ENSEADA DE BOTAFOGO

ENSEADA DE BOTAFOGO
"Andar pelo Rio, seja com chuva ou sol abrasador, é sempre um prazer. Observar os recantos quase que escondidos é uma experiência indescritível, principalmente se tratando de uma grande cidade. Conheço várias do Brasil, mas nenhuma tem tanta beleza e tantos segredos a se revelarem a cada esquina com tanta história pra contar através da poesia das ruas!" (Charles Stone)

VISTA DO TERRAÇO ITÁLIA

VISTA DO TERRAÇO ITÁLIA
“São Paulo, até 1910 era uma província tocada a burros. Os barões do café tinham seus casarões e o resto era pouco mais que uma grande vila. Em pouco mais de 100 anos passou a ser a maior cidade da América Latina e uma das maiores do mundo. É pouco tempo. O século XX, para São Paulo, foi o mais veloz e o mais audaz.” (Jane Darckê Avelar)
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11.9.22

O RIO DE JANEIRO VISTO POR CARL SEIDLER

TRECHOS DO LIVRO DEZ ANOS NO BRASIL DO AVENTUREIRO ALEMÃO CARL FRIEDRICH GUSTAV SEIDLER QUE, CHEGANDO AO BRASIL EM 1826 COM O INTUITO DE FAZER FORTUNA RÁPIDA, VIU SEUS SONHOS DESFEITOS E, DE VOLTA À TERRA NATAL DEZ ANOS APÓS, ESCREVEU UM LIVRO COM UMA VISÃO NADA LISONJEIRA DE NOSSO PAÍS. PARA ACESSAR UM PDF DA OBRA CLIQUE AQUI.

escravos

       
       A primeira impressão que colhemos da vida humana no Rio de Janeiro foi altamente desagradável e revoltante; destruiu todos os sonhos idílicos que como chuva de maná se derramaram sobre nosso coração ainda enjoado do mar. Passou por nós grande embarcação que levava dezoito negros, quais escravos de galés, dura e estreitamente acorrentados uns aos outros; a pouca distância seguia-se-lhe outra e logo após terceira. É essa a tão gabada emancipação dos escravos, a liberdade brasileira, pensei eu comigo, e desviei meus olhos do espetáculo. Verdade é que depois eu soube que aqueles negros assim comprimidos eram criminosos e condenados, que por aquela forma deviam prelibar na terra o gosto do inferno; não obstante não perdi a primeira impressão. [...]

A província do Rio de Janeiro é das menores das dezenove que ainda constituem o fulgurante firmamento do Império do Brasil, depois que com a paz de outubro de 1828 a Cisplatina foi cedida a Buenos Aires [Erro do autor. Em 27 de agosto, a Província Cisplatina tornou-se independente, constituindo o Uruguai].

a mais linda pedra preciosa da coroa imperial do Novo Mundo


       Contudo, é seguramente a mais rica e mais povoada, pois de acordo com os últimos dados meio oficiais só a capital, Rio de Janeiro, conta 230.000 habitantes. Esta província é a mais linda pedra preciosa da coroa imperial do Novo Mundo, realmente nova, mas sumamente antiquada. Em quase toda parte onde se arrastou a floresta virgem está plantada de café e geralmente o café tem o predomínio entre todos os artigos de exportação do Brasil. Infelizmente as bagas de café tornaram-se na Europa verdadeiros diamantes. Além dele, a exportação consiste em algum algodão, em açúcar, ipecacuanha e algum pau de tinturaria. Mas o câmbio de dinheiro e o tráfico branco de negros são as principais fontes financiais do estado. [...]

Não em vão a cidade imperial da terra colombiana tomou Paris por modelo; tem ela algo de grandioso, voluptuoso e agradável, que lembra o velho dito: “Quem estiver de pé, cuide-se, não vá cair!”

A situação do Rio de Janeiro já foi, se não descrita, pelo menos pintada. Para esgotar minhas comparações ainda acrescentarei – e esta ideia é de época muito ulterior de minha vida – que o Rio de Janeiro, com seus socalcos em forma de terraços é uma gigantesca Gênova [...]

As ruas do Rio são na maior parte compridas, tortas e estreitas, as casas quase todas baixas, sujas e edificadas em estilo vulgar, sem levar em conta questões de gosto e de comodidade da vida social, à feição da vontade no momento e da urgência. Dessas muitas ruas que se arrastam e se cruzam, sobe morro, desce morro, há duas, quando muito, que se podem denominar com algum epitheton ornans: a Rua Direita [atual Primeiro de Março] e a Rua dos Ciganos [atual Rua da Constituição]. Em ambas se deparam vários edifícios mais magnificentes que belos.

a Rua Direita [atual Primeiro de Março]

 
    Poder-se-ia juntar-lhe a Rua do Ouvidor, pois esta recebe encanto singularmente mágico para o forasteiro sem amigos e sem alegria pelas inúmeras casas de modas quando à noite brilhantemente iluminada. Lá dentro, atrás das ramalhantes cortinas das janelas e dos perfumados reposteiros de folhas e de flores de uma natureza transatlântica, estão assentadas as diligentes costureirinhas, e seus olhos muitas vezes brilham mais que a claridade das lâmpadas e dos falsos diamantes e pérolas, que com uma garridice tão ingenuamente artística sabem entremear em seus cabelos.

As casas do Rio são, como disse, em geral baixas, pequenas, sujas, sem gosto e incômodas

       
         As casas do Rio são, como disse, em geral baixas, pequenas, sujas, sem gosto e incômodas; só nas mais ricas se veem tapetes e muitas vezes o rés-do-chão não é assoalhado. Em toda parte reina arranjo barroco do material, da distribuição e dos ornamentos arquitetônicos – quando tais existem. Na verdade, às vezes se nota uma espécie de luxo, mesmo ostentação, mas nunca elegância, simetria ou conforto no interior. O quarto das crianças fica junto ao salão de visitas, o dormitório ao pé da cozinha, o boudoir junto do quarto dos criados, a estrebaria com seu estrume ao lado do belo portal, o escritório ao pé da latrina, tudo à francesa. [...]

[...] não é nada extraordinário que os negros encarregados de transportar das casas para a praia toda sorte de lixo, por sua vez se revelem demasiado comodistas para levarem o vaso transbordante em longa caminhada até o mar, e na primeira esquina despejam toda a porcaria e se vão embora.

A este flagelo da cidade junta-se a velha praga faraônica da terra, os imortais ratos. Esses bichos medram excelentemente no Brasil e se multiplicam todos os anos medonhamente. Tornaram-se uma espécie de alta caça sagrada, apenas perseguida algumas vezes pelos monges nos seus jardins murados. Miríades de mosquitos e de bichos de pé, estes metendo-se debaixo das unhas dos pés pondo seus e aí pondo seus ovos, centenas de centopeias e escorpiões, aumentam com suas picadas venenosas a impressão total capaz de levar ao desespero, quiçá à loucura, o estrangeiro no Rio de Janeiro [...]

12.5.22

CONRAD DETREZ NO RIO DE JANEIRO

Conrad Detrez (1937-1985) foi um belga estudante de teologia em Louvain que, para escapar do serviço militar no Congo belga, em 1962 decidiu emigrar para o Brasil como missionário leigo. Lecionou francês na Universidade Santa Úrsula, ao mesmo tempo em que atuou nas favelas. Durante o regime militar, envolveu-se com  atividades políticas ligadas aos meios católicos de esquerda (Ação Popular) e chegou a ser preso e expulso do país em 1967. Contou Detrez ao Jornal do Brasil: "Meu processo de expulsão foi arquivado, voltei à França e retornei a São Paulo em 1968 onde, até 1969, fui redator de política internacional. Com o crescimento da repressão, achei melhor sair do Brasil. Em 1971 fui condenado, à revelia, a dois anos de prisão" (edição de 7 de junho de 1980) Com a redemocratização, favorecido pela anistia, retornou por algumas semanas em 1980, visita essa que narra em seu livro Les noms de la tribu (Os nomes da tribo, sem tradução em português), do qual transcrevemos abaixo um trecho, traduzido para o português pelo editor deste blog.


