ENSEADA DE BOTAFOGO

ENSEADA DE BOTAFOGO
"Andar pelo Rio, seja com chuva ou sol abrasador, é sempre um prazer. Observar os recantos quase que escondidos é uma experiência indescritível, principalmente se tratando de uma grande cidade. Conheço várias do Brasil, mas nenhuma tem tanta beleza e tantos segredos a se revelarem a cada esquina com tanta história pra contar através da poesia das ruas!" (Charles Stone)

VISTA DO TERRAÇO ITÁLIA

VISTA DO TERRAÇO ITÁLIA
São Paulo, até 1910 era uma província tocada a burros. Os barões do café tinham seus casarões e o resto era pouco mais que uma grande vila. Em pouco mais de 100 anos passou a ser a maior cidade da América Latina e uma das maiores do mundo. É pouco tempo. O século XX, para São Paulo, foi o mais veloz e o mais audaz.” (Jane Darckê Avelar)

19.4.19

QUERO MORRER NO BRASIL de ANTÓNIO DE ALCÂNTARA MACHADO

TEXTO INÉDITO DURANTE A VIDA DO AUTOR, PUBLICADO NA EDIÇÃO ESPECIAL DA REVISTA O CRUZEIRO, DE 2 DE ABRIL DE 1938, DEDICADA A SÃO PAULO



António de Alcântara Machado é o escritor quintessencialmente paulistano. Mais de uma tese de mestrado foi apresentada associando-o à cidade da garoa. Por exemplo, Isabel dos Santos Silva, em sua dissertação “Brás, Bexiga e Barra Funda, de Alcântara Machado: uma narrativa-registro da cidade de São Paulo”, caracteriza-o como “um prosador da cidade com alto grau de paulistanidade. De fato, ele ambienta a maior parte de sua narrativa na cidade e expressa de maneira confessional o seu sentimento por São Paulo.” Assim sendo, ao iniciar minha nova vida paulistana, nada mais lógico que eu me debruçar sobre sua obra de ficção (reunida no livro Novelas Paulistanas), infelizmente curta, já que sua vida foi tolhida em plena ascensão.


António de Alcântara Machado, apesar da breve existência, deixou sua marca na literatura de viagem, na crítica teatral, no movimento modernista, na Revolução Constitucionalista (como pioneiro da propaganda política pelo rádio), na própria política. Em Brás, Bexiga e Barra Funda, traz para a literatura brasileira os imigrantes e filhos de imigrantes italianos que viviam nesses bairros, dando-lhes “voz e vez”, como observa Isabel dos Santos Silva.

Em Laranja da China apresenta uma série de figuras humanas com designativos alusivos a grandes personalidades da história (“O Filósofo Platão”, “O Revoltado Robespierre”), mas que não passam de gente comum, do cotidiano (Senhor Platão Soares, Senhor Natanael Robespierre dos Anjos). Nessa obra mostra-se um mestre da técnica do “tempo retardado”, que é uma espécie de “câmera lenta” da literatura, em que o autor detém a passagem do tempo e descreve os mínimos detalhes. 

O texto a seguir, escrito na Europa em 1929, permaneceu inédito durante a vida do autor. Uma reflexão altamente filosófica sobre a “indesejada das gentes”. Intitulado “Quero Morrer no Brasil” foi oferecido pelo pai do autor para ser publicado na edição especial da revista O Cruzeiro de 2 de abril de 1938 dedicada a São Paulo.



Não quero morrer na Europa. Quero ir morrer no Brasil, na Cidade de São Paulo, numa manhã bem quente. Sobretudo quero morrer de chapéu na cabeça. Quem morre de chapéu na cabeça mostra que não tem respeito medroso pela morte. É camarada dela. O contínuo Serafim costuma dizer com muita admiração na porta do palácio presidencial: “este deve ser grosso, entra de chapéu na cabeça”. Os que, subindo as escadas, já vão tirando o chapéu, esses são pedintes, são subalternos, vão ser desiludidos ou humilhados.

Eu não. Eu, na manhã bem quente, me aprontarei, sairei de casa andando firme, desejarei bom dia aos conhecidos da rua Ana Cintra, entrarei no largo de Santa Cecília e, em frente da igreja, no meio do largo, subirei no refúgio [=pequeno passeio para pedestres, no meio de ruas ou praças movimentadas - Houaiss], encostando-me no lampião esgalhado. Nos braços do lampião verde eu serei amparado quando chegar o momento. Como já disse: subirei no refúgio. Trinta centímetros sobre o nível dos paralelepípedos. Porém, nesse instante, trinta centímetros serão uma altura vertiginosa. Eu me sentirei no alto, mas muito no alto. São Paulo então não abandonará seu filho. Com cheiro de gasolina, com fumaça de fábrica, com barulho de bondes, com barulhos de carros, carroças e automóveis, com barulho de vozes, com cheiro de gente, com latidos, cantos, pipilos e assobios, com barulho de fotógrafo [sic na publicação em O Cruzeiro, embora em reproduções posteriores conste "fonógrafo"], com barulho de rádio, campainhas, buzinadas, com cheiro de feiras, com cheiro de quitandas, todos os cheiros, e também barulhos da vida. São Paulo encherá o silêncio da morte. Porque não se deve esperar a morte deitado na cama, de cara amarela, de olhos fechados, entre remédios e lágrimas. Não é visita de médico. A morte não gosta da morte. A morte só gosta da vida. A morte chega no momento justo em que o homem vai perder a vida para não deixar o homem morrer: para dar vida eterna para ele. A morte é que imortaliza. Ela salva o homem que o mundo quer matar. Livra o homem do mundo. Isso é insincero. Eu quero bem ao mundo. Porém, quero mais à morte porque eu não conheço nada dela e por isso posso esperar tudo dela. Quero passar de um amor menor para um amor maior e sou humano enfeitando o que virá com bobagens, lugares-comuns. E não há maneira de caminhar sem dar as costas ao que se deixa. A lembrança do passado não existe porque passado lembrado é passado presente. Não é passado. Logo, e em rigor, este não existe. Lembrado, é presente e se liga ao futuro. Esquecido não é nada. Dos inumeráveis que eu fui sucessiva e simultaneamente, coisa nenhuma resta. No único que eu sou agora (formado por eles) eles desapareceram. E eu sou a fusão depurada de todos para durar na morte, entrar e permanecer uno na morte.

