ENSEADA DE BOTAFOGO

ENSEADA DE BOTAFOGO
"Andar pelo Rio, seja com chuva ou sol abrasador, é sempre um prazer. Observar os recantos quase que escondidos é uma experiência indescritível, principalmente se tratando de uma grande cidade. Conheço várias do Brasil, mas nenhuma tem tanta beleza e tantos segredos a se revelarem a cada esquina com tanta história pra contar através da poesia das ruas!" (Charles Stone)

VISTA DO TERRAÇO ITÁLIA

VISTA DO TERRAÇO ITÁLIA
São Paulo, até 1910 era uma província tocada a burros. Os barões do café tinham seus casarões e o resto era pouco mais que uma grande vila. Em pouco mais de 100 anos passou a ser a maior cidade da América Latina e uma das maiores do mundo. É pouco tempo. O século XX, para São Paulo, foi o mais veloz e o mais audaz.” (Jane Darckê Avelar)

13.12.17

RIO DE JANEIRO ANTES E DEPOIS, de CYRO DE MATTOS


A primeira vez que vi o Rio de Janeiro foi pela janelinha do avião. Perde-se na memória dos anos quando isso aconteceu. Por ter sido aprovado no exame do vestibular do curso de Direito, em Salvador, recebi como presente do pai uma viagem para conhecer o Rio de Janeiro onde permaneceria durante trinta dias, divertindo-me e conhecendo os lugares pitorescos da cidade cantada como maravilhosa em nosso cancioneiro.


Na minha terra natal, no interior da Bahia, e em Salvador, onde fui estudar o curso clássico, ouvia ser chamada de maravilhosa a cidade que seduzia os brasileiros e gente que vinha do estrangeiro para conhecê-la de perto, com o seu jeito mestiço e alegre. Uma canção dizia que Copacabana era a princesinha do mar, não existia praia mais bela cheia de luz, nas suas areias desfilavam sereias.


O Maracanã tinha jogos empolgantes, entre as principais equipes cariocas, era uma festa de bandeiras, erguidas por torcedores vibrantes, a cada lance empolgante da partida jogada no tapete verde. De qualquer lugar você via o Cristo abençoar a cidade, os generosos braços abertos ao abraço imenso. O bondinho do Pão de Açúcar transportava gente brasileira e do estrangeiro para lá em cima do morro percorrer os olhos deslumbrados pela paisagem da cidade embaixo, cercada de morros e favelas, povoada de edifícios como espigões que furavam o céu.


Do Pão de Açúcar você tinha a cidade a seus pés, pressentindo-a com o seu ritmo por dentro, na alegria que irrompia do futebol no Maracanã e nas escolas de samba quando chegava o Carnaval. Havia, nesse tempo bom para ser vivido, sempre um sorriso na passagem da vida, embora as favelas fossem se expandindo por vielas e becos, intimidando lá do morro com as quadrilhas disputando o poder no tráfico de drogas. Gente perigosa descia a ladeira e no asfalto investia contra a cidade, tendo no rosto o espanto do assalto acompanhado da morte.

A cidade ainda não ultrapassava os limites sem fim do seu galope amarelo. Na Rua do Catete, por exemplo, com sua gente nas esquinas, discutia-se futebol e política, as luzes dos postes iluminavam à noite os ônibus e carros que passavam, alguns gatos fugiam dos velhos casarões e vinham caminhar nos passeios. O bairro do Flamengo era povoado de bares, lojas e pensões, o vento trazido do mar despejava o cheiro de maresia nos ares em silêncio.

Durante o dia, no centro, a cidade acontecia com um povo afobado, andando com pressa, a subir nos ônibus, a encher os cafés e as lojas, a entupir os passeios, a zumbir como abelhas nos ruídos de uma colmeia gigantesca. O barulhão dos motores e das buzinas, o fumaceiro dos ônibus, os sacos de lixo nas calçadas, fregueses comprando jornal ou revista nas bancas do passeio e das galerias, tudo isso enchia de prognósticos a vida diária, que a cada dia aumentava com sua gente, entre o alegre e o triste, pressentida do prognóstico que iria extraviar-se por várias direções.


A cidade ainda era cantada em prosa e verso como a que tinha encanto de sobra, chegando a causar arrepio. Naqueles idos de 1968, depois da refeição do jantar, ia com a esposa fazer o percurso entre a Rua Correia Dutra e o Largo do Machado. Era bom caminhar despreocupado. Sentir o movimento da cidade que passava segura, sem muita pressa. Voltávamos de mãos dadas, sem ter medo de nada, pois aquele vento bom, que vinha do mar, dava-nos a certeza de que viver naquela cidade grande valia a pena, chegando a ser um privilégio.

Depois de transcorridos alguns anos na cidade grande, voltei a residir em minha terra natal, no interior baiano. Os três filhos, já criados e casados, deram-me seis netos. Quanta generosidade da vida! Se me perguntassem se gostaria de morar hoje no Rio de Janeiro, seria difícil dizer sim. Nem sempre é fácil um homem do interior acostumar-se a morar numa cidade imensa, com ritmo veloz e intenso nos tempos de hoje, de disputa exacerbada pelo espaço, para não se falar do medo que ultrapassou os limites de seu galope amarelo.


