ENSEADA DE BOTAFOGO

ENSEADA DE BOTAFOGO
"Andar pelo Rio, seja com chuva ou sol abrasador, é sempre um prazer. Observar os recantos quase que escondidos é uma experiência indescritível, principalmente se tratando de uma grande cidade. Conheço várias do Brasil, mas nenhuma tem tanta beleza e tantos segredos a se revelarem a cada esquina com tanta história pra contar através da poesia das ruas!" (Charles Stone)

VISTA DO TERRAÇO ITÁLIA

VISTA DO TERRAÇO ITÁLIA
São Paulo, até 1910 era uma província tocada a burros. Os barões do café tinham seus casarões e o resto era pouco mais que uma grande vila. Em pouco mais de 100 anos passou a ser a maior cidade da América Latina e uma das maiores do mundo. É pouco tempo. O século XX, para São Paulo, foi o mais veloz e o mais audaz.” (Jane Darckê Avelar)
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10.8.18

PAULO DALLIER: DO SILÊNCIO À EXPLOSÃO


A obra de Paulo Dallier possui uma relevância que se expressa antes de tudo na maturidade alcançada. Aos 86 anos de uma vida devotada inteiramente às artes plásticas e com uma lucidez e uma força ainda presentes, vem ao longo do tempo apenas depurando ainda mais o cerne de seu estilo, sem perder a força vital de sua expressão. Expressionista em seu cerne, à qualidade artística da obra de Dallier, vem se aliar logo em seguida um traço humano efetivamente marcante.

Marco Casanova, curador



17.5.09

DALLIER E O MORRO DA CONCEIÇÃO




Um oásis de Rio Antigo em meio à agitação do centro da cidade, o Morro da Conceição — ao lado da Praça Mauá — esconde tesouros que poucos cariocas conhecem: a Fortaleza da Conceição, concluída em 1718, o antigo Palácio Episcopal, onde hoje funciona o Serviço Geográfico do Exército, o Observatório do Valongo, a Igreja de São Francisco da Prainha, a Pedra do Sal.

O Morro da Conceição também abriga uma série de ateliês de artistas plásticos (Dallier, Marcelo Frazão, Cláudio Aun, Renato Santana e outros), na Ladeira João Homem e Rua do Jogo da Bola, constituindo o Projeto Mauá.

Visitar o ateliê de Dallier no morro e ouvir suas reminiscências é, ao mesmo tempo, um exercício estético e uma viagem pelo Rio Antigo. A obra de Dallier tem afinidade com o expressionismo abstrato, movimento que combinou a intensidade emocional do expressionismo alemão com a estética antifigurativa das escolas abstratas da Europa. Para Dallier, criar um quadro é como "incorporar um santo".
Abaixo, crônica-depoimento de Dallier.


Três Sambistas, de Dallier

ESSE RIO ONDE NASCI

A velha casa onde nasci ainda teima em continuar de pé, fica situada em uma pequena rua de nome "Estela" e tem uma placa de no 28 presa em uma de suas paredes externas. Fica lá, no finalzinho da Pacheco Leão, hoje uma rua bastante conhecida por ter se tornado um reduto televisivo.

Foi nesse bairro chamado Jardim Botânico, cujo trecho onde nasci foi apelidado de Itália pequena, que vivi minha vida, até alcançar a maioridade e ter servido o exército (Escola de Educação Física), com breve período de ausência, como quando fomos morar na Praça Mauá em uma velha casa construída por meu avô paterno em 1904 e ainda também de pé, de no 52, na Ladeira João Homem, onde nos últimos anos voltei a viver.


Quando tento mergulhar no fundo do poço de minhas memórias, as primeiras imagens que surgem em minha mente são as de uma manhã de Natal lá pelos idos de 1936. Quando eu acabara de completar quatro anos de minha existência nesse mundo de Nosso Senhor Jesus Cristo. De manhã, ao acordar, encontrei junto à cama um carrinho de mão de madeira (parecido com os que são usados em obras) e, dentro dele, uma boneca (brinquei com bonecas até os sete anos). Horas depois, lembro-me bem do meu avô materno e sua oitava mulher, que eu e meu irmão mais velho — éramos apenas dois — fomos acostumados a chamar de avó. Quando os avistei subindo a Ladeira, comecei a gritar – "Lá vem vovô, lá vem a lingüiça do vovô! — pois sempre que ele vinha nos visitar trazia como seu cartão de visitas uma lata de lingüiça "Olderich" em conserva e alguns ovos caseiros. Não me lembro de ter ganho deles um brinquedo.

