ENSEADA DE BOTAFOGO

ENSEADA DE BOTAFOGO
"Andar pelo Rio, seja com chuva ou sol abrasador, é sempre um prazer. Observar os recantos quase que escondidos é uma experiência indescritível, principalmente se tratando de uma grande cidade. Conheço várias do Brasil, mas nenhuma tem tanta beleza e tantos segredos a se revelarem a cada esquina com tanta história pra contar através da poesia das ruas!" (Charles Stone)

VISTA DO TERRAÇO ITÁLIA

VISTA DO TERRAÇO ITÁLIA
São Paulo, até 1910 era uma província tocada a burros. Os barões do café tinham seus casarões e o resto era pouco mais que uma grande vila. Em pouco mais de 100 anos passou a ser a maior cidade da América Latina e uma das maiores do mundo. É pouco tempo. O século XX, para São Paulo, foi o mais veloz e o mais audaz.” (Jane Darckê Avelar)
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8.2.19

AS ENCHENTES


A GRANDE ENXURRADA DE HOJE. Manchete na terceira página da edição de 19 de janeiro de 1915 do jornal Correio da Noite. Nesse mesmo dia Lima Barreto publicou na primeira página do mesmo jornal o artigo AS ENCHENTES abaixo. 


AS ENCHENTES, texto de LIMA BARRETO publicado no Correio da Noite de 19 de janeiro de 1915

As chuvaradas de verão, quase todos os anos, causam no nosso Rio de Janeiro, inundações desastrosas. 

Além da suspensão total do tráfego, com uma prejudicial interrupção das comunicações entre os vários pontos da cidade, essas inundações causam desastres pessoais lamentáveis, muitas perdas de haveres e destruição de imóveis.

De há muito que a nossa engenharia municipal se devia ter compenetrado do dever de evitar tais acidentes urbanos.

Uma arte tão ousada e quase tão perfeita, como é a engenharia, não deve julgar irresolvível tão simples problema.

O Rio de Janeiro, da avenida, dos "squares", dos freios elétricos, não pode estar à mercê de chuvaradas, mais ou menos violentas, para viver a sua vida integral.

Como está acontecendo atualmente, ele é função da chuva. Uma vergonha!

Não sei nada de engenharia, mas, pelo que me dizem os entendidos, o problema não é tão difícil de resolver como parece fazerem constar os engenheiros municipais, procrastinando a solução da questão.

O Prefeito Passos, que tanto se interessou pelo embelezamento da cidade, descurou completamente de solucionar esse defeito do nosso Rio.

Cidade cercada de montanhas e entre montanhas, que recebe violentamente grandes precipitações atmosféricas, o seu principal defeito a vencer era esse acidente das inundações.

Infelizmente, porém, nos preocupamos muito com os aspectos externos, com as fachadas, e não com o que há de essencial nos problemas da nossa vida urbana, econômica, financeira e social.

VEJAM MEU VÍDEO ABAIXO SOBRE O TRISTE FIM DE POLICARPO QUARESMA E CLIQUEM NO LABEL "LIMA BARRETO" NO FINAL PARA VER OUTRAS POSTAGENS SOBRE O GENIAL ESCRITOR

19.7.18

TRISTE FIM DE POLICARPO QUARESMA (LIMA BARRETO): UMA RESENHA



Se vocês entrarem no verbete da Wikipedia do Triste Fim de Policarpo Quaresma vão ler: O major Policarpo é um anti-herói quixotesco, imbuído de nobres ideais, alguns beirando ao tresloucado (tanto é que passa uma temporada no hospício). Bom coração, idealista, patriota, por causa de suas qualidades acaba sendo castigado e sempre se dá mal. Uma obra clássica da literatura brasileira que ajuda a explicar por que somos como somos. Esta é a minha opinião. Fui eu quem inseriu esse parágrafo lá na Wikipedia.

