ENSEADA DE BOTAFOGO

ENSEADA DE BOTAFOGO
"Andar pelo Rio, seja com chuva ou sol abrasador, é sempre um prazer. Observar os recantos quase que escondidos é uma experiência indescritível, principalmente se tratando de uma grande cidade. Conheço várias do Brasil, mas nenhuma tem tanta beleza e tantos segredos a se revelarem a cada esquina com tanta história pra contar através da poesia das ruas!" (Charles Stone)

VISTA DO TERRAÇO ITÁLIA

VISTA DO TERRAÇO ITÁLIA
São Paulo, até 1910 era uma província tocada a burros. Os barões do café tinham seus casarões e o resto era pouco mais que uma grande vila. Em pouco mais de 100 anos passou a ser a maior cidade da América Latina e uma das maiores do mundo. É pouco tempo. O século XX, para São Paulo, foi o mais veloz e o mais audaz.” (Jane Darckê Avelar)
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27.1.21

AS PONTES, A PONTE, UMA PONTE, de HELIO BRASIL

 

Ponte Rio-Niterói vista da barca para Paquetá

Até os idos de 1940 os arquitetos iniciavam sua formação na Escola de Belas Artes onde aprendiam mais sobre artes e artifícios do desenho do que os engenheiros, voltados para a forte matemática – no antigo templo da engenharia, no Largo de São Francisco. Os primeiros seriam os “sonhadores” entregues a divagações estéticas. Os outros, homens “sérios” voltados para as implacáveis verdades da matemática, da física, a mecânica racional e outras ciências respeitáveis, adquirindo um “saber” mais específico e objetivo. Para alguns engenheiros (naqueles dias...) os arquitetos cuidavam da beleza, coisa adjetiva e de todo inútil... Uma “perfumaria”. Daí o atrito inicial em que as duas profissões – na verdade perfeitamente harmonizáveis e, a meu ver, até complementares – disputavam hipotético mercado.

Para muitos engenheiros, arquitetos seriam “apenas” bons desenhistas, “artistas”, jamais técnicos. Em resposta, para os arquitetos, engenheiros só sabiam matemática, lidar com o cimento e o ferro e nada entendiam de arte... Empate técnico? Felizmente havia prorrogação, sem recorrer aos pênaltis...

Ponte Sant'Angelo sobre o Rio Tibre em Roma

        Separados os cursos, definidos currículos e atribuições (praticamente as mesmas, diga-se) “brigas” e “picuinhas” cavavam o abismo entre as duas profissões. A história nos mostra que pelos séculos a disputa não era bem assim. Grandes arquitetos eram excelentes engenheiros (hábeis construtores) e vice-versa, não havendo o tal abismo que cavaram por imaturidade, incultura ou tolices políticas. Um cruel impeditivo, porém, foi imposto aos arquitetos: era-lhes vedado o projeto de pontes, tarefa de fato, por vezes de alta complexidade... Não insuperável.

Hoje, a legislação não é mais impeditiva, embora os engenheiros, por força da tradição, ainda sejam os donos “do pedaço”. E temos obras notáveis por eles produzidas. Como exemplo, temos a polêmica ponte Rio-Niterói – batizada com um marechalato de má lembrança – criticada mais por razões políticas, mas que se harmonizou com o espelho da bela Guanabara. E jamais deixaremos de falar das pontes arrojadas e belas de Eiffel(*) no século XIX e, na atualidade, as do coleguinha Santiago Calatrava (**).

Ponte Vecchio vista da Galeria degli Uffizi em Florença

             Resumindo: gostaria de ter projetado uma ponte...

Mas aqui, deixo a técnica de lado, pois estou em praia estranha e convido o leitor a outras divagações.

Tento falar sobre meu fascínio pelas pontes. Das pontes romanas em cimento pozolânico (um concreto natural usado pelos romanos, de jazidas no sul da Itália) às projetadas em aço pelo citado Eiffel. E ainda sob nossos olhos descuidados, desde o século XIX, o Estado do Rio de Janeiro possui em suas linhas férreas – criminosamente abandonadas – belas pontes, dando majestade às paisagens, facilitando os caminhos.

Ponte Pietra sobre o Rio Ádige em Verona

             Os professores Eduardo Corona e Carlos Lemos definem ponte como “Sistema estrutural destinado a permitir a passagem de veículos, animais e pedestres sobre rios, vales, estrada de ferro ou caminhos...” e adiante, “Ponte suspensa ou Pênsil, é aquela construída com um taboleiro, sustentado por hastes ou cordas verticais...etc”

No “Aurélio” veremos que o vocábulo ponte tem inúmeras significações, desde a trivial “Obra construída para estabelecer comunicação entre dois pontos separados por um curso de água ou qualquer depressão do terreno”, passando pela anatomia geral até o sentido figurado, como “Elemento de ligação entre pessoas ou coisas” e ao prosaico “Prótese destinada a substituir a falta de um ou mais dentes”.

E se disséssemos, com certa obviedade, que os nossos sonhos serão pontes entre diferentes dimensões da vida?

