ENSEADA DE BOTAFOGO

ENSEADA DE BOTAFOGO
"Andar pelo Rio, seja com chuva ou sol abrasador, é sempre um prazer. Observar os recantos quase que escondidos é uma experiência indescritível, principalmente se tratando de uma grande cidade. Conheço várias do Brasil, mas nenhuma tem tanta beleza e tantos segredos a se revelarem a cada esquina com tanta história pra contar através da poesia das ruas!" (Charles Stone)

VISTA DO TERRAÇO ITÁLIA

VISTA DO TERRAÇO ITÁLIA
São Paulo, até 1910 era uma província tocada a burros. Os barões do café tinham seus casarões e o resto era pouco mais que uma grande vila. Em pouco mais de 100 anos passou a ser a maior cidade da América Latina e uma das maiores do mundo. É pouco tempo. O século XX, para São Paulo, foi o mais veloz e o mais audaz.” (Jane Darckê Avelar)
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21.4.18

HOMENAGEM A TIRADENTES

PATRONO DAS POLÍCIAS MILITARES BRASILEIRAS, COM FOTOS DA SUA ESTÁTUA DIANTE DO PALÁCIO TIRADENTES (ASSEMBLEIA LEGISLATIVA DO RIO DE JANEIRO)



► Trechos do Romance XXXI do Romanceiro da Inconfidência de Cecília Meireles:

Por aqui passava um homem
— e como o povo se ria! —
que não passava de Alferes
de cavalaria!

“Faremos a mesma coisa
que fez a América Inglesa!”
E bradava: “Há de ser nossa
tanta riqueza!”

Por aqui passava um homem
— e como o povo se ria! —
Liberdade ainda que tarde
nos prometia.

E cavalgava o machinho.
E a marcha era tão segura
que uns diziam: “Que coragem!”
E outros: “Que loucura!”

Mas ninguém mais se está rindo
pois talvez ainda aconteça
que ele por aqui não volte,
ou que volte sem cabeça...


► Trecho do ótimo livro Praça Tiradentes de Roberta Oliveira:


Não foi exatamente na Praça Tiradentes e muito menos em Minas Gerais, como muitos pensam, que Tiradentes morreu. Tendo nas mãos um mapa da Biblioteca Nacional [ver abaixo], datado de 1785-1760, o historiador Milton Teixeira mostra o local exato da execução. Marcado pela palavra “forca”, este ficaria a algumas centenas de metros da atual Praça Tiradentes, mais precisamente no que hoje é a esquina da Avenida Passos com Rua Buenos Aires. Através do mapa e de alguns relatos históricos, também é possível reconstituir as últimas passagens da vida de Tiradentes. Milton conta que o alferes teria sido preso em 10 de maio de 1789, numa casa na Rua dos Latoeiros (atual Rua Gonçalves Dias), onde teria se escondido depois de passar um tempo na Igreja Nossa Senhora Mãe dos Homens (na atual rua da Alfândega). Tiradentes foi levado então para a Ilha das Cobras, onde passou a ocupar a cela número 3 do cubículo 5. Lá, foi submetido a vários interrogatórios, sempre negando a sua ligação com a Conjuração Mineira. Forçado pelas circunstâncias — todos os seus colegas o apontaram como líder do movimento — acabou assumindo o envolvimento. [...] Em sua sentença, a rainha Maria I foi taxativa: dos dez envolvidos, nove seriam presos e um seria condenado à morte. “Claro que sobrou para Tiradentes, que, além de ser o mais pobre entre os dez, ainda era dentista, profissão que parece nunca ter sido vista com bons olhos pelos portugueses”, brinca Milton. [...]

Detalhe do mapa de 1760 que mostra o local onde ficava a polé ou forca (seta). A Sé Nova à esquerda da seta não chegou a ser construída e no seu lugar está o atual Instituto de Filosofia e Ciências Sociais da UFRJ. Um pouco embaixo à esquerda dele, a Igreja de São Francisco de Paula e mais abaixo a de Nossa Senhora do Rosário, que ainda existem. A Rua do Alecrim (que era um prolongamento da Rua Nova do Hospíco) hoje é a Buenos Aires. O mapa inteiro pode ser visto aqui.


Não foi na Ilha das Cobras que Tiradentes passou sua última noite, e sim na Cadeia, edifício que ficava onde hoje está o Palácio Tiradentes; não por acaso, ali foi posta uma estátua do inconfidente. Vestido com uma camisa de onze varas e, segundo a lenda, depois de ter beijado as mãos e os pés do seu carrasco, Tiradentes deixou a cadeia na manhã de 21 de abril de 1792. Ele teria, então, seguido pela Rua da Cadeia (atual Rua da Assembléia), chegado ao Largo da Carioca, continuado pela Rua do Piolho (atual Rua da Carioca) até o campo da Lampadosa, assistido à missa na igreja que, na época, dava nome ao local e, finalmente, enforcado na esquina da Avenida Passos com Rua Buenos Aires. “Tiradentes nunca teve barba, bigode e cabelão, como costuma ser retratado em quadros e, no momento da execução, estava careca. Mas como a República chegou ao Brasil com um caráter agnóstico, o principal objetivo foi substituir a imagem dos santos pela das figuras pátrias. A de Tiradentes era a que mais se parecia com a de Cristo, porque, enquanto este veio para nos salvar, aquele teria vindo para nos libertar”, diz Milton, lembrando que, depois da execução, o corpo foi esquartejado na Casa do Trem (atual Museu Histórico Nacional) e cada pedaço enviado para lugares onde ele tivesse pregado suas idéias libertárias.


