ENSEADA DE BOTAFOGO

ENSEADA DE BOTAFOGO
"Andar pelo Rio, seja com chuva ou sol abrasador, é sempre um prazer. Observar os recantos quase que escondidos é uma experiência indescritível, principalmente se tratando de uma grande cidade. Conheço várias do Brasil, mas nenhuma tem tanta beleza e tantos segredos a se revelarem a cada esquina com tanta história pra contar através da poesia das ruas!" (Charles Stone)

VISTA DO TERRAÇO ITÁLIA

VISTA DO TERRAÇO ITÁLIA
São Paulo, até 1910 era uma província tocada a burros. Os barões do café tinham seus casarões e o resto era pouco mais que uma grande vila. Em pouco mais de 100 anos passou a ser a maior cidade da América Latina e uma das maiores do mundo. É pouco tempo. O século XX, para São Paulo, foi o mais veloz e o mais audaz.” (Jane Darckê Avelar)
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27.8.19

PASSEIO PÚBLICO



Tombado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional IPHAN em 1938, o Passeio Público é o primeiro jardim público do Rio de Janeiro, mandado construir pelo vice-rei D. Luiz de Vasconcelos, em 1783. Projetado por Mestre Valentim, importante artista do período colonial brasileiro, o jardim apresentava ruas retas que se cruzavam ortogonalmente e outras formando diagonais, e ostentava elementos decorativos também criados pelo artista, que ainda hoje estão presentes. Entre eles, o tombamento federal destaca o Portão Principal, o Chafariz dos Jacarés (Fonte dos Amores) e os Obeliscos (Pirâmides).

Uma grande reforma foi executada no Passeio Público em 1861, pelo botânico e paisagista francês Auguste Glaziou. Nela foram conservados os elementos arquitetônicos e artísticos originais, mas foi alterado o partido do jardim, adotando-se aleias curvas e sinuosas, lagos e pontes, à feição do paisagismo romântico (informação de um letreiro existente no Passeio Público).


Portão de acesso em bronze com feição rococó

Medalhão de D. Maria I, rainha de Portugal, mais tarde aqui no Brasil cognominada a Louca, e do rei consorte de Portugal, seu marido Pedro III

... ide passear algumas horas no Passeio Público...

Quando estiverdes de bom humor e numa excelente disposição de espírito, aproveitai uma dessas belas tardes de verão como tem feito nos últimos dias, e ide passear algumas horas no Passeio Público, onde ao menos gozareis a sombra das árvores e um ar puro e fresco, e estareis livres da poeira e do incômodo rodar dos ônibus e das carroças. 

José de Alencar em crônica de 29 de outubro de 1854

Chafariz dos Jacarés


Uma das obras primas do Mestre Valentim, a Fonte dos Amores foi projetada em 1783, quando a cidade do Rio de Janeiro era marcada pela sujeira e pela insalubridade. A falta de água potável foi amenizada a partir da construção, pelo vice-rei, de fontes e chafarizes por toda a cidade.

No projeto de Valentim, como se pode observar, a Fonte foi colocada em local de destaque dentro do jardim. Ao entrar no Passeio, o visitante avistava imediatamente a Fonte dos Amores.

A Fonte possui duas faces. Na que está voltada para o jardim, encontra-se o Chafariz dos Jacarés. As esculturas, fundidas em bronze na antiga Casa do Trem, despejam [na verdade, despejavam; a fonte atualmente está seca] pela boca a água que cai no tanque semicircular que rodeia a cascata. A outra face da Fonte dos Amores tem o Chafariz do Menino. Para observá-lo melhor é necessário subir até o terraço.

Mesmo com toda a transformação realizada por Glaziou, em 1861, foram mantidas do original do Mestre Valentim a Fonte dos Amores e as pirâmides. 

Informação de um letreiro do Passeio Público.

Chafariz dos Jacarés (detalhe)

Chafariz do Menino: "Sou útil inda brincando".

Entrava então no Passeio Público, e tudo me parecia dizer a mesma coisa. — Por que não serás ministro, Cubas? — Cubas, por que não serás ministro de Estado? Ao ouvi-lo, uma deliciosa sensação me refrescava todo o sistema. Entrei, fui sentar-me num banco, a cavar comigo aquela ideia. 