Outras lembranças dessa época surgem descompassadas: doenças nos olhos, febres constantemente, queimaduras no corpo com café fervente e o acidente que tive no dia em que minha mãe, eu e meu irmão íamos visitar amigos no bairro onde nasci. Estávamos descendo a ladeira; lembro-me bem. Meu irmão e eu vestíamos roupas novas de seda branca com botões de madrepérola; ao olhar para um papa-vento no alto de um sobrado, veio o tombo, quebrei o queixo e fui levado para o pronto-socorro por uma tia do lado paterno de nome Rosa (já que eu tinha duas tias do mesmo nome de lados opostos, morando na mesma casa), onde levei vários pontos. Lembro-me também dos ônibus de dois andares da Light que faziam o percurso Praça Mauá – Jockey Club. Das visitas que fazíamos ao auditório da Radio Nacional para ver de perto Batista Júnior (era pai de Linda e Dircinha) e seus bonecos falantes.

Villa-Lobos no Circo, de Dallier

Também o Carnaval daquela época contagiava toda família — esqueci de dizer que dividíamos a casa com mais quatro irmãos de meu pai e suas respectivas famílias. Fantasiados descíamos a ladeira rumo à Avenida Rio Branco para assistir ao desfile de carros abertos, que carregavam foliões que espalhavam confetes, serpentinas e lança-perfumes (naquela época não era proibido) e parávamos na extinta Galeria Cruzeiro, onde os bondes que chegavam traziam dezenas de carnavalescos vindos de todas as partes e que se juntavam na avenida, formando um grande bloco contagiante onde a pura alegria reinava nos quatro dias de Momo .

Costumávamos, nós os moradores do Morro da Conceição, participar do banhos à fantasia na Praia do Flamengo. Íamos todos descendo o morro e tínhamos também nossos carros alegóricos que eram empurrados pelos participantes, e em determinado ano eu saí em um deles vestido com roupa de papel crepom, como ajudante de motorista um primo da mesma idade de nome Ézio. E lá íamos nós em nosso carro de madeira empurrado por familiares enquanto todos dançavam e cantavam ao som das antigas marchinhas.

A primeira lembrança do bairro onde nasci é de quando, com seis anos, já pertinho dos sete, nos mudamos de volta. É o caminhão de mudanças chegando à Rua Lopes Quintas, e a velha e pequena casa em que fomos morar. Foi nesse dia que eu conheci Lucília (onde andará?), a primeira paixão de menino, que durou alguns anos, até que ela veio a conhecer aquele que viria a ser seu marido.

Aos domingos freqüentávamos as matinês do Cinema Floresta, que fizeram surgir em mim a paixão por Alice Faye. Via e revia seus filmes (muitas vezes às escondidas), alguns (três) ao lado da brasileiríssima Carmen Miranda.

Só mais tarde, já adolescente, surgiria em mim uma nova e definitiva paixão: Emilinha Borba. Era com ansiedade que esperava os sábados para ouvir a voz de César de Alencar anunciar:
- A minha, a sua, a nossa favorita: Emilinha Borba!

Continuo a afirmar que, junto com a minha mãe, foram elas que nortearam a minha vida, e, até hoje estão presentes no meu dia-a-dia, através de lembranças, discos e filmes, que ouço e vejo para diminuir a solidão e fazer dela uma boa companheira.



Rua do Jogo da Bola, no Morro da Conceição

5.11.07

COM DALLIER NO JARDIM BOTÂNICO


Quem visita regularmente nosso blog deve ter lido a postagem Dallier e o Morro da Conceição (pra ir até lá, clique em "Morro da Conceição" no menu Destaques do Blog da esquerda). Ele é um dos artistas plásticos que têm ateliê nesse aprazível morro do centro do Rio. Visitar o Morro da Conceição sem ver o ateliê de Dallier é como visitar Roma sem apreciar a Capela Sistina.

Mas Dallier nasceu e passou sua infância numa região da Gávea hoje considerada parte do bairro Jardim Botânico. Quem percorre a Gávea e o Jardim Botânico atualmente não imagina que, na virada do século XIX para o XX, lá se instalaram quatro fábricas de tecidos, passando a atrair considerável população operária, que fixou moradia nas proximidades das indústrias. Escreve Brasil Gerson na clássica História das Ruas do Rio: “A Gávea, apesar de sua aparência ainda tão campestre, se converteu num dos bairros mais industriais do Rio e, pois, de população operária mais densa — razão pela qual nela tanto repercutiria a violenta greve geral de 1918, dirigida pelos anarquistas.” (As fábricas de tecidos Corcovado e Carioca são abordadas no excelente blog Curiosidades Cariocas.)

