ENSEADA DE BOTAFOGO

ENSEADA DE BOTAFOGO
"Andar pelo Rio, seja com chuva ou sol abrasador, é sempre um prazer. Observar os recantos quase que escondidos é uma experiência indescritível, principalmente se tratando de uma grande cidade. Conheço várias do Brasil, mas nenhuma tem tanta beleza e tantos segredos a se revelarem a cada esquina com tanta história pra contar através da poesia das ruas!" (Charles Stone)

VISTA DO TERRAÇO ITÁLIA

VISTA DO TERRAÇO ITÁLIA
São Paulo, até 1910 era uma província tocada a burros. Os barões do café tinham seus casarões e o resto era pouco mais que uma grande vila. Em pouco mais de 100 anos passou a ser a maior cidade da América Latina e uma das maiores do mundo. É pouco tempo. O século XX, para São Paulo, foi o mais veloz e o mais audaz.” (Jane Darckê Avelar)
Mostrando postagens com marcador Antonio Carlos Villaça. Mostrar todas as postagens
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29.10.13

CYRO DE MATTOS NO MIRANTE DO FLAMENGO

Vista do "Mirante do Flamengo" ao anoitecer

Cyro de Mattos — poeta, contista, cronista, ensaísta, antologista, em suma, ativista cultural de Itabuna, sul da Bahia — é velho colaborador deste blog, como você pode constatar clicando em seu nome no menu da barra vertical direita. Seu artigo sobre Lima Barreto é um "campeão de audiência", com mais de 3 mil visitas, e em Uma Amizade Antiga Cyro discorre sobre o segundo melhor amigo do homem, que é o livro (o primeiro dizem que é o cão).

Semana passada (23/10/13) tive a satisfação de comparecer à posse de Cyro como membro titular do PEN Clube do Brasil, na sede do clube, no décimo-primeiro andar de um prédio da Praia do Flamengo, na altura do Largo do Machado, onde tantas vezes no passado eu fora visitar (ou pegar para passear) o grande intelectual e memorialista Antonio Carlos Villaça. Villaça, um homem que vivia num mundo paralelo, puramente intelectual (platônico?), e que nunca amealhou dinheiro por falta de vocação para as insignificâncias materiais, durante muitos anos, por intercessão do acadêmico Marcos Almir Madeira, morou de favor num quarto do clube, cujo terraço apropriadamente chamou de "Mirante do Flamengo". "Aqui estou no mirante do Flamengo. Nunca antes morei assim tão perto do mar. [...] Agora, estou no meu mirante solitário, diante do mar. E vejo a entrada da barra, o Pão de Açúcar", escreveu Villaça em Degustação. "O mirante do Flamengo me liga ao mar. O mar está perto de mim. O vento do mar vem até mim. E eu me debruço na varanda e olho o mar."

Azulejo no terraço do Pen Clube

Em seu discurso de posse, Cyro faz sua profissão de fé no ofício do escritor e na literatura: "Há quem ache que ser escritor é destino, fatalidade que começa mal desponta a manhã. Não deve ser nada bom. Não pode ser mesmo para quem sustenta, na sua maneira de achar estranha a vida, todo o peso terrestre, embora existam os pássaros cantando a madrugada com suas cores suaves. Para que serve a poesia? Respirar e viver, disse Borges. Expressar que dentro de mim o rio flui, o mar cerca por todos os lados, anotou Eliot. Para que serve o romance? Conhecer Deus e o diabo nas vastidões do sertão alado do mineiro Guimarães Rosa. Ler o mundo quando ele diz que maior do que os confins daquele sertão mineiro é o que descamba sem fim depois do lado de lá, naquele destamanho de um enigma que ninguém consegue decifrar. 

