ENSEADA DE BOTAFOGO

ENSEADA DE BOTAFOGO
"Andar pelo Rio, seja com chuva ou sol abrasador, é sempre um prazer. Observar os recantos quase que escondidos é uma experiência indescritível, principalmente se tratando de uma grande cidade. Conheço várias do Brasil, mas nenhuma tem tanta beleza e tantos segredos a se revelarem a cada esquina com tanta história pra contar através da poesia das ruas!" (Charles Stone)

VISTA DO TERRAÇO ITÁLIA

VISTA DO TERRAÇO ITÁLIA
São Paulo, até 1910 era uma província tocada a burros. Os barões do café tinham seus casarões e o resto era pouco mais que uma grande vila. Em pouco mais de 100 anos passou a ser a maior cidade da América Latina e uma das maiores do mundo. É pouco tempo. O século XX, para São Paulo, foi o mais veloz e o mais audaz.” (Jane Darckê Avelar)
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29.7.18

ENTRE MISÉRIA E GRANDEZA, O DIÁRIO DE DRUMMOND, de EDMÍLSON CAMINHA


 “Por que se escrevem diários?”, perguntou Carlos Drummond de Andrade, para concluir que “há de ser por força de motivação psicológica obscura, inerente à condição de escritor, alheia à noção de utilidade profissional”. Confessa que, por muitos anos, encheu cadernos com anotações sobre o dia a dia, que jamais pretendeu viessem a ter importância documental. “O impulso de escrever para mim mesmo, em caráter autoconfessional, ditou os feixes de palavras que fui acumulando e que um dia... destruí. Mas a própria destruição tem caprichos. Do conjunto sacrificado salvaram-se algumas páginas que hoje reúno em livro”. É O observador no escritório, editado pela Record em 1985.

Seletivamente, o autor publica o que anotara sobre colegas escritores ‒ Mário de Andrade, Vinicius de Moraes, Guimarães Rosa, Manuel Bandeira ‒ e figuras da política: Luís Carlos Prestes, Getúlio Vargas e Castello Branco. Muito pouco acerca da família ‒ conversa com um tio, cartas da mãe e do pai, a filha Maria Julieta que se tranca no quarto para escrever. Drummond diz pouco da intimidade dos seus e de si próprio, por pudor ou pela crença de que, sem interesse para o leitor, não deve torná-la pública.

Os registros de natureza familiar permaneceram, assim, desconhecidos até agora, quando o neto do escritor, Pedro Augusto Graña Drummond, resolveu divulgá-los no livro Uma forma de saudade: páginas de diário (São Paulo: Companhia das Letras, 2017), ano em que se lembram as três décadas da morte de quem os anotara. Pergunte-se, então: por que dar a conhecer, depois de tanto tempo, trechos do diário que a Drummond parecera melhor continuassem inéditos? Respondo: simplesmente por havê-los escrito, pois ninguém põe no papel o que não se queira venha a ser lido, hoje, amanhã ou daqui a cem anos. Assim também com outros artistas: absurdo pensar no compositor de uma sinfonia criada para que orquestra nenhuma a apresentasse; ou em um pintor cujas obras fossem para sempre escondidas no celeiro de uma fazenda; ou no teatrólogo que escrevesse dramas sob a condição de que sequer fossem lidos... Significativamente, Drummond reconhece os “caprichos” da destruição: deu fim ao diário, mas não a todas as notas; por que salvou algumas páginas, e outras não? Pedro Augusto repete, ao apresentar o livro, a explicação do avô quando entrevistado por Maria Julieta: “Para o caso em que algum neto se interessasse um dia em lê-las e assim pudesse sentir que existe uma continuidade na família, ‘um rio de sangue que flui através de uma geração para outra’”. Quem sabe, ainda, pela “motivação psicológica obscura”, inconsciente, de que um dia os leitores comuns viéssemos também a conhecê-las, desejosos de nelas escutar “o eco de um tempo abolido”, como consta à entrada de O observador no escritório.


