ENSEADA DE BOTAFOGO

ENSEADA DE BOTAFOGO
"Andar pelo Rio, seja com chuva ou sol abrasador, é sempre um prazer. Observar os recantos quase que escondidos é uma experiência indescritível, principalmente se tratando de uma grande cidade. Conheço várias do Brasil, mas nenhuma tem tanta beleza e tantos segredos a se revelarem a cada esquina com tanta história pra contar através da poesia das ruas!" (Charles Stone)

VISTA DO TERRAÇO ITÁLIA

VISTA DO TERRAÇO ITÁLIA
São Paulo, até 1910 era uma província tocada a burros. Os barões do café tinham seus casarões e o resto era pouco mais que uma grande vila. Em pouco mais de 100 anos passou a ser a maior cidade da América Latina e uma das maiores do mundo. É pouco tempo. O século XX, para São Paulo, foi o mais veloz e o mais audaz.” (Jane Darckê Avelar)
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24.7.18

TERRA SEM MALES, de IVO KORYTOWSKI

TEXTO ESCRITO EM MARÇO DE 2002, QUANDO EU FREQUENTAVA A OFICINA LITERÁRIA DE IVAN PROENÇA, E INCLUÍDO NO MEU LIVRO ÉDIPO



A Campanha da Fraternidade daquele ano preconizou a demarcação das terras indígenas, e os políticos brasileiros — ano eleitoral — daquela vez, contrariando a tradição, fizeram o dever de casa direitinho.

Tupã viu que, enfim, fizera-se justiça para com seu povo. Reuniu o conselho dos deuses que regem os destinos do Brasil, ele próprio, Olorum, Nossa Senhora da Aparecida etc. a fim de instaurar a terra sem males — abundância de caça e pesca, bom clima e paz — dos milenares sonhos indígenas.

Dia seguinte, estourou o escândalo no Canadá: contabilidade da Bombardier manipulada, dívida da empresa tecnicamente impagável, falência decretada. Por outro lado, sucessão de acidentes envolvendo aeronaves Airbus e Boeing fizeram com que passassem a ser vistas com desconfiança por viajantes do mundo inteiro. Da noite para o dia, a Embraer acordou como o mais requisitado fabricante de aviões do mundo, torrentes de divisas para o Brasil.

Os temidos chefes do tráfico (iluminados pelo Espírito Santo?) passaram a se comportar como criminosos de romances de Dostoiévski (mostrando que, às vezes, a vida pode imitar a arte). Acometidos de crises de consciência e profundos remorsos, depuseram os fuzis, granadas e bazucas, entregaram-se às autoridades policiais, alguns se converteram à religião evangélica, contritos. Graças a Deus!

Na outra ponta, convencido enfim dos terríveis malefícios do cigarro, o Congresso proibiu sua fabricação e venda em todo o território nacional. Mas para evitar o fechamento da Souza Cruz e os terríveis problemas sociais que daí decorreriam, a fábrica foi autorizada a produzir e distribuir cigarros de diamba (tradicional erva indígena com efeitos tranquilizantes — e às vezes alucinógenos). A paz e o amor reinaram sobre o país, bicho!

Os carnavais baiano e carioca tornaram-se permanentes: todo fim de semana trios elétricos e desfiles de escolas de samba traziam alegria ao povo. Por que parar, parar por quê?

Psiquiatras, médicos e psicanalistas enfim estabeleceram cientificamente que "cerveja refresca até pensamento", o que valeu ao Brasil o primeiro prêmio Nobel (de Medicina), e o néctar dos deuses — devidamente acompanhado de praias e "gatas" de biquíni — passou a ser indicado no mundo inteiro para pacientes depressivos e ansiosos.

Intelectuais franceses decretaram a morte do Modernismo e a volta do Romantismo. A televisão brasileira aproveitou-se da onda estética pra transformar a novela brasileira — a legítima sucessora do folhetim do século XIX — no segundo maior produto de exportação do país. De repente, norte-americanos, franceses, chineses, o mundo todo emocionava-se com as peripécias rocambolescas de nossos personagens e papagueava nossas falas e macaqueava nossos hábitos e costumes. (Em Londres, por pressão da opinião pública, as vetustas cabines telefônicas foram substituídas por alegres orelhões à carioca. Yes, sir!)

Intelectuais estrangeiros, pra melhor compreender o fenômeno, passaram a estudar o idioma de Camões. A moda pegou e, em pouco tempo, cursos de Português pululavam abrindo enorme mercado de trabalho pra brasileiros aventureiros dispostos a correr o mundo.

