ENSEADA DE BOTAFOGO

ENSEADA DE BOTAFOGO
"Andar pelo Rio, seja com chuva ou sol abrasador, é sempre um prazer. Observar os recantos quase que escondidos é uma experiência indescritível, principalmente se tratando de uma grande cidade. Conheço várias do Brasil, mas nenhuma tem tanta beleza e tantos segredos a se revelarem a cada esquina com tanta história pra contar através da poesia das ruas!" (Charles Stone)

VISTA DO TERRAÇO ITÁLIA

VISTA DO TERRAÇO ITÁLIA
São Paulo, até 1910 era uma província tocada a burros. Os barões do café tinham seus casarões e o resto era pouco mais que uma grande vila. Em pouco mais de 100 anos passou a ser a maior cidade da América Latina e uma das maiores do mundo. É pouco tempo. O século XX, para São Paulo, foi o mais veloz e o mais audaz.” (Jane Darckê Avelar)

4.6.24

CONTRIBUIÇÃO DE MACHADO DE ASSIS, de CYRO DE MATTOS

 

Machado de Assis com Joaquim Nabuco aos 67 anos em foto de Augusto de Malta de 1906

        Nasce Joaquim Maria Machado de Assis a 21 de junho de 1839, na Quinta do Livramento, Morro do Livramento, Rio de Janeiro. Foi batizado na Capela da Senhora do Livramento. Filho de Francisco José de Assis, de cor parda, pintor e dourador, e Maria Leopoldina Machado, portuguesa da Ilha de São Miguel, lavadeira. Eram agregados da Quinta de Livramento, pertencente a Dona Maria José de Mendonça Barreto, viúva do Brigadeiro e Senador do Império, Bento Barroso Pereira. Os avós paternos foram os pretos forros Francisco de Assis e Inácia Maia Rosa. Viveu sua infância no Morro do Livramento e pouco se sabe dela. Cedo perdeu a mãe e uma irmã. Foi sacristão da Igreja da Lampadosa e aprendeu as primeiras letras numa escola de São Cristóvão. A madrasta Maria Inês, lavadeira, tinha um coração bondoso, que se afeiçoou e protegeu o menino na sua infância, pincipalmente depois que o pai faleceu.      

        Possuía uma saúde frágil, sofria de epilepsia e gagueira. Ao longo de sua vida foi vitimado por problemas nervosos, e, entre eles, a depressão, situações que se agravam com o falecimento da mulher Carolina, em 1880, a quem dedica um soneto do qual revela sua dor profunda com a separação definitiva do ente querido. Disfarçava a gagueira, a epilepsia escondeu da mulher antes do casamento, até que foi acometido de uma crise generalizada. Mesmo antes da morte de Carolina, ficou sem parte da visão, ouvia a esposa lendo para ele textos de jornais ou livros.     

           É possível, como querem alguns biógrafos, que da sua infância no Morro do Livramento Machado de Assis passou a ter os primeiros sentimentos da ambição para ascender no meio social. Soubesse de sua condição de inferioridade em razão da cor e origens humildes, ao perceber como a vida era diferente aos que pertenciam à elite social com seu modo de vestir e acontecer, cercados do bem-estar auferido da existência tranquila. Provavelmente, já percebesse suas inferioridades no ambiente em que as pessoas da classe privilegiada visitavam a chácara pertencente a Dona Maria de Mendonça.

Pelo seu projeto estético com a marca da genialidade, Machado de Assis se constitui em um fenômeno da literatura brasileira. Sua genialidade posta nos contos e romances provém em parte de sua paciência e seriedade para na passagem dos anos armar seu projeto criativo com arte, engenho e senso estético. Opositor dos que acham que a literatura é o sorriso da sociedade, era também da visão dos que improvisam em suas criações literárias, para ele literatura é coisa séria, requer a presença no plano estético sem superficialidade, de forma e fundo. É transfiguração da vida com o uso da palavra mítica, equilíbrio no discurso operado com técnica apurada, exige instrumental crítico que dá condições para saber dos meios utilizados na reinvenção da vida.

Por isso estudou os clássicos portugueses, como  Camões, Sá de Miranda, Frei Luís de Sousa, Filinto Almeida, João de Barros, Bernardim Ribeiro, Garrett, Camilo; clássicos gregos e latinos, a Bíblia; Rabelais, Montaigne, Flaubert, Merimée, Sthendal, Gautier, Balzac, Vitor Hugo, Diderot, Maupassant,  Voltaire; Poe, Fielding, Lamb; Shakespeare, Swift. De todos eles aprimorou os modelos da expressão, adquiriu a firmeza, simplicidade e economia dos meios na execução do texto. Foi influenciado no humorismo por Cervantes, Swift, Dickens e Sterne. E, na concepção do mundo e do homem, pelos filósofos Xavier de Maistre, Artur Schopenhauer e Pascal. Seus livros preferidos eram a Bíblia, Odisseia, Dom Quixote e Hamlet de Shakespeare. Chegou a estudar grego para ler Homero.

Em Machado de Assis os recursos da ficção são assimilados com paciência, investigação, dedicação. Faz-se a captura dos modelos para que sejam transpostos para a realidade criada com a multiplicação dos meios, absorvidos pela imaginação e sensibilidade tornem-se suficientes no discurso, alcancem o ideal de uma imagem estética da obra. São adquiridos não com pressa, mas através da disciplina da inspiração, do exercício qualificado da transpiração. Assim, com a técnica perfeita assimilada, a expressão suficiente serve para preencher a página em branco, à espera da fatura exemplar a ser exercida pela obra por meio da invenção. 

Adquire-se a boa técnica literária com estudo e investigação, engenho e habilidade, sem a facilidade em querer vestir o espírito da língua através de artifícios nas ideias e concepções de mundo, que não convencem, aspirações e frustações de inspiração hesitante, transpiração artificial, não encontrando o texto aquele ponto necessário para vazar o conteúdo com ricos significados. O talento disciplinado deu-lhe com o tempo o lugar merecido como expoente maiúsculo na prosa de ficção do Brasil, sem vinculação aos ditames das gerações antropofágicas necessitadas de opor-se às tradições, nem com o apego às regras convencionadas por escolas no passado. 