Pontes sobre o Rio Sena na Cidade Luz

         E então entro com cogitações outras: raramente cruzei a pé uma grande ponte. Em geral, o fiz a bordo de veículos, em rápida marcha, fosse a paisagem bela ou belíssima, como se impelido pela necessidade de não permanecer olhando abismos, rios, vales ou cordilheiras. Na prática turística, para-se à margem da ponte (certas pontes, claro) e faz-se a tradicional pesquisa com o olhar ou com a câmera. Não da ponte, mas do que ela vence ou oferece nos horizontes. Torna-se então a mera “passagem” que se abandona até com pressa. Vi algumas fotografias de pequenas pontes, onde haveria um pescador solitário ou um homem, mãos na amurada (estaria tentando aprisionar o presente?), olhando o rio que escapava de seus olhos em busca de um irmão ou de seu estuário. 

     O belo filme de Clint Eastwood, “As pontes de Madison”, apresenta construções especiais, cobertas, envolvidas em significados psicológicos. Passado, presente e futuro? Alguém, sob a proteção de um teto, escolheria não chegar ao outro lado? Tudo isto reforça meu sentimento de que a ponte é um “não lugar”, uma experiência passageira que venceu abismos e que nos levará sempre a novos caminhos. Procuraremos uma ponte que nos permita vencer um obstáculo ou um período difícil. “Ponte” pode designar um amigo que nos ajuda, uma empresa a que recorremos. Um golpe do destino. Será uma rápida passagem para se chegar a ponto seguro, mais à frente, sem retornar – porém - ao ponto de partida.

A ponte nos deixou do “outro lado”, em “outra situação”, um breve futuro logo feito passado, o mesmo mundo de sonhos onde deixamos nossa “ponte”.

Devo perguntar: Que “ponte” estará cruzando nosso querido Brasil?


(*) Gustave Eiffel (1832 – 1923) engenheiro e arquiteto francês, bastante conhecido pelo projeto e construção do grande marco mundial em Paris, a torre para a exposição das indústrias, de 1889.

(**) Santiago Calatrava (19 - ) arquiteto espanhol


Ponte sobre o Rio Limmat e velhas igrejas em Zurique

Ponte Rio-Niterói

Ponte sobre o Rio Kwanza em Angola

1.3.19

PARABÉNS PRA VOCÊ, MEU RIO DE JANEIRO, de HELIO BRASIL

TEXTO PUBLICADO ORIGINALMENTE UM ANO ATRÁS (1/3/18) NO ENTÃO RECÉM-RESSUSCITADO JORNAL DO BRASIL


Nossos antepassados lusitanos chegaram ao Brasil – todos nós sabemos – em 1500, em Porto Seguro, na Bahia. Em virtude da grande extensão da costa e da pilhagem realizada pelos europeus de olho nas novas terras, adivinhadas ricas e generosas, somente em 1531 Martim Afonso de Sá por aqui passou deixando o porto, na suposta foz do Rio de Janeiro, bem abrigado pelo generoso desenho da Guanabara.

Ansiosos pela conquista de novos territórios, os franceses invadiram o Rio em 1555 e aqui se instalaram militarmente, entrincheirados na hoje conhecida Ilha do Governador – então Paranapecu.

A vinda de Mem de Sá, trazendo o braço guerreiro de seu sobrinho Estácio e à frente de exércitos organizados e armados, apoiados pelos guerreiros de Arariboia, foi decisiva para a reconquista. A fundação propriamente (data que hoje se comemora) foi no dia 1º de março de 1565, ao pé do morro Cara de Cão, juntinho ao nosso querido Pão de Açúcar. Perito na arte militar, Estácio decidiu deixar o local e instalar estrategicamente suas tropas no alto do morro do Castelo, elevação histórica que abrigou o forte lusitano, a Igreja de São Sebastião (nosso padroeiro) e o Colégio dos Jesuítas, marcos infelizmente desaparecidos quando em 1920-22 o morro foi arrasado.

Os franceses foram finalmente expulsos e, com relativa tranquilidade, os donos da terra desceram para a várzea iniciando a ocupação gradativa do território. E o Rio expandiu-se, apesar dos descuidos de seus habitantes e alguns predadores, venceu os pântanos que o cercavam, impondo novos traçados aos muitos cursos d’água e ganhando território para a população que pouco a pouco deixava o reino lusitano para trás. Historiadores poderão dizer quando foi que os cariocas – com a graça dos santos e dos deuses vindos da Europa, da África, e aqui mesclados aos caboclos indígenas – passaram a dar o colorido às festas e aos costumes, bem emoldurados por uma natureza luminosa.

Ao longo das sucessivas escaladas históricas para a Independência, passando dos vice-reis à corte Joanina nas mãos de um monarca bonachão e sagaz, D. João, das tiradas autoritárias de um Pedro I ao seu professoral filho que entregou mansamente a coroa aos republicanos, o Rio avançou (de certa forma à frente do Brasil) e o reflexo disto foi o despontar urbano com o prefeito Francisco Pereira Passos ao abrir a Avenida Central no início de 1900.

Planos urbanos como os de Agache, de Dodosworth e, mais recente, o de Doxiadis no rápido momento em que a cidade do Rio de Janeiro tornou-se um estado da federação, transfiguraram a metrópole, que nos dias de hoje, depois de ter voltado à condição de município, tenta reencontrar a sua aura de “Maravilhosa”. Já no século XX, muitos foram os arquitetos e urbanistas que a amavam e se propuseram a engrandecê-la: Afonso Reydi e Roberto Burle Marx, projetando e deixando florir o chamado Parque do Aterro do Flamengo, Luís Paulo Conde e tantos outros, arquitetos e urbanistas, sociólogos e antropólogos, deixam transparecer a preocupação com seus destinos de urbe tropical.

