ENSEADA DE BOTAFOGO

ENSEADA DE BOTAFOGO
"Andar pelo Rio, seja com chuva ou sol abrasador, é sempre um prazer. Observar os recantos quase que escondidos é uma experiência indescritível, principalmente se tratando de uma grande cidade. Conheço várias do Brasil, mas nenhuma tem tanta beleza e tantos segredos a se revelarem a cada esquina com tanta história pra contar através da poesia das ruas!" (Charles Stone)

VISTA DO TERRAÇO ITÁLIA

VISTA DO TERRAÇO ITÁLIA
São Paulo, até 1910 era uma província tocada a burros. Os barões do café tinham seus casarões e o resto era pouco mais que uma grande vila. Em pouco mais de 100 anos passou a ser a maior cidade da América Latina e uma das maiores do mundo. É pouco tempo. O século XX, para São Paulo, foi o mais veloz e o mais audaz.” (Jane Darckê Avelar)
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14.7.08

PÃO DE AÇÚCAR

SUGARLOAF/ZUCKERHUT/PAIN DE SUCRE



Bondinho chegando na estação/The cable-car arriving at the station

[For an English text, see my blog Rio de Janeiro Around the Year]
Qual dos portugueses da equipe de Estácio de Sá deu esse nome ao morro mais fotografado do mundo é difícil saber. Uma coisa é certa: quando os fundadores da cidade desembarcaram e viram o imponente maciço, acharam que se parecia com os cones de açúcar que eram produzidos na Ilha da Madeira e colocados no mercado europeu.

O Pão de Açúcar tem aproximadamente 400 metros de altura e está próximo aos morros da Urca e da Babilônia. Em 1909, os engenheiros Augusto Ferreira Ramos e Manoel Antônio Galvão ganharam autorização da Prefeitura para construir e explorar, durante 30 anos, um caminho aéreo que ligasse a praia Vermelha ao morro da Urca.

O projeto parecia tão desafiador que muita gente não acreditou pudessem os engenheiros levar semelhante tarefa a cabo. [...] O trecho inicial, coberto por cabos de aço, numa distância de 575 metros e 224 de altura, foi inaugurado a 25 de outubro de 1912, em meio a uma festa e foguetório, que mobilizou a cidade e particularmente o bairro. A praia Vermelha engalanou-se mas foram poucos — em geral homens — os que tiveram coragem de figurar como primeiros passageiros da viagem aérea até o morro da Urca.

O trecho seguinte — Urca-Pão de Açúcar —, cobrindo uma distância de 800 metros e 395 de altura, aconteceu a 18 de janeiro de 1913. O bondinho comportava 23 passageiros e deslizava em dois cabos-trilhos. Houve outra festa e, desta vez, formou-se fila, pois eram muitos os que desejavam ver a cidade como se estivessem num avião.[...]

Por ano, segundo dados oficiais, aproximadamente 1 milhão de pessoas — em geral turistas — utilizam-se do bondinho, a fim de ver que o Rio de Janeiro é, realmente, uma Cidade Maravilhosa. (Do livro de José Louzeiro, Urca, Coleção Cantos do Rio, Editora Relume-Dumará)



Subindo.../Up we go...


Subindo.../Up...


Vista do Morro da Urca/View from Urca Hill


O Pão de Açúcar/The Sugarloaf


Segunda parte do percurso: do Morro da Urca ao Pão de Açúcar/Second leg of the trip: from Urca Hill to Sugarloaf


Pão de Açúcar e estação do bondinho/Sugarloaf with the cable-car station


Vista do alto do Pão de Açúcar/View from the Sugarloaf


Uma turista & vista de Copacabana/A tourist & view of Copacabana Beach


Vista do Pão de Açúcar: está vendo o Corcovado lá atrás?/View from Sugarloaf: can you see the Corcovado over there?


Vista do Pão de Açúcar/View from Sugarloaf


Quase a mesma vista fotografada por Marc Ferrez em 1885/Almost the same view photographed by Marc Ferrez in 1885

Noite/Night

Fotos do editor do blog

4.10.06

EU NÃO EXISTO SEM O PÃO DE AÇÚCAR

MARIZA DE ALMEIDA REBOUÇAS



Rio, 20 de janeiro de 1998
Querido Dieter



Você entrou naquele avião e eu sabia que o nosso caso de amor estava acabado. Só o caso, o amor não. Vou seguir amando você enquanto respirar, e, se houver vida outra além desta conhecida, creia, o meu amor ainda será você. E os borrões, redesenhando as rosas desse lindo papel de carta que você me trouxe, são lágrimas sobre tinta, testemunhas líquidas e certas do sofrimento que experimento ao decidir permanecer no Brasil.

Dieter, em sua sabedoria germânica, diga-me como vou viver no seu sóbrio país? Dieter, amor meu, como se planta um coqueiro em Berlim? Porque aqui estou como um coqueiro solidamente plantado nas areias asfaltadas de Copacabana onde nos conhecemos, lembra? Fazia um calor dos diabos mesmo nas primeiras horas do dia, eu caminhando descalça nas bordas de mar e areia, exercício lúbrico e eficiente, músculos, tendões, preguiça, um caldo só de bem-aventurança anunciando o privilégio renovado de estar viva em Copacabana, no verão, debaixo do sol, no Rio, meu Rio, meu reino.