Precisamos da literatura como a atmosfera. Dela nos servimos para inaugurar novos sentidos da vida. Sem querer polemizar, penso que a literatura é uma profissão da qual não pode fugir quem a abraçou de verdade. É condição, ato ou efeito de professar, perseguir, proferir crenças e valores. Declarar publicamente ao outro que não vivemos sozinhos, navegamos em águas precárias em que as perplexidades avultam. Nosso discurso não é feito para agradar a grupos. Com a diversidade que celebra seres e coisas, costuma perdurar nas lembranças, incertezas e esperanças. Se quiserem, pode ser uma missão, pois tudo dá ao outro sem nada querer de volta. A literatura é capaz de salvar o mundo. É o caminho para que os povos encontrem-se como irmãos, sintam-se em total união do amor como verdade." 

O editor deste blog concorda em gênero, número e grau, e assina embaixo.


Outra vista do terraço

31.8.08

A CIDADE DESFIGURADA

Em 31 de agosto de 2008 Antonio Carlos Villaça - falecido em 2005 - completaria 80 anos. Esta crônica "A cidade desfigurada", publicada no Jornal do Brasil em 22/3/93, é inédita em livro. Onde quer que estejas, feliz aniversário, amigo Villaça.


puseram abaixo uma cidade e construíram outra no lugar

Procuro a cidade da minha infância e não a encontro. Onde está o Rio que vi, quando era menino? Desapareceu. Foi tragado pelo tempo, engolido pelas águas do tempo. A cidade, que conheci, foi destruída ao longo de 50 anos.

Houve no Rio uma cidade portuguesa, uma cidade francesa, e o que existe diante dos nossos olhos é uma cidade norte-americana, rival de qualquer Chicago ou Detroit. O Rio desfigurou-se. Perdeu em certo sentido a própria identidade.

Em cinco décadas, puseram abaixo uma cidade e construíram outra no lugar. Lima Barreto foi um que sempre se opôs às mudanças urbanísticas. Sofria com isso. Escreveu palavras de revolta e tristeza quando demoliram o Convento da Ajuda, onde é hoje a Cinelândia. Achava um abuso, um absurdo que se destruísse um velho edifício como aquele, coberto de história. Lima Barreto amava o Rio, aqueles prédios, aquelas ruas de uma cidade que ele conhecia intimamente.



o Largo do Boticário

Machado em carta a Nabuco se lembrava com ternura do Rio da sua meninice, da sua mocidade. Não encontrava mais na cidade reformada a cidade que amara. Sim, aquela cidade que viajava de barco da Saúde ou da Gamboa para o Centro, tão mais íntima do mar do que a cidade parisiense que nascia então.

Onde está, hoje, o Rio de Luís Edmundo, que o soube fixar vivamente nas páginas tão ágeis do seu livro em três volumes, O Rio de Janeiro do meu tempo? Gastão Cruls nos deu um retrato perfeito da cidade na sua Aparência do Rio de Janeiro. E, no entanto, o Rio de Cruls não existe mais, lá se foi na voragem dos dias. Um recanto ou outro ainda perdura, como que esquecido. Assim, o Largo do Boticário, que não é tão antigo, mas tem a sua graça inestimável, o seu encanto, a sua delícia, a sua magia.



o elegantíssimo palácio Itamaraty

Um mosteiro de São Bento. Um convento de Santa Teresa. Uma igreja da Penitência. Uma Santa Casa da Misericórdia, sem dúvida o palácio mais belo da cidade do Rio. Ou os Arcos da Lapa. Ou o elegantíssimo palácio Itamarati.


a serralheria carioca

Que fizeram de nossa cidade? Onde estão as casas de outrora? Onde estão as ruas de outrora? Onde estão aqueles gradis rendilhados que eram uma das glórias desta cidade? Pedro Nava disse que a serralheria carioca era uma das mais belas do mundo.

Já se pensou em um museu da serralheria do Rio? Gradis do século 19 e da belle époque, os minuciosos, os trabalhados gradis art-nouveau. Não podemos desprezar tudo isso. Pois isso é patrimônio nosso, realidade do Brasil, riqueza do nosso povo.



