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Literatura & Rio de Janeiro

O blog de quem ama o Rio de Janeiro, seus encantos, história, literatura e arte.
"Andar pelo Rio, seja com chuva ou sol abrasador, é sempre um prazer. Observar os recantos quase que escondidos é uma experiência indescritível, principalmente se tratando de uma grande cidade. Conheço várias do Brasil, mas nenhuma tem tanta beleza e tantos segredos a ae revelarem a cada esquina com tanta história pra contar através da poesia das ruas!" (Charles Stone, um dos milhares de visitantes deste blog)

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Nome: Ivo Korytowski
Local: Rio de Janeiro, RJ, Brazil

18.11.09

RIO MOSAICO 2009


Um bom pretexto para visitar o Forte de Copacabana...

9.11.09

ROTEIROS GEOGRÁFICOS DO RIO


O INSTITUTO DE GEOGRAFIA DA UERJ PROGRAMOU PARA NOVEMBRO UMA SÉRIE DE PASSEIOS IMPERDÍVEIS (E GRATUITOS) PELO CENTRO, CATETE, FLAMENGO E GLÓRIA, INCLUSIVE O JÁ POPULAR PASSEIO NOTURNO. PARA VER A PROGRAMAÇÃO COMPLETA DOS PASSEIOS E COMO SE INSCREVER CLIQUE AQUI.

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5.11.09

MORRO DO PINTO no SANTO CRISTO



Quem passa pela Avenida Presidente Vargas vê, na altura da Cidade Nova (quem sobe para a Praça da Bandeira vê à direita, quem vem de lá vê à esquerda), uma igrejinha numa colina cercada de casinhas: a Igreja de N.S. de Montserrat, no Morro do Pinto, Santo Cristo. O morro deve seu nome ao comerciante Antônio Pinto Ferreira Morado, antigo proprietário de terras ali. Convidei a poetisa Conceição Albuquerque, que viveu no morro até os 17 anos, a acompanhar-me lá. É dela a crônica que vocês lerão. Ela também tirou algumas fotos, marcadas com CA. As demais (exceto a antiga, em preto-e-branco) são do editor do blog.


"Em primeiro plano a desativada fábrica Bhering"

Quando recebi o convite do meu amigo Ivo, editor do blog, para ir ao Morro do Pinto, onde nasci e vivi até os dezessete anos, confesso que hesitei. Voltar a um lugar carregado de ótimas lembranças, após tantos anos, quando sabemos o tanto de estrago que o tempo pode fazer, me assustou. Havia também o temor de reacender lembranças ruins. Inconscientemente, adiei, adiei, adiei. Mas acabei não resistindo ao convite.

Nosso encontro começou na Praça Mauá. De lá, um ônibus nos deixou na Rua Santo Cristo. De pronto o Supermercado Mundial, em cujo prédio funcionava outro mercado onde minha mãe fazia as compras do mês, atiçou-me a memória. As imagens acotovelaram-se à minha volta.

Propus a subida pela Vidal de Negreiros, rua de pedras, com suas escadarias ladeando as casas à direita e à esquerda e logo logo vi mudanças: fachadas remodeladas, novos patamares construídos, a quitanda da quase esquina, agora residência. Virando a primeira à direita chegamos à Rua Carlos Gomes, última rua onde morei. O grande terreno que antes pertencia à Shell transformara-se num parque, que não chegamos a visitar.

Fui percebendo o preenchimento de terrenos baldios por novas construções. O antes chamado “morrinho”, à esquerda, por onde descíamos da Rua Deolinda para a Carlos Gomes já não existia. A paisagem vista da rua não mudara tanto, aparentemente. Em primeiro plano a desativada fábrica Bhering. Precisaria de muito tempo para avaliar os detalhes que percebia em criança, para compará-los aos atuais. Conseguiria apontar as diferenças? Seria como tentar resolver um jogo dos 7 erros, usando apenas a memória. Sem chance. Melhor seguir em frente.



Rua Carlos Gomes: "Chegamos ao número 360, minha última residência" (CA)

Chegamos ao número 360, minha última residência: um sobrado na época, hoje com mais dois andares, onde passei parte da infância e adolescência. A rua, onde brincara tanto de pique, queimado, pique-bandeira, corda, amarelinha, etc.etc., parecia mais estreita. Aquela impressão trazida pelo passar dos anos que José Lins do Rego nos mostra. Ao olhar para a varanda, que continuava a mesma, parecia ver minha mãe sentada no banquinho de madeira, apreciando o nascer do sol, e meu pequenino cachorro Joli, vira-latas metido a bassê, latindo valentemente aos cachorros maiores que por ali passavam. Na sala da frente imaginei meu velho piano, doado na mudança, ecoando desafinado pelo uso e pelos cupins que insistiam em ali viver.

Adiante, os prédios maiores, que vão da Carlos Gomes à Deolinda, pertencentes cada um a uma mesma família. Para mim, criança, residência dos mais “ricos” da rua. Lá do alto, no terceiro andar de um deles, a cabeça branca da antiga professora de piano, por quem eu tinha admiração enorme, nos acenou ao meu chamado. Prometi voltar outro dia, com mais tempo. Dali podíamos ver parte da ponta do Caju, Estação da Leopoldina, São Cristóvão, o Cais do Porto, a Ponte Rio-Niterói, a Ilha do Governador. Ao longe, encarapitada numa pedra cinza, à esquerda, a Igreja da Penha que conseguia distinguir, amparada na memória dos dias em que a via iluminada.

