3.8.08

CENTENÁRIA AV. RIO BRANCO


Banco Central, antiga Caixa de Amortização, da primeira geração de prédios da então Avenida Central, contrastando com prédio moderno.

Em crônica de 22 de março de 1929, escreveu Manuel Bandeira:

O Rio festejou no dia 8 o jubileu da sua grande Avenida. Todas as casas de comércio hastearam a bandeira nacional. À noite houve corso. [...]

A avenida estava linda como sempre. Ela não precisa de decorações suplementares para tomar aspecto festivo. Na realidade de todos os dias já é uma festa perpétua para os olhos: alegria dos cariocas e dos provincianos em trânsito. [...]

Nasceu quase de improviso. Em um mês derrubaram centenas de paredes, trabalho em que se empregou desde a dinamite até a junta de bois. E houve um bloco de casarões que foi arrasado pelo incêndio proposital. A abertura da avenida não foi uma obra friamente projetada e executada. Antes parecia uma obra de paixão. [...]

Houve pessimistas que duvidavam do êxito da empresa. Vamos ter uma avenida de escombros, diziam eles. Nem em cinco anos se edificará... Os preços dos terrenos são excessivos para a escassez atual de dinheiro...

Depois apareceram os críticos que a olho julgaram errado o eixo de abertura. Isso tudo provocava um sem-número de comentários. Foi assim que se rasgou a Avenida, nesse ambiente de viva e controvertida curiosidade.

E como foi por ela que começou a transformação urbanista do Rio, ela ficou como símbolo daquela transformação. (Manuel Bandeira, Crônicas inéditas I, Editora CosacNaify, pp. 177-8)

À esquerda o antigo Morro do Castelo, que veio a ser demolido na década de 1920, dando lugar à Esplanada do Castelo (ou simplesmente "Castelo"). Foto de autor desconhecido obtida no site do BNDES.

No dia 15 de novembro de 1905, a Gazeta de Notícias informava:

"Hoje deve ser entregue ao transito publico a primeira Avenida construída no Rio de Janeiro, que recebeu o nome de Central [atual Av. Rio Branco]. 


Como é igualmente sabido, esta grande arteria será officialmente inaugurada hoje pelo Sr. presidente da Republica, que cortará as fitas que a fecham.

Quasi todos os predios concluídos terão as suas fachadas ornamentadas com bandeiras e galhardetes." (Fonte: Hemeroteca Digital)


À esquerda, o edifício pós-moderno número 1 da Av. Rio Branco. À direita, o edifício art déco A Noite, com seus 22 andares o primeiro verdadeiro arranha-céu do Rio, de 1929. Ao centro o Barão de Mauá.

No dia seguinte, noticiava o Jornal do Commercio:


"Raras vezes um acontecimento publico terá attrahido a uma extensa área da cidade mais gente do que a inauguração da Avenida Central attrahio hontem desde pela manhã á zona urbana, vulgarmente conhecida pelo nome de ‘centro’. [...]

O facto demonstra o grande interesse da população pelo importante melhoramento que o actual Governo lega á Capital do paiz. Esse interesse, apressamo-nos em dizel-o, é de todo justificado. O extrangeiro que visitar agora a nossa Capital ja tem na Avenida um bello exemplo do progresso material que o Rio de Janeiro se sente resolvido a realizar." (Fonte: O Rio de Janeiro através dos jornais de João Marcos Weguelin)


Avenida Rio Branco fotografada por Von Peter Fuss em meados dos anos 30. O edifício em construção em primeiro plano fica na esquina da Rua Mairink Veiga.  Naquela época já existia uma primeira geração de edifícios altos,  sendo o maior deles o Edifício A Noite (não visto na foto). A Candelária, a construção mais alta do Rio antes do advento dos arranha-céus, também é visível na foto (centro esquerda).

O jornal O Paiz na primeira página da edição de 16/11 chamou a atenção para a chuvarada que atrapalhou, mas não chegou a estragar a festa:

"A esperança de um bello dia sagrando uma bella data e uma bella obra desfez-se, infelizmente; o sol não veiu, e foi sob um aguaceiro impertinente e odioso, fino e pulverizado a começo, grosso e encharcante depois, que se fez hontem a inauguração da formosa avenida que foi, no dia da festa da Republica, a concretização mais evidente e irrecusavel das suas promessas de melhores dias. O ceo amanheceu turvo e torvo se conservou até a noite, como uma carranca de sebastianista impenitente.