A gente cai na vida que nem semente na sementeira: para ganhar forma. Desenvolvida, é transportada. Vai florir em outro lugar. Por isso é que se põem flores nos caixões e nos túmulos. É uma precaução piedosa: poderão servir para o defunto se os botões dele não vingarem. Casaca emprestada para o amigo figurar no baile. Dizem para o defunto: – “Em todo caso, leve estas para garantia.”

Para o amigo figurar no baile. Baile mesmo. Há um momento em que o homem enxerga dentro da morte como o convidado costuma espiar o salão antes de entrar. Às vezes espia e não entra: – o traje é de rigor. Volta para casa. Vai se preparar melhor. São os arrependimentos de última hora. Umas palavras, nem isso, um pensamento desmentido, corrigindo uma vida inteira, porque o homem verificou que não estava bem preparado para entrar na morte. Preparara-se depressa para não perder o baile da morte, sem fazer feio nele. Eu entrarei de chapéu na cabeça. Direi: – Ó, não sabia que havia festa. E o meu desembaraço será tão grande que ninguém atentará na minha deselegância.

Centro paulistano (Viaduto Santa Ifigênia) na década de 1920. Fonte: Biblioteca Nacional Digital.

4.4.19

UM CARIOCA EM SÃO PAULO: PRIMEIRAS IMPRESSÕES

Anhangabaú

Depois de uma obra que deveria ter demorado dois meses e acabou se arrastando por sete; depois de duas estadias preliminares breves na casa nova a fim de me acostumar, no Natal e Carnaval; depois de fazer a triagem do que levar agora para Sampa, dentre um mar de livros, discos e outros objetos (a gente vai acumulando coisas no decorrer da vida, embora da vida nada se leve); depois de selecionar uma empresa de mudança que fosse ao mesmo tempo confiável (pelas avaliações na Internet) e não excessivamente cara (escolhemos a Pena Verde, que prestou um excelente serviço e entregou tudo intacto); depois de enfrentar a bagunça da rodoviária, onde o ônibus da Kaiçara que deveria sair às 15 horas não deu as caras e tive que pedir o dinheiro de volta e comprar passagem de outra companhia (1001); depois de encarar um baita engarrafamento na saída do Rio e o medo de chegar em Sampa depois do encerramento do metrô; e após dois dias abrindo os caixotes da mudança e arrumando coisa por coisa; depois de tudo isto, eis que começamos a vida nova no nosso lar doce lar paulistano.

Céu paulistano ao entardecer

O leitor dessas minhas mal traçadas linhas talvez se pergunte como é que um carioca da gema, com seis décadas e meia (e mais uns quebrados) de carioquice, editor do melhor blog sobre a Cidade Maravilhosa, consegue trocar uma urbe famosa pela beleza natural, alegria de viver (e altos níveis de criminalidade) por outra tão diametralmente oposta, onde em certos pontos você vê prédios a 360 graus, na frente das casas em vez de jardins você tem garagens e a praia mais próxima está a 76 quilômetros de distância? Na medida em que acompanhar minhas postagens paulistanas no blog você vai compreender aquilo que parece incompreensível.

"Minhocão" na Estação Sé do metrô

Antes de mais nada, para entender Sampa é preciso conhecer sua história. Planejo comprar e ler os elogiados livros do Roberto Pompeu de Toledo a respeito. Por ora sou socorrido pela amiga Jane Darckê Avelar que me proporcionou esta síntese:

Leve em conta que São Paulo, até 1910 era uma província tocada a burros. Os barões do café tinham seus casarões e o resto era pouco mais que uma grande vila. A Vila de Piratiningá (os índios falavam assim, oxítona). E então começaram as grandes chegadas de imigrantes, de vários lugares, credos e etnias. Italianos, espanhóis, mais portugueses, Árabes, turcos, judeus, japoneses, gregos, e mais alguns. Nos anos 60, começaram a chegar em massa, nordestinos e novos africanos. E nos anos 70, chineses e coreanos. Se esqueci algum grupo, perdão!

Em pouco mais de 100 anos passou a ser a maior da América Latina e uma das maiores do mundo. É pouco tempo. O século XX, para São Paulo, foi o mais veloz e o mais audaz.

Zona Leste

Aos curiosos que querem saber onde estou, saibam que troquei o charmoso bairro carioca de Copacabana, internacionalmente famoso, por um bairro menos badalado, Jardim Artur Alvim, numa zona considerada menos nobre, Zona Leste, de uma das maiores megalópoles da face da Terra.

Um parêntese: conquanto eu vivesse uma vida inteira no Rio, São Paulo não é uma cidade estranha para mim. Minha vovó morava aqui, minha titia morava aqui, desde criança eu vinha para cá, passava férias aqui. Quando trabalhei na extinta Rede Ferroviária passei um mês implantando um sistema aqui. Alguns anos atrás fiz uma viagem turística para cá que está relatada no meu blog Sopa no Mel. Meu romance Passaporte para o Paraíso lancei também aqui. Tenho um irmão morando aqui. Tenho amigos aqui, um deles da pré-adolescência. São Paulo não é uma cidade totalmente estranha para mim.

