ENSEADA DE BOTAFOGO

ENSEADA DE BOTAFOGO
"Andar pelo Rio, seja com chuva ou sol abrasador, é sempre um prazer. Observar os recantos quase que escondidos é uma experiência indescritível, principalmente se tratando de uma grande cidade. Conheço várias do Brasil, mas nenhuma tem tanta beleza e tantos segredos a se revelarem a cada esquina com tanta história pra contar através da poesia das ruas!" (Charles Stone)

VISTA DO TERRAÇO ITÁLIA

VISTA DO TERRAÇO ITÁLIA
São Paulo, até 1910 era uma província tocada a burros. Os barões do café tinham seus casarões e o resto era pouco mais que uma grande vila. Em pouco mais de 100 anos passou a ser a maior cidade da América Latina e uma das maiores do mundo. É pouco tempo. O século XX, para São Paulo, foi o mais veloz e o mais audaz.” (Jane Darckê Avelar)
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10.12.19

SÃO PAULO, crônica de CYRO DE MATTOS


(Para Samuel Penido - em memória)

O Brasil é uma nação com várias nações dentro de seu território de dimensões continentais. Encontramos em São Paulo todas essas nações brasileiras com pessoas vindas dos lugares mais distantes do País. Nessa cidade com uma superpopulação sempre crescente ouvimos, diariamente, vozes estranhas, costumes vindos de povos que possuem tradições das mais singulares.

costumes vindos de povos que possuem tradições das mais singulares


O homem do interior que pisa pela primeira vez nessa aldeia global fica como peixe fora d’água. Impressiona-se com a paisagem feita de cimento e aço, de grandes edifícios, que buscam as nuvens mais altas. No asfalto, pneus cantam, o homem passa anônimo e veloz nessa forja gigantesca que nunca descansa.

Corre no tempo que nessa cidade trabalho e dinheiro andam de mãos dadas. O homem aqui tem que ganhar dinheiro com unhas e dentes numa maratona suicida. O coração financeiro da cidade é a Avenida Paulista com o seu modo intenso de estipular o mundo.

de grandes edifícios, que buscam as nuvens mais altas

Riqueza e pobreza são vizinhas em São Paulo. Ao céu aberto e nas galerias, elas estão juntas, vivem em seu ritmo tumultuado. Soltam fumaça nas fábricas com suas inúmeras chaminés, que tornam o sol pálido, as nuvens cinzentas e o ar que tosse constante. Prenhe de detritos, o Tietê percorre a cidade na descida triste inventada por bocas de vômito. Um rio com sua mágoa desce no curso viscoso, pulmões quase sem ar nas águas escuras, como a dizer SOS São Paulo antes tarde do que nunca.

 fábricas com suas inúmeras chaminés

Falam que o ser humano em São Paulo está prisioneiro num tempo de bruma. Diluído na multidão. É um partir que não chega, um caminhar sem parar. Hospitais, escolas, igrejas, fichários, descargas de fumaça, lá se vai o fiel habitante sem bagagem e com suas armas que comovem. Nas esquinas, bares, restaurantes, danceterias, madrugadas. Nos motéis com fumos, com cio, álcool, drogas. Colmeia gigantesca, aqui o homem tem a língua presa na sua ânsia de falar com solidariedade e doçura. Esse homem sem nome na selva de pedra. No shopping center, no subsolo, na Avenida São João, no estádio, no metrô, no supermercado, na fábrica, no elevador. O homem e seus dentes de fera naquele velho aprendizado de ter uma vida com sobras. Nessa cidade onde o povo é fluxo e refluxo em torno de si mesmo, tão luta.

O homem tão do mundo, vivendo o seu medo na cidade enevoada.

dentes de fera

Você acha um lugar ao sol na praça, onde os pombos fazem uma bela aparição. Igual à Cinelândia, no Rio de Janeiro. Os pombos fazem uma bela formação, baralham em festa tormentas, suavizando o animal insano, o desarmado pedestre, o audaz andarilho diário em seu estado de graça.


