ENSEADA DE BOTAFOGO

ENSEADA DE BOTAFOGO
"Andar pelo Rio, seja com chuva ou sol abrasador, é sempre um prazer. Observar os recantos quase que escondidos é uma experiência indescritível, principalmente se tratando de uma grande cidade. Conheço várias do Brasil, mas nenhuma tem tanta beleza e tantos segredos a se revelarem a cada esquina com tanta história pra contar através da poesia das ruas!" (Charles Stone)

VISTA DO TERRAÇO ITÁLIA

VISTA DO TERRAÇO ITÁLIA
São Paulo, até 1910 era uma província tocada a burros. Os barões do café tinham seus casarões e o resto era pouco mais que uma grande vila. Em pouco mais de 100 anos passou a ser a maior cidade da América Latina e uma das maiores do mundo. É pouco tempo. O século XX, para São Paulo, foi o mais veloz e o mais audaz.” (Jane Darckê Avelar)
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1.1.19

DEFINIÇÃO DO CARIOCA (segundo HELIO BRASIL, PEDRO NAVA, MILLÔR FERNANDES, JOÃO ANTÔNIO, VINICIUS DE MORAES, DI CAVALCANTI, RICA PERRONE, ADRIANA CALCANHOTO, MILTON TEIXEIRA e o editor do blog)


SEGUNDO HELIO BRASIL

Ser CARIOCA não é nascer no Rio. Nem mesmo no Meyer, no Irajá ou nos confins da Barra. É ouvir o zumbido que fazem o fragor de ondas, as risadas e os gemidos dos quatro generosos cantos da paisagem, o Pico da Tijuca, as verdes encostas de um carrancudo jacaré que se amansa em Jacarepaguá. É respirar Leblon, ver a garota que passará por séculos e embalar-se na princesinha do mar. É ver praças Quinze, Mauá e Tiradentes em amável contradição histórica. Ser Carioca é ter o bum-bum esfolado em ônibus ruidosos mas, ao chegar no Sambódromo, vibrar na concretude de um alucinado Oscar que via nas montanhas as curvas de um sensual destino da caprichosa deusa que se fez cidade.




SEGUNDO PEDRO NAVA

Era dessas idas e vindas à Cidade, à Quinta, Cancela, ruas de São Cristóvão, Tijuca, Engenho de Dentro e Zona Sul – vendo, reparando e ouvindo o povo – que cada segunda-feira eu voltava para o Colégio mais penetrado dessa coisa sutil, rara, exquise, polimórfica indefinível (porque não é forma palpável e o que não tem de material, tem de luminosidade e perfume e vida) – que é o sentimento carioca, a alma carioca que nasce dessa paisagem, dessas ruas (oh! “A alma encantadora das ruas”), desses bairros ricos e pobres, sobretudo dos pobres, desses morros, dessa mistura de gente da terra, da do sul, do centro e do norte. Essas forças puxam para todos os lados mas sua resultante é tão forte que confere identidade a homens os mais diversos. Não há nada menos semelhante uns dos outros que Dante Milano, Álvaros, Prudente, Gastão Cruls, Marques Rebelo, Henriquinho Melo Moraes, Bororó, Di Cavalcanti, Luís Peixoto, Lima Barreto e Francisco Martorelli – esse mesmo que foi o doutor do samba, o que tirou seu anel, vestiu sua camisa listrada e saiu por aí. Entretanto se formos despojando esses homens e reduzindo-os a uma espécie de mínimo múltiplo comum, de redução de decimais a ordinárias, vamos encontrar em todos – um quid especial que é a essência do carioca. que será isso? Como se preparará essa teriaga de qualidades e defeitos onde os principais simples são alegria de viver, dor-de-corno, bloco, clube, carnaval, trepadinha, esporte, ingenuidade, improvisação, boato, jeitinho, tirar o máximo de tudo, não dar sopa, eu? hem... aparar o golpe, estar na sua, saber sua gíria, ser um pouco cafajeste ou pelo menos ter a infinita compreensão da cafajestada como arte e estado de graça. Impossível definir o que é que o carioca tem.




SEGUNDO MILLÔR FERNANDES

Os paulistanos(!) que me perdoem, mas ser carioca é essencial. Os derrotistas que me desculpem, mas o carioca taí mesmo pra ficar e seu jeito não mudou. Continua livre por mais que o prendam, buscando uma comunicação humana por mais que o agridam, aceitando o pão que o diabo amassou como se fosse o leite da bondade humana. O carioca, todos sabem, é um cara nascido dois terços no Rio e outro terço em Minas, Ceará, Bahia, e São Paulo, sem falar em todos os outros Estados, sobretudo o maior deles o estado de espírito. Tira de letra, o carioca, no futebol como na vida. Não é um conformista  mas sabe que a vida é aqui e agora e que tristezas não pagam dívidas. Sem fundamental violência, a violência nele é tão rara que a expressão "botei pra quebrar" significa exatamente o contrário, que não botou pra quebrar coisa nenhuma, mas apenas "rasgou a fantasia", conseguiu uma profunda e alegre comunicação  numa festa, numa reunião, num bate-coxa, num ato de amor ou de paixão  e se divertiu às pampas. Sem falar que sua diversão é definitivamente coletiva, ligada à dos outros. Pois, ou está na rua, que é de todos, ou no recesso do lar, que, no Rio é sempre, em qualquer classe social, uma open-house, aberta sob o signo humanístico do "pode vir que a casa é sua".

