ENSEADA DE BOTAFOGO

ENSEADA DE BOTAFOGO
"Andar pelo Rio, seja com chuva ou sol abrasador, é sempre um prazer. Observar os recantos quase que escondidos é uma experiência indescritível, principalmente se tratando de uma grande cidade. Conheço várias do Brasil, mas nenhuma tem tanta beleza e tantos segredos a se revelarem a cada esquina com tanta história pra contar através da poesia das ruas!" (Charles Stone)

VISTA DO TERRAÇO ITÁLIA

VISTA DO TERRAÇO ITÁLIA
São Paulo, até 1910 era uma província tocada a burros. Os barões do café tinham seus casarões e o resto era pouco mais que uma grande vila. Em pouco mais de 100 anos passou a ser a maior cidade da América Latina e uma das maiores do mundo. É pouco tempo. O século XX, para São Paulo, foi o mais veloz e o mais audaz.” (Jane Darckê Avelar)
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1.12.17

VIAJANTES ESTRANGEIROS NO RIO DE JANEIRO: EDMONDO DE AMICIS (1884)


Em 1884, retornando de uma viagem à Argentina que resultou na obra Sull'oceano (sobre a qual fiz uma postagem no meu outro blog, o Sopa no Mel, que você pode acessar aqui), o escritor italiano Edmondo de Amicis, mais conhecido por seu clássico Coração, fez uma breve escala no porto do Rio de Janeiro, mas somente dezoito anos depois (1902) veio a escrever um artigo sobre a cidade, publicado no suplemento La Lettera do jornal milanês Corriere della Sera. O artigo foi incluído como "bônus" na edição brasileira do livro citado, intitulada Em Alto-Mar, publicada em 2017 pela Nova Alexandria em coedição com o Istituto Italiano di Cultura, com tradução, curadoria e notas de Adriana Marcolini. Em seguida, alguns trechos do artigo de De Amicis.  Observe que esta talvez seja a primeira vez em que se faz alusão à cidade como "maravilhosa" numa crônica. As três fotos de Marc Ferrez de 1890, obtidas na Biblioteca Nacional Digital, dão uma ideia de como teria sido a cidade na época em que De Amicis a visitou.



– Por que o senhor nunca escreveu nada sobre o Rio de Janeiro?

Esta pergunta me foi feita uma centena de vezes durante os dezoito anos que se passaram desde que fui ao Brasil, e cem vezes dei sempre a mesma resposta pronta, tal como fazem os deputados quando conversam com os eleitores: – Porque fiquei apenas três dias, quando o Sírio, o navio em que viajei de Buenos Aires para Gênova, fez uma escala no porto da cidade. Amigos bondosos se desdobraram para me mostrar tudo, levando-me para todos os lados de carruagem, de bonde e em via férrea, desde cedo até a noite, como alguém que quisessem salvar da caça de uma banda de credores; vi muito, mas vi tudo correndo, afobado e com os olhos ofuscados pelo cansaço, de forma que me esqueci de muitas coisas, e de outras só tenho uma vaga lembrança, e até das imagens que se mantiveram mais vivas tenho lacunas obscuras, sobre as quais mesmo se reflito longamente nunca consegui captar uma mínima recordação. O que poderia escrever? Seria como descrever um sonho.

A esta resposta de sempre, poucos dias atrás, um intrépido italiano, que recentemente voltou do Brasil para Itália, rebateu sagazmente: – Mas o senhor não se sente tentado a fazer a descrição de uma cidade maravilhosa, onde permaneceu somente poucas horas, e da qual se lembra apenas como um sonho?

– Eis aí uma ideia – pensei.

E aquela ideia colocou-me a pena na mão e pregou-me à escrivaninha.

Mas eis uma lacuna da memória justamente bem no começo, no momento em que o Sírio, em uma esplêndida manhã de junho, ainda balançava no porto do Rio de Janeiro. [...] O mensageiro bem-vindo estava no meio de muitos italianos queridos: lembro-me do nome de alguns, mas não me lembro da fisionomia de nenhum deles. E não me recordo nem mesmo como desembarquei, com quem subi na carruagem, o que vi nas ruas que percorri para ir a Botafogo, o bairro da aristocracia e dos diplomatas, onde me esperava o secretário da legação italiana [...] Lembro-me só de um detalhe daquele trajeto: a forte tentação, vencida com muito sofrimento, de pular da carruagem quando passamos por uma feira de frutas. Ah, que atração mágica, aquelas frutas tropicais grandes, de formas e cores desconhecidas! Eu me esqueci dos bairros, dos monumentos, dos personagens ilustres, mas ainda tenho diante dos olhos, em meio às vendedoras de frutas negras e mulatas, agachadas no chão, entre as pilhas de abacaxis e de bananas douradas e prateadas, aquelas frutas misteriosas que se parecem com pinhas verdes, com bolas douradas, com tomates em forma de fuso, com abóboras metálicas, algumas das quais, cortadas ao meio, revelavam uma cremosidade branca e rosada e prometiam sabores extraordinários.

Que ruas terei eu subido para chegar ao morro da Tijuca, o famoso belvedere da Baía, o passeio clássico do Rio de Janeiro? Parece-me agora que a carruagem puxada por quatro burros, na qual, se não me equivoco, estavam comigo o cônsul Glória, o valoroso Jannuzzi e o gentil farmacêutico Foglia, tenha chegado lá em cima como uma bola voadora através da neblina. Recordo apenas do último trecho do longuíssimo trajeto, pelas vielas de um parque encantador, ladeadas por uma vegetação soberba, entre as quais despontavam samambaias gigantescas elegantemente esbeltas que tinham a forma de guarda-chuvas e uma admirável tonalidade verde-clara, onde, com breves intervalos, a carruagem passava rente a solitários cidadãos brasileiros que estavam ali pacientemente à espera da graciosa presa, com o rosto voltado para o alto e segurando a rede para caçar borboletas, em pose de filósofos armados.