          Cético, Drummond sabia, já dissera o amigo Bandeira, que “a vida é vã como a sombra que passa”, uma lenta e melancólica procissão rumo ao grande mistério. Assim, com a precisão de talentoso repórter e o estilo de quem sabe escrever, relata a doença e a morte de entes queridos. Em 1954, volta a Itabira para acompanhar, com parentes, a exumação dos restos da mãe: “Sob o sol intenso (...) pouco a pouco a terra foi sendo removida a golpes de escavadeira, enxada, picareta e pá (...). O primeiro osso a aparecer foi um maxilar, que nos pareceu não pertencer ao corpo de Mamãe, pelo fato de estar fora do caixão, mas pouco depois Ofélia conseguiu articulá-lo com a caixa craniana, que estava lá dentro, e que surgiu pesada de terra, nela se distinguindo apenas as cavidades das órbitas e o círculo da garganta. Com um pedaço de madeira Altivo e depois eu o esvaziamos do conteúdo terroso.” O irmão a que se refere morreria em 1961, Drummond viaja do Rio a Belo Horizonte, para o enterro: “Altivo já estava no caixão, o corpo coberto de flores, na sala de visitas. A extrema magreza e a velhice do rosto não impediam que este se mostrasse sereno. (...) Contaram-me que nos últimos dias a falta de apetite se tornara total; a fraqueza era enorme, e uma ferida se formara nas costas, pelo atrito com a cama.”

Um ano antes morrera José, nascido com problemas de saúde, como se lê no diário: “Metade do corpo dele era vermelha e ardia em febre. A outra metade, quase fria. O menino cresceu difícil e cacete. Seus nervos eram destrambelhados. Tudo isso talvez explique meu irmão, seu isolamento selvagem, sua incapacidade de ternura (...)”. Solteiro, confidencia ao mano o caso que tem, há 14 anos, com uma senhora casada, o que a levou a desquitar-se do marido. Chama-se Aida, que surpreende o escritor ao dizer que José também é dado às musas, chegou até a escrever um poema, “O cavalão”, de que terá sido, certamente, a única leitora.

Ao sabê-lo doente, Drummond visita-o muitas vezes em Belo Horizonte, mas tem de pegar de volta, no mesmo dia, o avião que faz a ponte Pampulha‒ Santos Dumont: “Maravilhosa visão do Rio iluminado, ao chegarmos. 55 minutos de voo: 1 e 5 da madrugada. Não há táxi no aeroporto. Caminho a pé até a Praça 15, onde, já desanimado, consigo fazer um motorista recolher-me em seu carro, trazendo-me a Copacabana.” Bons tempos aqueles, em que um poeta podia andar pela noite carioca, sem o menor risco de ser assaltado ou morto por delinquentes que hoje mandam na cidade...

Em 1968, Maria suicida-se com 25 comprimidos de um tranquilizante. Drummond a vê no necrotério: “Lá estava o corpo de minha pobre irmã, recoberto por um lençol, em cima da essa. O rosto tinha a brancura de sempre, com um leve tom amarelado que a morte lhe imprimira; os cabelos muito pretos, e o queixo amarrado por um pedaço de gaze”. Em meio à miséria dos que sofrem para morrer, o autor de Claro enigma emociona-se com a grandeza humana dos sobrinhos que dão tudo de si pelos pais doentes, e de mãos dadas vão com eles até o embarque para o desconhecido.

Manuel Bandeira e Rodrigo Melo Franco de Andrade são os amigos fraternos que preenchem a segunda parte do livro. Enfermo, o poeta de Libertinagem, sempre tão cioso dos assuntos amorosos, faz revelações ao colega que o visita no hospital: “Eu sempre evitei me complicar mantendo casos com mulheres de temperamento difícil. Acho que esse negócio de trepar deveria ser uma coisa simples; duas pessoas se encontram e, como se desejam, vão dormir juntas, sem necessidade de romance. Justamente para evitar casos complicados é que tenho deixado de comer muita mulher boa nesse mundo.”