Carioca, é. Moreno e de 1,70 metro de altura na minha geração, com muitos louros de 1,80 metro importados da Escandinávia na geração atual, o carioca pensa que não trabalha. Virador por natureza, janota por defesa psicológica, autocrítico e autogozador não poupando, naturalmente, os amigos e a mãe dos amigos  ele vai correndo à praia no tempo do almoço apenas pra livrar a cara da vergonhosa pecha de trabalhador incansável. E nisso se opõe frontalmente ao "paulista", que, se tiver que ir à praia nos dias da semana,vai escondido pra ninguém pensar que ele é um vagabundo.

Amante de sua cidade, patriota do seu bairro, o carioca vai de som (na música), vai de olho (é um paquerador incansável e tem um pescoço que gira 360 graus), vai de olfato (o odor é de suprema importância na fisiologia sexual do carioca).

Sem falar, que, em tudo, vai de espírito; digam o que disserem, o papo, invenção carioca, ainda é o melhor do Brasil, incorporando as tendências básicas do discurso nacional: o humanismo mineiro, o pragmatismo paulista, a verborragia baiana.

E basta ouvir pra ver que o nervo de todas as conversas cariocas, a do bar sofisticado como a do botequim pobre e sujo, por isso mesmo sofisticadíssimo, a do living-room granfa, a da cama (antes e depois), é o humor, a crítica, a piada, a graça, o descontraimento. Não há deuses e nada é sagrado no Olimpo da sacanagem. O carioca é, antes de tudo, e acima de tudo, um lúdico. Ainda mais forte e mais otimista do que o homem da anedota clássica que, atravessado de lado a lado por um punhal, dizia: "Só dói quando eu rio", o carioca, envenenado pela poluição, neurotizado pelo tráfego, martirizado pela burocracia, esmagado pela economia, vai levando, defendido pela couraça verbal do seu humor.





SEGUNDO JOÃO ANTÔNIO

Carioca, carioca da gema seria aquele que sabe rir de si mesmo. Também por isso, aparenta ser o mais desinibido e alegre dos brasileiros. Que, sabendo rir de si e de um tudo, é homem capaz de se sentar ao meio-fio e chorar diante de uma tragédia. O resto é carimbo.

Minha memória não me permite esquecer. O tio mais alto, o meu tio-avô Rubens, mulherengo de tope, bigode frajola, carioca, pobre, porém caprichoso nas roupas, empaletozado como na época, impertigado, namorador impenitente e alegre e, pioneiro, me ensinar nos bondes a olhar as pernas nuas das mulheres e, após, lhes oferecer o lugar. Que havia saias e pernas nuas nos meus tempos de menino.

Folgado, finório, malandreco, vive de férias. Não pode ver mulher bonita, perdulário, superficial e festivo até as vísceras. Adjetivação vazia... E só ideia genérica, balela, não passa de carimbo [carimbo no sentido de estereótipo].

Gosto de lembrar aos sabidos, perdedores de tempo e que jogam conversa fora, que o lugar mais alegre do Rio é a favela. E onde mais se canta no Rio. E, aí, o carioca é desconcertante. Dos favelados nasce e se organiza, como um milagre, um dos maiores espetáculos de festa popular do mundo, o Carnaval.

O carimbo pretensioso e generalizador se esquece de que o carioca não é apenas o homem da Zona Sul badalada — de Copacabana ao Leblon. Setenta e cinco por cento da população carioca moram na Zona Centro e Norte, no Rio esquecido. E lá, sim, o Rio fica mais Rio, a partir das caras não cosmopolitas e se o carioca coubesse no carimbo que lhe imputam não se teriam produzido obras pungentes, inovadoras e universais como a de Noel Rosa, a de Geraldo Pereira, a de Nelson Rodrigues, a de Nelson Cavaquinho... Muito do sorriso carioca é picardia fina, modo atilado de se driblarem os percalços.





SEGUNDO VINICIUS DE MORAES

O que é ser carioca? É ter nascido no Rio de Janeiro. Sim, é claro, e também não. Não porque ser carioca é antes de tudo um estado de espírito. Ser carioca é uma definição de personalidade. [...] Porque ser carioca, mais ainda que ser parisiense, é sentir-se perfeitamente integrado com a sua cidade e o seu meio; é portar roupas como um carioca; é saber das coisas antes que elas sejam ditas; é detestar trabalhar (mas trabalhar); é adorar flanar e bater papo no meio de milhões de compromissos; é acreditar que tudo se arranja (e arranja mesmo); é ser portador não de acidez, mas de certa adstringência como a dos cajus; é gostar de estar sempre chegando e não querer nunca ir embora; é ter ritmo em tudo para tudo; é ter em alta dose o senso do ridículo e da oportunidade; é gostar de gente mesmo falando mal; é gostar de banho de chuveiro; é amar todas as coisas que maldiz; é saber conhecer outro carioca no estrangeiro, só pelo modo de andar e de vestir-se. Isso é ser carioca. E a maior felicidade é que ao carioca foi dado para amar, desamar, exaltar, trair e ser escravo um outro ser cuja graça é indefinível: a mulher carioca.