Ademais, aqui moro numa casa sossegada com um quintal onde, como no final famoso da novela Cândido de Voltaire, vou cultivando o meu jardim (literalmente). Até coloquei uma “cadeira de praia” no quintal para pegar sol e vou aprender a preparar churrasquinhos naquelas churrasqueiras de “pobre” que você vê pelas ruas cariocas (aliás, domingo, vi uma delas numa rua aqui do bairro).

Grafite

Na primeira semana paulistana fiz o reconhecimento da área no entorno da minha casinha. No Rio eu tinha o  costume (por recomendação médica) de realizar uma caminhada diária de uma hora, normalmente em Copacabana. Aqui, com apoio logístico do Google Maps, descobri uma “mancha verde” perto de minha casa num altinho de morro com um condomínio de prédios muito bem ajardinado, uma pracinha em aclive com escadaria e vista para a paisagem paulistana... e como paulistano só anda de carro, pouca gente na rua, trechos até ermos!

Um desafio da adaptação é descobrir onde comprar as coisas. Em Copacabana eu tinha todo o comércio do mundo relativamente perto de meu apê. Aqui, um bairro mais popular, já não conto com essa fartura de lojas, mas explorando, procurando, consultando minha esposa que é daqui, vou descobrindo onde fazer as compras. Tem a feira semanal nas quintas que já é uma mão na roda, e onde vendem um pastel e caldo de cana com limão que já faz valer a pena ir lá. Tem um Carrefour enorme em Guilhermina-Esperança. Tem o Negreiros a um quilômetro daqui. Tem o Assaí, atacadista, com preços ultracamaradas, a uns dois quilômetros daqui. E no alto do meu morrinho de estimação tem um Mini Extra pequeno mas jeitoso.

São Paulo histórico

Outro problema de adaptação é a reciclagem. Em Copacabana tínhamos a coleta seletiva do lixo reciclável. Aqui na Zona Leste não temos, mas não consigo conceber a ideia de que minhas latinhas e garrafas de cerveja e papelões e plásticos vão parar num reles lixão em meio à sujeirada orgânica. Descobri também naquele meu querido morrinho um ecoponto (Ecoponto São Nicolau, consta do Google Maps) que recolhe recicláveis. Regularmente no meu passeio diário levo lá minhas latinhas, garrafas etc.

Grade

Agora vou contar uma historinha. No Supermercado Negreiros, onde fui comprar uns hortifrutis, chego no caixa com o carrinho de compras repleto de berinjela, abobrinha, abóbora, aipim etc., e uma gentil freguesa avisa que é preciso pesar primeiro. Vou lá eu pesar a mercadoria. É preciso ensacar item por item, cada coisinha individual, informa o funcionário. Um desperdício de sacos plásticos que, se não forem devidamente reciclados, vão emporcalhar a natureza. Na hora de pesar o aipim, o funcionário, em dúvida, pergunta:
– É cará?
– Não, aipim.
Ele me olha com uma cara espantada. Repito:
– Aipim.
Ele examina melhor a tuberosa e enfim diagnostica:
– Mandioca!
Observo que no Rio a gente chama aquilo de aipim (no nordeste é macaxeira). Ao que ele me pergunta:
– O senhor é do Rio? Lá é muito violento!
Esta é a fama que temos. E ele me conta que, certa vez, ainda rapaz, foi em excursão para um encontro evangélico no Maracanã. Mas em vez de ir ao evento, “fugiu” para conhecer a cidade. Foi até a Praia do Flamengo. Perguntei:
– E Copacabana, não foi?
– O dinheiro não deu.
Sugeri que, “agora que você tem o dinheiro”, voltasse ao Rio.
– Agora é que não tenho dinheiro mesmo.

"uma pracinha em aclive com escadaria e vista para a paisagem paulistana"

Embora a imagem que se tem daqui via noticiários seja de um perpétuo engarrafamento (assim como a imagem que se tem do Rio é de assaltos seriais), observei que, o fato é que, fora do pico (rush), o transporte público funciona otimamente. Ao contrário do Rio, onde os ônibus param numa infinidade de pontos e sinais de trânsito ou mesmo fora do ponto e no BRT você viaja como sardinhas em lata (parece que os empresários fazem de propósito para maximizar o lucro minimizando o conforto), aqui em Sampa ônibus articulados, amplos, com ar-condicionado, percorrem distâncias enormes em corredores especiais com incrível eficiência. E afora a hora do rush eles não lotam, você viaja sentado. Enquanto no Rio as linhas de ônibus se sobrepõem às de metrô (você pode ir de Copa à Tijuca ou à Barra de metrô ou de ônibus), em Sampa existe uma racionalidade: as linhas de ônibus complementam as do metrô, atendendo as áreas não cobertas pela malha metroviária ou ferroviária.

No metrô (Linha Vermelha que vai para meu bairro)

Contribui para a mobilidade (e isso a mídia não mostra, pois só foca os engarrafamentos do rush) o fato de Sampa ter crescido realmente a partir do século XX e com isso terem sido planejados e rasgados amplos corredores de avenidas interligando praticamente a cidade inteira.

Também você consegue carregar seu cartão de transporte facilmente, existe fartura de maquininhas nas estações de metrô, não é como no Rio que as máquinas são parcas e sempre com grandes filas.

A topografia aqui é ondulada, você sobe, desce, sobe desce, por isso o projeto de ciclovias do Haddad gorou. E nas subidas, as calçadas não acompanham o aclive da rua. São escalonadas (em escadinha), por causa das saídas das garagens. Não acostumado com essa irregularidade, no primeiro dia dei uma topada num desses degraus e quase me espatifei. O Rio, por outro lado, é plano, mas pontilhado de montanhas.

