baixo, que já existe há mais de setenta anos, com o apelido de “ferro de engomar” [foto acima - 23 no mapa], por ser estreito na frente e largo atrás.

No alto da Guararapes há a bela casa que foi de Paulo Geier, colecionador de arte, sobretudo relativa ao Rio de Janeiro, possuidor de tantos quadros que só lhe restavam os tetos dos aposentos para afixá-los. Doou-os em vida para o Museu Imperial de Petrópolis.


Na continuação da Rua Cosme Velho (que termina no alto da encosta para Sta. Teresa, no encontro da Rua Prof. Mauriti Santos) há de notável a casa do fundador da Rede Globo de Televisão, jornalista Roberto Marinho [foto acima - 24 no mapa]. Seu terreno enorme é atravessado pelo rio Carioca. A rua mudava de nome antes de sua casa, mas o jornalista, que queria o endereço nobre, conseguiu da prefeitura que ela se estendesse até seus limites atuais, no alto do morro.



OBRIGADO POR VISITAR MEU BLOG. VOLTE SEMPRE! PARA MAIS CONTEÚDOS SOBRE O BAIRRO DO COSME VELHO, CLIQUE NO LABEL "Cosme Velho" ABAIXO.

1.10.13

CARTOLA, O TROVADOR DO SAMBA

TEXTO DO ENCARTE DO DISCO CARTOLA DA COLEÇÃO NOVA HISTÓRIA DA MÚSICA BRASILEIRA (1977, diretor JOSÉ AMÉRICO M. PESSANHA, redator PAULO SÉRGIO M. MACHADO). FOTOS TIRADAS NO CENTRO CULTURAL CARTOLA PELO EDITOR DESTE BLOG. PARA  INFORMAÇÕES DE ENDEREÇO, HORÁRIO, COMO CHEGAR etc. CLIQUE NA GUIA CENTRO CULTURAL CARTOLA DO GUIA DO RIO NO CABEÇALHO DESTE BLOG.

Cartola, o trovador do samba

Durante muito tempo o cidadão Angenor de Oliveira viveu no mais completo ostracismo, como conta em seu poema Obscuridade. Ninguém o conhecia, ninguém sabia dele — num aparente absurdo, o próprio Angenor chegou a ignorar a existência de Angenor.

Na verdade, já o berço humilde em família grande e pobre parecia, desde o começo, destiná-lo ao anonimato. E mais: com as circunstâncias que cercaram sua educação, tudo indicava que sua única possibilidade de ser conhecido pelo público seria através das páginas de ocorrências policiais.

 Centro Cultural Cartola, na Mangueira

Angenor nasceu (a 11 de outubro de 1908) na rua Ferreira Viana, 74, no bairro carioca do Catete.

No Catete, Angenor fazia aparições públicas nos desfiles dos grupos de pastorinhas, que as famílias habitualmente organizavam no dia de Reis. Só que ninguém dizia: 

— Olha ali o Angenor! 

Sua presença, uma vez notada, dava lugar a comentários do tipo: 

— Vejam o diabinho! 

No bloco, as irmãs vestiam-se de ciganas e Angenor, de Satanás. Igualmente satânico o viam os professores e diretores das escolas por que passava. Foi expulso do Grupo Escolar Rodrigues Alves, no Catete, e de vários outros depois disso. 

Não tardou muito e a família pobre não pôde mais sustentar-se próximo aos bairros elegantes. Angenor tinha onze anos quando a família mudou-se para a primeira estação do ramal ferroviário suburbano: Mangueira.

O Centro Cultural Cartola abriga o Museu do Samba Carioca

Mas o novo bairro não trouxe sorte. Quatro anos depois, morria a mãe, Ada Gomes. Sem meios para cuidar das crianças, e cansado de levar o "diabinho" de colégio em colégio, o pai, Sebastião Joaquim de Oliveira, tomou uma decisão: chamou Angenor e mandou-o cuidar da própria vida.

Com quinze anos, solto no mundo (em Mangueira), sem ter onde dormir, o rapaz precisou arrumar um emprego (que ocupava os dias) e ingressar nas rodas de boemia e malandragem (que completavam as noites). Foi se chegando aos valentes de Mangueira (Maçu, Antonico) e, empunhando um violão, conseguiu lugar no Bloco dos Arengueiros, que desfilava nos carnavais. Em seu primeiro ano de vida solta, tentou compor um samba — Chega de demanda — que o pessoal achou medíocre. Mas os grandes estimularam-no a continuar.

