ENSEADA DE BOTAFOGO

ENSEADA DE BOTAFOGO
"Andar pelo Rio, seja com chuva ou sol abrasador, é sempre um prazer. Observar os recantos quase que escondidos é uma experiência indescritível, principalmente se tratando de uma grande cidade. Conheço várias do Brasil, mas nenhuma tem tanta beleza e tantos segredos a se revelarem a cada esquina com tanta história pra contar através da poesia das ruas!" (Charles Stone)

VISTA DO TERRAÇO ITÁLIA

VISTA DO TERRAÇO ITÁLIA
São Paulo, até 1910 era uma província tocada a burros. Os barões do café tinham seus casarões e o resto era pouco mais que uma grande vila. Em pouco mais de 100 anos passou a ser a maior cidade da América Latina e uma das maiores do mundo. É pouco tempo. O século XX, para São Paulo, foi o mais veloz e o mais audaz.” (Jane Darckê Avelar)
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1.12.18

UM CHUTE, de RUBEM BRAGA

CRÔNICA PUBLICADA ORIGINALMENTE NA REVISTA MANCHETE DE 28 DE NOVEMBRO DE 1953


Circulo um pouco pela cidade [cidade no sentido de Centro da cidade], de manhã, resolvo umas coisas mais ou menos cacetes. E de repente, na Esplanada do Castelo, reparo nesta coisa simples: estou feliz.

Não me acontece nada de especial; minha felicidade é gratuita, deriva destas coisas simples: o céu está azul, o sol está louro, eu estou andando na rua. Meu sapato é confortável, minha roupa está limpa, meu corpo está bem.

Passa uma menina com uma fita nos cabelos; em um terreno livre há um grupo de mecânicos que aproveitam a hora do almoço para um bate-bola. A bola vem para o meu lado; devolvo-a com um chute, e meu chute é certo, e é saudado com um “oba!” por um dos homens de macacão, que pega a bola com a cabeça. Estou definitivamente feliz. Meus problemas de dinheiro, minhas tristezas, minhas aflições, nada tem importância. Posso amar a quem não me liga, fazer o que me desgosta, não fazer o que queria – mas neste momento sou apenas um animal feliz; o dia está lindo e eu estou andando com prazer de andar. Sou um animal feliz. E meu chute foi bonito.

Passa um navio branco, muito grande, bojudo

Passa um navio branco, muito grande, bojudo; vem do sul. Com certeza vai entrar na baía. Vai entrar todo de branco, abrindo asas de branca espuma, desenrolando no ar, como um penacho feliz, um rolo de fumaça branca. O convés está cheio de gente que olha as praias, o casario, as montanhas. Sede felizes! Este é o desejo íntimo que nos dá, dizer a esses forasteiros que pela primeira vez entram em nossa baía, entre as montanhas azuis; dizer alto: aqui é o Rio de Janeiro, é a nossa bela cidade; é para vós que ela hoje brilha ao sol; sede felizes!

E ter inveja dos que chegam pela primeira vez, vindos do mar, ao Rio de Janeiro.

debruçados sobre as fotografias em cores

Porque em nossa infância, no interior, não se dizia: Rio. Foi de repente que surgiu essa moda, as pessoas que vinham e voltavam dizia apenas com intimidade – Rio.

Mas nós, debruçados sobre as fotografias em cores e os presentes que nos levavam, nós dizíamos, com ar de sonho e um tom de respeito: Rio de Janeiro.

20.10.16

HISTÓRIA DO RIO DE JANEIRO, de STANISLAW PONTE PRETA


A coisa começou no século XVI, pouco depois que Pedro Álvares Cabral, rapaz que estava fugindo da calmaria, encontrou a confusão, isto é, encontrou o Brasil. Até aí não havia Rio de Janeiro.

Depois em 1512 – segundo o testemunho ocular de Brício de Abreu – rapazes lusitanos que estavam esquiando fora da Barra, descobriram uma baía muito bonita e, distraídos que estavam, não perceberam que era baía. Pensaram que era um rio e, como fosse janeiro, apelidaram a baía de Rio de Janeiro. Eis, portanto, que o Rio já começou errado.

Passaram-se os anos, os portugueses não deram muita bola pra descoberta, e vieram uns franceses intrusos e se alojaram na baía. Foi então que os portugueses abriram os olhos e, ao mesmo tempo, abriram fogo contra o invasor, chefiados por um destemido cavalheiro que atendia pelo nome de Estácio de Sá (onde mais tarde se fundaria a primeira escola de samba, mas isso foi depois). Estácio era sobrinho de Mem de Sá, ex-governador geral e primo de Salvador de Sá, que mais tarde viria a governar a cidade. É interessante notar que, muito tempo depois, quem descer pela Rua Mem de Sá, vai dar na Rua Salvador de Sá que, por sua vez, passa pelo Largo do Estácio, também de Sá. 