Machado de Assis, Memórias póstumas de Brás Cubas


Duas pirâmides em granito de Mestre Valentim (1806)

[Mestre] Valentim pertenceu à Irmandade de Nossa Senhora da Conceição, composta de homens pardos como ele, tendo a ela se filiado em 1766. Desde então, até 1813, produziu valioso acervo de obras que o tornaram notável entre os demais artistas do Rio de Janeiro colonial. Embelezou a cidade com dois importantes marcos: para o largo do Paço (atual praça Quinze), a mais importante praça da cidade, produziu o belíssimo chafariz; na área do aterro da antiga lagoa do Boqueirão projetou e realizou o primeiro jardim público da cidade, o atual Passeio Público, inaugurado em 1783. Aliás a obra do Passeio representou a primeira intervenção do poder público na cidade, que partia de um ponto de vista global e objetivava retirar o largo do Paço de sua posição de único marco espacial no gênero. Foi sem dúvida uma proposta ousada, que partiu do vice-rei d. Luis de Vasconcelos e Souza. Exigiu obra complexa e cara de aterramento da lagoa e desbastamento de parte do morro do Desterro (atual morro de Santa Teresa). O projeto não se resumia ao Parque, mas compreendia um todo integrado e inovador, ao qual a baía de Guanabara se incorporava ao mesmo tempo como paisagem descortinada por quem no Passeio estivesse plantado, ou como ponto de vista de quem chegava à cidade pelo mar. Em seu lado oposto e extremo, no vértice formado pela atual rua Evaristo da Veiga, ficava o chafariz das Marrecas, que fornecia água potável acessível ao consumo da população. Unindo o parque ao chafariz corria uma rua larga, reta, direcionadora do olhar daquela pessoa que se dirigia ao grande jardim, preparando-a ao deleite de um passeio pelas alamedas floridas que convergiam para o eixo principal e terminava no terraço descortinando a bela visão da baía de Guanabara. Nos extremos desse terraço erguiam-se dois pavilhões hexagonais em que se exibia a arte muralista de painéis com conchas e penas, obras de Francisco dos Santos Xavier (Xavier das Conchas) e de Francisco Xavier Cardoso Caldeira (Xavier dos Pássaros) muito apreciadas pela população da cidade. No interior do Parque não faltavam elementos de adorno, presentes em famosos passeios públicos de outras cidades da Europa, como fontes e estátuas. A rua que unia o Passeio Publico ao chafariz, atual Marrecas, principal via de acesso ao Parque, foi batizada com o poético nome de "Belas Noites", numa clara alusão ao espetáculo visual que oferecia aos transeuntes nas noites de luar. Foi a primeira rua aberta sem o objetivo utilitário de circulação e oferta de lotes para novas construções. Ao contrario, nasceu para desempenhar uma função estético-espacial e expressar, deliberadamente, o mais sofisticado nível do viver urbano com arte.

Com esse conjunto inovador, a cidade passou a oferecer a todos a oportunidade do deleite urbano, e possibilitou a seus usuários a chance de demonstrarem o grau de civilidade que possuíam, bem como os gestos e as maneiras de uma educação requintada. A cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro poderia, a partir dessa grande intervenção, colocar-se ao lado da cidade de Lisboa e outras do Reino.

Nireu Cavalcanti, O Rio de Janeiro Setecentista, pp. 312-13


Da esquerda para a direita: Verão, outono, inverno, primavera, esculturas em ferro fundido de Mathurin Moreau (Fundições Val d'Osne) de 1860.

Em cima, da esquerda para a direita: bustos de Raimundo Correia, Chiquinha Gonzaga, Alberto Nepomuceno, Pedro Américo; em baixo: Vítor Meireles, Castro Alves e Mestre Valentim.

O espetáculo dessa natureza opulenta...