Continuando a subida, o contato com os prédios por onde passava para ir à Igreja de N.S. de Montserrat. Num deles, à entrada, ainda estava fixado o símbolo da Guarda Noturna, uma plaquinha redonda, em branco, preto e vermelho, com a figura de um galo. Ivo reconheceu-o. Tempos idos do Rio de Janeiro.



Vista da Rua Carlos Gomes (CA)

Chegamos à Rua Deolinda na curva à esquerda, saudados por um valente cão negro. A sensação de intimidade ao percorrê-la era a mesma. Na esquina da travessa à direita estavam os prédios de dois estabelecimentos da época, um deles fechado, com a inscrição PADARIA. Era ali o armazém do seu Serafim onde comprávamos tantas coisas, inclusive os picolés de groselha, que sugávamos até ficar branco, e o de coco, que tinha aquela camada áspera da fruta por cima. Lembro-me que anos antes, reconheci tal prédio no filme Lúcio Flávio, passageiro da agonia, o que segundo moradora atual realmente ocorreu. Ali se fizeram algumas filmagens. O outro prédio à entrada da travessa já não era o açougue de dona Augusta, mas um bar, pintado com o logotipo da cerveja Itaipava. No final da Deolinda, à esquerda, o prédio onde morei, felizmente bem conservado, guardando tantas histórias.

Chegamos à rua mais alta, a Mont'Alverne, cujos casarios, alguns repintados, outros remodelados, continuam os mesmos, inclusive a antiga “venda do seu Alfredo”, datada de 1922. Adiante, na praça, a Igreja de N.S. de Montserrat, maltratada é certo, inclusive com seu coreto transformado em varal de roupas, mas certamente mantendo o espírito sagrado a quem a visita por dentro (assim espero). A vista alcança a Av. Presidente Vargas, Santa Teresa, a estação da Central do Brasil, o centro da cidade do Rio de Janeiro. Do outro lado da montanha, mais à esquerda, a zona sul. À direita, a zona norte.

Voltamos pela Mont'Alverne para chegarmos à Rua Farnese, onde Ivo queria fotografar preciosidades. Começamos a fazer o caminho que durante alguns anos percorri para chegar à Escola General Mitre, na própria Farnese. Trajeto sinuoso, de tantas recordações. Adiante, já no entroncamento com a Rua Mariano Procópio, deparei-me à direita com a casa em que nasci, lá nos fundos do terreno. Infelizmente, a foto se perdeu. Um dia volto lá. A Farnese está “melhorada”, não é mais de terra e as casas conservadas mantém um ar aconchegante de cidade do interior. Enfim, e para nosso deleite, Ivo encontra as três construções tombadas pela Prefeitura, lindas casas que eu, menina, não sabia do valor histórico.



"dois estabelecimentos da época, um deles fechado, com a inscrição PADARIA" (esquerda) "um bar, pintado com o logotipo da cerveja Itaipava" (direita)

Na esquina com a Rua Saldanha Marinho certa decepção pelas ruínas do que antes foi o armazém do “Seu Clides”, onde eu adorava comprar doces, antes ou depois da escola. Ivo lembrou do registro desta construção em certo livro que possui. Interessante comparar tal registro em foto de 1934 com a memória dos anos 50 e agora em 2009.

Subimos a Saldanha Marinho, de casas menos conservadas, apenas algumas remodeladas. No alto da Saldanha Marinho, entroncamento com Mont'Alverne, paramos no largo onde ficava o Clube 13 de Maio, no qual brinquei em bailes de carnaval. Ali se dava o encontro dos maratonistas do circuito que havia pelas ruas do morro, em todo último domingo de julho. Segundo informação de morador atual, tal evento permanece até hoje, apenas terminando em outro local. O clube não mais existe. Hoje é residência.

Seguimos para a Rua Sara, longa rua que nos leva à Rua Santo Cristo, embaixo. Lá paramos no bar do Omar, simpaticíssimo e acolhedor, onde bebemos água e visitamos o novo piso que ele está fazendo e de onde fotografamos parte da paisagem. Vê-se a Rua Pedro Alves abaixo, que chega à Estação da Leopoldina, onde ficava a antiga fábrica de Açúcar Pérola; a Ponte Rio-Niterói, a chaminé e o globo da Bhering, onde havia um relógio que funcionava; à esquerda destacando-se São Cristóvão: o pavilhão, atual Feira Nordestina, o prédio da antiga faculdade de engenharia da UFRJ, o Lazareto. À direita, em tom amarelado, vê-se o novo templo do samba na cidade, a Cidade do Samba.

Descemos a Rua Sara e chegamos à Rua Orestes, à direita, onde funcionava a fábrica Bhering, de doces recordações. Bem recebidos por duas pessoas à entrada, soubemos que a fábrica mudou-se para Varginha, MG, mas suas instalações atualmente são locadas para diversos eventos, inclusive gravações de filmes e novelas, funcionando, também, no segundo piso uma loja de móveis fabricados com madeira de demolição e objetos antigos.

À pergunta sobre as guloseimas que a Bhering fabrica, puseram à nossa disposição para compra os maravilhosos e tradicionais caramelos cobertos de chocolate, embrulhados em papel azul com bolinhas brancas. Final doce e feliz para nosso agradável passeio ao Morro do Pinto, que parecia dormitar a sesta tranqüila, tal uma cidade de interior.