Aprendi a desconfiar das peregrinações. Geralmente, é melhor não voltar para trás. Não se acham mais as emoções, as sensações outrora conhecidas. A vida converteu-se em morte, macaqueamos o que já fomos, o tempo te vence, és ridículo. Apesar disto, retornei a Brás de Pina. Este bairro do subúrbio jaz por trás de um universo de fábricas, de barracos, de quartéis e de casinhas, depois da interminável Avenida Brasil. Os ônibus, dirigidos a toda velocidade por motoristas kamikazes transportam para lá, em menos de uma hora, os passageiros. À medida que nos aproximamos do bairro, minha curiosidade se aviva. A casinha onde vivi será que sobrevive? “Minha” rua mudou? A colina onde, no fim da tarde, eu subia para espreitar a chegada do meu companheiro, abarcar a extensão do subúrbio, meditar sobre minha vida e os acontecimentos, essa colina em cujo topo se ergue a capela de Santa Cecília ainda estará intocada por qualquer outra construção, por qualquer árvore?

Paróquia de Santa Cecília (1929 - Brás de Pina) no estilo das igrejinhas da Europa Central, como a de St. Cäcilia em Dauchingen, Alemanha.

Ao pé desse montículo, na monotonia dos subúrbios, minha existência mudou. Nasci em 1937 na região de Liège. Uma segunda vida surgiu e subverteu a primeira, em 1963, no Rio de Janeiro. No primeiro período, fui um aldeão, de raça valã, religião católica e língua francesa. No segundo, torno-me suburbano, de filiação carioca, herege e de língua portuguesa. Em Brás de Pina vivi a perda da fé e o engajamento político. Lá também sofri a devastação do amor louco. O Brasil popular, mais africano do que europeu, contestador e despojado, subverteu-me profundamente. O povinho dos subúrbios do Rio me ensinou a vida, a política, o prazer: ele me libertou. O modesto bairro de Brás de Pina foi o local do novo parto. Essa obscura zona suburbana é minha Roma, meu Tombuctu, minha Havana. Foi lá que encontrei Beatriz e vivi com Fernando. Apeguei-me a ela como à minha aldeia. Gostaria de terminar lá meus dias.

Era domingo, um doce domingo de inverno austral, moderadamente ensolarado, modorrento. A parada de ônibus fica a dez minutos a pé da colina. Em quinze anos, o bairro não mudara nada. Eu revi os letreiros, os botecos, os casebres de outrora. Subi as escadas que conduzem à casinha que habitei, no alto da colina, à igrejinha azul celeste em seu topo. Uma vegetação extraordinária circundava a habitação e o santuário. Enormes tufos de bambu apontavam entre flamboyants, bosques de figueiras formavam, acima do caminho estreito que prolonga a escadaria, uma abóbada sob a qual avancei. Reconheci a casa, paredes desbotadas, mal conservada, que parecia servir agora de depósito. Encostei meus lábios sobre o reboco, amarelo e sujo, da fachada. Pela primeira vez após meu retorno ao Rio, as lágrimas me assomaram aos olhos.

Refleti por um longo momento, sentado na capela, acerca da passagem do tempo, as paixões que se extinguem, as metamorfoses da vida. Abandonei a colina e deixei para trás a casinha, os bambus, o santuário. Peguei de novo o ônibus que me levou ao centro da cidade, levemente melancólico, contente sem saber direito por que, e sonhador.

Eu ainda devaneava quando o veículo parou na Praça Tiradentes, ponto final das linhas do subúrbio. Um outro mundo, esta praça, uma outra história, uma outra geografia. Entre seu teatro João Caetano, seus botequins e gafieiras, seus cinemas porcos, seus petiscos e hotéis de má fama, uma fauna desclassificada e composta de todas as classes surge tão logo a noite cai. Em meio aos mendigos, aos paqueras, aos meninos vendedores de amendoins torradinhos, avaliam-se os travestis, os burgueses tornados vulgares, os gigolôs a dez centavos ou quinhentos cruzeiros, de acordo com a idade, o peso, as iscas. Ali se roçam as mulatas de aluguel, os encrenqueiros, os traficantes, os Don Juans de favela e veados ruidosos, exuberantes, envelhecidos, desdentados, vestindo às vezes em vez de blusas as cortinas de seus cortiços. Durante dois anos, atravessei diariamente este lugar. Vinha do meu subúrbio e tinha de baldear de ônibus para me dirigir àquela escola [Universidade Santa Úrsula] dos bairros elegantes onde dava cursos de francês a moças jovens bem nascidas, tediosas como as missas, em troca de um salário miserável mas católico. Ao pé da estátua de Tiradentes, que significa aquele que extrai dentes, herói da independência do país, aprendi mais sobre as classes sociais, sobre seus gostos secretos, seus desejos, do que em todos os tratados de sociologia, de antropologia, as crônicas e até os romances locais [na Praça Tiradentes situa-se a estátua de D. Pedro I].

Que fazem então essas mulheres em andrajos, essas crianças quase nuas e esses velhos, sentados em papelões, na rua da Carioca? A noite vem. Saio de uma livraria e topo com esses grupos humanos. As mães, muito jovens e já desgastadas por três ou quatro gravidezes, dão o seio a recém-nascidos ou distribuem tabefes. Outras mulheres insultam as pestinhas que escapam de seus golpes. Os termos mais grosseiros jorram. Os moleques lutam, as meninas enrolam o coque, bebês choram. E as velhas assistem, indiferentes, às brigas. Sentem frio. O tempo esfria. Elas se estendem e enrolam em velhos jornais. Os pedestres circulam, impassíveis, entre os corpos, os papelões. No largo, que também tem o nome da Carioca, reproduzem-se as mesmas cenas. Por toda parte mulheres esfarrapadas e sujas, truculentas, e por toda parte bandos de crianças descalças, vestidas com um simulacro de calça rígida de sujeira, muitas vezes rasgada. Toda essa gente é negra ou mestiça. Descem, com certeza, das favelas penduradas nos morros da cidade. Curiosamente, entre essa amostra da miséria local, não há homens. Recusam-se a se mostrar? Preferem ficar pelos botecos das favelas? Correm atrás de outras saias, mais limpas e menos esfarrapadas, vestindo corpos de pele mais clara? Um fato que se vê sempre, no Brasil, entre os mendigos, é dez vezes mais mulheres do que homens e cem vezes mais crianças. Aquelas que se acumulam, esta noite, no largo são talvez mães solteiras, uma condição grandemente compartilhada no subproletariado das cidades. Ou talvez seus maridos, após as terem engravidado várias vezes, simplesmente as abandonaram, o que é ainda mais comum. Assim prolifera, neste país, uma sub-humanidade. Um fato perturbador. Pergunta-se qual tipo de revolta poderá ser eficaz. O crime, o roubo, a revolução? Será o caso de acusar o próprio Deus, o Todo-Impotente? Por ora, procuro decifrar o que essa gente faz ali, enquanto, continuando a andar, observo outro grupo de miseráveis acocorado ao pé do rochedo sobre o qual se ergue a venerável igreja barroca e o convento de Santo Antônio. E de súbito compreendo. Amanhã, 13 de junho, é a festa do piedoso português que morreu em odor de santidade em Pádua. E, como todo ano, na aurora desse dia, os padres distribuirão aos pobres o pão. Os mais famintos vieram na frente. Eles se preparam para a vigília, assegurando assim alguma chance de arrebatar das mãos dos religiosos o seu quinhão.