SEGUNDO DI CAVALCANTI

Todos os dramas, os mais terríveis, o carioca pode enquadrá-los numa janela aberta para um céu de estrelas.

O Rio de Janeiro tem coisas de que é impossível qualquer pessoa se desligar. Mesmo recebendo gente de toda parte, a cidade não consegue ser cosmopolita. Qualquer estrangeiro se torna carioca em pouco tempo.

O Rio de Janeiro exerce o milagre da esperança e todos que aqui vivem ressuscitam de hora em hora, sentindo na boca o gosto salgado de um novo batismo.

Ser autêntico carioca é possuir a dignidade de existir sem ambições supérfluas. É bastar-se a si mesmo, na certeza de ser um privilegiado do destino.

Deus deu o alimento sonho ao carioca.





SEGUNDO RICA PERRONE

Carioca exagera tudo, pra baixo e pra cima. Se elogiar a praia, ele exalta dizendo que é “a melhor praia do mundo”. Se falar que é perigoso, ele não nega. Diz que é “perigoso pra caramba”.

Trata sua cidade como filho. Só ele pode falar mal.

Cariocas não marcam encontro. Simplesmente se encontram.

A confirmação de um convite aqui não quer dizer nada. Você sugere “Vamos?”, eles dizem “Vamo!”. O que não implica em ter aceitado a sugestão.

Hora marcada no Rio é “por volta de”. Domingo é domingo. E relaxa, irmão. Pra que a pressa?

Em 5 minutos são amigos de infância, no segundo encontro te abraçam e já te colocam apelidos.

Não te levam pra casa. Te convidam pra rua. É curioso. Mas é que a “rua” aqui é tão linda que se trancar em casa é desperdício.

Cariocas andam de chinelo e não se julgam por isso. São livres, desprovidos de qualquer senso de sofisticação.

Ao contrário, parecem se sentir mal num ambiente formal e de algum requinte.





SEGUNDO ADRIANA CALCANHOTO


Cariocas são bonitos.
Cariocas são bacanas.
Cariocas são sacanas.
Cariocas são dourados.
Cariocas são modernos.
Cariocas são espertos.
Cariocas são diretos.
Cariocas não gostam de dias nublados.
Cariocas nascem bambas.
Cariocas nascem craques.
Cariocas têm sotaque.
Cariocas são alegres.
Cariocas são atentos.
Cariocas são tão sexys.
Cariocas são tão claros.

Cariocas não gostam de sinal fechado...





SEGUNDO MILTON TEIXEIRA

Adão e Eva eram cariocas. Não tinham o que comer, não tinham o que vestir, não tinham onde morar, não tinham um governo visível, não obedeciam a lei e achavam que estavam no Paraíso.






SEGUNDO O EDITOR DESTE BLOG



Carioca é aquilo que o paulistano não é. No bom e no mal sentido, porque São Paulo é uma espécie de locomotiva do Brasil (e, surpreendam-se, vou me mudar para lá em breve). Você anda pelas ruas paulistanas num dia e horário útil e está todo mundo apressado. Mesmo quem não está finge que está pra não destoar. Já no Rio tem sempre alguém flanando, alguém pegando uma praia, alguém de bermuda e chinelos mesmo no Centro da cidade onde teoricamente deveria estar todo mundo trabalhando. Carioca adora se reunir em torno de uma churrasqueira (a churrasqueira é uma espécie de altar do carioquismo contemporâneo) – que pode estar num quintal, na calçada diante de um bar, até num parque, numa praia, num beco, numa viela – e jogar conversa fora enquanto esvazia uma garrafa de cerveja depois da outra (depois da saideira vem outra saideira). Paulistano prefere um bom restaurante, confeitaria, cantina. Todo fim de semana rola alguma feijoada regada a samba em alguma escola de samba Rio afora (além do Cacique de Ramos) confirmando a visão predominante mundo afora de que o Rio é a cidade mais feliz do mundo (de fato, o Rio ficou em primeiríssimo lugar, no Índice Anholt-GfK Roper City Brands, divulgado em junho de 2009, das cidades mais felizes do mundo). Existe o mito do carioca inimigo do trabalho, aquele sambinha do “segunda-feira não vou trabalhar, na terça não vou pra poder descansar, na quarta preciso me recuperar...”, desmentido pelo PIB fluminense, o segundo maior do país – quem não trabalha não gera PIB. Aliás quem demonstra à perfeição o espírito trabalhador (!) do carioca são os garis da Comlurb, sempre dispostos, sempre a postos, se num domingo de sol a população emporcalha a praia, no final do dia o entulho é todo recolhido. O hábito carioca de chiar o s pode parecer esquisito, mas o Rio foi por muito tempo a capital da colônia, e esse s chiado não passa de um resquício do mais castiço português lusitano. E finalmente, no Rio você vê mendigos felizes (última foto abaixo), algo raríssimo em outras metrópoles. São muitas as peculiaridades do carioca, difícil captar sua essência – como é difícil captar qualquer essência, Platão que o diga – mas de uma coisa estejam certos: na Internet o que melhor capta a carioquice é este meu modesto blog que desde 2005 mostra o que o Rio tem de melhor. E se em meu texto não sou tão eloquente quanto um Nava, um Helio Brasil, um Vinicius, compenso essa minha deficiência com as fotografias. Essas sim, acredito terem captado a essência do carioca! Obrigado por visitarem meu blog e voltem sempre... sempre... sempre...