  • Cyro de Mattos é autor de mais de 50 livros, de diversos gêneros. Também editado no exterior, Do Pen Clube do Brasil e Academia de Letras da Bahia. Doutor Honoris Causa da Universidade Estadual de Santa Cruz (Bahia). Premiado no Brasil, Portugal, Itália e México. Fotos tiradas em São Paulo pelo editor do blog.

o animal insano

1.12.19

LIQUIDAÇÃO PARA ENTREGA DO PRÉDIO, crônica de OSVALDO MOLES

PUBLICADA ORIGINALMENTE NO DIÁRIO DA NOITE PAULISTANO DE 23 DE AGOSTO DE 1949


Enquanto os grandes cronistas literários da imprensa carioca têm sua memória preservada e suas obras reeditadas, o grande cronista paulistano pós-Alcântara Machado, Osvaldo Moles, praticamente caiu no esquecimento – sequer nome de rua virou. Eu mesmo só vim a descobri-lo ao ler a ótima biografia do Adoniram Barbosa escrita por Celso de Campos Jr. Além de cronista exímio, Osvaldo foi um colosso do rádio, em sua época de ouro, em que desempenhava o papel – informar, divertir, distrair – mais tarde assumido pela televisão. Osvaldo escrevia de tudo, esquetes humorísticos, programas culturais, e foi graças aos seus textos que Adoniram viveu uma grande fase como “ator” radiofônico antes de se celebrizar por seus sambas paulistanos "em linguajar popular" nos anos 1950. 

Alberto Helena Jr., em seu prefácio à biografia de Adoniran Barbosa escrita por Celso de Campos Jr., assim descreve Osvaldo Moles: “ [...] um homem da renascença moderna, com traços de enciclopedista – pioneiro da publicidade eletrônica, radialista, poeta, roteirista de cinema e cronista maior da cidade, legítimo herdeiro de Mário de Andrade, Alcântara Machado e Juó Bananere.

Aqui está uma crônica do Osvaldo publicada originalmente no Diário de Noite paulistano de 23/8/1949.

Olhar vitrinas pachorrentamente, domingueiramente, é bem um interesse, um divertimento de senhoras pobres que esperam a visita da cegonha, a única visita que pobre recebe com bolacha de água e sal. Mas, como dizíamos, espiar vitrinas, sonhar diante dos preços reduzidos pela época, é o tipo do cinema de gente sem dinheiro. Várias coisas constituem o cinema de pobre: – o bonde que passa cheio de pernas, o desenlace do trabalho nas fábricas e as vitrinas da cidade, aos domingos à noitinha.

A Rua Direita, por exemplo, já entendeu que a gente que vai lá aos domingos não é essa gente que as agências de publicidade chamam de “classe B” e de poder aquisitivo médio. Portanto, os comerciantes da Rua Direita fecham cedo suas vitrinas aos domingos, dando margem a mais um ditado das populações que invadem a rua nas noites de domingo:

– Nego num oia vitrina. Mastiga a escuridão.

Mas as da Rua Barão de Itapetininga estão abertas aos domingos à noite. E é para lá que correm os “marcianos”. Marciano é essa gente que quase nunca anda no centro da cidade e que só desce de Marte, o bairro distante, nos dias de exceção. É por isso que agora que o comércio anda apertado, nunca tanta gente olhou vitrina com tanta cobiça no olhar. Começaram a descer os preços, a cidade anda repleta de liquidações. E aqueles risquinhos que cortam os preços altos têm mais fascinação para as donas de casa do que toda a fantasia de Goethe.

É por isso que o velho Montesquieu acreditava na honestidade das massas. Não porque estas sejam cândidas, mas porque só o homem do povo tem o dom de acreditar e de fazer, com sua fé, um movimento que abale o mundo. Ainda se acredita nas liquidações, como ainda se acredita no jogo do bicho. E é essa crença da mulher gorda que leva o marido, a filharada, os cunhados, a família inteira ao centro da cidade, para devanear diante das vitrinas abarrotados de artigos liquidados “a qualquer custo, para reforma do prédio”.

Por sua vez, os comerciantes acham que a coisa vai mal... muito mal! Vai muito mal porque agora não é mais o tempo em que eles podiam ganhar mil por cento. Hoje em dia estão quase na miséria os comerciantes. Só conseguem arrancar um lucro de novecentos e cinquenta por cento.

26.10.19

SÃO PAULO, CIDADE DE ENCANTAMENTO, de MENOTTI DEL PICCHIA

PUBLICADO ORIGINALMENTE NO CORREIO PAULISTANO DE 24 DE OUTUBRO DE 1921


As minhas inveteradas distrações são fontes inexauríveis de surpresas. E – feliz que ainda acredito em fadas e bruxedos! – dão-me ilusões de que vivo numa cidade encantada, onde os ogres e os mágicos realizam prodígios, fazendo da noite para o dia, nascer casas como cogumelos...