"venerável igreja barroca e o convento de Santo Antônio"


19.2.20

ADÈLE TOUSSAINT-SAMSON: UMA HISTÓRIA LÚGUBRE

O episódio a seguir, narrado pela viajante francesa Adèle Toussaint-Samson, que morou pouco mais de uma década no Rio de Janeiro em meados do século XIX, em seu livro Une Parisienne au Brésil, pode perfeitamente ter inspirado Machado de Assis a escrever seu conto O Esqueleto de 1875. Confiram o relato da Adèle.



A primeira vez que fui convidada no Rio para um dos bailes de São João, lembra-me que, dançando, lancei os olhos para o artista que se achava ao piano e fiquei impressionada pela estranha palidez de seu rosto. Tão extraordinária era que não pude resistir ao desejo de perguntar se esse moço, que poderia ter trinta e cinco anos, sofria de alguma enfermidade grave. Responderam-me que ficara assim desde o dia em que matara a mulher.

Imagine o efeito que sobre mim produziu tal resposta! Quis logo conhecer os detalhes dessa trágica aventura, e eis o que me contaram:

O senhor M..., um de nossos compatriotas, chegara três meses antes com sua mulher, moça e lindíssima, contratada como cantora nos teatros do Rio. Aos pés da encantadora artista choviam, todas as noites, os buquês e as cartas, e entre os mais apaixonados fez-se logo notar um jovem doutor da cidade, que tinha feito seus estudos na França, e cujo espírito havia assumido o tom zombeteiro e cético próprio dos parisienses. A moça correspondeu logo à paixão que inspirava e tornou-se amante do doutor. Começando o marido a desconfiar de alguma coisa, fez várias cenas de ciúme para a mulher. Entretanto, não tinha ainda certeza.

Um dia, ao vê-la pronta para sair, mais adornada que de costume, teve a intuição de que ela ia a um encontro amoroso e, colocando-se à sua frente:

– Não sairás! disse-lhe.

– Hei de sair! replicou ela, dirigindo-se para a porta. Então, o marido, puxando do peito uma pistola que mantinha lá escondida, desfechou aqueles dois tiros à queima-roupa contra sua jovem esposa, que se estendeu sem vida a seus pés; feito o que, foi entregar-se à prisão. Depois de ser julgado, foi absolvido pela lei, e ficou no país, onde a cada passo encontrava o homem que o desonrara. Teve a triste coragem de matar a mulher, mas não teve a de matar o homem.

Manchado por este crime, trazendo daí em diante, como eterno estigma, essa palidez cadavérica, continuava, entretanto, a vir às noites tocar polcas e quadrilhas para a juventude brasileira dançar, pois seu crime o pusera, até certo ponto, em moda.

Esta narração gelou-me; meus olhos não podiam se desviar desse homem, a quem geralmente lastimavam, enquanto eu não achava para ele, ao observá-lo, senão esta palavra: “Covarde!” O baile perdeu logo para mim, pouco a pouco, toda sua alegre fisionomia: a nota lúgubre dominava nele. Julguei-me sob o domínio de um conto de Hoffmann; parecia que um vampiro dirigia a dança. Pensei muitas vezes nessa jovem e bela criatura, morta sem piedade na flor da idade, e quis saber se o amante teria, ao menos, conservado sua lembrança. Responderam-me que, quando a moça morreu, mostrara grande dor, e fizera mesmo resgatar secretamente os restos mortais de sua amante. Isso me enterneceu.

Alguns anos depois consegui completar as informações sobre a aventura. Ei-las:

Soube que o amante, doutor em medicina, como ficou dito, fizera preparar e articular o esqueleto de sua antiga amante e, algumas vezes, depois de beber, chegara a dizer a alguns de seus mais íntimos amigos:

“Querem saber em que se transforma, depois da morte, uma mulher jovem e bonita, loura, branca e rosada? Vou mostrar-lhes!”

O doutor abria então um armário e, indicando com o dedo, sorridente, um horrível esqueleto de dentes brancos, que havia sido a formosa criatura cuja beleza ainda é proverbial no Brasil e que fora assassinada por causa dele:

“Eis aí!” dizia.

17.2.20

ADÈLE TOUSSAINT-SAMSON SOBRE A QUALIDADE DA ÁGUA CARIOCA



Da era colonial para cá muita coisa melhorou: não temos mais escravos, o cocô já não é mais lançado no mar, a febre amarela não dizima mais a população etc. Mas uma coisa piorou: a qualidade da água. Vejam a descrição de nossa água pela viajante francesa Adèle Toussaint-Samson em seu livro Une Parisienne au Brésil, publicado em 1883:

Du reste, l'eau est si bonne à Rio, que cette boisson est presque un régal. Aussi le Brésilien en boit-il, dans sa soirée, quatre ou cinq verres; elle est si limpide, si parfumée, si légère, cette eau de la Carioca, qui serpente sur de blancs cailloux, à travers les plantes aromatiques, et vous arrive toute fraîche et pleine de senteurs, qu'on s'en souvient toujours, et que le Brésilien a raison de dire : « Quand on a bu » cette eau-là, on n'en peut plus boire » d'autre. »

Além disso, a água é tão boa no Rio, que essa bebida é quase uma delícia. Também o brasileiro bebe quatro ou cinco copos à noite. É tão límpida, tão perfumada, tão leve essa água do Carioca, que serpenteia sobre seixos brancos, através das plantas aromáticas e chega até você totalmente fresca e cheia de odores, que sempre nos lembramos dela, e os brasileiros têm razão de dizer: “Quando alguém bebeu dessa água, não consegue mais beber outra.”

31.10.19

VIAJANTES ESTRANGEIROS NO RIO DE JANEIRO: ERNST EBEL (1824) & AUGUSTUS EARLE (1820, 1821-24, 1832)


Folha de rosto do livro RIO DE JANEIRO und seine Umgebungen im Jahr 1824 in Briefen eines Rigaer's  (O RIO DE JANEIRO e seus arredores em 1824 em cartas de um natural de Riga) que, embora escrito em alemão, foi publicado pela Real Academia de Ciências de São Petersburgo em 1828. Uma edição brasileira, com tradução e notas de Joaquim de Sousa Leão Filho, foi publicada pela Companhia Editora Nacional em 1972, podendo ser acessada no site da UFRJ. Dessa edição extraímos os textos aqui transcritos.

Mapa do Rio de Janeiro incluído no livro de Ebel


Da vida de Ernst Ebel pouco se sabe: natural de Riga (fato que revela no título de sua obra), capital da Letônia, na época controlada pelo Império Russo, em 14 de novembro de 1823 embarcou no brigue Theodor, na cidade dinamarquesa de Helsingor, com destino ao Rio de Janeiro, onde chegou em 28 de fevereiro de 1824, desembarcando na manhã seguinte. Seu livro, em forma de cartas a um amigo, escreveu-o em língua alemã, para seu entretimento, como narra no Prefácio, sem o propósito de divulgá-las. “Não obstante, para atender ao desejo de vários amigos que são de opinião que elas podem servir de guia útil a futuros visitantes daquela cidade, entrego-as agora à publicidade.” A obra, publicada em 1828 pela  Real Academia de Ciências de São Petersburgo, teve uma edição brasileira em 1972 em tradução do diplomata e estudioso de iconografia e história da arte Joaquim de Sousa Leão Filho. Na Introdução, escreve o tradutor: “Tendo conhecido o Rio de começos de 1824, seu livrinho – uma compilação de cartas escritas a um amigo – permaneceu, pela sua raridade, uma peça, por assim dizer desconhecida da nossa bibliografia exótica, conquanto seja dos mais interessantes depoimentos que possuímos sobre a cidade e o país que acabava de conquistar sua independência – verdadeira reportagem – em que a pessoa do jovem soberano é olhada com simpatia e admiração.” Observe que o conceito negativo que Ebel tem dos negros escravos contrasta com a visão simpática de Maria Graham que esteve aqui mais ou menos na mesma época (como você pode conferir neste blog clicando aqui).