► Texto extraído do livro TIRADENTES CARIOCA de André Luís Mansur e Ronaldo Morais:
Tiradentes é um dos personagens mais polêmicos da História do Brasil, graças, principalmente, à sua transformação em mártir da então recém-criada república brasileira, em 1889. Os novos líderes do país precisavam de um símbolo dos novos tempos, algo ou alguém que marcasse a ruptura com o passado monárquico, ainda descendente da dinastia portuguesa dos Bragança. Tiradentes surge como este símbolo, ideal não apenas por ter lutado pela liberdade, nos moldes da República dos Estados Unidos da América do Norte, mas também por ter sido condenado à morte por D. Maria I, bisavó de Dom Pedro II, o imperador que os republicanos haviam acabado de destronar.

O resto, todo mundo conhece, ou já ouviu falar. Embora não exista nenhuma descrição de seu rosto, deram-lhe cabelos e barbas longas, o que seria impossível por Tiradentes ser militar, mas aí já estava explícita a vontade de compará-lo a Jesus Cristo (embora também não haja nenhuma descrição de seu rosto), com direito a martírio, execução pública e até a um Judas. “O processo foi facilitado por não ter a história registrado nenhum retrato seu. Restaram apenas algumas indicações nos autos. A idealização de seu rosto passou a ser feita não só pelos artistas positivistas, mas também pelos caricaturistas das revistas ilustradas da época” ” (Revista de História da Biblioteca Nacional, artigo “Mito Universal”, de José Murilo de Carvalho)




► Texto publicado na REVISTA ILLUSTRADA de abril de 1892, ano do centenário da morte do inconfidente:

O centenário de Tiradentes, o mártir da Inconfidência Mineira, representa para o moderno Brasil republicano a maior data da sua história.

Vindo das camadas inferiores, o mero alferes de milícia bem cedo ainda concebeu o plano grandioso de libertar a nossa cara pátria de um governo medíocre e indecoroso. E, impelido pela beleza desta conquista, que lhe atestava verdadeira intuição da política americana, deixou-se levar ao patíbulo, porque tinha certeza que a sua inquisição era mais do que um passo para a vitória do seu Ideal. E de fato. Como as plantas necessitam de orvalho para o seu desenvolvimento, a Ideia necessita de sangue para o seu triunfo. É o alimento, é a seiva que produz e produziu as árvores frondosas, à sombra das quais as caravanas descansam.

O Brasil, hoje República, celebra o centenário do desaparecimento do seu primeiro mártir. Tocante lição de história pátria e oxalá que tão nobre, tão extraordinário exemplo de altruísmo, posso inspirar melhor aqueles que nos governam, para a felicidade deste país, que ele tanto amou.

Cumpre, pois, aos nossos homens, respeitar pela lei, pela história e pela pátria, a figura simbólica, misto de amor e de liberdade, de quem para nós é mais do que um princípio – é uma força propulsora.


Antônio Parreiras, A Prisão de Tiradentes, 1914, óleo sobre tela, acervo do Museu Julio de Castilhos

► A construção do mito de Tiradentes (trecho do estudo A Prisão de Tiradentes de Ana Celina Figueira da Silva, David Kura Minuzzo e Eliane Muratore, cuja íntegra você pode acessar aqui)

As várias representações de Tiradentes ao longo da história do Brasil não são de um homem comum de sua época, mas de um personagem idealizado. É essa idealização que encontramos, de certa forma, na pintura A Prisão de Tiradentes; e para que possamos melhor avaliar a leitura do inconfidente proposta por Parreiras na obra, é necessário antes analisar como se formou o mito do herói nacional durante o período republicano.

Tiradentes é um dos mais bem-sucedidos mitos heroicos que o Brasil criou. José Murilo de Carvalho [em A formação das Almas: o imaginário da República no Brasil. São Paulo: Companhia das Letras, 1990] nos mostra que o sucesso da construção desse mito está na associação feita de Tiradentes à figura de Jesus Cristo e o martírio deste.

Após a proclamação da República os republicanos enfrentaram dificuldade em encontrar a figura de um herói que representasse a sua causa e tivesse a “cara da nação”. Os principais participantes do evento de 15 de novembro não correspondiam à imagem que se pretendia criar de herói da República. Deodoro da Fonseca era militar demais e sua aparência lembrava a do outro ilustre velho, o imperador; Benjamin Constant não era líder militar nem civil e Floriano Peixoto era identificado com o jacobinismo republicano, que não correspondia ao tipo de República que estava se construindo. [...]

Pode-se dizer que a violência revolucionária dos inconfidentes permaneceu latente, porém a violência real, a que realmente aconteceu, foi a dos carrascos de Tiradentes. Portanto, Tiradentes foi somente uma vítima. Também Tiradentes prestava-se ao papel de herói, pelo paradoxo de que durante o tempo que passou na cadeia, até seu enforcamento em 21 de abril de 1792, tornara-se místico. A coragem demonstrada em seus últimos momentos de vida provinha do fervor religioso, assumira a postura de mártir, a exemplo de Jesus Cristo. Essa imagem mítica de Tiradentes é inicialmente construída com a obra História da Conjuração Mineira, de Joaquim Norberto de Souza Silva, em 1873. Souza Silva era alinhado à monarquia e para minimizar o papel de Tiradentes no movimento da Inconfidência, relatara as transformações ocorridas em sua personalidade e comportamento durante o período de reclusão. [...]