Imerso em preocupações prosaicas, cabeça baixa, olhar vazio e errante, passo, sem ver, pela mesma rua durante quinze dias. Já sei de memória que há, à esquerda, um terreno raso, adiante, uma casa em via de ser demolida; do outro lado, escombros de um pardieiro. Dias depois ergo, curioso, os olhos para o panorama. Que vejo?

No terreno, um andaime formidável, como se estivessem nele a construir um castelo para um gigante daqueles que enchem de bramidos e pavores os “Contos da Carochinha”; no pardieiro enxergo, deslumbrado, um palácio...

São Paulo surge, assim, maravilhosamente, da noite para o dia, como uma cidade de encantamento, construída por ciclopes e realizada pela obra miraculosa de um sonho...


20.9.19

PAULICEIA REVISITADA, de HELIO BRASIL

fui parar na capital paulista


A convite de uma tia residente em São Paulo ––acompanhando minha mãe, em 1946, fui parar na capital paulista. Na época, note-se, ainda não quatrocentona.

A família Gonçalves Biar - moradora em apartamento na esquina da então verdejante Praça da República - acolheu-nos com a simpatia e elegância de sempre e minha discreta suburbanice recebeu um primeiro lustro civilizatório. A chefe do clã, minha tia, era a viúva Etelvina Gonçalves Biar.  Seus filhos, Waldemar, Beatriz, Olga, Célia e Rubens, o caçula - os três primeiros então casados. Na época eram ainda jovens e, exceto Rubens, já próximos à fronteira dos 30 anos. Com tia Etelvina morava, além de Rubens, estudante, Célia Biar, solteira, que, mais tarde viria brilhar nos palcos e na Televisão. Na época, Célia -excelente desenhista - trabalhava com a irmã na seção de modas de uma revista feminina.

São Paulo, para mim, tornou-se, então, a terra povoada pela inteligência e pela cortesia. Fomos tratados com fidalguia e carinho. 

Fazendo sua parte, Rubens incorporou o cicerone. Levou-me para conhecer a cidade, bairros e jardins, não apenas as deslumbrantes Avenidas Ipiranga e São João, com o Martinelli, pomposo e grande, disputando com o carioca edifício de A Noite, a glória de ser o primeiro arranha-céu brasileiro. Um “colosso” como exclamativamente gostava de dizer meu pai, um admirador da engenharia. Havia, também, a sede do Banco do Estado de São Paulo (hoje, Edifício Altino Arantes), novo gigante da arquitetura brasileira.

Martinelli

E ganhei autonomia para sair, pelas manhãs, sozinho (o que já fazia aqui no Rio) a procura do que me encantasse naquela cidade fervilhante de gente!

Sem dinheiro franqueado, caminhava a pé, a melhor forma de se conhecer um espaço urbano. O que seria aquela São Paulo? Conseguiria descobri-la?  Pois, para mim, o Rio já deixara de ser apenas São Cristóvão para ser também a cidade. Agora, cabia descobrir São Paulo além Praça da República e sua Escola Normal.

E São Paulo era o Viaduto do Chá, coalhado de jornaleiros gritando com sotaques italianados, japoneses sorridentes e apressados e as Estações da Luz, Sorocabana e a Franklin Roosevelt recebendo o Trem de Aço, o veloz Santa Cruz da EFCB que encurtara o espaço entre o Rio e a Paulicéia. O vale do Anhangabaú, o novo Chá em concreto e ao longe, em paralelo, Santa Efigênia elegantemente metálica, criando dois tempos tecnológicos. O Museu do Ipiranga: o orgulho de estar em sítio tão belo da história delineado por um fiapo de água.

Estação da Luz

Por tudo isto, revia as paisagens. Do belo apartamento de minha tia, na esquina do Arouche, cruzava a Praça da República, vencia a Ipiranga, subia a Sete de Abril, assumia o Chá e visitava as ruas de São Bento e adjacências, que muito se pareciam com as do velho DF (ainda abrigado no Rio); após revisitar o Largo de São Francisco, eu comprava – mania que conservo na velhice -  em discretas papelarias cadernos de desenho, lápis e borracha. Descia, de volta, a Líbero Badaró, de olho no grande edifício do Mappin.