Esse fenômeno literário que foi Machado de Assis teve reconhecimento em sua época, embora com alguns negadores que viam na sua obra o absenteísmo, adesão à visão mecanicista da vida, determinismo e pessimismo, desprovida de nacionalidade, sem a preocupação social e omissa na cor local. Falhava quando não se insurgia contra o perverso sistema escravocrata, com o negro africano relegado a uma coisa abominável, servindo de mão de obra gratuita aos donos do poder. Os que assim pensavam não percebiam que o senso estético, plasmado nos valores e caracteres da personagem, na atmosfera da alma, prevalece na construção de suas criações. A transição de seu processo criativo já é vista com o romance Iaiá Garcia, enquanto o começo da segunda fase, no qual se dá a plena afirmação com o reconhecimento de sua grandeza, ocorre com o lançamento de Memórias Póstumas de Brás Cubas. Daí em diante a visibilidade de sua obra com elevado nível rompe as fronteiras locais, seus livros e textos são traduzidos e publicados no exterior.

Como foi que conseguiu esse reconhecimento nacional e além fronteiras vivendo num ambiente cultural atrasado, com os costumes e valores importados do ouropel alheio, circulando no contexto típico de alienação intelectiva, imitativo dos valores alheios, de subordinação aos modelos europeus? Vivia-se no Brasil com o pensamento na Europa. Em sua época, o Rio de Janeiro era uma cidade suja, com ruas estreitas, a do Ouvidor era o ponto principal da cidade onde as senhorinhas desfilavam, frequentavam os bailes, os intelectuais se encontravam nos cafés e confeitarias para nas conversas prazerosas saborear o ócio da vida.  A literatura brasileira que era dependente da francesa tornava-se agora um galho da portuguesa.

.                 A obra de Machado de Assis por ser de pura arte possui uma natureza singular na técnica da construção, transcende o tempo e as escolas, torna-se emblemática em sua concepção de mundo, ultrapassa a época em que foi criada, está sempre aberta para releituras e provocar interesses. Não é documental, datada, restrita aos costumes de uma época. Não lhe interessa a realidade com a sua problemática social e política, importa a verdade que o autor deve ter ao recriar o ambiente exterior e revelar o mundo sob uma perspectiva existencial da humanidade com limitações, incertezas, perdas constantes, conflitos movidos por circunstâncias críticas.   

      Daí o cuidado de caracterizar os personagens, empregar o humor para  melhor solucionar os conflitos, interferir na narrativa, dialogar com o leitor, preocupar-se com a estrutura, a técnica usada com mestria para surpreender nos movimentos conflitantes e cenas no drama. Achar  soluções no impasse, sustentar no pessimismo as contradições da humanidade, ao invés da onisciência narrativa o uso do monólogo. Às vezes o dialogo na condução da história, o estilo indireto livre, os instrumentos necessários para  substituir  a  narrativa linear, com a sequência do princípio, meio e fim, o emprego  da  auscultação da alma, sustentação da atmosfera, introspecção nos pensamentos e sentimentos, sensações impressionistas tiradas nos gestos ambíguos, ao modo de Tchecov. Não queria repetir o equívoco do realismo de Eça de Queiróz em que o espiritual não entra no ponto de vista tirado da realidade como ela é, apresentando-se numa transposição fotográfica para o plano literário, provocando por isso um ritmo repetitivo, que se torna muitas vezes enfadonho, sem prender o receptor no desenvolvimento do quadro.


É visível que o processo criativo de Machado de Assis manifesta-se em duas fases, que são frutos do desenvolvimento consciente de um projeto com o senso estético e consciência. A primeira fase situada entre 1869, data do casamento e estabilização da vida, com a ascensão social firmada, e 1879 quando então vem à tona nesse período  as obras que marcam sua visão do mundo ausente das inferioridades, atritos e conflitos: Falenas (1870), Contos Fluminenses (1870), Ressureição (1873), Histórias  da Meia-Noite (1873), A Mão e a Luva  (1874), Americanas (1875), Helena (1876) e Iaiá Garcia (1878), incluindo-se na relação as Crisálidas (1864), poesia.


Nessa fase, o escritor comparece motivado pelas regras da escola romântica, que dava seus últimos suspiros. O perfil feminino dos personagens vem traçado com suas ilusões perante a realidade melhor do que ela é, o escritor ainda não tem a experiência de vida e a observação do mundo através dos choques com a realidade como ela é, com suas verdades escorridas no ponto de vista marcado com o pessimismo e o desencanto. O lastro romântico na escrita convencional subordina os personagens ao relato de cunho sentimental, não tem a força das que convencem no drama e precisam de autoanálise, auscultação da alma, reflexões   da experiência da vida e observação aguda do mundo.  Através do perfil traçado com sentimentalismo, os personagens tendem a mostrar a vida com a tônica da superioridade, melhor do que ela é, o conteúdo impregnado de sentimentos absorvidos de um romantismo decadente. Machado de Assis afirmara que nessa fase de seu processo estético se encontra “um eco da mocidade e fé ingênua.”


Na prosa de ficção dessa primeira fase esboçam-se os meios técnicos e recursos estilísticos depois trabalhados com precisão. Em alguns momentos encontramos o germe de sua técnica de construção ficcional na estrutura e nos flagrantes do drama. No entanto, a introspecção, o desenvolvimento vertical da intriga, o monólogo interior e a auscultação com o espírito da penetração psicológica estão presentes no seu discurso alinear. A crítica  vê os ares da ficção moderna na segunda fase, cuja técnica apurada seria desenvolvida com mestria e daria ao escritor a condição de exímio artista da palavra com foco nas questões universais que acompanham o homem.   


Pode-se dizer que o trabalho de conscientização técnica na arte de compor o conto e o romance se processa em Machado de Assis lentamente, aos poucos mostra-se com o rigor duma evolução longe do artista apegar-se ao produto espontâneo e precoce. Há neste processo um avanço intermitente e não uma dicotomia como querem alguns críticos e neste se inscreve o seu lúcido ensaio “Instinto de Nacionalidade”, publicado numa revista de Nova Iorque, em março 1873, em que se faz presente seu modo de compreender e sentir as coisas dentro da corrente nativista. Segundo Afrânio Coutinho (in Machado de Assis/ Obra Completa, pág. 28), este ensaio mostra que não se deve falar em dicotomia no processo evolutivo do escritor compreendendo as fases antes e depois de 1880 quando surge o exame de sua crítica.

