ENSEADA DE BOTAFOGO

ENSEADA DE BOTAFOGO
"Andar pelo Rio, seja com chuva ou sol abrasador, é sempre um prazer. Observar os recantos quase que escondidos é uma experiência indescritível, principalmente se tratando de uma grande cidade. Conheço várias do Brasil, mas nenhuma tem tanta beleza e tantos segredos a se revelarem a cada esquina com tanta história pra contar através da poesia das ruas!" (Charles Stone)

VISTA DO TERRAÇO ITÁLIA

VISTA DO TERRAÇO ITÁLIA
São Paulo, até 1910 era uma província tocada a burros. Os barões do café tinham seus casarões e o resto era pouco mais que uma grande vila. Em pouco mais de 100 anos passou a ser a maior cidade da América Latina e uma das maiores do mundo. É pouco tempo. O século XX, para São Paulo, foi o mais veloz e o mais audaz.” (Jane Darckê Avelar)
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18.11.18

CEMITÉRIO DOS ANJINHOS, no CEMITÉRIO SÃO JOÃO BATISTA


TEXTO EXTRAÍDO DAS PÁGINAS 150-51 DO LIVRO RIO SECRETO DE MANOEL DE ALMEIDA E SILVA, MARCIO ROITER E THOMAS JONGLEZ

O Cemitério dos Anjinhos, no interior do Cemitério São João Batista, é um dos lugares mais secretos, misteriosos, estranhos e impressionantes da cidade do Rio de Janeiro.

Ao passar pela entrada principal, da Rua General Polidoro, deve-se seguir a alameda principal. Aproximadamente a meio caminho da capela do cemitério (infelizmente fechada), deve-se tomar a alameda que vai para a esquerda, em direção à pequena colina, não construída, que faz parte dos limites do cemitério e que ocupa o ângulo nordeste deste, ao longo da Rua Álvaro Ramos.

Chegando ao pé da colina, uma escada de pedra leva ao topo, deixando para trás a leve agitação dos raros visitantes do cemitério. O ambiente muda rapidamente e, em alguns segundos, entra-se em uma floresta de aspecto selvagem, onde a escada bem disposta dá lugar a um caminho de pedras tortas, tomado pela vegetação. Em alguns metros, o ambiente muda mais uma vez: antigas construções emergem em alguns lugares, o que faz lembrar a “cidade perdida” da Colômbia [na verdade são nichos do cemitério]. Após alguns minutos, um pouco sinistros, chega-se, finalmente, ao fim da subida, onde, no desvio da última curva, encontra-se um impressionante terreno de cruzes brancas fincadas no solo. A visão impõe, naturalmente, respeito, e, em vez de atravessar o terreno, pode se virar à esquerda e contornar a colina. Do outro lado, chega-se atrás desse mesmo terreno. Existe, ainda, outro, também com cruzes, acima, à esquerda.

Este lugar raro, único, emocionante e inquietante é o cemitério dos Anjinhos. Contrariamente ao que se poderia pensar, ele não reúne, como em certos países, os corpos das crianças mortas antes de serem batizadas. Ele abriga os corpos das crianças mortas, com menos de sete anos, cujos pais não tinham meios financeiros para pagar uma sepultura oficial. O lugar já não aceita novos corpos desde 2008.

No vídeo a seguir, o corajoso editor deste blog sobe o morrinho em busca do Cemitério dos Anjinhos. SINISTRO!



PS. Depois de publicada a postagem recebi do Professor Milton Teixeira, por e-mail, estas informações interessantes:

O morro do cemitério, chama-se, em verdade, "Morro do Brocó", assim como aquele lugar do cemitério era a chácara do Brocó [corruptela de Berquó], ali há o rio Brocó e a rua General Polidoro chamava-se originalmente rua do Brocó [ou Berquó], em lembrança a um antigo proprietário da região, o segundo Ouvidor do Rio de Janeiro, Francisco Berquó da Silva Pereira, que, aliás, morava na rua da Cruz, a qual por este motivo passou a chamar-se rua do Ouvidor (1760).