Da Academia de Belas-Artes salvou-se apenas a fachada

Preservar uma cidade que é mais bonita do que Nápoles e do que Constantinopla. Foi um absurdo, por exemplo, destruírem a Academia Imperial de Belas-Artes, obra de Granjean de Montigny. Demoliram o prédio venerável. Como demoliram o velho Tesouro da Avenida Passos, onde hoje é apenas um estacionamento como outro qualquer.

Tudo foi posto abaixo. Até a bela igreja de São Pedro. E a própria sede da Prefeitura Municipal, na Praça da República. Da Academia de Belas-Artes salvou-se apenas a fachada, que está no Jardim Botânico.



edifício da velha Alfândega

De Granjean de Montigny sobrou a sua casa, na Gávea, hoje biblioteca da PUC. O arquiteto construiu muitas edificações no Rio. Ficou o belo solar da Rua Marquês de São Vicente. Ficou o edifício da velha Alfândega, depois Tribunal do Júri, agora Centro Cultural Brasil-França. Onde está a casa de Aníbal Machado, Visconde de Pirajá 487?



Praia de Copacabana toda pontilhada de casas

Ainda me lembro da Praia de Copacabana toda pontilhada de casas, casas mesmo, com jardim, quintal, só um edifício ou outro como o Edifício Olinda, no Posto Seis, onde morava Manuel Dias, o irmão de Cícero Dias. Um Rio tão mais humano, tão mais habitável do que o Rio áspero e assustador de hoje. Um Rio sem filas. Um Rio sem violência. Um Rio delicado. Um Rio fraternal.


Uns trechos [...] da Saúde

Que fizeram da cidade do Rio? Destruíram-na. Em seu lugar, ergueram outra, monótona, impessoal, indistinta, cosmopolita. Sinto falta da cidade que conheci menino e me roubaram. Onde está a minha cidade? Porque uma cidade tem um rosto próprio, um caráter, uma certa marca, um quid que a define, a caracteriza, a eterniza. Ou então não é propriamente uma cidade. Um prédio aqui. Uma igreja ali, umas ruas de São Cristóvão. Uns trechos de Santo Cristo ou da Saúde. A cidade foi desfigurada pelo tempo ou pela rude ambição dos homens ávidos.


Pedro Nava, no seu belo passeio pela Glória

Pedro Nava, no seu belo passeio pela Glória, aponta uma casa ou outra, um recanto, uma velha amurada, resquícios da cidade que se foi, devorada pela cupidez e pela rapidez dos homens.


casarões machadianos

Vamos preservar a deliciosa e frágil Santa Teresa, com o seu Largo das Neves, as suas ruelas, os seus casarões machadianos.


esta maravilhosa Baía da Guanabara

Lélia Coelho Frota, escreva um poema sobre a cidade do Rio de Janeiro. Vamos salvar ao menos esta soberba, esta maravilhosa Baía da Guanabara, que Gilberto Amado considerava a obra-prima de Deus.

Fotos do editor do blog, exceto a antiga de Copacabana, cujo autor ignoro.

31.8.07

GRANDE VILLAÇA


Crônica originalmente publicada em 18 de julho de 2005, pouco depois da morte de Villaça, em 19 de maio. Hoje, 31 de agosto de 2007, Villaça completaria 79 anos de idade. Em homenagem a esse grande memorialista e amigo estamos repetindo a postagem.



Claustro limpo, chão de sepulturas, chão-cemitério, chão de pedras. Paredes caiadas. Jardinzinho. O sino da portaria, voz do mundo. Claustro. O monge passeia pelo claustro. Eu sei que não vou ficar enterrado aqui, sei que nenhum desses túmulos é meu túmulo, sei que sou de outro país. Sei que vou partir.
Antonio Carlos Villaça, O nariz do morto


Conheci o Villaça em 1992 quando ganhei um prêmio literário da UBE — Villaça fez parte da banca de jurados. Dias depois da premiação, telefonei para ele (eu já havia lido O nariz do morto), meio que inseguro: será que um escritor da fama do Villaça vai dar bola a um ilustre desconhecido como eu? Às primeiras palavras minhas, Villaça já se mostrou receptivo: "Ora viva! Ora viva!" Saudação que era a marca do Villaça. Combinamos almoço em restaurante do Catete.