 

“Suas colocações do problema da arte nacional, da influência do povo no estilo, do equilíbrio entre a nacionalidade e a universalidade, ao lado de reflexões sobre os vários aspectos técnicos da arte literária nos diversos gêneros, mostram que estava àquela altura plenamente consciente de seu ofício e aguardava apenas que se lhe amadurecesse a capacidade de realização através dos experimentos que vinha tentando. Como de regra num grande artista, a consciência teórica acordara mais cedo do que a capacidade prática.” 

Nos livros da segunda fase estão elencados todos os restantes da carreira de Machado de Assis,  Memórias Póstumas de Brás Cubas (1881), Quincas Borba (1891), Dom Casmurro (1899), Esaú e Jacó (1904) e Memorial de Aires (1908), pertencentes a um Realismo em que funde sua visão da  realidade exterior com o espiritual, no qual o pessimismo é trabalhado com o humorismo. Embora a divisão de sua carreira não seja mais aceita pelos críticos do porte de um Afrânio Coutinho, Eduardo Portella, Barreto Filho, vale ressaltar que já o próprio Machado escrevera numa apresentação de uma reedição de Helena que este e os outros romances da sua fase "romanesca" possuíam um "eco de mocidade e fé ingênua".

Este escritor sem o copioso e com o sintético no estilo preciso é o primeiro que dá ao nosso conto o estofo de entidade literária autônoma. Com relação aos livros desse gênero,  Contos Fluminenses (1870) e Histórias da Meia Noite (1873), consecutivamente, são posicionados em sua primeira fase, Ocidentais (1880), ao lado de Papéis Avulsos (1882), Histórias sem Data (1884), Várias Histórias (1896), Páginas Recolhidas (1899), e Relíquias de Casa Velha (1906), na segunda. Em Papéis Avulsos encontra-se o antológico “O Alienista”, sobre o qual os críticos até hoje dividem opiniões, se se trata de uma novela, pela extensão mediana e recortes na narrativa que prende com o desenvolvimento da intriga, ou de um conto que expressa os momentos verticais da vida que se esgotam em si mesmos.

Machado de Assis não utilizou na ficção apenas o ponto de vista interior. Situou-se fora da ação com o ponto de vista exterior, ao fazer o seu relato. Resolveu com segurança a entrada e saída do personagem em cena. Por intermédio de uma narração é apresentado nos comentários, sugestões, explicações dos motivos, reações e atitudes, tendendo de modo geral a dar uma feição dramática ao que pretende contar. A revelação dos personagens é feita por meio de seus próprios atos e palavras, gradual ou aos poucos, pelos diálogos e relatos dos outros personagens. Com esses recursos se tornou um grande mestre na técnica de construção de um conto que impressiona e de um belo romance que faz pensar com sua disposição analítica.  

Na escrita machadiana, a reconstituição pela memória, impressões sensoriais e emocionais desempenham importante papel na captação dos sentidos. É notório que depois da publicação de Brás Cubas cresce a fama de Machado de Assis. É tido por seus colegas de letras como o maior de todos, daí ter levado seu nome para a presidência da Academia Brasileira de Letras. Estava em voga o Naturalismo, cujos adeptos não poupavam elogios ao romance O Mulato, de Aluísio Azevedo. Não tinham os intelectuais da época preparo suficiente para compreenderem as virtudes modernas desenvolvidas na construção do romance e conto machadiano. Só mais tarde iriam compreender isso, reconhecendo que o escritor absorvera com  consciência crítica  a tradição literária, reconduzindo-a remodelada a novas direções. Apoiado nos elementos artísticos, estruturais, temáticos, com a presença da morte, que tudo anula, e da vida com a sua indiferença, calcado no pessimismo, apresentava-se como um genial construtor de uma ficção analítica profunda, que a todos surpreendiam com seus efeitos humorísticos.  

Para confirmar o seu valor literário firmado com grandeza vieram Dom Casmurro, o seu mais belo romance, Esaú e Jacó, de simbolismo mítico, e Memorial de Aires, em que retoma a técnica da narrativa póstuma, como fez no Brás Cuba. Paralelamente, os livros de contos também vão refletir o tempo e o meio da vida carioca, mostrando que na ficção machadiana havia os caracteres locais no alcance de padrões universais, sem deixar de apontar que a vida é má e madrasta, indiferente ao homem, não merecendo nosso esforço, sonhos e lutas. O humorismo usual tece e acontece para provocar o riso abraçado ao rancor, distúrbios e sofrimentos.

Com o problema do homem e seu destino terreno, escorrendo a alma na sua melancolia, tristeza, amargura, ódio, tédio e pessimismo, não é por demais repetir que Machado de Assis assentou o seu talento literário nos ressentimentos que herdou da vida, tornando-se dono do ofício concentrado no ceticismo. É sem dúvida o caso explícito de um fenômeno literário inconfundível. Ultrapassa o seu tempo para permanecer com sua técnica, seu acento, sua personalidade enquanto exista a melhor literatura, capaz de produzir obras antológicas, em que é fácil perceber um talento luminoso na passagem  noturna do ser, dotado de uma rara inteligência.    

 

Referência

 

COUTINHO, Afrânio. In Machado de Assis/ Obra Completa, Editora Nova Aguilar, Rio de Janeiro, 1962.

------------------------------ A Literatura no Brasil, Editorial Sul Americana, Rio de Janeiro, 1955/1956.

PEREIRA, Lúcia-Miguel. Machado de Assis/ Pesquisas Psicológicas, In História da Literatura Brasileira, sob a direção de Álvaro Lins; Prosa de Ficção, de 1870 a 1920, Livraria José Olympio Editora, Rio de Janeiro, 1957.  

Gomes, Eugenio, Prata de Casa, Editora A Noite, Rio de Janeiro, s/d.

SODRÉ, Nélson Werneck. História da Literatura Brasileira, Livraria José Olympio Editora, Rio, 1960.

5.2.24

A ALMA CANTANTE DE STELLA LEONARDOS, de CYRO DE MATTOS

 

Ascendino Leite, Jorge Amado, Nertan Macedo, Salim Atalla, Stella Leonardos, Edna Savaget em noite de autógrafos em 31 de outubro de 1960 no Clube Monte Líbano. Foto da revista O Cruzeiro.