Sim, Mantegazza tinha razão quando me escreveu: – Queira me desculpar, mas o Rio de Janeiro é mais bonito que Constantinopla. Não é que a cidade seja mais bonita, mas sim o lugar, as águas, toda a natureza que a circunda. Oh, não há comparação!


O que dizer da cidade do Rio de Janeiro? Quem a definiu melhor comparou-a a um polvo imenso, que tem a cabeça na pequena cidade original de São Sebastião – implantada entre duas colinas à beira da baía, todavia quase intacta; cheia de ruas estreitíssimas e em linha reta, de aspecto antigo, embora ainda não tenha quatro séculos – e avança para o mar; seus infinitos tentáculos, formados por fileiras de bairros cujas extremidades têm entre si uma distância maior do que de uma ponta à outra de Londres, enfiam-se por aqui e ali, em volta de lagoas e curvas, subindo morros, entrando por vales, adentrando em extensas planícies. Percorri intermináveis trajetos de carruagem entre os mais distantes pontos. Meu cicerone anunciava de vez em quando o nome de um novo bairro, e me indicava uma vista diferente das ilhas, da outra margem da baía, e das montanhas que a circundam. Mas como lembrar-se daquele monte de nomes portugueses e indígenas, daquela grande variedade de panoramas admiráveis, de tantas passagens de um bairro deserto para outro cheio de vida, de um porto para um parque, da planície para a altitude? Às vezes parecia que a cidade tivesse acabado, mas pouco depois recomeçava. Às residências carregadas dos primeiros construtores portugueses seguem-se as casas de campo surgidas há pouco, que dão ostensivamente para os jardins como para tomar grandes goles de ar.

Todas as minhas lembranças do Rio de Janeiro brilham de verde: admita-se a metáfora de mau gosto. Revejo em pensamento que, para além de qualquer coisa, o mais bonito é a vegetação opulenta, ostensiva, dominadora, e vem-me à mente a imagem de pobreza, aquela que, mesmo esquálida, também confere beleza e alegria às cidades dos nossos países. As árvores brotam do empedrado das ruas assim como na Itália os tufos de grama surgem dos velhos muros, obstinados em viver a qualquer custo, nas condições mais adversas para a vida; dos muros dos jardins despencam ramos floridos, cabeleiras esverdeadas, guirlandas e cascatinhas de folhagens e flores; por todos os lados abrem-se jardins cheios de todo tipo de samambaias, orquídeas, bromélias, bananeiras com folhas grandes, exuberantes e carregadas que parecem competir com o espaço e a luz e querer dominar as casas. A maioria das praças é palco de jardins deslumbrantes, onde as árvores gigantescas, com troncos estranhos e folhagens graciosas são tão densas, disformes e de aspecto tão diverso, com tons tão diferentes de verde que o olho se cansa até de vê-las pouco, e quase tem uma sensação de ofuscamento, como se estivesse diante de um espetáculo em constante mutação.


Sim, sem dúvida, subi no topo do Corcovado, o glorioso morro corcunda que forma a cabeça de um Gigante deitado; do qual o não menos celebrado Pão de Açúcar representa os pés unidos, que despontam do mar. [...] Visitei o admirável Jardim Botânico, nas proximidades da Lagoa Rodrigo de Freitas, mas com exceção da grande alameda das Palmeiras gigantes, famosa na América tal como o pinheiral de Ravenna na Europa, e de um copo de cerveja que engoli quando senti uma sede enorme, não tenho mais nenhum rastro na memória.

13.3.15

QUAL A ORIGEM DA EXPRESSÃO "CIDADE MARAVILHOSA"?

UMA VERSÃO AMPLIADA DESTE ESTUDO FOI PUBLICADA EM 2022 PELA REVISTA DO INSTITUTO HISTÓRICO E GEOGRÁFICO BRASILEIRO (NÚMERO 488, PÁG. 265) QUE VOCÊ PODE ACESSAR CLICANDO AQUI
 

O primeiro registro na imprensa carioca do epíteto Cidade Maravilhosa aplicado ao Rio de Janeiro está na página 2 do jornal O Paiz de terça-feira, 16 de fevereiro de 1904, pleno Carnaval. Lemos ali que os foliões de um carro alegórico que criticava as carrocinhas que tolhiam “a canina estirpe de viver e gozar da plena liberdade das ruas desta capital [...] não contentes com os protestos feitos de viva voz, ainda distribuíam estes versos em avulso:

MATRICULADOS E NÃO MATRICULADOS

Esta gaiola bonita
Que ahi vai sem embaraços
É a invenção mais catita
Do genial Dr. Passos

As ruas de ponta a ponta
Subindo e descendo morros
Por onde passa da conta,
Dos vagabundos cachorros.

Agarra! Cerca! Segura!
— Grita a matilha dos guardas —
Correndo como em loucura
Com um rumor de cem bombardas.

Terra sempre em polvorosa
Sem igual no mundo inteiro,
Cidade maravilhosa!
Salve, Rio de Janeiro!