Um passeio mais distante logo aconteceu em uma tarde de sábado, visitando o Pacaembu para ver Corinthians e São Paulo, sem opções de torcedor, para me convencer de que aquele estádio era o mais belo do Brasil.

Pacaembu

E nos belos cinemas da Avenida Ipiranga vi filmes americanos que registrei em velhos cadernos, mas que hoje não mais me ocupam a memória. Lá longe, o sagrado Jaraguá mantinha-se vigilante sobre a cidade, a urbe que jamais admitiu uma viela, um beco sequer, com o nome do ditador Vargas.

Voltei para a terra carioca sempre me perguntando: Quando, de novo, ver São Paulo? Até quando terei que ficar no Rio?

Porém, uma história sem imagens... Na época, fotografias eram usadas pelas famílias para registrar datas especiais. Minha visita não era deste naipe e, assim, não tenho nenhum registro fotográfico daquele luminoso momento em minha vida. Apenas a memória, agora em desespero, pois fragmenta-se e não consegue trazer nomes e imagens com a mesma precisão de outrora. Vivi a angústia de esperar um retorno jamais alcançado. Ninguém volta ao mesmo lugar no espaço, pois o tempo é que o realiza, avançando mais do que as lembranças.


Anhangabaú

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E o tempo não perde tempo em responder.

Em 1951, já iniciando o Curso de Arquitetura na FNA/UB, surgiu a oportunidade de rever a pauliceia.

Através do trabalho de Raphael Matheus Peres, colega de turma e nosso representante, conseguimos os favores de nosso mestre Júlio Cesar de Mello e Souza, o  Malba Tahan dos contos árabes e mago das Matemáticas, para nos patrocinar uma visita à Primeira Bienal de Artes na Pauliceia.

A exposição estava fragmentada em diversos edifícios e áreas da cidade, o que nos obrigou a deslocamentos interessantes e descobertas de que, em São Paulo, fazia-se arquitetura. Moderna.  Moderníssima. Enquanto, no Rio, só nos salvavam o Ministério da Educação, a ABI e a Estação de Hidros...

em São Paulo, fazia-se arquitetura

Voltei para o Rio em companhia dos colegas, todos nós inoculados pela Arte. Boa parte deles, por terem um sedimento cultural maior do que o meu, crescidos na escalada da cultura, como João Filgueiras Lima – o Lelé, Ruben Mauro Ludolf, Elder Rocha Lima, Liberal de Castro, Raphael Perez, Jaci Hargreaves, Reynaldo Fânzeres e outros, muitos outros.

Temos imagens, desta vez.

São Paulo crescera, ganha uma fisionomia mais urbana e impunha-se como uma cidade cuja escala ainda não fora encontrada. E, tal como hoje, oferecia um assustador horizonte de prédios amontoados. 

 assustador horizonte de prédios amontoados

Posso jurar que voltei ainda carioca, sempre carioca. Mas outro carioca...

Retornamos com a FNA a São Paulo na segunda Bienal, já no Ibirapuera e desta vez, comemorando o 4° Centenário da Cidade e, empolgados, vimos a obra de Oscar recém acabada, suas arrojadas marquises, suas rampas e o desfio de um generoso espaço moderno a nos revelar Calder, os nossos Portinari e Guinhard e, para espanto geral, o fabuloso mural de Pablo Picasso: a Guernica.

Outras vezes retornei à pauliceia, cada vez mais desvairada e grandiosa. Mas em minha mente guarda-se um craquilé de formas e cores e de progresso. Passo na velha Praça da República e não mais vejo as belas árvores e canteiros. Sou esmagado pela imensidão da Paulista e seus múltiplos gigantes de concreto e aço.  Deslumbro-me com o MASP e o ousado espaço conquistado por Lina Bo Bardi.

Deslumbro-me com o MASP

Curvo-me e respiro a densa névoa de uma garoa que já não se faz sentir.

Volto às minhas amadas montanhas, às praias ensolaradas, onde o mar me sussurra que estou em outro lugar, outro povo, outro pensar..

11.9.19

ZONA NORTE, JABUTICABEIRAS E PIQUENIQUES, de JANE DARCKÊ AVELAR

Paulistana de Perdizes, Jane Darckê Avelar optou por morar no Rio por amor a esta cidade-irmã. Texto escrito especialmente para este blog. Fotos obtidas na Galeria da Saudade, página do Facebook de Klaus Jürgen Mahrenholz que você pode acessar aqui


Uma bela foto da ponte de madeira sobre o rio Tietê em São Paulo. Do outro lado, o Bairro dos Remédios. Citada como sendo em 1968. Acervo Eliana Belo Silva.