A terra sem males, onde negros, índios e brancos de todos os matizes conviviam harmoniosamente, atraiu a atenção de cientistas sociais e de políticos do mundo inteiro: consultores brasileiros passaram a ser contratados a peso de ouro pra desatar os “nós górdios” das outras partes do mundo (consta que patrício nosso enfim solucionou a cizânia israelense-palestinense, transformando as colinas e bazares de Jerusalém num imenso Carnaval).

Os sem-terra ganharam terras, os sem-teto ganharam teto, os deserdados da sorte ganharam polpudos prêmios do Show do Milhão, Totobola, Raspadinha, e os escritores sem-livro enfim viram suas obras publicadas... e lidas!

Só quem não gostou daquela alegria toda foram os profetas do apocalipse — sisudos, auto-exilados nas torres de marfim, as sempiternas previsões pessimistas definitivamente contrariadas pelos fatos. Razão tinha o carnavalesco (e sábio) Joãozinho Trinta, ao diagnosticar: "O povo gosta de luxo, quem gosta de miséria é intelectual".


FINALMENTE, CONVIDO-OS A VEREM MEU VÍDEO SOBRE O TRISTE FIM DE POLICARPO QUARESMA, DE LIMA BARRETO, AUTOR QUE CERTAMENTE ADORARIA VER O BRASIL CONVERTIDO NA "TERRA SEM MALES"

26.12.07

GRANDES E PEQUENAS MARAVILHAS

Ivo Korytowski


Existem grandes maravilhas: comer mancheias de caviar ao som de balalaicas às margens do Mar Cáspio. Mas existem pequenas maravilhas também: entrar na primeira padaria que surgir pela frente e escolher a dedo aquele pão doce cheio de creme pra sair comendo pela rua, ou o croissant (ou pão de provolone) pra saborear em casa, camada de manteiga com sal e geléia de morango — ou prefere damasco?

Existem grandes maravilhas: excursão de degustação pelos vinhedos de Borgonha. Mas existem pequenas maravilhas também: entrar em botequim qualquer e saborear aquela latinha de Bohêmia, ouvindo todo o papo furado daquele pessoal que parece não ter horário nem compromisso como você.

Existem grandes maravilhas: assistir à peça de Shakespeare em Stratford-upon-Avon. Mas existem pequenas maravilhas também: ver capítulo de novela qualquer na televisão. Não acompanhar compulsivamente toda e qualquer novela, dia após dia, mas ver um capítulo aleatoriamente, sem saber muito bem a história. Na novela, é como se as revoluções estéticas do século XX jamais tivessem ocorrido. Sua lógica, totalmente romântica, folhetinesca, rocambolesca: incríveis coincidências, amores impossíveis, expectativas dilacerantes — culminando no final feliz! E os diálogos? Os diálogos, de tão naturais, até parecem reais — a gente não se dá conta de que um autor, um escritor, um roteirista escreveu aqueles diálogos.

Existem grandes maravilhas: ouvir a Filarmônica de Berlim, com toda a pompa e circunstância, em seu país natal. Mas existem pequenas maravilhas também: ouvir o CD favorito no momento — que pode ser aquele trio de Schubert, o álbum do ERA ou o velho disco de boleros remasterizado — à meia-luz, balançando na rede, incenso indiano queimando.

Existem grandes maravilhas: ganhar pendentif de ouro do namorado. Mas existem pequenas maravilhas também: beijoca estalada na orelhinha! Existe coisa melhor?

Existem grandes maravilhas: ir a Roma e ver o papa. Mas existem pequenas maravilhas também: subir a Santa Teresa, Rio de Janeiro, e ver o puja no templo budista.

Existem grandes e pequenas maravilhas. E dado que os extremos se tocam, as pequenas acabam se revelando tão prazerosas quanto as grandes. Pensando bem, as pequenas saem ganhando: afinal, poupam-nos de estafantes deslocamentos, do aperto de lata de sardinhas e turbulências dos aviões, das intermináveis prestações pós-viagem...

Afinal, não é a toa que reza o ditado: boa romaria faz quem em casa fica em paz.


Do livro Édipo. O meu livro - o melhor presente de fim de ano para quem curte uma boa leitura - pode ser comprado com bom desconto no site das Lojas Americanas.
Sobre o livro, disse Antonio Carlos Villaça: "Édipo nos revela um grande contista. Um dos melhores contistas do Brasil de hoje. O livro nos mostra a perfeição de um estilo, argúcia da observação, análise implacável, minuciosa, leve. É um contista fluente, ágil, malicioso. Tão humano! O irmão de Marques Rebelo."

Foto da Praia de Ipanema vista do Arpoador de Ivo & Mi