A partir daí, vemos referências esparsas à cidade do Rio como “maravilhosa”, por exemplo:

·       Na pág. 1 de O Paiz de 4/5/1904, em matéria intitulada “Uma Obra Politica”, lemos: “A população comprehendeu bem a grandeza do serviço que o governo lhe vai prestar, negando-se a crear embaraços á sua acção, como queriam agitadores profissionais, antes, facilitando todo os accôrdos e sujeitando-se a todas as prescripções legaes, no bom intento de ver transformada, embellezada e saneada esta cidade maravilhosa, de cuja fama e de cuja força depende o equilíbrio da seiva econômica em todos os órgãos do paiz.”

·       Na pág. 3 de A Notícia de 22-23/5/1907, em matéria intitulada “No Palacio Monroe”, lemos (transcrito na ortografia da época): “Está ainda na lembrança de todos os habitantes desta cidade maravilhosa a rapidez com que o general [...] concluio o Palacio Monroe, para o qual aproveitou o mesmo plano e grande parte de elementos que serviram na architectura do pavilhão brasileiro da Exposição Universal de S. Luiz”.

·     Na pág. 2 de A Notícia de 6-7/7/1909, em matéria intitulada “Dez Annos Atrás”, lemos: “ [...] passeando esta cidade de tão lindas ruas novas, percorrendo as avenidas, respirando um ar que não é o das antigas vielas infectas, habitando uma nova cidade maravilhosa e salubre [...]”.

Em 1908 montou-se na Urca a Exposição Nacional comemorativa do centenário da abertura dos portos, na época uma espécie de "cidade artificial" asséptica & deslumbrante, como hoje, digamos, uma Disneyworld. Nesse período torna-se comum na imprensa designar essa exposição de “cidade maravilha” ou “cidade maravilhosa”

Nesse contexto, Coelho Neto vem a publicar, na página 3 da edição de 29-30 de outubro de 1908 de A Notícia (e não em 28/10 como afirmam quase todas as fontes), a crônica “Os Sertanejos”, à qual se atribui falsamente a “criação” do termo Cidade Maravilhosa para designar o Rio de Janeiro. Nada mais longe da verdade. 


Crônica "Os Sertanejos" de Coelho Neto na edição de 29-30 de outubro de 1908 de A Notícia. Acervo da Fundação Biblioteca Nacional - Brasil.

A crônica narra a história de um grupo de sertanejos “contratados para cantar e dansar no recinto da Exposição”. Após conhecerem a cidade em si, “a cidade formidável, a cidade devoradora d’homens, com as avenidas largas, margeadas de palácios colossaes, com o mover incessante de uma multidão apressada, com o reboliço vertiginoso dos vehiculos, com a zoeira dos automoveis, com o troar dos pregões, com todo esse confuso movimento que é a vida, desde o passo subtil, despercebido de um mendigo andrajoso que se esgueira ao longo dos muros, resmungando lamúrias, até a estropeada heroica de um regimento com a bandeira desfraldada ao vento, as armas lampejando ao sol e os clarins resoando em notas marciaes”, ao adentrarem a Exposição, “na avenida dos palácios brancos”, são tomados pelo assombro:

— Assumpta, Clodina: não parece que a gente tá vendo uma cidade encantada como aquellas das história [sic][...]

Era ao cahir da tarde, uma tarde elegíaca, violácea, quieta, sem o silvo de uma cigarra. Os penhascos pareciam de lápis lazuli e os palacios, ainda mais brancos sobre o fundo escuro das rochas portentosas, alvejavam marmóreos. Longe, nos estábulos, o gado tino mugia, nostálgico, pondo no silêncio enlevado a tristeza bucólica das várzeas, em contraste com o requinte da cidade maravilhosa [a saber, a Exposição; para ler a crônica de Coelho Neto completa clique aqui].

Vemos portanto que constitui um erro atribuir a Coelho Neto a designação de Cidade Maravilhosa para o Rio. E ainda que, em sua crônica, a "cidade maravilhosa" se referisse ao Rio como um todo, ele não teria sido pioneiro nessa designação, como vimos.

De setembro a dezembro de 1911, a poetisa francesa Jane Catulle Mendès, viúva do escritor e poeta Catulle Mendès, visitou o Rio de Janeiro, encontrando uma cidade recém-emergida de um “banho de loja” que foi a reforma urbanística de Pereira Passos. Encantada com a cidade, sobretudo pela flora e belezas naturais, escreveu uma série de poemas de “amor ao Rio” publicados em Paris em 1913 em volume intitulado La Ville Merveilleuse (A Cidade Maravilhosa).

Já no primeiro poema descrevendo a chegada (de navio, na época) na Baía da Guanabara, escreve a poetisa: Jamais tant de splendeurs n’ont ébloui les yeux! C’est ici le pays de toute la lumière (Jamais tantos esplendores deslumbraram os olhos ! Aqui é a terra de todas as luzes) e no poema final, "Adieu" ("Adeus"), escreve: Rio douce et fougueuse au visage doré (Rio doce e briosa de semblante dourado”). E no poema “Dans Longtemps” (Daqui a muito tempo) a autora não poupa declarações de amor à cidade: Cité voluptueuse et tendre (Cidade voluptuosa e meiga) Cité d’or (Cidade de ouro) Rio radieuse, ô Ville des étoiles (Rio radiante, ó Cidade das estrelas) Merveilleuse Rio, Ville de la Beauté (Rio Maravilhoso, Cidade da Beleza). (Saiba mais sobre Jane Catulle Mendès e seu livro de poemas clicando aqui.)