Fluminense, time do coração de Cartola

Para ganhar a tal "vida solta", empregou-se numa tipografia. Mas tinha de trabalhar quieto, sem assobiar ou cantar — não era oficio para seu temperamento irrequieto. Segundo ele próprio, "queria era bagunça". O que fazer? Observando as construções, viu que os operários moviam-se muito, falavam à vontade, assobiando e mexendo com as moças que passavam...

— E às vezes até davam sorte! Aquilo sim que era emprego. 

Conseguiu trabalho, aprendeu a profissão de pedreiro. Tudo bem, Só um problema: o pó de cimento grudava na cabeça, ficava incomodando, difícil de sair. Um chapéu de folha de jornal, ou mesmo um boné, não pegariam bem, estragariam a estampa de Angenor. E ele tratou de ser elegante, arrumando, não se sabe onde, um chapéu coco, que passou a usar no trabalho. 

— Por que não usa uma cartola logo de uma vez? Ei, você aí de chapéu coco! Ei, você aí de cartola! Ei, Cartola!

... que bobagem, as rosas não falam, simplesmente as rosas exalam, o perfume que roubam de ti...

Cartola cuidou do apelido. Toda noite escovava o chapéu para exibi-lo no dia seguinte do alto dos andaimes, olhando para as meninas que passavam e mexendo com elas. Pedreiro, sambista, boêmio, trabalhador — Cartola foi se ajeitando. Já se esquecera que era Angenor, o que, alias, só tinha descoberto recentemente, quando precisou da certidão de nascimento para casar:

— Angenor, ora essa! Sempre pensei que era Agenor. 

Na vidinha de todos os dias, Cartola começava a se ocupar cada vez mais das coisas de Mangueira. Nos fins da década de 20, os antigos blocos carnavalescos, prolongamento das rodas de samba dos morros cariocas, começavam a se organizar em sociedades permanentes. O Estácio, onde viviam os sambistas Ismael Silva, Brancura, Alcebíades Barcelos, Edgar Marcelino dos Passos e Nílton Bastos, tomou a iniciativa, fundando uma associação com o significativo nome de "Deixa Falar" que, com justificada pretensão, apresentava-se como uma "escola de samba". 

Taí: escola de samba. Os desorganizados blocos gostaram da ideia. E Estácio e Mangueira eram amigos de longa data. Nas segundas-feiras de carnaval, a Deixa Falar subia o morro em homenagem à Mangueira. No dia seguinte, os mangueirenses retribuíam a visita. Mais tarde, Cartola até faria um samba para saudar o Estácio: "Muito velho, pobre velho,/ vem subindo a ladeira/ com uma bengala na mão. / É o Estácio, velho Estácio./ Vem visitar a Mangueira/ e trazer recordação. / Professor, chegaste a tempo/ pra dizer neste momento/ como devemos vencer".

"Todo o tempo que eu viver só me fascina você, Mangueira" (Cartola)

Então, seguindo o exemplo do Estácio, Mangueira constituiu uma escola de samba. Cartola escolheu o nome - "Estação Primeira de Mangueira" — e sugeriu as cores, o verde-rosa que se tornaria famoso.

Tudo pronto, elegeu-se a diretoria: Saturnino Gonçalves, presidente, ajudado por Marcelino José Claudino, Francisco Ribeiro, Pedro Caymmi, Carlos Cachaça e Cartola. Prepararam-se os instrumentistas (tamborim, pandeiro, violão e cavaquinho; surdo, reco-reco e cuíca só seriam introduzidos depois, pela Deixa Falar). Escolheu-se o samba (Chega de demanda, de Cartola). O resto foi só descer para a cidade: 

— O primeiro concurso de escolas de samba — lembra Cartola — foi promovido em 1929 ou 1930, na Praça Onze, pelo José Spinelli. Ele comprou umas taças numa loja da Praça Onze mesmo, sentou-se como único juiz numa cadeira e assistiu ao desfile das poucas escolas que havia. Ganhou a Mangueira.


Mangueira subia e Cartola firmava-se como um dos maiores compositores do morro. Numa Feira de Amostras na Esplanada do Castelo, o jornal "A Pátria" promoveu um concurso de sambas de escola. Cartola ganhou e levou como prêmio uma medalha de ouro (mais tarde deixada numa casa de penhores), dois violões e um cavaquinho. Indagado se voltaria a concorrer no ano seguinte, respondeu com modéstia que não, que Mangueira deveria indicar outro de seus muitos e bons compositores (Carlos Cachaça, Aluísio Dias, Zé-com-Fome — o Zé da Zilda, autor de Aos pés da santa cruz —, Geraldo Pereira, Ataliba Leal). E de fato, no ano seguinte, o prêmio seria conquistado por Carlos Cachaça. 