Os republicanos, a princípio não aceitaram a figura de um Tiradentes místico. Porém, Carvalho nos informa que a partir do livro de Souza Silva, tanto a tradição oral, como as representações plásticas e literárias de Tiradentes e até mesmo as exaltações políticas sobre o inconfidente, passaram a utilizar cada vez mais a simbologia religiosa e a aproximá-lo da figura de Cristo. Como não existia nenhum retrato de Tiradentes, as representações iconográficas, que passaram a ser feitas dele, basearam-se na descrição mística feita por Souza Silva em sua obra. Assim, um Tiradentes semelhante a Jesus Cristo, de barba e cabelos longos é a primeira representação pictórica do inconfidente feita por Décio Villares, em 1890 [que você pode ver aqui]. Trata-se de uma litogravura, onde aparece o busto de Tiradentes com a corda ao pescoço, ornado com “a palma do martírio e os louros da vitória. Barba e cabelos longos, ar sereno, olhar no infinito, era a própria imagem de Cristo”.

Durante o final do século XVIII e início do XIX são produzidas obras de arte dedicadas a Tiradentes, ressaltando a simbologia cristã; essas obras são: Martírio de Tiradentes, de Aurélio Figueiredo, 1893 [aqui]; Tiradentes esquartejado, de Pedro Américo, 1893 [aqui]; A Inconfidência, de Antônio Parreiras, 1901 e a Leitura da sentença dos inconfidentes, de Eduardo de Sá, este sem data [aqui].

Com a idealização de Tiradentes como mártir cristão, ele passou a ser visto não como um herói republicano radical, mas como herói cívico religioso, e foi transformado em herói nacional. [...]


Tiradentes na revista infantil Tico Tico de 30/5/1906

19.7.16

A NOVA VELHA ORLA DO CENTRO CARIOCA


Com a aproximação das Olimpíadas, vão sendo abertos à população novos trechos de uma nova orla durante meio século oculta pela Perimetral e que, na verdade, é a nossa orla histórica original: a orla do Centro da cidade. Quando totalmente concluída (o que se dará em poucas semanas) será possível caminhar dos antigos armazéns do Cais do Porto até o Museu Histórico Nacional. O VLT contribui para dar uma nova mobilidade aos frequentadores do Centro, sejam os tradicionais (quem trabalha lá) ou os novos (a multidão que agora acorre ao Centro nos fins de semana para o lazer, inclusive eu e minha esposa). Dois grandes museus na Praça Mauá, os food-trucks, a abertura de uma área durante séculos restrita à Marinha: tudo isso aumenta a atratividade da nova orla. Aqui estão algumas fotos tiradas espontaneamente (sem que eu tivesse a intenção prévia de preparar a postagem que agora preparo). 


O VLT deu uma nova mobilidade a quem percorre o Centro. Veja mais sobre o VLT clicando em "bondes" no menu da barra lateral direita)

O artista no guindaste desenha o grafite enquanto no fundo, à esquerda, o operário no guindaste constrói os novos prédios de uma nova Zona Portuária

Uma área antes degradada pela Perimetral renasce (clique em Perimetral no menu lateral direito para ver o mostrengo que era a Perimetral)

O passeante contempla o painel Etnias do artista Kobra

Quem te viu (Perimetral), quem te vê (Porto Maravilha)

No bonito ex-depósito da Cibrazem surge o Aquário do Rio, preservando a fachada do antigo imóvel

Detalhe da fachada da antiga Cibrazem: Urso polar

Com a derrubada da Perimetral novos ângulos se descortinam, aqui do Morro da Saúde, com a igrejinha no meio e um condomínio à direita

Praça Mauá, novo point carioca

Do terraço do Museu de Arte descortinamos os contrastes arquitetônicos tão típicos de nossa cidade

Na exposição sobre a Princesa Leopoldina no MAR descubro que, ao chegar no Rio, ela desembarcou exatamente na Orla Conde como mostra esta gravura de Debret! Ao fundo o Mosteiro de São Bento.

Museu do Amanhã (veja mais clicando em "Museu do Amanhã" no menu da barra lateral direita). Fotos do editor do blog. Arte na abertura da postagem obtida no Facebook do Porto Maravilha.

15.5.16

ARCO DO TELES

Largo do Paço, gravura de Louis Buvelot de 1845 obtida na Biblioteca Nacional Digital. O Arco do Teles está sob a seta.

O Arco do Teles era originalmente uma passagem por uma das três casas coloniais de uso misto (residencial e comercial) de meados do século XVIII de propriedade do juiz de órfãos Francisco Teles Barreto de Meneses ligando o Largo do Paço (atual Praça XV) ao Beco do Arco do Teles (atual Travessa do Comércio), como vemos na gravura acima, sob a seta. O Arco sobrevive até hoje, tombado pelo IPHAN em 1938, só que das três casas coloniais originais só restam as fachadas dianteira e traseira da casa central acopladas a prédios modernos, como você pode ver na primeira foto abaixo. 