Crônica "A CIDADE MARAVILHOSA" publicada na coluna "Contos de Hoje" de Eugenio de Lemos na edição de 20-21/3/1913 de A NotíciaAcervo da Fundação Biblioteca Nacional - Brasil. 

Na edição de 20-21/3/1913 (pág. 3), A Notícia publica uma crônica, na coluna "Contos de Hoje" de Eugenio de Lemos, sobre como ficou bonita a cidade após as reformas urbanísticas, intitulada A CIDADE MARAVILHOSA (em maiúsculas e negrito). É a primeira vez que o título de uma matéria jornalística refere-se nestes termos ao Rio. A certa altura da crônica, lemos: Cidade Maravilhosa! É a exclamação de todos que nos visitam.” Mais adiante deparamos com este trecho profético: "A cidade progride e avança; toma o mar e toma as montanhas, e estende-se para as costas, varando as rochas. Ainda não temos os caminhos subterrâneos, mas para lá caminhamos acceleradamente. E quando a cidade tiver tudo isso, quando ella não construir os seus palacios apenas na planicie, mas os levar para as montanhas, quando ella habitar tambem os [sic] ilhas encantadoras de sua refulgente bahia e o mar se encher de elegantes yachts, como hoje as avenidas se enchem de automoveis, então ella poderá desafiar as que mais bellas o forem. Ella já é a cidade maravilhosa."

Em 1922 Olegário Mariano publica pela editora Pimenta de Mello (com uma segunda edição em 1930 da Companhia Editora Nacional) um livro de poesias intitulado Cidade Maravilhosa O poema inicial que dá nome ao livro é uma louvação ao Rio de Janeiro, a "Cidade do Amor e da Loucura", “Cidade do Êxtase e da Melancolia”, “Flor das Cidades”, em suma, “Cidade Maravilhosa!”. (O poema completo pode ser lido na postagem Poemas de Amor ao Rio.)

A edição de 10 de novembro de 1927 do Jornal do Brasil (que você pode consultar na Hemeroteca Digital) publica uma nova versão da já citada crônica de Coelho Neto, agora denominada simplesmente "Sertanejos", bastante modificada, onde a Exposição Nacional dá lugar a um cinema e, agora sim, a cidade maravilhosa alude ao Rio.

Em 1928 Coelho Neto publica seu livro de contos A Cidade Maravilhosa, mas ao contrário do que se pensa, a "cidade maravilhosa" que dá nome ao conto inicial não é o Rio, é uma "cidade de sonho", imaginária, evocada à noite por uma queimada. "

Aqui a tem, a sua cidade maravilhosa. Viu-a de longe, era linda. Veja agora. Ilusões, fanciulla [criancice]. Adriana olhava estarrecida. Mas não era a destruição das árvores, não eram aquelas cinzas pardacentas, ainda mornas, não eram aqueles troncos denegridos, aqueles ramos que rechinavam [=queimavam] amojados de seiva que a comoviam, mas a lembrança da cena da estrada, a sedução do homem sinistro a mostrar-lhe, ao longe, no fogaréu rutilante, a cidade maravilhosa, cidade do sonho, cidade do amor." (Para ler o conto inteiro clique aqui.)
Em 1o de setembro de 1933, o locutor César Ladeira estreou na Rádio Mayrink Veiga, lendo as “Crônicas da cidade gozada”, de Genolino Amado, mas depois de receber cartas e telefonemas criticando o título, mudou-o para “Crônicas da Cidade Ma-ra-vi-lho-sa”, conforme lemos em Henrique Foréis Domingues, No Tempo de Noel Rosa: O Nascimento do Samba e a Era de Ouro da Música”.

Em 1935 o mesmo César Ladeira escreve uma revista, que inclui três canções de Ary Barroso (Garota colossal, parceria com Nássara, Grau dez, parceria com Lamartine Babo e o samba Foi ela”), intitulada "Cidade Maravilhosa, apresentada no Teatro Recreio.

No Carnaval de 1935, a marcha Cidade Maravilhosa de André Filho, gravada por Aurora Miranda, enfim consagra o termo pelo qual hoje todos conhecemos o Rio de Janeiro, Patrimônio Cultural da Humanidade, com muito orgulho, com muito amor...


Foto do Mirante do Pasmado tiradas pelo editor do blog. Pesquisas em periódicos antigos realizadas pelo editor do blog na Hemeroteca Nacional e Biblioteca Nacional.

ADENDO EM 20/12/2015: TEXTO DE ALEXEI BUENO SOBRE A ORIGEM DO EPÍTETO "CIDADE MARAVILHOSA":

Jane Catulle Mendès chegou ao Rio de Janeiro com o prestígio, no momento mais francófilo da história do Brasil, de ser a viúva de Catulle Mendès, um dos poetas mais conhecidos da França na segunda metade do século XIX, e fundador, com Jean-Xavier de Ricard, do famoso Le Parnasse Contemporain, publicação da qual surgiu a escola parnasiana, verdadeiro estilo literário oficial entre nós na época. Encarecia-lhe ainda mais o prestigio a aura da tragédia, pois dois anos antes, em 1909, Catulle Mendès morrera de forma estúpida, em Saint-Germain-en-Laye, ao cair e ser esmagado pelo trem em que viajava, pensando já haver chegado à estação.