Bandeira mantinha, então, relacionamento com Lourdes Alencar, “desquitada e violenta”, que lhe infernizou a vida. Ante a pressão da companheira para que se hospitalizasse, ameaçou atirar-se pela janela. “Hoje, teve desfecho o episódio da Casa de Saúde S. Marcelo, no Leblon: a direção da casa pediu-lhe que se retirasse com Manuel, em face da situação criada pela irritabilidade e intransigência da acompanhante (...)”. Os amigos unem-se para socorrer o poeta, com grandes problemas financeiros: conseguem-lhe mil dólares mensais do Itamaraty, como pagamento de direitos por publicações da obra no exterior, e a interferência pessoal do então ministro do Trabalho, Jarbas Passarinho, para que lhe reservem um bom apartamento no Hospital dos Servidores. A dureza com que a morte nos iguala a todos é cruamente descrita: “No necrotério dos fundos do hospital, o pobre Manuel, já vestido, jazia à espera de caixão. A boca permanecia aberta, e nela se introduzira um chumaço de algodão.”

Peregrino Júnior, no cemitério, diz ao poeta de A rosa do povo considerá-lo o único em condições de ocupar a vaga de Bandeira na Academia. “Respondi-lhe que não; qualquer bom escritor preencherá bem a cadeira, não sendo necessário que seja um poeta ‒ e eu, definitivamente, não tenho jeito para isso.” Foi eleito Cyro dos Anjos, autor de O amanuense Belmiro. Mais uma proposta, dias depois: “Josué Montello, por intermédio de Rodrigo [M. F. de Andrade], convida-me, não sei com que autoridade, para membro do Conselho Federal de Cultura, que dentro em breve renovará os seus titulares. Claro que não topei.”

Essas, as páginas mantidas em segredo por quem as salvara da destruição. Pode-se concluir que o diário de Drummond, mais do que apenas uma forma de saudade, oferece-nos outra leitura: ilusoriamente distintos uns dos outros, chegaremos a termo nivelados por baixo. Não importa se Carlos, José, Maria ou Manuel: teremos vivido, todos, a miséria e a grandeza inerentes à humana condição.

8.7.18

A TRAGÉDIA DA COPA DE 1950, de EDMÍLSON CAMINHA

Crônica originalmente intitulada "O Naufrágio do Titanic" publicada no livro Inventário de crônicas (Brasília : Thesaurus, 1997

Maracanã em cerca de 1967, foto de Marcel Gautherot obtida no site do Instituto Moreira Salles

O Brasil já viveu uma tragédia. Não me refiro à guerra do Paraguai, à revolta de Canudos, ao golpe de 64. Falo de uma com tempo marcado para acontecer: 16 de julho de 1950. Um dia, apenas; hora e meia, para falar a verdade. Não derramou sangue, mas feriu lá dentro – dói ainda hoje.

Foi somente uma partida de futebol, dirão alguns. Não, não, foi muito mais do que isso: foi o malogro de um sonho, o desmentido da esperança, a frustração da alegria, a negação de um presente que começávamos a viver. Seríamos campeões do mundo, venceríamos povos com mil anos de história, mais importantes do que nós, mais fortes do que nós, mais bonitos do que nós, derrotando-os no gramado, sujeitando-os ao talento, ao brilho e à improvisação do homem brasileiro. Sobrevivêramos à ditadura e aos transtornos da guerra: em meio aos escombros da velha ordem, anunciava-se o Brasil como a promessa de um grande país, uma nação vitoriosa a caminho da riqueza e da felicidade. Ninguém se dava conta disso, mas era esse o sentimento das 200 mil pessoas que superlotavam o Maracanã para assistir a Brasil x Uruguai. Pôr as mãos na Taça Jules Rimet já seria um bom começo.

Aquele era o dia dos 27 anos de meu pai. E lá estava ele, perdido na multidão que desde o meio-dia correra para o estádio. O clima era de festa, de exultação, de delírio popular. Sequer se cogitava de que o Brasil pudesse perder: na disputa entre os finalistas, arrasáramos a Suécia por 7 x 1 e destruíramos a Espanha por 6 x 1, enquanto o Uruguai não fora além dos 2 x 2 frente aos espanhóis e de apertados 3 x 2 contra os suecos. Com a vantagem de um ponto, ganharíamos a Copa ainda que empatássemos; cabia-nos, portanto, confirmar o triunfo a que nos condenara o destino. Sabia-se de cor a escalação dos brasileiros, recitada como um credo: Barbosa, Augusto e Juvenal; Bauer, Danilo e Bigode; Friaça, Zizinho, Ademir, Jair e Chico. Achava-se até quem dissesse a formação dos uruguaios: Máspoli, Matías González e Tejera; Gambetta, Obdulio Varela e Rodriguez Andrade; Ghiggia, Julio Pérez, Miguez, Schiaffino e Morán. O árbitro seria George Reader – um inglês, por coincidência, testemunha da cerimônia em que o “nobre esporte bretão” se naturalizaria brasileiro.