FAZEI de conta que vos achais agora comigo no aprazível terraço do Passeio Público do Rio de Janeiro. O dia foi calmoso. Em compensação, porém, a tarde é bela e fresca. O sol derrama sobre a terra seus últimos raios. Anuncia-se a hora do crepúsculo. A viração festeja docemente as verdes folhas das árvores que sussurram com um leve ruído. Imaginai tudo isto. Embalar-vos-eis com uma ficção que já tem sido e será mil vezes uma verdade. Sentemo-nos nestes bancos de mármore e de azulejos. Voltemos as costas para o mar. O espetáculo dessa natureza opulenta, grandiosa, sublime, absorve-nos-ia em uma contemplação insaciável. Cerremos por algum tempo os olhos à majestade das obras de Deus. A hora do crepúsculo é suave, melancólica e propícia aos sonhos do futuro e às recordações do passado. Deixemos o futuro a Deus no Céu e aos poetas na Terra.

Joaquim Manuel de Macedo, Um passeio pela cidade do Rio de Janeiro, “Passeio Público”


Fonte do Tritão, em bronze, réplica de 2004 da fonte original de Nicolina Vaz de Assis furtada em 1993

O Passeio Público é um parque aprazível, embora de reduzidas dimensões. Contudo, é atravessado por belas alamedas sombreadas de tamarindos, cajueiros, goiabeiras e mangueiras. Crescem nestas últimas parasitas floridas de vermelho e lilás. Cercas de bambu, caprichosamente trançadas, delimitam canteiros repletos de arbustos variados tais como: rosas-de-jericó, flores-de-cera, ervilhas-de-cheiro, pés de camélia, cardamomo, cana-índica e ainda de numerosas espécies de flores europeias, tudo bem tratado. Bancos de pedra convidam a sentarmo-nos defronte a um belo chafariz dágua cristalina e refrescante, tendo ao fundo um terraço murado de pedra no qual as ondas vêm bater e de onde se goza a brisa do mar e de uma vista encantadora sobre a baía. O parque andou muito tempo abandonado e só recentemente, graças aos esforços do grande botânico, frei Leandro, a quem sua direção foi entregue, como a do Jardim Botânico, está sendo recuperado e diariamente embelezado. É pena que lugar tão aprazível esteja na extremidade da cidade; daí ser tão pouco frequentado!

Ernst Ebel, O Rio de Janeiro e seus arredores em 1824


30.1.16

VELHOS FÍCUS COMO EU, de ARTUR DA TÁVOLA

O advogado, jornalista, radialista, escritor, musicólogo (tinha um lindo programa de música clássica na rádio MEC e estava escrevendo um livro sobre Schumann que nunca veio a lume) professor e político (votei nele para senador) ARTUR DA TÁVOLA (Paulo Alberto Artur da Tavola Moretzsohn Monteiro de Barros) escrevia lindas crônicas em O Dia, algumas reunidas em livros, ocasionalmente sobre as árvores cariocas. Morreu prematuramente, em plena atividade, aos 72 anos, em 2008, deixando saudades. Por isso resolvi "desencavar" esta linda crônica sobre os fícus que havia sido publicada nos primórdios deste blog em 2006.


Campo de Santana: "Vetustos sacerdotes!"

Chamo a sua atenção para os fícus [ficus microcarpa] de nosso Rio de Janeiro, árvore recatada, silenciosa, folha pequena, sem o charme da flor, da categoria de seres que prodigalizam amor em sadio anonimato; quanta gente nem sabe que árvore é o fícus!...

Campo de Santana

Mas ele existe, há séculos, e o Rio guarda alguns dentre os belos e vetustos exemplares de fícus. É árvore de vestes monacais. Despiu-se de vaidades mundanas. Existe para pássaros e sombra, produzindo, porém, para apreciadores especiais, a maior das delícias: as suas bolinhas portadoras das sementes (quase sempre caídas sobre o cimento da cidade grande). São pequenos figos, de onde advém o nome latino "fícus". Eles propiciam a deliciosa sensação de ir pisando as bolinhas que estalam ao peso do corpo, saborosa sensação de pisar crocante.

"...ao lado do Hotel Novo Mundo"

Mas se o amigo leitor ou doce leitora gostou do fícus e sua missão de servir e sombrear silente, após vê-los um a um pela Rua São Clemente ou Praia de Botafogo, Avenida Rui Barbosa e Praia do Flamengo, nesta, ao chegar na esquina da Rua Silveira Martins, olhe para o ângulo final do Palácio do Catete e que confina com a citada rua, ao lado do Hotel Novo Mundo. Ali esplende outra junção notável de fícus, responsável por visual denso, forte, generoso, prova da beleza introvertida desta árvore, benfeitoria anônima do Rio.