No Capítulo II de O Rio de Janeiro no Tempo dos Vice-Reis, Luís Edmundo assim descreve as casas do Teles e seu Arco: “À direita, na linha do casario que avança para a praia, as casas do Teles, com os seus balcões verdoengos [=esverdeados] e os seus telhados íngremes e pardos. Na linha do rés-do-chão, vê-se a porta que dá entrada à bodega do francês Philippe, uma das mais populares figuras da cidade e que a profissão de bodegueiro liga à de intérprete, agente de câmbio e mais negócios. A sua tasca é uma das mais populares, sítio onde vão parar os viajantes vindos de Minas e de S. Paulo e onde, por vezes, dormem. Que os que estão em trânsito no porto podem descer, mas não podem dormir em terra. O Arco do Teles abre adiante a face escancarada e suja. É uma passagem curta, onde se amontoam e desaparecem mendigos, rascoas [=meretrizes], vadios e soldados." (Ver ilustração ao final da postagem.)

Arco do Teles visto da Praça XV. Observe que a fachada da casa colonial está encaixada entre os prédios modernos.

A casa colonial, abstraindo-se os prédios modernos

Chegando mais perto

Vamos entrar? Em outras eras a passagem não era tão segura assim, como lemos no texto do Coarary

O texto a seguir foi extraído da obra-prima de Vivaldo Coaracy Memórias da cidade do Rio de Janeiro:

O Arco do Teles está hoje tombado como monumento histórico. Policiado e relativamente asseado, serve quase exclusivamente para a passagem de caminhões que nele carregam ou descarregam mercadorias dos depósitos situados na travessa. Nem sempre, porém, assim foi. Passagem nobre e bem frequentada no tempo dos vice-reis, prestigiado pela vizinhança do Senado da Câmara e proximidade do Paço, decaiu e abastardou-se com o correr dos anos. Por proporcionar abrigo das intempéries, por ser sombrio, tornou-se o Arco do Teles uma espécie de Pátio dos Milagres, valhacouto de vagabundos, refúgio de delinquentes e palco de cenas vergonhosas, pouso de desacreditados tipos de rua como o Filósofo do Cais, a Bárbara Onça, e outros.

À entrada do arco existia primitivamente um dos pequenos oratórios abundantes na velha cidade: simples nicho abrigando uma imagem diante da qual geralmente ardia uma luz. Eram demonstrações da devoção do proprietário dos prédios e diante de muitos desses nichos se reuniam, em certos dias da semana, moradores da vizinhança para rezar ladainhas. No oratório do Arco do Teles venerava-se a imagem de Nossa Senhora dos Prazeres. Tão escandalosas, porém, eram as cenas que a imagem presenciava que, revoltado com semelhante profanação, um dos moradores da zona, Manuel Machado de Oliveira, tomou a iniciativa de remover a santa imagem para a Igreja de Santo Antônio dos Pobres, onde até hoje se encontra.

Em começos do corrente século [século XX], em ação conjunta, a Polícia e a Prefeitura promoveram o saneamento moral e material do Arco do Teles e desde então, removida das proximidades a Praça do Mercado, modificados os costumes, ele ficou sendo simples passagem para trânsito comercial.

Em 1750, como já ficou registrado, a Câmara cedeu a sua casa, sobre a Cadeia Velha, para sede do Tribunal da Relação que acabava de ser criado no Rio de Janeiro. Passou a Casa das Vereanças a funcionar então no lado oposto do Largo, nas casas de Teles de Meneses de que alugou uma parte dos sobrados onde instalou todos os seus serviços de secretaria. Estava aí alojada quando, em 1757, a provisão régia de 11 de março lhe concedeu o título de Senado da Câmara.

Nos baixos, ou pavimento térreo, das casas dos Teles funcionavam várias lojas de pequenos mercadores. Entre elas, havia a de um belchior ou adeleiro, Francisco Xavier, mais conhecido por alcunha popular que a decência não permite reproduzir, mas que consta de autos antigos. Na noite de 20 de julho de 1790, irrompeu violento incêndio nessa loja. No empenho de salvar as mercadorias que ali guardava e representavam todos os seus haveres, pereceu nas chamas o belchior e com ele um menino que lhe servia de caixeiro e criado. O fogo propagou-se aos sobrados e comunicou-se à casa da Câmara, destruindo não só os móveis, alfaias e pertences, como o precioso arquivo municipal, do qual apenas se salvaram uns poucos livros que se encontravam eventualmente em poder do escrivão do Senado da Câmara. [...]

A perda irremediável do arquivo municipal representou prejuízo de extensas consequências. Até hoje, muitos pontos obscuros da história da cidade e numerosas controvérsias sobre a origem de posses territoriais e seu caráter alodial ou enfitêutico, não podem ser esclarecidos com exatidão em resultado daquele incêndio. [...]

O juiz Francisco Teles Barreto de Menezes mandou reconstruir os prédios de sua propriedade que o incêndio destruíra em parte. Quanto ao Senado da Câmara, passou a funcionar em prédios alugados, sucessivamente na Rua do Ouvidor, na Rua Direita, no Consistório da Igreja do Rosário, sem sede própria, até instalar-se por fim, em 1825, em casa especialmente construída, no Campo da Aclamação [...]

Vivaldo Coaracy, Memórias da Cidade do Rio de Janeiro, Coleção Rio 4 Séculos, pp.42-43

Arco do Teles visto da Travessa do Comércio.

Aqui também se vê claramente que o Arco hoje fica sob um prédio moderno.