Autora muito premiada, com destaque para nove láureas concedidas pela Academia Brasileira de Letras, Stella Leonardos (Rio de Janeiro, 1 de agosto de 1923 - Rio de Janeiro, 11 de junho de 2019) publicou mais de uma centena de livros, entre romances, poemas, literatura infantil e dramaturgia. Formada em Letras Neolatinas, tradutora do inglês, francês, italiano, espanhol, catalão e provençal, sua estreia aconteceu com Passos na areia, em 1941. Os críticos costumam situar a vasta obra poética de Stella Leonardos na terceira geração do Modernismo, relacionando nessa condição os livros Geolírica (1966), Cantabile (1967), Amanhecência (1974) e Romanceiro da Abolição (1986).

Nome dos mais festejados pela crítica, Stella Leonardos entregou por muito tempo sua vocação poética ao projeto de recriação de um Brasil bem brasileiro. Da sua alma cancioneira e romanceira salta um Brasil de sentimentos românticos, epicidades, ideais, relatos e saberes populares. Brasil iluminado de estados líricos, formado por elementos míticos, que irrompe do lugar onde nasce a história feita de passagens marcantes, ações, tantas razões e casos.

O épico apresenta, o lírico lembra, o dramático articula mundos interiores    dos seres humanos conflitantes na criação da vida. No palco da duração crítica e contínua dos acontecimentos expande-se a poesia de Stella Leonardos. Conota essa maneira íntima do lírico, calcada em permanente mergulho na memória, feita de emotividade, cena histórica e pesquisa. Gentis seus versos, em Memorial da Casa da Torre (2010) recordam vivências nas arcadas, aludem a finíssimos lavores nos salões e aposentos. Abrem-se nos portões com senhores de terras na época de conquista e domínio. Tocam no berço territorial da Pátria, no músculo dos negros, no primitivismo resistente dos indígenas. Restauram o homem através de intenções, ímpetos, sonhos e idealismo. Retiram-no do passado para ser lembrado no desassombro dos sertões vencidos, entoados na música rústica das boiadas.

Poesia é emoção condensada em linguagem mítica, rica, tensa e ambígua. Reflexão em suas formas geométricas calcadas na imagem, sob o pretexto da escrita para revelar uma ideia. Em Stella Leonardos mostra um discurso significante pontuado pelo som, no ritmo que ela imprime em sua maneira particular de sustentar a ideologia. Sua palavra cantante escorre musicalmente com interferência de vozes, tornadas dinâmicas, apropriadas nas lembranças e cenas descritas.

O registro que é feito do fato bom ou triste é mais endereçado aos ouvidos do que aos olhos. Sua dicção musical enceta versos que dialogam com a história, ecoam procedentes de alguém que permaneceu no tempo.  Em seus cancioneiros e romanceiros tão brasileiros, Stella Leonardos canta e conta. Revive o Brasil com maestria de poeta que encanta, consciente de que no rememorar tudo é ilusão, sonhar é sabê-lo, como falou Fernando Pessoa.

Assinalada a terra por armas e brasões de uma gente remota, que aqui chegou por mares nunca dantes navegados, o governo português teve que enfrentar situações desfavoráveis para fazer a colonização. Um desses obstáculos consistia na imensidão da terra descoberta, com a sua mata de sono milenar, jamais incomodada. Foi necessário dividir a terra rica em capitanias, glebas de muitas léguas, e doá-las àqueles que tivessem condições de fixar o homem no solo.

Por quase três séculos, a Casa da Torre distendeu suas cordas e acordes de inúmeros serviços prestados ao Brasil, começando pelas guerras aos piratas, aos holandeses e da Independência. Dali partiram os primeiros desbravadores do Norte brasiliense, as intrépidas bandeiras, as principais entradas dos sertanistas do Nordeste.

Em Memorial da Casa da Torre, um dos episódios mais significativos da história do Brasil Colônia, oriundo da influência da prole mameluca de Garcia D’Ávila, que levou domínio e ambição às regiões desconhecidas, Stella Leonardos, com idade avançada, demonstra que ainda domina bem o verso e faz uma poesia cativante, bebendo na tradição da poesia de todos os tempos. Usa o arcaísmo e o neologismo para narrar os acontecimentos da pátria nascendo a passo de marcha. Na decorrência de versos que se alteiam com vozes em coro, de viva gesta, acende sinais luminosos da labareda que haveria de contribuir como ideal de heroísmo, cultura e civilização.

É da tradição da poesia ibérica vazar o amor e a saudade como figurantes que convergem para o lirismo e o épico. O registro de vultos e fatos heroicos são recorrências manejadas por rapsodos com inspiração no populário e saberes anônimos. No caso de Stella Leonardos, o relato poético se municia de pesquisa e de saberes locais do populário. Atenta, a poeta não se descuida de rimar memória e fatos que melhor repercutam ao fazer modelar do nosso cancioneiro e romanceiro. Seus livros aí estão espalhados para que sejam lidos como resultado da aproximação mágica de uma alma sensitiva à nossa memória, arrebatada de sentimentos românticos, valendo-se do histórico por quem ama a beleza e o valor exercido pela estima da Pátria.

No poema “In Memoriam”, introdutório ao assunto deste Memorial da Casa da Torre, Stella Leonardos abre seu verso terno para o que vai contar e cantar, com leveza deixa ser conduzida pela inspiração que lhe é particular:

 

No barro desses tijolos

Por mãos índias acalcado

Quanta voz índia não dorme?

Na alvenaria da pedra

Por mãos afras carregada

Quanta voz negra não pesa?

Na torre desse Castelo

Por brancos rostos vigiada

Quanta saudade não se ergue?

 

A autora desses versos torna suficiente a imagem que interpela e, ao mesmo tempo, contempla a passagem do tempo guardada na memória. Apoiada na sensação do que se refaz triste, sob um ritmo que atrai, nos embala e envolve até o final da cantiga. Como estratégia usual de seus cancioneiros e romanceiros, ela sabe tirar efeito na linguagem quando emprega o neologismo através dos vocábulos que inventa: saudadeado, largoandante, longivozes, multivária, plurilínguas, existenciar, surpresada, passilargo, fugileve, impulsada, noviterra, ensonho, sonoite, novihorizontes, azulando.