Que a data que se comemora – gravada neste retorno auspicioso do nosso JB – inspire uma retomada decisiva.

Quando os guerreiros lusitanos venceram os invasores, o mar de Uruçumirim (hoje, uma nesga no Flamengo na foz do rio Carioca) tornou-se vermelho com o sangue dos combatentes. Respeitando tal sacrifício, vamos, cariocas de hoje, lutar não mais de forma sanguinolenta, mas com o coração e a cabeça para reconstituir a cidade que decididamente ainda é MARAVILHOSA!


HELIO BRASIL – arquiteto – março de 2018.

1.1.19

DEFINIÇÃO DO CARIOCA (segundo HELIO BRASIL, PEDRO NAVA, MILLÔR FERNANDES, JOÃO ANTÔNIO, VINICIUS DE MORAES, DI CAVALCANTI, RICA PERRONE, ADRIANA CALCANHOTO, MILTON TEIXEIRA e o editor do blog)


SEGUNDO HELIO BRASIL

Ser CARIOCA não é nascer no Rio. Nem mesmo no Meyer, no Irajá ou nos confins da Barra. É ouvir o zumbido que fazem o fragor de ondas, as risadas e os gemidos dos quatro generosos cantos da paisagem, o Pico da Tijuca, as verdes encostas de um carrancudo jacaré que se amansa em Jacarepaguá. É respirar Leblon, ver a garota que passará por séculos e embalar-se na princesinha do mar. É ver praças Quinze, Mauá e Tiradentes em amável contradição histórica. Ser Carioca é ter o bum-bum esfolado em ônibus ruidosos mas, ao chegar no Sambódromo, vibrar na concretude de um alucinado Oscar que via nas montanhas as curvas de um sensual destino da caprichosa deusa que se fez cidade.




SEGUNDO PEDRO NAVA

Era dessas idas e vindas à Cidade, à Quinta, Cancela, ruas de São Cristóvão, Tijuca, Engenho de Dentro e Zona Sul – vendo, reparando e ouvindo o povo – que cada segunda-feira eu voltava para o Colégio mais penetrado dessa coisa sutil, rara, exquise, polimórfica indefinível (porque não é forma palpável e o que não tem de material, tem de luminosidade e perfume e vida) – que é o sentimento carioca, a alma carioca que nasce dessa paisagem, dessas ruas (oh! “A alma encantadora das ruas”), desses bairros ricos e pobres, sobretudo dos pobres, desses morros, dessa mistura de gente da terra, da do sul, do centro e do norte. Essas forças puxam para todos os lados mas sua resultante é tão forte que confere identidade a homens os mais diversos. Não há nada menos semelhante uns dos outros que Dante Milano, Álvaros, Prudente, Gastão Cruls, Marques Rebelo, Henriquinho Melo Moraes, Bororó, Di Cavalcanti, Luís Peixoto, Lima Barreto e Francisco Martorelli – esse mesmo que foi o doutor do samba, o que tirou seu anel, vestiu sua camisa listrada e saiu por aí. Entretanto se formos despojando esses homens e reduzindo-os a uma espécie de mínimo múltiplo comum, de redução de decimais a ordinárias, vamos encontrar em todos – um quid especial que é a essência do carioca. que será isso? Como se preparará essa teriaga de qualidades e defeitos onde os principais simples são alegria de viver, dor-de-corno, bloco, clube, carnaval, trepadinha, esporte, ingenuidade, improvisação, boato, jeitinho, tirar o máximo de tudo, não dar sopa, eu? hem... aparar o golpe, estar na sua, saber sua gíria, ser um pouco cafajeste ou pelo menos ter a infinita compreensão da cafajestada como arte e estado de graça. Impossível definir o que é que o carioca tem.




SEGUNDO MILLÔR FERNANDES

Os paulistanos(!) que me perdoem, mas ser carioca é essencial. Os derrotistas que me desculpem, mas o carioca taí mesmo pra ficar e seu jeito não mudou. Continua livre por mais que o prendam, buscando uma comunicação humana por mais que o agridam, aceitando o pão que o diabo amassou como se fosse o leite da bondade humana. O carioca, todos sabem, é um cara nascido dois terços no Rio e outro terço em Minas, Ceará, Bahia, e São Paulo, sem falar em todos os outros Estados, sobretudo o maior deles o estado de espírito. Tira de letra, o carioca, no futebol como na vida. Não é um conformista  mas sabe que a vida é aqui e agora e que tristezas não pagam dívidas. Sem fundamental violência, a violência nele é tão rara que a expressão "botei pra quebrar" significa exatamente o contrário, que não botou pra quebrar coisa nenhuma, mas apenas "rasgou a fantasia", conseguiu uma profunda e alegre comunicação  numa festa, numa reunião, num bate-coxa, num ato de amor ou de paixão  e se divertiu às pampas. Sem falar que sua diversão é definitivamente coletiva, ligada à dos outros. Pois, ou está na rua, que é de todos, ou no recesso do lar, que, no Rio é sempre, em qualquer classe social, uma open-house, aberta sob o signo humanístico do "pode vir que a casa é sua".