Muitos paulistanos nasceram do lado de lá do Rio Tietê, ou seja, do lado de quem vai para o centro da cidade em direção à zona sul. Nós, aqui não. Nascemos do lado de cá, sentido Serra da Cantareira. Como demoravam as coisas para acontecerem deste lado, principalmente nos anos 1940! O bairro de Sant'Anna, o maior da banda de cá, tinha uma dificuldade imensa para a integração com a banda de lá. O rio Tietê transbordava e impedia a passagem. Enormes várzeas eram formadas por conta dessa situação. Pontes existiam, mas eram muito primitivas e a região ficava a mercê do tempo, das chuvas e dos alagamentos, que só foram sanados com a construção de pontes definitivas, mais altas que o rio, com novas técnicas de engenharia, como a Cruzeiro Sul, Ponte Grande, Casa Verde, Limão, Freguesia do Ó, Piqueri etc. 

Uma foto curiosa de 1929 de uma enchente na Rua Voluntários da Pátria, esquina com Dr. César, em Santana, São Paulo. Acervo Ita Castañon.

Ah! Mas coisas boas (e só agora valorizadas) aconteciam por conta deste capricho geográfico e meteorológico: bairros como a Vila Guilherme, Vila Ede, Vila Gustavo, Vila Maria, Parada Inglesa, Santa Teresinha, Santana, Freguesia do Ó, Casa Verde, Bairro do Limão, Pirituba e Jaguaré eram favorecidos pelas vistosas chácaras, onde se desenvolviam os pés de couve manteiga e tronchuda, chicória amarga, escarola, agrião, salsa, cebolinha e pimenta dedo de moça. Essa produção era vendida nas imediações por senhoras geralmente vestidas de preto, usando lenços na cabeça, com carriolas de madeira. Provavelmente, portuguesas viúvas. Outra parte da produção ia para a região do Mercado Municipal, no lombo de burricos. Também havia criação de cabras que produziam leite também vendido de porta em porta; coelhos também eram comercializados, assim como leitões novinhos, galinhas e frangos, que eram vendidos vivos. Haviam também alguns doces em compota, de banana, mamão verde, moranga e laranja amarga (chamavam de laranja cavalo). 

Uma linda foto antiga do Bairro de Santana, zona norte de São Paulo/SP em 1920, até então existiam muitas chácaras. Acervo Folha.

Já ia me esquecendo dos porcos. Eles vendiam a carne cozida em pedaços, em latas mergulhadas na banha e foi aí que nós crianças aprendemos a comer pão com banha de porco e o tal salzinho. Isso era feito por não haver refrigeradores. E acreditem, era prático: a mãe pegava um pedaço da carne da lata, que naturalmente já vinha besuntada com a banha e o feijão semi gordo, estava garantido: era só juntar uma folhinha de louro, alho fritinho e pronto! 

Santana é um dos bairros mais antigos da Zona Norte de São Paulo. Nessa foto antiga temos o dia de festa: regata de inauguração da Ponte das Bandeiras, em 25 de janeiro de 1942. Acervo Clube Esperia.

Agora, vamos às deliciosas bolinhas pretas que ilustram o nosso assunto. Em Santana, próximo ao Cemitério Chora Menino, existe uma rua de nome Copacabana. Hoje, toda feita de espigões luxuosos de 4, 5 até 6 dormitórios e obviamente, muitas vagas de garagem. Essa região era um vale, o que facilitou a edificação, pois faz-se 4 ou 5 subsolos de garagem e ao chegar ao nível da rua, começam os andares para apartamentos. Pois bem,
esses vales eram repletos de jabuticabeiras. Pessoas de outros bairros vinham em busca dessa fruta tão brasileira e apreciada. Era tanta procura que passaram a alugar os pés de jabuticabas. As famílias chegavam com filhos, netos, amigos, os “nonnos” (avós, em italiano) sem esquecerem-se do cachorro. E se apropriavam de um pé carregado e podiam devorá-lo por inteiro, não sem antes estender uma colorida toalha sob a frondosa selecionada. Sobre ela, cestos de vime com duas portinholas e dentro deles: torta de palmito ou frango, sanduichinhos de sardinha em lata com salsinha e naturalmente doces: bolo de fubá ou de mandioca. Guaraná da Brahma para a criançada, Cerveja Antarctica para os homens e Malzbier para as mulheres que estavam amamentando os seus bebês. Pronto! Feita a propaganda, sem querer... 