O aprazível bairro Chácara Santo Antônio, verdadeiro jardim botânico

Existem bairros nobres que são verdadeiros jardins botânicos, tamanha a profusão de árvores, arbustos, flores, trepadeiras, não só aquelas plantadas pela Prefeitura, mas também pelos proprietários nas calçadas em frente aos seus casarões. Apaixonamo-nos pela Chácara São João, onde fomos resolver um problema na NET. Com bairros aprazíveis assim quem é que precisa de praia? (Mas o paulistano parece que precisa, porque nos feriadões enfrenta engarrafamentos colossais para chegar ao litoral.)

Algumas ruas paulistanas têm nomes poéticos como Rua Borboletas Psicodélicas (não é delírio, pode procurar no Google Maps), Rua Caçada Real, Rua Sonho Gaúcho (por onde passo para fazer compras no Assaí), Rua Verbo Divino, Rua Esperantina etc. Pelo que li, certa vez a Prefeitura, ante o desafio de nomear um sem-número de ruas, formou uma comissão para criar um banco de nomes, missão essa cumprida com real criatividade. Achei até uma rua com o nome do matemático francês que morreu jovem num duelo, cuja história meu falecido amigo matematófilo Márcio Steinbruch adorava contar: Evariste Galois.

Neocolonial em Sampa: Escola Pueri Domus

O atendimento nas lojas aqui dá de dez a zero no carioca: numa lanchonete, numa loja, você é atendido com cortesia. No Rio depara com frequência com atendentes de cara amarrada ou em pleno papo, e você tem que esperar que terminem a importante conversa para ser atendido. Não sei se é treinamento, se é cultura, mas aqui a gente se sente um pouco mais perto do Primeiro Mundo. Basta dizer que ninguém entra no ônibus pela porta de saída sem pagar, nem tem assalto a mão armada em ônibus.

No pico o metrô superlota, mas em certas estações do Centro (Sé, República) chegam regularmente metrôs vazios, evitando aquela empurração generalizada da linha 2 do metrô carioca.

Uma diferença a favor de Sampa é que aqui, embora alguns dias possam ser quente, à noite a temperatura cai. No verão carioca são trinta graus dentro de casa dia e noite.

Um ponto a favor dos cariocas é que aqui os logradouros públicos são mais emporcalhados: não sei se o carioca é mais limpo ou a Comlurb é mais eficiente do que sua congênere paulistana. Na Zona Leste vejo muito cocô de cachorro nas calçadas. No Rio, pelo menos em Copacabana, os donos recolhem os dejetos de seus cãezinhos.

Assim vão transcorrendo minhas plácidas primeiras semanas paulistanas, cidade com bairros étnicos, boa gastronomia, profusas atrações culturais, a melhor orquestra sinfônica do país e o segundo melhor museu de arte do hemisfério sul do planeta (o primeiro está em Buenos Aires).


Painel de azulejos do Vale do Anhangabaú em 1892 do Atelier Artístico Moral que encontrei num bar na Rua Juazeiro do Norte, perto de minha casa

Shopping, programa quintessencialmente paulistano

11.3.19

SÃO PAULO: MINHA MUDANÇA & PRIMEIRAS FOTOS


Tendo morado desde minha vinda ao mundo, em 1951, ininterruptamente no Rio de Janeiro (com eventuais viagens a serviço ou lazer para outras paragens), questões familiares me levam agora a mudar, no dia 15 de março de 2019, para São Paulo. Vou morar numa casinha num bairro modesto, Jardim Artur Alvim, da Zona Leste (se você não sabe onde é a Zona Leste, o bairro mais famoso de lá, que você decerto conhece, é Tatuapé), que corresponderia a um subúrbio carioca, mas com transporte público bom e um pouco mais de segurança (quanto mais vou descobrir). Mas uma vez por mês virei ao Rio. O blog, portanto, passa a alternar postagens sobre a Cidade Maravilhosa e a Cidade da Garoa, o maior polo industrial "alemão" do mundo – com maior concentração de indústrias alemãs do que qualquer cidade da Alemanha (ver aqui). Após ter captado por década e meia (desde a criação do blog) a alma carioca, agora encaro o desafio de procurar, em meio ao mar de prédios & casas (porque em Sampa pra qualquer lado que você olhe – norte, sul, leste, oeste – vê prédios e mais prédios ou casas e mais casas), a poesia, a beleza, o colorido, o pitoresco, a cultura, os tipos humanos etc. (porque mazelas, sejam cariocas, sejam paulistanas, deixo para os outros abordarem, e o fazem muito bem) desta que é uma das maiores metrópoles do planeta. Para ver exclusivamente as postagens sobre Sampa, clique em São Paulo no menu superior ou no menu da barra vertical direita. E deixe suas impressões na seção de comentários.

As fotos foram tiradas: 1) Em 2017 quando lancei meu Passaporte para o Paraíso também em Sampa; 2) Em 2018 quando viajei várias vezes a Sampa a fim de acompanhar as obras de minha nova casa. Estão aqui numa ordem aleatória, não cronológica.