Carioca, é. Moreno e de 1,70 metro de altura na minha geração, com muitos louros de 1,80 metro importados da Escandinávia na geração atual, o carioca pensa que não trabalha. Virador por natureza, janota por defesa psicológica, autocrítico e autogozador não poupando, naturalmente, os amigos e a mãe dos amigos  ele vai correndo à praia no tempo do almoço apenas pra livrar a cara da vergonhosa pecha de trabalhador incansável. E nisso se opõe frontalmente ao "paulista", que, se tiver que ir à praia nos dias da semana,vai escondido pra ninguém pensar que ele é um vagabundo.

Amante de sua cidade, patriota do seu bairro, o carioca vai de som (na música), vai de olho (é um paquerador incansável e tem um pescoço que gira 360 graus), vai de olfato (o odor é de suprema importância na fisiologia sexual do carioca).

Sem falar, que, em tudo, vai de espírito; digam o que disserem, o papo, invenção carioca, ainda é o melhor do Brasil, incorporando as tendências básicas do discurso nacional: o humanismo mineiro, o pragmatismo paulista, a verborragia baiana.

E basta ouvir pra ver que o nervo de todas as conversas cariocas, a do bar sofisticado como a do botequim pobre e sujo, por isso mesmo sofisticadíssimo, a do living-room granfa, a da cama (antes e depois), é o humor, a crítica, a piada, a graça, o descontraimento. Não há deuses e nada é sagrado no Olimpo da sacanagem. O carioca é, antes de tudo, e acima de tudo, um lúdico. Ainda mais forte e mais otimista do que o homem da anedota clássica que, atravessado de lado a lado por um punhal, dizia: "Só dói quando eu rio", o carioca, envenenado pela poluição, neurotizado pelo tráfego, martirizado pela burocracia, esmagado pela economia, vai levando, defendido pela couraça verbal do seu humor.





SEGUNDO JOÃO ANTÔNIO

Carioca, carioca da gema seria aquele que sabe rir de si mesmo. Também por isso, aparenta ser o mais desinibido e alegre dos brasileiros. Que, sabendo rir de si e de um tudo, é homem capaz de se sentar ao meio-fio e chorar diante de uma tragédia. O resto é carimbo.

Minha memória não me permite esquecer. O tio mais alto, o meu tio-avô Rubens, mulherengo de tope, bigode frajola, carioca, pobre, porém caprichoso nas roupas, empaletozado como na época, impertigado, namorador impenitente e alegre e, pioneiro, me ensinar nos bondes a olhar as pernas nuas das mulheres e, após, lhes oferecer o lugar. Que havia saias e pernas nuas nos meus tempos de menino.

Folgado, finório, malandreco, vive de férias. Não pode ver mulher bonita, perdulário, superficial e festivo até as vísceras. Adjetivação vazia... E só ideia genérica, balela, não passa de carimbo [carimbo no sentido de estereótipo].

Gosto de lembrar aos sabidos, perdedores de tempo e que jogam conversa fora, que o lugar mais alegre do Rio é a favela. E onde mais se canta no Rio. E, aí, o carioca é desconcertante. Dos favelados nasce e se organiza, como um milagre, um dos maiores espetáculos de festa popular do mundo, o Carnaval.

O carimbo pretensioso e generalizador se esquece de que o carioca não é apenas o homem da Zona Sul badalada — de Copacabana ao Leblon. Setenta e cinco por cento da população carioca moram na Zona Centro e Norte, no Rio esquecido. E lá, sim, o Rio fica mais Rio, a partir das caras não cosmopolitas e se o carioca coubesse no carimbo que lhe imputam não se teriam produzido obras pungentes, inovadoras e universais como a de Noel Rosa, a de Geraldo Pereira, a de Nelson Rodrigues, a de Nelson Cavaquinho... Muito do sorriso carioca é picardia fina, modo atilado de se driblarem os percalços.





SEGUNDO VINICIUS DE MORAES

O que é ser carioca? É ter nascido no Rio de Janeiro. Sim, é claro, e também não. Não porque ser carioca é antes de tudo um estado de espírito. Ser carioca é uma definição de personalidade. [...] Porque ser carioca, mais ainda que ser parisiense, é sentir-se perfeitamente integrado com a sua cidade e o seu meio; é portar roupas como um carioca; é saber das coisas antes que elas sejam ditas; é detestar trabalhar (mas trabalhar); é adorar flanar e bater papo no meio de milhões de compromissos; é acreditar que tudo se arranja (e arranja mesmo); é ser portador não de acidez, mas de certa adstringência como a dos cajus; é gostar de estar sempre chegando e não querer nunca ir embora; é ter ritmo em tudo para tudo; é ter em alta dose o senso do ridículo e da oportunidade; é gostar de gente mesmo falando mal; é gostar de banho de chuveiro; é amar todas as coisas que maldiz; é saber conhecer outro carioca no estrangeiro, só pelo modo de andar e de vestir-se. Isso é ser carioca. E a maior felicidade é que ao carioca foi dado para amar, desamar, exaltar, trair e ser escravo um outro ser cuja graça é indefinível: a mulher carioca.





SEGUNDO DI CAVALCANTI

Todos os dramas, os mais terríveis, o carioca pode enquadrá-los numa janela aberta para um céu de estrelas.

