ENSEADA DE BOTAFOGO

ENSEADA DE BOTAFOGO
"Andar pelo Rio, seja com chuva ou sol abrasador, é sempre um prazer. Observar os recantos quase que escondidos é uma experiência indescritível, principalmente se tratando de uma grande cidade. Conheço várias do Brasil, mas nenhuma tem tanta beleza e tantos segredos a se revelarem a cada esquina com tanta história pra contar através da poesia das ruas!" (Charles Stone)

VISTA DO TERRAÇO ITÁLIA

VISTA DO TERRAÇO ITÁLIA
“São Paulo, até 1910 era uma província tocada a burros. Os barões do café tinham seus casarões e o resto era pouco mais que uma grande vila. Em pouco mais de 100 anos passou a ser a maior cidade da América Latina e uma das maiores do mundo. É pouco tempo. O século XX, para São Paulo, foi o mais veloz e o mais audaz.” (Jane Darckê Avelar)

12.9.14

ART RUA 2014

"Muito mais do que uma exposição, o ART RUA é um movimento de revitalização urbana através da arte." Criado em 2011 pelo Instituto R.U.A. em parceria com a produtora Visionart'z, a edição de 2014 realizou-se no Centro Cultural Ação Cidadania, Zona Portuária, de 11-14 de setembro. Uma das atrações foram sete murais gigantes sob o tema Daydreaming, cinco dos quais você vê nas fotos a seguir. 

Ramon Martins, "37 semanas"

Rodrigo Branco, "Acaso"

Bicicleta sem Freio, "Noite Escura"

Ana Marietta, Los "Pescados"

Seth the Globe Painter, "Do Outro Lado"

5.9.14

STEFAN ZWEIG NO RIO DE JANEIRO - PARTE 1: CHEGADA DE NAVIO


Antes de emigrar definitivamente para o Brasil fugindo da barbárie nazista, Stefan Zweig já fizera uma viagem pelo país, descrita no ensaio PEQUENA VIAGEM AO BRASIL, escrito no outono de 1936 e incluído no livro ENCONTROS COM HOMENS, LIVROS E PAÍSES, publicado pela Editora Guanabara em 1939 em tradução de Milton Araujo e gentilmente cedido a este blog por Salomão Rovedo. Fotos do Rio antigo extraídas de PPS que circularam pela Internet. O texto aqui reproduzido é um raro relato da entrada de navio na Baía da Guanabara que tanto impressionava os visitantes da Cidade Maravilhosa — incluindo minha mãe como você pode ler em seu diário clicando em Diário de minha mãe no menu à direita — antes do advento da aviação intercontinental. 


De manhã cedo, já todos os passageiros esperam com impaciência e curiosidade, a bordo, munidos de binóculos e câmaras; ninguém quer perder a ocasião de ver a entrada famosa do Rio de Janeiro, mesmo aqueles que já a conhecem de muitas viagens. Ainda o mar brilha azul e metálico como há dias e dias, numa monotonia acalmante e ao mesmo tempo fatigante, e, não obstante, sente-se a proximidade da terra; respira-se a terra antes de vê-la, pois o ar torna-se de repente úmido, doce e mais suave, uma exalação pesada vem voando imperceptivelmente, conglomerada, nas profundidades dos bosques imensas, do hálito das plantas e da umidade dos cálices, aquela exalação das regiões tropicais, indescritível, quente, mormacenta, como o vinho em fermentação, que de maneira ensurdecedora, nos torna ébrios e cansados ao mesmo tempo. Agora, finalmente, muito ao longe, avista-se um contorno: uma cadeia de montanhas destaca-se com alguma incerteza ainda, nebulosa, no horizonte, e, à medida que o navio sulca seu caminho pelas águas, vai sendo avistado mais perceptivelmente; é uma série de montanhas que com braços estendidos protege uma das maiores baías do mundo, a bela baía de Guanabara. Todos os navios de todas as nações caberiam aí ao mesmo tempo, tão vasta e grandiosa ela é, abaulando-se com suas múltiplas enseadas e promontórios. Dentro dessa concha gigantesca arrombada estão espalhadas, como pérolas, inúmeras ilhas, cada uma diferente em forma e cor. Algumas mal aparecem, uniformes e acinzentadas, de dentro do mar ametístico; podia-se tomá-las, à distância, por baleias, tão nuas e peladas são suas costas. Outras são oblongas e pedregosas, estriadas como crocodilos; outras povoadas de casas; algumas são fortalezas, outras assemelham-se a jardins flutuantes com palmeiras e flores; e, enquanto se admira curiosamente essa variedade inesperada das formas, com o auxilio do binóculo, vêm-se destacar ao mesmo tempo, bem ao fundo, plasticamente, as montanhas, também cada uma delas diferente, cheia ·de caprichos. Uma é nua, a outra coberta de um vestido de palmas verdes, esta com penhascos, aquela cingida por um cinto resplandecente de casas e jardins; parece que a natureza, como escultora atrevida, experimentou colocar todas as formas terrestres uma ao lado da outra; e por isso, a fantasia do povo deu nomes terrestres a cada uma dessas figuras de pedra: Morro da Viúva, Corcovado, Cão, Dedo de Deus, e, à mais visível de todas, o nome de Pão de Açúcar. Esta montanha, subindo diante da cidade, com seu declive abrupto, acha-se na entrada do Rio de Janeiro como a estátua da Liberdade diante de New York, ambas como o símbolo antiquíssimo e imóvel destas cidades. Por cima de todos esses monólitos e montanhas vê-se, como capital dessa geração de gigantes, o Corcovado, onde se eleva a imagem de Jesus, de braços abertos (à noite toda iluminada), abençoando o Rio de Janeiro como um padre ao levantar o hostiário sobre os crentes ajoelhados.