Quando os comandados de Estácio de Sá iniciaram a batalha contra os franceses, a coisa foi dura e só se resolveu numa derradeira batalha travada na Praia de Uruçumirim. Para vencer tiveram de suar a camisa e é por isso que, mais tarde, a Praia de Uruçumirim ficou sendo a Praia do Flamengo, o célebre Flamengo que, por tradição, sua a camisa até hoje. Isso aconteceu aí pelo ano de 1567 e estava fundada a cidade do Rio de Janeiro, a mesma que viria a ser, em 1763, capital do vice-reinado, e depois capital da República dos Estados Unidos do Brasil. 

A cidade foi construída sobre alagadiços e a brava gente, que a construiu, secou tão bem os alagadiços que até hoje está faltando água. Quando, em 1763, foi considerada capital do vice-reinado, a cidade tinha somente 30 mil habitantes natos e mais, naturalmente, o Brício de Abreu, que não nasceu aqui, mas em Paris, de onde veio ainda pequenino no vapor Provence

Daí por diante o Rio de Janeiro foi crescendo, foi crescendo, foi crescendo e ... pimba! estourou. E, como tudo que estoura, abriu buraco pra todo lado.

Tal é, em resumo, a história do Rio de Janeiro, que foi descoberto por portugueses navegadores e que portugueses do comércio atacadista da Rua Acre querem levar para Portugal. Daí o velho ditado de Tia Zulmira: “Cabral descobriu o Brasil e Manoel quer carregar”.

Não é, como o leitor mais arguto pouquinha coisa pôde perceber, uma história tão brilhante assim, como pretandem as letras dos sambas apoteóticos. 

Do livro Tia Zulmira e Eu. Stanislaw Ponte Preta foi o pseudônimo sob o qual Sérgio Porto escrevia suas impagáveis crônicas, figurando personagens como Tia ZulmiraPrimo Altamirando. Disse ele: "Quando inventei o pseudônimo Stanislaw Ponte Preta foi justamente para que o Stan não prejudicasse o Sérgio. Isto é, eu, Sérgio, queria escrever coisas sérias, o Stanislaw deveria abordar — na qualidade de jornalista — assuntos inconsequentes, tais como mundanismo, divertissement." Ilustração  superior de Alcy Linares.

15.9.16

A PAIXÃO RENASCE, de Flávia Oliveira

"O Rio é amor bandido"

CRÔNICA PUBLICADA ORIGINALMENTE NO JORNAL O GLOBO DE 4/8/2016, UM DIA ANTES DA ABERTURA DOS JOGOS OLÍMPICOS

O meu lugar, peço licença ao mestre Arlindo Cruz, é repleto de seres de luz — e de espíritos das trevas, especialmente entre os que o governam. É acolhedor, mas sabe ser brutal. É brutal, mas acolhedor como poucas metrópoles do mundo. Eu nasci, cresci e escolhi viver no Rio de Janeiro. Daqui não saio. Nem se o prefeito Eduardo Paes perder a paciência numa rede social e me mandar embora. Nem se os inomináveis — sim, há mais de um candidato abaixo da crítica — assumirem o Piranhão em 2017. (Aos não iniciados em carioquice, é esse o apelido da sede da prefeitura, erguida numa velha área de prostituição.)

O Rio nos maltratou às vésperas dos primeiros Jogos Olímpicos na América do Sul, que começam oficialmente amanhã. A violência urbana fugiu do controle. O aparato de repressão asfixiou comunidades populares em atitude tão inaceitável quanto habitual. No segundo trimestre, a polícia matou 124 pessoas na cidade; só em junho, foram 49 homicídios, o dobro do registrado no mesmo mês de 2015. Ainda ontem de manhã, o Complexo do Alemão padecia com mais um confronto entre policiais e traficantes.

Não foi à toa que a Anistia Internacional Brasil lançou a campanha “A violência não faz parte desse jogo”, para denunciar violações de direitos humanos na cidade olímpica. Um documento cobrando treinamento e abordagens adequados pelas forças de segurança, respeito à liberdade de manifestação pacífica, investigações imparciais e independentes e assistência a vítimas foi assinado por 120 mil pessoas e entregue ao Comitê Rio 2016. No mês passado, estreou o aplicativo Fogo Cruzado, um mapa colaborativo sobre ocorrência de tiroteios e confrontos. Em um mês, houve mais de 600 relatos.

Em sete anos de preparação para os Jogos, o Rio tampouco foi capaz de avançar na agenda ambiental, que prometia despoluir a Baía de Guanabara e as lagoas de Jacarepaguá. As competições de vela vão ocorrer num cenário livre apenas do lixo aparente, recolhido por balsas. E só Deus sabe o que pode acontecer se chover.

Os investimentos em mobilidade urbana não livraram a cidade de megaengarrafamentos na semana derradeira. Foram 120 quilômetros de puro estresse na última segunda-feira e 200, na terça. A circulação inviável levou à decretação do quarto feriado municipal durante a jornada olímpica, para desespero do empresariado ante ao efeito do expediente interrompido na atividade econômica. Todos esses passivos são conhecidos, merecem críticas e exigem mobilização permanente da sociedade carioca. A cidadania participativa do novo século não aceita o estelionato eleitoral nem se contenta com as realizações possíveis. O anseio é pela cidade ótima; e as autoridades têm de aprender a lidar com isso.