Sobre a vida do pintor inglês Augustus Earle (filho do pintor norte-americano James Earl) sabe-se bem mais. Sua curiosidade e espírito de aventura o levaram a longas e demoradas viagens mundo afora, conhecendo, entre outros países, Estados Unidos, Chile, Peru, Brasil, Austrália, Nova Zelândia, Índia. Em todos os lugares em que esteve documentou paisagens, costumes e personalidades. Esteve três vezes no Brasil: em 1820, permaneceu no Rio por dois meses (abril e maio). Após prosseguir viagem para o Chile e Peru, retornou à capital brasileira, lá permanecendo de janeiro de 1821 a princípios de 1824, tendo se tornado amigo de Maria Graham, a quem ofereceu três ilustrações para seu livro. Após três anos de permanência aqui, partiu rumo à África do Sul e Índia, mas acabou abandonado na ilhota de Tristão da Cunha, onde teve de permanecer oito meses até que um navio surgisse e o levasse à Oceania, onde permaneceu até 1828. Na Austrália deixou as aquarelas pintadas no Rio de Janeiro, que hoje integram o patrimônio da National Library of Australia, em cujo site podem ser acessadas (aqui). 

A Revista do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional publicou em seu no 12, em 1955 (aqui), artigo sobre Earle intitulado “Um pintor inglês no Brasil do Primeiro Reinado”, de autoria de David James. Também na Wikipedia encontramos um bom verbete sobre Earle. O artista integrou a equipe do Beagle na viagem de pesquisas topográficas e científicas de que participou também o então jovem Darwin, ocasião em que esteve pela terceira vez no Rio , de abril a junho de 1832. Em seu artigo, escreve David James: “As aquarelas brasileiras, feitas entre 1820 e 1824, podem ser divididas em quatro categorias: paisagens, cenas populares, retratos e espécimes de história natural. [...] É nas cenas populares que Augustus Earle revela seu grande talento para captar a essência da vida da gente do povo, no momento em que o Brasil passava de colônia a Império. Seu estilo é mais pungente e mais vigoroso do que se revela na arte um tanto pálida do desenho de Debret. É evidente que Earle não se sentia tolhido nem contrafeito pelas concepções e preconceitos neoclássicos que David havia imposto a Debret e que por vezes impedia o artista francês de desenhar com perfeita liberdade as cenas que se apresentavam a seus olhos. Há maior similaridade entre a obra de Earle e a de Rugendas".


Capoeira, aquarela, 1822

DESEMBARQUE NO RIO DE JANEIRO


Estranha é a sensação do desembarque. Ao invés de brancos, só vi negros, seminus, a fazerem um barulho infernal e a exalarem um cheiro a altamente ofensivo ao olfato. Além do mais, era intenso o calor e tivemos que fazer longa caminhada até a polícia, cujo chefe, no momento, tinha ido à missa. Depois de esperarmos mais de uma hora voltou ele, finalmente, mais a família, ainda compenetrado da sacra cerimônia. Fomos, porém, pronta e cortesmente despachados, recebendo permissão para circularmos à vontade. [...] O barulho é incessante. Aqui uma chusma de pretos, seminus, cada qual levando à cabeça seu saco de café, e conduzidos à frente por um que dança e canta ao ritmo de um chocalho ou batendo dois ferros um contra o outro, na cadência de monótonas estrofes a que todos fazem eco; dois mais carregam ao ombro pesado tonel de vinho, suspenso de longo varal, entoando a cada passo melancólica cantilena; além, um segundo grupo transporta fardos de sal, sem mais roupa que uma tanga e, indiferentes ao peso como ao calor, apostam corrida gritando a pleno pulmão. [...] Por cima de tudo, o badalar contínuo dos sinos. É realmente para atordoar.

Folguedos durante o Carnaval no Rio de Janeiro, aquarela, c. 1822

CARNAVAL

O carnaval, que em todos os países católicos é tão alegremente festejado, passa aqui despercebido; somente os três últimos dias são marcados por uma folia que, fora de Portugal, em nenhuma parte encontra paralelo. Consiste esta em divertirem-se senhores e gentalha, do meio-dia às Ave-Marias, molhando-se com água uns aos outros. Para isso, enchem os pretos uns limões de cera que põem à venda pelas ruas e com os quais a clientela trava combate até ficarem todos encharcados como pintos, inundando os interiores, ou até suspendê-lo de cansaço. Em muitas casas não se contentam as famílias com jogar limões senão que se servem de baldes e de esguichos para molhar os transeuntes. Onde as janelas estão fechadas, quebram as vidraças. Em suma, é uma brincadeira absurda a que se entregam não só conhecidos mas toda a sorte de gente.

Vista dos arredores do Rio de Janeiro, aquarela

PASSEIO PELA CIDADE

Agora, caro amigo, tens que me acompanhar num passeio pela cidade, cuja situação procurarei descrever da melhor maneira. O Rio de Janeiro está situado a 22° - 53 min de latitude sul e 43º - 12 min de longitude oeste, à margem esquerda da baía, na direção sudeste-nordeste. O extremo sul da cidade assinala-se por um monte sobre o qual fica o Convento de Santa Teresa; ao lado, e por ela em parte circundado, está o Morro de Santo Antônio com o Convento do mesmo nome; próximo ao mar, é o Morro do Castelo, fortificado, e, contíguo, o Calhabouço ( sic) – a prisão dos negros – ao alto, a igreja de São Sebastião. Estende-se o casario ao longo da praia até o Morro da Conceição e o Mosteiro de São Bento, também sobre uma colina, os quais constituem-lhe o extremo oposto. A cidade mede quase tanto de larga quanto de comprida e divide-se, de certo modo, em duas partes: a Velha e a Nova. A primeira vai da praia à rua do Vallo [Rua da Vala, atual Uruguaiana] e é a ocupada pelo comércio e o artesanato, sendo a mais densamente povoada; a segunda começa da referida rua em rumo oeste-sudoeste, atravessando a Praça da Lampadosa ou Largo do Teatro [atual Praça Tiradentes], o Campo de Santana ou da Aclamação, e chega até a Estrada Real. Nela moram a nobreza e o setor mais pobre da população: portugueses como brasileiros. As ruas cortam-se quase todas em ângulo reto, mas há muitas travessas mais antigas, tortas ou irregulares, que facilitam a localização quando se tem uma ideia de sua planta.

Valongo, ou Mercado de Escravos no Rio - 5 de abril de 1824 - Desenho de Augustus Earle, gravura de Edward Finden - Do livro de Maria Graham Diário de uma viagem ao Brasil e de uma estada neste país durante parte dos anos de 1821, 1822 e 1823

MERCADO DE ESCRAVOS

Depois dessa sumária descrição, iniciemos o nosso passeio, começando pelo Valonguinho – a rua mais ao nordeste – onde ficam os mercados de escravo, os quais antes parecem uns barracões, e têm quase todos um quintal ao fundo.
Logo que chegam os navios negreiros – ocorrência frequente – os escravos são desembarcados e depois que se restabelecem relativamente da viagem, no geral curta, lá são expostos para serem vendidos. Há dias fundeou um com 250 negros, na maioria crianças de dez a quatorze anos, que, acocoradas nesses galpões em filas de três, pelo chão, assemelham-se mais a macacos, dando mostra, por sinal, de bom humor e satisfação, embora repelentes no aspecto e depauperados. Alguns compradores andavam à escolha dos que mais lhes convinham, o preço variando entre 150 a 300 mil-réis a peça (750 a 1 500 rublos).