O livro se divide em três partes, mas na verdade são quatro: a primeira apresenta nosso anti-herói e os demais personagens e culmina com a proposta tresloucada de Policarpo de transformar o tupi-guarani em língua oficial do Brasil. A segunda é o período que Policarpo passa internado no hospício de alienados D. Pedro II, a caminho da Urca, onde hoje fica o Palácio Universitário e outras instalações da UFRJ, em frente ao Iate Clube, antiga Praia da Saudade. A terceira é quando ele resolve virar agricultor no sítio do Sossego, na serra. E a quarta é sua participação, também tresloucada, na Revolta da Armada, que foi uma revolta de marinheiros talvez ainda mais violenta que a guerra do tráfico atual, com bombardeios, balas perdidas, um horror. Tem um conto do Machado de Assis, Pílades e Orestes, onde o personagem morre vítima de uma bala perdida da Revolta.

A Revolta da Armada em foto de 1893 de Juan Gutierrez

Nosso triste anti-herói tem sempre as melhores das intenções mas nunca é compreendido e se mete em trapalhadas. É como o Dom Quixote de Cervantes. Por isso eu disse que ele é um anti-herói quixotesco

Na primeira parte Policarpo envia um requerimento à Câmara propondo que o tupi-guarani torne-se a língua oficial do Brasil. “O tupi – diz o requerimento – língua originalíssima [...] é a única capaz de traduzir as nossas belezas, de pôr-nos em relação com a nossa natureza e adaptar-se perfeitamente aos nossos órgãos vocais e cerebrais, por ser criação de povos que aqui viveram e ainda vivem”. A ideia não é tão porra-louca quanto parece. O tupi-guarani é a nossa língua original, nos primórdios da colonização chegou a ser a língua franca do Brasil, e outros países preservam, ao lado da língua do colonizador, as suas línguas originais, por exemplo em Angola o quimbundo, quicongo e umbundo, e na Irlanda o gaélico. ...

Depois Policarpo se mete na agricultura. Ele não entende como no Brasil, um país tão rico em terras, todo mundo quer ter um emprego público em vez de cultivar a terra. Vou citar um trecho: “Como era tão simples viver na nossa terra! Quatro contos de réis por ano, tirado da terra, facilmente, docemente, alegremente! Oh! terra abençoada! Como é que toda a gente queria ser empregado público, apodrecer numa banca, sofrer na sua independência e no seu orgulho? Como é que se preferia viver em casas apertadas, sem ar, sem luz, respirar um ambiente epidêmico, sustentar-se de maus alimentos, quando se podia tão facilmente obter uma vida feliz, farta, livre, alegre e saudável?” Num passeio pela região Policarpo, que imaginava que os nossos camponeses fossem felizes, saudáveis e alegres, se impressiona com a “miséria geral, a falta de cultivo, a pobreza das casas, o ar triste, abatido da gente pobre”. Mas aí, como sempre acontece com Policarpo, apesar de suas melhores intenções, tudo acaba saindo errado: ele enfrenta a praga das saúvas, dos políticos locais, da burocracia que até hoje tolhe os brasileiros que queiram empreender. “Aquela rede de leis, de posturas, de códigos e de preceitos, nas mãos desses regulotes, de tais caciques, se transformava em potro, em polé, em instrumento de suplícios para torturar os inimigos, oprimir as populações, crestar-lhe a iniciativa e a independência, abatendo-as e desmoralizando-as.” Olha que livro genial, mostra cem anos atrás um Brasil que perdura até hoje. Quem quer abrir um negócio neste país conhece as dificuldades, a burocracia, os fiscais querendo propinas, tudo isto que impede que a nossa economia deslanche.

Na última parte Policarpo se apresenta como voluntário ao marechal Floriano para lutar do lado dele na Revolta. Idealista, entrega ao marechal um relatório com sugestões para melhorar a nossa agricultura mas Floriano não está nem aí, acho que o relatório acaba virando papel de rascunho (se não me falha a memória).

A certa altura o autor fala sobre as balas perdidas: “Se uma bala zunia no alto céu azul, luminoso, as moças davam gritinhos de gata, corriam para dentro das lojas, esperavam um pouco e logo voltavam sorridentes, o sangue a subir às faces pouco e pouco, depois da palidez do medo.”