O resultado, no entanto, começara a definir-se antes da luta. Ninguém duvidava de que éramos os melhores do mundo: aos campeões prometiam-se casas, carros, empregos públicos e até vitória nas eleições; ganhariam fortunas transformando-se em nome de cervejas, cigarros, refrigerantes e outros lançamentos; na véspera da partida, assinaram mais de duas mil fotos em que se lia "Brasil, campeão do mundo". Havia, porém, que dar muito mais por tanta glória: concentrada no Joá, a seleção foi transferida para São Januário, onde se abriram as portas para uma verdadeira romaria de visitantes, desde candidatos à presidência da república até colecionadores de autógrafos. No sábado, a maioria dos jogadores só conseguiu dormir às onze da noite, após dezenas de homenagens e solicitações. Às sete da manhã estavam de pé, para assistir a missa em ação de graças pela inauguração de uma rádio. Dali a pouco iriam correr 90 minutos, mas tiveram de empurrar o ônibus enguiçado em que chegariam ao Maracanã. Apesar de tudo, entraram em campo como vencedores, cabendo aos uruguaios exercer com timidez e humildade o papel que lhes coubera na consagração do protagonista.

Assim começou o jogo, às duas e cinquenta e cinco daquela tarde de angústia e emoção. O primeiro tempo ficou em 0 x 0, mas nos mostramos bem melhores: chutamos 17 vezes a gol, os uruguaios apenas 6. Obdulio Varela, "El Gran Capitán", não admitia perder, e por isso gritava, reclamava, pressionava, na tentativa de compensar a diferença. Aos 27 minutos, aproxima-se de Bigode e dá-lhe não se sabe exatamente o quê – um tapa no rosto, como viram muitos, ou um tapinha no pescoço, como querem alguns. De qualquer forma, sua arrogância teria amedrontado os brasileiros, que não conseguiriam manter a superioridade com que dominavam a partida.

Apesar de tudo, voltamos para o segundo tempo cheios de confiança. Mal a bola começou a rolar, Zizinho passou para Ademir e Ademir deu na medida para Friaça, que disparou uma bomba no canto direito de Máspoli. GOOOOL! GOOOOL DO BRASIL! O Maracanã quase vem abaixo numa explosão de alegria que dura três minutos: até que enfim! Aquele era somente o primeiro! Seríamos campeões em grande estilo, enchendo a rede do Uruguai! Vinte minutos depois, acontece o que todos temiam: Obdulio passa para Ghiggia, Ghiggia escapa de Bigode e lança para Schiaffino: gol do Uruguai. Continuávamos campeões, o empate nos favorecia, mas um grande silêncio, um medo profundo cobriu o Maracanã, como se pressentíssemos o desastre. Se a comemoração se fizera antes do tempo, também nos apressávamos em consentir o revés, aceitar o castigo – era a copa da precipitação.

Os uruguaios devem ter dito é agora ou nunca, e com 13 minutos aconteceu mais do que o improvável, o impossível: Ghiggia tabelou com Julio Pérez e disparou pela direita perseguido por Bigode; Juvenal corria para interceptá-lo e Schiaffino chegava pelo meio esperando o passe; quase sem condições de tentar direto, o ponta recuaria para o companheiro, acreditou Barbosa, que não fechou o ângulo; Ghiggia enxergou o buraco e chutou meio sem jeito; a bola correu fraca, entrando pelo espaço mínimo entre o goleiro e o poste: gol do Uruguai. Barbosa deixou-se ficar batido no chão, e Bigode em desespero levou a mão à cabeça. Se os uruguaios já tinham marcado um, aquele era o segundo, o que significava dizer que eles estavam ganhando, a pouco mais de dez minutos do final da partida – pensavam os brasileiros, num grande esforço de raciocínio. O que restava de tempo foi um desespero, os jogadores lutando, o público gritando, até que Mr. Reader apitou. Por incrível que pudesse parecer, terminara o jogo. E não éramos nós os vencedores. Não éramos nós os campeões.

