31.8.08

A CIDADE DESFIGURADA

Em 31 de agosto de 2008 Antonio Carlos Villaça - falecido em 2005 - completaria 80 anos. Esta crônica "A cidade desfigurada", publicada no Jornal do Brasil em 22/3/93, é inédita em livro. Onde quer que estejas, feliz aniversário, amigo Villaça.


puseram abaixo uma cidade e construíram outra no lugar

Procuro a cidade da minha infância e não a encontro. Onde está o Rio que vi, quando era menino? Desapareceu. Foi tragado pelo tempo, engolido pelas águas do tempo. A cidade, que conheci, foi destruída ao longo de 50 anos.

Houve no Rio uma cidade portuguesa, uma cidade francesa, e o que existe diante dos nossos olhos é uma cidade norte-americana, rival de qualquer Chicago ou Detroit. O Rio desfigurou-se. Perdeu em certo sentido a própria identidade.

Em cinco décadas, puseram abaixo uma cidade e construíram outra no lugar. Lima Barreto foi um que sempre se opôs às mudanças urbanísticas. Sofria com isso. Escreveu palavras de revolta e tristeza quando demoliram o Convento da Ajuda, onde é hoje a Cinelândia. Achava um abuso, um absurdo que se destruísse um velho edifício como aquele, coberto de história. Lima Barreto amava o Rio, aqueles prédios, aquelas ruas de uma cidade que ele conhecia intimamente.



o Largo do Boticário

Machado em carta a Nabuco se lembrava com ternura do Rio da sua meninice, da sua mocidade. Não encontrava mais na cidade reformada a cidade que amara. Sim, aquela cidade que viajava de barco da Saúde ou da Gamboa para o Centro, tão mais íntima do mar do que a cidade parisiense que nascia então.

Onde está, hoje, o Rio de Luís Edmundo, que o soube fixar vivamente nas páginas tão ágeis do seu livro em três volumes, O Rio de Janeiro do meu tempo? Gastão Cruls nos deu um retrato perfeito da cidade na sua Aparência do Rio de Janeiro. E, no entanto, o Rio de Cruls não existe mais, lá se foi na voragem dos dias. Um recanto ou outro ainda perdura, como que esquecido. Assim, o Largo do Boticário, que não é tão antigo, mas tem a sua graça inestimável, o seu encanto, a sua delícia, a sua magia.



o elegantíssimo palácio Itamaraty

Um mosteiro de São Bento. Um convento de Santa Teresa. Uma igreja da Penitência. Uma Santa Casa da Misericórdia, sem dúvida o palácio mais belo da cidade do Rio. Ou os Arcos da Lapa. Ou o elegantíssimo palácio Itamarati.


a serralheria carioca

Que fizeram de nossa cidade? Onde estão as casas de outrora? Onde estão as ruas de outrora? Onde estão aqueles gradis rendilhados que eram uma das glórias desta cidade? Pedro Nava disse que a serralheria carioca era uma das mais belas do mundo.

Já se pensou em um museu da serralheria do Rio? Gradis do século 19 e da belle époque, os minuciosos, os trabalhados gradis art-nouveau. Não podemos desprezar tudo isso. Pois isso é patrimônio nosso, realidade do Brasil, riqueza do nosso povo.



Da Academia de Belas-Artes salvou-se apenas a fachada

Preservar uma cidade que é mais bonita do que Nápoles e do que Constantinopla. Foi um absurdo, por exemplo, destruírem a Academia Imperial de Belas-Artes, obra de Granjean de Montigny. Demoliram o prédio venerável. Como demoliram o velho Tesouro da Avenida Passos, onde hoje é apenas um estacionamento como outro qualquer.

Tudo foi posto abaixo. Até a bela igreja de São Pedro. E a própria sede da Prefeitura Municipal, na Praça da República. Da Academia de Belas-Artes salvou-se apenas a fachada, que está no Jardim Botânico.



edifício da velha Alfândega

De Granjean de Montigny sobrou a sua casa, na Gávea, hoje biblioteca da PUC. O arquiteto construiu muitas edificações no Rio. Ficou o belo solar da Rua Marquês de São Vicente. Ficou o edifício da velha Alfândega, depois Tribunal do Júri, agora Centro Cultural Brasil-França. Onde está a casa de Aníbal Machado, Visconde de Pirajá 487?



Praia de Copacabana toda pontilhada de casas

Ainda me lembro da Praia de Copacabana toda pontilhada de casas, casas mesmo, com jardim, quintal, só um edifício ou outro como o Edifício Olinda, no Posto Seis, onde morava Manuel Dias, o irmão de Cícero Dias. Um Rio tão mais humano, tão mais habitável do que o Rio áspero e assustador de hoje. Um Rio sem filas. Um Rio sem violência. Um Rio delicado. Um Rio fraternal.


Uns trechos [...] da Saúde

Que fizeram da cidade do Rio? Destruíram-na. Em seu lugar, ergueram outra, monótona, impessoal, indistinta, cosmopolita. Sinto falta da cidade que conheci menino e me roubaram. Onde está a minha cidade? Porque uma cidade tem um rosto próprio, um caráter, uma certa marca, um quid que a define, a caracteriza, a eterniza. Ou então não é propriamente uma cidade. Um prédio aqui. Uma igreja ali, umas ruas de São Cristóvão. Uns trechos de Santo Cristo ou da Saúde. A cidade foi desfigurada pelo tempo ou pela rude ambição dos homens ávidos.


Pedro Nava, no seu belo passeio pela Glória

Pedro Nava, no seu belo passeio pela Glória, aponta uma casa ou outra, um recanto, uma velha amurada, resquícios da cidade que se foi, devorada pela cupidez e pela rapidez dos homens.


casarões machadianos

Vamos preservar a deliciosa e frágil Santa Teresa, com o seu Largo das Neves, as suas ruelas, os seus casarões machadianos.


esta maravilhosa Baía da Guanabara

Lélia Coelho Frota, escreva um poema sobre a cidade do Rio de Janeiro. Vamos salvar ao menos esta soberba, esta maravilhosa Baía da Guanabara, que Gilberto Amado considerava a obra-prima de Deus.

Fotos do editor do blog, exceto a antiga de Copacabana, cujo autor ignoro.

Um comentário:

Siomara de Cássia Miranda disse...

Prezado Ivo!Bela matéria sobre o VILLAÇA!
SALVE,SALVE,VILLAÇA!!!
Um abraço!
Siomara de Cássia Miranda