Lima Barreto é o escritor dos subúrbios, dos tipos suburbanos. Tem uma passagem bonita onde ele descreve os subúrbios cariocas, vou transcrever só o comecinho:

“Os subúrbios do Rio de Janeiro são a mais curiosa cousa em matéria de edificação de cidade. A topografia do local, caprichosamente montuosa, influiu decerto para tal aspecto, mais influíram, porém, os azares das construções. Nada mais irregular, mais caprichoso, mais sem plano qualquer, pode ser imaginado. As casas surgiam como se fossem semeadas ao vento e, conforme as casas, as ruas se fizeram. Há algumas delas que começam largas como boulevards e acabam estreitas que nem vielas; dão voltas, circuitos inúteis e parecem fugir ao alinhamento reto com um ódio tenaz e sagrado. Às vezes se sucedem na mesma direção com uma freqüência irritante, outras se afastam, e deixam de permeio um longo intervalo coeso e fechado de casas. Num trecho, há casas amontoadas umas sobre outras numa angústia de espaço desoladora, logo adiante um vasto campo abre ao nosso olhar uma ampla perspectiva.”

Tudo que eu disse nesta postagem (e um pouco mais) está no vídeo a seguir. Assistam. Se gostarem, inscrevam-se no meu canal do YouTube (aqui) e vejam também meus outros vídeos sobre clássicos da literatura! 

1.3.17

O MORCEGO, de LIMA BARRETO (com fotos do Carnaval carioca de 2017)


Todo ano faço aqui neste blog uma crônica do Carnaval, para recordar quando ficar velhinho (aos 65 anos estou longe disso). O Carnaval da Sapucaí vocês devem ter visto na televisão. O maior espetáculo da Terra, feito por gente humilde, do morro. O paradoxo brasileiro. Mas em época de crise sai mais em conta o Carnaval de rua. Ano após ano o Carnaval nos logradouros cariocas se agiganta. A cidade vira um enorme parque de divertimento. Com a nova orla no Centro, o VLT e a Rio Branco repaginada o Centro ganhou vida nova, e no Carnaval isso ficou ainda mais patente. As ruas são do povo como o céu é do condor. Este ano, com o Carnaval caindo no final de fevereiro, quando o auge do calor já havia passado, deu para curtir a folia diurna (sem o "sol inclemente" da crônica abaixo). Chegou até a chover um pouquinho no domingo. Engraçado ver o Centro, por onde geralmente circulam pessoas sérias em seus afazeres diários (ou turistas), tomado de assalto por foliões fantasiados. As fotos contam o resto. E vai de quebra texto de Lima Barreto sobre o Carnaval, publicado originalmente no Correio da Noite no início de 1915 e que O Globo reproduziu quatro dias atrás junto com mais quatro textos de grandes escritores sobre os festejos de Momo. Para acessar clique aqui.

Filhos de Gandhi na Zona Portuária

O MORCEGO, de LIMA BARRETO

O carnaval é a expressão da nossa alegria. O ruído, o barulho, o tantã espancam a tristeza que há nas nossas almas, atordoam-nos e nos enche de prazer.

Todos nós vivemos para o carnaval. Criadas, patroas, doutores, soldados, todos pensamos o ano inteiro na folia carnavalesca.

O zabumba é que nos tira do espírito as graves preocupações da nossa árdua vida.

O pensamento do Sol inclemente só é afastado pelo regougar de um qualquer Iaiá me deixe.

Segunda-feira: roda de samba na Pedra do Sal 

Segunda-feira: concurso de turmas de fantasia  na Cinelândia

Há para esse culto do carnaval sacerdotes abnegados.

O mais espontâneo, o mais desinteressado, o mais lídimo é certamente o Morcego.

Durante o ano todo, Morcego é um grave oficial da Diretoria dos Correios, mas, ao aproximar-se o carnaval, Morcego sai de sua gravidade burocrática, atira a máscara fora e sai para a rua.

A fantasia é exuberante e vária, e manifesta-se na modinha, no vestuário, nas bengalas, nos sapatos e nos cintos.