Madrugada na Liberdade

Liberdade cedinho (seis e meia)

O editor do blog num Starbucks de shopping

Moto e carro

Grafite

Morumbi

Vista da Estação Artur Alvim

Cores

Catedral Metropolitana Ortodoxa

Catedral Metropolitana Ortodoxa

Hospital Santa Catarina

Carros

Vista

Reflexos

Antiga mansão de 1905 do barão do café Joaquim Franco de Mello, uma das poucas remanescentes na Avenida Paulista

MASP

Parque Trianon: oásis paulistano

O legítimo Bauru do Ponto Chic

1.3.19

PARABÉNS PRA VOCÊ, MEU RIO DE JANEIRO, de HELIO BRASIL

TEXTO PUBLICADO ORIGINALMENTE UM ANO ATRÁS (1/3/18) NO ENTÃO RECÉM-RESSUSCITADO JORNAL DO BRASIL


Nossos antepassados lusitanos chegaram ao Brasil – todos nós sabemos – em 1500, em Porto Seguro, na Bahia. Em virtude da grande extensão da costa e da pilhagem realizada pelos europeus de olho nas novas terras, adivinhadas ricas e generosas, somente em 1531 Martim Afonso de Sá por aqui passou deixando o porto, na suposta foz do Rio de Janeiro, bem abrigado pelo generoso desenho da Guanabara.

Ansiosos pela conquista de novos territórios, os franceses invadiram o Rio em 1555 e aqui se instalaram militarmente, entrincheirados na hoje conhecida Ilha do Governador – então Paranapecu.

A vinda de Mem de Sá, trazendo o braço guerreiro de seu sobrinho Estácio e à frente de exércitos organizados e armados, apoiados pelos guerreiros de Arariboia, foi decisiva para a reconquista. A fundação propriamente (data que hoje se comemora) foi no dia 1º de março de 1565, ao pé do morro Cara de Cão, juntinho ao nosso querido Pão de Açúcar. Perito na arte militar, Estácio decidiu deixar o local e instalar estrategicamente suas tropas no alto do morro do Castelo, elevação histórica que abrigou o forte lusitano, a Igreja de São Sebastião (nosso padroeiro) e o Colégio dos Jesuítas, marcos infelizmente desaparecidos quando em 1920-22 o morro foi arrasado.

Os franceses foram finalmente expulsos e, com relativa tranquilidade, os donos da terra desceram para a várzea iniciando a ocupação gradativa do território. E o Rio expandiu-se, apesar dos descuidos de seus habitantes e alguns predadores, venceu os pântanos que o cercavam, impondo novos traçados aos muitos cursos d’água e ganhando território para a população que pouco a pouco deixava o reino lusitano para trás. Historiadores poderão dizer quando foi que os cariocas – com a graça dos santos e dos deuses vindos da Europa, da África, e aqui mesclados aos caboclos indígenas – passaram a dar o colorido às festas e aos costumes, bem emoldurados por uma natureza luminosa.

Ao longo das sucessivas escaladas históricas para a Independência, passando dos vice-reis à corte Joanina nas mãos de um monarca bonachão e sagaz, D. João, das tiradas autoritárias de um Pedro I ao seu professoral filho que entregou mansamente a coroa aos republicanos, o Rio avançou (de certa forma à frente do Brasil) e o reflexo disto foi o despontar urbano com o prefeito Francisco Pereira Passos ao abrir a Avenida Central no início de 1900.

Planos urbanos como os de Agache, de Dodosworth e, mais recente, o de Doxiadis no rápido momento em que a cidade do Rio de Janeiro tornou-se um estado da federação, transfiguraram a metrópole, que nos dias de hoje, depois de ter voltado à condição de município, tenta reencontrar a sua aura de “Maravilhosa”. Já no século XX, muitos foram os arquitetos e urbanistas que a amavam e se propuseram a engrandecê-la: Afonso Reydi e Roberto Burle Marx, projetando e deixando florir o chamado Parque do Aterro do Flamengo, Luís Paulo Conde e tantos outros, arquitetos e urbanistas, sociólogos e antropólogos, deixam transparecer a preocupação com seus destinos de urbe tropical.

Que a data que se comemora – gravada neste retorno auspicioso do nosso JB – inspire uma retomada decisiva.

Quando os guerreiros lusitanos venceram os invasores, o mar de Uruçumirim (hoje, uma nesga no Flamengo na foz do rio Carioca) tornou-se vermelho com o sangue dos combatentes. Respeitando tal sacrifício, vamos, cariocas de hoje, lutar não mais de forma sanguinolenta, mas com o coração e a cabeça para reconstituir a cidade que decididamente ainda é MARAVILHOSA!


HELIO BRASIL – arquiteto – março de 2018.

8.2.19

AS ENCHENTES


A GRANDE ENXURRADA DE HOJE. Manchete na terceira página da edição de 19 de janeiro de 1915 do jornal Correio da Noite. Nesse mesmo dia Lima Barreto publicou na primeira página do mesmo jornal o artigo AS ENCHENTES abaixo. 


AS ENCHENTES, texto de LIMA BARRETO publicado no Correio da Noite de 19 de janeiro de 1915

As chuvaradas de verão, quase todos os anos, causam no nosso Rio de Janeiro, inundações desastrosas. 

Além da suspensão total do tráfego, com uma prejudicial interrupção das comunicações entre os vários pontos da cidade, essas inundações causam desastres pessoais lamentáveis, muitas perdas de haveres e destruição de imóveis.

De há muito que a nossa engenharia municipal se devia ter compenetrado do dever de evitar tais acidentes urbanos.

Uma arte tão ousada e quase tão perfeita, como é a engenharia, não deve julgar irresolvível tão simples problema.

O Rio de Janeiro, da avenida, dos "squares", dos freios elétricos, não pode estar à mercê de chuvaradas, mais ou menos violentas, para viver a sua vida integral.

Como está acontecendo atualmente, ele é função da chuva. Uma vergonha!

Não sei nada de engenharia, mas, pelo que me dizem os entendidos, o problema não é tão difícil de resolver como parece fazerem constar os engenheiros municipais, procrastinando a solução da questão.

