ENSEADA DE BOTAFOGO

ENSEADA DE BOTAFOGO
"Andar pelo Rio, seja com chuva ou sol abrasador, é sempre um prazer. Observar os recantos quase que escondidos é uma experiência indescritível, principalmente se tratando de uma grande cidade. Conheço várias do Brasil, mas nenhuma tem tanta beleza e tantos segredos a se revelarem a cada esquina com tanta história pra contar através da poesia das ruas!" (Charles Stone)

VISTA DO TERRAÇO ITÁLIA

VISTA DO TERRAÇO ITÁLIA
“São Paulo, até 1910 era uma província tocada a burros. Os barões do café tinham seus casarões e o resto era pouco mais que uma grande vila. Em pouco mais de 100 anos passou a ser a maior cidade da América Latina e uma das maiores do mundo. É pouco tempo. O século XX, para São Paulo, foi o mais veloz e o mais audaz.” (Jane Darckê Avelar)
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6.7.18

A TAÇA DO MUNDO É NOSSA, de IVO KORYTOWSKI


Não sou nenhum Pelé ou Ronaldinho, mas as Copas do Mundo fizeram parte também de minha vida.

Por exemplo — acredite se quiser — estive na fatídica final da Copa de 1950, aqui no Maracanã. É bem verdade que, oficialmente, eu sequer havia nascido (nem se trata de regressão a vida passada), mas minha mãe já carregava a sementinha no ventre quando foram, ela e meu pai, assistir à partida. A vitória brasileira, tão certa como o fato de que no dia seguinte o sol se levantaria. Mas o sol não se levantou! Quantas vezes ouvi meu pai narrando o silêncio, a desolação de enterro que se abateu sobre aqueles quase 200 mil espectadores: todos saíram do estádio cabisbaixos, depressão coletiva, ninguém ousando puxar conversa com ninguém. Meu pai me contou.

Da Copa de 58 guardo vagas lembranças: todos ao pé do rádio, vibrando, brado de guerra, “aleguá” (se vocês consultarem o termo no Aulete Digital vão ver que a abonação foi retirada do meu livro Marcos, o Iluminado). E a canção:

A Taça do Mundo é nossa,
Com brasileiro não há quem possa!

Na Copa de 62 o rei se contundiu logo nos primeiros jogos e a estrela foi “Seu Mané”: assim os locutores esportivos se referiam a Mané Garrincha, a Alegria do Povo. Alegria de pobre dura pouco.

Quatro anos depois (1966), só um cético empedernido duvidaria de que traríamos o tri. O dia em que Brasil perdeu de Portugal, ainda na primeira fase, de grupos, viu-me em São Paulo, em visita à vovó. Aliás, o apartamento de minha avó, na Avenida Angélica, dava para o Pacaembu: a gente conseguia ver os jogos. Pois foi da janela do apartamento de vovó que, certa feita, vi (com auxílio do binóculo de corridas de cavalo do vovô) Pelé jogando pelo Santos. Teria sido contra o Vasco?

A Taça do Mundo é nossa,
Com brasileiro não há quem possa!

1970. Ditadura militar. Noventa milhões em ação, pra frente Brasil, salve a seleção! Saldanha quis barrar Pelé da Seleção: acabou barrado do cargo de técnico (ao resistir à pressão de Médici pela convocação de Dario). A seleção ia mal das pernas, só mesmo um otimista empedernido acreditava na possibilidade do tri. Foi a primeira Copa televisionada: a imaginação, que antes transformara a descrição radiofônica em imagens do jogo, agora transformaria o preto-e-branco em vistosas cores. A turma se reunia no Castelinho (bar na Vieira Souto em forma de castelo medieval, já demolido), que instalou uma televisão do lado de fora — acho que foi pioneiro nesse hábito hoje generalizado de instalar televisões em locais públicos. Ganhamos o tri!

A Taça do Mundo é nossa,
Com brasileiro não há quem possa!

Levamos longos 24 anos pra repetir a proeza. E muita água rolou sob a ponte: o Brasil se redemocratizou e a Copa de 94 me viu casado, pai de um encantador menino, bem-sucedido tradutor. Meu grande sonho ainda irrealizado: o sucesso como escritor. Sozinho: filho e esposa passavam as férias em Minas. Meio de porre. O tri de 1970 veio à lembrança: folheei antigos diários em busca de alguma referência à velha Copa. Encontrei umas filosofias de botequim que escrevinhei naquela ocasião, embalado pela euforia geral. Euforia que agora se repetia.

A Taça do Mundo é nossa,
Com brasileiro não há quem possa!