Agora percebe-se a cidade após a passagem por um complicado labirinto de ilhas. Não se avista, porém, toda de uma vez. Não é como em Nápoles, na Argélia ou em Marselha, cujas cidades aparecem num panorama de casas, como uma arena aberta com degraus de pedras, logo à primeira vista. Quadro por quadro, parte por parte, plano por plano, desdobra-se a cidade do Rio de Janeiro como um leque, e é por isso que a sua entrada é tão dramática, tão inexpressivelmente admirável e surpreendente. Cada uma dessas baías povoadas, de cuja reunião resulta a sua costa, é separada uma da outra por meio de cadeias de montanhas — são como as varetas do leque, que isolam cada quadro, reunindo-as ao mesmo tempo. Finalmente avistamos a praia arqueada. Aspecto encantador! Um passeio vasto ao longo da praia, continuamente espumada pelas ondas, com casas, praças e jardins; distingue-se claramente o hotel de luxo e, elevando o olhar, os outeiros com as vilas cercadas de árvores — porém, novo engano! É somente a praia de Copacabana, uma das mais belas do mundo, um bairro novo e chic, não a própria cidade. Ainda é preciso passar o Pão de Açúcar, que impede a vista; somente então é que se vê a cidade maciça e branca, olhando para o mar e deslizando nas alturas verdes. Veem-se os jardins públicos das praias, recentemente feitos, e o campo de aviação, que há pouco tempo foi ganho do mar. Já vamos atracar e a impaciência será satisfeita. Mas não! Era novamente um erro. Desta vez é a enseada de Botafogo e a praia do Flamengo; o vapor ainda deve ser pilotado; ainda é preciso abrir-se outra folha desse leque divino, resplandecente, com todas as cores; ainda é necessário passar a ilha da marinha e aquela outra pequena com o palácio gótico, onde o imperador D. Pedro, dois dias antes de sua deposição deu, sem nenhum pressentimento, o último baile. E só agora podemos saudar as casas altas, uma só massa vertical; agora o vapor pode atracar e estamos na América do Sul, no Brasil, estamos na cidade mais maravilhosa do mundo — o Rio de Janeiro.


Essa entrada de uma hora é um acontecimento único no seu gênero e comparável somente à impressão irresistível daquela de New York, porém a saudação de New York é mais dura, mais enérgica, como um golfo setentrional com seus cubos amontoados, brancos como gelo. Manhattam nos oferece uma saudação viril, heroica; é a vontade humana indômita da América, uma irrupção da força acumulada. Rio de Janeiro estende-nos os seus braços meigos de mulher, recebe-nos com carinho, atrai-nos, entrega-se ao espectador, com uma certa voluptuosidade. Tudo aqui é harmonia; a cidade, o mar, o seu verde e as montanhas, tudo desliza como que ao som de uma música; mesmo os arranha-céus, os navios, os reclames luminosos de muitas cores não perturbam; e esta harmonia repete-se em acordes sempre novos. Diferente é a cidade vista do alto dos outeiros e vista do mar; contudo, é sempre harmonia, multiplicidade desprendida num conjunto completo, natureza que ficou cidade, e uma cidade que causa o efeito da natureza. Pela maneira grandiosa e generosa que o Rio nos recebe, já se sabe de antemão que a vista não se cansará de apreciar e a alma não se fartará dessa cidade extraordinária.