A despeito disto, a inauguração da Avenida Central e as festas commemorativas que se confundiram neste facto, tiveram um brilho consolador. Não houve sol, mas houve enthusiasmo; e a multidão que veiu para a rua e que a despeito do chuveiro se derramou pela grande via, enchendo-a de vida e movimento, nella se conservou até desapparecer no angulo da rua do Passeio o ultimo soldado da desfilada militar; valeu como consagração e calor pelo mais claro sol destes claros dias de novembro." (Fonte: Hemeroteca Digital)


Sede do Jornal do Brasil na Avenida Central, durante alguns anos o prédio mais alto da cidade. Foto de 1908 de Marc Ferrez obtida no site do Instituto Moreira Salles.

A cobertura do Correio da Manhã no dia 16/11 foi menos cor-de-rosa, chamando a atenção para supostas "negociatas" durante as obras:

"A chuva interrupta que cae sobre a cidade, desde ante-hontem, à noite, não permittiu que a inauguração da Avenida Central, tivesse o brilhantismo annunciado.

É realmente doloroso que tal acontecesse e somos os primeiros a sentir que as despezas feitas pelo Thesouro não produzissem o effeito desejado.

A inauguração, apezar do numero de pessoas presentes, esteve fria. O conselheiro Rodrigues Alves foi, durante longo tempo, acompanhado por uma enormidade de garotos, que pulavam de um lado para outro lado, formando um sequito incommodo e alvorecido.

O povo, divorciado por completo das festanças e pagodes officiaes, não teve uma acclamação, não teve um viva, para o presidente da República. É que, na sua intelligencia, enxerga bem não só a face brilhante do melhoramento inaugurado, mas também a face repulsiva, representada pelas immorallidades, pelas negociatas, pelas patifarias que acompanharam os progressos da Avenida." (Fonte: Hemeroteca Digital)

Obras de abertura da avenida, diante do Largo da Carioca. Uma enormidade de casas tiveram de ser demolidas. Nos jornais da época vemos anúncios de lojas tendo de liquidar seus estoques porque seriam demolidas. Observe o convento e igrejas ao fundo. Fonte: O Malho de 10/9/1904 pesquisado na Hemeroteca Digital.

Na página 3 da edição de 22-23 de novembro de 1905, o jornal A Notícia, em matéria intitulada "Os passeios da Avenida", previa um futuro jubiloso para nossa cidade:

Nestes últimos tempos nenhum acontecimento, no Rio de Janeiro, se poderá comparar com a inauguração da Avenida Central; nenhum de tamanha magnitude e de tão grande alcance!... Está isso na consciência de todos; ingrato aquelle brasileiro que o negar. O governo da República tem sido fecundo, é o da renovação e do trabalho.

A Avenida Central é hoje realidade, está alli prompta e quase toda edificada. Do grandioso exemplo provirão fatalmente as salutares consequencias. Vislumbro, jubiloso, a prosperidade, sempre crescente, da nossa cidade.

Palácio Monroe, antigo Senado, já demolido, na extremidade sul da Avenida. Fonte: Biblioteca Nacional Digital 

A revista O Malho, em "Chronica" assinada por J. Bocó na edição 166 de 18/11/1905, ao contrário do Correio da Manhã, considerava bem aplicado o dinheiro da Avenida:

A Avenida ahi está, na sumptuosidade da sua ampla perspectiva, orlada de bellos edificios. O povo esquece as maguas que porventura o possam entibiar, enche a colossal arteria de que elle é o sangue generoso, percorre-a de ponta a ponta, admirando os primores da architectura, compara com o presente os vestígios do passado, expresso na estreiteza das ruas affluentes, e dá por bem empregado o dinheiro que, em vez de sumir no abysmo hiante das revoltas sem pés nem cabeça, apparece-lhe alli representado numa obra realisada para o seu bem estar material e para o credito do seu prestigio moral no estrangeiro, visto como infelizmente la naturaleza não desempenha essas funções internacionaes...



Crônica de O Malho. Fonte: Hemeroteca Digital.

Edifício Lafont (e não Lafond como se costuma escrever), depois Palácio Rio Branco, já demolido, primeiro (e por algum tempo o único) prédio de apartamentos (de luxo) da cidade, do início da década de 1910, na esquina da Av. Central, depois Rio Branco, com Rua Santa Luzia, projetado por Viret & Marmorat, "mas que, pelas peculiaridades do estilo, dir-se-ia mandado vir, já pronto, de Paris" segundo Lúcio Costa em Arquitetura Brasileira.

Em Rio de Janeiro: Uma cidade no tempo (organizado por Evelyn Furquim Werneck Lima et al. e editado em 1992 pela Prefeitura do Rio), lemos:

"Até o final do século XIX, o centro da cidade do Rio de Janeiro, Capital Federal da república do Brasil, tinha a aparência de uma antiga cidade colonial. [...] Entretanto, a nova estrutura política do país exigia a adequação do espaço urbano às necessidades da economia braileira, que se integrava ao mercado mundial através da exportação de café. [...] Indicado em 1902 para Prefeito do Distrito Federal, Pereira Passos foi responsável pela maior reforma urbana executada até então. [...] Do ponto de vista econômico, a remodelação da cidade consistiu primordialmente na transferência e modernização do porto do Rio de Janeiro [...] Seguindo o modelo de outros grandes centros latino-americanos, priorizou-se a construção de grandes avenidas que facilitassem a circulação urbana e embelezassem a cidade. [..] A Av. Central, atual Av. Rio Branco, rasgou o centro da cidade no sentido norte-sul, às custas da demolição de centenas de casas."