E eis que o pentacampeonato, na Copa de 2002, me viu descasado, escritor enfim. Da Copa de 2002 lembro ainda que foi disputada do outro lado do mundo, as partidas travadas de madrugada pelo horário daqui, deu pra ver quase nada.  

Desencalhei, voltei a casar. A Copa de 2006  na Alemanha curti a dois (a Alemanha foi a terra pela qual meus dois avôs, materno e paterno, arriscaram a vida na Grande Guerra para depois serem escorraçados por serem judeus). A Copa de 2010 do outro lado do oceano foi bem animada por aqui, a gente se identificou com os irmãos africanos... Vuvuzela, jabulani...

Em 2014, quando enfim a Copa voltou às nossas plagas e tivemos a chance de nos exibirmos ao mundo e alavancarmos nossa indústria do turismo, nosso velho complexo de vira-lata e uma “Santa Aliança” de black blocs fascistas, ultraesquerda, políticos de passado suspeito, sindicalistas radicais, movimentos sociais de sem-isto-e-sem-aquilo afagados pelo desgastado PT e os ranzinzas-chatos-de-galocha-mal-humorados-cricris de sempre... essa “Santa Aliança”, dizia eu, tentou gorar tudo, pôr água no nosso chope, com a campanha do “NÃO VAI TER COPA” (só no Brasil uma campanha ridícula dessas, coisa de esquerda subdesenvolvida!). Mas quando a bola começou a rolar, a verdadeira natureza lúdica e alegre e descontraída do brasileiro veio à tona, e vibramos, vibramos... até o fatídico 7 a 1! Esconjura!

A Copa do Mundo de 2018 até agora vem sendo a Copa dos azarões, das surpresas! A nossa seleção tem tudo para acrescentar a sexta estrelinha à camisa da gloriosa seleção! Haja coração! E que possamos mais uma vez entoar:

A Taça do Mundo é nossa,
Com brasileiro não há quem possa!

Se é que alguém ainda se lembra desta velha musiquinha! Aleguá!

PS. Não foi desta vez... Contra a Bélgica, desperdiçamos o primeiro tempo e quando fomos pra cima com nossa raça e superioridade, já não dava mais tempo. Deixamos pra última hora e nos ferramos. Os europeus investem, os europeus colhem. A semifinal virou um torneio europeu. Mas outras Copas virão... Ainda hei de registrar neste blog a nossa sexta estrelinha. Quem viver verá!

29.6.18

COPA DO MUNDO 1950, de CYRO DE MATTOS

Maracanã em cerca de 1967, foto de Marcel Gautherot obtida no site do Instituto Moreira Salles

Já vão longe aqueles idos. Tento tirar da memória alguns momentos daquele mundo que rolava com a infância na bola. Da fumaça do tempo procuro encontrar o menino que jogava pelada nos campinhos improvisados dos terrenos baldios, espalhados pela cidade pequena, com alguns bairros e poucas ruas calçadas. Às vezes o campinho era improvisado em algum fundo de quintal ou pastagem de uma roça perto do centro da cidade. O jogo era disputado debaixo de chuva ou sol escaldante.

Havia o Campinho do Fole no outro lado do rio. Ali eram jogadas aos domingos, pela manhã, as partidas mais importantes. O time de garotos da rua de cima contra o da rua de baixo. No vaivém do jogo não faltavam empurrões, bate-bocas, xingamentos e algumas brigas intensas. Terminando o jogo, o banho na correnteza de águas límpidas serenava os ânimos. Uma amizade feita de relações naturais logo se refazia com mergulhos e saltos a partir de barrancos íngremes.

O pai levava-me para ver os jogos dos times amadores da cidade no Campo da Desportiva. No início cercado com folhas de zinco, depois murado, o Campo da Desportiva era uma festa aos domingos. As folhas de zinco que cobriam a arquibancada zuniam forte quando as rajadas de vento penetravam entre suas frestas. Dava arrepios, parecia que algumas folhas de zinco na cobertura da arquibancada podiam se soltar a qualquer momento e causar danos entre os torcedores.

Lá, naquele campo de grama maltratada, o menino viu lances para não esquecer. Os dribles do meia-esquerda Macaquinho faziam os torcedores sorrir, a bola ficava grudada no seu pé, ninguém conseguia tomar dele. Delicado era um maestro, como sabia tocar a bola com sutileza para o companheiro. Carrapeta tinha uma visão de jogo que só o craque possui. Distribuía o jogo com a cabeça erguida, lançava a bola para o atacante fazer o gol, sem maior esforço. Mais adiante, na época da seleção amadora de ouro, conheci o centroavante Zé Reis, um artilheiro que se o marcador desse bobeira sabia marcar sua presença. Não era jogador técnico, mas longe de ser cabeça de bagre. Cumpria bem a sua missão de fazer gol. Jogou no Fluminense local, na seleção de Itabuna e no Leônico de Salvador, onde foi artilheiro do campeonato por várias temporadas.