Arco do Teles em ilustração de Washt Rodrigues para O Rio de Janeiro no Tempo dos Vice-Reis de Luís Edmundo

18.9.13

PASSEIO PELO CENTRO CARIOCA


O Centro é a alma da cidade. Se não foi lá que o Rio nasceu, pelo menos foi lá que a cidade se desenvolveu. Lá estão os resquícios do Rio colonial — velhos conventos, antigas igrejas, o antigo Paço —, do Rio imperial — monumentais construções neoclássicas como o Arquivo Nacional, Palácio do Itamaraty e Santa Casa da Misericórdia —, do Rio de Machado (“Calcemo-nos à maneira da Rua do Ouvidor, que pisamos, onde a vida passa em burburinho de todos os dias e de cada hora.”), do Rio da República Velha.

No Centro você encontra museus, centros culturais, comércio popular, livrarias, um shopping de informática, igrejas históricas, confeitarias centenárias, um dos raros prédios em estilo manuelino fora de Portugal, talha barroca de tirar o fôlego, happy hour animada, o monumental Teatro Municipal inspirado na Ópera de Paris, etc. etc. etc.

Durante muitos séculos tudo de importante no Rio aconteceu no Centro:
  • O desembarque da família real no Brasil em 1808 no antigo cais do Largo do Paço, atual Praça XV. 
  • A declaração do Príncipe Regente D. Pedro, poucos meses antes da Independência, do balcão do Paço Real, futuro Paço Imperial (na atual Praça XV), de que “Se é para o bem de todos e felicidade geral da Nação, estou pronto! Digam ao povo que fico.” 
  • Coroação de Dom Pedro I e Dom Pedro II na Capela Imperial, atual Igreja de Nossa Senhora do Carmo da Antiga Sé.
  • Prisão de Tiradentes na Rua Gonçalves Dias e seu enforcamento próximo da atual Praça Tiradentes. 
  • Assinatura da Lei Áurea pela Princesa Isabel num salão do Paço Imperial.
  • Proclamação da República na atual Praça da República. 
Sete estações de metrô ficam no Centro: cinco compartilhadas pelas Linhas 1 e 2 (Cinelândia, Carioca, Uruguaiana, Presidente Vargas, Central), uma só da Linha 1 (Praça Onze) e outra só da Linha 2 (Cidade Nova).


Um conselho: não deixe de visitar o Centro da Cidade porque dispõe de pouco tempo e acha que Corcovado, Pão de Açúcar, praias, parques são mais importantes. O Rio é uma cidade quatro vezes centenária que já foi capital da colônia, do império e da República. Destarte, é uma cidade “histórica” no mesmo sentido em que Roma e Paris são cidades históricas. Você não vai a Roma e Paris e deixa de visitar os lugares históricos, vai? A mesma regra vale para o Rio.

Uma última observação: ao contrário das capitais europeias onde, devido a uma maior “disciplina” por assim dizer, existe certa homogeneidade arquitetônica (por exemplo, em Munique, todas as construções, antigas ou modernas, têm o mesmo número de andares), no Rio vemos uma interessante mistura de imóveis de diferentes épocas proporcionando contrastes como o da foto acima. Grosso modo, na parte do Centro mais para leste (direita) predominam os arranha-céus, enquanto mais para oeste (esquerda) predominam os velhos sobrados.

A minha sugestão é que você reserve umas quatro horas para "flanar" com calma pelo Centro. O ideal é ir entre terça e sexta-feira — segunda-feira os museus e centros culturais estão fechados e no fim de semana (sobretudo no domingo) o Centro fica mais vazio, sem a azáfama dos chamados dias úteis. No mapa abaixo você tem um roteiro de 3,7 km, começando na Praça XV e terminando na Academia Brasileira de Letras, que abrange as principais atrações do Centro "tradicional". Mas não inclui o recém-revitalizado Porto Maravilha com o Museu do Amanhã, Museu de Arte do Rio e Orla Conde, que merecem uma visita à parte. Clique nas "gotinhas" para maiores informações sobre cada atração e bom passeio!


Visualizar Passeio pelo Centro Carioca em um mapa maior

23.4.09

ANIVERSÁRIO DE PIXINGUINHA

TEXTO DE CYRO DE MATTOS


Filho de uma família musical, Alfredo da Rocha Viana Filho nasceu no Rio de Janeiro, em 23 de abril de 1897. Teve treze irmãos. O apelido Pixinguinha veio da junção de dois outros apelidos: “Pizindim”, apelido colocado pela avó Edwirges, que era africana, e “Bexiguinha”, herdado ao contrair varíola (bexiga), epidemia que deixou marcas em seu rosto.

A história da nossa música popular e do rádio confunde-se com a vida desse maravilhoso flautista, saxofonista, compositor, arranjador e regente. Choros, canções regionais, desafios sertanejos, maxixes, lundus, corta-jacas, batuques, cateretês, entre outras modalidades musicais, receberam o acento, o hálito, o sopro, a marca magistral do primeiro arranjador que a música popular brasileira teve, com “O Teu Cabelo Não Nega”, de Lamartine e os Irmãos Valença, e “Taí”, de Joubert de Carvalho.

Aos 12 anos começou a acompanhar seu pai, flautista, em festas, tocando cavaquinho. Aos treze fazia a primeira composição, “Lata de Leite”, inspirada nos chorões boêmios, músicos que de madrugada encerravam suas atividades e, voltando para casa, bebiam o leite deixado na porta das residências. De suas primeiras composições destacam-se ainda “Rosa” e “Sofre Porque Queres”.