No período em que esteve no Rio de Janeiro, entre 20 de setembro e 6 de dezembro de 1911, Jane Catulle Mendès foi a convidada de honra das mais importantes figuras da elite da Capital Federal, visitou os mais elegantes salões que entre nós existiam, foi recebida pelo presidente da República e deu três conferências com grande sucesso, uma delas no Theatro Municipal, intitulada "Les femmes de lettres françaises". Se imaginarmos quão bem ela foi recebida, e a época realmente gloriosa para a cidade em que isso se passou — o pouco mais de decênio e meio entre o fim da gestão de Pereira Passos e a destruição do morro do Castelo e inicio da verticalização da cidade — fica claro o motivo do encantamento que a inspirou a escrever e publicar, em 1913, em Paris, o livro de poemas intitulado La Ville Merveilleuse, Rio de Janeiro, poèmes. Extasiada com a beleza da cidade, os poemas, muitos deles dedicados a ilustres figuras da época — o presidente Hermes da Fonseca, o senador Pinheiro Machado, a mecenas e grande dama da sociedade Laurinda Santos Lobo — faziam a apologia em regra da cidade e, graças ao título do livro, nascia o seu epíteto plenamente consagrado. É óbvio que em textos anteriores, especialmente na imprensa, tal expressão ja fora usada, como bem pesquisou Ivo Korytowski, o que deve ter acontecido com todas as cidades notáveis do mundo. Na obra-prima de Jean Vigo, L'Atalante, de 1934, apenas como exemplo, o personagem Père Jules, interpretado por Michel Simon, interpreta uma canção cujo primeiro verso é: “Paris, Paris, ville infâme et merveilleuse”. Apesar do infâme pelo meio, nela encontramos a exata expressão ville merveilleuse, que nunca substitui, no entanto, o de Ville Lumière para Paris. Parece-nos, portanto, que a hoje totalmente esquecida Jane Catulle Mendes foi, senão a criadora, a oficializadora do epíteto do Rio de Janeiro.

(Texto de Alexei Bueno extraído de Rio Belle Époque: Álbum de imagens, Bem-Te-Vi, 2015) 

1.3.15

LA VILLE MERVEILLEUSE (A CIDADE MARAVILHOSA) de JANE CATULLE MENDÈS

Jane Catulle Mendès em ilustração do frontispício do livro

A poetisa francesa Jane Catulle Mendès (1867-1955; nome de solteira: Jeanne Nette), "um nome feminino que é a um tempo o maior expoente das letras e da elegancia de seu sexo na capital da civilização occidental" (O Paiz, 20/9/1911, p. 5, anunciando sua chegada) viúva do escritor e poeta Catulle Mendès, visitou o Rio de 20 de setembro a 6 de dezembro de 1911, sendo regiamente recebida nos melhores salões da nossa Belle Époque, dando três conferências, a última no Theatro Municipal (intitulada "Les Femmes de Lettres Françaises"), chegando a ser recebida em audiência especial pelo Presidente da República.

Encontrou uma cidade recém-emergida de um “banho de loja” que foi a reforma urbanística de Pereira Passos. Encantada com a cidade, sobretudo pela flora e belezas naturais, escreveu uma série de poemas de “amor ao Rio” publicados em Paris em 1913 em volume intitulado La Ville Merveilleuse - Rio de Janeiro - Poèmes

Já no primeiro poema descrevendo a chegada (de navio, na época) na Baía da Guanabara, escreve a poetisa: Jamais tant de splendeurs n’ont ébloui les yeux! C’est ici le pays de toute la lumière (Jamais tantos esplendores deslumbraram os olhos ! Aqui é a terra de todas as luzes) e no poema final, "Adieu" ("Adeus"), escreve: Rio douce et fougueuse au visage doré (Rio doce e briosa de semblante dourado”). E no poema Dans Longtemps (Daqui a muito tempo) a autora não poupa declarações de amor à cidade: Cité voluptueuse et tendre (Cidade voluptuosa e meiga) Cité d’or” (Cidade de ouro) Rio radieuse, ô Ville des étoiles” (Rio radiante, ó Cidade das estrelas) Merveilleuse Rio, Ville de la Beauté” (Rio Maravilhoso, Cidade da Beleza).

Poderíamos então dizer que Jane Catulle Mendès criou a designação Cidade Maravilhosa para o Rio? Criar, propriamente, não criou, em um ou outro artigo de jornal já havia sido empregada. Por exemplo, em matéria em A Notícia de 22/5/1907 intitulada "No Palacio Monroe" lemos (transcrevo na ortografia da época): “Está ainda na lembrança de todos os habitantes desta cidade maravilhosa a rapidez com que o general [...] concluio o Palacio Monroe, para o qual aproveitou o mesmo plano e grande parte de elementos que serviram na architectura do pavilhão brasileiro da Exposição Universal de S. Luiz”. Nesse mesmo jornal, na edição de 6 de julho de 1909, na matéria “Dez Annos Atrás” lemos: “ [...] passeando esta cidade de tão lindas ruas novas, percorrendo as avenidas, respirando um ar que não é o das antigas vielas infectas, habitando uma nova cidade maravilhosa e salubre [...]”. Idem em exemplares de A Notícia de 1909 e 1910. E a edição de 20/3/1913 apresenta um artigo inteiro sobre as belezas de nossa cidade intitulado A CIDADE MARAVILHOSA (assim em maiúsculas e negrito; mas isto será objeto de outra postagem futura).

Se Jane Catulle Mendès não foi exatamente a "criadora" da expressão Cidade Maravilhosa, foi a primeira a empregá-la como título de uma obra literária. O livro em que tanto enalteceu nossa cidade hoje é uma raridade bibliográfica, nunca foi reeditado. Em comemoração aos 450 anos de sua fundação reproduzo aqui estão alguns poemas (no original francês, muito bem construídos, bem ritmados, bem rimados, bem metrificados). Para quem domina o idioma de Corneille e Racine é sopa no mel...