A Casa da Torre é a primeira grande fortificação portuguesa do Brasil. As pegadas dos valentes que a povoaram com desassombro inigualável dos tempos de Garcia Dávila renascem neste memorial poético de Stella Leonardos. Da cidadela em ruína, muralhas cobertas de musgo, gestos que resvalam por entre sombras, das fendas e rastros do poder extinto, reencontramo-nos na poesia de versos generosos. Das paisagens com passagens cheias de histórias marchamos, somos levados com o mesmo brilho das gerações que fundaram nossa nacionalidade.

O épico em forma de cancioneiro acontece com o Romanceiro do Bequimão (1979) na lírica de Stella Leonardos. Considerada pelos historiógrafos como nativista, embora haja divergência, a Revolta de Beckman aconteceu no Estado do Maranhão, em 1684. Foi um movimento que contestou o estanco, monopólio exacerbado da Companhia do Comércio do Maranhão, que atuava como uma das instituições fundamentais da ordem colonial, tanto quanto o escravismo e o latifúndio. Os que acham que não se tratou de um movimento nativista argumentam que houve apenas uma contestação de natureza econômica ao poder colonial, motivada pelo descontentamento contra o desmando da Companhia de Comércio do Maranhão.

Movimento nativista dentre os primeiros em território brasileiro, embora desencadeado por razões econômicas, foi impulsionado no seu inconformismo pelas discordâncias veementes dos comerciantes locais, que se sentiam espoliados pelo monopólio da Companhia, e os proprietários rurais que entendiam serem insuficientes os preços oferecidos pelos seus produtos. Além disso os apresadores de indígenas estavam inconformados com a aplicação das leis que proibiam a escravidão dos nativos. Nessa conjuntura de inconformismo, a população protestava contra a irregularidade do abastecimento dos gêneros e os elevados preços dos produtos.

Esses fatos, somados aos privilégios concedidos aos jesuítas, conduziriam à eclosão da revolta. Teve como líder Manoel Beckman, senhor de engenho, que contou na sua façanha de rebelado destemido com o auxílio do irmão Thomas, encarregado de escrever os cordéis e distribuir entre as gentes indignadas. 

Ante essa forma de opressão imposta pelo monopólio da Companhia, surge a figura do revolucionário Manoel Beckman, o Bequimão, português radicado no Brasil. Seu desempenho de rebelado contra a forma tirânica de atuar pela Coroa Portuguesa e que culminou na morte pela forca faz com que alguns estudiosos o considerem mártir da Independência do Brasil muito antes de Tiradentes.

A revolta foi debelada com a chegada de tropas a São Luís sob o comando do tenente-general Gomes Freire de Andrade. Foi expedida ordem de prisão contra Manuel Beckman, que fugira, oferecendo-se por sua captura o cargo de Capitão das Ordenanças. Para obtê-lo, Lázaro de Melo, afilhado e protegido do líder revolucionário, traiu o padrinho e o entregou preso às autoridades portuguesas.  Apontados como líderes da revolta, Manuel Beckman e Jorge Sampaio de Carvalho receberam sentença de morte pela forca. Os demais envolvidos foram condenados à prisão perpétua.

Esse o quadro histórico que motivou a poeta Stella Leonardos escrever o Romanceiro do Bequimão, não fazendo como de costume, no seu discurso lírico e épico, poesia da história, “mas contando sonhos sem conta”, inventando com uma lírica que encanta e uma épica que tudo apresenta esse tempo de cobiça e intriga. Com mergulhos da alma dentro do que aconteceu e diálogos oportunos com pessoas e fatos, através de linguagem cadenciada na rima herdada de suas raízes ibéricas, faz com que rudes brasis convirjam e brilhem nos intertextos que esplendem no ritmo de baladas e acalantos, permeados com elementos africanos, indígenas e populares.

 

Lá dos antigos sobrados

De azulejos feito a mão

Uma saudade em pedaços

Me conta do Maranhão

(página 15).

 

Sabe-se que a Lira é vista como a poesia do eu, da confissão ou da emoção. A palavra revela-se associada à música, à melodia que escorre de seu ritmo. Na poesia épica, o poeta apresenta os fatos singulares de um povo, narra os feitos de um herói através de acontecimentos extraordinários. A poesia lírica nas raízes mostra-se associada aos cancioneiros, reunião de canções, transmitida por via oral com seus temas populares. O romanceiro é atividade poética luso-espanhola, de natureza épica e lírica, anônima, foi transmitida por via oral durante a Idade Média, configurada nos romances, compilada em volume integral ou antológico.

Tanto no cancioneiro como no romanceiro, o que se nota na poética de Stella Leonardos é uma paixão de escrever com uma vontade preocupada com a conscientização de nossas raízes, com vistas a um alcance de nossa possível e complexa identidade cultural.  A natureza multiforme cultural e rigor disciplinar com bases no método que lhe é peculiar, fincado nas raízes ibéricas, encontram-se juntos em Stella Leonardos formando uma apetência consciente incomum, soltando uma voz inconfundível como forma de atitude existencial, que faz a autora possuidora de planos poéticos envolventes para a sustentação de sua prodigiosa inventividade literária.  E assim, com uma postura até certo ponto nativista, com assuntos colhidos na história e nas tradições populares, ativados na memória do coração, Stella Leonardos vem escrevendo uma monumental obra cancioneira e romanceira. Um extenso mapeamento lírico que se distribui por um conjunto de volumes tendo como marca a atenção máxima de nossa rica e multiforme formação cultural, a se alimentar de um portentoso filão brasílico.

Poeta que inventa e reinventa assuntos entranhados em nossa história, forma seu discurso literário enorme constituído muitas vezes de aproveitamento de outros discursos, os quais passam a ser reconstituídos por um eu poético criativo, no qual usa a linguagem arcaica, que nele se renova com graça e beleza. Retoma os elementos ancestrais trazidos de outras fontes para o texto presente, que se apresenta assim enriquecido por uma sensibilidade apurada, com manejo profícuo dos recursos da língua, achados no nascedouro longínquo.