Medo de ir ao supermercado. Medo de andar de ônibus. Medo de sair de casa e não voltar. Medo de ser alcançado pelo tiroteio trocado entre a polícia e os traficantes de droga, em plena luz do dia. Medo de ser atropelado por um ônibus, que subiu desembestado no passeio. Medo de ser morto pela briga das torcidas antes mesmo de o jogo ser iniciado. Medo de ser pisoteado na passeata pela multidão, que de repente confrontou-se com a facção rival. Medo de ser queimado no ônibus. Medo de ser morto por uma bala perdida quando estava rezando na missa.

Meu Rio de Janeiro, apesar de todos os traumas dos tempos atuais, gosto muito de você.

*Baiano de Itabuna, onde reside, Cyro de Mattos é contista, novelista, romancista, cronista, poeta, autor de livros para jovens e crianças, organizador de antologia e coletânea. Já publicou quarenta e três livros pessoais no Brasil e doze no exterior: Portugal, Itália, França, Espanha e Alemanha. É membro efetivo da Ordem do Mérito da Bahia, Pen Clube do Brasil, Academia de Letras da Bahia, Academia de Letras de Ilhéus e Academia de Letras de Itabuna. Doutor Honoris Causa pela Universidade Estadual de Santa Cruz (Sul da Bahia). Premiado no Brasil, Portugal, Itália e México. 

1.12.17

VIAJANTES ESTRANGEIROS NO RIO DE JANEIRO: EDMONDO DE AMICIS (1884)


Em 1884, retornando de uma viagem à Argentina que resultou na obra Sull'oceano (sobre a qual fiz uma postagem no meu outro blog, o Sopa no Mel, que você pode acessar aqui), o escritor italiano Edmondo de Amicis, mais conhecido por seu clássico Coração, fez uma breve escala no porto do Rio de Janeiro, mas somente dezoito anos depois (1902) veio a escrever um artigo sobre a cidade, publicado no suplemento La Lettera do jornal milanês Corriere della Sera. O artigo foi incluído como "bônus" na edição brasileira do livro citado, intitulada Em Alto-Mar, publicada em 2017 pela Nova Alexandria em coedição com o Istituto Italiano di Cultura, com tradução, curadoria e notas de Adriana Marcolini. Em seguida, alguns trechos do artigo de De Amicis.  Observe que esta talvez seja a primeira vez em que se faz alusão à cidade como "maravilhosa" numa crônica. As três fotos de Marc Ferrez de 1890, obtidas na Biblioteca Nacional Digital, dão uma ideia de como teria sido a cidade na época em que De Amicis a visitou.



– Por que o senhor nunca escreveu nada sobre o Rio de Janeiro?

Esta pergunta me foi feita uma centena de vezes durante os dezoito anos que se passaram desde que fui ao Brasil, e cem vezes dei sempre a mesma resposta pronta, tal como fazem os deputados quando conversam com os eleitores: – Porque fiquei apenas três dias, quando o Sírio, o navio em que viajei de Buenos Aires para Gênova, fez uma escala no porto da cidade. Amigos bondosos se desdobraram para me mostrar tudo, levando-me para todos os lados de carruagem, de bonde e em via férrea, desde cedo até a noite, como alguém que quisessem salvar da caça de uma banda de credores; vi muito, mas vi tudo correndo, afobado e com os olhos ofuscados pelo cansaço, de forma que me esqueci de muitas coisas, e de outras só tenho uma vaga lembrança, e até das imagens que se mantiveram mais vivas tenho lacunas obscuras, sobre as quais mesmo se reflito longamente nunca consegui captar uma mínima recordação. O que poderia escrever? Seria como descrever um sonho.

A esta resposta de sempre, poucos dias atrás, um intrépido italiano, que recentemente voltou do Brasil para Itália, rebateu sagazmente: – Mas o senhor não se sente tentado a fazer a descrição de uma cidade maravilhosa, onde permaneceu somente poucas horas, e da qual se lembra apenas como um sonho?

– Eis aí uma ideia – pensei.

E aquela ideia colocou-me a pena na mão e pregou-me à escrivaninha.

Mas eis uma lacuna da memória justamente bem no começo, no momento em que o Sírio, em uma esplêndida manhã de junho, ainda balançava no porto do Rio de Janeiro. [...] O mensageiro bem-vindo estava no meio de muitos italianos queridos: lembro-me do nome de alguns, mas não me lembro da fisionomia de nenhum deles. E não me recordo nem mesmo como desembarquei, com quem subi na carruagem, o que vi nas ruas que percorri para ir a Botafogo, o bairro da aristocracia e dos diplomatas, onde me esperava o secretário da legação italiana [...] Lembro-me só de um detalhe daquele trajeto: a forte tentação, vencida com muito sofrimento, de pular da carruagem quando passamos por uma feira de frutas. Ah, que atração mágica, aquelas frutas tropicais grandes, de formas e cores desconhecidas! Eu me esqueci dos bairros, dos monumentos, dos personagens ilustres, mas ainda tenho diante dos olhos, em meio às vendedoras de frutas negras e mulatas, agachadas no chão, entre as pilhas de abacaxis e de bananas douradas e prateadas, aquelas frutas misteriosas que se parecem com pinhas verdes, com bolas douradas, com tomates em forma de fuso, com abóboras metálicas, algumas das quais, cortadas ao meio, revelavam uma cremosidade branca e rosada e prometiam sabores extraordinários.