Sabe, amor, carioca não emigra. Se emigra, não é: nasceu. Carioca perde a graça se longe está. Os feitiços com que me enfeitas, bobão, fervilham a quarenta graus no caldeirão desta cidade onde o caos se sente em casa e o bem e o mal usam bermudas de janeiro a março. Logo ali, em São Paulo, perco os poderes.

Amor, eu sou daqui, não moro apenas.

Lembra, te levei ao Grajaú, naquelas ruas ladeadas de tamarindeiras carregadas de sementes azedas e doces ao mesmo tempo? Então, te mostrei meu berço. São tantas as esquinas onde dobrei minha vida, a caminhada trabalhosa da zona norte à zona sul, ultrapassando a alagada Praça da Bandeira e, além do Santa Bárbara, a brisa e o cheiro do mar. Gaivota urbana, no concreto fiz meu ninho, que peixe se compra na feira. Tem sido assim, acordar cedo, andar ao longo da calçada, o horizonte ao alcance da mão, o verde nos limites do azul e os dourados da manhã que explode. Às vezes chove, e antes do céu virar em prata, aparece o arco-íris. Não falho um dia. Já vi todas as ressacas encolhendo o Arpoador, conheço os andarilhos diários e os bissextos, sigo acompanhada do costume, quase reconheço as raivosas buzinas que morrem de inveja deste ócio. Injustiça. Depois do meio-dia percorro repartições públicas vendendo artigos do Paraguai. Muambeira, sim, com muita honra. Tenho butique em casa, duas coisas não me faltam: dinheiro para pagar as contas e gente pra conversar. Você sempre reclamou de falta de privacidade lá de casa, a freguesia chegando fora de hora atrás de um presente, uma roupa, os improvisos além do entendimento desse seu cérebro ordenado.



Dieter, tem muambeira na Alemanha?
Tenho visto saudade na tua impaciência. O desconforto substitui o prazer, tá um calor danado, né?
Dieter, meu amado, lembra do princípio, eu voltando do mar, você chegando do hotel, estendendo sem jeito a toalha na areia, o sol do Rio queimando a tua pele conservada virgem pelo sol de Berlim? Tive pena da perda inocente dessa brancura e te emprestei meu filtro solar fator de proteção 30, caríssimo, importado. Até passei nas suas costas, generosamente, saboreando os relevos desses músculos rijos, que não sou de perder o instante.

Dieter, amor da minha vida, lembra como foi fácil passar da praia ao quarto, sala, banheiro e cozinha na calma Cinco de Julho? É que aqui sou e serei a dona de tudo, faço e desfaço. De posse de mim, tomei você. Trouxe o sonho pra casa.



E agora você quer voltar para si mesmo, é normal. Quer ser o senhor de tudo, na neve de todos os invernos, nas águas dos degelos, não sei, fico imaginando, eu que jamais vi a neve.

Dieter, meu amado, conhecemos a felicidade nesses meses quando enovelamos um inglês alinhavado, quase supérflua comunicação verbal, porque no mais das vezes usamos a linguagem da química dos corpos, da rotina de café da manhã e roupa lavada. Quanta paixão experimentamos, as diferenças que ora nos afastam, antes nos atraíam. Ouro e cobre, nossas bandeiras se embolando, verde, azul, vermelho, preto e o amarelo comum. Era lindo. Você doido por mim, eu louca por você. No travesseiro, nossos tons complementares, meus cabelos escuros, os teus tão louros - ainda que ralos. A noite nos meus olhos, nos teus a clareza azul, espelhos de uma raça eugênica e desenvolvida. Apesar que higiênica sou eu, gosto muito mais de tomar banho que você.



Mas nada é para sempre, seu trabalho no país acabou, o sortilégio também. Outra vez peguei teu olhar vagando, indaguei, é o calor , despistaste. Mentira, era o começo da volta, o canto das valquírias, umas chatas. Você muda, como se outro virasse. Ledo engano, você apenas retoma posse de si: Dieter Uhl.

Ditinho, meu bem, devolvo a passagem, mas guardarei num sacrário as memórias da nossa aventura. Fomos tão felizes, né?

Adeus, meu gringo, e perdão. Ainda que eu pudesse um dia suportar o frio e a neve aninhada nos teus braços, à luz branda de uma lareira elétrica, saboreando beijos e chocolates, ainda assim eu estaria apenas sobrevivendo.

É que eu não existo sem o Pão de Açúcar.

Eternamente sua,
Lucinha


Conto publicado originalmente sob o título "Dieter" no livro A Rainha da Hora. O livro (que eu recomendo) pode ser adquirido diretamente com a autora. Clique no marcador abaixo para ler outro texto de Mariza de Almeida Rebouças. Fotos do Pão de Açúcar de Ivo & Mi.