Há um projeto da Concessionária RIOPAX de acabar como cemitério dos anjinhos e remover os restos mortais para outro lugar mais digno e/ou cremá-los, pois ali nas proximidades deve ser erguido em breve o crematório, cujas obras, aliás, já começaram.

Mais informações sobre o Cemitério dos Anjinhos podem ser obtidas na matéria Muitas cruzes, nenhum funeral de Liana Melo que pode ser acessada clicando aqui.

2.11.13

FINADOS NO CEMITÉRIO SÃO JOÃO BATISTA & DIA SEGUINTE NO CEMITÉRIO DO CATUMBI


Faz alguns anos tenho o hábito de visitar o Cemitério São João Batista no Dia de Finados (relativamente perto de casa, é só atravessar o Túnel Velho — clique em "Cemitério São João Batista" no menu da barra vertical à direita) e agora que enfim consegui localizar o túmulo de meus avôs tenho ainda mais motivos para ir lá. Nesse dia o cemitério fica cheio e você pode percorrer mesmo as partes mais altas e remotas sem medo de deparar com um malfeitor. Muitas celebridades estão enterradas nesse cemitério: Ary Barroso, Clara Nunes, Santos Dumont, Tom Jobim, Nelson Rodrigues, Carmen Miranda... Compro dois ramalhetes de flores sortidas e vou depositando uma aqui, duas ali... Este ano um dos túmulos que recebeu minhas flores foi de Machado de Assis e Carolina, no Mausoléu da Academia, que só abre para o público no Dia de Finados. Para quem aprecia a boa arte funerária o São João Batista é uma visita recomendada.






No dia seguinte, domingo, fui ao passeio Reconhecendo o Interior do Cemitério do Catumbi guiado pela professora Olga Maíra Figueiredo, especialista em cemitérios cariocas. O passeio foi organizado pelos projeto Roteiros Geográficos que recomendo a quem quiser  conhecer melhor a cidade (para mais informações clique em PASSEIOS GUIADOS no GUIA DO RIO no cabeçalho do blog). O Cemitério do Catumbi (nome oficial: Cemitério de São Francisco de Paula) é o segundo cemitério "moderno" (ou seja, ao ar livre, em área delimitada, com identificação das sepulturas — antes os cariocas costumavam ser sepultados nas igrejas ou em seus adros, ou em covas coletivas de pequenos cemitérios improvisados, tipo o dos Pretos Novos) mais antigo da cidade, inaugurado em 1850 (o mais antigo é o Cemitério dos Ingleses, na Gamboa, mas que atendia apenas à colônia inglesa). Os cemitérios históricos são museus a céu aberto de arte funerária, e seguem-se algumas fotos tiradas no Catumbi.






18.9.12

PAULINHO



Se eu morresse amanhã, viria ao menos
Fechar meus olhos minha triste irmã;
Minha mãe de saudades morreria
Se eu morresse amanhã!

(Do poema "Se Eu Morresse Amanhã"
de Álvares de Azevedo)




Antes do advento da bendita penicilina, não só os poetas românticos morriam com vinte e poucos anos (Álvares de Azevedo, 20 anos, Casimiro de Abreu, 21, Junqueira Freire,  22, Castro Alves, 24), como muitas crianças não conseguiam chegar à vida adulta, vítimas das mil e uma infecções e gripes que hoje qualquer pediatra cura. Se você percorrer atentamente o Cemitério São João Batista encontrará vários túmulos infantis, como este do Paulinho (18/5/1904—18/9/1912), falecido exatamente cem anos atrás. Pelo capricho com que ergueram seu túmulo dá para imaginar a dor da família. Cem anos depois, exceto este editor do blog, ninguém se lembrou de levar flores. O que confirma o velho adágio de que o tempo é o lenitivo para todos os males. Orai por ele!