Agradeço a Alexei Bueno por ter gentilmente permitido a consulta a este livro de sua biblioteca. As fotos do Rio Antigo, da época em que Jane esteve por aqui, dão uma ideia do que ela teria visto e foram obtidas na Biblioteca Nacional Digital.

La Ville Merveilleuse - RIO DE JANEIRO - POÈMES.

Frontispício. A epígrafe de VICTOR HUGO diz: "Ah! Ce navire fait le voyage sacré."

Primeiro poema descreve a chegada na Baía da Guanabara

CRÉPUSCULE
         A M. Nabuco de Gouvêa

Belle Rio courbée autour du flot chantant,
Que baigne une atmosphère ambrée et diaprée
De topaze, d’opale e d’agate cendrée,
Dans la docilité du doux soir consentant,

Sous le ciel rapproché de ce sublime instant,
Rio muette ainsi qu’une femme sacrée
Et pâle de porter une ardeur ignorée,
Quel est l’amant divin que ton silence attend ?

L’a-bas, la Tijuca semble un nuage mauve,
Le Couchant soufre a l’air d’un oiseau qui se sauve
Pour qu’au monde plus rien ne trouble ton repos ;

Mais à quoi rêves-tu dans ton ombre irisée,
A quels enivremens fanatiquement beaux,
Rio couleur de perle et pleine de rosée...


PRAIA VERMEILHA
         A Madame Laurence de Lalande.

O Praia Vermeilha, douce, ronde, irisée,
O plus petite perle et la plus ravissante
Du beau collier cernant la Ville éblouissante,
Fieur de nacre, riant joyau, grain de rosée,

Parmi tant de beautés hautes et spacieuses,
Etroitement divine et seulement jolie,
Vous offrez, coin du monde où le monde s’oublie,
Une châsse dorée aux âmes bienheureuses.

Luisante entre les monts quel pouvoir est le vôtre !
Vous semblez grande à peine autant qu’une fenêtre,
Et pour vous visiter, n’est-ce pas? il faut être,
Alors que l’on est deux, serrés l’un contre l’autre.

O Praia Vermeilha, charme, rêve, folie,
Asile caressant, droite à votre terrasse,
Je vous livre ardemment en cet instant de grâce,
Ma solitude altière et ma mélancolie.

Ah! Reviendrai-je un jour, refuge qui flamboie,
Un front contre mon front, un bras à mon épaule,
Forte comme l’azur, pliante comme un saule
Et le cœur plein d’un dieu, vous confier ma joie...


NOCTURNE
         A M. R. G. de Sigueira-Fritz.

Dans la nuit de caresse et d’attirant mystère
Où rôdent les dangers adorés de l’été,
La Tijuca drapée en sa sombre beauté,
Dressa sa grâce douce, auguste et volontaire.

Au fond de l’ombre molle où tout bruit va se taire,
La Ville qui s’allume est un ciel répété,
Et la montagne avec sa tendre majesté,
Joint aux astres d’en haut les astres de la terre.

Un musical secret comble le cœur humain,
Des rèves immortels parcourent le chemin,
On entend murmurer des choses invisibles ;

Un faune léger passe, échappé d’un beau parc,
Et contre un bananier, sous les palmes sensibles,
L’âpre Amour embusqué tend doucement son arc.


CE SOIR...

Ce soir, un délirant crépuscule s’étale
Sur le Corcovado rempli de papillons,
L’abîme de feuillage est criblé de rayons
Dont chacun est un chaud et flamboyant pétale.

Ce soir est tout entier comme une grande fleur,
Comme les fleurs d’ici, sanglantes et lascives ;
Ah ! mon cœur exalté, se peut-il que tu vives
Si surchargé d’émois, de parfums, de chaleur.

Les rouges papoûlas, ardents de mille fièvres,
Dans les branchages verts où brûlent leurs aveux,
Tremblent de volupté, comme sous des cheveux
Un visage caché ne montrant que les lèvres.

On ne peut respirer l’air cruellement doux,
Le mont est embrasé de soupirs et d’arômes,
Les flots phosphorescentes sont chargés de fantômes,
Tant d’azur est au ciel qu’il va tomber sur nous.

Tout est trop grand, trop fort, trop lourd, trop charmant même,
Je ne peux plus subir cet excès de beauté,
Rien qu’une odeur de plus, rien qu’un mot ajouté...
Je mourrais si quelqu’un me disait : « Je vous aime. »


SOIR MARIN
         A M. A. Gasparoni.

Mer qui frappes ton cœur contre le roc du Lème
Avec les battements de ton beau sang nerveux,
Mer chaude de désir et tremblante d’aveux,
Ton cri d’amour, ce soir, est plus grand que toi-même

Sur ton sein soulevé, tendre et couleur de gemme,
La Copacabana pose un collier de feux ;
Mais le mont insensible aux splendeurs que tu veux
Met la borne du monde à ton appel suprème.

Mer que dompta Jésus, d’où naquit Asterté,
Mer qui reçus la foi, qui donnas la beauté,
Mer des miraculeux exils, je te dédie,

En ce soir de messie où le divin est vrai,
Mon rêve impatient, mon cœur de mélodie,
Et je goûte le sel de ton flot consacré !


DANS LONGTEMPS
         A M. F. Guimaraes.