Uma bela Chácara na Vila Bela Vista em Vila Maria, São Paulo/SP. Foto de 1939. Acervo Hagop Garagem.

Este era um dos domingos paulistanos. Isso mesmo! Um “convescote” ou piquenique. Bons e velhos tempos de uma São Paulo que não existe mais. 

Ida ao mar? Falo depois... Um outro e delicioso assunto...

9.5.19

SÃO PAULO, O RESUMO DO MUNDO, de JANE DARCKÊ AVELAR

Paulistana de Perdizes, Jane Darckê Avelar optou por morar no Rio por amor a esta cidade-irmã. Texto escrito especialmente para este blog.

"uma cidade imensa e assustadora"

O ano? Começo do século XX... Foi aí que tudo começou. Nossa semente, que veio nos corpos dos que um dia iriam se encontrar e se unir, sementes da terra e do além-mar, dormia tranquila à luz dos lampiões da Av. São João. Uma coruja fortuita olhava por entre as chaminés das fábricas, antevendo lojas se abrindo e o guinchar dos bondes, previa o sol, que não demoraria a dissipar o nevoeiro das frias madrugadas. Se ela tivesse uma bola de cristal, veria através dela, o futuro: uma cidade imensa e assustadora, onde tudo seria possível e ao mesmo tempo lhe pareceria impossível haver um lugar assim. Mas era só uma coruja. Uuuu... Uuuu... bateu asas, voou.



Jazigo no Cemitério da Consolação: "Pousou num cemitério"

Pousou num cemitério, onde a vida parecia ainda mais obscura e misteriosa. Sim, vida. Ali repousavam os corpos do que prepararam o caminho para as futuras gerações, dos que sonharam, ousaram, realizaram, se tornaram quase imortais, e por isso viviam ainda, nos patrimônios construídos, nos bustos de bronze aqui e ali, na memória da geração anterior. Uuu... Uuu... Voou de novo...


E pousou no alto do sobrado. Ah, o sobrado... suas telhas tão acolhedoras, quanto a própria cidade parecia ser aos humanos que já se agitavam, se preparavam para mais um dia... dormir não era para os humanos de São Paulo. Dormir era um luxo supremo, que servia apenas para descansar o corpo, porque a alma, ah a alma, voava ainda mais alto que a coruja.

Ouviu o rodar de uma carroça de leite e viu os pássaros acordando lentamente, e um pardal lhe avisou que o sol não tardaria. E se recolheu. 

Estátua do Pequeno Jornaleiro na Rua Sete de Setembro, Rio de Janeiro

Então o pardal passou voando perto do garoto de calças curtas que andava apressado, para pegar os primeiros jornais e levá-los até a Estação da Luz, para vendê-los. Anunciaria as manchetes do jornal do dia, como quem anuncia a evolução dos tempos. O menino jornaleiro e o pardal olhavam as muitas pessoas que passavam apressadas, sem notarem que a flor se abriu, as frutas estão quase maduras na árvore da praça, e... Oh! Um bonde atropelou um transeunte! Que desastre! Esta cidade está caótica! 

Mas mal sabiam que muitos mais estavam morrendo nas trincheiras do Vale do Paraíba, em nome de São Paulo, em nome da Constituição.


O menino jornaleiro, de repente, se viu diante do prelo de um jornal que levava o nome da cidade e do estado, não mais de calças curtas, mas de avental, manuseando os jornais, vendo o avanço de Hitler sobre a Europa, e pagando uma fortuna por um pão para levar para sua casa, na Bela Vista. Tudo controlado por racionamento, um futuro tão incerto. Tempos sombrios... Se ele voltasse a ser um menino, pensava, certamente teria medo da cidade, tão moderna, se enchendo de arranha-céus medonhos e temíveis, pessoas que nem dão mais um bom dia ao que passa ao seu lado, que não têm tempo a perder com sentimentalismos e trivialidades. Então ele se refugiava no circo, nos cinemas, nos campos de futebol. E eis que já quase se aposentando, rodando seus últimos jornais da manhã, lia a estranha notícia da mudança da capital do país. Será que São Paulo continuará a crescer? – pensou. Será que meus filhos e netos verão dias de progresso, como nos filmes americanos e seu way of life, ou saberão o que são as chagas vermelhas que a foice e o martelo provocam? Seremos homogeneizados pelo capitalismo, ou massacrados pelo comunismo? E São Paulo foi tomado pelos militares, que chegavam em caminhões, muitos mais do que seria de se imaginar. 