Não posso deixar passar este ensejo sem abordar mais detidamente o tema da escravidão.

Os negros são importados da costa africana deste e daquele lado do Cabo da Boa Esperança, Moçambique, etc.; e isso porque, em virtude de tratados, não podem ser adquiridos ao norte do Equador, mas como os que procedem dessa parte são os melhores e mais robustos buscam os pombeiros recebê-los também de lá por vias travessas. Contudo, não abundam estes no Rio. De preferência trazem rapazes e raparigas novos para que se criem aqui, já que nem sempre os adultos se habituam às novas condições. As diversas raças africanas diferenciam-se quase à primeira vista pelas suas peculiaridades fisionômicas como pelo seu caráter de origem. Certa casta de negros por melhor tratados que sejam, guarda seus vícios e instintos de origem, enquanto outros, como os de Moçambique. são de índole mais branda e domável. Quase todos largam uma catinga, qual animais, que torna sua presença repulsiva ao forasteiro. O tratamento aqui dispensado aos escravos é, de modo geral, bom, seus senhores sendo severamente proibidos de puni-los com mais de quarenta chibatadas e, nos casos de crimes graves, devem ser entregues às autoridades que, por certo, os castigam severamente, segundo as circunstâncias, mas tal rigor sendo necessário para mantê-los sob o jugo, já que ultrapassam de longe, em número, a população branca. Os escravos podem alforriar-se legalmente quando indenizam seus senhores do que lhes custaram. Isto, para muitos, não é difícil porque têm a liberdade de procurar trabalho mediante o pagamento de uma prestação. Mas o negro pensa raramente no dia seguinte e, quando logra ganhar alguns vinténs gasta-os logo bebendo. Suas necessidades são mínimas, de resto. A roupa praticamente nada lhes custa e eles podem manter-se muito bem com 80 a 100 réis diários.

Rita, decantada beleza negra no Rio de Janeiro, aquarela, 1822

CARACTERÍSTICAS DOS NEGROS

Conquanto não vá contestar que entre eles possa haver gênios e os tem havido, qual um Toussaint [L'Ouverture, líder da Revolução Haitiana], um Cristoph [Rei do Haiti], etc. nenhum observador de espírito aberto poderá negar que esta raça se encontra como que na meninice e se caracteriza por uma típica apatia que a inabilita para qualquer alto sentimento moral, só lhes deixando a inconsciente alegria da infância, pelo que nunca pensam no dia seguinte, sendo incapazes de qualquer vocação duradoura; na realidade só querem comer, dormir e amar. Isto se observa sobretudo entre os negros nascidos na África, mesmo quando chegados novos.

Castigando negros no Calabouço, aquarela, 1822

MAU CHEIRO

Seguimos agora ao longo da praia ou do cais. A praça a que vamos dar [atual Praça XV], fica repleta até os muros de artigos postos à venda, toda sorte de lenha, bananas, tremoços, mandioca, feijão, etc. Aí prevalece um cheiro insuportável tal a imundície que nela se acumula, pois no Rio não há esgotos nem latrinas; tudo o que sai das casas é aqui em parte descarregado pelos negros no mar, para que as marés levem o que elas alcançam.

AGUARDENTE

Recém-destilada. a aguardente é uma bebida nociva que só as classes baixas e os negros consomem, mas quando envelhecida algum tempo perde essas propriedades maléficas. Velha, pareceu-me mesmo de gosto excelente.

CRUELDADE DAS MULHERES

Correu há dias o boato de que uma senhora, conhecida pela sua crueldade, havia morto a pancadas uma de suas escravas. A reação foi tão generalizada e rumorosa que as autoridades, informadas, deram-lhe ordem de prisão. É verdade que ela logo conseguiu sair; todavia por este exemplo se verifica que conduta assim escandalosa não passa sem punição. Contudo parece ser verdade e é curioso que quase todas essas desumanidades aqui praticadas contra o negro partam das mulheres. O elemento feminino da população trataria os escravos com mais dureza que o masculino. Que capítulo edificante não poderia escrever algum inimigo da mulher sobre qual seria a sorte de nós homens se o belo sexo também mandasse na sociedade!

Dança de negros na rua, aquarela, 1822

BARULHO DAS RUAS

Entretanto, meus ouvidos europeus não se conciliam é com o barulho das ruas. Bem cedo, às cinco horas começa o espetáculo.
Primeiro, um retumbante tiro de canhão da Ilha das Cobras estremece as janelas e obriga-me a despertar, conquanto a escuridão seja ainda total. Às cinco e meia, um corneta da guarda policial, vizinha, soa a alvorada e de que maneira dissonante! Logo a seguir badalam os sinos por toda a cidade, especialmente os da Candelária, justo ao lado, tão ruidosa e demoradamente como se quisessem acordar os mortos. Nos dias santos, soltam, ainda por cima, rojões às dúzias, para que os fiéis não durmam a primeira missa. Às seis em ponto, passam os presos a buscar água, rangendo as correntes. Os papagaios, de que a redondeza está saturada, soltam seus gritos estridentes e, antes mesmo das sete, a ralé dos cangueiros e vendilhões já está de pé a tagarelar e a berrar.

Extraindo um bicho-de-pé, aquarela, 1822

INSETOS

O que incomoda de mais o forasteiro é a variedade de insetos que o apoquentam. Malgrado estar eu morando em casa nova, que mantenho na maior limpeza, logo se infiltraram inúmeras baratas. Não é que causem danos, mas são repugnantes como as nossas tarakanen [tenebrião].

FALTA DE BELEZA DAS MULHERES

Pude ver nessa oportunidade grande número de mulheres, confirmando-se minha primeira impressão de que, entre as naturais do país, poucas mostram beleza de traços; em compensação não lhes faltam olhos bonitos, negros e expressivos. Sua compleição amarela e descorada, porém não as favorece. Deste ponto de vista, as mulatas, no geral, mostram uma coloração mais viva, em nada desagradável. Quanto às negras, pouquíssimas chamam a atenção.
[...]
Quando jovens são bastante esbeltas, apesar de não usarem cintas ou raramente, mas têm forte inclinação para a gordura, logo perdendo este encanto.

D. Pedro I no dia de sua coroação no Rio de Janeiro, aquarela, 1822

DOM PEDRO I

D. Pedro I, Imperador e Defensor Perpétuo do Brasil – assim reza o seu título – é um jovem de vinte e poucos anos, de ótima constituição física, presença sem dúvida imponente e traços aristocráticos. No geral, tem um ar sobranceiro sem ser sombrio, e é dotado, de mais a mais, de coragem e pertinácia. É certo que sua educação foi muito descurada e lhe faltam conhecimentos científicos, mas parece que ele se dá conta dessa falha e faz o possível por superá-la.
[...]
Em tais circunstâncias, não é coisa fácil, na verdade, tomar as rédeas do governo, tanto mais quanto se vive perenemente sob a ameaça direta ou indireta de um ataque de Portugal. Ninguém ousa confiar no próximo e, além do mais, o tesouro do Estado atravessa terrível maré baixa de que só o tempo e uma boa administração poderão safá-lo. O Imperador faz o que pode. Com coragem pessoal e enérgica conduta soube infundir respeito àqueles de seus súditos que não conseguiu levar por bem; mostra-se sempre e de bom grado ao povo, tendo sabido impor-se; inspeciona em pessoa e amiúde a Alfândega, o Arsenal e outras repartições. Onde surpreende operários desocupados, castiga-os a bengaladas com as próprias augustas mãos, como eu mesmo presenciei no Arsenal.
[...]
Assim, é bem sabido que se ele chega a casa com fome e encontra seus criados à mesa, participa sem a menor cerimônia da refeição; também quando toma banhos de mar em Botafogo, o que é sempre motivo para atrair curiosos, diverte-se o Imperador em brincar com as crianças, jogando-as na água; outras vezes sai a passeio, muito à vontade, pela praia in puris naturalibus [em estado de natureza, ou seja, nu], deixando que desconhecidos lhe beijem as mãos, o que às vêzes acontece na presença de mulheres.