E a pior derrota? Em 1950, Brasil contra Uruguai, final do campeonato mundial no Rio. O Brasil jogava pelo empate. Um gol fazia balançar o estádio com 200 mil pessoas. Foi de Friaça no início do segundo tempo, lenços acenavam para os valentes atletas uruguaios. “É campeão! É campeão!” Todos os brasileiros cantavam o grito de glória numa só corrente de vasto amor. Veio o gol de empate dos uruguaios, Schiafino o autor da proeza. Um calafrio penetrava ossos e nervos do Maracanã com a lotação máxima. O inexorável iria acontecer aos 34 minutos. O ponteiro Gighia chutava a bola e a grama. Ninguém acreditava no que se estava vendo, a bola entrando entre a trave e o goleiro Barbosa. Lenços já não acenavam. Aquela coisa que só infundia medo, estupidamente sem tamanho, percorria todo o estádio. Dominava o ar de milhões de brasileiro. Ninguém podia reverter o capricho dos deuses. Contava o locutor que, encerrado o jogo, a procissão de mortos saía do Maracanã, o país em chuteiras, que pensava e amava pelos pés naquele dia, em caos desencantava-se.

Na cidade pequena, eu via as ruas desertas, bares fechados, a praça em silêncio. O padre não rezou a missa das oito à noite. Daí para frente o canto amargo da memória iria lamber as chagas daquele menino que ficou frustrado no cais da vida, esquecido de si, preso ao nada.

Ainda tentei reagir àquela frustração sem igual com os amigos de minha rua. Soube na semana que, em cada domingo, o Cine Itabuna iria projetar na tela as partidas do Brasil no Campeonato Mundial de Futebol. Meus olhos ávidos não perderiam um lance em cada partida da nossa seleção. Hipnotizados acompanhariam cada jogada, cada drible, cada chute contra a meta adversária. Vibraria com a garotada em cada gol que o Brasil marcasse. Contra a Suécia e a Espanha tinha sido demais. Duas estrondosas goleadas. Era melhor não assistir a final contra o Uruguai. O que era uma trama cruel, orquestrada pelos deuses do futebol na final, não devia ser assistido. Seria para todos nós, pequenos torcedores, lotando o Cine Itabuna, muito doloroso a repetição do drama. Nenhum dos meninos ia conseguir resistir ao trauma tão profundo, vendo dessa vez com os olhos a festa dos jogadores uruguaios no Maracanã e a tristeza de nossos craques, chorando, sem saber explicar o que tinha havido de errado naquela derrota trágica.

Valia a pena driblar as sombras de um pesadelo que se alojava em meu pequeno coração. Afugentar aquela coisa que só infundia tristeza, aderia à pele, ardia tanto no coração. Empurrava-me com os outros meninos para os campos do abismo. O plano que armei com os meninos da Rua do Quartel Velho era simples. Não assistiríamos mesmo, na tela do Cine Itabuna, a derrota do Brasil na final contra o Uruguai. Em algazarra sairíamos pela rua gritando “É campeão! O Brasil é campeão!”, batendo com pau nas latas vazias.

Eu liderava o desfile com algazarra feita pelos queridos amigos, ia na frente da turma, segurava o cartaz com o letreiro grande:

BRASIL CAMPEÃO MUNDIAL DE FUTEBOL 1950.

28.6.18

TRAUMAS DO FUTEBOL BRASILEIRO, de CYRO DE MATTOS


O futebol brasileiro gosta de escrever sua história no extremo. Várias vezes desceu uma ladeira horrível , fomos parar no fundo do poço. A primeira catástrofe do futebol brasileiro aconteceu na Copa do Mundo de 1950, no Maracanã. Já vão longe aqueles idos. O Brasil jogava pelo empate. Um gol fazia balançar o estádio com duzentas mil pessoas. Foi de Friaça no início do segundo tempo, lenços acenavam para os valentes atletas uruguaios. Veio o gol de empate dos uruguaios, Schiafino o autor da proeza. Um calafrio penetrava ossos e nervos do Maracanã com a lotação máxima. O inexorável iria acontecer aos trinta e quatro minutos. O ponteiro Gighia chutava a bola e a grama. Ninguém acreditava no que se estava vendo, a bola entrando entre a trave e o goleiro Barbosa. Lenços já não acenavam. Aquela coisa que só infundia medo, estupidamente sem tamanho, percorria todo o estádio. Ninguém podia reverter o capricho dos deuses. Contava o locutor que, encerrado o jogo, a procissão de mortos saía do Maracanã, e o país, que pensava e amava pelos pés, principalmente naquele dia, em caos desencantava-se.