Mas a festa está na rua e o meu lugar, engalanado, é bonito como nenhum outro. Quando o clima de celebração se instala, a paixão renasce. As fotos lindas de todos os cantos da cidade que pipocam nas redes sociais são a prova. Difícil imaginar cenário mais bonito para uma competição esportiva, do Leme ao Pontal, da Lagoa ao Maracanã, do Centro a Deodoro.

As delegações estrangeiras, que desembarcam aos milhares com uniformes coloridos e smartphones em punho, estão a nos escancarar o significado dos Jogos. Os suíços tomaram a Lagoa; os franceses, a Hípica. A Dinamarca ocupou Ipanema; a Itália, a Barra. O CCBB abriu espaço para a magnífica exposição de obras dos museus D’Orsay e L’Orangerie, de Paris. Os mexicanos montaram uma mostra arqueológica e uma exposição audiovisual sobre Frida Kahlo no Museu Histórico Nacional. O “Abaporu”, obra-prima brasileira hoje no acervo do Malba argentino, migrou para o MAR. Virou capital do mundo o meu lugar.

O jamaicano Usain Bolt, multicampeão olímpico e mundial do atletismo, está treinando em instalações da Marinha, na Avenida Brasil. O igualmente laureado Michael Phelps, americano da natação, está na área. Simone Biles, fenômeno da ginástica artística dos EUA, e nosso Arthur Zanetti, o homem das argolas, também. A seleção bicampeã do vôlei feminino, orgulho nacional, vai brigar pelo tri. E vai que a seleção de futebol desencanta...

O povo do samba foi escalado e entrará em campo (viva!) na cerimônia de abertura e em programação intensa na região portuária revitalizada. Anteontem, os boêmios do Sat’s festejavam a vitoriosa campanha #agnaldoolimpico, que conseguiu fazer do garçom e churrasqueiro do bar de Copacabana um dos condutores da tocha. O Comitê Rio 2016 formalizou o convite após saber do flashmob etílico, que percorreu com um arremedo de chama olímpica 13 botequins do bairro. Mais carioca, impossível.

O Rio maltrata, mas é lindo. É lindo, mas maltrata. O Rio é cigarra; a gente intui o inverno de escassez, mas não resiste à cantoria do fim das tardes de verão. O Rio é amor bandido, é filho pródigo. A gente puxa a orelha e belisca; se emociona e acolhe. Me abraça, meu Rio.

LEIA TAMBÉM NOSSA MATÉRIA SOBRE AS OLIMPÍADAS CARIOCAS CLICANDO AQUI.

1.3.16

AQUI ESTÁ, de ÁLVARO MOREYRA


A terra carioca tem o tempo de vida contado às avessas. Os anos vão passando, ela vai ficando mais nova. Quem a procura, na lembrança dos dias coloniais, encontra uma velhinha tristonha, de nome cristão e vista fatigada, em frente ao mar... Cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro. Durante a permanência de D. João VI, a velhinha desaparece. E lá está, entre os uivos da rainha doida e os primeiros lampiões urbanos, uma grave matrona, vestida sem gosto nenhum... Com d. Pedro I, ei-la chegada ao outono, já bem-posta, aparecendo nas igrejas, nos salões, no teatro... A Regência deixa-a na mesma idade. Pelo meio do Segundo Império, ela rejuvenesce escandalosamente... Quando se proclamou a República, andava a terra carioca nos seus vinte anos... De então para hoje, ficou assim... Menina e moça, pouco a pouco se desembaraçou, perdeu o ar acanhado, quis viver... O corpo tomou o ritmo das ondas, a graça das árvores esguias. Tem um resto de sonho nos olhos, o voo de um desejo alegre nas mãos... Mulher bem mulher, a mais mulher das mulheres... Conhece o presente. Adivinha coisas deliciosas do futuro. Mas, não lhe falem em datas, épocas, feitos, criaturas do passado... Não lhe falem, que se atrapalha. Em compensação, enumera todos os costureiros e chapeleiros de Paris... diz de cor a biografia de todos os artistas de cinema... entende de sports como ninguém entende... Conversa em francês, inglês, italiano, espanhol... Ama os poetas... Toma chá, com furor... E dança tudo... É linda!

Crônica extraída do livro Álvaro Moreyra A Cidade Mulher publicado em 1923

19.8.13

LOUVAÇÃO À CIDADE MARAVILHOSA, de Rogel Samuel


Louvo o Padre, louvo o Filho 
E louvo o Espírito Santo.
Louvado Deus, louvo o santo
De quem este Rio é filho.