Bombas estavam sendo lançadas nas ruas, cavalaria, prisões, professores perseguidos, estudantes desaparecidos, trabalhadores em greve, São Paulo parecia estar se acabando. Sim, era o fim da cidade em que nasceu.

Mas São Paulo é como a Fênix. Rapidamente começaram a chegar famílias do norte, buracos e mais buracos pela cidade, mais caos, mais arranha-céus, mais carros, mais gente, mais casas, mais ônibus (ué! cadê os bondes?), mais comércio, mais indústrias, mais e mais e mais. Metrô! Shopping! Refugiados! Anistia! Eleições Diretas...

"meditavam nos templos budistas"

O menino dos jornais era um senhor idoso, e as memórias se misturavam dentro dele, como a história de São Paulo se misturava intrinsecamente à memória do país, enquanto tomava um café, recostado na poltrona do terraço, olhando o céu cor de rosa, numa tarde de outono... Seus filhos e netos desfrutavam de vários países, viajavam pelo mundo sem sair do lugar... Moravam na Itália da Bela vista, iam à Espanha do Cambuci, frequentavam as missas portuguesas da Vila Maria, compravam roupas ocidentais na Israel do Bom Retiro, se deliciavam e compravam variedades no Oriente Médio do Parque Dom Pedro II, meditavam nos templos budistas no Japão da Liberdade, e tantas outras coisas de tantos outros países, dentro da cidade, que fazia o que podia, através de um esforço comunitário, para oferecer o de melhor, para todos, sem distinção. Uma cidade que “amanhecia trabalhando, que não parava de crescer, como dizia a canção”, e que, ao mesmo tempo, sabia o que é “a força da grana que ergue e destrói coisas belas”, como dizia outra canção. 

Fechou os olhos, e o menino de calças curtas, com os jornais debaixo do braço, saiu feliz para as ruas de paralelepípedos, tomando cuidado com os bondes, gritando as manchetes do dia... 


— Vô, preciso fazer uma crônica de São Paulo, para a faculdade... você me ajuda?

— Eu nasci aqui. Eu amo São Paulo. Eu vi esta cidade crescer, e como era linda... como é linda... como me orgulho de dizer que sou paulistano...

Cristo

— Mas vô, como o senhor pode amar este caos, este barulho e esta poluição? Essa gente que nem dá bom dia, que pára com qualquer chuvinha, com qualquer acidente? O senhor não pode amar uma cidade que só tem fila e mais fila, que mói a gente de tanto estresse, que é tudo tão caro, que não tem mar! Não tem Cristo, nem Bondinho, nem Maracanã... São Paulo é o túmulo do Samba, já disse Vinicius de Moraes e ainda por cima, o Carnaval não se compara ao meu Rio querido!

— Mas eu amo... sabe, meu bem, esta cidade é um caleidoscópio. A gente olha, tá de um jeito. Olha de novo, tudo mudou. Esse é o encanto dela. E as cores, as formas, o cheiro, uma força mística e terrena... uma metamorfose sem fim... até o clima mudou!

— Me conta, vô... como era, quando o senhor era um menino...

— Eu morava no Brás. E vendia jornais. E pelos jornais, acompanhei tudo que de melhor e de pior aconteceu nesta cidade. E vivi o bastante para estar aqui, agora, te contando estas coisas... Foi assim: No começo, foi Anchieta, os Bandeirantes e a gente nem sabia o que era dinheiro. Tudo era na base da troca. Daqui partiam as expedições para o interior dos sertões intocados. A Igreja Católica mandava em tudo, sabia de tudo, registrava tudo o que podia. 

— Mas o senhor nem era nascido nessa época!

Hospedaria dos Imigrantes em 1920. Hoje abriga o Museu da Imigração. 

— Ué! Você não quer falar de São Paulo, de como nós somos e porque somos? Somos quatrocentões dos brasões enferrujados! Somos migrantes, emigrantes e imigrantes foragidos, somos endinheirados que investimos nesta Terra Nova, somos escravos libertos, somos o resumo do mundo. O Resumo do mundo...

— Vô... que bom título vou dar à minha crônica... São Paulo, o Resumo do mundo!

"mais casas"