Outras derrotas amargas em campeonatos mundiais iriam acontecer e com elas ferimentos que teimam em não cicatrizar. Anotem a eliminação do Brasil pela primeira vez na fase de grupos, Copa da Inglaterra. Perdera para Portugal por três a zero e para a Hungria por três a um. Só conseguiu vencer a desconhecida Bulgária por dois a zero. Voltamos cabisbaixos para casa. Na Copa de 1982, na Espanha, a lendária seleção, que jamais sucumbiu à derrota contra a Itália, provou que o futebol não é apenas jogar bonito e ofensivo, mas resultado. O Brasil, de Telê, Zico, Sócrates, Junior e Falcão, era a vítima na Tragédia de Sarriá. Eliminado pela seleção italiana, a aguerrida azurra, de Zoff e Paolo Rossi, por três a dois. Em 24 de junho de 1990, outra derrota traumática. Com uma seleção superior, com duas bolas na trave do adversário e um massacre desferido no tempo regulamentar, o Brasil foi eliminado pela Argentina por um a zero. O lance do gol: aos 35 minutos do final, Maradona passou por três brasileiros e serviu Claudio Caniggia, que ficou cara a cara com Taffarel. O atacante teve calma para driblar o goleiro brasileiro e tocar a bola para o fundo das redes. Na Copa de 86, Zico e Sócrates perderam pênaltis, e o Brasil foi eliminado pela França de Platini.

Depois que ganhamos da França por cinco a dois na Copa do Mundo de 1958, na Suécia, só fizemos perder em mundiais. O dia 12 de julho de 1998 deixou uma triste lembrança para o torcedor brasileiro na disputa da Copa do Mundo, na França. O time brasileiro enfrentou um duro jogo contra a Holanda, nas semifinais. Após o empate por 1 a 1, o jogo foi para as penalidades, vencidas pelo Brasil por 4 a 2. Na final, o Brasil entrou em campo para sagrar-se hexacampeão mundial. Com um futebol apático, sonolento, foi derrotado pelos franceses por 3 a 0, com gols de Zidane (2) e Petit. Antes do jogo, Ronaldo, principal estrela do time brasileiro, sofreu uma convulsão em um episódio que abalou todo o time e que gera polêmica até os dias de hoje.
           
         Pensávamos que o volume da tragédia, com o Brasil derrotado numa final de Copa do Mundo, em sua casa, fosse ser expulso do estádio na Copa de 2014, a ser realizada pela segunda vez nessa “pátria em chuteiras”, como dizia Nelson Rodrigues.
           
          O pior dos traumas estava para acontecer. Sem Neymar, o craque do time, fora retirado de campo contundido, pela falta abominável cometida pelo defensor da Colômbia, na partida anterior, os ares da tragédia começavam a ser anunciados pelos ventos do azar. Ele estava fora da final contra a Alemanha. Apesar dessa baixa enorme, havia alguma confiança de que a batalha final seria vencida pela Seleção do Brasil. Meu Deus, o que foi que aconteceu naquele dia vergonhoso? Perdemos em casa outra Copa do Mundo, dessa vez pelo humilhante placar de sete a um. Em poucos minutos já perdíamos por três a zero, sofremos três gols de repente, um atrás do outro.

Perguntaram a Gerson, o meia-esquerda genial da Seleção de 70, no México, para muitos a melhor de todas em mundiais, como se explicava outra catástrofe do futebol em nossa casa. Não se explica o que é inexplicável, respondeu. Sabem quando vai acontecer outra derrota vergonhosa dessas? A seguir completou, nunca.

Como disse no início que o futebol brasileiro gosta de escrever sua história no extremo, penso que vamos ser hexacampeões de futebol na Copa do Mundo de Moscou.

Até mais verde que te quero verde.

* Cyro de Mattos é ficcionista, poeta e ensaísta. Membro efetivo da Academia de Letras da Bahia.  Doutor Honoris Causa pela Universidade Estadual de Santa Cruz (Bahia). Premiado no Brasil, Portugal, Itália e México. Tem livro publicado em Portugal, Itália, França, Alemanha, Espanha e Dinamarca. Conquistou o Prêmio Internacional de Literatura Maestrale Marengo d’Oro, em Gênova, Itália, com o livro “Cancioneiro do Cacau”, o Afonso Arinos da Academia Brasileira de Letras, com “Os Brabos”, contos, Associação Paulista de Críticos de Arte com “O Menino Camelô”, infantil, e o Prêmio Nacional Pen Clube do Brasil com o romance “Os Ventos Gemedores”.