"No final da Deolinda, à esquerda, o prédio onde morei"


Rua Carlos Gomes


Rua Deolinda


"Dali podíamos ver parte da ponta do Caju, [...] o Cais do Porto, a Ponte Rio-Niterói, a Ilha do Governador."


Igreja de N.S. de Monstserrat (CA)


idem


"com seu coreto transformado em varal de roupas"


"A vista alcança a Av. Presidente Vargas, Santa Teresa, a estação da Central do Brasil, o centro da cidade do Rio de Janeiro."


Armazém na Rua Mont'Alverne do início do século XX


Rua Farnese, 45, 49 e 51: "três construções tombadas pela Prefeitura"


Uma das três casas tombadas


Chalé na Rua Farnese


"ruínas do que antes foi o armazém do Seu Clides


Foto antiga do encontro da Rua Farnese com a Saldanha Marinho. À esquerda o chalé da foto mais acima e do outro lado da rua o antigo armazém; à direita (onde estão as crianças) uma das casas tombadas. Foto escaneada do livro História dos Bairros: Zona Portuária da João Fortes Engenharia.


Rua Saldanha Marinho


"Fortaleza" na Rua Sara


"bar do Omar, simpaticíssimo e acolhedor"


"Vê-se a Rua Pedro Alves abaixo"


Rua Sara, em frente ao bar


"agradável passeio ao Morro do Pinto..." (CA)


"...que parecia dormitar a sesta tranqüila, tal uma cidade de interior"

1.11.09

HISTÓRIA URBANA


Na Rua Santa Clara, quase em frente ao meu prédio, existiam três casas uma ao lado da outra. Uma casa à esquerda (3/5/06)...




uma casa à direita (3/5/06)... e a casa do meio. Um belo dia percebi que uma delas — a do meio — estava sendo demolida (29/4/06)...




demolida... demolida. (3/5/06)




Depois foi a vez da casa da direita ser demolida... demolida... demolida. (8-9/5/06)




Até que no local das duas casas — a do centro e a da direita — restou um espaço vazio. A casa da esquerda resistiu, impávida. (10/5/06)




Procedeu-se à terraplanagem (13/5/06). Um belo dia surgiu a placa de uma construtora (14/9/06)...




E começaram as obras (27/10/06). Unidades foram vendidas no prédio em construção (13/1/07).




Nome: RESERVA COPACABANA (14/3/07). O prédio novo (envolto num "véu") foi subindo (11/9/07)...




subindo (30/11/07)... subindo (7/8/08)...




Abriu-se uma imponente portaria. O "véu" que encobria as obras enfim foi retirado. (13/12/08)




No lugar das duas casas ergue-se hoje um prédio requintado: Rua Santa Clara, 357. Mas a casa da esquerda continua firme e forte!!! (25/9/09)

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27.10.09

COM HELIO BRASIL EM SÃO CRISTÓVÃO

Ao falar de São Cristóvão, sou tentado por graves pecados: bairrismo (em muitos sentidos), saudosismo e fantasia da memória. Confesso tropeçar na linha limite entre a nostalgia e as lembranças. São Cristóvão está ligado à minha adolescência, época da vida em que geralmente as paisagens triviais são coloridas pela juventude, embelezando um quadro irrecuperável no presente. Peço desculpas se, utilizando as tintas da saudade, volto ao bairro retomando cores do passado.

O leitor me acompanhe em imaginárias caminhadas, avalie onde está a história e, sobretudo, me releve a tentação de falar dos dias em que o bairro ainda não fora injuriado por intervenções desastrosas. Se ao fim deste livro estiver convencido de que
São Cristóvão encerra muito da história do Rio de Janeiro e, sem exageros, do Brasil, estarei satisfeito.


(Helio Brasil,
São Cristóvão, Relume Dumará, pág. 14. Legendas das fotos a seguir — exceto textos entre colchetes — extraídas deste maravilhoso livro.)


A grande intervenção paisagística da Quinta [da Boa Vista] ocorre na segunda metade do século XIX, quando Pedro II incumbe o francês (nunca nos faltaram franceses para embelezar o Rio) Auguste François Marie Glaziou, como Diretor dos Parques e Jardins da Casa Imperial, de dar o toque artístico nos jardins do parque. O traço do francês já se fizera presente no Passeio Público e Campo de Santana. (pág. 115)



Proclamada a República, o palácio [imperial] abrigou a Assembléia Constituinte e, a partir de 1892, torna-se o Museu Nacional. [...] O Acervo do Museu é notável, sobretudo as peças tão caras ao imperador, ligadas à arqueologia. (págs. 114-5)



Descendo a Fonseca Teles encontraremos o Bairro de Santa Genoveva (na verdade, um minibairro), um conjunto residencial com arruamento ajustado à topografia do morro denominado do Breves. (pág. 78)



Não faltou ao núcleo uma capela devotada a Santa Genoveva, protetora de Paris. Convém lembrar que até a Segunda Guerra Mundial ainda éramos muito afrancesados em gostos e em nomenclaturas. (pág. 79)



Por trás do campo de São Cristóvão, na rua General Bruce, ergue-se no morro de São Januário, desde 1921, o Observatório Nacional, transferido do morro do Castelo. A visita ao local, principalmente agora em que lá foi criado o Museu da Astronomia, nos deixa maravilhados com o prédio principal [foto] e...