Romanceiro do Bequimão é a confirmação das considerações de que Stella Leonardos tem uma obra épica e lírica das mais expressivas na poesia brasileira. Dos meios torpes e obscuros, das baladas e acalantos, ela sabe tecer com fina sensibilidade as vozes seresteiras das duas filhas do Bequimão, fazendo-as ressurgir do fundo da memória com alegria e tristeza, tecer o pasmo neste homem, que não se submete aos lacaios da Companhia.

 

Em oratória ignorante?

Mas por instinto, tribuno,

 

Das janelas do senado

Convertidas em tribuna

 

Falava ao povo constante

E o povo aplaudia, uno

 

Manuel do verbo alumbrado.

Bequimão único e íntegro

(pág. 94)

 

Do que está escrito e do que não está escrito, do que não se conta, mas que se acredita, de um povo tolerante, desse cavaleiro que Deus deu voz alta, repelido de uns, esquivados de outros, depois de sentenciado, sabe-se nesse romanceiro quando se deu o momento em que foi sentida a grandeza eterna no exemplo raro. Solidário e justo quando os corpos penderam.

 

Tocando de novo a terra,

Foi tão-só que a luz se fez,

E fez sentir algo novo.

(pág. 151)

 

LEONARDOS, Stella. Memorial da Casa da Torre, Gráfica Santa Marta, João Pessoa, Paraíba, 2010.

---------------------------- Romanceiro do Bequimão, Edições SIOGE, São Luís, 1979.

 

*Cyro de Mattos é autor de mais de 65 livros pessoais, de diversos gêneros. Premiado no Brasil, Portugal, Itália, México e Cuba. Editado e publicado em Portugal, Itália, França, Espanha, Alemanha, Cuba e Dinamarca. Membro efetivo da Academia de Letras da Bahia. 

18.10.23

MOSAICOS CERÂMICOS: ARTE NA PORTARIA DOS EDIFÍCIOS – Obras de José Moraes e Paulo Werneck, grandes artistas, são documentos de uma época.

Texto de Rogério Marques para o Quarentena News, aqui reproduzido com autorização do autor.


Na correria diária dos grandes centros, muita gente não percebe os mosaicos cerâmicos, uma técnica milenar, que estão em vários pontos do Rio. São trabalhos deixados, como um presente à cidade, por dois grandes artistas cariocas, José Moraes (1921-2003) e Paulo Werneck (1907-1987).

José Moraes foi pintor, escultor, muralista, gravador, ilustrador, professor da FAAP (Fundação Armando Álvares Penteado), de São Paulo, e do Departamento de Artes Plásticas da Universidade Federal de Uberlândia.

Paulo Werneck, além de artista versátil, foi ativista político, com preocupações sociais, ligado ao Partido Comunista Brasileiro (PCB). É considerado um dos maiores nomes do mosaico moderno brasileiro no século XX. Deixou centenas de painéis em várias cidades brasileiras, inclusive na capela de São Francisco de Assis, na Pampulha, Belo Horizonte, projetada por Oscar Niemeyer.

No Rio, os trabalhos de Moraes e principalmente os de Werneck estão em várias portarias de edifícios residenciais e comerciais. Muitas vezes, quem entra e sai dos prédios, ou passa pelas calçadas em frente, não sabe quem foram os autores daquelas obras, e até mesmo não reparam nelas. Geralmente, esses painéis, atualmente tombados, são assinados apenas com as iniciais dos artistas – JM e PW. Bem que poderiam ter, ao lado, uma pequena placa com informações sobre os autores.

No Edifício Azul e Branco, na Rua Almirante Tamandaré, 50, no Flamengo, José Moraes deixou no saguão dois belos murais que retratam brincadeiras das crianças de antigamente. O prédio foi construído no final da década de 50, muito antes da popularização de computadores e smartphones.

Quanta beleza, quanta arte naqueles trabalhos, de visível influência modernista. Em um dos painéis, meninas brincam de roda. No outro, de cabra-cega, as crianças parecem voar.


Painéis de José Moraes em portaria de edifício no Flamengo: brincadeiras de antigamente (Fotos Rogério Marques)


Em Copacabana e no Leme, Paulo Werneck tem trabalhos da época em que aqueles bairros estavam sendo verticalizados. No Leme, são de sua autoria dois grandes painéis retratando indígenas, no hall imponente do Edifício Maracati, na Rua General Ribeiro da Costa.

Mosaico de Paulo Werneck na entrada do Edifício Maracati, no Leme (Foto: Vicente de Mello/Divulgação)


No Centro da cidade, o hall dos elevadores do Instituto de Resseguros do Brasil, na Rua Marechal Câmara, é outro exemplo da arte de Paulo Werneck.

 Hall dos elevadores no Instituto de Resseguros do Brasil, no Centro. Painel de Paulo Werneck (Foto: Vicente de Mello/Divulgação)


Em Laranjeiras, bairro em que morou e teve um ateliê, Werneck deixou um painel em mosaico na fachada do Edifício Paulo Dalio, na Rua Leite Leal, 14, esquina com Rua das Laranjeiras. Somente há pouco tempo uma amiga que mora no prédio ficou sabendo a história e a importância daquele mural. Com muitos moradores acontece o mesmo.

Painel de Paulo Werneck em edifício na Rua Leite Leal, Laranjeiras. O artista morou no bairro. (Foto Rogério Marques)


Os painéis cerâmicos na decoração de edifícios foram uma tendência entre os anos 40 e 60. Tempos mais tranquilos, em que as crianças podiam brincar nas ruas, perto de casa. Hoje, as meninas de José Moraes no Edifício Azul e Branco, na Rua Almirante Tamandaré, ainda brincam de roda e de cabra-cega, mas atrás de grades (que evitei nas fotos) e outros esquemas de segurança.

Os tempos mudaram, mas a arte de José Moraes e Paulo Werneck felizmente sobreviveu.

4.8.23

ESSE RIO QUE EU AMO; HEI DE SEMPRE AMAR, de CLAUDIO ARAGÃO

A previsão do tempo dava chuvas espaças no decorrer do dia. Frio. Devia me agasalhar, pegar minha sombrinha pra ir ao Centro do Rio de Janeiro. Ando com minha imunidade baixa. Problemas de autoestima... sei lá ...