28.6.14

TEVE COPA, SIM!

O mascote Fuleco (de futebol + ecologia) no Norte Shopping
A Santa Aliança agressiva e antidemocrática do “Não Vai Ter Copa” de black blocs fascistas, partidos ultraesquerdistas, políticos de passado sombrio, sindicalistas tresloucados e os chatos-de-galocha de plantão fez tanto estardalhaço que abafou algumas verdades óbvias, quais sejam, 1) que somos, sim, o país do futebol, 2) adoramos de coração a nossa gloriosa Seleção canarinho e 3) futebol e política são como água e óleo, não se misturam. Enfim as bandeiras se desfraldaram, os torcedores perderam o medo e estamos curtindo uma das melhores Copas de todos os tempos, tanto no nível técnico das partidas como na empolgação de turistas e brasileiros irmanados numa grande festa. E passada a Copa, nada de descambar novamente no mau humor. Lembremos que em outubro temos uma chance magna de passar o país a limpo: eleições!


Trio de Ouro

Felipão

Fuleco

Bandeiras nas janelas de um prédio do Cachambi, Zona Norte

Bandeiras em Copacabana

Fitas verdes e amarelas (e velhos sobrados) na Glória

Nossos heróis

Templo Positivista na Glória. Os dizeres "Ordem e Progresso" da bandeira foram tirados de um lema positivista.

Camisetas à venda. Fotos do editor do blog.

12.6.14

3 x COPA DO MUNDO



1- COPA DE 1950 (trechos de A HISTÓRIA DA SELEÇÃO BRASILEIRA EM CORDEL do cordelista CLAUDIO ARAGÃO à venda por R$12,00 na LIVRARIA DA TRAVESSA)

Dois de agosto de 1, 9, 4, 8
teve início, afinal, a construção
do maior estádio de futebol
o templo da magia e da paixão
Em um ano e dez meses, tempo recorde
todo o Rio já tinha uma visão
da oitava maravilha do mundo
o mais belo postal desta nação
Em dezesseis de junho, afinal
surge o Maracanã, fenomenal!

Cariocas e paulistas fizeram
a chamada partida inaugural
e o primeiro gol, quem assinalou
foi Didi, numa bomba genial
Os paulistas viraram, três a um
todos acharam muito natural
Os paulistas, por muito tempo, vinham
ao Maraca e faziam carnaval
A Copa, em cinquenta, já estava
contagem regressiva começava

[...]

Nesse tempo, o Brasil de ponta a ponta
não ficava com o radio desligado
Logo após o massacre da Espanha
o povo não fazia de rogado
e o clima "já ganhou" foi se espalhando
Contam que um delegado entusiasmado
deu bandeiras pros presos e os soltou
depois, no xadrez foi trancafiado
Esse era o clima que predominava
a semente do que nos esperava

[...]

Os jornais não cansavam de insuflar
com manchetes pra quebrar o moral
do Uruguai e levantar o Brasil
Pelas ruas, alarido geral
"Hoje é dia de sermos campeões!
Uruguai vai brincar o Carnaval!
Salve o Brasil, o campeão do mundo!"
De todo o território nacional
vinha gente com o mesmo sentimento
Me bateu estranho pressentimento

Uruguai que merecia respeito
a Celeste de glórias mundiais
Obdulio Varela, Schiaffino
Julio Perez e Gigghia, geniais
Pra mexer com os brios uruguaios
Obdulio adquiria jornais
e botando no chão, todos pisavam
e o grande capitão pedia mais
que deixassem o sangue no gramado
e só Deus pra dizer o resultado

Enfim, o dia dezesseis de julho
Jogadores em estado de tensão
acordaram irritados de manhã
tinham tudo, menos concentração
Empresários, repórteres, políticos
nesse dia, chamavam a atenção
"Parecia que a Copa já acabara!"
 As palavras do grande capitão
Mestre Ziza, de um lado pro outro andava
temendo pelo que se aproximava

Aos catorze e cinquenta e cinco deu-se
o toque inicial dessa partida
Ademir pra Danilo, e esse a Bauer
Duzentas mil pessoas, a torcida
Dum lado, a habilidade do Brasil
do outro, a garra uruguaia conhecida
Zero a zero o primeiro tempo e agora
essa Copa seria decidida
Logo o segundo tempo começou
e uma grande surpresa preparou

[...]