O Prefeito Passos, que tanto se interessou pelo embelezamento da cidade, descurou completamente de solucionar esse defeito do nosso Rio.

Cidade cercada de montanhas e entre montanhas, que recebe violentamente grandes precipitações atmosféricas, o seu principal defeito a vencer era esse acidente das inundações.

Infelizmente, porém, nos preocupamos muito com os aspectos externos, com as fachadas, e não com o que há de essencial nos problemas da nossa vida urbana, econômica, financeira e social.

VEJAM MEU VÍDEO ABAIXO SOBRE O TRISTE FIM DE POLICARPO QUARESMA E CLIQUEM NO LABEL "LIMA BARRETO" NO FINAL PARA VER OUTRAS POSTAGENS SOBRE O GENIAL ESCRITOR

25.1.19

JARDIM BOTÂNICO, MARAVILHA DO MUNDO II



Domingo de verão de calor intenso: cai bem uma ida ao Jardim Botânico carioca, uma das maravilhas do mundo. Aqui tão pertinho, mas a gente raramente vai. Alguns por esquecimento, outros por falta de imaginação. Eu não vou para "preservar", para não banalizar um lugar tão bonito. Aqui neste blog já fiz uma linda postagem sobre o bicentenário do Jardim Botânico, em 2008, que você pode ver clicando aqui

O jardim sensorial para deficientes visuais convida a explorar outros sentidos além da visão: tato, audição, olfato... O calor faz com que nos refugiemos na trilha na Mata Atlântica no limite oeste do Jardim. Seguindo o conselho do jardim sensorial tentei captar a multiplicidade de sons, no vídeo acima. Coloque alto para distinguir bem o fluir das águas, as cigarras que passam o verão cantando enquanto as formiguinhas labutam, o farfalhar das folhas agitadas pelo vento, meus próprios passos! Seguem algumas fotos tiradas no passeio.









Clique no label "Jardim Botânico" abaixo para ver outras postagens neste blog sobre essa maravilha.

1.1.19

DEFINIÇÃO DO CARIOCA (segundo HELIO BRASIL, PEDRO NAVA, MILLÔR FERNANDES, JOÃO ANTÔNIO, VINICIUS DE MORAES, DI CAVALCANTI, RICA PERRONE, ADRIANA CALCANHOTO, MILTON TEIXEIRA e o editor do blog)


SEGUNDO HELIO BRASIL

Ser CARIOCA não é nascer no Rio. Nem mesmo no Meyer, no Irajá ou nos confins da Barra. É ouvir o zumbido que fazem o fragor de ondas, as risadas e os gemidos dos quatro generosos cantos da paisagem, o Pico da Tijuca, as verdes encostas de um carrancudo jacaré que se amansa em Jacarepaguá. É respirar Leblon, ver a garota que passará por séculos e embalar-se na princesinha do mar. É ver praças Quinze, Mauá e Tiradentes em amável contradição histórica. Ser Carioca é ter o bum-bum esfolado em ônibus ruidosos mas, ao chegar no Sambódromo, vibrar na concretude de um alucinado Oscar que via nas montanhas as curvas de um sensual destino da caprichosa deusa que se fez cidade.




SEGUNDO PEDRO NAVA

Era dessas idas e vindas à Cidade, à Quinta, Cancela, ruas de São Cristóvão, Tijuca, Engenho de Dentro e Zona Sul – vendo, reparando e ouvindo o povo – que cada segunda-feira eu voltava para o Colégio mais penetrado dessa coisa sutil, rara, exquise, polimórfica indefinível (porque não é forma palpável e o que não tem de material, tem de luminosidade e perfume e vida) – que é o sentimento carioca, a alma carioca que nasce dessa paisagem, dessas ruas (oh! “A alma encantadora das ruas”), desses bairros ricos e pobres, sobretudo dos pobres, desses morros, dessa mistura de gente da terra, da do sul, do centro e do norte. Essas forças puxam para todos os lados mas sua resultante é tão forte que confere identidade a homens os mais diversos. Não há nada menos semelhante uns dos outros que Dante Milano, Álvaros, Prudente, Gastão Cruls, Marques Rebelo, Henriquinho Melo Moraes, Bororó, Di Cavalcanti, Luís Peixoto, Lima Barreto e Francisco Martorelli – esse mesmo que foi o doutor do samba, o que tirou seu anel, vestiu sua camisa listrada e saiu por aí. Entretanto se formos despojando esses homens e reduzindo-os a uma espécie de mínimo múltiplo comum, de redução de decimais a ordinárias, vamos encontrar em todos – um quid especial que é a essência do carioca. que será isso? Como se preparará essa teriaga de qualidades e defeitos onde os principais simples são alegria de viver, dor-de-corno, bloco, clube, carnaval, trepadinha, esporte, ingenuidade, improvisação, boato, jeitinho, tirar o máximo de tudo, não dar sopa, eu? hem... aparar o golpe, estar na sua, saber sua gíria, ser um pouco cafajeste ou pelo menos ter a infinita compreensão da cafajestada como arte e estado de graça. Impossível definir o que é que o carioca tem.