Em 1912, com o falecimento do Barão do Rio Branco, a Av. Central recebeu seu nome.



Avenida Rio Branco fotografada por Augusto Malta

Outra foto do Malta

Da primeira geração de prédios da Av. Rio Branco, sobrevivem dez: 1) Hotel São Bento, no número 19 da Av. Rio Branco, no encontro com as Ruas São Bento e Dom Gerardo; 2) Banco Central (no número 30, antiga Casa de Amortização), 3) sede do Iphan (46, prédio que pertenceu à Docas de Santos), 4) Antigo Bar Simpatia, atual Simpatia Lotérica e outros (92, bem estreita para preservar a adjacente Igreja de Nossa Senhora da Conceição e Boa Morte), 5) prédio comercial (155), 6) Clube Naval (180, esquina com Almirante Barroso) e - na Cinelândia - 7) Teatro Municipal, 8) Biblioteca Nacional, 9) Museu Nacional de Belas Artes e 10) Centro Cultural da Justiça Federal. Uma série de fotos desses prédios que nasceram com a Avenida pode ser vista em o O Globo.


Theatro Municipal com Carlos Gomes na frente [depois da restauração a estátua foi transferida para mais perto do teatro]

Rio Branco hoje: uma avenida importante, mas sem o charme de outrora (PS. em 2015: Quem sabe com a implantação do veículo leve sobre trilhos a avenida recupere o velho charme?)


Postagem originalmente publicada em 15/11/05 quando a Avenida completou cem anos, e agora acrescida de fotos e textos novos. Outras fotos do Rio Antigo podem ser vistas clicando-se no marcador "fotos do Rio Antigo" abaixo. Saiba mais sobre a Avenida Central fazendo o download da versão em PDF do livro O Rio de Janeiro na época da Avenida Central. Veja as fotos e desenhos das fachadas dos prédios originais da Avenida Central clicando aqui.

13 comentários:

Marilia Mota disse...

Boa idéia, Ivo. É sempre bom lembrar a história, ajuda a por os fatos em perspectiva.
Bjs
Marilia

Carlos disse...

Caro Ivo,
Acabo de percoler a Av. Rio Branco: 100 Anos... em bom texto, palavras, calçadas, orações e asfalto, história e vitrines e muitas mulheres encantadoras que só o Rio tem... Ali trabalhei numa agência de propaganda e andejava na hora do almoço, voyeur de tantas belezas e atrativos... Na Leiteria Mineira – ainda existe? -- eu almocei com M., num memorável reencontro... depois que tudo acabara entre nós... Pouco mais abaixo de onde eu trabalhava, ficava a Record, até que ela se mudou para São Cristóvão... Por ali eu descia pra ir ao mosteiro, quando o mosteiro me chamava... Por ali eu ia para a Livraria (e Sebo São José), na esperança de, quem sabe, encontrar Carlos Drummond ou outra celebridade cavando livros... Da Cinelândia eu atravessa a Rio Branco para ir à Editora Zahar, ainda dirigida pelo Jorge Zahar, passando reverente pela ABL [...]
Abraço,
Carlos [enviado por e-mail]

Waldir Ribeiro do Val disse...