A coruja agourenta da má sorte
trinta e quatro minutos nos sorriu
Julio Perez dá combate a Danilo
rouba a bola e velozmente partiu
troca passes com Miguez, toca a Gigghia
devolvendo pra Perez que sentiu
grande espaço no nosso lado esquerdo
com talento, lançou, ninguém cobriu
o Brasil se calou, ele avançou
entre a trave e Barbosa colocou

O Maracanã em sua primeira "encarnação"

Essa foi a tragédia do Maraca
no Brasil, dizem que não houve igual
morreu gente no Brasil e no Uruguai
ambulâncias na porta do hospital
jogadores chorando, pesadelo
ambiente de um grande funeral
Duzentas mil estátuas presas ao solo
era um quadro dantesco, infernal
Se queimavam jornais, sonhos, bandeiras
cinzas junto a lágrimas brasileiras

o soluço foi tanto que no Olimpo
os deuses acordaram, foram ver
Um menino pegou o pai chorando
junto a um rádio de pilha e quis saber
Ele disse: "Meu filho, vai andando
É que o Brasil acaba de perder
uma Copa em pleno Maracanã!"
Respondeu: "Papai, pare de sofrer
uma Copa, prometo conquistar!"
E sapatos saiu pra engraxar

O Maracanã em sua primeira "encarnação" (detalhe)

2- A TAÇA DO MUNDO É NOSSA de IVO KORYTOWSKI

Não sou nenhum Pelé ou Ronaldinho, mas as Copas do Mundo fizeram parte também de minha vida.

Por exemplo — acredite se quiser — estive na fatídica final da Copa de 1950, aqui no Maracanã. É bem verdade que, oficialmente, eu sequer havia nascido (nem se trata de regressão a vida passada), mas minha mãe já carregava a sementinha no ventre quando foram, ela e meu pai, assistir à partida. A vitória brasileira, tão certa como o fato de que no dia seguinte o sol se levantaria. Mas o sol não se levantou! Quantas vezes ouvi meu pai narrando o silêncio, a desolação de enterro que se abateu sobre aqueles quase 200 mil espectadores: todos saíram do estádio cabisbaixos, depressão coletiva, ninguém ousando puxar conversa com ninguém. Meu pai me contou.

Da Copa de 58 guardo vagas lembranças: todos ao pé do rádio, vibrando, brado de guerra: “aleguá” (sabe-se lá o que isso significava?). E a canção:

A Taça do Mundo é nossa,
Com brasileiro não há quem possa!

Na Copa de 62 o rei se contundiu logo nos primeiros jogos e a estrela foi “Seu Mané”: assim os locutores esportivos se referiam a Mané Garrincha, a Alegria do Povo. Alegria de pobre dura pouco.

Quatro anos depois, só um cético empedernido duvidaria de que traríamos o tri. O dia em que Brasil perdeu de Portugal, ainda na primeira fase, de grupos, viu-me em São Paulo, em visita à vovó. Aliás, o apartamento de minha avó, na Avenida Angélica, dava para o Pacaembu: a gente conseguia ver os jogos. Pois foi da janela do apartamento de vovó que, certa feita, vi (com auxílio do binóculo de corridas de cavalo do vovô) Pelé jogando pelo Santos. Teria sido contra o Vasco?

A Taça do Mundo é nossa,
Com brasileiro não há quem possa!

1970. Ditadura militar. Noventa milhões em ação, pra frente Brasil, salve a seleção! Saldanha quis barrar Pelé da Seleção: acabou barrado do cargo de técnico (ao resistir à pressão de Médici pela convocação de Dario). A seleção ia mal das pernas, só mesmo um otimista empedernido acreditava na possibilidade do tri. Foi a primeira Copa televisionada: a imaginação, que antes transformara a descrição radiofônica em imagens do jogo, agora transformaria o preto-e-branco em vistosas cores. A turma se reunia no Castelinho (bar na Vieira Souto em forma de castelo medieval, já demolido), que instalou uma televisão do lado de fora — acho que foi pioneiro nesse hábito hoje generalizado de instalar televisões em locais públicos. Eu andava solitário, sem namorada, na época. Ganhamos o tri!

A Taça do Mundo é nossa,
Com brasileiro não há quem possa!

