5.9.14

STEFAN ZWEIG NO RIO DE JANEIRO - PARTE 1: CHEGADA DE NAVIO


Antes de emigrar definitivamente para o Brasil fugindo da barbárie nazista, Stefan Zweig já fizera uma viagem pelo país, descrita no ensaio PEQUENA VIAGEM AO BRASIL, escrito no outono de 1936 e incluído no livro ENCONTROS COM HOMENS, LIVROS E PAÍSES, publicado pela Editora Guanabara em 1939 em tradução de Milton Araujo e gentilmente cedido a este blog por Salomão Rovedo. Fotos do Rio antigo extraídas de PPS que circularam pela Internet. O texto aqui reproduzido é um raro relato da entrada de navio na Baía da Guanabara que tanto impressionava os visitantes da Cidade Maravilhosa  incluindo minha mãe como você pode ler em seu diário clicando em Diário de minha mãe no menu à direita — antes do advento da aviação intercontinental. 


De manhã cedo, já todos os passageiros esperam com impaciência e curiosidade, a bordo, munidos de binóculos e câmaras; ninguém quer perder a ocasião de ver a entrada famosa do Rio de Janeiro, mesmo aqueles que já a conhecem de muitas viagens. Ainda o mar brilha azul e metálico como há dias e dias, numa monotonia acalmante e ao mesmo tempo fatigante, e, não obstante, sente-se a proximidade da terra; respira-se a terra antes de vê-la, pois o ar torna-se de repente úmido, doce e mais suave, uma exalação pesada vem voando imperceptivelmente, conglomerada, nas profundidades dos bosques imensas, do hálito das plantas e da umidade dos cálices, aquela exalação das regiões tropicais, indescritível, quente, mormacenta, como o vinho em fermentação, que de maneira ensurdecedora, nos torna ébrios e cansados ao mesmo tempo. Agora, finalmente, muito ao longe, avista-se um contorno: uma cadeia de montanhas destaca-se com alguma incerteza ainda, nebulosa, no horizonte, e, à medida que o navio sulca seu caminho pelas águas, vai sendo avistado mais perceptivelmente; é uma série de montanhas que com braços estendidos protege uma das maiores baías do mundo, a bela baía de Guanabara. Todos os navios de todas as nações caberiam aí ao mesmo tempo, tão vasta e grandiosa ela é, abaulando-se com suas múltiplas enseadas e promontórios. Dentro dessa concha gigantesca arrombada estão espalhadas, como pérolas, inúmeras ilhas, cada uma diferente em forma e cor. Algumas mal aparecem, uniformes e acinzentadas, de dentro do mar ametístico; podia-se tomá-las, à distância, por baleias, tão nuas e peladas são suas costas. Outras são oblongas e pedregosas, estriadas como crocodilos; outras povoadas de casas; algumas são fortalezas, outras assemelham-se a jardins flutuantes com palmeiras e flores; e, enquanto se admira curiosamente essa variedade inesperada das formas, com o auxilio do binóculo, vêm-se destacar ao mesmo tempo, bem ao fundo, plasticamente, as montanhas, também cada uma delas diferente, cheia ·de caprichos. Uma é nua, a outra coberta de um vestido de palmas verdes, esta com penhascos, aquela cingida por um cinto resplandecente de casas e jardins; parece que a natureza, como escultora atrevida, experimentou colocar todas as formas terrestres uma ao lado da outra; e por isso, a fantasia do povo deu nomes terrestres a cada uma dessas figuras de pedra: Morro da Viúva, Corcovado, Cão, Dedo de Deus, e, à mais visível de todas, o nome de Pão de Açúcar. Esta montanha, subindo diante da cidade, com seu declive abrupto, acha-se na entrada do Rio de Janeiro como a estátua da Liberdade diante de New York, ambas como o símbolo antiquíssimo e imóvel destas cidades. Por cima de todos esses monólitos e montanhas vê-se, como capital dessa geração de gigantes, o Corcovado, onde se eleva a imagem de Jesus, de braços abertos (à noite toda iluminada), abençoando o Rio de Janeiro como um padre ao levantar o hostiário sobre os crentes ajoelhados.