Villaça era corpulento, devia ter uns 160 quilos, entrar no carro e sair, operação delicada. Eu, aspirante a escritor, diante de "monumento" da literatura, precisava impressionar, ostentar minha "cultura". Falei falei de um fôlego só. Na hora do cafezinho, Villaça educadamente deu a entender: aquele bombardeio deixara-o meio atordoado. Grande Villaça!

Em agosto Villaça comemorava o aniversário, sempre em algum restaurante. Villaça, apetite pantagruélico — desfia rosário de restaurantes e pratos suculentos em capítulo do Degustação: "Filé de peixe com molho de camarão, pirão de batata, filé mignon com fritas. Vinho português. Pêssego em calda com queijo. Ou torta. Licor." Vinha um monte de gente ao aniversário do Villaça, ala inteira do restaurante tinha que ser reservada, cada qual pagava sua conta.

Lembra-me o aniversário de 1995, numa Parmê que existiu alguns anos na Rua das Laranjeiras. Nos jornais, manchetes garrafais e fotos (horripilantes) do massacre de Vigário Geral. Anotei na agenda (eu que não tenho nem um por cento da memória fotográfica do Villaça) os nomes de meus companheiros de mesa: Sinésio Pires Cavalcanti, autor de Lembranças de um fuzileiro naval. Leandro Tocantins, autor de Formação histórica do Acre e de dois livros de memórias. Nilsson Pena (assim anotei na agenda, não sei se escrevi certo), cenógrafo, amigo de Bidu Saião, freqüentador dos saraus de Laurinda Santos Lobo. Incrível a capacidade de fazer amigos do Villaça. Quantos terão ido ao seu sepultamento? Eu próprio não fui — vim a saber de sua morte com dias de atraso.

Na época em que convivi com Villaça, residia ele na sede do Pen Clube (do qual era vice-presidente), à Praia do Flamengo. Passava os dias na biblioteca, cercado de livros, o paraíso de Borges (e de todo amante da literatura). "Aqui estou no mirante do Flamengo. Nunca antes morei assim tão perto do mar. Agora, estou no meu mirante solitário, diante do mar. E vejo a entrada da barra, o Pão de Açúcar". Visitei-o várias vezes no mirante.

Certa vez, eu e um amigo desatamos a questionar, como é que Deus permite tanto mal no mundo, tantas doenças, crimes, Holocausto? (Afinal, Villaça passara período da vida no convento, em busca de Deus). Ao cabo de nossa diatribe, Villaça simplesmente retruca: "Vocês estão querendo fazer o inventário do mundo!" E propôs que descêssemos a paragens mais amenas.

Mas o grande Villaça não estava alheio ao problema da teodicéia. No Degustação, escreve: "A presença do sofrimento no mundo sempre me pareceu uma provocação, um desafio. O sofrimento não é um problema: é um mistério." E mais adiante prossegue: "Eu me pergunto: como afirmar que Deus é bom, quando entramos num hospital? Como falar do amor de Deus a uma mulher cujo filho é idiota, simplesmente porque a mãe contraiu rubéola durante a gravidez? Como falar de Deus a este rapaz que a poliomielite transformou num paralítico? Como falar do amor diante de um campo de concentração? Diante de um hospício? Diante da morte?"

Sua memória, prodigiosa. Eu gostava de levá-lo a passear em meu automóvel pela Zona Sul do Rio de Janeiro. Passávamos por um edifício e o Villaça lembrava: aqui morou (digamos) Carlos Lacerda no período de não sei quando. E assim ia ele apontando as ex-moradas terrenas de homens ilustres que agora habitavam a morada celeste. Villaça dispensava as agendas. As anotações. O computador. A Villaça, bastavam-lhe a velha máquina de escrever e a memória.