EXECUÇÃO DE UM CRIMINOSO

Acabo de assistir a uma cena verdadeiramente horripilante: a execução de um criminoso. [...] A execução teve lugar no Morro da Conceição, onde foi levantada uma forca. Cheguei lá justo no momento em que aquele já estava sobre o catafalco, as mãos atadas, o rosto escondido por amplo capuz que o tornava invisível; um padre à frente fazia sua exortação e dois negros desempenhavam as funções de carrascos. Tinham-lhe amarrado a corda ao pescoço, mas tanto demoraram os dois diabos na terminação dos seus preparativos que foi, sem dúvida, uma falta de humanidade deixar o delinquente nessas condições, que na certa equivaleu a dez suplícios o tempo levado nesses vaivéns. Finalmente, foi ele empurrado do estrado, enquanto um dos negros pendurou-se de seu pescoço para quebrar-lhe a nuca, tudo terminando depois disso.

Vista do Pico do Corcovado, perto do Rio de Janeiro, aquarela, c. 1822

SUBIDA AO CORCOVADO

Depois elo desjejum, subimos o Corcovado, o pico mais alto nas imediações do Rio, que não fica longe dessa plantação. A subida é muito difícil e cansativa, mas quando se chega ao cume, somos mais que compensados pelo imenso panorama que de lá se descortina. O oceano perde-se no infinito, o Rio e seus arredores ficam aos nossos pés.

SEGURANÇA PÚBLICA

A segurança pública é mantida com rigor por soldados que patrulham as ruas toda a noite e, fora alguns roubos insignificantes, não ouvi falar, durante minha permanência de três meses, de nenhum atentado, posto que se pretenda que muitas dessas patrulhas, compostas de brasileiros, cometam elas mesmas excessos. Várias vezes circulei, tanto de dia como de noite, mesmo pelos arrabaldes afastados, sem ser jamais molestado. Escusado é dizer que ninguém deve se expor afoitamente, pois que em cidade alguma escapará incólume ao perigo.

Um eclesiástico do Rio de Janeiro, aquarela, 1822

EDUCAÇÃO

De modo geral, a educação que recebe a gente da terra é deficiente. Mesmo nas melhores famílias, os jovens são malcriados e preguiçosos e, como nessa idade, entregam-nos aos cuidados dos escravos, com estes se parecem sob muitos aspectos. Se um rapaz aprende a ler, escrever e contar, dão por terminada sua educação: outros conhecimentos são grego para ele. Igualmente, no que respeita à moral, sendo da mesma forma seus mestres os negros e, como estes têm na infidelidade, na preguiça e na licença uma segunda natureza, pode-se imaginar que formação imprimem em seus discípulos.
[...]
A educação das jovens ainda é mais desleixada, se possível, já que, até casarem, pouco saem de casa, salvo para ir à missa: contatos com o outro sexo são-lhes proibidos. A educação que recebem é das mães, não menos ignorantes, e das escravas.

DIVERSÕES PÚBLICAS

No que concerne a diversões públicas, a situação é lamentável; na verdade, não existem de todo. O brasileiro costuma sentar-se, de noite, à porta da casa para fumar o seu charuto; quando muito vai até a praia ou ao Largo do Paço respirar a aragem do mar, mas raramente o acompanha a família.


Vista de perto do Rio de Janeiro, aquarela, 1822

1.5.18

VIAJANTES ESTRANGEIROS NO RIO DE JANEIRO: ROSE DE FREYCINET (1817-18, 1820)

Vista do Porto do Rio de Janeiro, prancha II do livro Journal du Voyage Autour du Monde (Diário da Viagem ao Redor do Mundo) de Rose de Freycinet

TEXTO (COM ALGUMAS CORREÇÕES PELO EDITOR DO BLOG) DE LUÍS EDMUNDO PUBLICADO ORIGINALMENTE NO CORREIO DA MANHÃ EM 1, 15 E 22 DE MARÇO DE 1931 E INCLUÍDO DEPOIS SOB O TÍTULO "DIÁRIO DE ROSE DE FREYCINET" NA OBRA RECORDAÇÕES DO RIO ANTIGO


Rose de Saulces de Freycinet (nome de solteira: Rose-Marie Pinon) nasceu em Saint-Julien-du-Sault, no Yonne (França), em 29 de setembro de 1794.

Casou-se aos 20 anos, em Paris, com Louis-Claude de Saulces de Freycinet, oficial de marinha, membro da Academia, naturalista, o mesmo que, a bordo da corveta Uranie, por aqui passou, antes da Independência, numa expedição científica ao redor do mundo.

Não viria incorporada Rose, à tripulação do navio, que às mulheres, sobretudo às desse tempo, não se concediam tais favores. Em sua residência de Toulon, deveria ficar, portanto, até que a nau-expedicionária, cansada de sulcar todos os grandes oceanos do planeta, de novo regressasse ao Mar Mediterrâneo.

Deveria mas não ficou. Disfarçada em marujo, vamos encontrá-la clandestinamente penetrando o portaló do Uranie, no dia da partida, que foi o de 17 de setembro de 1817, entre diversos homens da equipagem, uma sacola de viagem ao ombro, o coração aos saltos, trêfega, agitada, cautelosa, porém feliz (não sabemos contudo se com o tácito conhecimento ou ignorância do seu jovem marido.)

Larga o veleiro e afastar-se da costa, mas, só no dia imediato é que o comandante acha de reunir o estado-maior da oficialidade, a fim de apresentar a esposa que, segundo ele disse, a bordo penetrou contra a sua vontade. O formoso “grumete”, no seu uniforme, brejeiro e calmo, aparece sorrindo... Que aventura!

Os oficiais de bordo, cheios da mais polida e mais sincera galantaria, beijam-lhe a mão, comovidos:

– Madame...

E, muito naturalmente, rejubilam, agradecendo a lembrança da providência, tal a de lhes ter dado, para viagem tão áspera e tão longa, aquele sorriso e aquela graça de mulher.

E a Uranie, rompendo Gibraltar, aproa para a América.

Ao lado do marido que labuta, Rose pensa em fazer, por sua vez, alguma coisa. E é assim que começa por escrever um Diário, como deveriam ser escritos todos eles – despretensiosamente; registro natural e sincero do que ia aos poucos ocorrendo. Mal pensava ela, entretanto, que, passados cento e poucos anos, quiçá traindo a sua natural vontade, fossem postos em letras de fôrma todos aqueles pensamentos, impressões e palavras que ela escrevia para enviar a uma querida amiga, Madame Carolina de Nanteuil, companheira de infância e que em Toulon residia. [...]