Esse filho de Ogun, de fama internacional, fundiu a sua formação clássica, de base européia, com ritmos nossos, de raízes negras, além de incorporar a música negra norte-americana, formando assim um estilo em que sobressai o toque especial do sentimento brasileiro de nossa música popular. Diante de sua música, que mexe com a alma e traz um jeito tão nosso, não há quem não sinta o orgulho de ser brasileiro.

São tantas as composições marcantes realizadas por esse mestre de nossa música popular, entre tantos mestres, que é difícil destacar algumas dessas jóias. Cito aqui algumas do meu gosto: “Carinhoso”, “Gavião Calçudo” , “Chorei”, “Um a Zero” e “Vou Vivendo”. Mas há quem prefira “Mundo Melhor”, “Segure Ele” e “Sofres Porque Queres”. E ainda quem não abra mão de “A Vida É um Buraco”, “Naquele Tempo” e “Rosa”.

Estátua de Pixinguinha na Travessa do Ouvidor, Centro do Rio


Se música é pensar e sentir a vida através de sons, em Pixiguinha temos o exemplo primoroso de como não se pode viver sem ela. Esse poeta da nossa música popular tinha a alma de passarinho, que gostava de soltar da flauta pingos de ouro, de dia e de noite. Dos lamentos de seu saxofone lograva extrair sentimentos puros, fundos, pungentes choros, emoção numa coisa só música afinada, que traz também o riso,.além de fazer que famosos compositores, letristas e músicos de hoje se curvem diante dela.

Ele pensava, sentia e respirava música. Foi na terceira complicação cardíaca, nos idos de 1964, que ele ficou internado por mais de um mês. Foi proibido pelo médico de certas comidas pesadas, bebida e de tocar saxofone. Tempo depois, quando teve autorização para voltar a tocar saxofone, chorou. Escreveu vinte músicas durante o tempo que esteve internado,, cada uma delas se relacionando com os momentos que teve no hospital. Por exemplo, “Manda Brasa”, expressão que ouviu quando ia almoçar, e “Vou pra Casa”, escreveu no quarto, ao receber alta.

Pixinguinha morreu dentro de uma igreja, em Ipanema, no Rio de Janeiro, em 17 de fevereiro de 1973. Tinha ido batizar o filho de um amigo, depois de adiar por várias vezes o batismo por motivo de complicações no estado de saúde. É possível que não tenha resistido à emoção de ser padrinho do filho do amigo na hora do batismo quando então caiu fulminado por um enfarte. O pessoal da Banda de Ipanema, que saía pelas ruas em época de Carnaval, ao tomar conhecimento de sua morte, passou na porta da igreja onde o corpo de Pixinguinha estava sendo velado lá dentro. E naquele instante tocou como nunca o samba que homenageava o mestre. Os foliões cantavam num clima de alegria e tristeza o refrão: “Ô, lê, lê, ô,lá, lá, pega no ganzê, pega no ganzá...”

Um motorista, ao ouvir pelo rádio do carro a notícia da morte de Pixinguinha, disse para o passageiro:
- Esse homem tinha um coração tão bom que Deus quis que ele morresse dentro de uma igreja.


Painel a óleo em frente à estátua de Pixinguinha. O painel mostra um encontro hipotético entre bambas da nossa música (Nelson Sargento, Paulo Moura, Braguinha, Noel Rosa e outros) na Wiskeria Gouveia, o "Escritório do Pixinguinha".

3.8.08

CENTENÁRIA AV. RIO BRANCO

UM ESTUDO DE IVO KORYTOWSKI


Banco Central, antiga Caixa de Amortização, da primeira geração de prédios da então Avenida Central, contrastando com prédio moderno.

Em crônica de 22 de março de 1929, escreveu Manuel Bandeira:

O Rio festejou no dia 8 o jubileu da sua grande Avenida. Todas as casas de comércio hastearam a bandeira nacional. À noite houve corso. [...]

A avenida estava linda como sempre. Ela não precisa de decorações suplementares para tomar aspecto festivo. Na realidade de todos os dias já é uma festa perpétua para os olhos: alegria dos cariocas e dos provincianos em trânsito. [...]

Nasceu quase de improviso. Em um mês derrubaram centenas de paredes, trabalho em que se empregou desde a dinamite até a junta de bois. E houve um bloco de casarões que foi arrasado pelo incêndio proposital. A abertura da avenida não foi uma obra friamente projetada e executada. Antes parecia uma obra de paixão. [...]

Houve pessimistas que duvidavam do êxito da empresa. Vamos ter uma avenida de escombros, diziam eles. Nem em cinco anos se edificará... Os preços dos terrenos são excessivos para a escassez atual de dinheiro...

Depois apareceram os críticos que a olho julgaram errado o eixo de abertura. Isso tudo provocava um sem-número de comentários. Foi assim que se rasgou a Avenida, nesse ambiente de viva e controvertida curiosidade.

E como foi por ela que começou a transformação urbanista do Rio, ela ficou como símbolo daquela transformação. (Manuel Bandeira, Crônicas inéditas I, Editora CosacNaify, pp. 177-8)

À esquerda o antigo Morro do Castelo, que veio a ser demolido na década de 1920, dando lugar à Esplanada do Castelo (ou simplesmente "Castelo"). Foto de autor desconhecido obtida no site do BNDES.