Quand vous ne serez plus la Ville que vous êtes,
Que vous serez plus belle encor, belle Rio,
Quand mon nom lumineux qui nomma deux poètes
Ne sera plus qu’un son gravé sur un tombeau

Quand, ô blance Cité voluptueuse et tendre,
Toute la cérébrale et lasse humanité
Viendra se reposer du devoir de comprendre
Dans le sein naturel de ta jeune beauté,

Quand la mélodieuse et fraîche poésie
Eteinte aux durs pays de forge et de métal,
O seule vérité dont le cœur s’extasie !
Chantera pour toujours dans les nuits de cristal,

Quand dans nos bois mourra notre dernière fée
Et que peut’être, un jour, une de tes forêts,
Une vierge forêt verra revivre Orphée
Et les lions couchés à ses beaux pieds distraits,

Alors, ô Cité d’or que j’aurai tant chantée,
Dont j’aurai la première et d’une telle ardeur,
Comme Pygmalion anima Galathée,
Eveillé l’âme éparse au fond de la splendeur,

O Rio radieuse, ô Ville des étoiles,
Dans longtemps, dans longtemps, lorsque je dormirai
Sous la pierre blanchâtre et sous les blanches toiles,
Conserve un peu pour moi de souvenir sacré.

Que penché sur ce livre où j’ai dit ta jeunesse,
Plein de recueillement un jeune cœur rêveur
Mèdite mon brûlant poème et reconnaisse
Comme pour ta beauté j’ai montré de ferveurs.

Qu’un jeune homme pareil à ceux-ci que je voie
Vers mon front réfléchi lever leurs grands yeux noirs,
Sente éclater en lui une soudaine joie
A retrouver l’accent de tes premiers espoirs.

Que la tête en se mains, dans la Bibliothèque
Construite près des monts où poussent des fleurs d’or,
Où l’enfant indolent dévore une pastèque,
Où la mer vient briser son éternel essor,

Il songe à ce passé de sa belle patrie
Dont mon livre sera l’harmonieux gardien,
Que d’un cœur favorable et d’une âme attendrie
Il aime mon pays puisque j’aimais le sien.

Et puis que contemplant ma souriante image,
Tout ce qui restera de celle que je fus,
Son cœur vivant me rende encore un doux hommage
Et soit pris lentement de regrets imprévus.

Qu’il pense trop à moi, qu’il m’aime enfin, qu’il m’aime,
Puisque je n’ai jamais rien voulu que l’amour,
Que par-delà l’instant de mon souffle suprême,
Je sois aimée encore une heure, encore un jour !

— Et qu’un vieillard aussi dire : « Je l’ai connue ;
« Ecoute, ô cher enfant serré sur mes genoux,
« C’est de la France un jour qu’elle nous est venue,
« La France, tu sais bien, le pays le plus doux... »

Que l’enfant sérieux et que le vieillard grave,
Ah ! que tous deux encor me prennent dans leur cœur,
Quand je repouserai dans la pierreuse entrave,
Que leur amour sur moi tombe comme une fleur.

Si par ma douce voix tu fus un peu charmée,
Merveilleuse Rio, Ville de la Beauté,
Aime-moi quelque temps ; quelque temps être aimée
C’est tout ce que je veux pour immortalité.


ADIEU
         A M. Amaral França.

Quelques jours s’éteindront, et puis je partirai.
Je ne serai plus là, tendre et contemplative,
Avec mon cœur docile à ce qui le captive,
Rio douce et fougueuse au visage doré,

J’aurai chanté ta force et ton charme admiré,
Le secret enflammé de ta foi primitive,
Ton angoisse de toute haute tentative,
Et prédit l’avenir qui vient selon ton gré.

Je t’aurai fait le bien que l’on fait quand on aime,
Je te dirai merci de ta beauté suprême,
Et puis, me détournant une dernière fois,

Je partirai. — Puisses-tu, Ville éblouissante,
Garder un peu de temps l’ombre de la passante
Et l’écho recueilli de sa légère voix.



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VEJA TAMBÉM NESTE BLOG: A CIDADE MARAVILHOSA de COELHO NETO e QUAL A ORIGEM DA EXPRESSÃO "CIDADE MARAVILHOSA"?

19.8.13

LOUVAÇÃO À CIDADE MARAVILHOSA, de Rogel Samuel


Louvo o Padre, louvo o Filho 
E louvo o Espírito Santo.
Louvado Deus, louvo o santo
De quem este Rio é filho.

Cantou Bandeira. Depois do auge das passeatas, depois do Papa Francisco, depois do frio polar (para nós), o Rio de Janeiro lentamente está voltando a ser o que era dantes, a cidade maravilhosa, porque o sol voltou a brilhar.


Louvo o santo padroeiro
– Bravo São Sebastião –
Que num dia de janeiro
Lhe deu santa defensão.

Esta cidade tem de ter sol, para viver. Como planta. O povo desta cidade não sorri se a chuva ou o vento lhe bate à porta. Ele não atende, não abre.


Louvo a Cidade nascida
No morro Cara de Cão,
Logo depois transferida
Para o Castelo, e de então
Descendo as faldas do outeiro,
Avultando em arredores,
Subindo a morros maiores
— Grande Rio de Janeiro!

No Morro Cara de Cão, onde moro, o Rio é sol, é mar, é chope, é lugar comum. Eu sou um amazonense bem carioca, bem nascido nas ruas e praias, que já cantou o pernambucano Manuel Bandeira, na “ Louvação à Cidade do Rio de Janeiro”.


Cidade de sol e bruma,
Se não és mais capital
Desta nação, não faz mal:
Jamais capital nenhuma,
Rio, empanará teu brilho,
Igualará teu encanto.
Louvo o Padre, louvo o Filho
E louvo o Espírito Santo.