O Rio de Janeiro tem coisas de que é impossível qualquer pessoa se desligar. Mesmo recebendo gente de toda parte, a cidade não consegue ser cosmopolita. Qualquer estrangeiro se torna carioca em pouco tempo.

O Rio de Janeiro exerce o milagre da esperança e todos que aqui vivem ressuscitam de hora em hora, sentindo na boca o gosto salgado de um novo batismo.

Ser autêntico carioca é possuir a dignidade de existir sem ambições supérfluas. É bastar-se a si mesmo, na certeza de ser um privilegiado do destino.

Deus deu o alimento sonho ao carioca.





SEGUNDO RICA PERRONE

Carioca exagera tudo, pra baixo e pra cima. Se elogiar a praia, ele exalta dizendo que é “a melhor praia do mundo”. Se falar que é perigoso, ele não nega. Diz que é “perigoso pra caramba”.

Trata sua cidade como filho. Só ele pode falar mal.

Cariocas não marcam encontro. Simplesmente se encontram.

A confirmação de um convite aqui não quer dizer nada. Você sugere “Vamos?”, eles dizem “Vamo!”. O que não implica em ter aceitado a sugestão.

Hora marcada no Rio é “por volta de”. Domingo é domingo. E relaxa, irmão. Pra que a pressa?

Em 5 minutos são amigos de infância, no segundo encontro te abraçam e já te colocam apelidos.

Não te levam pra casa. Te convidam pra rua. É curioso. Mas é que a “rua” aqui é tão linda que se trancar em casa é desperdício.

Cariocas andam de chinelo e não se julgam por isso. São livres, desprovidos de qualquer senso de sofisticação.

Ao contrário, parecem se sentir mal num ambiente formal e de algum requinte.





SEGUNDO ADRIANA CALCANHOTO


Cariocas são bonitos.
Cariocas são bacanas.
Cariocas são sacanas.
Cariocas são dourados.
Cariocas são modernos.
Cariocas são espertos.
Cariocas são diretos.
Cariocas não gostam de dias nublados.
Cariocas nascem bambas.
Cariocas nascem craques.
Cariocas têm sotaque.
Cariocas são alegres.
Cariocas são atentos.
Cariocas são tão sexys.
Cariocas são tão claros.

Cariocas não gostam de sinal fechado...





SEGUNDO MILTON TEIXEIRA

Adão e Eva eram cariocas. Não tinham o que comer, não tinham o que vestir, não tinham onde morar, não tinham um governo visível, não obedeciam a lei e achavam que estavam no Paraíso.






SEGUNDO O EDITOR DESTE BLOG



Carioca é aquilo que o paulistano não é. No bom e no mal sentido, porque São Paulo é uma espécie de locomotiva do Brasil (e, surpreendam-se, vou me mudar para lá em breve). Você anda pelas ruas paulistanas num dia e horário útil e está todo mundo apressado. Mesmo quem não está finge que está pra não destoar. Já no Rio tem sempre alguém flanando, alguém pegando uma praia, alguém de bermuda e chinelos mesmo no Centro da cidade onde teoricamente deveria estar todo mundo trabalhando. Carioca adora se reunir em torno de uma churrasqueira (a churrasqueira é uma espécie de altar do carioquismo contemporâneo) – que pode estar num quintal, na calçada diante de um bar, até num parque, numa praia, num beco, numa viela – e jogar conversa fora enquanto esvazia uma garrafa de cerveja depois da outra (depois da saideira vem outra saideira). Paulistano prefere um bom restaurante, confeitaria, cantina. Todo fim de semana rola alguma feijoada regada a samba em alguma escola de samba Rio afora (além do Cacique de Ramos) confirmando a visão predominante mundo afora de que o Rio é a cidade mais feliz do mundo (de fato, o Rio ficou em primeiríssimo lugar, no Índice Anholt-GfK Roper City Brands, divulgado em junho de 2009, das cidades mais felizes do mundo). Existe o mito do carioca inimigo do trabalho, aquele sambinha do “segunda-feira não vou trabalhar, na terça não vou pra poder descansar, na quarta preciso me recuperar...”, desmentido pelo PIB fluminense, o segundo maior do país – quem não trabalha não gera PIB. Aliás quem demonstra à perfeição o espírito trabalhador (!) do carioca são os garis da Comlurb, sempre dispostos, sempre a postos, se num domingo de sol a população emporcalha a praia, no final do dia o entulho é todo recolhido. O hábito carioca de chiar o s pode parecer esquisito, mas o Rio foi por muito tempo a capital da colônia, e esse s chiado não passa de um resquício do mais castiço português lusitano. E finalmente, no Rio você vê mendigos felizes (última foto abaixo), algo raríssimo em outras metrópoles. São muitas as peculiaridades do carioca, difícil captar sua essência – como é difícil captar qualquer essência, Platão que o diga – mas de uma coisa estejam certos: na Internet o que melhor capta a carioquice é este meu modesto blog que desde 2005 mostra o que o Rio tem de melhor. E se em meu texto não sou tão eloquente quanto um Nava, um Helio Brasil, um Vinicius, compenso essa minha deficiência com as fotografias. Essas sim, acredito terem captado a essência do carioca! Obrigado por visitarem meu blog e voltem sempre... sempre... sempre...