Cantou Bandeira. Depois do auge das passeatas, depois do Papa Francisco, depois do frio polar (para nós), o Rio de Janeiro lentamente está voltando a ser o que era dantes, a cidade maravilhosa, porque o sol voltou a brilhar.


Louvo o santo padroeiro
– Bravo São Sebastião –
Que num dia de janeiro
Lhe deu santa defensão.

Esta cidade tem de ter sol, para viver. Como planta. O povo desta cidade não sorri se a chuva ou o vento lhe bate à porta. Ele não atende, não abre.


Louvo a Cidade nascida
No morro Cara de Cão,
Logo depois transferida
Para o Castelo, e de então
Descendo as faldas do outeiro,
Avultando em arredores,
Subindo a morros maiores
— Grande Rio de Janeiro!

No Morro Cara de Cão, onde moro, o Rio é sol, é mar, é chope, é lugar comum. Eu sou um amazonense bem carioca, bem nascido nas ruas e praias, que já cantou o pernambucano Manuel Bandeira, na “ Louvação à Cidade do Rio de Janeiro”.


Cidade de sol e bruma,
Se não és mais capital
Desta nação, não faz mal:
Jamais capital nenhuma,
Rio, empanará teu brilho,
Igualará teu encanto.
Louvo o Padre, louvo o Filho
E louvo o Espírito Santo.



O sisudo, o tímido Machado de Assis escrevia: “É meu costume, quando não tenho que fazer casa, ir por esse mundo de Cristo, se assim se pode chamar à cidade de São Sebastião, matar o tempo. Não conheço melhor ofício, mormente se a gente se mete por bairros excêntricos; um homem, uma tabuleta, qualquer basta a entreter o espírito, e a gente volta para casa 'lesta e aguda', como se dizia em não sei que comédia antiga”.


O Gilberto Gil mandou aquele abraço e disse:

O Rio de Janeiro
Continua lindo
O Rio de Janeiro
Continua sendo
O Rio de Janeiro
Fevereiro e março


Mesmo José de Alencar, o homem de seu mar, escreveu: “A cidade do Rio de Janeiro, com seu belo céu de azul e sua natureza tão rica, com a beleza de seus panoramas e de seus graciosos arrabaldes, oferece muitos desses pontos de reunião, onde todas as tardes, quando quebrasse a força do sol, a boa sociedade poderia ir passar alguns instantes numa reunião agradável, num círculo de amigos e conhecidos, sem etiquetas e cerimônias, com toda a liberdade do passeio, e ao mesmo tempo com todo o encanto de uma grande reunião... temos na Praia de Botafogo um magnífico boulevard como talvez não haja um em Paris, pelo que toca à natureza. Quanto à beleza da perspectiva, o adro da pequena igrejinha da Glória é para mim um dos mais lindos passeios do Rio de Janeiro."


Alô, alô, Realengo
Aquele Abraço!
Alô torcida do Flamengo
Aquele abraço
Alô moça da favela
Aquele Abraço!
Todo mundo da Portela
Aquele Abraço!
Todo mês de fevereiro
Aquele passo!
Alô Banda de Ipanema
Aquele Abraço!


E Pedro Nava, famoso morador da Glória, comentou: “Flanar nas ruas do Rio é prazer refinado. Exige amor e conhecimento. Não apenas o conhecimento local e o das conexões urbanas. É preciso um gênero de erudição. É preciso saber colocar os pés nos locais de Matacavalos onde pisou Osório, na calçada de São Clemente onde andou Tamandaré, nesta Glória onde perpassou o vulto de Capitu — na geografia citadina real e imaginária, no Rio velho de Manuel Antônio de Almeida, Alencar, Macedo, Artur e Aluísio — irmãos Azevedo; de Lima Barreto, João do Rio, Marques Rebelo, Drummond.


Machado, em A mão e a luva, descreve e comenta: “A Corte divertia-se, apesar dos recentes estragos do cólera —; bailava-se, cantava-se, passeava-se, ia-se ao teatro. O Cassino abria os seus salões, como os abria o Clube, como os abria o Congresso, todos três fluminenses no nome e na alma. Eram os tempos homéricos do teatro lírico, a quadra memorável daquelas lutas e rivalidades renovadas em cada semestre, talvez por um excesso de ardor e entusiasmo, que o tempo diminuiu, ou transferiu, — Deus lhe perdoe, — a coisas de menor tomo."


No dia da libertação do escravos, disse Lima Barreto que fazia sol: “Havia uma imensa multidão ansiosa, com o olhar preso às janelas do grande casarão. Afinal a lei foi assinada e, num segundo, todos aqueles milhares de pessoas o souberam. A princesa veio à janela. Foi uma ovação: palmas, acenos com lenço, vivas... Fazia sol e o dia estava claro. Jamais na minha vida, vi tanta alegria. Era geral, era total; e os dias que se seguiram, dias de folganças e satisfação, deram-me uma visão da vida inteiramente de festa e harmonia”.