Jardim do Palácio do Catete

E, se por acaso for tão doido quanto o cronista e capaz de tanto amar o fícus caladão, saia, então, do bairro e vá para o lugar onde, em silêncio, estão os fícus mais severos e belos do mundo: a Praça da República, o Campo de Santana [foto superior]. Lá imperam, republicanos e centenários, fícus sublimes. Vetustos sacerdotes! Repare-lhes o tronco torcido pelas angústias do viver. Medite sobre as copas descomunais, prodigalizando ajuda, a despeito das dores e desilusões da casca de seu tronco. Consulte a si mesmo, sobre o significado daqueles zilhões de minúsculas folhas lustrosas, alheias a espalhafato. Descobrirá, então, a lição de vida desse monge vegetal.

Praça Nossa Senhora da Paz, Ipanema (antes da obra do metrô)

"Existe para pássaros e sombra..."

"...minúsculas folhas lustrosas, alheias a espalhafato"

"...a maior das delícias: as suas bolinhas portadoras das sementes"

Praia de Botafogo

Crônica extraída do livro Rio, um olhar de amor, de Artur da Távola. Fotos de fícus (da espécie ficus microcarpa) tiradas pelo editor do blog em diferentes pontos do Rio de Janeiro. Postagem originalmente publicada em julho de 2006.

5.9.15

JARDIM BOTÂNICO, MARAVILHA DO MUNDO

Sábado de feriadão: esposa viajou para ver a família, o dia amanheceu chuvoso, estou me recuperando de gripe de meio de ano, fazer o quê? A tentação é passar o dia enfurnado, lendo. Mas tenho necessidade de sair andando. Vou parar no Jardim Botânico. Sexagenário, entro de graça. O Jardim Botânico carioca é uma das maravilhas do mundo. Aqui tão pertinho, mas a gente raramente vai. Alguns por esquecimento, outros por falta de imaginação. Eu não vou para "preservar", para não banalizar um lugar tão bonito. Aqui neste blog já fiz uma linda postagem sobre o bicentenário do Jardim Botânico, em 2008, que você pode ver clicando aqui. Seguem algumas fotos tiradas hoje, com tempo de nublado para chuvoso.














4.11.13

PARQUE DOIS IRMÃOS

PASSEIO DE TIRAR O FÔLEGO, LITERALMENTE
João Sette Camara
Texto publicado originalmente na revista Rio Show de O Globo de 20 de julho de 2007 e reproduzido com permissão do autor. Fotos do parque e de seu acesso do editor do blog.


Recentemente soube que o Parque Natural Municipal do Penhasco Dois Irmãos, mais conhecido como Parque Dois Irmãos, que fica no morro de mesmo nome, havia sido todo reformado e tinha ganhado um reforço na segurança devido a um maior afluxo de turistas nesta época de Pan. Eu, que adoro as áreas verdes, mas nunca tinha visitado o parque, parti para o Leblon.



Da subida, na pacata Rua Aperana, não se tem ideia das surpresas que aguardam o visitante lá em cima. O parque, limpo, bem cuidado e aparentemente seguro, é uma sucessão de ladeiras entrecortadas por mirantes de todos os tamanhos que descortinam paisagens de tirar o fôlego. Do primeiro deles, o mais baixo, vê-se a orla, da Joatinga ao Arpoador. E ainda há um pequeno anfiteatro de pedra, com as Cagarras ao fundo, que poderia ser um dos palcos mais bonitos e exclusivos da cidade, se fosse utilizado.

Memorial às 228 vítimas do acidente em 2009 com o avião da Air France

Subindo ainda mais o morro e arrependido de não ter levado bicicleta — a melhor opção para explorar as trilhas, o que também pode ser feito com o auxílio de guias e mediante agendamento — cheguei a mais um mirante, que tem uma vista ainda mais alucinante, pois dele vê-se também a Lagoa e o Jardim Botânico. Além do visual, o parque ainda tem uma área para piqueniques (que precisam ser agendados), brinquedos para crianças, aparelhos de ginástica e campo de futebol.