31.10.18

O QUE É FELICIDADE, de MANOEL CARLOS

Crônica de Manoel Carlos transcrita da Veja-Rio de 10/2/2010


Andei pensando nisso ultimamente. Quem me diz? Quem me explica? Quem me define com precisão qual a identidade verdadeira dessa misteriosa e maravilhosa sensação que sentimos, que nos leva a afirmar: sou feliz? Ou, pelo menos: estou feliz? No dicionário está muito claro: felicidade é satisfação. A qualidade de estar e/ou ser feliz.
Os poetas falam muito nesse estado, mais para dizer que o desejam, que o procuram e que não o encontram. Vicente de Carvalho garante que a felicidade...
Existe, sim: mas nós não a alcançamos
Porque está sempre apenas onde a pomos
E nunca a pomos onde nós estamos.

E há também os que a encontram, mas não sabem. Ou que só ficam sabendo quando já é tarde, quando a perderam, quando a deixaram passar. Na mesma hora me vem à memória o verso de Miraí, um lindo samba de Ataulfo Alves, que, ao lembrar-se dos tempos de criança, exclama, emocionado: "Eu era feliz e não sabia!".
Lembro-me também da frase de Dorian Gray no romance de Oscar Wilde, mais ou menos assim: "Não procuro a felicidade, procuro o prazer". Mas sentir prazer não é sentir-se feliz. E estar feliz não é estar repleto de prazer? Mas também sabemos que a satisfação de Dorian Gray era extraída da dor de viver. E, principalmente, da dor que nos causa o tempo, o passar dos anos, o envelhecimento. Por isso, para ele, felicidade era ser eternamente jovem e belo.
Para os poetas e para a poesia, ser infeliz é mais inspirador do que ser feliz. Queixar-se da vida é mais comum do que louvá-la. Até nas novelas. Se o personagem vive sorrindo, logo alguém diz que ele é chato, cansativo, artificial.
Meu amigo Reynaldo é radical:
– Ninguém gosta de pessoa muito feliz. Dessas que exalam euforia e contentamento. Parece um acinte, uma afronta. Como se pode viver sem conflitos? Ser infeliz é que é o normal, porque é mais duradouro.
E Vinicius de Moraes concorda, ao afirmar:
Tristeza não tem fim
Felicidade sim.


Manuel Bandeira

Ah, os poetas! Alguns, como o nosso Manuel Bandeira, louvam a morte num poema precisamente com o nome "Felicidade":
Oh, ter vontade de se matar,
bem sei é coisa que não se diz.
Que mais a vida me pode dar?
Sou tão feliz!

Mas por que estou eu a gastar tinta, como se dizia antigamente, no tempo em que se escrevia a mão, com essa palavra tão usada e ao mesmo tempo tão obscura, que todo mundo conhece, mas que ninguém define com precisão, e que os dicionários registram, sem ênfase, em duas ou três linhas? Conto a vocês. É que lendo Um Ensaio Autobiográfico, de Jorge Luis Borges, livro que nasceu de alguns encontros que o admirável escritor argentino manteve com o americano Norman Thomas di Giovanni, seu amigo e principal interlocutor, deparei com esta declaração que Borges faz no fechamento do livro e que, pedindo licença à editora e aos tradutores Maria Carolina de Araújo e Jorge Schwartz, reproduzo aqui, de presente aos meus queridos leitores:
"Suponho que já escrevi meus melhores livros. Isso me dá uma espécie de tranquila satisfação e serenidade. No entanto, não acho que tenha escrito tudo. De algum modo, sinto a juventude mais próxima de mim hoje do que quando era um homem jovem. Não considero mais a felicidade inatingível, como eu acreditava tempos atrás. Agora sei que pode acontecer a qualquer momento, mas nunca se deve procurá-la. Quanto ao fracasso e à fama, parecem-me totalmente irrelevantes e não me preocupam. Agora o que eu procuro é a paz, o prazer do pensamento e da amizade. E, ainda que pareça demasiado ambicioso, a sensação de amar e ser amado".
Jorge Luis Borges nasceu em 1899 e morreu em 1986, aos 87 anos. O ensaio foi escrito em 1970, quando ele tinha 71 anos.

Busto de Borges em Buenos Aires

1.2.10

POEMAS DE COPACABANA

PoemasDeCopacabana1

COPACABANA
Geir Campos

dormes
            entre teus sustos
                                        relaxada
imagem do meu tudo
                                    e do meu nada

teu fundo respirar contemplo
                                                 é onde
a vida se pergunta
                              e se responde

enquanto dormes
                             por teu sono vela

trazida de uma ilhota peruana
      e aqui no exílio da sua capela

      nossa senhora de copacabana

PoemasDeCopacabana2

COPACABANA
Vinicius de Moraes

Esta é Copacabana — ampla laguna
Curva e horizonte, arco de amor vibrando
Suas flechas de luz contra o infinito.
Aqui meus olhos desnudaram estrelas
Aqui meus braços discursaram a lua
Desabrochavam feras dos meus passos
Nas florestas de dor que percorriam.
Copacabana, praia de memórias!
Quantos êxtases, quantas madrugadas
Em teu colo marítimo! Esta é a areia
Que tanto enlameei com minhas lágrimas.
Aquele é o bar maldito. Não estás vendo
Aquele escuro ali? É um obelisco
De treva: cone erguido pela noite
Para marcar por toda a eternidade
O lugar onde o poeta foi perjuro.
Ali tombei, ali beijei-te ansiado
Como se a vida fosse terminar
Naquele louco embate. Ali cantei
À lua branca, cheio de bebida
Ali menti, ali me ciliciei
Para gozo da aurora pervertida.