Assim penso que é uma glória o simples estar nas ruas dessa cidade que a todos acolhe. E assim a cantou numa bela manhã de praia Carlos Drummond Andrade:

Umidade de areia adere ao pé.
Engulo o mar, que me engole.
Valvas, curvos pensamentos, matizes da luz
azul
completa
sobre formas constituídas.
Bela
a passagem do corpo, sua fusão
no corpo geral do mundo.
Vontade de cantar. Mas tão absoluta
que me calo, repleto.


Bilac escreveu: “Num dos últimos domingos vai passar pela Avenida Central um carroção atulhado de romeiros da Penha; e naquele boulevard esplêndido, sobre o asfalto polido, entre as fachadas ricas dos prédios altos, entre as carruagens e os automóveis que desfilavam, o encontro do velho veículo em que os devotos urravam, me deu a impressão de um monstruoso anacronismo”.


Louvo o Padre, louvo o Filho
E louvo o Espírito Santo.
Louvado Deus, louvo o santo
De quem este
Rio é filho.



Crônica publicada originalmente na coluna quinzenal de Rogel Samuel no site de cultura Blocos. Fotos do editor do blog tiradas, respectivamente: 1) numa banca de jornais, 2) Centro, 3) Praça São Salvador (detalhe do chafariz), 4) Praia de Copacabana (calçadão), 5) Santa Teresa (chácara do Viegas), 6) idem (vista do Parque das Ruínas), 7) Copacabana (pião), 8) Museu Histórico Nacional (boca do leão), 9) Inhaúma (São Jorge), 10) Lins (antiga Fundição Cavina), 11) Santa Teresa (bondinho), 12) Botafogo (ruína), 13) idem (Consulado de Portugal), 14) descida de Santa Teresa para a Glória (Pão de Açúcar e favela Santo Amaro) e 15) Parque de Madureira.  

13.4.13

TAMOIOS NO ARPOADOR





Texto de Zuenir Ventura publicado originalmente no encarte "Aniversário do Rio" de O Globo de 1o de março de 2013 e reproduzido com a gentil permissão do autor.

Aconteceu neste verão. Convidado a escrever sobre um canto do Rio, escolhi o Arpoador, porque de lá se costuma desfrutar deslumbrantes entardeceres. Os termômetros marcavam quase 40º, com a sensação térmica beirando os 50º. Sentado nas pedras, apreciava o sol refletir com tal intensidade sobre o mar espelhado que devo ter experimentado aquela ilusão ótica que no deserto se chama miragem. A gente entra num clima onírico e acredita ver o que não existe. De repente, senti uma urgência febril de dividir aquele espetáculo mágico com alguns personagens que cantaram e encantaram o Rio. A primeira aparição foi de Millôr, que veio correndo pela areia, como sempre fazia. Passou pelo largo que agora leva o seu nome, subiu até onde eu estava e repetiu uma de suas geniais definições: “O pôr do sol é de quem olha”. Em seguida, foi a vez de Tom e Vinicius, que atravessaram o Parque Garota de Ipanema carregando o violão. Tinham acabado de acordar, após uma longa noite de boemia. Finalmente, vindo de Copacabana, chegou Oscar Niemeyer, trazendo nos olhos as curvas das mulheres e dos morros cariocas com que fez sua arquitetura.

Como não podia deixar de ser, a conversa girou em torno dessa cidade solar, sensual, exibida que nasceu para ser musa. Falou-se principalmente do narcisismo de quem desde pequena se habituou aos elogios. Era ainda uma criança quando um de seus adoradores, o primeiro governador-geral Tomé de Souza, se desmanchou: “Tudo é graça o que dela se pode dizer”. Alguém lembrou que até os religiosos lançaram sobre ela olhares profanos: “É a mais airosa e amena baía que há em todo o Brasil”, suspirou o padre Anchieta, inteiramente catequizado. Seu colega da Companhia de Jesus, o padre Fernão Cardim, sentiu o mesmo: “É coisa fermosíssima e a mais aprazível que há em todo o Brasil”.

Estimulado pela exuberância sensorial daquela tarde, resolvi corrigir Vinicius, que dizia que ser carioca é um estado de espírito. Acho que é mais. Não se trata apenas de alma, mas de corpo e alma. Ama-se a cidade com todos os sentidos, a começar pelos olhos. Olha que coisa mais linda uma garota de Ipanema a caminho do mar. Ela vai se molhar e se estender nas areias para dourar seu copo quase nu. Segundo Tom, que transformou em música tudo isso, esse rito hedonista, quase erótico, é uma herança de nossos antepassados tamoios, que nos ensinaram a curtir a água, o corpo, a música e a dança.

O sol já estava sendo rendido no seu plantão diário, e os banhistas noturnos começavam a estender suas cangas na areia para o mais novo modismo deste verão: o banho de lua. Foi quando chegou Cazuza para fazer parte do show. Antes de dar um mergulho, cantou: “Vago na lua deserta das pedras do Arpoador”.

Nunca me senti tão tamoio quanto nesse fim de tarde, início de noite nas pedras mágicas do Arpoador.