Dir-se-á que o livro é profundamente indiscreto, uma vez que nem todas as verdades se dizem; mas a indiscrição, no caso, não é da pobre Rose que só escrevia para sua amiga de França, sem prever que o mundo haveria de evoluir, apurando a ganância dos editores e a curiosidade mais do que natural de seus leitores. De qualquer forma, entretanto, a obra legada aos nossos dias é coisa muito interessante, sobretudo se, em consideração, levarmos o que ela representa como depoimento franco, sincero e sem embuços.

Como todos os que aportaram à magnificência desta baía azul que é a Guanabara, Rose encantou-se, mal transposta a barra, embriagada de luz na paisagem magnífica.

Chegou pelo escaldante verão de 1817, e foi ancorar no poço, entre Villegaignon e Cobras, anelante e curiosa.

Veio um escaler pressuroso que ela soube, depois, ser da Casa Real, indagar se o navio que chegava era, na realidade, a corveta Uranie, pelo governo francês, com muita antecipação, anunciada. Era...

Subiu, então, um oficial português, a bordo, a fim de dar as boas-vindas e com elas a certeza de um franco acolhimento por parte de S. M. el-Rei Nosso Senhor.

Tendo livre prática a corveta, mandou Freycinet um oficial com a incumbência de visitar o comandante da esquadra lusa ancorada no porto e saber, depois disso, detalhes sobre a cortesia das salvas que deveria dar.

Rose não se detém em minúcias, mas é curioso ver como era confuso, entre nós, no tempo, o protocolo militar. Freycinet não sabia como agir. Muitos, em suas condições, aqui chegados, não salvaram, por ignorância, ou salvavam e não eram correspondidos. Bougainville que aqui chegou em 1766, como Freycinet, mandou perguntar ao vice-rei Conde da Cunha se, salvando, seriam as suas salvas correspondidas. Resposta do Vice-Rei: – Diga ao Comandante que quando uma pessoa encontra, na rua, uma outra, tira-lhe o chapéu, muitas vezes, sem ter a certeza de ser correspondido...

Picou-se Bougainville com a resposta, e, assim posto, resolveu guardar a sua cortesia e a sua pólvora. E não salvou.

Nada de anormal, entretanto, aconteceu por isso. Bougainville e Vice-Rei, dias depois, encontravam-se amistosamente.

Ao lado de Rose, Arago, cronista da expedição, aturdido ante a paisagem maravilhosa que se desdobrava aos seus olhos, escrevia:

“Gênova, a soberba, com todos os seu palácios de mármore e jardins; Nápoles, risonha, com as suas águas límpidas, o seu Vesúvio e as suas vilas; Veneza, a rica, com as suas cúpulas e monumentos; o Bósforo, mesmo, com os seus imensos minaretes — nada oferece ao olhar deslumbrado tão magnífico panorama. Eis o Brasil! terra fecunda, entre as mais fecundas, natureza à parte, natureza privilegiada!”

As ilhas cobertas de verduras emocionavam a francesa que recebia, com volúpia, o látego do sol. Que delícia! A princípio, gostou; porém, depois, achou demasiado o calor. Consolou-se escrevendo:

– Faz muito calor na cidade, mas todos os dias, em torno das 11 da manhã, levanta-se, do porto, um vento fresco que nós, marinheiros, chamamos de brisa leve, que torna o calor suportável e conserva o brilho da vegetação.

A sua primeira impressão do país, naturalmente, foi boa, impressão essa que perdurou até o dia da partida, embora, num arzinho de piedade e de injustiça, nesse mesmo dia, tenha deixado escapar estas linhas ao escrever à sua amiga e que, certamente, não teria escrito se pensasse em fazer publicar o seu diário: – “pena que tão lindo país não seja colonizado por uma nação ativa e inteligente.”

Madame de Freycinet, ávida por descer, devorando com os olhos a edênica frescura da paisagem, ficou a bordo, enquanto o marido baixava à terra de onde trouxe boas notícias, entre elas a de haver encontrado a condessa Roquefeille, amiga do casal, emigrada francesa e que vivia no Rio à sombra generosa de el-rei.

Em pouco, porém, vamos encontrar Rose introduzida, por essa mesma condessa, em casa de algumas figuras da sociedade do tempo. [...]



Suplemento do Correio da Manhã de 1/3/1931 com a primeira parte do texto de Luís Edmundo sobre Rose de Freycinet


Rose é recebida em casa do embaixador americano Sumter, com intimidade e prazer. Para que ela veja o paraíso da Tijuca, organiza ele um convescote. Sente-se na organização da folia o dedo amável da brasileira, a mulher de Sumter, que espalha convites entre as senhoras do corpo diplomático.

Partem todos às cinco horas da manhã. Vão as mulheres dentro de um vasto coche puxado por oito mulas, tilintantes de guizos, envernizadas de suor, saltando a galope, sob o chicote sanhudo do sota, cocheiro garboso e chic. Faz-se mister que a francesa veja também as elegâncias da terra... O Rio não é mais aquela pocilga colonial do tempo do Marquês do Lavradio; melhorou, não muito, mas sempre melhorou alguma coisa; já tem foros de Corte, com um rei e o melhor da sua fidalguia, pelo menos a que pôde sair de Portugal, num dia de grande aperto.

Rose sente-se confortada e feliz, atirada ao fundo da sua carruagem, olhando em torno os homens em cabriolés ou a cavalo, de chapéu alto e casaca colorida.

O espetáculo diverte. O carro, aos berros do sota, ao estalar insistente do chicote, pula, rola, avança, precipita-se, vencendo a encosta, sacudido nos seus correões pesados, dançando nas suas molas vindas de Inglaterra. O feminino conteúdo estua, freme, em buquê, transbordando; dá gritinhos e estrídulas risadas que rompem nervosas e altas, em busca dos ecos, na frescura da mata cheirosa e espessa.

Rose extasia-se diante do que vê, embriaga-se no cenário esplêndido, recordando as florestas descritas por Chateaubriand, em Atala, como diz ela mesmo, gozando a vegetação na sua variedade de tons e esplêndida fartura. Que lindo o Rio de Janeiro! Que paisagem! O espetáculo impressiona-a, seriamente, comove-a. A quantidade surpreendente de flores que repontam de quase todos os galhos e os seus perfumes novos e escandalosos, arrancam-na do mundo das realidades. Rose enleva-se, Rose sonha, Rose sente-se, positivamente, no Éden, ouvindo o canto dos pássaros vestidos de plumagens radiosas. [...]

Com um lauto almoço na residência de Sumter, fecha-se a matinée gloriosa.

Madame de Freycinet tendo, largamente, falado, no seu curioso manuscrito, da obra-prima de Deus, a gloriosa Tijuca, achou que deveria falar um pouco da cidade, obra infeliz dos homens, neste canto abandonado da América.

Não descreveu, porém, o desagradável aspecto das nossas ruas estreitas e sujas, nem a tosca aparência do casario pobre, acaçapado, inexpressivo, como linha de arquitetura, execrável, como princípio de higiene ou conforto. Silencia sobre o caso, o que não deixa de ser de uma amabilidade comovedora; mas não pôde, assim mesmo, deixar de falar na sujeira que viu, em outras partes, declarando que a mesma desconcertava sobretudo, “chez les fidalgos (nobles)”.

E a propósito conta o que aqui vai cuidadosamente traduzido, palavra por palavra: “uma dama nobre que acabava de tomar uma criada de quarto francesa, quase a pôs fora de casa só porque esta lhe oferecia um vaso cheio d'água, para lavar as mãos. Encolerizada, disse-lhe a mesma dama que uma pessoa da sua qualidade não tinha nunca necessidade de lavar as mãos, atendendo a que nada de sujo tocava; e que isso de lavar era bom para os criados e povo”. [...]