Agora percebe-se a cidade após a passagem por um complicado labirinto de ilhas. Não se avista, porém, toda de uma vez. Não é como em Nápoles, na Argélia ou em Marselha, cujas cidades aparecem num panorama de casas, como uma arena aberta com degraus de pedras, logo à primeira vista. Quadro por quadro, parte por parte, plano por plano, desdobra-se a cidade do Rio de Janeiro como um leque, e é por isso que a sua entrada é tão dramática, tão inexpressivelmente admirável e surpreendente. Cada uma dessas baías povoadas, de cuja reunião resulta a sua costa, é separada uma da outra por meio de cadeias de montanhas — são como as varetas do leque, que isolam cada quadro, reunindo-as ao mesmo tempo. Finalmente avistamos a praia arqueada. Aspecto encantador! Um passeio vasto ao longo da praia, continuamente espumada pelas ondas, com casas, praças e jardins; distingue-se claramente o hotel de luxo e, elevando o olhar, os outeiros com as vilas cercadas de árvores — porém, novo engano! É somente a praia de Copacabana, uma das mais belas do mundo, um bairro novo e chic, não a própria cidade. Ainda é preciso passar o Pão de Açúcar, que impede a vista; somente então é que se vê a cidade maciça e branca, olhando para o mar e deslizando nas alturas verdes. Veem-se os jardins públicos das praias, recentemente feitos, e o campo de aviação, que há pouco tempo foi ganho do mar. Já vamos atracar e a impaciência será satisfeita. Mas não! Era novamente um erro. Desta vez é a enseada de Botafogo e a praia do Flamengo; o vapor ainda deve ser pilotado; ainda é preciso abrir-se outra folha desse leque divino, resplandecente, com todas as cores; ainda é necessário passar a ilha da marinha e aquela outra pequena com o palácio gótico, onde o imperador D. Pedro, dois dias antes de sua deposição deu, sem nenhum pressentimento, o último baile. E só agora podemos saudar as casas altas, uma só massa vertical; agora o vapor pode atracar e estamos na América do Sul, no Brasil, estamos na cidade mais maravilhosa do mundo — o Rio de Janeiro.


Essa entrada de uma hora é um acontecimento único no seu gênero e comparável somente à impressão irresistível daquela de New York, porém a saudação de New York é mais dura, mais enérgica, como um golfo setentrional com seus cubos amontoados, brancos como gelo. Manhattam nos oferece uma saudação viril, heroica; é a vontade humana indômita da América, uma irrupção da força acumulada. Rio de Janeiro estende-nos os seus braços meigos de mulher, recebe-nos com carinho, atrai-nos, entrega-se ao espectador, com uma certa voluptuosidade. Tudo aqui é harmonia; a cidade, o mar, o seu verde e as montanhas, tudo desliza como que ao som de uma música; mesmo os arranha-céus, os navios, os reclames luminosos de muitas cores não perturbam; e esta harmonia repete-se em acordes sempre novos. Diferente é a cidade vista do alto dos outeiros e vista do mar; contudo, é sempre harmonia, multiplicidade desprendida num conjunto completo, natureza que ficou cidade, e uma cidade que causa o efeito da natureza. Pela maneira grandiosa e generosa que o Rio nos recebe, já se sabe de antemão que a vista não se cansará de apreciar e a alma não se fartará dessa cidade extraordinária. 



Um comentário:

Salomão Rovedo disse...

Por esse relato, bem anterior ao "Brasil, país do futuro", se vê que os detratores de Stefan Zweig, que o acusaram de escambo com Getúlio Vargas (Livro versus Visto de Permanência) estão completamente equivocados. Zweig se apaixonou pelo Rio de Janeiro e pelo Brasil muito antes de pensar em morar aqui. Os maliciosos comentários - pura maldade - decerto tiveram algum peso no destino do escritor.