ENSEADA DE BOTAFOGO

ENSEADA DE BOTAFOGO
"Andar pelo Rio, seja com chuva ou sol abrasador, é sempre um prazer. Observar os recantos quase que escondidos é uma experiência indescritível, principalmente se tratando de uma grande cidade. Conheço várias do Brasil, mas nenhuma tem tanta beleza e tantos segredos a se revelarem a cada esquina com tanta história pra contar através da poesia das ruas!" (Charles Stone)

VISTA DO TERRAÇO ITÁLIA

VISTA DO TERRAÇO ITÁLIA
São Paulo, até 1910 era uma província tocada a burros. Os barões do café tinham seus casarões e o resto era pouco mais que uma grande vila. Em pouco mais de 100 anos passou a ser a maior cidade da América Latina e uma das maiores do mundo. É pouco tempo. O século XX, para São Paulo, foi o mais veloz e o mais audaz.” (Jane Darckê Avelar)

23.7.14

DESPEDIDA DE JOÃO UBALDO RIBEIRO, de Cyro de Mattos


Nascido em 23 de janeiro de 1943, na Ilha de Itaparica, o escritor João Ubaldo Ribeiro faleceu na última sexta-feira (18), no seu apartamento, do bairro Leblon, Rio de Janeiro, vítima de embolia pulmonar. Jornalista, contista, romancista, cronista, tradutor e roteirista de cinema. Laureado com o Prêmio Jabuti duas vezes, Golfinho de Ouro (Rio), Prêmio Camões, para autores brasileiros e portugueses. Esse baiano de Itaparica deixa uma obra de altíssimo nível no corpo das letras brasileiras. Destacam-se na sua vasta produção os livros Sargento Getúlio (1971), Viva o povo brasileiro, (1984) O sorriso do lagarto (1989), romances, e Livro de histórias (1981). Formado pela Faculdade de Direito da Universidade Federal da Bahia, na turma de 1962, nunca exerceu a advocacia.

Começou a escrever muito cedo, publicando os primeiros contos nas coletâneas Panorama do conto baiano (1959), Reunião (1961) e Histórias da Bahia (1963). O romance Sargento Getúlio, que virou filme e, há pouco tempo, foi adaptado ao teatro, colocou João Ubaldo Ribeiro como um valor excepcional na moderna literatura brasileira. O livro foi traduzido por ele mesmo para o inglês e publicado nos Estados Unidos. Foi editado também na França. Com Livro de histórias (1981), o modo debochado de narrar do autor baiano mais uma vez retorna com incursões nas venturas e desventuras do povo de Itaparica e do sertão da Bahia.

Com Viva o povo brasileiro (1984), magnífico romance, com seu prodígio técnico, conhecimento incomum de linguagem e fala brasileira, vasto cabedal de informações sobre a vida e cultura do povo, João Ubaldo Ribeiro passa a ser reconhecido como um dos escritores mais significativos da América latina, ao lado de Jorge Amado, Gabriel Garcia Márquez, Mario Vargas Llosa, Carlos Fuentes e outros.

É triste, muito triste, essa despedida física de João Ubaldo Ribeiro. Ele foi meu amigo, companheiro de geração em Salvador e colega na Faculdade de Direito da Universidade Federal da Bahia, no período compreendido entre 1958 e 1962.

Quando estudante universitário, uma das coisas que eu gostava era de ir à Rua Chile. Quase todos os dias, visitava a Livraria Civilização como uma necessidade que o tempo me impunha, semelhante àquela quando se tem sede ou fome. Era lá que eu me encontrava com os companheiros de geração, à qual alguns deles pertenciam por afinidades eletivas, enquanto outros em razão da idade. Ildásio Tavares, Alberto Silva, Ricardo Cruz, Marcos Santarrita, Orlando Sena, Olnei São Paulo, Adelmo Oliveira, Carlos Nelson Coutinho e, presença indispensável, João Ubaldo Ribeiro. Lá estava o jovem de voz gutural, contador de casos como o primeiro sem segundo, sorriso largo e franco, olhos por trás de óculos com lente forte e armação grossa. De bom humor com tudo que viesse de graça e da graça da boa terra baiana.

E não é que, neste instante, pregando mais uma de suas travessuras e saindo da memória de repente, eis que risonho vejo diante de mim o colega que deu as mãos à criação literária como meio de leitura crítica da vida? João Ubaldo Ribeiro, com o seu jeito brincalhão de circular naquela querida Faculdade de Direito. Ele era encontrado na cantina, às vezes namorando com Belô, a moça mais bonita da faculdade. Comentava-se que feio como ele só mesmo sua inteligência rara poderia levá-lo à conquista do coração daquela moça, que, quando passava, arrancava suspiros dos estudantes universitários, de tão bela. Lá mesmo na cantina contava alguma história de sua gente de Itaparica aos colegas Davi Sales e Ildásio Tavares, o primeiro mostrando que sua vocação era para crítico literário e o segundo para a poesia, e não para a profissão de advogado. 

Uma vez fez uma prova de Direito do Trabalho em versos e ganhou do professor Elson Gottschalk a nota máxima. Outra vez, quando soube que havia passado de ano, subiu numa cadeira da cantina e, em transe, como se algum espírito de luz tivesse se apossado dele, começou a recitar Shakespeare em inglês clássico. Com aquela cabeça grande de baiano em que formigavam histórias, gozações repentinas, que pegavam os colegas sem defesa, só podia João Ubaldo Ribeiro dá no que deu. Em vez de advogado militante, dotado de vasto saber jurídico, fôlego de sete gatos para enfrentar os litígios forenses, tornou-se em pouco tempo o romancista consagrado de Sargento Getúlio e Viva o povo brasileiro, entre outros livros soberbos.

Era membro da Academia Brasileira de Letras. Seus livros foram traduzidos para oito idiomas. 

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