E então ele esquece tudo: a pátria, a família, a humanidade. Delicioso esquecimento!... Esquece e vende, dá, prodigaliza alegria durante dias seguidos.

Nas festas da passagem do ano, o herói foi o Morcego.

Passou dois dias dizendo pilhérias aqui, pagando ali; cantando acolá, sempre inédito, sempre novo, sem que as suas dependências com o Estado se manifestassem de qualquer forma.

Ele então não era mais a disciplina, a correção, a lei, o regulamento; era o coribante1 inebriado pela alegria de viver. Evoé, Bacelar!

Jovens foliões

Jovem folião

Essa nossa triste vida, em país tão triste, precisa desses videntes de satisfação e de prazer; e a irreverência da sua alegria, a energia e atividade que põem em realizá-la, fazem vibrar as massas panurgianas2 dos respeitadores dos preconceitos.

Morcego é uma figura e uma instituição que protesta contra o formalismo, a convenção e as atitudes graves.

Eu o bendisse, amei-o, lembrando-me das sentenças falsamente proféticas do sanguinário positivismo do senhor Teixeira Mendes3.

A vida não se acabará na caserna positivista enquanto os “morcegos” tiverem alegria...

Correio da Noite, Rio, 2-1-1915.

1 Sacerdote da deusa romana Cibele, que dançava ao som de flautas, címbalos e tamborins.
2 Aquele que segue cegamente um chefe.
3 Raimundo Teixeira Mendes (1855-1927), pensador brasileiro, líder do Apostolado Positivista.

Saxofonista do Favela Brass Project em canja na Heineken Jazz Fest na Rua do Lavradio

Terça-feira: Concurso de turmas de bate bola na Cinelândia

A praça é do povo...

Mascarada

12.5.08

LIMA BARRETO


TEXTOS DE CYRO DE MATTOS E LIMA BARRETO, COM FOTOS DO RIO DE JANEIRO DA ÉPOCA EM QUE VIVEU O ESCRITOR (1881-1922)

Augusto Malta, bonde no Largo da Carioca, 1904

Augusto Malta, Estação das Barcas (existente até hoje na Praça Quinze), 1920

LIMA BARRETO
texto de Cyro de Mattos

O mulato Lima Barreto nasceu no Rio de Janeiro, em 13 de maio de 1881. Viera ao mundo numa data aziaga para os espíritos supersticiosos, uma sexta-feira, dia de Nossa Senhora dos Mártires. E o que se chama destino trama contra ele cedo, a começar pela perda da mãe, seis anos depois de ter nascido. Parte do espírito rebelde e a cor de mulato têm raízes na figura do pai, João Henriques, um simples tipógrafo, filho de uma antiga escrava com um madeireiro português. O pai não lhe reconhece a paternidade.

A cor de mulato instala-se na alma como algo que fortemente atormenta, fator negativo que, estimulado pelo meio social, vai acompanhá-lo até o fim da vida, causando obstáculos. Gera dramas ligados a uma sociedade opressiva de que ele pretende vingar-se.

A imagem reinante do Brasil literário em fins do século dezenove e início do vinte era a de uma fragilidade no estado de espírito de nossos escritores. Nossa literatura possuía um corpo eclético formado pelo cruzamento e entrecruzamento de várias correntes estéticas, tendências ou estilos. Vivia-se no Rio com o sonho da França. E a Literatura, forma ampla de conhecimento da vida, era concebida por alguns como o sorriso da sociedade. Ninguém podia ser chamado de culto se não falasse nos heróis gregos e no cerco de Tróia. Como parte do contexto que primava pelo elogio à cultura de fora, com os valores formais da arte tradicional sem conteúdo nacional, aparece uma figura peculiar de escritor, a do boêmio, tipo pitoresco que se dava ao prazer de contar anedotas, fazer trocadilhos, nas portas de café e confeitarias.

Augusto Malta, quiosque no Largo do Depósito, atual Praça dos Estivadores, na Zona Portuária, 1911

A sedução de Paris, as agremiações literárias, o hábito dos saraus artísticos, a mania de conferências e o uso das letras na escrita sonora, em seu poder verbal pobre de significado e percepção do drama humano, que teve em Coelho Neto um expoente, testemunham um Brasil Literário vivendo um clima de ócio cultural e inutilidade criativa.