Fala, a seguir, Rose, da vida de clausura das mulheres cariocas, escravizadas ao ciúme mouro dos maridos, podendo apenas sair para ir à igreja, onde apareciam em “toilettes” de baile...

E, aproveitando o ensejo, descreve uma dessas cerimônias religiosas que ela compara a uma representação de gala num teatro de França. Passa-se a mesma na Capela Real.

“A igreja é forrada de panos de seda, todos eles bordados a ouro, e escandalosamente iluminada”. Os sacerdotes, em roupagens de grande preço, chegam e antes de começar o oremus, voltam-se para a assembleia, “qu’ils devraient plutôt fuir que regarder” [de que deveriam se esquivar em vez de olhar], diz ela, a procurar, com os olhos, as pessoas de suas relações...

Os padres desse tempo – bem diferentes, aliás, dos de hoje – sempre impressionaram mal a todos os estrangeiros que por aqui passaram. [...]

[Na igreja] Rose, de luneta em punho, passa em revistas as senhoras decotadas, vestidas como para um grande sarau.

Acha-as lindas. Naturalmente. Um pouco gordotas, pela falta de exercício, um pouco bisonhas, pela falta de sociabilidade, mas, de qualquer forma, bonitas, mostrando a tez morena e grandes olhos negros.

Em dado momento da cerimônia, conta a francesa que ouviu agradabilíssimas vozes vindas do alto, como um coro do céu. E olhou curiosa a ver se, pelo teto do templo, andavam serafins a cantar. Foi quando alguém, discretamente, murmurou-lhe ao ouvido:

– São os castrati, madame, mandados buscar à Itália pelo Rei. São de primeira ordem! Apenas custam um pouquinho caro...

Rose, justamente indignada, fremiu cheia de pasmo e de surpresa, evocando uma crueldade, diz ela, no seu diário: que je n’avais jamais pu concevoir jusqu’a ce jour [jamais pude conceber até este dia]! [...]

Conheceu Rose de Freycinet o Jardim Botânico. Do livro Recordações do Rio Antigo. [Observe que a pirâmide à esquerda é do Passeio Público, mas o erro é da obra original de Luís Edmundo.]

Conheceu Rose de Freycinet o Jardim Botânico, que ela nos descreve já com as suas alamedas de palmeiras, risonhamente ajardinado, e, com um campo onde chineses autênticos faziam a plantação do chá. Essa novidade interessou particularmente à madame que, assistindo ao trabalho da colheita, quis conhecer, ainda, o processo de beneficiamento por que passava a planta, antes de ir parar no comércio e na xícara.

Assim, pôde ver folhas da famosa teácea colhidas no momento e atiradas sobre um tacho de cobre posto sobre um forno aceso. Aí ficaram elas até esquentar, em fogo brando, o que não levou muito tempo. Vieram, depois, os chineses revolvê-las, levando-as para uma mesa. Aí se esfriavam, enrolando. Isso feito, passavam-nas por uma espécie de peneira, com largos furos e onde se separavam as mesmas em tipos ou qualidades. Processo simples, rápido, acrescenta-nos ela.

Nascera de Dom João a amável lembrança de tentar fazer do Brasil uma espécie de China Americana, exportadora de chá. A terra de tal maneira graciosa não se negou pagar, em excelentes folhas, as magníficas sementes que lhe lançaram. A coisa ia muito bem. Informes da época, insuspeitos e múltiplos, existem mesmo declarando que esse chá era capaz de satisfazer ao mais exigente dos paladares; contudo, se era a terra fecunda e amiga, fraca foi a perseverança dos experimentadores. Em pouco desapareciam do jardim os homens amarelos que mandamos buscar à Mongólia ou ao Hoango-Ho, com os seus calções tufados do Oriente, chapéus rasos, de palha, rabicho e, com eles, o chá.

Madame de Freycinet passou no Rio o apogeu do verão, com todos os seus incômodos e violentos aguaceiros. A 24 de janeiro vai ela fazer uma visita a madame de Roquefeille, e, logo ao desembarcar, como na famosa tarde em que jantou em casa do seu cônsul, vê que escurece, que cruzam rútilas faíscas pelo céu, ouvindo o trovão desencadeado, que rola em fúria, atordoando, aterrando, infundindo pavor. Não há um carro, uma cadeirinha, uma serpentina, uma liteira, nem mesmo uma porta amiga por onde ela, o marido e o capelão, todos descidos de bordo, possam se enfiar, fugindo ao grande temporal que desaba. Em pouco abre-se o céu e o aguaceiro, em cordas, precipita-se sobre eles. Não dura muito tempo a tormenta mas a cidade transforma-se num verdadeiro lago. Comenta ela, então, a maneira precária por que se fazia, aqui, o escoamento das águas que tornavam, sempre que chovia, as ruas e as praças do Rio de Janeiro perfeitamente intransitáveis.

Descrevendo a lamentável ocorrência, fala madame nos negros que sempre apareciam, no momento, substituindo os veículos de praça e que tomavam sobre as costas os que não desejavam caminhar com água pelas pernas.

A Rose, porém, não agradara o singular transporte. Razões que no fundo se explicam por uma delicadeza de pituitária pouco afeita ao que se chamou, no tempo, “cheiro de natureza”, e que outro não era senão esse odor pouco amável que escapa das axilas do pardo ou do negro africano.

Um padre que os acompanhava, porém, preferindo, ao que parece, o sacrifício do nariz ao das gâmbias [pernas], talvez reumáticas, acabou enforquilhado no pescoço de um negro. Foi um número divertido, muito principalmente quando sabemos que, não se estabelecendo um natural equilíbrio entre montador e montada, quase rolam os dois no lençol do aguaceiro.

Felizmente, madame de Roquefeille, inquieta pela sorte dos convivas que esperava, recebeu-os com ternura, dando-lhes, com novas roupas, um jantar magnífico que Rose não descreve mas que adivinhamos, composto daqueles numerosíssimos e copiosíssimos pratos que se distribuíam por três ou quatro cobertas, da velha mesa carioca, obrigados a talhados de laranja e pimenta.

Era esse o jantar de despedida. A simpática diarista interrompia, no seu álbum, a parte dedicada ao Rio de Janeiro. Interrompia-o, apenas.

Deixando esta cidade, em 1818, Rose de Freycinet a ela voltava pelo mês de junho de 1820.

APÊNDICE:

Depois que publiquei esta postagem, o historiador Milton Teixeira enviou por e-mail esta observação interessante: "Ela foi a primeira e única a descrever o primeiro e também único banho de D. João VI, na praia do Caju em 1817". Fui conferir o diário da Rose e de fato lá encontrei (e traduzi ao português):

Uma das pessoas mais poderosas do reino foi acometida por uma doença grave na perna. Vários médicos portugueses, após esgotarem seus conhecimentos sem produzir nenhum efeito, foram substituídos por um clérigo francês que se metia um pouco em medicina e sobretudo em curar feridas. Ele convenceu a pessoa ilustre a lavar sua perna. Foi difícil decidir, pois esse remédio parecia incomum. Ele conseguiu e, por uma ninharia para fechar a ferida, a doença desapareceu em poucos dias. Mas uma vez curada, ele parou de lavar a perna e a doença reapareceu. O monge foi então chamado de volta. Ele recomendou o mesmo remédio, que pareceu tão desagradável que o médico foi dispensado com seus remédios peculiares. E durante nossa estadia no Rio, essa personagem importante não podia ainda sair, imobilizada pela mesma doença na perna.

Rose não cita nominalmente D. João, referindo-se a "une des personnes des plus puissantes du royaume", "uma das pessoas mais poderosas do reino", mas pela história pode ter sido ele mesmo!!!