Criado pela prefeitura em 1992 e com uma área de 39 hectares, há que se rezar para que, passado o Pan, a atmosfera de segurança e limpeza não se evapore deste parque que é um presente para os cariocas.

[Nota do editor do blog: As preces do autor foram atendidas: visitei o parque em 20/10/13 e ele continua impecavelmente limpo e cem por cento seguro.]



INFORMAÇÕES:
Parque Natural Municipal do Penhasco Dois Irmãos
Rua Aperana s/no - Alto Leblon (você pode subir de carro e estacionar no parque ou subir a pé)
Terça a domingo, das 8h às 17h, no horário de verão até 18h

17.4.13

RECANTO DO TROVADOR, ANTIGO JARDIM ZOOLÓGICO (VILA ISABEL)

Portão do Recanto do Trovador, executado nas Fundições Val d'Osne na França, semelhante ao existente no Campo de Santana

Criado em 1888, o primeiro Jardim Zoológico do Rio de Janeiro [onde hoje se situa o Parque Recanto do Trovador] fez parte dos planos modernizadores do Barão José Batista de Vianna Drummond para a região. Após a proclamação da República e sem os recursos do imperador, o empreendimento tornou-se um dispendioso encargo financeiro. Assim, com a intenção de custear a manutenção do Jardim Zoológico o Barão de Drummond criou o jogo do bicho. No local encontra-se a primeira parte do gradil original do Campo de Santana e um portão executado nas Fundições Val d'Osne na França. (Guia do Patrimônio Cultural Carioca)

Da esquerda para a direita: Pico do Andaraí Maior, Pico da Tijuca, Pedra do Andaraí (bem no meio e mais à frente, também conhecida como Pedra do Grajaú) e Morro do Elefante. Logo mais à direita da árvore aparece um pedacinho da Serra dos Pretos Forros por onde passa a Estrada Grajaú-Jacarepaguá. 
Pista de skate

Crianças

Parte do antigo gradil do Campo de Santana (ver texto abaixo)

Na época da abertura da Avenida Presidente Vargas, o Campo de Santana perdeu 18 mil metros quadrados. Os imponentes portões, que estiveram na Exposição Universal de 1862, realizada em Londres, continuam a embelezar as entradas do parque, porém o gradil não está mais lá. Logo depois da Proclamação da República, os brasões do Império, fundidos segundo os caprichosos desenhos de Glaziou, foram substituídos pelas armas da República. Em 1938, o gradil foi retirado e espalhado por quatro locais diferentes da cidade, tão grande era sua extensão. Pode ser apreciado no prédio da UFRJ na Urca, na parte que confronta com a Avenida Wenceslau Brás; na saída da Floresta da Tijuca, no Portão do Açude; na Sociedade Hípica Brasileira, na Lagoa; e no Recanto do Trovador, em Vila Isabel, onde também existe um portão semelhante ao do Campo de Santana. (Eulalia Junqueira e Pedro Oswaldo Cruz, Arte Francesa do Ferro no Rio de Janeiro, Memória Brasil, pp. 118-121)


Comunidade do Morro dos Macacos. No tempo do domínio do tráfico, o parque passou a ser considerado área de risco e caiu no abandono. Com a pacificação, no final de 2011 a Prefeitura remodelou o parque, que agora está uma beleza.

TRECHO DO LIVRO GANHOU, LEVA! O JOGO DO BICHO NO RIO DE JANEIRO (1890-1960), DE FELIPE MAGALHÃES:


Cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro, 3 de julho de 1892. Nesse domingo de inverno carioca foram inaugurados vários divertimentos na empresa do Jardim Zoológico, de propriedade do sr. João Baptista de Viana Drummond, o barão de Drummond. O parque estava localizado no “pitoresco bairro de Vila Isabel”, na encosta da serra do Engenho Novo. Por ser um dia especial, a Companhia Ferro Carril Vila Isabel dispôs carros especiais para levar o público e os convidados até as dependências do zoo.