...as cúpulas onde estão instalados os telescópios, É imperdível a beleza da área verde do terreno, a cavaleiro do bairro. (pág.71)



Caminhando para o Campo de São Cristóvão, visite o prédio neogótico do Educandário Gonçalves de Araújo. Deixe-se encantar pelos jardins cuidados à frente do edifício. Espante-se com o caprichoso tratamento das escadas e não deixe de ver a capela interna. (pág. 104)



[Educandário visto do Observatório]


Para tornar-se cristão foi aconselhado a servir ao próximo. Dedicou-se a ajudar viajantes na passagem de um caudaloso rio, carregando-os nos ombros. Certo dia um menino solicitou seus serviços, e Réprobo, ao desincumbir-se deles, surpreendeu-se. Somente com enorme esforço, arrastando inesperado peso entre águas revoltas, concluiu a travessia, deixando a criança a salvo na outra margem. Foi-lhe então revelado que transportara em seus ombros o próprio filho de Deus e, conseqüentemente, os pecados dos homens por ele redimidos. A partir dali, batizado, ganhou o nome de Cristóvão (Cristophoros - o que carrega Cristo). (págs. 17-18)



[São Roque] é festejado em 16 de agosto, com a retumbância de fogos de artifício que faziam rubros os céus do bairro e trêmulos os nossos muros, forte tradição do bairro. (pág. 78)




Visite a casa da marquesa de Santos, a Domitila de Castro Canto e Melo, que tanto trabalho deu à corte do Primeiro Reinado. Saiba que a construção é um dos exemplares da arquitetura neoclássica no Rio de Janeiro e tem em seus interiores belos trabalhos de artistas importantes. [...] É hoje o Museu do Primeiro Reinado. (págs. 107/109)



Em frente à escola [Nilo Peçanha] está o Museu Militar Conde Linhares, o Museu de Artilharia. O edifício abrigava os cursos de preparação de oficiais da reserva (CPOR). (pág. 76)



Ao lado [do Hospital Quinta D'Or], no mesmo terreno, uma centenária e modesta capela dedicada a São Francisco de Paula. [...] A capela é pequena e o que encanta são sua singeleza e o desenho neogótico. [...] Revi, emocionado, os velhos santos. São José, São Luiz Gonzaga... Não sei se me reconheceram. Notei em um dos anjos tocheiros um leve sorriso de desdém... [págs. 81-2, 85, 87)



[O Pavilhão] serviu para exposições durante algum tempo e, depois, esteve prestes a ser demolido. Foi salvo pela instalação oportuna da feira no seu interior, ganhando especial colorido com as comidas típicas, as músicas e os festejos que tanto falam à alma brasileira então lá preservados. Tudo ali recorda os primeiros momentos em que nordestinos chegavam no Campo em seus transportes arriscados para tentar a sorte na grande cidade que ajudaram a construir. (pág. 105)



O Campo de São Cristóvão, de fundamental importância para o bairro, é considerado seu centro geográfico. No início do século XX o Campo mereceu reforma caprichada do governo Pereira Passos. [...] Na grande praça, restam o coreto e o mictório, equipamentos muito comuns e típicos nas praças brasileiras. (págs. 63/65)



O Zoológico é uma grande conquista do bairro e fator de valorização para o parque e para o Rio de Janeiro. O projeto de suas instalações originais nos idos de quarenta é do arquiteto David Azambuja.

Postagem originalmente publicada em 21/7/06. Fotos do editor do blog. Para acessar uma monografia de Rejane Sobreira Minato sobre a história do bairro de São Cristóvão clique aqui. Para ler matéria sobre a revitalização do bairro e ouvir um áudio de Helio Brasil, clique aqui. Para ver outras postagens sobre São Cristóvão clique no marcador abaixo.

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20.10.09

O 11 de Setembro do Rio

Palavras do Secretário de Segurança Beltrame: ""O que eu queria mesmo é que entendêssemos a queda do helicóptero no último dia 17 como sendo nosso 11 de setembro. E a partir daí houvesse política de segurança, não de governos, mas de estado. Não de um, mas de todos. Sociedade também."
Saiba mais sobre o desabafo do Secretário acessando o Blog do Noblat.

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19.10.09

A MAGIA DAS ESCADARIAS

Texto de J. Carino com fotos de escadarias cariocas do editor do blog.


Escadaria da Igreja da Penha


Escadaria (tombada pelo município) da Rua Costa Barros, Morro do Livramento

Para mim, as escadarias têm uma espécie de magia. Sempre que me aproximo de uma, fico tentando a decifrar essa dimensão mágica, que tem a ver com a dimensão ascensional.

Ascender, subir, elevar-se – palavras que se associam a redenção, sucesso, vitória: ascender aos céus, subir na vida, elevar-se por seus próprios méritos.

Nossas simples escadas domésticas, ou mesmo as escadas utilitárias dos profissionais - como os pedreiros, pintores, ou todos os que se utilizam desses instrumentos de subir - essas não têm a tal magia; não nos escondem nada, não ameaçam nos surpreender de repente com algo inusitado. Cumprem sua missão de nos elevar do chão, e pronto.