23.3.13

O IMPREVISTO E O INESPERADO, de Teresa Souza

Frescão é um meio de transporte muito confortável e que adoro.
Dá para colocar a agenda em dia, verificar extratos, acertar a sobrancelha, ler o jornal, cochilar no ar condicionado, etc. etc. etc.
Coisas  simples e que geralmente não conseguimos tempo para fazer ao longo do dia.
Quando eu chegava ao Centro da cidade, um telefonema anunciando um imprevisto cancelou o meu compromisso. 
E agora? Eram 10 horas da manhã e eu só precisava estar em Ipanema às 13. O que fazer?
Descer do ônibus e voltar para o Jardim Botânico? Nada disso.
Resolvi me divertir no Centro do Rio e fazer coisas que normalmente só fazemos em países distantes.

Desci na rua 1º de março e a Igreja do Carmo estava aberta!
Só entrei lá em criança em algum casamento de família.
Como é linda! Enorme!
Pouquíssimas pessoas em um silêncio sepulcral à meia-luz.
Um som bem baixinho onde Roberto Carlos, o rei, cantava uma canção religiosa.
Sentei e me pus a observar: as imagens, a construção, os vitrais, as cúpulas, o altar, o silêncio. O silêncio.
Fiz uma oração e saí feliz continuando o meu caminho.


Seguindo em frente lembrei, graças a Deus e à Igreja do Carmo, da exposição sobre Leonardo Da Vinci na Casa França Brasil a poucos metros dali.
Que homem genial! Que sensibilidade, que arte maravilhosa.
Descobri que Da Vinci é sépio. A exposição é toda cor sépia. 
As imagens, os papéis, os objetos, os códices.
Ele disse: “Quando o espírito não trabalha com a mão, não existe arte.” 

Saí de lá uma pessoa melhor, muito melhor. 
Saí de lá emocionada pela oportunidade de ter visto o que vi.


Quando me dirigia para o metrô percebi que a Igreja da Candelária também estava com as portas abertas. Seria um sinal divino?
Ia ter uma missa meio-dia e meia.  
Vi os desenhos pintados na calçada dos meninos mortos na chacina. 
Vi a cúpula mais bonita de todas.
Ouvi um órgão gregoriano.
Vi o tapete vermelho enrolado em um grande carretel. 
Vi o padre com seu manto branco arrumar o altar.

Me benzi e me retirei.
Abençoada por Deus e Da Vinci.


Texto do livro de crônicas Palavra Carioca reproduzido com autorização da autora. O livro está à venda na livraria da Casa de Cultura Laura Alvim. Visite o blog da autora O Rio Que Eu Piso.

4.3.13

A CIDADE SUSPENSA

Texto de J. P. Cuenca publicado originalmente no encarte "Aniversário do Rio" de O Globo de 1o de março de 2013 e reproduzido com a gentil permissão do autor.
Fotos de ruínas e prédios dilapidados no Rio do editor do blog.


A primeira lembrança que tenho da vida e do Rio é a dos meus pés de criança se equilibrando sobre uma casa demolida. Vejo pedras e tijolos entre o emaranhado de canos inúteis, alcanço uma pia branca de cabeça pra baixo — seu apoio comprido de louça desponta entre as ruínas como uma garça que estica o pescoço num lamaçal.

Quando encontro no chão o adesivo colado na janela do meu quarto, finalmente reconheço a casa onde vivi. O plástico, meu rosebud, diz em letras garrafais: "FIORUCCI".

Isso foi em 82 ou 83. A Vila Palácio ficava na Rua Silveira Martins, no Catete. Da nossa casa, a única em que meus pais viveram juntos, só lembro das ruínas. Ela foi posta abaixo para dar lugar a um prédio cinza de dois blocos e onze andares. Em alguns anos, quando já estivermos todos mortos, a Vila Palácio do Catete não fará parte da memória de ninguém. Como tantas outras, ficará presa na fotografia.


Outro endereço simbólico da minha infância, um prédio de três andares sobre o Luna Bar, também foi demolido para dar espaço a um retângulo negro de vidro no Leblon. Nessa gangorra imobiliária, até hoje tive 13 diferentes endereços no Rio. Sou um privilegiado: ao contrário dos cariocas que encontraram na sua porta as marcas do Príncipe Regente em 1808 ou da Secretaria municipal de Habitação em 2012, nunca fui expulso de forma humilhante e minha propriedade nunca foi criminosamente confiscada pelo Estado.

Caminho pelo Catete e penso na palavra pentimento, que em italiano significa arrependimento, mas que tem outra acepção em artes plásticas. Em um quadro, o pentimento é formado por esboços e versões anteriores da obra, muitas vezes detectadas em exames de raio-x. É um registro da mudança de ideia do pintor, que resolve trocar um braço de posição, apagar um personagem, ou até mudar completamente a pintura.