Sua pobreza, franciscana. Villaça, tipo do homem que dedicou a vida às coisas do espírito. "A grande experiência da literatura é a experiência da liberdade. A literatura para mim é a liberdade. Ser escritor é, antes e acima de tudo, uma posição diante da vida." Não constituiu família, não amealhou bens. Parecia-me que usava sempre o mesmo terno, surrado — ou seriam vários ternos de mesma aparência? À semelhança do Quintana, morou anos num hotel, o Hotel Bela Vista, em Santa Teresa.

Por ironia do destino, quase ao final da vida, em 2003, ganhou um prêmio polpudo, o Prêmio Machado de Assis, da ABL, pelo conjunto da obra. Apesar da bolada, terminou os dias "despejado" (?) do Pen Clube, em Casa de Repouso no Caju, vítima de depressão... Onde foi parar aquela dinheirama toda?

Em fevereiro de 1996, Villaça telefonou, convidou-me para almoçar, e frisou: hoje eu pago a conta. Estava irritado, inseguro. Por dinheiro (contou-me) aceitara ficar mês e meio enfurnado numa universidade no interior do Paraná pra proferir uma série de palestras a professores — "uns crédulos, acreditam em tudo que a gente diz".

O mês e meio na Universidade do Professor, em Faxinal do Céu, Paraná, "pequena cidade universitária planejada em meio às araucárias para servir à formação de professores" (nas palavras de Ivo Barroso na bela crônica-necrológio sobre o Villaça), acabou se estendendo por alguns anos (com idas e vindas), e aquela acabaria se revelando (volto a dar a palavra ao meu xará) "sua grande realização como homem de saber".

Escreveu Affonso Romano de Sant'ana em crônica-depoimento sobre Faxinal do Céu: "Num dos intervalos de conferências fui visitar Antonio Carlos Villaça, essa viva e modesta memória de nossa cultura. Ele sabe tudo, todos os detalhes não só das obras mas dos próprios autores. É a História viva, contada fraternalmente."

Escreveu Villaça em Diário de Faxinal do Céu: "Aqui é tão tranqüilo, tão sereno, tão quieto. Apenas o canto harmonioso dos pássaros. Apenas. E há os grilos, mais insistentes no inverno. E há a grande paz silenciosa da mata."

Repouse em paz, amigo Villaça!


Texto de Ivo Korytowski e fotos de Carlos Roberto Carvalho. Veja também neste blog a postagem O Mosteiro com trechos de O Nariz do Morto, a obra-prima de Villaça.
Em 2003 Antonio Carlos Villaça ganhou pelo conjunto da sua obra a mais alta láurea da nossa literatura, o Prêmio Machado de Assis, da Academia Brasileira de Letras. Veja no vídeo de Carlos Roberto Carvalho no YouTube.

21.5.07

O MOSTEIRO

TEXTO DE ANTONIO CARLOS VILLAÇA


Igreja de N.S. de Monserrate do Mosteiro de S. Bento

O mosteiro...

Fica numa colina entre o mar e a cidade. É um casarão de largas paredes, meio escondido no seu monte. Confunde-se com o panorama geral da cidade. Nem mesmo do mar, chegamos a vê-lo com nitidez gritante. Parece uma velha fortaleza meio abandonada, triste, lúgubre, corredores kafkianos. É hoje uma insignificante fortaleza entre os fundos de um ministério barulhento e os arranha-céus, anônimos e iguais. Os novos edifícios, monótonos na sua fidelidade ao picassismo, ao cubismo, foram envolvendo a colina dos monges, perto do mar, circundando-a, escondendo-a — muros de clausura que a cidade trepidante, frenética, ou distraída ofereceu, sem querer, aos seus desconhecidos cantores.

Porque os monges são cantores. Cantam. [...] No canto coral, se ocupam.