 

Central do Brasil

Saí nesta segunda de casa, na minha Vila São José, às 8,20 da manhã, Peguei na estação Gramacho o trem das 8:45 rumo a Central do Brasil, deixando pra trás um Gramacho tão querido meu. De minha infância no circo Império onde um cantor em início de carreira fazia apresentações, depois entrava em seu fusquinha e se mandava. O nome dele era Roberto Carlos. Ali, aprendi em 1972 a Datilografia, pra entrar com tudo no acirrado mercado de trabalho. A-S-D-F-G...

 
Jairzinho

O trem passou pelo pequeno bairro de COPACABANA, onde Jairzinho, furacão, artilheiro, recordista, tricampeão  da copa de 70 nasceu e ninguém diz. Parou na recém criada estação Corte Oito. Dali pro Centenário é um pulo. No campo do Tricolor, careca, joguei grandes peladas. O clássico do lugar era Tricolor versus União. Também ali brinquei no Bloco do China só por causa de tanta menina bonita.

 

as meninas eram lindas

“O. lelé, o lá lá/ se segura, fica devagar/ abram alas pro bloco do China passar...” Eu era tímido pra cacete mas as meninas eram lindas...

 
um punho cerrado e altivo no meio da comunidade 

Estação Duque de Caxias. Centro. Da janela olho um imenso chapéu de Cardeal  ocupando a nossa praça de tanto romantismo. Último projeto do gênio Oscar Niemeyer. Ali, os velhos ficavam em seus carteados. Pipoqueiros, árvores, dois cinemas Santa Rosa e um grande de nome PAZ, onde aprendi meus primeiros golpes de Kung Fu com o astro Wang Yu. Hoje é uma C & A sem graça. Muita gente entrou e o próximo destino é Vigário Geral. Tão sofredora. Percebo por um punho cerrado e altivo no meio da comunidade como a pedir justiça que nunca veio. Lembro dos “cavalos corredores” e pra esquecer, melhor ir pra Parada de Lucas, onde reina o Galo dourado da Leopoldina, Unidos de Lucas, que tem o único samba enredo que me faz chorar, Sublime Pergaminho:

 

Uma voz na varanda do paço ecoou

 Meu Deus, meu Deus, está extinta a escravidão.

 

Como não quero chorar a próxima estação é Cordovil, cuja capital é Cidade Alta. Controlada pelo Complexo de Israel e dele eu não falo. Mas sim que o bairro tem um dia, 2 de Outubro, e que na Cidade Alta, o imarcável ponta esquerda do Flamengo, Julio Cesar Uri Gueller ensaiou seus primeiros dribles.

 

Brás de Pina

Olhando pro alto, sinto o trem se encaminhar pra Brás de Pina, que já foi bairro de elite. Era chique morar em Brás de Pina. Aliás, o dito Sr. Brás de Pina tinha uma ligação com o balneário mais badalado do Brasil, Armação de Búzios. Pois que na Praia dos Ossos as baleias eram esquartejadas, deixados seus ossos ali (daí o nome) e o aproveitável seguia para o Sr. Brás de Pina que fazia o fabrico. Óleo de Baleia, por exemplo. Pra esquecer essa prática, prefiro lembrar que neste ex. suntuoso bairro, a lendária e genial Dolores Duran aprendeu sus primeiras notas ao piano. Antes das portas se fecharem pra próxima estação, vejo as comunidades do Pica Pau e das Cinco bocas.

 

Estação Penha

Estação Penha. Ali meu coração fraqueja. Menino de cinco anos, descido de um caminhão “pau-de-arara” em 1964, fui morar na rua 4, Morro do Parque Proletário da Penha. Aprendi juntar letrinhas na Escola Monsenhor Rocha com a Professora Cecília. Me divertir no Parque Shangai e a ter Fé subindo os 365 degraus da escadaria  até chegar aos pés de Nossa Senhora. No campo de terra do Ordem e Progresso, auri-verde invencível, joguei minhas primeiras peladas. Até vir pra Duque de Caxias em 1969. Marejando os olhos, sei que a próxima estação é Olaria. Se percebe pela quantidade de prédios azul e branco e o nome Álvaro da Costa Mello. Dono de Olaria e do Olaria Atlético Clube, de Romário, Cané, Gonçalves, Airton, Roberto Pinto, Afonsinho, Altivo, Alfinete, Miguel. O “Alçapão da Rua Bariri” fazia qualquer valente tremer. Também a Invernada, comandada pelo Homem de ouro Humberto de Mattos. Do alto do morro meu ficava da janela vendo ela cruzar a fronteira com a Penha, poeira subindo, indo atrás de malandros desocupados no jogo da ronda, o grande crime da época. Depois voltava cheia... quase arrastando no chão.

 
Imperatriz Leopoldinense

No vagão onde estou passa por mim somente velhas guardas. O homem rouco que vende sabonete da raspa do Joá, que serve pra tudo. Passa Escobar e sua pomada Canela de velho e o eterno “cuem, cuem” com as legítimas bananadas de Campos dos Goitacazes. Compro três por dois reais e quando olho, chegamos a Ramos. Tá na cara. É só olhar a imensa tamarineira no Cacique, onde uma revolução no samba se fez, num Fundo de Quintal.  Ao lado, na Professor Lacê, a Imperatriz  Leopoldinense  que um dia foi pequena mas que Zé Katimba e Rosinha Magalhães a tornaram gigante. Ademais, e o Piscinão de Dicró é onde? E por falar em grandeza, a FIOCRUZ é onde? Viva a Ciência!  Acho que o Capitão Ramos, que deu nome ao bairro, deve estar orgulhoso onde quer que esteja.