O nosso pentimento, que infelizmente não surge das mãos de um artista, é esse conjunto de casas, prédios, bares e cinemas fantasmas que enxergo por toda a parte. Não estou só: o poeta Manuel Bandeira escreveu em 1942 sobre sua casa demolida no Beco do Rato: "Vão demolir esta casa./ Mas meu quarto vai ficar, / Não como forma imperfeita / Neste mundo de aparências: / Vai ficar na eternidade, / Com seus livros, com seus quadros, / Intacto, suspenso no ar!" 

A experiência dessa cidade, da fundação ao seu 448º aniversário, é baseada nesse desprendimento radical ao patrimônio e na nostalgia que ele nos causa. Aqui, o tempo é sempre hoje. No Rio, a história acaba e recomeça todos os dias — muitas vezes sobre o entulho de uma casa demolida.








ANEXO: Documentário de Francisco Daudt (editado por Tita Berredo) sobre as casas demolidas no Cosme Velho.

1.3.12

DECLARAÇÃO UNIVERSAL DE AMOR AO RIO de Orlando Machado Sobrinho (Machadão)


Rio
Cidade Maravilhosa
Morada do sol, parque da alegria
Paraíso de tentações e prazeres
Alvas praias, morros verdejantes
Visão que deslumbra os visitantes
Apaixonados pelo teu ser


Rio
Fácil de dizer em todas as línguas
Crepúsculo divinal da Ave Maria


Rio
Cariocas de todas as raças
Paraíso da Paz universal
Rio sonho de ternura
Paixão cristalizada na espuma
Das ondas que noite e dia
Beijam Copacabana


Rio
Cidade em festa Pão de Açúcar
Santuário do Cristo Redentor
Rio alma sentida, dentro do meu coração
Amo quem ama o meu, o teu, o nosso Rio
Rio de Janeiro
Não existe outro igual



3.2.12

NOS PROTEJA SÃO SEBASTIÃO: PADROEIRO DA CIDADE DO RIO

Nireu Cavalcanti (arquiteto e historiador – professor da Pós-Graduação da UFF e autor de O Rio de Janeiro Setecentista)




Hoje, 30 de janeiro, voltei ao local da tragédia ocorrida na Rua Treze de Maio para, silenciosamente, abraçar as luzes dos tragados pela incúria humana.
Ao me aproximar do local, pela direção do Largo da Carioca, avistei uma imagem dantesca que me pareceu serem as vítimas penduradas e deixadas como testemunhas da tragédia.


No âmago do sítio, envolvido pelo cenário angustiante, senti a mensagem de vida nas folhas ondulantes da árvore e no majestoso teatro Municipal intacto, com pequenas marcas de estilhaços em algumas vidraças.
Lembrei-me da história de nossa cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro e do feito de seu padroeiro em defesa de Estácio de Sá e de seus bravos guerreiros, que caíram numa cilada dos inimigos Tamoios. Era final de tarde de um dia de julho de 1566 e, estando em quatro canoas, os nossos fundadores partiram em perseguição a outras tantas inimigas.
De repente, surgiram por detrás do Morro da Viúva inúmeras canoas repletas de guerreiros Tamoios ― os cronistas da época afirmam ser 180. Nesse momento, surgiu à frente da pequena tropa de Estácio de Sá um jovem guerreiro iluminado e fez explodir a pólvora que uma das canoas inimigas carregava, levando-os ao pavor e à fuga.
Por muitos anos, foi comemorado esse feito milagroso chamado “Guerra das Canoas” no dia 20 de janeiro. Na Baía de Guanabara havia desfile de embarcações e espetáculo de guerra teatral entre algumas escolhidas.
Chamou a minha atenção a proximidade do Teatro Municipal aos prédios que ruíram e se tivessem tombado sobre ele, nada restaria da nossa jóia do Patrimônio carioca.
Pensei ― foi São Sebastião que ficou entre esses prédios e salvou-o!

Deixando essas “lendas históricas” com os nossos antepassados, podemos buscar na história carioca as tragédias que abalaram a cidade e as causas possíveis que as provocaram, ou contribuíram para que ocorressem. Para isso, buscarei as crônicas de Vieira Fazenda, escritas em jornais da época (1896-1914), inestimável legado para a história da cidade e da sociedade, em sua obra Antiqualhas e memórias do Rio de Janeiro, editada, em cinco volumes, pelo Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro.