Que ruas terei eu subido para chegar ao morro da Tijuca, o famoso belvedere da Baía, o passeio clássico do Rio de Janeiro? Parece-me agora que a carruagem puxada por quatro burros, na qual, se não me equivoco, estavam comigo o cônsul Glória, o valoroso Jannuzzi e o gentil farmacêutico Foglia, tenha chegado lá em cima como uma bola voadora através da neblina. Recordo apenas do último trecho do longuíssimo trajeto, pelas vielas de um parque encantador, ladeadas por uma vegetação soberba, entre as quais despontavam samambaias gigantescas elegantemente esbeltas que tinham a forma de guarda-chuvas e uma admirável tonalidade verde-clara, onde, com breves intervalos, a carruagem passava rente a solitários cidadãos brasileiros que estavam ali pacientemente à espera da graciosa presa, com o rosto voltado para o alto e segurando a rede para caçar borboletas, em pose de filósofos armados.

Sim, Mantegazza tinha razão quando me escreveu: – Queira me desculpar, mas o Rio de Janeiro é mais bonito que Constantinopla. Não é que a cidade seja mais bonita, mas sim o lugar, as águas, toda a natureza que a circunda. Oh, não há comparação!


O que dizer da cidade do Rio de Janeiro? Quem a definiu melhor comparou-a a um polvo imenso, que tem a cabeça na pequena cidade original de São Sebastião – implantada entre duas colinas à beira da baía, todavia quase intacta; cheia de ruas estreitíssimas e em linha reta, de aspecto antigo, embora ainda não tenha quatro séculos – e avança para o mar; seus infinitos tentáculos, formados por fileiras de bairros cujas extremidades têm entre si uma distância maior do que de uma ponta à outra de Londres, enfiam-se por aqui e ali, em volta de lagoas e curvas, subindo morros, entrando por vales, adentrando em extensas planícies. Percorri intermináveis trajetos de carruagem entre os mais distantes pontos. Meu cicerone anunciava de vez em quando o nome de um novo bairro, e me indicava uma vista diferente das ilhas, da outra margem da baía, e das montanhas que a circundam. Mas como lembrar-se daquele monte de nomes portugueses e indígenas, daquela grande variedade de panoramas admiráveis, de tantas passagens de um bairro deserto para outro cheio de vida, de um porto para um parque, da planície para a altitude? Às vezes parecia que a cidade tivesse acabado, mas pouco depois recomeçava. Às residências carregadas dos primeiros construtores portugueses seguem-se as casas de campo surgidas há pouco, que dão ostensivamente para os jardins como para tomar grandes goles de ar.

Todas as minhas lembranças do Rio de Janeiro brilham de verde: admita-se a metáfora de mau gosto. Revejo em pensamento que, para além de qualquer coisa, o mais bonito é a vegetação opulenta, ostensiva, dominadora, e vem-me à mente a imagem de pobreza, aquela que, mesmo esquálida, também confere beleza e alegria às cidades dos nossos países. As árvores brotam do empedrado das ruas assim como na Itália os tufos de grama surgem dos velhos muros, obstinados em viver a qualquer custo, nas condições mais adversas para a vida; dos muros dos jardins despencam ramos floridos, cabeleiras esverdeadas, guirlandas e cascatinhas de folhagens e flores; por todos os lados abrem-se jardins cheios de todo tipo de samambaias, orquídeas, bromélias, bananeiras com folhas grandes, exuberantes e carregadas que parecem competir com o espaço e a luz e querer dominar as casas. A maioria das praças é palco de jardins deslumbrantes, onde as árvores gigantescas, com troncos estranhos e folhagens graciosas são tão densas, disformes e de aspecto tão diverso, com tons tão diferentes de verde que o olho se cansa até de vê-las pouco, e quase tem uma sensação de ofuscamento, como se estivesse diante de um espetáculo em constante mutação.


Sim, sem dúvida, subi no topo do Corcovado, o glorioso morro corcunda que forma a cabeça de um Gigante deitado; do qual o não menos celebrado Pão de Açúcar representa os pés unidos, que despontam do mar. [...] Visitei o admirável Jardim Botânico, nas proximidades da Lagoa Rodrigo de Freitas, mas com exceção da grande alameda das Palmeiras gigantes, famosa na América tal como o pinheiral de Ravenna na Europa, e de um copo de cerveja que engoli quando senti uma sede enorme, não tenho mais nenhum rastro na memória.