Com a popularidade adquirida como compositor de escola, logo Cartola receberia propostas que iriam lhe permitir complementar o magro salário de pedreiro. Por volta de 1929, um guarda municipal por nome Clóvis procurou-o no morro para lhe propor a compra de alguns sambas. Clóvis agia como intermediário de Mário Reis, um dos cantores de maior sucesso na época. 

— Comprar samba pra quê? Que que ele vai fazer com um samba? Esse cara é maluco... 

Vamos lá, Cartola, o negócio e bom. Vamos falar com o moço. 

— Eu não vou vender nada. Isso não se vende... Vai dar confusão com a polícia. 

Mas Cartola acabou se deixando convencer e foi falar com Mário Reis, que lhe comprou Que infeliz sorte por 300 mil-réis (a princípio Cartola pensara em pedir só 50). Em 1930, a música apareceria em selo Odeon, interpretada pela dupla Mário Reis-Francisco Alves. Olhando seu nome na etiqueta (Mário Reis comprara apenas os rendimentos autorais da gravação, e não a autoria do samba), Cartola começou a achar muito bom esse negócio de vender sambas. E repetiu a dose com Chico Alves, para quem vendeu inúmeras composições, como Tenho um novo amor e Divina dama.


Divina dama, a composição predileta de Cartola, foi escrita numa quarta-feira de cinzas de muita dor-de-cotovelo. Inspirava-se numa cabrocha de Ramos: "Tudo acabado,/ e o baile encerrado,/ atordoado fiquei./ Eu dancei com você,/ divina dama,/ com o coração queimado / em chama".

A mulata estava noiva de outro — daí a dor-de-cotovelo e o samba (que lhe valeu 300$000).

Com o dinheiro ganho na venda das composições, Cartola esforçava-se por fazer jus ao apelido: andava sempre de palheta nova, chegando a comprar (por 7$000 cada) várias num mesmo mês. Outra bossa da elegância da época eram os chinelos Charlot, de lona, fechados na frente e com a forma da cara de um gato — e Cartola era proprietário de dois pares, um verde e um vermelho xadrez.

O dinheiro ganho com as músicas permitia essas pequenas excentricidades e reforçava o orçamento, mas era muito eventual. E, claro, o salário de pedreiro não podia sustentar o samba e a boemia. Cartola, como outros compositores, vivia em dificuldades, sempre precisando de algum.

Um dia, meio apertado, resolveu fazer um vale com Chico Alves, e foi procurar o cantor num botequim (nas proximidades de onde, hoje, está o Maracanã). Chico ainda não chegara, mas estava Noel Rosa. Cerveja vai, conversa vem, e:

NOEL: Você viu o Chico por aí?
CARTOLA: Não, por quê?
NOEL: Vou meter um vale nele.
CARTOLA: Eu também estou esperando o Chico pra arrumar algum.
NOEL: Ih! Ele vai botar a boca no trombone.

E botou mesmo. Pão-duro famoso, Chico Viola deu escândalo, só concordando em se separar de algum dinheiro depois que, premidos pela necessidade, os compositores, ali mesmo no boteco, criaram duas músicas. Noel fez Estamos esperando, Cartola, Diz qual foi o mal que te fiz. (Outra versão diz que os dois fizeram apenas este samba, tendo Cartola se encarregado da primeira parte.)

Nelson Cavaquinho

Além da venda dos sambas (muitos dos quais acabaram esquecidos pelo autor), Cartola andou tentando a carreira de intérprete. Formou um trio vocal e instrumental com Wilson Batista e Oliveira da Cuíca (o primeiro cuiqueiro do rádio) — mas o conjunto, que deveria exibir-se em todo o Brasil, só conseguiu ir até Barra do Piraí, antes de se dissolver. Com Paulo da Portela, Cartola lançou um programa de rádio chamado A voz do morro — que foi ouvido apenas por três meses. Mas Cartola insistiu, apresentando-se como cantor-compositor nos programas das rádios Educadora, Philips e Cruzeiro do Sul, além de formar no coro da gravadora Columbia, onde acompanhava os cartazes Aracy Cortes, Moreira da Silva, Ratinho.