 
Teleférico

Se o tema é orgulho, a próxima estação é Bonsucesso, sobrenome de uma das proprietárias primeiras no bairro. Aqui o Diamante Negro Leônidas da Silva, nosso primeiro Pelé, deu seus primeiros passos justamente no Bonsucesso Futebol Clube, que tem a camisa igual a do Barcelona. Bonsucesso de tantos problemas com poluição. Mas de comércio pulsante. Da Praça das Nações. E do Teleférico subindo pra Comunidade do Adeus. Sinto meu coração acelerar e já sei que a próxima estação é Triagem. Meu primeiro emprego de carteira assinada em 1974 foi ali, na Prefeito Olimpio de Mello, fábrica de cintos, malas e artefatos de metais COFABAM. Tinha apenas 15 anos. Da estação seguia a pé até a fábrica, bairro Benfica. Passava pelo quartel de soldados carrancudos prendendo em trens soldados relapsos, depois a saudosa CCPL, cooperativa de leite e a rua dos Lustres. Lembranças tantas e tantos planejamentos... em 1974... O trem sai lentamente pra me doer mais ainda. Ouço gritos de gols e sei que se trata da estação Maracanã. Lembranças dos  trens cheios, barulhentos, bandeiras desfraldadas, Geral e copos de xixis arremessados em cima de nós, pobres, que não tinha grana pra ir de arquibancadas. Hoje o Maracanã é “arena”. Acabaram com a geral e mandaram pobres pros botequins. Quase ninguém entra na Estação Maracanã e rumamos pro Imperial Bairro de São Cristóvão. Da Quinta da Boa Vista. Do Jardim Zoológico, onde minha família tinha como programação principal ver os animais e depois estender uma toalha no gramado com os alimentos. Lembrança boa de se ter... inda mais quando sei que uma parte de mim está em São Cristóvão. A “Feira dos Paraíbas”.

 

“Feira dos Paraíbas”

O maquinista agradece, deseja bom trabalho e avisa que a próxima estação, Central do Brasil, o desembarque é obrigatório. Ponto final e eu olhando aquele imenso e histórico Relógio lá no alto que não dá as horas. Local de tantas manifestações, protestos, discursos, numa desses um certo presidente foi pro saco e a longa noite desceu.

 

Santo Guerreiro

Atravessei a roleta, parei na Lanchonete DOURADO, Seu Brás, 30 anos de casa, já sabe meu gosto. Média de café com leite e pão na chapa. Conversamos e ele nunca deixou de reclamar. Me despeço e cruzo a Presidente Vargas. Entro no abandonado Campo de Santana. Não olho pra direita, residência do mal agradecido, escroto Marechal que deu o golpe no Imperador que o promoveu. Saio pela esquerda. Dou de cara com São Jorge em seu cavalo. Entro, me ajoelho, rezo, peço ao Santo Guerreiro que me proteja dos olhares maldosos, dos dragões do dia a dia. Acendo uma vela, compro três canetas e uma fita vermelha que boto no pulso. Sigo e passo pela Alfandega, Buenos Aires, no prédio do TCE mudo de calçada, retomo e viro na Rua da Constituição. Dali, Praça Tiradentes. Mitológica. da Gafieira Estudantina da inesquecível Maria Antonieta. Teatro Carlos Gomes, João Caetano. Agora entro na Rua da Carioca famosa. Todas as lojas fechadas compradas por um banco oportunista (Sim! Sei que é um pleonasmo!!!) menos o outrora suntuoso, aristocrático CINE-THEATRO ÍRIS, que se viu obrigado a mudar para o ramo erótico e sobreviver. Paro a olhar toda aquela arquitetura e três porteiros me olham e dão um folheto com a programação daquela noite. Agradeço. Cruzo a Rio Branco, o Buraco do Lume, a Primeiro de março, estou na Praça XV a olhar o magistral Chafariz do Mestre Valentim. Depois passo sob o Arco do Telles, travessa do Comércio, Rua do Ouvidor. Ali, o Toca do Baiacu está repleta de gente almoçando. A barriga está nas costas. Ao lado da Toca está uma deslumbrante e sagrada Igreja; Nossa Senhora da Lapa dos Mercadores, de 1753, depois de três anos restaurada e linda demais. Ela tem uma bala explosível de canhão alojada em sua torre desde muito tempo que um navio revoltoso disparou contra ela.  Mesmo ao lado do sino trepidando constantemente, até hoje não explodiu; Milagre.

 

Bala que atingiu a torre da Igreja de Nossa Senhora da Lapa dos Mercadores. Na verdade, não está mais alojada na torre, e sim exposta na sacristia.

Entro, me ajoelho, olho, peço, registro. Em Jejum, minha oração tem mais chance de chegar ao céu. 

Ao lado da Igreja está um dos últimos bastiões na luta da verdadeira identidade carioca; a Livraria FOLHA SECA, de Rodrigo Ferrari (Digão) e seu fiel escudeiro, Miguelzinho. Nos abraçamos, botamos o papo em dia e levei um Aldir Blanc; o delicioso “ UMA CAIXINHA DE SURPRESAS” .

 

o essencial CCBB

Agora, o essencial CCBB. Ver a programação com música, teatro, exposições. Fui lá especificamente pra uma sobre HEITOR DOS PRAZERES. Me identifiquei e subi pro segundo andar.

 

“Mangueira teu cenário é uma beleza

Que a natureza criou”

 

foi grande nas Artes Plásticas

Esse magistral artista Multi foi Compositor, Ator, Cantor, participou da fundação das primeiras escolas de samba do Brasil e foi grande nas Artes Plásticas com uma pintura que abordava comunidades com um viés alegre, cheio de cores. Certa vez a jovem Rainha Elizabeth esteve numa exposição e ao ver seus quadros perguntou a alguém : “Quem é esse artista extraordinário?!”

 

Pois é. Nas paredes, seus quadros, matérias em jornais daqui e do estrangeiro. Roupas de desfiles, instrumentos, vídeos.

 

esse Rio que eu amo; hei de sempre amar.

Ufa! Banho de Brasil, banho de Rio de Janeiro. Imunidade lá nos píncaros. Deixei então o CCBB, todo janotas. Segui a pé pra Central do Brasil. Em lá chegando pedi ao Seu Brás dois “Joelhos” Presunto e queijo. Um suco de acerola. Seu Brás sorriu; sorrimos. Depois na roleta da gratuidade peguei o trem ramal Gramacho horário 16:45. E da janela vendo de novo esse Rio que eu amo; hei de sempre amar. 

O AUTOR

Claudio Aragão foi retirante da seca do Ceará, cursou faculdade de Letras no Rio de Janeiro, gerenciou restaurantes famosos como o lendário bistrô francês Le Bec Fin, frequentado pelo pai do editor deste blog, e tem várias obras publicadas, destacando-se a série sobre futebol em forma de literatura de cordel.