        Vejamos dois exemplos de como o Poder público e os usuários da cidade, agindo contra o interesse coletivo e com equivocadas opções urbanísticas, geram problemas como esse do desmoronamento de três prédios, no centro da cidade do Rio de Janeiro.
         A origem de muitos dos problemas atuais de nossa cidade, decorre da incorreta ocupação do seu território pelos primeiros povoadores, e com anuência dos governantes, e continuada ao longo dos anos seguintes.
O centro atual da cidade foi construído numa zona alagadiça, com várias lagoas perenes, imenso manguezal e cortada por vários rios, riachos e córregos que se formavam com as chuvas torrenciais. Além de ser essa área plana, quase ao nível do mar da Baía de Guanabara e situar-se entre os morros isolados do Castelo (demolido em 1922) que abrigava o núcleo histórico da cidade, de São Bento (desbastado), de Santo Antônio (desbastado quase em sua totalidade), de Nossa Senhora da Conceição (desbastado) e do Senado (demolido) e dos morros contínuos da Serra da Carioca (Santa Tereza, Catumbi, Estácio e Rio Comprido), Santo Cristo, Saúde e Gamboa.
A ocupação dessa área deveria ser entre malha de canais a céu aberto, tipo Amsterdã. No entanto, a opção de nossos antepassados governantes e de sua população foi desbastar ou demolir os morros e aterrar as áreas molhadas. Criaram o território ideal para os alagamentos e desabamentos de encostas a cada chuva torrencial.
Vieira Fazenda cita as chuvas ocorridas em 14 de abril de 1756, que alagaram as ruas, transformando-as em rios navegáveis por canoas, sendo a mais violenta delas a ocorrida nos dias 10 a 17 de fevereiro de 1811. Além do alagamento de toda a cidade, parte do Morro do Castelo desabou sobre as casas do Beco do Cotovelo, que ficava em seu sopé, destruindo a maioria delas. Desabou também parte da barreira do Morro de Santo Antônio, na proximidade da atual Rua Treze de Maio. Entre os mortos nessa tragédia estava o famoso bêbado da cidade Bitu, motivo de chacota da garotada moradora nas redondezas do Morro do Castelo.
O autor ainda registra o “dilúvio” que caiu sobre a cidade, como a anunciar o fim do mundo, às 15h30 do dia 10 de outubro de 1864. Caíam pedras de gelo do “tamanho de avelãs” em tanta quantidade que as ruas ficaram cobertas. Destruiu várias edificações e destelhou todo o prédio onde funcionava a Fábrica de Gás, existente na atual Avenida Presidente Vargas. Esse problema se agravou com o adensamento de construções e a falta de educação da população, que joga nos logradouros e cursos de água lixo e outros dejetos.
Muitas edificações também eram destruídas pelo fogo, em função do sistema perigoso de iluminação com velas, pelo uso de combustível à base de óleo de baleia, principalmente, o gás (a partir de 1854) etc. e o uso de muita madeira nas construções. A Câmara de Vereadores chegou a estabelecer a proibição do uso do pinho-de-riga, em estrutura, piso e telhados por considerar essa madeira muito vulnerável ao fogo.
Nas construções recentes, a origem de muitos incêndios está na sobrecarga das instalações elétricas, na impropriedade dessas instalações com o uso de materiais inadequados e misturas de redes que deveriam ser separadas, como eletricidade e gás. Contribui para aumento e propagação desses sinistros a quantidade de objetos, revestimentos decorativos, móveis etc. de material inflamável como plásticos, papel, madeira e outros.

Poder público, construtores e empreendedores de edificações              

Quando os administradores públicos não governam visando os interesses coletivos e a qualidade de vida da população urbana, principalmente no caso de megalópoli como o Rio de Janeiro, o espaço urbano gerado torna-se o lodaçal apropriado à proliferação desses seres desumanos que exploram a cidade.
A legislação urbanística e edilícia da cidade do Rio de Janeiro, em sua essência, é para servir a especulação imobiliária e punir a Classe Média trabalhadora, que tem endereço, que paga IPTU e todas as demais taxas municipais ― incêndio, iluminação dos logradouros etc. Para ela, o rigor da Lei e para os seus extremos ― os pobres que vivem em áreas de risco (por falta de opção) e os ricos ―, a benesse da omissão do poder público.
Vejam os acréscimos nos edifícios da orla da Zona Sul ― quantos andares foram construídos, acima do último pavimento! Depois regularizam esses acréscimos através da “mais-valia”.
É o caso do edifício Liberdade (o mais alto), que era escalonado nos últimos andares e a Prefeitura aprovou acrescê-los até a fachada voltada para a Rua Treze de Maio.
A Legislação municipal (desde o Código de 1937) incentiva a verticalização das edificações, construídas coladas umas às outras, prejudicando a circulação do ar, a insolação dos cômodos e permite o tapamento dos acidentes geográficos (caso do Morro da Viúva) que formam a bela paisagem carioca. Sem falar que, no período de construção desses espigões, os prédios vizinhos são danificados, gerando eternos conflitos de indenizações que se arrastam anos a fio.
Essas barreiras arquitetônicas são focos de propagação de sinistros, como ocorreu no caso dos três prédios. Devemos lembrar que o Teatro Municipal escapou por ter uma rua separando-o dos demais e porque os prédios ruíram sem inclinar em sua direção.
Ou mudamos esse conluio pernicioso entre o poder público e os exploradores da cidade, ou teremos que apelar, como fez Estácio de Sá, para a proteção de São Sebastião.



As duas fotos do meio foram cedidas pelo autor do artigo; a da estátua de São Sebastião na Glória e a última foram tiradas pelo editor do blog.