SEGUNDO MILLÔR FERNANDES

Os paulistanos(!) que me perdoem, mas ser carioca é essencial. Os derrotistas que me desculpem, mas o carioca taí mesmo pra ficar e seu jeito não mudou. Continua livre por mais que o prendam, buscando uma comunicação humana por mais que o agridam, aceitando o pão que o diabo amassou como se fosse o leite da bondade humana. O carioca, todos sabem, é um cara nascido dois terços no Rio e outro terço em Minas, Ceará, Bahia, e São Paulo, sem falar em todos os outros Estados, sobretudo o maior deles o estado de espírito. Tira de letra, o carioca, no futebol como na vida. Não é um conformista  mas sabe que a vida é aqui e agora e que tristezas não pagam dívidas. Sem fundamental violência, a violência nele é tão rara que a expressão "botei pra quebrar" significa exatamente o contrário, que não botou pra quebrar coisa nenhuma, mas apenas "rasgou a fantasia", conseguiu uma profunda e alegre comunicação  numa festa, numa reunião, num bate-coxa, num ato de amor ou de paixão  e se divertiu às pampas. Sem falar que sua diversão é definitivamente coletiva, ligada à dos outros. Pois, ou está na rua, que é de todos, ou no recesso do lar, que, no Rio é sempre, em qualquer classe social, uma open-house, aberta sob o signo humanístico do "pode vir que a casa é sua".

Carioca, é. Moreno e de 1,70 metro de altura na minha geração, com muitos louros de 1,80 metro importados da Escandinávia na geração atual, o carioca pensa que não trabalha. Virador por natureza, janota por defesa psicológica, autocrítico e autogozador não poupando, naturalmente, os amigos e a mãe dos amigos  ele vai correndo à praia no tempo do almoço apenas pra livrar a cara da vergonhosa pecha de trabalhador incansável. E nisso se opõe frontalmente ao "paulista", que, se tiver que ir à praia nos dias da semana,vai escondido pra ninguém pensar que ele é um vagabundo.

Amante de sua cidade, patriota do seu bairro, o carioca vai de som (na música), vai de olho (é um paquerador incansável e tem um pescoço que gira 360 graus), vai de olfato (o odor é de suprema importância na fisiologia sexual do carioca).

Sem falar, que, em tudo, vai de espírito; digam o que disserem, o papo, invenção carioca, ainda é o melhor do Brasil, incorporando as tendências básicas do discurso nacional: o humanismo mineiro, o pragmatismo paulista, a verborragia baiana.

E basta ouvir pra ver que o nervo de todas as conversas cariocas, a do bar sofisticado como a do botequim pobre e sujo, por isso mesmo sofisticadíssimo, a do living-room granfa, a da cama (antes e depois), é o humor, a crítica, a piada, a graça, o descontraimento. Não há deuses e nada é sagrado no Olimpo da sacanagem. O carioca é, antes de tudo, e acima de tudo, um lúdico. Ainda mais forte e mais otimista do que o homem da anedota clássica que, atravessado de lado a lado por um punhal, dizia: "Só dói quando eu rio", o carioca, envenenado pela poluição, neurotizado pelo tráfego, martirizado pela burocracia, esmagado pela economia, vai levando, defendido pela couraça verbal do seu humor.





SEGUNDO JOÃO ANTÔNIO

Carioca, carioca da gema seria aquele que sabe rir de si mesmo. Também por isso, aparenta ser o mais desinibido e alegre dos brasileiros. Que, sabendo rir de si e de um tudo, é homem capaz de se sentar ao meio-fio e chorar diante de uma tragédia. O resto é carimbo.

Minha memória não me permite esquecer. O tio mais alto, o meu tio-avô Rubens, mulherengo de tope, bigode frajola, carioca, pobre, porém caprichoso nas roupas, empaletozado como na época, impertigado, namorador impenitente e alegre e, pioneiro, me ensinar nos bondes a olhar as pernas nuas das mulheres e, após, lhes oferecer o lugar. Que havia saias e pernas nuas nos meus tempos de menino.

Folgado, finório, malandreco, vive de férias. Não pode ver mulher bonita, perdulário, superficial e festivo até as vísceras. Adjetivação vazia... E só ideia genérica, balela, não passa de carimbo [carimbo no sentido de estereótipo].

Gosto de lembrar aos sabidos, perdedores de tempo e que jogam conversa fora, que o lugar mais alegre do Rio é a favela. E onde mais se canta no Rio. E, aí, o carioca é desconcertante. Dos favelados nasce e se organiza, como um milagre, um dos maiores espetáculos de festa popular do mundo, o Carnaval.

O carimbo pretensioso e generalizador se esquece de que o carioca não é apenas o homem da Zona Sul badalada — de Copacabana ao Leblon. Setenta e cinco por cento da população carioca moram na Zona Centro e Norte, no Rio esquecido. E lá, sim, o Rio fica mais Rio, a partir das caras não cosmopolitas e se o carioca coubesse no carimbo que lhe imputam não se teriam produzido obras pungentes, inovadoras e universais como a de Noel Rosa, a de Geraldo Pereira, a de Nelson Rodrigues, a de Nelson Cavaquinho... Muito do sorriso carioca é picardia fina, modo atilado de se driblarem os percalços.





SEGUNDO VINICIUS DE MORAES

O que é ser carioca? É ter nascido no Rio de Janeiro. Sim, é claro, e também não. Não porque ser carioca é antes de tudo um estado de espírito. Ser carioca é uma definição de personalidade. [...] Porque ser carioca, mais ainda que ser parisiense, é sentir-se perfeitamente integrado com a sua cidade e o seu meio; é portar roupas como um carioca; é saber das coisas antes que elas sejam ditas; é detestar trabalhar (mas trabalhar); é adorar flanar e bater papo no meio de milhões de compromissos; é acreditar que tudo se arranja (e arranja mesmo); é ser portador não de acidez, mas de certa adstringência como a dos cajus; é gostar de estar sempre chegando e não querer nunca ir embora; é ter ritmo em tudo para tudo; é ter em alta dose o senso do ridículo e da oportunidade; é gostar de gente mesmo falando mal; é gostar de banho de chuveiro; é amar todas as coisas que maldiz; é saber conhecer outro carioca no estrangeiro, só pelo modo de andar e de vestir-se. Isso é ser carioca. E a maior felicidade é que ao carioca foi dado para amar, desamar, exaltar, trair e ser escravo um outro ser cuja graça é indefinível: a mulher carioca.