O sisudo, o tímido Machado de Assis escrevia: “É meu costume, quando não tenho que fazer casa, ir por esse mundo de Cristo, se assim se pode chamar à cidade de São Sebastião, matar o tempo. Não conheço melhor ofício, mormente se a gente se mete por bairros excêntricos; um homem, uma tabuleta, qualquer basta a entreter o espírito, e a gente volta para casa 'lesta e aguda', como se dizia em não sei que comédia antiga”.


O Gilberto Gil mandou aquele abraço e disse:

O Rio de Janeiro
Continua lindo
O Rio de Janeiro
Continua sendo
O Rio de Janeiro
Fevereiro e março


Mesmo José de Alencar, o homem de seu mar, escreveu: “A cidade do Rio de Janeiro, com seu belo céu de azul e sua natureza tão rica, com a beleza de seus panoramas e de seus graciosos arrabaldes, oferece muitos desses pontos de reunião, onde todas as tardes, quando quebrasse a força do sol, a boa sociedade poderia ir passar alguns instantes numa reunião agradável, num círculo de amigos e conhecidos, sem etiquetas e cerimônias, com toda a liberdade do passeio, e ao mesmo tempo com todo o encanto de uma grande reunião... temos na Praia de Botafogo um magnífico boulevard como talvez não haja um em Paris, pelo que toca à natureza. Quanto à beleza da perspectiva, o adro da pequena igrejinha da Glória é para mim um dos mais lindos passeios do Rio de Janeiro."


Alô, alô, Realengo
Aquele Abraço!
Alô torcida do Flamengo
Aquele abraço
Alô moça da favela
Aquele Abraço!
Todo mundo da Portela
Aquele Abraço!
Todo mês de fevereiro
Aquele passo!
Alô Banda de Ipanema
Aquele Abraço!


E Pedro Nava, famoso morador da Glória, comentou: “Flanar nas ruas do Rio é prazer refinado. Exige amor e conhecimento. Não apenas o conhecimento local e o das conexões urbanas. É preciso um gênero de erudição. É preciso saber colocar os pés nos locais de Matacavalos onde pisou Osório, na calçada de São Clemente onde andou Tamandaré, nesta Glória onde perpassou o vulto de Capitu — na geografia citadina real e imaginária, no Rio velho de Manuel Antônio de Almeida, Alencar, Macedo, Artur e Aluísio — irmãos Azevedo; de Lima Barreto, João do Rio, Marques Rebelo, Drummond.


Machado, em A mão e a luva, descreve e comenta: “A Corte divertia-se, apesar dos recentes estragos do cólera —; bailava-se, cantava-se, passeava-se, ia-se ao teatro. O Cassino abria os seus salões, como os abria o Clube, como os abria o Congresso, todos três fluminenses no nome e na alma. Eram os tempos homéricos do teatro lírico, a quadra memorável daquelas lutas e rivalidades renovadas em cada semestre, talvez por um excesso de ardor e entusiasmo, que o tempo diminuiu, ou transferiu, — Deus lhe perdoe, — a coisas de menor tomo."


No dia da libertação do escravos, disse Lima Barreto que fazia sol: “Havia uma imensa multidão ansiosa, com o olhar preso às janelas do grande casarão. Afinal a lei foi assinada e, num segundo, todos aqueles milhares de pessoas o souberam. A princesa veio à janela. Foi uma ovação: palmas, acenos com lenço, vivas... Fazia sol e o dia estava claro. Jamais na minha vida, vi tanta alegria. Era geral, era total; e os dias que se seguiram, dias de folganças e satisfação, deram-me uma visão da vida inteiramente de festa e harmonia”.


Assim penso que é uma glória o simples estar nas ruas dessa cidade que a todos acolhe. E assim a cantou numa bela manhã de praia Carlos Drummond Andrade:

Umidade de areia adere ao pé.
Engulo o mar, que me engole.
Valvas, curvos pensamentos, matizes da luz
azul
completa
sobre formas constituídas.
Bela
a passagem do corpo, sua fusão
no corpo geral do mundo.
Vontade de cantar. Mas tão absoluta
que me calo, repleto.


Bilac escreveu: “Num dos últimos domingos vai passar pela Avenida Central um carroção atulhado de romeiros da Penha; e naquele boulevard esplêndido, sobre o asfalto polido, entre as fachadas ricas dos prédios altos, entre as carruagens e os automóveis que desfilavam, o encontro do velho veículo em que os devotos urravam, me deu a impressão de um monstruoso anacronismo”.


Louvo o Padre, louvo o Filho
E louvo o Espírito Santo.
Louvado Deus, louvo o santo
De quem este
Rio é filho.



Crônica publicada originalmente na coluna quinzenal de Rogel Samuel no site de cultura Blocos. Fotos do editor do blog tiradas, respectivamente: 1) numa banca de jornais, 2) Centro, 3) Praça São Salvador (detalhe do chafariz), 4) Praia de Copacabana (calçadão), 5) Santa Teresa (chácara do Viegas), 6) idem (vista do Parque das Ruínas), 7) Copacabana (pião), 8) Museu Histórico Nacional (boca do leão), 9) Inhaúma (São Jorge), 10) Lins (antiga Fundição Cavina), 11) Santa Teresa (bondinho), 12) Botafogo (ruína), 13) idem (Consulado de Portugal), 14) descida de Santa Teresa para a Glória (Pão de Açúcar e favela Santo Amaro) e 15) Parque de Madureira.