Escadaria do Jardim Suspenso do Valongo, na encosta do Morro da Conceição

Já as escadarias parecem sempre nos remeter a uma dimensão transcendental, e mágica. Lembremos, por exemplo, das escadarias imensas de templos localizados em morros ou colinas. Quando chegamos ao pé delas, e olhamos para cima, vemos aquela grande quantidade de degraus posicionados à nossa espera, como um desafio. E já sentimos a sensação de que, ao final, existe algo a descobrir, depois que vencermos a dificuldade de ascensão, com nosso coração cansado do esforço e nossa respiração ofegante, na tentativa de recuperar rapidamente o fôlego. Lá, no termo da subida, haverá uma recompensa, a dádiva imaterial dos que subiram mantendo sua fé.

Mas, mesmo as escadarias leigas nos apresentam essa magia. Nas cidades em que há escadarias, parece que existe sempre alguma coisa que nos espera para além delas, algo que jamais conseguiremos atingir, mesmo tendo chegado ao cimo da longa escada.

Reparem que há sempre magia nessas cidades cheias de ruas íngremes e cobertas de escadarias.

Quando as percorremos, aí pelo Brasil, as cidades coloniais nos apresentam suas escadarias, acompanhando, completando ou cruzando as ladeiras. Parecem sentinelas ordenadas, espiando-nos de uma outra dimensão, como a lembrar-nos, a cada passo, dos esforços exigidos de muitos, desde muitos séculos.


Pedra do Sal, Morro da Conceição

Quando chegamos ao alto de uma dessas escadarias, seria natural uma sensação de triunfo, uma espécie de orgulho, ou mesmo uma certa arrogância advinda do sucesso. Olhar de cima é uma metáfora geralmente transformada na realidade, nua e crua, da dominação de uns sobre outros, dos poderosos sobre os fracos, dos ricos sobre os pobres, dos que mandam sobre os que devem obedecer.

Eu, curiosamente, quando subo, lentamente, uma dessas escadarias, e chego ao seu término, lá no alto, sinto-me um pouquinho mais humilde, menos pretensioso. É como se o esforço e a dificuldade vencidos purgassem, ainda que minimamente, minhas possíveis pretensões de ser maior, ou melhor, ou mais poderoso.

Já na descida não vejo magia nas escadarias. Tudo se reduz ao ato simples de descer, mesmo quando envolvido numa paisagem cativante. Talvez porque, descendo, podemos reduzir quaisquer pretensões à real condição em que todos vivemos: cá embaixo, no mesmo nível, igualados tanto na possibilidade de subir quanto na inevitável condição de, um dia, ter de descer.

Claro, meu prezado leitor, que não resisto a utilizar as escadarias em sua imagem usual: a de metáforas da vida, no seu sobe e desce constante e inexorável. Mesmo nossa vida orgânica é isto: do nascimento como base da escadaria, passando pelo ponto mais alto, no vigor da juventude e da maturidade, depois descendo, na direção da velhice, até voltar à base, representada pela morte.

Independentemente da magia que vejo nelas, acho as escadarias lindas, e sempre rendo uma homenagem muda a essa maravilhosa invenção, desde que foram escavadas nas rochas ou em troncos, com esses degraus que nos permitem ascender ou descer.

Os degraus de uma escadaria, com sua beleza simples e ordenada, guardam em si marcas indeléveis dos passos que nelas subiram. Num dia calmo, num momento mais silencioso do dia, talvez seja possível até ouvir o ruído de tais passos, que já subiram, desceram e para sempre se perderam nas escadarias do tempo vivido.



Escadaria da Rua Andrés Belo que sobe da Glória a Santa Teresa (cenário do conto "O Morto" do meu livro Édipo)


Escadaria Selarón, Lapa

J. CARINO é professor universitário aposentado, consultor e escritor. Para ler outras crônicas suas, visite seu
blog ou compre seu livro Olhando a Cidade e Outros Olhares.

2.10.09

PARABÉNS, RIO!


O Rio de Janeiro conquistou o direito de sediar os Jogos Olímpicos de 2016 na tarde de sexta-feira. O placar foi folgado. A vitória, arrasadora. O poder econômico de Chicago, a eficiência de Tóquio e a história de Madri ficaram a comer poeira. O anúncio, feito pelo presidente do Comitê Olímpico Internacional (COI), Jacques Rogge, foi o reconhecimento de uma candidatura madura e realista – corolário da força de uma economia estável e de uma nação politicamente pacificada. A tocha do ideal olímpico já ilumina o Rio de Janeiro com sua mensagem de superação individual com respeito às regras: "Citius, altius, fortius!" [lema dos Jogos Olímpicos que significa "Mais rápido, mais alto, mais forte!”] (Revista Veja, 7 de outubro de 2009)







ELE MERECE! PS. Começam a circular na Internet as indefectíveis críticas à nossa Olimpíada. Eta pessoal chato de galochas. Devem ser reencarnações do pessoal que era contra a vacina obrigatória no início do século passado. O Pan foi um sucesso, qual o problema de termos uma Olimpíada? Trará turismo, trará progresso, obrigará as autoridades a enfrentarem problemas crônicos (transportes, tráfico...), por que ser a priori do contra? Não é melhor dar uma de jogador de pôquer e "pagar pra ver"?



Fotos tiradas em Copacabana cerca de uma hora antes do anúncio da cidade que sediará as Olimpíadas de 2016. Para ler matéria da Veja-Rio sobre os benefícios das Olimpíadas para o Rio clique aqui.