2.11.08

HISTÓRIA DOS CEMITÉRIOS DO RIO DE JANEIRO


No Rio colonial os mortos ligados a alguma irmandade religiosa eram enterrados dentro das Igrejas ou nos seus adros, enquanto os indigentes, pobres ou "pretos novos" eram enterrados em covas coletivas em terrenos disponíveis. O primeiro cemitério a céu aberto da cidade, privativo da colônia inglesa, foi o Cemitério dos Ingleses, de 1811. Em meados do século XIX foram criados os grandes cemitérios abertos a todos os cidadãos, de qualquer religião (tanto é que existe uma "ala judaica" no Caju, túmulos positivistas, sem cruz, no S.J. Batista, etc.): São Francisco Xavier (o “Cemitério do Caju”), São Francisco de Paula (o “Cemitério do Catumbi”) e São João Batista. No Caju existe ainda o Cemitério da Penitência, Comunal Israelita e o Cemitério Vertical Memorial do Carmo. A relação de todos os vinte cemitérios do Rio você encontra aqui. A seguir textos de Alexei Bueno, Pedro Nava, Mauro Matos e Cláudio Henrique (extraídos de diferentes livros) sobre os principais cemitérios cariocas.

CEMITÉRIO DOS INGLESES


Os vivos e os mortos

Lápide no interior da capela, de uma criança, Thomas Barker, falecida em 13 de fevereiro de 1812 aos dez anos. Sob o anjo trombeteiro o versículo de Jó 19:25.

Túmulos e capela. Observe que os túmulos protestantes são mais despojados que aqueles encontrados em cemitérios católicos (quase tão despojados quanto os túmulos judaicos).

 Túmulo do General João Tarcísio Bueno (1906-1963), nome lendário na história da FEB e do Exército Brasileiro, um dos grandes heróis brasileiros, ator central do mais sangrento e épico dos ataques brasileiros a Monte Castelo, em 12 de dezembro de 1944. Sobre ele seu neto Alexei escreveu o livro "João Tarcísio Bueno, o herói de Abetaia"

Durante todo o período colonial no Brasil, as inumações foram feitas dentro das igrejas, ou, quando muito, em catacumbas anexas. [...] Tal hábito começou a declinar com a chegada da Corte portuguesa, fugida de Napoleão, em 1808, e sobretudo com a abertura dos portos às nações amigas, entenda-se Inglaterra. Foi numa encosta do morro da Providência, na Gamboa — o mesmo que, em sua outra face, veria nascer a primeira favela após o desmobilizamento das tropas da guerra de Canudos, sendo por isso também conhecido como morro da Favela —, voltada para o mar, que surgiu o Cemitério dos Ingleses, o primeiro a céu aberto do Rio de Janeiro e um dos primeiros do Brasil.

Pelo Tratado de Amizade e Comércio, assinado entre o príncipe regente D. João e o rei Jorge III, no dia 19 de fevereiro de 1810, ficava permitido "o enterramento de vassalos de Sua Majestade Britânica, que morressem nos territórios de Sua Alteza Real o príncipe Regente de Portugal, em convenientes lugares, que seriam designados para este fim, não se perturbando, de modo algum, por qualquer motivo, os funerais e as sepulturas dos mortos".


Do livro de Alexei Bueno, Gamboa, que faz parte da coletânea Cantos do Rio.


CEMITÉRIO DO CAJU


Crematório

Covas rasas

À memória de minha mãe

Ala judaica (do tempo em que ainda não havia o Cemitério Comunal Israelita) na parte nordeste do cemitério. Ao contrário da maioria dos túmulos judaicos, despojados conforme a tradição, este ostenta uma escultura de Moisés segurando uma das tábuas da Lei. 

Não sei se existe uma história dos cemitérios do Rio de Janeiro. Quase todos foram abertos depois das hecatombes da febre amarela, a partir de dezembro de 1849. O do Caju é anterior. É o mais antigo da cidade. Foi instalado em 1839 por José Clemente Pereira, numa gleba comprada a José Goulart, para enterrar os indigentes e escravos até então sepultados nos terrenos de Santa Luzia, onde se ia erguer o atual hospital da Santa Casa de Misericórdia, no Rio de Janeiro. Foi chamado Campo-Santo do Caju. Seu primeiro defunto foi inumado em 1840.