O criador de Policarpo Quaresma emerge dessa ambiência cultural moldada em atitudes importadas da Europa, reclamava o Brasil dentro do Brasil, querendo ter o direito de se fazer ouvir aos que não cuidavam de se interessar pelas coisas verdadeiras de nossa realidade. Munido de um estilo liberto do complexo colonial, brasileiro na maneira de ver, sentir e narrar as coisas nossas tomadas emprestadas ao cotidiano, Lima Barreto vai buscar suas personagens nos subúrbios do Rio de Janeiro, lá onde gravitam funcionários públicos, pequenos negociantes, médicos com pequena clínica, tenentes de diferentes milícias e seresteiros.

Magistral caricaturista, memorialista dos bons, Lima Barreto é o escritor brasileiro que mais olhou a si mesmo na arte de escrever. Refletiu-se tanto em várias de suas personagens que se transformou forçosamente numa personagem, convertendo o seu “alter ego” em solidão, solidariedade e humor, transpostos de modo pungente em suas criações. Em Recordações do escrivão Isaías Caminha aborda a vida de um rapazinho do interior, tentando se situar como gente no meio social que lhe é hostil. Em Isaías Caminha há situações que ofendem com os preconceitos de cor e classe, da mesma maneira que ocorreu com o escritor em seu calvário. Numa época que vinha há pouco tempo da Abolição, sem que os sonhos dos negros fossem realizados, permanecendo na sociedade fortes marcas do preconceito racial, Isaías Caminha trará na pele o estigma da cor de mulato, causa do fracasso para adaptar-se e vencer no meio social.

Augusto Malta, Rua da Ajuda (que ligava o Largo da Ajuda, atual Cinelândia, à Rua São José, margeando o Morro do Castelo, no que é hoje trecho da Av. Rio Branco), 1903


Lima Barreto é um dos grandes romancistas da cidade do Rio de Janeiro, ao lado dos precursores Manuel Antônio de Almeida e Machado de Assis, possuindo a cidade no último o ponto literário mais elevado. No fim da vida passava por decepções e desapontamentos constantes, doía saber que não tinha a estima dos contemporâneos. Não parecia um ser humano, mas uma coisa qualquer, algo ambulante com a sensação de que falhara como escritor e na ascensão social. Não conseguira o canudo doutoral nem ascendera na burocracia. Carregava ainda o fardo de que falhara sob o ponto de vista sentimental. Passara a idade de ter o amor, fugira dele para não se envolver com outro sofrimento e não fosse prejudicado na sua missão de glória. Vivera sem o amor de uma mulher, amante ou esposa, sem o amor de mãe, falecida quando tinha seis anos. A vida passava assim para ele com os dias de um calendário triste. As sombras do destino cercavam-no por todos os lados, dizendo-lhe que era um excluído e sem amor vivera.

O criador de grandes personagens, o amanuense Isaias Caminha, o cético Gonzaga de Sá, o major Policarpo Quaresma, a pobre e rejeitada Clara dos Anjos, vai se agarrar à literatura no fim da vida com todas as forças que pudesse reunir e ao álcool que lhe acarretaria a morte.

Precursor dos temas alinhados na Semana da Arte Moderna de 22 em São Paulo, Lima Barreto deixou um legado que explora a vida em sua problemática social. Faturou seu modelo literário como testemunho de prospecção social no magma nacional, que seria retomado mais tarde no romance regionalista nordestino de 30.

Solitário, sem o reconhecimento literário que merecia ter em sua época, faleceu aos 41 anos de idade.

Augusto Malta, Rua Uruguaiana, 1907

Marc Ferrez, Avenida Central, 1906. Observe o Morro do Castelo à esquerda.


A QUESTÃO DOS TELEFONES
Crônica de Lima Barreto publicada em 1921

Andam sempre os jornais com uma birra, uma briga por causa do serviço telefônico desta cidade. Implicam sempre com a Light, mas creio que esta poderosa companhia é simplesmente pseudônimo de uma outra que tem um nome alemão.