SEGUNDO DI CAVALCANTI

Todos os dramas, os mais terríveis, o carioca pode enquadrá-los numa janela aberta para um céu de estrelas.

O Rio de Janeiro tem coisas de que é impossível qualquer pessoa se desligar. Mesmo recebendo gente de toda parte, a cidade não consegue ser cosmopolita. Qualquer estrangeiro se torna carioca em pouco tempo.

O Rio de Janeiro exerce o milagre da esperança e todos que aqui vivem ressuscitam de hora em hora, sentindo na boca o gosto salgado de um novo batismo.

Ser autêntico carioca é possuir a dignidade de existir sem ambições supérfluas. É bastar-se a si mesmo, na certeza de ser um privilegiado do destino.

Deus deu o alimento sonho ao carioca.





SEGUNDO RICA PERRONE

Carioca exagera tudo, pra baixo e pra cima. Se elogiar a praia, ele exalta dizendo que é “a melhor praia do mundo”. Se falar que é perigoso, ele não nega. Diz que é “perigoso pra caramba”.

Trata sua cidade como filho. Só ele pode falar mal.

Cariocas não marcam encontro. Simplesmente se encontram.

A confirmação de um convite aqui não quer dizer nada. Você sugere “Vamos?”, eles dizem “Vamo!”. O que não implica em ter aceitado a sugestão.

Hora marcada no Rio é “por volta de”. Domingo é domingo. E relaxa, irmão. Pra que a pressa?

Em 5 minutos são amigos de infância, no segundo encontro te abraçam e já te colocam apelidos.

Não te levam pra casa. Te convidam pra rua. É curioso. Mas é que a “rua” aqui é tão linda que se trancar em casa é desperdício.

Cariocas andam de chinelo e não se julgam por isso. São livres, desprovidos de qualquer senso de sofisticação.

Ao contrário, parecem se sentir mal num ambiente formal e de algum requinte.





SEGUNDO ADRIANA CALCANHOTO


Cariocas são bonitos.
Cariocas são bacanas.
Cariocas são sacanas.
Cariocas são dourados.
Cariocas são modernos.
Cariocas são espertos.
Cariocas são diretos.
Cariocas não gostam de dias nublados.
Cariocas nascem bambas.
Cariocas nascem craques.
Cariocas têm sotaque.
Cariocas são alegres.
Cariocas são atentos.
Cariocas são tão sexys.
Cariocas são tão claros.

Cariocas não gostam de sinal fechado...





SEGUNDO MILTON TEIXEIRA

Adão e Eva eram cariocas. Não tinham o que comer, não tinham o que vestir, não tinham onde morar, não tinham um governo visível, não obedeciam a lei e achavam que estavam no Paraíso.






SEGUNDO O EDITOR DESTE BLOG



Carioca é aquilo que o paulistano não é. No bom e no mal sentido, porque São Paulo é uma espécie de locomotiva do Brasil (e, surpreendam-se, vou me mudar para lá em breve). Você anda pelas ruas paulistanas num dia e horário útil e está todo mundo apressado. Mesmo quem não está finge que está pra não destoar. Já no Rio tem sempre alguém flanando, alguém pegando uma praia, alguém de bermuda e chinelos mesmo no Centro da cidade onde teoricamente deveria estar todo mundo trabalhando. Carioca adora se reunir em torno de uma churrasqueira (a churrasqueira é uma espécie de altar do carioquismo contemporâneo) – que pode estar num quintal, na calçada diante de um bar, até num parque, numa praia, num beco, numa viela – e jogar conversa fora enquanto esvazia uma garrafa de cerveja depois da outra (depois da saideira vem outra saideira). Paulistano prefere um bom restaurante, confeitaria, cantina. Todo fim de semana rola alguma feijoada regada a samba em alguma escola de samba Rio afora (além do Cacique de Ramos) confirmando a visão predominante mundo afora de que o Rio é a cidade mais feliz do mundo (de fato, o Rio ficou em primeiríssimo lugar, no Índice Anholt-GfK Roper City Brands, divulgado em junho de 2009, das cidades mais felizes do mundo). Existe o mito do carioca inimigo do trabalho, aquele sambinha do “segunda-feira não vou trabalhar, na terça não vou pra poder descansar, na quarta preciso me recuperar...”, desmentido pelo PIB fluminense, o segundo maior do país – quem não trabalha não gera PIB. Aliás quem demonstra à perfeição o espírito trabalhador (!) do carioca são os garis da Comlurb, sempre dispostos, sempre a postos, se num domingo de sol a população emporcalha a praia, no final do dia o entulho é todo recolhido. O hábito carioca de chiar o s pode parecer esquisito, mas o Rio foi por muito tempo a capital da colônia, e esse s chiado não passa de um resquício do mais castiço português lusitano. E finalmente, no Rio você vê mendigos felizes (última foto abaixo), algo raríssimo em outras metrópoles. São muitas as peculiaridades do carioca, difícil captar sua essência – como é difícil captar qualquer essência, Platão que o diga – mas de uma coisa estejam certos: na Internet o que melhor capta a carioquice é este meu modesto blog que desde 2005 mostra o que o Rio tem de melhor. E se em meu texto não sou tão eloquente quanto um Nava, um Helio Brasil, um Vinicius, compenso essa minha deficiência com as fotografias. Essas sim, acredito terem captado a essência do carioca! Obrigado por visitarem meu blog e voltem sempre... sempre... sempre...