16.6.17

ARTE DE FLANAR PELO RIO (E POR PARIS)

COM FOTOS DO EDITOR DO BLOG DE SUAS FLÂNERIES PELA MUI LEAL E HEROICA CIDADE DE SÃO SEBASTIÃO DO RIO DE JANEIRO


Flanar - andar ociosamente, sem rumo nem sentido certo; flanear, flainar, perambular (Dicionário Eletrônico Houaiss)




A ARTE DE FLANAR SEGUNDO JOÃO DO RIO

Flanar! Aí está um verbo universal sem entrada nos dicionários, que não pertence a nenhuma língua! Que significa flanar? Flanar é ser vagabundo e refletir, é ser basbaque e comentar, ter o vírus da observação ligado ao da vadiagem. Flanar é ir por aí, de manhã, de dia, à noite, meter-se nas rodas da populaça, admirar o menino da gaitinha ali à esquina, seguir com os garotos o lutador do Cassino vestido de turco, gozar nas praças os ajuntamentos defronte das lanternas mágicas, conversar com os cantores de modinha das alfurjas da Saúde, depois de ter ouvido dilettanti de casaca aplaudirem o maior tenor do Lírico numa ópera velha e má; é ver os bonecos pintados a giz nos muros das casas, após ter acompanhado um pintor afamado até a sua grande tela paga pelo Estado; é estar sem fazer nada e achar absolutamente necessário ir até um sítio lôbrego, para deixar de lá ir, levado pela primeira impressão, por um dito que faz sorrir, um perfil que interessa, um par jovem cujo riso de amor causa inveja.

É vagabundagem? Talvez. Flanar é a distinção de perambular com inteligência. Nada como o inútil para ser artístico. Daí o desocupado flâneur ter sempre na mente dez mil coisas necessárias, imprescindíveis, que podem ficar eternamente adiadas. Do alto de uma janela como Paul Adam, admira o caleidoscópio da vida no epítome delirante que é a rua; à porta do café, como Poe no Homem da Multidões, dedica-se ao exercício de adivinhar as profissões, as preocupações e até os crimes dos transeuntes. [...]

O flâneur é ingênuo quase sempre. Para diante dos rolos, é o eterno "convidado do sereno" de todos os bailes, quer saber a história dos boleiros, admira-se simplesmente, e conhecendo cada rua, cada beco, cada viela, sabendo-lhe um pedaço da história, como se sabe a história dos amigos (quase sempre mal), acaba com a vaga ideia de que todo o espetáculo da cidade foi feito especialmente para seu gozo próprio. [...] Quando o flâneur deduz, ei-lo a concluir uma lei magnífica por ser para seu uso exclusivo, ei-lo a psicologar, ei-lo a pintar os pensamentos, a fisionomia, a alma das ruas. E é então que haveis de pasmar da futilidade do mundo e da inconcebível futilidade dos pedestres da poesia de observação...

Eu fui um pouco esse tipo complexo, e, talvez por isso, cada rua é para mim um ser vivo e imóvel. (João do Rio, A alma encantadora das ruas)




A ARTE DE FLANAR (e ruminar) SEGUNDO MACHADO DE ASSIS

É meu costume, quando não tenho que fazer casa, ir por esse mundo de Cristo, se assim se pode chamar à cidade de São Sebastião, matar o tempo. Não conheço melhor ofício, mormente se a gente se mete por bairros excêntricos; um homem, uma tabuleta, qualquer coisa basta a entreter o espírito, e a gente volta para casa "lesta e aguda", como se dizia em não sei que comédia antiga.

Naturalmente, cansadas as pernas, meto-me no primeiro bonde, que pode trazer-me à casa ou à Rua Ouvidor, que é onde todos moramos. Se o bonde é dos que têm de ir por vias estreitas e atravancadas, torna-se um verdadeiro obséquio do céu. De quando em quando, para diante de uma carroça que despeja ou recolhe fardos . O cocheiro trava o carro, ata as rédeas, desce e acende um cigarro; o condutor desce também e vai dar uma vista de olhos ao obstáculo. Eu, e todos os veneráveis camelos da Arábia, vulgo passageiros, se estamos dizendo alguma coisa, calamo-nos para ruminar e esperar.

Ninguém sabe o que sou quando rumino. Posso dizer, sem medo de errar, que rumino muito melhor do que falo. A palestra é uma espécie de peneira, por onde a ideia sai com dificuldade, creio que mais fina, mas muito menos sincera. Ruminando, a ideia fica íntegra e livre. Sou mais profundo ruminando; e mais elevado também. (Bons Dias, 21 de janeiro de 1889)




A ARTE DE FLANAR SEGUNDO JOSÉ DE ALENCAR

Sabeis o que é a flânerie? É o passeio ao ar livre, feito lenta e vagarosamente, conversando ou cismando, contemplando a beleza natural ou a beleza da arte; variando a cada momento de aspectos, e de impressões. O companheiro inseparável do homem quando flana é o charuto; o da senhora é o seu buquê de flores.
O que há de mais encantador e de mais apreciável na flânerie é que ela não produz unicamente o movimento material, mas também o exercício moral. Tudo no homem passeia: o corpo e a alma, os olhos e a imaginação. Tudo se agita; porém é uma agitação doce e calma, que excita o espírito e a fantasia, e provoca deliciosas emoções.