RIO DE JANEIRO DE ENCANTOS MIL

Texto de Paulo César Martinez y Alonso (Pró-Reitor de Desenvolvimento da UniverCidade)


Praia de Copacabana; ao fundo, Leme e Pão de Açúcar

O Rio de Janeiro precisa de gente que vive, ama e trabalha pelo seu permanente progresso, desenvolvimento e (re)construção. E, para tanto, não somente o carioca como todos aqueles que elegeram o Rio para viver precisam se empenhar para que a Cidade possa continuar Maravilhosa. Para que isso ocorra, todos os cidadãos devem contribuir. E as autoridades constituídas têm o dever constitucional de zelar por sua segurança, além, é claro, de buscar caminhos, visando oferecer, e de forma permanente, educação, cultura, cidadania, saúde e bem-estar social.


Praia de Ipanema, pertinho do Arpoador

Não há no mundo Cidade mais encantadora. Paris, Londres, Roma, Atenas, Jerusalém, Cairo, Tóquio e Nova York guardam seus encantos, suas tradições, suas culturas e suas civilizações. A Cidade Maravilhosa, coração do Brasil, guarda encantos mil. Guarda praias, abriga florestas, encanta com o Pão de Açúcar e é abraçada pelo Cristo Redentor, que, diariamente, do Alto do Corcovado, também abençoa a todos, e sempre de braços abertos.


Corcovado visto do Jardim Botânico

Entre o sol de Ipanema, o mar de Copacabana, as Lagoas Rodrigo de Freitas e de Marapendi e a Mata Atlântica, está geograficamente a Cidade do Rio de Janeiro, que vem servindo de inspiração permanente para músicos, cineastas, poetas, escritores e artistas plásticos. Tom Jobim e Vinícius de Moraes, por exemplo, se serviram dos cenários da Cidade para compor músicas inesquecíveis, além de Chico Buarque e Belchior, dentre outros. João Cabral, na Praia do Flamengo, Manuel Bandeira, na Glória, e Carlos Drummond de Andrade, em Copacabana, foram, lembrando o poeta português Fernando Pessoa, grandes "antenas do Mundo". Fizeram versos e poesias, declarando, dessa maneira, amor e paixão, além de reverência, pela cidade. Pancetti e Sylvio Pinto, com suas marinhas, retrataram o litoral da Cidade, do cais do porto a Grumari.


Casa França-Brasil; ao fundo, Igreja da Candelária

Que maravilha! A atriz Teresa Rachel costuma dizer que, quando está com as malas prontas para viajar, curte a idéia de passar alguns dias fora, mas, quando demora em uma capital, sente saudades do Rio de Janeiro. Sentimento que certamente é dividido por todos os cariocas. Aliás, sentir saudades do Rio de Janeiro é até motivo de orgulho. A magia da cidade, com seu clima paradisíaco, banhada pelo Atlântico Sul, debaixo da linha do Equador e sob o Trópico de Capricórnio, seduz. E não é à toa que ela recebe, e sempre com hospitalidade, pessoas de todas as partes do mundo.


Igreja de N.S. da Lapa dos Mercadores vista da Rua do Mercado

Lembrando o maestro e compositor Tom Jobim, "Minha alma canta, vejo o Rio de Janeiro. Estou morrendo de saudades. Rio, teu mar, praias sem fim..., você foi feito para mim...". Aqui apareceram a Garota de Ipanema (..."olha que coisa mais linda, mais cheia de graça..."). Salve Helô Pinheiro, imortalizada pelo maestro maior, e o Menino do Rio, do baiano Caetano Velloso. As imagens das praias cariocas, do Morro Dois Irmãos, do Joá, do Jardim Botânico, da Princesinha do Mar, da Ilha Fiscal, da Floresta da Tijuca e dos carnavais (Mangueira e "as rosas não falam", de Cartola e de Dona Zica, Império Serrano, Beija-Flor, Portela e Salgueiro), sem esquecer do Maracanã (50 anos de vida e de glórias) são registradas por todas as emissoras de televisão do mundo.


Detalhe do Rio Antigo

Gláuber Rocha, Albino Pinheiro, Leila Diniz, Mário Peixoto e Sérgio Cabral foram/ são alguns dos personagens mais ilustres da Cidade. O Rio Antigo, de Ferrer, de Debret e de Rugendas...


Favela Pavão-Pavãozinho vista da Rua Raul Pompéia (Copacabana)

Ser carioca, aliás, é um estado de espírito, como costuma dizer a colunista Danuza Leão, sempre tão exuberante nas palavras. Ruas, praças, becos e favelas da Cidade estão imortalizadas, em belas canções. A Rua Nascimento Silva, por exemplo, ficou eternizada na voz da "Divina" Elizeth Cardoso, assim como o bairro de Copacabana, nas interpretações de Farney.


Igreja da Glória

Poder contemplar o projeto paisagístico do Aterro do Flamengo, a Igreja da Glória, no alto da Colina do Outeiro, a Candelária, os prédios centenários e históricos do Centro Cultural do Brasil e a Casa França-Brasil, assim como o Mosteiro de São Bento - uma jóia rara - , é absolutamente fantástico.