Levamos longos 24 anos pra repetir a proeza. E muita água rolou sob a ponte: o Brasil se redemocratizou e a Copa de 94 me vê casado, pai de um encantador menino, bem-sucedido tradutor. Meu grande sonho ainda irrealizado: o sucesso como escritor. Sozinho: filho e esposa passam as férias em Minas. Solidão, eterna sina. Meio de porre. O tri de 1970 vem à lembrança: folheio antigos diários em busca de alguma referência à velha Copa. Encontro umas filosofias de botequim que escrevinhei naquela ocasião, embalado pela euforia geral. Euforia que agora se repetia.

A Taça do Mundo é nossa,
Com brasileiro não há quem possa!

E eis que o pentacampeonato, na Copa de 2002, me vê descasado, escritor enfim. E solitário como nas Copas anteriores! Eterna sina?

Assim terminei esta crônica originalmente escrita em julho de 2002 e que agora retomo. (Da Copa de 2002 lembro ainda que foi disputada do outro lado do mundo, as partidas travadas de madrugada pelo horário daqui, deu pra ver quase nada.)  

Desencalhei, voltei a casar. A Copa de 2006  na Alemanha curti a dois (a Alemanha foi a terra pela qual meus dois avôs, materno e paterno, arriscaram a vida na Grande Guerra para depois serem escorraçados por serem judeus). A Copa de 2010 do outro lado do oceano foi bem animada por aqui, a gente se identificou com os irmãos africanos... Vuvuzela, jabulani...

Em 2014, quando enfim a Copa volta às nossas plagas e temos a chance de nos exibirmos ao mundo e alavancarmos nossa indústria do turismo, nosso velho complexo de vira-lata e uma "Santa Aliança" de black blocs fascistas, ultraesquerda, políticos de passado suspeito, sindicalistas radicais, movimentos sociais de sem isto e sem aquilo afagados pelo desgastado PT e os ranzinzas-chatos-de-galocha-mal-humorados-cricris de sempre tenta gorar tudo, pôr água no nosso chope. Mas quando a bola começar a rolar, a verdadeira natureza lúdica e alegre e descontraída do brasileiro virá à tona, e vai rolar a festa, vai rolar!

Reforma do Maracanã para a Copa de 2014



3- COPA DO MUNDO 50, de CYRO DE MATTOS (texto gentilmente enviado pelo autor para este blog)

Já vão longe aqueles idos. Tento tirar da memória alguns momentos daquele mundo que rolava com a infância na bola. Da fumaça do tempo procuro encontrar o menino que jogava pelada nos campinhos improvisados dos terrenos baldios, espalhados pela cidade pequena, com alguns bairros e poucas ruas calçadas. Às vezes o campinho era improvisado em algum fundo de quintal ou pastagem de uma roça perto do centro da cidade. O jogo era disputado debaixo de chuva ou sol escaldante.

Havia o Campinho do Fole no outro lado do rio. Ali eram jogadas aos domingos, pela manhã, as partidas mais importantes. O time de garotos da rua de cima contra o da rua de baixo. No vaivém do jogo não faltavam empurrões, bate-bocas, xingamentos e algumas brigas intensas. Terminando o jogo, o banho na correnteza de águas límpidas serenava os ânimos. Uma amizade feita de relações naturais logo se refazia com mergulhos e saltos a partir dos barrancos íngremes.

O pai levava-me para ver os jogos dos times amadores da cidade no Campo da Desportiva. No início cercado com folhas de zinco, depois murado, o Campo da Desportiva era uma festa aos domingos. As folhas de zinco que cobriam a arquibancada zuniam forte quando as rajadas de vento penetravam entre suas frestas. Dava arrepios, parecia que algumas folhas de zinco na cobertura da arquibancada podiam se soltar a qualquer momento e causar danos entre os torcedores.

Lá, naquele campo de grama maltratada, o menino viu lances para não esquecer. Os dribles do meia-esquerda Macaquinho faziam os torcedores sorrir, a bola ficava grudada no seu pé, ninguém conseguia tomar dele. Delicado era um maestro, como sabia tocar a bola com sutileza para o companheiro. Carrapeta tinha uma visão de jogo que só o craque possui. Distribuía o jogo com a cabeça erguida, lançava a bola para o atacante fazer o gol, sem maior esforço. Mais adiante, na época da seleção amadora de ouro, conheci o centroavante Zé Reis, um artilheiro que se o marcador desse uma bobeira sabia marcar sua presença. Não era jogador técnico, mas longe de ser cabeça de bagre. Cumpria bem a sua missão de fazer gol. Jogou no Fluminense local, na seleção de Itabuna e no Leônico de Salvador, onde foi artilheiro do campeonato por várias temporadas.