Das muitas inutilidades que, para mim, está cheia esta vida, o telefone é uma delas. Passam-se anos e anos que não ponho um fone ao ouvido; e, de resto quando me atrevo a servir-me de um desses aparelhos, desisto logo. Entre as razões está a que não compreendo absolutamente a numeração das moças do telefone. Se digo seis qualquer coisa, a telefonista imediatamente me corrige: meia dúzia qualquer coisa. Não quero expor a minha sabedoria em elementos de aritmética; mas meia-dúzia é uma coisa, pois nunca vi, dizer meia dúzia vinte e sete e sim seiscentos e vinte e sete.

Esta é uma das minhas quizílias com o telefone. Uma outra é a tal história: “está em ligação”; e há mais.

De forma que muito me surpreende esse interesse dos jornais por esse negócio de telefones.

Observei, porém, que as moças gostam muito de falar no aparelho.

Não se entra numa casa de negócio de qualquer ordem que não se encontre uma dama a falar ao fone:

– Minha senhora, faz favor?
– Sete meia dúzia três, Vila.
– ?
– Sim, minha senhora.

Durante cinco minutos a dama troca com a invisível Alice frases ternas e dá risadinhas. Perguntei a um negociante da minha amizade:

– Que querem essas moças tanto com o telefone?
– Não sei. Há dias que é um nunca acabar... Formam uma fileira que nem em bilheteria de teatro em dia de espetáculo... Na semana passada, quase perdi um negócio urgente e do meu interesse, porque tive de esperar que mais de vinte “freguesas” dessas, dessem o seu recadinho ao aparelho... Levaram, todas, cerca de meia hora ou mais.
– Então é por isso que os jornais tanto nos atazanam com essa questão do telefone, de Líght? Servem as senhoras ...
– Qual o que! fez o negociante.
– Então, porque é?
– A questão é o preço do aluguel dos aparelhos e essas meninas são freguesas de graça que, às vezes até, nada compram na casa.

Fica, para mim, ainda insolúvel essa questão de telefone.

Marc Ferrez, Largo de São Francisco de Paula, 1895 (o prédio maior existe até hoje e abriga o Instituto de Filosofia e Ciências Sociais da UFRJ, onde estudei nos anos 70).

Marc Ferrez, Praça Dom Pedro II, antigo Largo do Paço e atual Praça Quinze de Novembro, 1895 (a igreja da direita é da Ordem Terceira de N. S. do Carmo; à sua esquerda, a Igreja de N. S. do Carmo da Antiga Sé, recém-restaurada, ainda sem a torre alta acrescida em 1905; e mais à esquerda, o antigo Convento do Carmo, uma das construções mais antigas da cidade, hoje faz parte da Universidade Cândido Mendes).

Marc Ferrez, Revolta da Armada, 1893 - A Revolta serve de pano de fundo para a terceira parte de Triste fim de Policarpo Quaresma. No seu capítulo 2 escreve o autor: "Com o tempo, a revolta passou a ser uma festa, um divertimento da cidade... Quando se anunciava um bombardeio, num segundo, o terraço do Passeio Público se enchia. Era como se fosse uma noite de luar, no tempo em que era do tom apreciá-las no velho jardim de Dom Luís de Vasconcelos, vendo o astro solitário pratear a água e encher o céu. Alugavam-se binóculos e tanto os velhos como as moças, os rapazes como as velhas, seguiam o bombardeio como uma representação de teatro: “Queimou Santa Cruz! Agora é o ‘Aquidabã’! Lá vai!” E dessa maneira a revolta ia, familiarmente, entrando nos hábitos e nos costumes da cidade."


Fotos do Rio antigo obtidas no site do Instituto Moreira Sales.

A seguir um vídeo com a resenha da obra-prima de Lima Barreto, Triste Fim de Policarpo Quaresma. Assistam. Se gostarem, inscrevam-se no meu canal do YouTube (aqui) e vejam também meus outros vídeos sobre clássicos da literatura!