Igreja da Glória (detalhe)

Caminhar pela Paineiras é igualmente prazeroso. E a Cidade vista lá de cima mais parece um imenso, e gigantesco, postal. Em cores... Santa Teresa também encanta, com seu charme e beleza.


Cariocas ilustres: João do Rio, Rosinha, Villa Lobos, Noel Rosa, Manuel Bandeira, Madame Satã, Portinari, Di Cavalcanti

O Rio de Janeiro merece que todos seus habitantes trabalhem pela valorização dos seus encantos, pela preservação da sua história, pela divulgação da sua cultura, pela propagação da sua música, pela proteção ao seu rico meio-ambiente e pela obstinação em transformar, e definitivamente, a Cidade Maravilhosa no portão principal de entrada do turismo da América Latina.


Jardim Botânico: Chafariz das Musas

Para tanto, faz-se mister que todos juntos estejam de prontidão e em sua defesa.


Beco dos Barbeiros

Sempre.

O Rio é simplesmente incomparável !



Praia de Ipanema: ao fundo, Morro Dois Irmãos e Pedra da Gávea

Texto originalmente publicado no livro Anos de avanço na educação, no Jornal de Brasília e Jornal do Commercio. Postagem originalmente publicada neste blog em junho de 2007 mas vale a pena ver de novo. Fotos do editor do blog.

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30.9.09

LAZARETO DE SÃO CRISTÓVÃO

Texto do livro de Helio Brasil, São Cristóvão (Coleção Cantos do Rio, Editora Relume-Dumará). Fotos do editor do blog, exceto a antiga em preto-e-branco e as duas com iniciais NC, gentilmente cedidas por Nireu Cavalcanti.


Pintura de Leandro Joaquim, provavelmente de 1785, intitulada Procissão Marítima, exposta no Museu Histórico Nacional. Observe a antiga Praia de São Cristóvão e o Lazareto numa colina à esquerda.


Lanternim e dois dos quatro coruchéus vistos da Rua São Cristóvão


Hospital Frei Antônio (ex-Hospital dos Lázaros): Fachada posterior

Experimente o leitor conhecer o Hospital Frei Antônio do Desterro.

Eis o que nos diz Moreira de Azevedo:

"Vagando pela cidade diversos indivíduos atacados de elephantiasis dos Gregos (sic), ou mal de são Lázaro, assustou-se o povo do contágio da moléstia.”

Aparentemente, doenças deformantes eram confundidas. Fosse como fosse, os inúmeros doentes davam má aparência ao centro da cidade, já tornada capital do vice-reino. O conde de Bobadela, Gomes Freire de Andrade, tentou dar condições ao antigo abrigo dos jesuítas no atendimento aos enfermos para removê-los do Centro. Para lá foram. Amontoavam-se os infelizes em casebres à frente do abrigo na praia de São Cristóvão. Mais tarde (1763), o conde da Cunha, sucessor de Bobadela, conseguiu implantar o Lazareto, graças à interferência de Frei Antonio do Desterro já sob a administração da Irmandade da Candelária.



Jardim


Pátio interno com azulejos e pisos em pedras portuguesas em estilo art nouveau do início do século XX


Detalhe dos azulejos

Após a vinda da família real, os morféticos foram removidos do prédio para que nele se instalasse o 3° Batalhão dos Caçadores, unidade de guarda da Quinta da Boa Vista. Ficaram os lázaros entre 1817 e 1833, sucessivamente, nas ilhas da Enxada e dos Frades (Bom Jesus), no litoral de São Cristóvão e, depois, trazidos de volta ao Lazareto. No período em que o batalhão permaneceu no edifício foram adicionadas instalações para os militares, resultando certa mistura no aspecto arquitetônico. Mesmo assim, do bloco principal, erguem-se quatro pináculos em tomo de um central, mais alto, que empresta especial encanto à sua arquitetura.

Na praça Mário Nazaré, veja os vestígios do cais onde atracavam as embarcações e o rico portão de entrada. No interior aprecie o requinte que as sucessivas reformas criaram, envolvendo a primitiva capela de planta octogonal, dedicada a São Pedro e contemporânea da de São Cristóvão. No salão nobre apreciaremos os retratos a óleo, de corpo inteiro, do conde da Cunha e do próprio frei Antônio. Pelos corredores, testemunhos da azulejaria portuguesa, de refinados desenho e colorido.

Em nossos dias, em que a hanseníase já é curável, a Irmandade da Candelária garante assistência às remanescentes enfermas, idosas irmãs da Ordem, com asseio e carinho. De seu ex-pátio frontal, podemos contemplar o frontispício do prédio e parte do Cais do Porto.



Portas e azulejos de outro pátio interno


São Lázaro


Hospital Frei Antônio: fachada anterior


Fachada anterior: gradis em ferro e arcos neogóticos


Fachada anterior


Inscrição sobre granito, na porta principal, com a data de construção do prédio


Gradil e vista para o gasômetro e cais do porto


Fachada lateral: aqui os elementos colonais estão bem preservados, embora a platibanda seja um acréscimo posterior


Sino


Vista do alto. Ao longe, os guindastes do cais. Outrora o mar chegava bem mais perto!