PoemasDeCopacabana3

Sobre o banco de pedra que ali tens
Nasceu uma canção. Ali fui mártir
Fui réprobo, fui bárbaro, fui santo
Aqui encontrarás minhas pegadas
E pedaços de mim por cada canto.
Numa gota de sangue numa pedra
Ali estou eu. Num grito de socorro
Entreouvido na noite, ali estou eu.
No eco longínquo e áspero do morro
Ali estou eu. Tu vês essa estrutura
De apartamentos como uma colmeia
Gigantesca? Em muitos penetrei
Tendo a guiar-me apenas o perfume
De um corpo de mulher a palpitar
Como uma flor carnívora na treva.
Copacabana! ah, cidadela forte
Desta minha paixão! a velha lua
Ficava no seu nicho me assistindo
Beber e eu muita vez a vi luzindo
No meu copo de uísque, branca e pura
A destilar tristeza e poesia...
Copacabana! réstia de edifícios
Cujos nomes dão nome ao sentimento!...
Foi no Leme que vi nascer o vento
Certa manhã, na praia. Uma mulher
Toda de negro no horizonte extremo
Entre muitos fantasmas me esperava
A moça dos antúrios, deslembrada
A senhora dos círios, cuja alcova
O piscar do farol iluminava
Como a marcar o pulso da paixão
Morrendo intermitentemente. E ainda
Um brilhar de punhal, um riso acústico
Que não morreu. Ou certa porta aberta
Para a infelicidade: inesquecível
Frincha de luz a separar-me apenas
Do irremediável. Ou o abismo embaixo
Aberto, elástico, e o meu ser disperso
No espaço em torno, e o vento me chamando
Me convidando a voar... (Ah, muitas mortes
Morri entre essas máquinas erguidas
Contra o tempo!) Ou também o desespero
De andar, como um metrônomo, para lá
E para cá, marcando o passo do impossível
À espera do segredo, do milagre
Da poesia.

PoemasDeCopacabana4

Tu, Copacabana,
Mais que nenhuma outra foste a arena
Onde o poeta lutou contra o invisível
E onde encontrou enfim sua poesia
Talvez pequena, mas suficiente
Para justificar uma existência
Que sem ela seria incompreensível.

PoemasDeCopacabana5

POEMA DE COPACABANA
Nertan Macedo

(Mas há quem vele porque te ama,
Praia de cinza, violentada).
Copacabana de madrugada,
Abandonada a um mar cinzento;
Copacabana de madrugada
Exala um ar de indiferença.
Porque só nós estamos vendo
Copacabana abandonada,
Copacabana de madrugada:
Cinza espalhada num mar de cinza,
Cinza espalhada num mar de bruma,
Cinza cobrindo arranha-céus...
Copacabana está sozinha,
Violentada, prostituída,
Quem nesta hora te conhece
Sem riso, nua como uma noiva,
Lívida, triste, despenteada?
Vingo momentos de vã pureza,
Teu sol dourado, teu corpo branco,
Tuas manhãs mistificadas.
Copacabana de madrugada -
Tristeza, bruma, álgidos ventos... -
(Mas há quem vele porque te ama,
Praia de cinza, violentada).

PoemasDeCopacabana6

COPACABANA
Igor Fagundes

como se caminhasse rumo ao Leme
e viesse o sol pousar ao fim da tarde
na mochila, rumo à sede de entregá-lo
a algum poente que não fosse só miragem

aqui, onde há saudade em cada grão de areia
sobre os pés e a chamam dentro: maresia
de um menino cuja sombra traz o atlântico
de teu corpo – luz maior do que a avenida

aí, onde o verde dos olhos dita o trânsito
e um vento avança pelos lábios, sem buzinas
sem faróis, pois não há noite em céus da boca
e feito asfalto, é nossa pele a travessia

aqui, onde nas mãos terás copacabanas:
um forte ao fundo, a vista curva da varanda
a multidão em nós, teus fogos de artifício
o arpoador além do olhar, tramando abismos

como se nos bastássemos de morros, túneis
da Tonelero ao Rebouças, da Isabel ao Cantagalo
da tua voz ao meu chamado, este destino:
mochila aberta, entrego o sol ao teu caminho

PoemasDeCopacabana7

COPACABANA
Fernando Py

Mineral de tão ausência
paisagem retorno - areia
na palma da mão em concha
de onde escorre toda a infância
presa na praia perene
entre gritos e buzinas
e opressão de edifícios
sumida em crateras de asfalto

          desculpe o transtorno
         
estamos instalando o cérebro eletrônico

arrepio de tão moderno
castelos outrora
deserto de amor em selva maquinária
de onde escorre saliva de betume
cravo em cruz na crosta condenada
entre pés e pés — passeio destroço
no rio preto sempre interrupto e plão