A cidade do Rio de Janeiro, com seu belo céu de azul e sua natureza tão rica, com a beleza de seus panoramas e de seus graciosos arrabaldes, oferece muitos desses pontos de reunião, onde todas as tardes, quando quebrasse a força do sol, a boa sociedade poderia ir passar alguns instantes numa reunião agradável, num círculo de amigos e conhecidos, sem etiquetas e cerimônias, com toda a liberdade do passeio, e ao mesmo tempo com todo o encanto de uma grande reunião.

Não falando já do Passeio Público, que me parece injustamente votado ao abandono, temos na Praia de Botafogo um magnífico boulevard como talvez não haja um em Paris, pelo que toca à natureza. Quanto à beleza da perspectiva, o adro da pequena igrejinha da Glória é para mim um dos mais lindos passeios do Rio de Janeiro. O lanço d'olhos é soberbo: vê-se toda a cidade à vol d'oiseau, embora não tenha asas para voar a algum cantinho onde nos leva sem querer o pensamento. (Ao correr da pena, 29/10/1854)




A ARTE DE FLANAR SEGUNDO JOAQUIM MANUEL DE MACEDO

Hoje em dia uma viagem a Lisboa é coisa mais simples do que um passeio ao Corcovado.

Entretanto, eu estou convencido de que se podia bem viajar meses inteiros pela cidade do Rio de Janeiro, achando-se todos os dias alimento agradável para o espírito e o coração.

O passado é um livro imenso cheio de preciosos tesouros que não se devem desprezar; e toda a terra tem sua história mais ou menos poética, suas recordações mais ou menos interessantes, como todo o coração tem suas saudades. A capital do Império do Brasil não pode ser uma exceção a esta regra.

Vamos dar princípio hoje a um passeio pela cidade do Rio de Janeiro? É um convite que faço aos leitores do Jornal do Comércio. Se o passeio parecer fastidioso ou monótono, não haverá o menor inconveniente em dá-lo por acabado no fim da primeira hora; se agradar, continuaremos com ele até... até... quem sabe até quando? Provavelmente conversaremos de preferência a respeito dos tempos que já foram e, portanto, não é preciso que nos lembremos já do futuro, marcando o fim da nossa viagem amena.

Vamos passear. (Joaquim Manuel de Macedo, Um passeio pela cidade do Rio de Janeiro)




A ARTE DE FLANAR SEGUNDO HELIO BRASIL

Sugiro ao leitor demorar sua observação em alguns cantos do bairro. Quem sabe, até realizar caminhadas para descobertas de encantos imprevisíveis...

A era do automóvel, este “ente” maravilhoso do qual dependemos excessivamente, cada vez mais nos impede de apreciar o espaço que nos cerca. A velocidade nos rouba o convívio com os lugares por onde passamos e, sem o convívio, os significados empalidecem.

Não é à toa que, por vezes, "descobrimos" uma ruela, um beco, um conjunto de casas, um simples muro desenhado pela intempérie pelo qual passamos "batidos", no dia-a-dia, sem a real oportunidade de conhecê-los.

A "medida" do homem ainda é o seu passo. (Helio Brasil, São Cristóvão.)




A ARTE DE FLANAR SEGUNDO PEDRO NAVA

Flanar nas ruas do Rio é prazer refinado. Exige amor e conhecimento. Não apenas o conhecimento local e o das conexões urbanas. É preciso um gênero de erudição. É preciso saber colocar os pés nos locais de Matacavalos onde pisou Osório, na calçada de São Clemente onde andou Tamandaré, nesta Glória onde perpassou o vulto de Capitu — na geografia citadina real e imaginária, no Rio velho de Manuel Antônio de Almeida, Alencar, Macedo, Artur e Aluísio — irmãos Azevedo; de Lima Barreto, João do Rio, Marques Rebelo, Drummond. [...]

O conhecimento puramente local do Rio eu o aprendi numa grande escola: o serviço de ambulâncias do velho Hospital de Pronto Socorro. Dizem que quem mais entende de nossa cidade são os choferes de táxi e os médicos da Assistência. Pertenci ao grupo... E sei descobrir os segredos — a polpa de nossas ruas. Exemplo? Um belo dia verifiquei que o Rio era a cidade mais rica das que eu conhecia em matéria de serralheria. Aprendi a admirá-las. [...]

Mas andando a pé em nossa cidade não são apenas épocas coloniais e imperiais que desvendamos. Tampouco fachadas pernambucanas, baianas ou mineiras que podemos ver. Viaja-se em todas as épocas e províncias do Brasil e pode-se sair também aí afora por esse mundo vasto mundo. [...]

À medida que as obras do Metrô e a insensibilidade dos procônsules nossos governantes vão demolindo de preferência o que há de sentimental, histórico e humano no Rio de Janeiro, multiplico meus passeios nas ruas malferidas — como quem se despede. (Pedro Nava, Galo das trevas, Memórias 5)




A ARTE DE FLANAR SEGUNDO O EDITOR DESTE BLOG

No Capítulo XXI de Quincas Borba, na viagem de trem de Barbacena ao Rio de Janeiro, Rubião observa que, “para quem estava acostumado a costa de burro, a estrada de ferro cansava e não tinha graça; não se podia negar, porém, que era um progresso...”

De progresso em progresso, descartamos o zepelim, o transatlântico, a maria-fumaça, o bonde (com a honrosa exceção do bondinho de Santa Teresa, o último dos moicanos). Viajamos espremidos na classe turística de monstruosos aviões. As atrações turísticas se sucedem qual programas de televisão sob a batuta do controle remoto: chegada em Paris, translado ao hotel, à tarde, city tour pelos principais monumentos, à noite, espetáculo no Lido, manhã seguinte, Museu do Louvre (correria pelos quadros mais “famosos”)...