Em 1940, tornou-se internacional, graças ao maestro Villa-Lobos, que foi buscá-lo (como também a Pixinguinha e outros) para gravar com a Orquestra Sinfônica da Juventude Americana, que Leopold Stokowski trouxera ao Brasil. Na gravação — feita a bordo do navio Uruguai, e com a presença de Donga, Zé da Zilda, João da Baiana, Jararaca e outros —, Cartola apresentou Quem me vê sorrindo, que fizera em parceria com Carlos Cachaça. As gravações, apresentadas em dois álbuns, foram lançadas nos Estados Unidos pela Columbia, e valeram a Cartola o lucro bruto de 4$000 (numa época em que, mesmo explorado, ele vendia uma composição por 300/500$000).



Villa-Lobos ("uma espécie de padrinho meu") ainda apareceria outras vezes na carreira de Cartola, levando-o a um festival de música no campo do Fluminense, e a participar de filmagens feitas na Quinta da Boa Vista. 

Tudo isso, no entanto, ocorria com vários anos de intervalo. Já na década de 30, a carreira artística revelara-se pouco rentável, impraticável mesmo. O pouco que Cartola recebia de direitos autorais devia-se a algumas gravações, como Na floresta (Sílvio Caldas, 1932) e Não faz, amor (Francisco Alves, 1932). 

A despeito de todas as tentativas, Cartola continuava a ser um compositor do morro, conhecido apenas nas escolas de samba. O morro cantava suas músicas, mas isso não dava dinheiro. Para sobreviver e cuidar da companheira, continuava mais seguro o ofício de pedreiro. E assim ia vivendo o Cartola: de dia, pôr um tijolo; de noite, compor ou cantar um samba. Até que, de repente, em 1948, sem dizer nada a ninguém, desapareceu da Mangueira.


A história só recomeçaria numa incerta madrugada dos últimos anos 50. Naquele fim de noite, Sérgio Porto, o Stanislaw Ponte Preta, procurava um bar aberto em Ipanema. Encontrou o botequim, pediu seu café e começou a tomá-lo quando entrou um lavador de carros. Macacão encharcado, inseguro nas pernas, o homem pediu qualquer coisa para beber. Sérgio tomou cuidado para que o sujeito não esbarrasse nele, não entornasse café em sua roupa. Virou-se e, meio por acaso, reconheceu o paupérrimo lavador: Cartola

Aos poucos a estória foi sendo conhecida. Um ataque de meningite, três dias praticamente morto. Sua companheira, que não era de pedir favores, levou-o para Nilópolis, onde a recuperação levou mais de um ano, durante o qual o compositor só conseguia andar de muletas. 

Voltou curado, mas não completamente. Pernas pouco firmes e tonturas frequentes impediam que Cartola trabalhasse como pedreiro. Tornara-se guardador e lavador de carros em Ipanema, das dez da noite às seis da manhã.


Continuava a compor, sim. Por exemplo, uma canção de agradecimento ("gravada pelo Jamelão por volta de 1952") chamada Grande Deus: "Deus, grande Deus,/ meu destino, bem sei / foi traçado pelos dedos teus./ Grande Deus,/ aqui de joelhos,/ voltei para te implorar:/ perdoai-me./ Sei que errei um dia,/ ô, ô, perdoai-me,/ pelo nome de Maria,/ e nunca mais direi/ o que não devia". (Hoje ele conta com um sorriso que essa canção, além de tudo, é o seu "abre-alas no Céu".) 

Segundo Cartola, "aquilo foi um espanto pro Stanislaw. Aí ele disse que ia me tirar daquele serviço. E tirou". 

Em 1960, ele tinha emprego fixo como contínuo numa repartição pública. E as coisas começaram a melhorar.


Em Mangueira, para onde voltara depois de restabelecido, havia conhecido Zica (Euzébia Silva do Nascimento), notável passista e cozinheira de mão cheia. Cartola perdera sua primeira mulher e...

— Um dia passei na casa do Carlos Cachaça, e conheci a cunhada dele, mocinha mas já viúva. Essa mesma Zica que está aí. A gente combinou logo, desde o início, e num instante estava vivendo junto.

A partir de 1961, os amigos foram chegando, e na casa de Cartola e Zica havia samba todas as sextas-feiras. Apareciam Zé Keti, Élton Medeiros, Paulinho da Viola, Jair do Cavaquinho, Anescarzinho do Salgueiro e outros sambistas. E sempre alguém comentava:

— Com esses quitutes que a senhora faz, dona Zica, devia abrir um restaurante.