          DESCULPE O TRANSTORNO
          ESTAMOS INSTALANDO
          O CÉREBRO ELETRôNICO

choque de dois habitando o mesmo corpo
épocas longes visitando a memória
mastro emergindo na onda primitiva
avião
brinquedo e criança na praia soterrados

          desculpe o transtorno

gravata e barba inúteis se acrescentam

PoemasDeCopacabana8

ao passado nos olhos
que água veem — colunas desabando
aos pés cuja nudez na areia se agasalha
e espuma nas mãos um pingo lasso
cola-se à pele — comunhão discreta

          estamos instalando o cérebro eletrônico

edifício em ruínas — sempre dois
brigando no corpo
presença do ontem nos gestos e na roupa
ciência maior e menos entregar-se
praia distante embora aqui
edifício em construção

                    crise
do ontem no hoje se expandindo

          desculpe o

as mesmas ondas onde? a pele primavera
onde? riso bebido em laranjada onde?
onde a lembrança mínima da praia?

          transtorno

caramujo inaudível ânfora da tarde
e a noite se avizinha apascentando

          estamos instalando

fios de essência ligam-se à medula
colorindo o princípio do velho
Copacabana pérola
          infinito
matemática

          o cérebro eletrônico

pesquisando a justeza das crateras
onde mais que todos mineral
isento de pureza e acalanto
o maduro obriga a infância a destruir-se.

PoemasDeCopacabana9

LUAR SOBRE COPACABANA
Celso Japiassu

Névoa e gás envolvem a lua,
paredes e muros de Copacabana.
Reflexos imitam a lua, deságuam
nas línguas negras,
são estranhos animais.

Invisível-indivisível, o corpo
anda: corpos velhos sob a lua.
Os velhos passam, não são vistos.
São peixes transparentes contra a água
de outros corpos na rua.

Entre o mar e os edifícios
o areal rompe as ondas,
suja os olhos e a boca,
constrói no ar seu roteiro.
Deixa traços no caminho.

Uma noite sem mistério
ou sonho. Um homem senta-se ao bar,
aspira o hálito do tempo,
bebe ao futuro. As horas,
uma a uma, desperdiçam seus sinais.

O movimento dos vultos,
cães silenciosos, homens apagados
misturados ao trânsito da noite.
O tempo espelha sua lâmina
no refluxo das águas.

O sereno, as sombras e o silêncio
juntam-se nas esquinas das ruas
e avenidas do Leme ao Posto Seis.
Transitam além dos olhos, na alma
que não consegue adormecer.

Há um território do sono
explorado pelo mar e seus ruídos,
habitação do medo, onde fantasmas
balbuciam sortilégios e os mortos
são aves recolhidas pelo vento.

PoemasDeCopacabana10
baconacapa
Cairo de Assis Trindade
(do livro Poezya que porra é essa?)

depois que eu descobri copacabana
esqueci a sonhada ida à grécia
o pôr de sol do sul na primavera
e o meu encanto por viver cigano

depois que eu conheci copacabana
desisti de ir pra lá de bagdah
pra paris ou qualquer outro lugar
mesmo que mais sagrado ou mais sacana

depois que mergulhei em suas águas
e me afoguei em sua noite insana
jamais voltei a ser o mesmo cairo

se me perdi nesta babel humana
quero morrer aqui em minha praia
e ir surfar no céu de copacabana

Fotos da Praia de Copacabana (em diferentes dias e horários) tiradas pelo editor do blog. Mas nem sempre o mar está calminho como nessas fotos; temos dias de mar nervoso também. Para ver nossas outras postagens sobre esse bairro carioca clique no marcador “Copacabana” abaixo.

28.2.09

A VISITA DO POETA

Crônica de Antônio Maria


Estatueta de Zé Andrade exposta na Modern Sound


Bar Garota de Ipanema (esquina das ruas Vinicius de Moraes e Prudente de Morais), onde Tom Jobim e Vinícius de Moraes se inspiraram para compor a música Garota de Ipanema

Cá está o poeta Vinicius de Moraes. Bebe, silenciosamente, um copo de cerveja, enquanto desenha.
— Vai falando, Poesia — digo-lhe, de vista baixa...
— Eu não — responde ele, de vista mais baixa ainda.
Vou desenhando e pensando. O que haverá com Poesia? Alguém judiou dele. Para ele estar assim...

Terá sido mulher? Sempre que o vi, estava feliz. Opulento, até. Na face, o seu saudável “rosa-colonial”. Hoje, até pálido ele está. Poucos sabem a extensão da maldade, quando se faz sofrer aos poetas. Aos poetas, não se pode negar nada. Tirar, muito menos. Principalmente a este, que é um franciscano. Vocês não sabiam? Vinicius de Moraes é franciscano, apenas está dispensado de usar o hábito porque todos o dispensam de fazer sacrifícios. O Itamarati, por exemplo, o dispensou de ir lá. Quando o ministro Hermes Lima precisa de alguma orientação, manda Lolô Bernardes telefonar e Vinicius instrui, pelo telefone. Na Casa de Rio Branco não se faz nada sem ouvir Vinicius de Moraes. Daí a mágoa de Pomona Politis, que se considera uma continuação e, às vezes, o próprio Barão do Rio Branco.