A torcida não arredou pé do estádio, meio tonta, esperou meia hora para começar a sair. O Maracanã, o "Gigante do Derby", templo do futebol, altar onde nos sagraríamos, era um majestoso barco à deriva, o Titanic sem rumo depois de trombar com um iceberg. Diziam que o colosso inglês jamais afundaria, e lá estava ele, fazendo água, mergulhando a proa rumo às profundezas do oceano. Como pôde acontecer?, perguntava-se nas ruas, nas biroscas, nos salões de sinuca, nos cabarés, onde quer que se encontrasse um brasileiro. Era como se o velocista campeão disparasse na reta de chegada e torcesse o pé, arrebentando-se no asfalto; como se no último round o boxeador invencível recebesse um cruzado no queixo e desse com a cara na lona; como se o maior nadador do mundo cruzasse a Baía de Guanabara para morrer a cem metros da praia. Como se a seleção brasileira precisasse de um empate para ganhar a Copa e perdesse de 2 x 1 para o Uruguai.

Em 90 minutos, passáramos da euforia à depressão, subíramos aos céus e descêramos ao mais escuro dos infernos, a glória inteira que podia ter sido e que não foi. Juvenal passou 14 dias sem sair de casa; Bauer voltou para São Paulo escondido em um trem; Friaça perdeu a memória e não sabe como foi parar em Teresópolis – voltou a si dois dias depois, cinco quilos mais magro; e Zizinho, por muito tempo, garantia que se comunicava telepaticamente com Obdulio Varela. Na concentração, Barbosa assinara um manifesto em favor da paz que depois se descobriria procedente do PCB, o Partido Comunista Brasileiro; como não fora campeão, o goleiro teve de ir ao Dops para declarar se conhecia Marx e Lênin e se gostava deles. Nem o capitão uruguaio suportou o peso daquele domingo: de volta ao hotel, pôs algum dinheiro no bolso e saiu sozinho pela noite, comandante vitorioso a passear por entre os escombros dos vencidos. Entrou num bar, pediu uma caipirinha e logo foi reconhecido por brasileiros que se embriagavam; pensou que seria agredido mas o que veio foi o convite para que aceitasse um copo. Faz algum tempo, declarou que se pudesse voltar atrás marcaria um gol contra, só para não se sentir responsável pela tristeza desse grande povo. Em vez de jogador excelente, nota-se que Obdulio Varela poderia ter sido um escritor de sucesso, tal o jeito que possui para a criação literária. Pudesse reviver aquela partida, faria quantos gols estivessem ao alcance dos seus pés, pois no esporte o que conta é vencer – se possível honestamente. Essa história de que basta competir é conversa daquele barão que provavelmente nunca chutou uma bola na vida.

Muitos esqueceram, deixaram cicatrizar a ferida. Em outros, porém, a lembrança continua, como se uma perna amputada pudesse doer para sempre. São Os Órfãos de 50, Os Deserdados de Ghiggia, que escreveram sobre o jogo para libertar-se dele. Paulo Perdigão dedicou-lhe um livro inteiro, Anatomia de uma derrota. Mário Filho, Nélson Rodrigues, Antônio Maria, Edilberto Coutinho, Armando Nogueira e Luís Fernando Veríssimo publicaram crônicas. Geneton Moraes Neto reuniu, em 200 páginas, o depoimento dos onze jogadores e do técnico Flávio Costa. Ana Luíza Azevedo e Jorge Furtado fizeram o curta Barbosa, levando para o cinema o conto "O dia em que o Brasil perdeu a Copa", de Paulo Perdigão. Na história, o protagonista – na verdade, o próprio autor – aciona a máquina do tempo de H. G. Wells para voltar ao Maracanã naquele dia fatal, em que, menino de onze anos, assistira ao drama que o atormentava como culpa. Quando Julio Pérez lançasse para Ghiggia, avisaria ao goleiro que o uruguaio chutaria no canto. Aos 33 minutos do segundo tempo, lá está ele, atrás do gol à direita das cabines de rádio: Ghiggia corre, aproxima-se da pequena área, Barbosa ouve um grito e... Como se costuma dizer nestas ocasiões, leia o conto e veja o filme.