Tudo muito vertiginoso. Um progresso, não se pode negar. Mas cá entre nós: pra conhecer uma cidade, você tem de caminhar por ela, sentir-lhe o burburinho, os odores, os sabores, o colorido, a paisagem humana.

Com o advento do assalto à mão armada, do poder paralelo dos traficantes, dos arrastões e tiroteios, passamos a temer nossa própria cidade maravilhosa e perdemos o costume de “andar por aí”, “sem lenço, sem documento”. Algumas páginas da literatura talvez nos inspirem a retomarmos esse hábito.

No conto machadiano "O Erradio", o personagem principal é um andarilho urbano. “Ia a toda parte; era comum achá-lo nos lugares mais distantes uns dos outros, Botafogo, São Cristóvão, Andaraí. Quando lhe dava na veneta, metia-se na barca e ia a Niterói. Chamava-se a si mesmo erradio.” Uma noite, após sair no meio de uma peça de teatro e tomar chá (!) no botequim próximo até o fechar das portas, Elisário (assim se chamava o Erradio) vai a pé do centro a São Cristóvão, percorrendo um Rio antigo em grande parte destruído pela abertura da Avenida Presidente Vargas e pelo aterro do Cais do Porto.

Quem leva à perfeição a arte de flanar pelo Rio antigo é Pedro Nava, que em sua obra autobiográfica descreve longos passeios pela Glória, Santa Teresa, Centro, São Cristóvão, Rio Comprido na primeira metade do século XX. E Helio Brasil, em seu primoroso livrinho São Cristóvão, sugere ao leitor “demorar sua observação em alguns cantos do bairro. Quem sabe, até realizar caminhadas para descobertas de encantos imprevisíveis...”




A ARTE DE FLANAR SEGUNDO VICTOR HUGO

Andar sem destino, isto é, flanar, é um ótimo modo de o filósofo passar o tempo; particularmente nessa espécie de campanha um tanto bastarda, bastante feia, mas interessante, composta de duas naturezas, rodeando sempre as grandes cidades, especialmente Paris. Observar os arredores de uma cidade é ver algo de anfíbio. Finda-se o arvoredo, começam os telhados; acaba-se a relva, começam as calçadas; terminam os sulcos do arado, aparecem as lojas; findam-se as estradas, iniciam-se as paixões; fim do murmúrio divino, começo do rumor humano; daí seu extraordinário interesse.

Daí os passeios do pensador, aparentemente ao léu, a esses lugares tão pouco atraentes, marcados para sempre pelo epíteto de tristes que lhe deram os transeuntes. (Victor Hugo, Os miseráveis, Parte 3, V)




A ARTE DE FLANAR PELAS CALÇADAS DO RIO SEGUNDO JOAQUIM FERREIRA DOS SANTOS

Eu sou pé no chão. Acho que uma cidade se faz especial pelo conjunto de suas calçadas, aquilo que o tecnicismo dos urbanistas chama friamente de “espaço público”. Eu, andarilho, eu, peripatético, eu prefiro a definição do compositor Antônio Maria e aqui dou o primeiro passo digital sobre este grande pátio da felicidade ambulante, a alegria simples de caminhar numa “calçada cheia de gente a passar e a me ver passar”. Uma cidade é feita a partir desta possibilidade. [...]

Existe acima de tudo a calçada e é a partir dela que veremos [...] como caminha a humanidade carioca. Foi por uma calçada que a garota de Ipanema passou. A cena era tão deslumbrante, o balanço tão doce, que a partir dela Tom e Vinicius, a tudo assistindo, musicaram uma revolução sofisticada. O Brasil nunca mais foi o mesmo. Pergunte ao mundo: o Rio de Janeiro é uma calçada onde a vida caminha em sandálias de plástico.

A pompa e a circunstância têm domicílio em outras cidades, algumas mais ricas, outras com melhor arquitetura. Aqui existe a graça divina dos diversos cartões postais e, entre eles, o calçadão de Ipanema, o calçadão de Madureira e tantos outros calçadões, o aumentativo bandeiroso de um sonho de cidade. Todos os seus moradores perambulando vadios ao sol carinhoso do outono. O pedestre finamente no poder, os estranhos marchando sem qualquer sinal de estranhamento. [...]

O pedestre não polui, não engarrafa. Ao caminhar, o movimento básico recomendado para se manter um corpo saudável, ele libera a sua parte na verba da saúde para o estado gastar com outros mais necessitados.

O pedestre é o cidadão orgânico que exigem os tempos modernos e o espaço urbano deve ser organizado sob a sua perspectiva. Tirem esses postes inúteis do caminho, que ele quer passar com o seu andor. Ao pedestre que erra, ao itinerante que zanza, todo o pouco poder que da Constituição municipal lhe emana. Que possa recuperar a calçada. É a sua propriedade inalienável, onde tudo deveria convidar à liberdade de passear, paquerar, conversar, respirar, brincar ou protestar contra a corrupção que permite quiosques no meio do caminho.

Se a sorte estiver ao lado, que possa ver a garota de Ipanema flanar a caminho do mar.