No dia 15 de novembro de 1905, a Gazeta de Notícias informava:

"Hoje deve ser entregue ao transito publico a primeira Avenida construída no Rio de Janeiro, que recebeu o nome de Central [atual Av. Rio Branco]. 


Como é igualmente sabido, esta grande arteria será officialmente inaugurada hoje pelo Sr. presidente da Republica, que cortará as fitas que a fecham.


Quasi todos os predios concluídos terão as suas fachadas ornamentadas com bandeiras e galhardetes." (Fonte: Hemeroteca Digital)



À esquerda, o edifício pós-moderno número 1 da Av. Rio Branco. À direita, o edifício art déco A Noite, com seus 22 andares o primeiro verdadeiro arranha-céu do Rio, de 1929. Ao centro o Barão de Mauá.

No dia seguinte, noticiava o Jornal do Commercio:


"Raras vezes um acontecimento publico terá attrahido a uma extensa área da cidade mais gente do que a inauguração da Avenida Central attrahio hontem desde pela manhã á zona urbana, vulgarmente conhecida pelo nome de ‘centro’. [...]


O facto demonstra o grande interesse da população pelo importante melhoramento que o actual Governo lega á Capital do paiz. Esse interesse, apressamo-nos em dizel-o, é de todo justificado. O extrangeiro que visitar agora a nossa Capital ja tem na Avenida um bello exemplo do progresso material que o Rio de Janeiro se sente resolvido a realizar." (Fonte: O Rio de Janeiro através dos jornais de João Marcos Weguelin)



Avenida Rio Branco fotografada por Von Peter Fuss em meados dos anos 30. O edifício em construção em primeiro plano fica na esquina da Rua Mairink Veiga.  Naquela época já existia uma primeira geração de edifícios altos,  sendo o maior deles o Edifício A Noite (não visto na foto). A Candelária, a construção mais alta do Rio antes do advento dos arranha-céus, também é visível na foto (centro esquerda).

O jornal O Paiz na primeira página da edição de 16/11 chamou a atenção para a chuvarada que atrapalhou, mas não chegou a estragar a festa:

"A esperança de um bello dia sagrando uma bella data e uma bella obra desfez-se, infelizmente; o sol não veiu, e foi sob um aguaceiro impertinente e odioso, fino e pulverizado a começo, grosso e encharcante depois, que se fez hontem a inauguração da formosa avenida que foi, no dia da festa da Republica, a concretização mais evidente e irrecusavel das suas promessas de melhores dias. O ceo amanheceu turvo e torvo se conservou até a noite, como uma carranca de sebastianista impenitente.


A despeito disto, a inauguração da Avenida Central e as festas commemorativas que se confundiram neste facto, tiveram um brilho consolador. Não houve sol, mas houve enthusiasmo; e a multidão que veiu para a rua e que a despeito do chuveiro se derramou pela grande via, enchendo-a de vida e movimento, nella se conservou até desapparecer no angulo da rua do Passeio o ultimo soldado da desfilada militar; valeu como consagração e calor pelo mais claro sol destes claros dias de novembro." (Fonte: Hemeroteca Digital)



Sede do Jornal do Brasil na Avenida Central, durante alguns anos o prédio mais alto da cidade. Foto de 1908 de Marc Ferrez obtida no site do Instituto Moreira Salles.

A cobertura do Correio da Manhã no dia 16/11 foi menos cor-de-rosa, chamando a atenção para supostas "negociatas" durante as obras:

"A chuva interrupta que cae sobre a cidade, desde ante-hontem, à noite, não permittiu que a inauguração da Avenida Central, tivesse o brilhantismo annunciado.

É realmente doloroso que tal acontecesse e somos os primeiros a sentir que as despezas feitas pelo Thesouro não produzissem o effeito desejado.

A inauguração, apezar do numero de pessoas presentes, esteve fria. O conselheiro Rodrigues Alves foi, durante longo tempo, acompanhado por uma enormidade de garotos, que pulavam de um lado para outro lado, formando um sequito incommodo e alvorecido.

O povo, divorciado por completo das festanças e pagodes officiaes, não teve uma acclamação, não teve um viva, para o presidente da República. É que, na sua intelligencia, enxerga bem não só a face brilhante do melhoramento inaugurado, mas também a face repulsiva, representada pelas immorallidades, pelas negociatas, pelas patifarias que acompanharam os progressos da Avenida." (Fonte: Hemeroteca Digital)

Obras de abertura da avenida, diante do Largo da Carioca. Uma enormidade de casas tiveram de ser demolidas. Nos jornais da época vemos anúncios de lojas tendo de liquidar seus estoques porque seriam demolidas. Observe o convento e igrejas ao fundo. Fonte: O Malho de 10/9/1904 pesquisado na Hemeroteca Digital.

Na página 3 da edição de 22-23 de novembro de 1905, o jornal A Notícia, em matéria intitulada "Os passeios da Avenida", previa um futuro jubiloso para nossa cidade:


Nestes últimos tempos nenhum acontecimento, no Rio de Janeiro, se poderá comparar com a inauguração da Avenida Central; nenhum de tamanha magnitude e de tão grande alcance!... Está isso na consciência de todos; ingrato aquelle brasileiro que o negar. O governo da República tem sido fecundo, é o da renovação e do trabalho.