Era uma ideia. No ano seguinte, ao invés de receber os amigos em casa, na rua dos Andradas, Cartola convidava-os para o Zicartola, recém-inaugurado restaurante na Rua da Carioca. Entre os frequentadores, e sempre participando dos shows de improviso, Tom Jobim, Zé Kéti, Nélson Cavaquinho, Ismael Silva, Elizeth Cardoso, Clementina de Jesus, João do Vale, Paulinho da Viola, Dorival Caymmi, Silvinha Teles.

Bons tempos, em que Cartola viu suas composições O sol nascerá e Sim gravadas, respectivamente, por Nara Leão e Elizeth Cardoso. Com o dinheirinho faturado, realizou um velho sonho: fez uma operação plástica no nariz, sempre inchado e em forma de couve-flor.

Paralelamente, a crítica descobria, para desespero dos paternalistas, que Cartola não era exatamente um primitivista. O compositor se declarava, numa entrevista, leitor atento de bons poetas brasileiros e portugueses.

"Eu dancei com você divina dama com o coração queimando em chama.
Em 1964, casou-se com Zica (depois de doze anos de companheirismo), em cerimônia que marcou época, no Rio.

Depois, tão depressa quanto viera o sucesso, veio o declínio. O Zicartola saía da moda, e no fim, Nélson Cavaquinho cantava para mesas vazias. Fechado o restaurante, Cartola e Zica viram outra vez seu orçamento limitado ao dinheiro do salário de contínuo e dos direitos autorais de Cartola. A situação ficou tão ruim que tiveram de viver por uns tempos na rua Bento Ribeiro, casa do pai de Cartola.

Uma das causas do pouco dinheiro é que Cartola, embora não tivesse filhos, tinha sempre crianças a cuidar: Ruth (filha da primeira esposa), depois Regina (filha do casamento anterior de Zica), depois Ronaldo (que Zica adotara), Creusa (“filha do meu amigo Amadeu”) e finalmente os dois filhos de Regina.


Mas em 1970, “por tudo que Angenor de Oliveira representa para nossa música popular”, o Estado da Guanabara doou-lhe um terreninho em Mangueira. Cartola, auxiliado por um ajudante, construiu pessoalmente a casinha, de 8 m por 3,5 m. Afinal, um lugar de seu. Aos 65 anos — mais de cinquenta de música — foi chamado a gravar um LP. Três anos depois, gravaria o segundo. Trocou a pinga (“acho que já tomei a minha conta”) pela cerveja, e a Mangueira pelo violão doméstico:

— Não vou à avenida desfilar, mas não deixo de sentir aquela emoção. Vibro quando o povo saúda a Mangueira. Só que a zoada é muito grande. Foi um tal de colocar surdos, taróis e cuícas que não existe tímpano que aguente. Antigamente era muito mais bonito, o tamborim reinava na bateria. Nos primeiros tempos de Mangueira, a escola era conhecida de longe pelo ruído do arrastar das sandálias de suas pastoras do samba. Hoje, com o excesso de barulho, isso não é mais possível.


Nostálgico? Talvez, mas não passadista. O compositor que escreveu “a sorrir eu pretendo levar a vida, / pois chorando eu vi a mocidade perdida” (O sol nascerá, parceria com Élton Medeiros) fez essa declaração numa época em que se encontrava em plena atividade.

Depois do show Cartola convida (1970), no edifício da extinta União Nacional dos Estudantes, no Rio, depois dos dois long-playings, e depois de ter reaberto em São Paulo o Zicartola (1974), a vida e a carreira do compositor sexagenário estavam no apogeu, como em sua canção: “Bate outra vez, / com esperança, o meu coração, / pois já vai terminando o verão, enfim / volto ao jardim...” (As rosas não falam).

Da escola de Arturzinho e Antonico, na antiga Mangueira, Cartola tornou-se uma tendência da música popular, que, via serões musicais, passou a Paulinho da Viola, Élton Medeiros, Nélson Sargento e outros.

— Meu samba tem um ritmo sincopado, um pouco lento. Não sei explicar exatamente por quê, mas a minha linha melódica é inconfundível. Como também são as de Zé Kéti, Paulinho, Nélson Cavaquinho. Reconheço à primeira vista qualquer música deles.

Dos velhos tempos difíceis sobrou um discutível consolo:

— A minha vida deixou pouco para sentir saudades, mas a verdade é que quanto mais a gente sofre, mais tem inspiração.

No presente [início dos anos 70], o velho pedreiro só pensa em aprimorar seus tijolos. E promete, cheio de humildade:

— Ainda continuo a aprender e acho que daqui para os cem anos, estou fazendo coisa boa. [Cartola morreu no dia 30 de novembro de 1980] 

Orquestra jovem da Mangueira