Em 1851 o nome foi mudado para o de Cemitério de São Francisco Xavier. Entretanto, não só persiste a antiga denominação, como ela entrou nas frases feitas. Assim, quando se diz — um dia, Pedro, irás para o Caju — quer dizer — um dia, Pedro, ai! de ti, também morrerás, e serás enterrado. Naquele ano o campo-santo é ampliado e juntaram-se às terras de José Goulart, as da antiga Fazenda do Murundu, de Baltasar Pinto dos Reis. Em 1858 desmembra-se o terreno que vai ser o Cemitério da Venerável Ordem Terceira da Penitência e em 1859 o que vai ser o Cemitério da Venerável Ordem Terceira do Carmo.


Essa vasta área corresponde, mais ou menos, ao que é hoje limitado pela Avenida Brasil, pelas Ruas Carlos Seidl, Indústria e Monsenhor Manuel Gomes e nela estão os quatro cemitérios [os três citados e o Cemitério Comunal Israelita], fábricas, depósitos e favelas; as ruas novas dos fundos das necrópoles; e o Hospital São Sebastião. Os aterros, em frente, fizeram desaparecer os cais [...]

Do segundo livro de memórias de Pedro Nava, Balão cativo.

CEMITÉRIO DO CATUMBI

Portal

Nichos (esquerda), capela do cemitério (direita) e o Corcovado lá atrás (sobre a extremidade direita dos nichos)

Jazigo perpétuo

Nichos no fundo do cemitério e Morro da Mineira atrás


Inaugurado em 19 de março de 1850, o cemitério de São Francisco de Paula ou cemitério do Catumbi, como é mais conhecido, foi o primeiro do Brasil construído a céu aberto destinado a não-indigentes. Antes, somente religiosos e ricos eram sepultados nas criptas das igrejas.


Na época, devido ao efeito devastador das epidemias na cidade do Rio de Janeiro, principalmente da febre amarela, foi construído com urgência o cemitério pela Ordem Terceira de São Francisco de Paula, com aprovação do Império. O resumo histórico e ilustrado da Ordem atesta a compra do terreno que pertencia ao proprietário Dionísio Orioste tendo sido lavrada em cartório pela Irmandade em 12 de maio de 1849.


De fato, já no primeiro ano, foram sepultados cerca de 3 mil corpos com morte provocada pela epidemia da febre amarela, além de 323 irmãos da Congregação, como atestam os documentos da Ordem. Em seguida foram para lá transladados cerca de 450 restos mortais, na sua maior parte da nobreza brasileira que estavam sepultados na igreja de São Francisco de Paula.


Do livro de Mauro Matos, Catumbi, um bairro do tempo do império. Você pode ler o livro em versão pdf clicando aqui.

CEMITÉRIO SÃO JOÃO BATISTA

Pórtico

Capela

Túmulo de Ary Barroso

Mausoléu da Academia Brasileira de Letras

Nelson Rodrigues



Em 1852 foi inaugurado o Cemitério São João Batista, historicamente importante por ter sido, junto com o do Caju, o primeiro da cidade a permitir enterros para pessoas de qualquer classe social. Até então pobres e ricos viravam pó em lugares diferentes — e em igrejas. Há um registro sinistro da "estréia" do cemitério: consta que era uma menina de apenas quatro anos, Rosaura.

Além de abrigar belíssimas obras em gesso, mármore e bronze, o São João Batista, sem dúvida, é o Père Lachaise carioca: estão enterrados ali, entre outros, Vicente Celestino, Evaristo da Veiga, José de Alencar, Benjamim Constant, Floriano Peixoto, Gustavo Capanema, Oswaldo Aranha, Machado de Assis, Ari Barroso, Nelson Rodrigues, Francisco Alves, Miguel Couto, o escultor Rodolfo Bernardelli, Luis Carlos Prestes, Carmem Miranda, Tom Jobim, Vinicius de Moraes, Cazuza, Clara Nunes, Chacrinha, Jardel Filho e Santos Dumont.


Do livro de Cláudio Henrique, Botafogo, pp. 51-2 (Coleção Cantos do Rio).

Visite também a postagem Cemitério São João Batista & Poemas Mórbidos no meu outro blog, o Sopa no Mel. Uma dica: O jornal O Globo de 22/9/14 publicou uma ótima matéria sobre os cemitérios do Rio. Para ler uma monografia de Ana Cristina Alves Gavinha sobre a história dos sepultamentos no Rio clique aqui.