Mas, o que há com Poesia para estar ali sentado, sem um som, sequer o da respiração? Esse poeta arfava muito. Antigamente, a dois metros dele, era possível ouvir-se-lhe a arfância. E nunca foi de sentar muito tempo, a não ser se tivesse alguém no colo. No mínimo, uma criança. Também, não se pode dizer que tenha sido um poeta vertical; isto é, em pé. Na horizontal, com simples acenos, abalou montanhas, causou muita febre terçã, afundou navios e derrubou aeronaves. O Zepelin, não o bar, mas o Graf Zepelin pegou fogo por quê?

E hoje, cá está o poeta, de vista baixa, bebendo sua cervejinha, calado, de repente, como ele mesmo vaticinou, “não mais que de repente”. Poesia, que é da moça, que dizia à lua: “Minha carne é cor-de-rosa; não é verde como a tua.” Que é da mulher, que passou, com sete esperanças na boca fresca. Que é da outra, cujos cabelos rescendiam à flor da murta. E tu disseste, Poesia, gloriando a todas elas: “Tende piedade, Senhor, de todas as mulheres!”

Não queria ver o poeta assim, em minha casa. A cabeça pendida, o peito silencioso, a mão trêmula, erguendo o copo de cerveja... cerveja que sabe às amargas ingratidões. Quero-o, como antes, contando o abalo que causou em Ava Gardner, em Rosana Schiafino, na Soraya, na própria Edith Piaf, quando essas senhoras o viram pela primeira vez. Ava Gardner, coitada, ainda era virgem e ficou de tal maneira perturbada que se casou com Mickey Rooney.

Uma vez, no Louvre, diante da Gioconda, eu lhe disse, muito a sério:
— Vamos sair daqui, Poesia, que essa mulher vai se descontrair e cair na gargalhada.


Bar Vinicius, em frente ao Garota de Ipanema


Toca do Vinicius, na rua Vinicius de Moraes

Crônica extraída da antologia Seja feliz e faça os outros felizes organizada por Joaquim Ferreira dos Santos e publicada pela Civilização Brasileira. Clique no marcador "Vinicius de Moraes" abaixo para ver outras aparições de Vinicius no blog.

16.5.08

COPACABANA



Textos do Guia Michelin, Vinicius de Moraes, José Carlos de Oliveira, Sérgio Sant'Anna e Antônio Torres
Fotos de Ivo & Mi (exceto a foto do obelisco comemorativo da inauguração da Avenida Atlântica acima, da década de 1920)

Tu, Copacabana,
Mais que nenhuma outra foste a arena
Onde o poeta lutou contra o invisível
E onde encontrou enfim sua poesia
Talvez pequena, mas suficiente
Para justificar uma existência


Que sem ela seria incompreensível.

(Vinicius de Moraes)



Nossa Senhora de Copacabana
(réplica da imagem boliviana, no museu do Forte de Copacabana)

Em meados do século XVII, a área, que englobava também Ipanema e a Lagoa, era conhecida pelos índios como Sacopenapan, formada por um extenso areal, cercado por verdes montanhas, alagadiços e brejos, coberto por palmeiras, cactos, bromélias, pitangueiras, araçazeiros e cajueiros. Apenas se registravam a presença de humildes pescadores, de postos militares estratégicos para a defesa da cidade, situados nas extremidades da praia, e a Igrejinha de Nossa Senhora de Copacabana, que deu origem ao nome do bairro.

A história da devoção a Nossa Senhora de Copacabana, cuja imagem representa Nossa Senhora da Candelária, começou nas antigas colônias espanholas, mais precisamente na região atual da Bolívia, numa aldeia chamada Copacabana, às margens do Lago Titicaca. Em vista da fama milagrosa da virgem, comerciantes peruanos, bolivianos e portugueses teriam trazido para cá, no século XVII, uma cópia da imagem primitiva. Não se sabe ao certo a data da construção da capela no promontório rochoso que separa a Praia de Copacabana da Praia de Ipanema; contudo, em 1746, foi construída, no mesmo local, uma igreja maior, fruto do agradecimento do Bispo D. Antonio do Desterro, por uma graça recebida durante uma terrível viagem. No início do século XX, a antiga Igrejinha de Nossa Senhora de Copacabana foi destruída para dar lugar ao Forte de Copacabana. (Extraído do Guia Michelin do Rio de Janeiro.)


Casarão em estilo alemão, no início da Rua Santa Clara, que pertenceu a Pedro Calmon (a escadaria à esquerda dá acesso à Favela do Morro dos Cabritos)

Durante todo o século XIX os acessos à região eram nada convidativos: um caminho que partia da Rua Real Grandeza, em Botafogo, cruzava o Morro da Saudade e descia pela atual Ladeira dos Tabajaras; uma trilha pela atual Ladeira do Leme; ou ainda a possibilidade de contornar a Lagoa e o litoral de Ipanema e do Arpoador. Somente nos últimos anos do século XIX a primeira linha de bondes, com tração animal, chegou à praia, depois de aberto o Túnel Velho (1892), ligando Botafogo a Copacabana, e viabilizando o início da ocupação do bairro. Pouco tempo depois, o prefeito Pereira Passos, responsável por uma política de modernização e higienização da capital da República, trouxe à área benefícios, como o Túnel Novo, a Avenida Atlântica e a eletrificação dos bondes.