Convidei Dallier para percorrer comigo a região onde passou sua infância. Aqui estão as fotos que tiramos e seus comentários (entre aspas), além de um depoimento seu sobre os velhos tempos.
E antes que eu me esqueça: visitas ao ateliê de Dallier podem ser agendadas pelo e-mail dallier@oi.com.br. E não deixem de visitar o blog do Dallier para conhecerem um pouco mais do morro da Conceição e de sua arte. É isso aí!


Antiga casa de cômodos na rua Lopes Quintas, 211


Rua Lopes Quintas vista da janela do brechó


Janela do brechó Estela Oliveira (Rua Lopes Quintas, 53)


Dallier em frente ao brechó


Miau


"A vila onde morei, na Lopes Quintas, durante 15 anos, dos 7 aos 22 anos, e de onde me mudei no dia do suicidio de Getulio Vargas"

"10 de julho de 1932. Em plena revolução eu nasci, entre tiros e correrias vim ao mundo nesse dia tumultuado. Fui amparado pelas mãos carinhosas, em casa, por minha mãe preta de nome Judith, com quem meus pais dividiam a casa de número 28 de uma ruazinha de nome Estela, quase no fim da Pacheco Leão, bem pertinho do Horto Florestal. Minha mãe não teve leite para me amamentar, tampouco ao meu irmão Oswaldo, nascido quase dois anos antes. Foi Dona Judith quem nos amamentou e foi de seus seios negros que nos alimentamos no princípio de nossas vidas. Ali vivemos por mais algum tempo até que viemos morar no Morro da Conceição, na Praça Mauá [onde Dallier tem hoje seu ateliê]. Minha mãe era operária da Fábrica Carioca e todos os dias viajava até a Gávea para trabalhar juntamente com minha tia Rosa.

Já quase completando sete anos, meus pais resolveram voltar ao bairro onde nasci. Fomos morar em uma pequena casa de vila na Rua Lopes Quintas onde anteriormente morava o contramestre de minha mãe na fábrica, cujo apelido era Jaime Malhado. A casa além de ser muito pequena estava em péssimo estado, meu pai que ainda não havia visto a casa recusava-se a entrar. As paredes esburacadas, a cerca com pedaços de madeiras amarradas com trapos velhos e sujos mostravam o que nos esperava. Minha mãe confiava na capacidade de meu pai, que era um ótimo pedreiro, e como ela já estava cansada de viajar diariamente, chegando tarde em casa, e de subir a ladeira do morro da Conceição todos os dias, insistiu em ficarmos. E assim foi.

Meu pai, apesar de sua opinião, colocou mãos à obra e, aos poucos, a casa foi ficando habitável. Pertinho da fábrica, minha mãe acordava cedo, deixava a comida pronta, a casa arrumada e voltava na hora do almoço com algumas colegas a quem dava pensão, e depois quando soava o primeiro apito voltavam para a fábrica. Devo dizer que minha mãe sempre era a última a entrar de volta justamente quando o último apito tocava e ninguém mais poderia entrar."


"O interior da Igreja Divina Providência onde fiz minha primeira comunhão, realizada pelo Padre Vicente, que mais tarde morreu atropelado. e onde se ouvia aos domingos na missa a voz da cantora lírica Diva Pierante"


"Frente da Igreja Divina Providência" (observe atrás o Cristo)


"Sentado na frente de um novo restaurante onde, no meu tempo de menino, existia uma padaria"


"Idosos jogando cartas na esquina da Rua Abreu Fialho. Vêem-se as casas que antes pertenciam à Fábrica Carioca, onde minha mãe trabalhava."


"Em frente à casa onde nasci, na Rua Estela, 28"


Casa na "Pequena Itália", a área em torno da antiga Fábrica Carioca


"Pequena Itália"


Ainda a "Pequena Itália"


"Bar de esquina da Pacheco Leão e Rua Corcovado que virou reduto da TV Globo"


"Bebendo um chopinho no bar"


"De braços dados com o escritor Otto Lara Rezende - quem diria"


Botequim na esquina da Pacheco Leão com Jardim Botânico. Fotos do editor do blog.