E a pior derrota? Em 1950, Brasil contra Uruguai, final do campeonato mundial, no Rio. O Brasil jogava pelo empate. Um gol fazia balançar o estádio com 200 mil pessoas. Foi de Friaça no início do segundo tempo, lenços acenavam para os valentes atletas uruguaios. “É campeão! É campeão!” Todos os brasileiros cantavam o grito de glória numa só corrente de vasto amor. Veio o gol de empate dos uruguaios, Schiafino o autor da proeza. Um calafrio penetrava ossos e nervos do Maracanã com a lotação máxima. O inexorável iria acontecer aos 34 minutos. O ponteiro Gighia chutava a bola e a grama. Ninguém acreditava no que se estava vendo, a bola entrando entre a trave e o goleiro Barbosa. Lenços já não acenavam. Aquela coisa que só infundia medo, estupidamente sem tamanho, percorria todo o estádio. Dominava o ar de milhões de brasileiro. Ninguém podia reverter o capricho dos deuses. Contava o locutor que, encerrado o jogo, a procissão de mortos saía do Maracanã, o país em chuteiras, que pensava e amava pelos pés naquele dia, em caos desencantava-se.

Na cidade pequena, eu via as ruas desertas, bares fechados, a praça em silêncio. O padre não rezou a missa das oito da noite. Daí para frente o canto amargo da memória iria lamber as chagas daquele menino que ficou frustrado no cais da vida, esquecido de si, preso ao nada.

Ainda tentei reagir àquela frustração sem igual com os amigos de minha rua. Soube na semana que, em cada domingo, o Cine Itabuna iria projetar na tela as partidas do Brasil no Campeonato Mundial de Futebol. Meus olhos ávidos não perderiam um lance em cada partida da nossa seleção. Hipnotizados acompanhariam cada jogada, drible, chute contra a meta adversária. Vibraria com a garotada em cada gol que o Brasil marcasse. Contra a Suécia e a Espanha tinha sido demais.

O plano que armei com os outros meninos para driblar as sombras de um pesadelo que se alojava em meu pequeno coração era simples. Não assistiríamos mesmo, na tela do Cine Itabuna, a derrota do Brasil na final contra o Uruguai. Em algazarra sairíamos pela rua gritando “É campeão! O Brasil é campeão!”, batendo com pau nas latas vazias.

Eu liderava o desfile, ia na frente da turma, segurava o cartaz com o letreiro grande:

BRASIL CAMPEÃO MUNDIAL DE FUTEBOL 1950. 


O novo Maracanã

Valeu a pena? Tudo vale a pena se a alma não é pequena.

Fotos do editor do blog
  

3.6.10

RIO ENFEITADO PARA A COPA

RUA DOUTOR LEAL, ENGENHO DE DENTRO




“ONDE QUER QUE VOCÊ VÁ ALI [NA ÁFRICA], TODOS ESTÃO JOGANDO FUTEBOL O TEMPO TODO. POR TODA PARTE.
CARLOS BILARDO, EX-TREINADOR DA LÍBIA E ARGENTINA


“2010 ESTÁ NOS LÁBIOS DE TODOS E O POVO DA ÁFRICA DO SUL ESTÁ ANSIOSO PARA DAR AO MUNDO UMA RECEPÇÃO AFRICANA CALOROSA.”
MOLEFI OLIPHANT, PRESIDENTE DA ASSOCIAÇÃO DE FUTEBOL DA ÁFRICA DO SUL


“QUANDO JOGAMOS, A COSTA DO MARFIM INTEIRA FICA CONTENTE.”
MEIO-CAMPISTA YAYA TOURÉ


O FUTEBOL NÃO É SIMPLESMENTE O ESPORTE MAIS POPULAR EM GANA, É COMO UMA RELIGIÃO.”
OTTO PFISTER, TREINADOR DA SELEÇÃO DE GANA VENCEDORA DA COPA DO MUNDO SUB-17 EM 1991


“GRAÇAS AO FUTEBOL UM PAÍS PEQUENO PÔDE SE TORNAR GRANDE.”
JOGADOR LEGENDÁRIO DE CAMARÕES ROGER MILLA


“SOMOS AINDA A SELEÇÃO DIFÍCIL DE DERROTAR NA ÁFRICA. CADA PARTIDA PARA NÓS É COMO UMA FINAL.”
EX-CAPITÃO DA NIGÉRIA JAY-JAY OKOCHA





Fotos do editor do blog. A Rua Doutor Leal foi a terceira colocada no concurso Esta Rua É Fera promovido pelo G1-RJ. Textos extraídos do livro FUTEBOL 10, escrito por Martin Cloake, Glenn Dakin, Adam Powley, Aidan Radnedge e Catherine Sauders e traduzido por Ivo Korytowski.