Em 1992, fui a Montevidéu. Andando pela Dezoito de Julho, imaginei o carnaval naquela noite de domingo, o povo nas ruas, o mar de bandeiras transbordando a avenida, o pequeno Uruguai maior do que o Brasil, melhor do que a Europa, o primeiro do mundo. No hotel, perguntei por Ghiggia: soube que trabalhava em um cassino, fora da cidade, raramente aparece. Queria conhecê-lo, olhar para o homem que fizera um país inteiro chorar. "Por que vocês falam tanto nessa copa? O Brasil já ganhou três campeonatos, joga muito mais do que nós, tem o melhor futebol do mundo!", ouvi de um dirigente esportivo com quem conversei. "Fizemos dois gols por sorte: se tivéssemos de disputar outra partida, jamais ganharíamos. Esqueçam aquele dia!"

Não dá. Em 16 de julho de 1950, perdemos um jogo que não podíamos perder, que não soubemos ganhar. Nas arquibancadas do Maracanã, 200 mil brasileiros sentiram o sol escurecer, a terra cair, o coração parar, a morte em vida. Todos estávamos lá, mesmo os que nascemos depois.


8.1.18

A INVENÇÃO DA MEMÓRIA NO ROMANCE DE CONY, de Edmílson Caminha


Pelas páginas de Quase memória, Carlos Heitor Cony regressa à literatura brasileira em grande forma. O livro é admirável, da ideia que o originou à beleza do estilo, do bom humor que o enriquece à emoção que o permeia. Desde 1974, com o lançamento de Pilatos, o romancista se vinha deixando silenciar pelo jornalista, pelo redator da Manchete, pelo editor da Bloch, pelo articulista da Folha de S. Paulo. Até que lhe ocorreu, um dia, escrever sobre o pai, Ernesto Cony Filho, que parece já nascera personagem de novela, tantas e tão pitorescas são as histórias que protagonizou. Ficcionista experimentado, percebeu que não compunha propriamente um romance, como esclarece na "Teoria geral do quase" com que se dirige ao leitor: "Falta-lhe, entre outras coisas, a linguagem. Ela oscila, desgovernada, entre a crônica, a reportagem e, até mesmo, a ficção. Prefiro classificá-lo como 'quase-romance' ‒ que de fato o é. Além da linguagem, os personagens reais e irreais se misturam, improvavelmente, e, para piorar, alguns deles com os próprios nomes do registro civil. Uns e outros são fictícios." Ao contrário do que representam para autores menos brilhantes, a indefinição da linguagem e a indeterminação do gênero só engrandecem o texto de Quase memória, como liberdades que se ofereceram ao romancista para que pudesse construí-lo.

Ernesto Cony Filho era mesmo uma grande figura, a alma plena de sabedoria, o coração cheio de esperança, a cabeça tomada pelas ideias mais excêntricas. "Amanhã farei grandes coisas", era a disposição com que esperava o dia seguinte. Sem nenhuma surpresa,  viu cruzar a noite, para morrer justo no seu quintal, o enorme balão que soltara doze dias antes: "as coisas tendem a voltar ao lugar de origem", foi a explicação que deu ao pequeno Carlos Heitor, impressionado com a assombrosa coincidência. Ao saber dos milagres do "taumaturgo de Urucânia", no interior de Minas, organizou um comboio cujos vagões partiram do Rio de Janeiro apinhados de doentes, na ilusão da cura. Episódio tão hilariante quanto este só o vivido pela dupla Paulo Campos e Barão, picaretas que, para conseguir o dinheiro com que sustentar um jornaleco, convencem o governador de Minas a lançar-se candidato contra Júlio Prestes e Getúlio, nas eleições que acabariam por deflagrar a Revolução de 30.