Nem sempre, mas com freqüência, leio e vejo seu blog, muito interessante e inteligente. A Avenida Rio Branco.... conheci-a em fevereiro de 1943, quando vim estudar no Rio. Quase não havia prédios novos, eram os que tinham sido construídos no início da avenida, e tão poucos resistiram até hoje. Os ônibus naquela época, e os carros, corriam a Rio Branco de ponta a ponta, em duas mãos. E havia canteiros estreitos no centro, com árvores, dividindo a artéria. No início, como ainda hoje, a Praça Mauá; e dois mil metros adiante, o Palácio Monroe, já então o Senado da República, mas ainda não maculado pelas horrendas venezianas entre as colunas, conspurcando suas varandas O ônibus Mauá-Monroe era muito útil, pois de poucos em poucos minutos ia e vinha. Era o que os norte-americanos chamam de shuttle (carro que faz o movimento de vai-e-vem, de lançadeira). Havia os cinemas populares Eldorado e Parisiense, onde pude assistir grandes sucessos de poucos anos antes. Já em prédio novo, existente onde terminava ou começava a Rua do Chile (hoje com o nome primitivo de Rua da Ajuda), ficava o Cineac Trianon, com suas sessões passatempo, onde víamos jornais da tela, com cenas da Segunda Guerra Mundial (não havia telvisão, e era ali que víamos uma parte da guerra e outros acontecimentos), e uns shorts, hoje curtas. Ficaram marcados os locutores: em noticiários de guerra o Aimberê, da BBC, com voz anasalada, muito característica; nos shorts, americanos, o então famoso narrador Luiz Jatobá. Trabalhava na Metro Goldwyn-Mayer e foi elemento chave no início dos filmes dublados. Quem caminhava pela Rio Branco tinha quase obrigatóriamente de tomar um refresco no Bar Simpatia, cuja especialidade era o refresco de coco, sempre uma delícia. Mais adiante, no ângulo agudo formado pela Rio Branco e o início da Rua Miguel Couto ficava o prédio em forma de trapézio, estreito na frente e mais largo no fundo, conhecido por "ferro de engomar". Os desfiles de Carnaval realizavam-se na Avenida Rio Branco, tanto os das escolas de samba quanto o das "grandes sociedades", estas já em decadência. Dançar na Avenida, desfilar na Avenida tornou-se um bordão, que resiste até hoje: dos desfiles na Rua Marquês de Sapucaí (sambódromo) diz-se que são feitos na "avenida". A iluminação da Rio Branco era por meio de postes artísticos encimados por cúpulas. Parte dos postes tinham braços. Como não eram muito altos, iluminavem bem. Evidentemente na Rio Branco (ainda não havia a Presidente Vargas) ocorriam as coisas mais importantes. Uma delas foi o desfile dos "pracinhas", ao término da guerra, quando regressaram na Itália (infelizmente nem todos), recebidos naturalmente como heróis.

Desculpe-me ter alongado tanto. Pouco depois se construía a Av Presidente Vargas. Tanta coisa para contar...
Abraços do amigo e admirador
Waldir do Val.

(Recebido por e-mail. Waldir é editor da Editora Galo Branco. Clique no nome do Waldir para conhecer sua editora)

..Vera.. disse...

Ivo,
Ótima iniciativa..muito bom como fonte de pesquisa.
Abraço
Vera

Caroline disse...

Caro Ivo,
Gostei muito do seu blog!!
Estou a procura de fotos do Rio Antigo para fazer quadros. Você sabe onde posso comprar?
Abs,
Caroline

Alexandre Core disse...

Excelente clipping com textos e fotos da Rio Branco.
Parabéns!!!!

Iolanda Marinho disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Iolanda Marinho disse...

Lindas as fotografias!!!!!!!!
Gostaria de uma informação, se for possivel. Queria saber o nome do projetista e costrutor da a Avenida Rio Branco. E' verdade que un tal Ianuzzi,(de origem italiana, proveniente de uma cidade do Sul da Calabria de nome fuscaldo- Cosenza) fez parte desse projeto? Desde jà agradeço pela atenção.

Ivo Korytowski disse...

Iolanda, na História das Ruas do Rio lemos (pág. 178) que "Paulo de Frontin foi nomeado chefe das obras [da Avenida Central] e que Antônio Jannuzzi, Irmão & Cia. ficaram com as demolições principais". Mais detalhes você pode ler nessa obra clássica e indispensável do Brasil Gerson.

Anônimo disse...

O centro velho de São Paulo é muito mais tradicional e histórico
o de voçes(dessa porcaria que voçes denominam Rio de Janeiro) sempre foi um valhacouto para favelados malditos prostitutas homoxessuais traficantes e libertinos
todo carióca (com exeções) é um bósta que só gosta de samba cachaça carnaval futebol não tem um dente na boca e adóra a amaldiçoada tv Globosta dos gangsters denominados familia Marinho

Vanessa Telles disse...

É impressionente como uma cidade reconhecidammente linda e rica pelo seu mosaico de estilos gera tanto rancor de alguem que não tem a coragem de asumir sua própria opinião.

Anônimo disse...

Caros amigos,
O anÕnimo deve estar gordíssimo de tantos acentos e de muitas vírgulas que engoliu. Balofo!! cai fora!! aqui é lugar de gente grande!!
rs.

Sr. editor, estou como anônima pq não tenho conta nos relacionados, desculpe-me.
uma carioca da gema

Anônimo disse...

Boa Tarde,
Estou procurando um comprador adequado para uma coleção de jornais "DOM QUIXOTE-JORNAL ILLUSTRADO DE ANGELO AGOSTINI" , praticamente completa,(nº01 ao 58 e do nº60 ao 62) com ilustrações de bico de pena, faltando apenas 01 numero. Os jornais foram publicados (CREIO)de 1895 a 1901
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Grata pela divulgação possivel.