As poucas e simples construções, do início do século XX, logo foram substituídas por suntuosos palacetes, que, de estilo eclético, representavam o que de mais moderno existia [pouquíssimos sobrevivem em meio aos prédios – ver fotos nesta postagem]. Com a inauguração do Hotel Copacabana Palace, em 1923, a fama do bairro espalhou-se rapidamente e o seu crescimento, em ritmo acelerado, passou a ficar marcado pela presença dos então chamados “arranha-céus”, que variavam de 4 a 12 andares. [...] Após os anos 50, o bairro perderia seu ar aristocrático pela multiplicação dos grandes prédios de pequenos apartamentos, os chamados "conjugados". (Extraído do Guia Michelin do Rio de Janeiro.)


A bandeira brasileira


Hotel Copacabana Palace


Árvore e prédio


Grafites


Mais grafites


O trânsito


Os prédios e o verde


O Cristo visto da praia

Nisto, entramos numa rua de Copacabana e ele mandou parar. Pagou e descemos. Abriu a porta de um prédio e entramos. Subimos ao sétimo andar. Abriu uma porta e entramos. Acendeu a luz e fechou a porta com a chave e um trinco. Enfiou a chave no bolso da calça. Dei logo uma geral no ambiente. Que diferença do barraco lá do morro! Era um verdadeiro apê, todo mobiliado. Sentamos numa poltrona, e aí ele tirou os óculos, guardou no bolsinho do paletó, olhou bem para mim e disse: “Agora olha a minha boca”. Quando arreganhou os beiços, vi dois dentes de outro brilhando na frente, do lado de cima. “Que tal?” Eu disse que tava legal...

(José Carlos de Oliveira, Terror e Êxtase)


E la nave va...


Carlos Drummond de Andrade


Quiosque


"As Garotas de Copacabana"


Estátua viva


Escultura de areia

Copacabana é um bairro surpreendente. Você está no meio daquela zona toda e, de repente, vira uma quebrada à direita, sobe uma ladeira, e logo a paisagem mudou.

Do lado esquerdo da rua, havia os prédios de sempre, mas do lado direito era puro mato, uma pequena floresta num morro. Era ali em frente que Miss Simpson morava.

Não foi preciso nem representar: eu era mesmo um tímido em pânico, apertando a campainha do 501 com meu livrinho de inglês debaixo do braço. E se tudo não passasse de um trote do pessoal?

Fui recebido por um sorriso luminoso e puxado pelo braço até uma varanda com vista para aquela floresta tropical. Estaria num sonho outra vez? Ouvia-se o trinar dos mais variados espécimes de pássaros, o cantar das cigarras, o zumbir de outros insetos, o guinchar dos...

—Monkeys, little monkeys — esclareceu Miss Simpson...


(Sérgio Sant'Anna, A Senhorita Simpson)


Vendedor de castanhas de caju


Pessoas passeando no calçadão e na pista da Avenida Atlântica junto à praia, interditada aos carros nos domingos e feriados



Contraste: Favela Pavão Pavãozinho vista da Rua Raul Pompeia


Crianças brincam no Forte de Copacabana (observe a favela Pavão-Pavãozinho atrás dos prédios)

Copacabana, eu te amo mesmo assim. Você me adormece com os embalos do baile no morro e me desperta ao som das suas rajadas de balas.

De vez em quando soltam foguetes no morro ao pé da minha cama, no meio da noite, para avisar que a cocaína já chegou. Digo: a mercadoria, a encomenda. Por favor, não tive nenhuma intenção de te delatar. Não sou nenhum alcagüete, sabia? Francamente, detesto o barulho dos helicópteros nos meus ouvidos. Sei que é a polícia tentando participar da tua festa, para pegar um brilho.

Mas você é muito espalhafatosa, querida. Exibida demais.

Estilhaços sobre Copacabana. Copacabana me engana. Mas eu sou um superbacana. Moro em Copacabana.

De minha janela não vejo o Corcovado e o Redentor, que lindo.
(Antônio Torres, Um Táxi para Viena d'Áustria)


Copacabana pós-moderna


Tonelero com Figueiredo de Magalhães


Idem


Av. Nossa Senhora de Copacabana


Praia de Copacabana (foto tirada, em dia de mar calminho, no Posto 6)


Praia cheia num dia de sol


Entardecer na praia


A praia (com o Pão de Açúcar no fundo) vista da Colônia de Pescadores no Posto 6


A praça, os ipês floridos, os prédios (Bairro Peixoto)


Casarão na Rua Sousa Lima (por quanto tempo ainda ficará de pé?)


Outro casarão, na esquina da Rua Cinco de Julho com Dias da Rocha (quem é observador ainda encontra vários casarões em meio aos prédios de Copacabana)


A Help, grande templo do turismo sexual, está com os dias contados


Surfo, logo existo


Homenagem ao frescobol: "Esporte inventado no Brasil nos anos 50, entre os postos 4 e 6, único esporte com espírito esportivo, sem disputa formal, vencidos ou vencedores" (Millôr Fernandes)



Minha rua

Postagem originalmente publicada em março de 2007 agora acrescida de fotos novas e de trecho do poema Copacabana de Vinicius. Saiba tudo que rola por Copacabana visitando o blog Avenida Copacabana, do meu amigo Jôka, e o site Copacabana.com