Essas as histórias que Carlos Heitor Cony guardou do seu velho pai, há muito adormecidas na lembrança. Até a tarde em que, depois do almoço de costume no Hotel Novo Mundo, o porteiro lhe entrega o pacote trazido por um hóspede. O narrador não esconde a emoção: a letra do sobrescrito, a fórmula do endereço, a espécie de laçada no barbante são do pai, só ele os faria com aquela minúcia. E recentemente, vê-se pelo frescor da tinta e pelo brilho do papel. Mas como, se Ernesto Cony Filho morrera há dez anos?! O mistério desafiará o romancista e prenderá os leitores até o último instante  ‒ quando o filho abre o pacote e desvenda o segredo... ou deixa-o fechado para sempre, guardando na escuridão da incerteza a presença viva do pai.

A passeio no Rio, quis dizer pessoalmente a Cony da emoção que me dera o Quase memória. Encontramo-nos no edifício da Manchete, onde ocupa o escritório que foi do ex-presidente Juscelino. A observação de que trouxera de volta não apenas o próprio pai, mas, de certa maneira, o de cada leitor é a da maioria dos que o procuram:

— Quando pensei em escrever o livro, não pretendia fazer memória nem ficção. Daí a maneira vaga como o defini: quase-memória, quase-romance... O que eu queria, na verdade, era apenas falar sobre o meu pai, dizer o que sinto sobre ele, o que me ficou dele ‒ fazer-lhe justiça, enfim. Parece que, com essa confissão extremamente pessoal, acabei traduzindo o sentimento de muitas pessoas. Quase todas declaram exatamente o que você acaba de dizer: que, ao lembrar a figura do meu pai, acabei resgatando, de alguma forma, a lembrança de todos os pais. Curioso é que, antigamente, o meu público leitor era formado preferencialmente por mulheres: acho que os meus romances interessavam mais a elas... Com o Quase memória, está acontecendo exatamente o contrário: são os homens que se dizem emocionados com o que escrevi.

Comento-lhe que o melhor de Um brasileiro em Berlim é a tocante homenagem que João Ubaldo Ribeiro presta ao pai, como se houvesse hoje, entre os nossos romancistas, um "movimento pela reabilitação paterna", que teria certamente o apoio de Cony:

 — Acho isso interessante, porque o pai sempre levou uma grande desvantagem com relação à mãe, no conceito dos filhos e da própria sociedade. Se alguém ofender moralmente a sua mãe, você pode até matá-lo e arguir o fato para se defender perante a justiça; se a agressão for contra o pai, não. Fico satisfeito por contribuir, com o sucesso do meu livro, para a reabilitação dos nossos pais...

 Disputando com O xangô de Baker Street, de Jô Soares, e Benjamim, de Chico Buarque, Quase memória foi um dos lançamentos que mais venderam em 1995, provocando gestos que surpreenderam o autor:

— Todo mundo sabe que não gosto do Antônio Carlos Magalhães, por tudo que representa de ruim na política brasileira. Pois bem: um dia desses, critiquei-o numa crônica e ele me passou um fax espinafrando de alto a baixo. No finalzinho, porém, disse que leu o livro e adorou, fez altos elogios à minha obra. Dias depois, encontramo-nos em uma solenidade na Bahia: ele veio me cumprimentar e pediu que lhe autografasse um exemplar para o filho, deputado Luís Eduardo Magalhães. Eu fiquei pensando: "O Luís Eduardo deve tudo ao pai, a sua carreira política nem teria começado sem a bênção paterna. Ora, o senador quer que ele leia o livro talvez porque seja aquela a maneira como gostaria de ser lembrado no futuro. Se quem merece toda a gratidão do filho pode não estar satisfeito com a imagem que tem, imagine como não devem sentir-se os outros, que fizeram muito menos..."

Despeço-me de Carlos Heitor Cony elogiando-lhe a boa forma com que chega aos setenta anos:

— Você me acha bem fisicamente, mas isso é só aparência. Estou com um problema de saúde, tanto que, depois do Natal, irei aos Estados Unidos fazer uns exames. Ficarei no Mount Sinai Medical Center, o mesmo onde morreram Tom Jobim, Pedro Collor e Jacqueline Onassis. Espero que eu não seja o próximo... Mas a ideia da morte, na verdade, não me angustia: se todos nós vamos morrer, eu, pelo menos, já tenho uma causa...