A Avenida Central é hoje realidade, está alli prompta e quase toda edificada. Do grandioso exemplo provirão fatalmente as salutares consequencias. Vislumbro, jubiloso, a prosperidade, sempre crescente, da nossa cidade.

Palácio Monroe, antigo Senado, já demolido, na extremidade sul da Avenida. Fonte: Biblioteca Nacional Digital 

A revista O Malho, em "Chronica" assinada por J. Bocó na edição 166 de 18/11/1905, ao contrário do Correio da Manhã, considerava bem aplicado o dinheiro da Avenida:

A Avenida ahi está, na sumptuosidade da sua ampla perspectiva, orlada de bellos edificios. O povo esquece as maguas que porventura o possam entibiar, enche a colossal arteria de que elle é o sangue generoso, percorre-a de ponta a ponta, admirando os primores da architectura, compara com o presente os vestígios do passado, expresso na estreiteza das ruas affluentes, e dá por bem empregado o dinheiro que, em vez de sumir no abysmo hiante das revoltas sem pés nem cabeça, apparece-lhe alli representado numa obra realisada para o seu bem estar material e para o credito do seu prestigio moral no estrangeiro, visto como infelizmente la naturaleza não desempenha essas funções internacionaes...



Crônica de O Malho. Fonte: Hemeroteca Digital.

Edifício Lafont (e não Lafond como se costuma escrever), depois Palácio Rio Branco, já demolido, primeiro (e por algum tempo o único) prédio de apartamentos (de luxo) da cidade, do início da década de 1910, na esquina da Av. Central, depois Rio Branco, com Rua Santa Luzia, projetado por Viret & Marmorat, "mas que, pelas peculiaridades do estilo, dir-se-ia mandado vir, já pronto, de Paris" segundo Lúcio Costa em Arquitetura Brasileira.
Edifício Guinle na esquina da Rio Branco com Sete de Setembro. Empreendimento da Souza Cruz, inaugurado em 1929, primeiro prédio "moderno" (art déco) da Avenida, duas décadas e meia após sua inauguração já iniciando a destruição da primeira geração de prédios Beaux Arts afrancesados.

Em Rio de Janeiro: Uma cidade no tempo (organizado por Evelyn Furquim Werneck Lima et al. e editado em 1992 pela Prefeitura do Rio), lemos:

"Até o final do século XIX, o centro da cidade do Rio de Janeiro, Capital Federal da república do Brasil, tinha a aparência de uma antiga cidade colonial. [...] Entretanto, a nova estrutura política do país exigia a adequação do espaço urbano às necessidades da economia braileira, que se integrava ao mercado mundial através da exportação de café. [...] Indicado em 1902 para Prefeito do Distrito Federal, Pereira Passos foi responsável pela maior reforma urbana executada até então. [...] Do ponto de vista econômico, a remodelação da cidade consistiu primordialmente na transferência e modernização do porto do Rio de Janeiro [...] Seguindo o modelo de outros grandes centros latino-americanos, priorizou-se a construção de grandes avenidas que facilitassem a circulação urbana e embelezassem a cidade. [..] A Av. Central, atual Av. Rio Branco, rasgou o centro da cidade no sentido norte-sul, às custas da demolição de centenas de casas."

Em 1912, com o falecimento do Barão do Rio Branco, a Av. Central recebeu seu nome.



Avenida Rio Branco fotografada por Augusto Malta

Outra foto do Malta

Da primeira geração de prédios da Av. Rio Branco, vencedores de um concurso internacional de fachadas, com prêmios em dinheiro e a participação de 107 concorrentes, promovido pela Comissão Construtora da Avenida Central, sobrevivem dez: 

  • 1) Hotel São Bento, no número 19 da Av. Rio Branco, no encontro com as Ruas São Bento e Dom Gerardo 
  • 2) Banco Central (no número 30, antiga Casa de Amortização) 
  • 3) sede do Iphan (46, prédio que pertenceu à Docas de Santos) 
  • 4) Antigo Bar Simpatia, atual Simpatia Lotérica e outros (92, bem estreita para preservar a adjacente Igreja de Nossa Senhora da Conceição e Boa Morte)
  • 5) prédio comercial (155) 
  • 6) Clube Naval (180, esquina com Almirante Barroso) 
e na Cinelândia: 

  • 7) Teatro Municipal 
  • 8) Biblioteca Nacional 
  • 9) Museu Nacional de Belas Artes 
  • 10) Centro Cultural da Justiça Federal

Uma série de fotos desses prédios que nasceram com a Avenida pode ser vista em o O Globo.


Theatro Municipal com Carlos Gomes na frente [depois da restauração a estátua foi transferida para mais perto do teatro]

Rio Branco antes da implantação do VLT: uma avenida importante, mas sem o charme de outrora.



Com a implantação do VLT o trecho da Av. Nilo Peçanha até a Cinelândia tornou-se um aprazível passeio, sem carros, só o bonde, que circula mais ou menos de quinze em quinze minutos.

Postagem originalmente publicada em 15/11/05 quando a Avenida completou cem anos, e agora acrescida de fotos e textos novos. Outras fotos do Rio Antigo podem ser vistas clicando-se no marcador "fotos do Rio Antigo" abaixo. Saiba mais sobre a Avenida Central fazendo o download da versão em PDF do livro O Rio de Janeiro na época da Avenida Central. Veja as fotos e desenhos das fachadas dos prédios originais da Avenida Central clicando aqui.