Grades em ferro alemão da Igreja

O sino batia. Fomos para o Ofício de Vésperas na Igreja Abacial [a Igreja das fotos]. Por ali começara a história. [...]

A noite envolveu-nos. Do Ofício fomos para o refeitório da comunidade. Fomos jantar. Nuas paredes brancas. Toalhas só na mesa dos hóspedes. Mesas nuas. Silêncio. Um leitor no púlpito lê em voz alta, a refeição inteira. Os monges em silêncio. A comida boa. O Abade na sua mesa presidencial.




Galilé com piso de mármore da Igreja

Na cela, apenas a cama, a mesinha de cabeceira, uma cadeira, um crucifixo, uns cabides na parede. Solidão da cela. Primeira noite fora do conforto. O bem-estar longe, longe, como se tudo fosse de pelo menos cem anos atrás, como se há cem anos eu estivesse no mosteiro, como se há cem anos é que tivesse andado pelo outro mundo, o mundo dos homens.

Não dormi a noite toda.

Parecia que eu era o cadáver de mim mesmo.

No mosteiro, dorme-se muito cedo. Nove horas da noite é completa madrugada. Não consegui dormir. Ninguém me perturbou. Bastava eu para me perturbar. Noite longa, noite arrastada, noite tensa.




Órgão e coro da Igreja

O Ofício prossegue. O grande problema do mosteiro é apenas prosseguir. É preciso prosseguir, não parar, varar o tempo, escapar do tempo, driblar o tempo, ainda que seja pela morte dos homens. [...]

Vi que tudo aquilo não tinha sentido, era vago, vazio, flatus vocis. [...]

Vi que éramos afinal uns pobres, uns diabos, uma coisa pífia, ronronante, ventres sentados, ajoelhados, ventres de pé — falando latim com Deus. Deus mudo, silêncio enigmático, senhor de nenhuma intimidade, lá do outro lado de não sei quê, imenso, onipotente, onipresente, onisciente, encarnado num rapaz oriental, que faleceu numa cruz aos trinta anos pouco mais ou menos e há dois mil anos quase etc.

Eu achava aquilo cada vez mais esquisito.





Detalhe da talha barroca da Igreja de N.S. de Monserrate do Mosteiro de S. Bento

O almoço é triste. O jantar é triste. Os monges são tristes. O refeitório, frio. Austeridade mais ou menos difusa. [...]

Agora, a sesta, no meio-dia monacal. Durante uma hora, o noviço repousa. Recolhido à cela, cochila, dorme ou pensa. Em que pensa? Por que entrou para o mosteiro? Que veio fazer aqui? Que o prende a estas paredes? Que o prende a esta vida? Que interesse é o seu? Qual o ideal verdadeiro de seu coração? Que quer afinal? Quer Deus? Só Deus? [...]

O noviço vira de lado na cama para dormir... A cela é nua e velha. Paredes encardidas. Chão encardido. Moveis muito velhos. Calor. Não há água, não há pia na cela. O banheiro é longe. A água de beber é longe. Tudo é longe... Vale a pena ser monge? Tudo longe, tudo longe. Eu quero ser monge? Monge, longe, monge, longe.



Vista do Morro de São Bento

Texto do livro O nariz do morto, a obra-prima memorialista do escritor Antonio Carlos Villaça. Fotos de Ivo & Mi. A Igreja do Mosteiro de São Bento - um tesouro da arte barroca - fica aberta para visitação praticamente o dia inteiro. Sobe-se por uma ladeira na Rua Dom Gerardo, quase esquina da Rio Branco (altura da Praça Mauá). Em certos horários, funciona um elevador para a Igreja no número 68 dessa rua. Todo dia em torno das 17:40 entoa-se o ofício de Vésperas com órgão e canto gregoriano - lindo. São famosas as missas em latim às dez da manhã dos domingos, com canto gregoriano. Telefone para informações: 2291-7122. Rio de Janeiro é muito mais do que praia, montanhas, samba e futebol!