Esbanjando a cordialidade de um nobre, associando-a aos interesses de um empresário, o barão recebeu seus ilustres convidados, entre os quais o vice-presidente da República, cuja presença foi saudada por todos com um brinde à mesa do jantar. No agradável passeio, tendo em vista o clima ameno e a satisfação de todos, o barão e seu gerente Manoel Zevada lhes apresentaram as dependências do Jardim. Além das jaulas, gaiolas e viveiros presentes em qualquer empreendimento desse porte, a empresa de Drummond contava com um hotel “nas melhores condições, um magnífico restaurante e tinha em construção um grande salão especial para concertos”.

Os visitantes ainda poderiam passar seu tempo divertindo-se em animados bailes públicos, no circo de cavalinhos, em variados espetáculos ou fazendo apostas em alguns jogos liberados para aquelas dependências. Havia bilhar, carteado, jogo da pelota, frontão e outros. No entanto, esse domingo era especial, um novo divertimento estava para ser inaugurado.

Ao comprar o ingresso de entrada para o Jardim Zoológico, o visitante passaria a receber um ticket. No bilhete estaria impressa a figura de um animal. Pendurada num poste a cerca de três metros de altura, próxima ao portão de entrada do parque, havia uma caixa de madeira. Dentro desta ficava escondida a gravura de um animal, escolhida pelo barão em uma lista de 25 bichos que ia de avestruz a vaca, passando por borboleta e jacaré. Nesse domingo, às cinco horas da tarde, a caixa seria aberta pela primeira vez, e o público presente poderia, afinal, descobrir o animal encaixotado e saber se teria direito ao prometido prêmio de 20$000, 20 vezes o valor gasto com a entrada para o zoo. Na hora marcada, o barão dirigiu-se até o poste, revelou a avestruz e fez a alegria de 23 sortudos visitantes. (pp. 19-20)

1.11.12

OLHO NA BELEZA, IRMÃO! de Artur da Távola

É, meu irmão, nada diga a ninguém, mas novembro começou e, com ele, rigores de verão (deverão?). O ano acaba, sem nos darmos conta da rapidez, não faz mal. Muito está a acontecer nas árvores do Rio. É abrir olhos e coração para muita beleza. Mas precisa reparar.

Novembro traz delícias vegetais. O fícus, aquela árvore caladona, severa, monge vegetal, sem flor, enorme, só folhas e grandes galhos professores de sombras generosas (há muitos no Campo de Santana e na Praia de Botafogo), pois o discreto fícus fabrica suas bolinhas (são figuinhos do tamanho de um botão) agora por novembro. E não há delícia maior que pisá-las no chão. Ajuda a liberar as sementes e é inesquecível forma de prazer infantil.

fícus, aquela árvore caladona...
A reparar, também, que as mangas maduram a partir desta fase, seus pomos inchados de amor, suculentos, amorosos, delícia suprema. Segundo o escritor Rubem Fonseca, só se deveria comer manga nu, sentado dentro da banheira.

Novembro traz ainda florais encantamentos para o nosso Estado do Rio: alguns flamboyants abusados começam a florir, embora dezembro seja o seu mês; as acácias amarelas, pendões de ouro, começam o apogeu floral. Aleluia: ainda há casas e espaços onde poetas e sábios plantam acácias! Os hibiscos explodem flores deslumbrantes e exibicionistas, genitália à mostra e com razão, pois cada flor de hibisco só vive 24 horas.

alguns flamboyants abusados começam a florir...
as acácias amarelas, pendões de ouro...
Os hibiscos explodem flores deslumbrantes...
Os ipês calaram-se. Recolheram as flores. É época, porém, do jasmim. Tirante o de nuca de mulher depois de banho bom, não há cheiro mais delicioso que o do jasmim-do-cabo, aquele grande. Perfume de jasmim é o barato dos deuses. E há, ainda, os pequenos, a "dama da noite", por exemplo, jasmim minúsculo. E florem também neste novembro, fronteira assustadora do verão tropical, as árvores de jasmim-manga, de várias tonalidades, tesão das abelhas.

Perfume de jasmim é o barato dos deuses...
E para terminar, alerta, irmãos: as jaqueiras estão grávidas. Lindas. Reparem só. Pois assim é novembro, mês modesto e sem alardes, mas tinhoso como ele só.

Crônica publicada originalmente em O Dia de 3 de novembro de 1992.