Capela de planta octogonal (NC)


Conde da Cunha (NC)


Vitral art nouveau de Formenti de 1920 com inscrição Aqui Nasce a Esperança sugerida por D.Pedro II em 1881 no livro de visitas


Rico portão de entrada


Vestígios do cais onde atracavam as embarcações


Foto de 1906 da recém-inaugurada Avenida Francisco Bicalho. À esquerda o gasômetro e bem no canto o Lazareto

Para ler uma história detalhada do Lazareto clique aqui. Para ver outras postagens neste blog sobre São Cristóvão, clique no marcador abaixo. Para ver uma exibição de slides do Lazareto clique aqui. O e-mail da Irmandade da Candelária, que administra o Lazareto, é sec@candelaria.com.br

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21.9.09

ÁRVORES DO RIO

POSTAGEM ESPECIAL COMEMORATIVA DO DIA DA ÁRVORE
Textos extraídos do maravilhoso livro Árvore Cidade, de Mariana Varzea, Roberto Ainbinder e Cesar Duarte.

ALGODOEIRO-DA-PRAIA:

"O algodoeiro-da-praia [...] é uma espécie pantropical, que se adapta a qualquer lugar dos trópicos, e vem sendo utilizada na recuperação das margens de lagoas e praias.
FOLHA simples, em forma de coração. FLOR grande, com cinco pétalas, amarela, com mancha triangular de cor vinho na base. Floresce durante todo o ano, principalmente de setembro a maio."

Fotos tiradas na Avenida Atlântica.



ABRICÓ-DE-MACACO:

"Trazida das Guianas pelo paisagista Roberto Burle Marx, o abricó-de-macaco é uma espécie amazônica muito ornamental, não só por causa dos frutos, mas também por causa das flores que saem diretamente do tronco e são motivo de festa para insetos, animais e namorados."

Duas primeiras fotos tiradas perto do MAM, terceira no Largo do Machado e quarta em Laranjeiras (Rua Cardoso Junior).





AMENDOEIRA:

"A amendoeira é uma das espécies mais presentes na cidade, irmanando bairros desde Santa Cruz a Copacabana. É também uma das principais testemunhas do nosso desenvolvimento urbano, no Passeio Público há um exemplar com mais de 150 anos. [...] É durante o outono e o inverno, quando as folhas caducam e tingem a paisagem carioca com tons amarelos, vermelhos e alaranjados, que a amendoeira marca o seu reinado na cidade. [...] Por nos proporcionarem o belíssimo espetáculo de criar verdadeiros tapetes de folhas no chão, proibiu-se o plantio das amendoeiras na cidade na década de 1990."

Fotos tiradas no bairro do Jardim Botânico, Lagoa, Forte de Copacabana, numa rua de Copacabana e novamente Lagoa (folhas caídas).







CASUARINA:

"A casuarina foi trazida da Austrália no final do século XIX para arborizar o litoral brasileiro. Quem é morador do Recreio dos Bandeirantes [...] aprendeu a fantasiar contos de mistério e aventura nas tardes de vento e chuva, que fazem a árvore dançar e uivar até quase chegar ao chão."

Fotos tiradas na Barra da Tijuca e RIOCENTRO.



COQUEIRO-DA-BAHIA:

"Sabe-se que há muito tempo o coqueiro freqüenta as praias do Brasil, da África e da Ásia, unindo paisagens tão distintas. [...] O coqueiro só passou a fazer parte do paisagismo urbano do Rio na década de 1960, no Parque do Flamengo, projetado por Burle Marx."

Fotos tiradas na Praia de Copacabana, Praia de Ipanema, Aterro do Flamengo, Urca (observe o Pão de Açúcar atrás) e Praia do Leme.






FIGUEIRA ITALIANA (ou fícus italiano):

"Conhecida no Brasil como falsa-seringueira ou seringueira, por causa do suco de látex que produz, a figueira italiana [ou fícus italiano] já faz parte da paisagem carioca há mais de cem anos. [...] No Parque do Flamengo, próximo à Marina da Glória, há um conjunto monumental que impressiona pela imponência."

Fotos tiradas no Aterro do Flamengo, Largo do Machado (observe o tamanho das folhas deste tipo de fícus) e Rua Bartolomeu Mitre, no Leblon.




FIGUEIRA MICROCARPA (o famoso fícus):

"Quando Glaziou foi contratado para embelezar as ruas da cidade não poderia imaginar o quanto o seu pensamento urbanístico iria marcar a nossa paisagem. Nem poderia prever que esta figueira monumental, trazida da Ásia, iria se transformar numa praga a ser dominada no início do século XXI." [Veja a bela crônica de Artur da Távola Velhos Fícus como Eu, neste blog.]

Fotos tiradas na Praça N.S. da Paz, Ipanema (duas primeiras) e Campo de Santana (duas últimas), onde encontramos fícus monumentais.





FIGUEIRA RELIGIOSA:

Dizem os indianos que foi sob a sombra de um Ficus religiosa que Buda atingiu o Nirvana. [...] Por sua monumentalidade, a figueira religiosa foi escolhida para embelezar os canais da cidade [...] A copa é composta por folhas [...] no formato de um coração.”

Fotos tiradas na Praça N.S. da Paz (na calçada externa ao cercado) e Largo do Machado (observe a forma de coração com ápice pontiagudo da folha).



FLAMBOYANT:

"Fazendo jus ao nome francês, que quer dizer 'flamejante', suas flores cor-de-laranja e avermelhadas anunciam a chegada do verão e 'colocam fogo' na paisagem."

Fotos tiradas na Lagoa.







IPÊ:

"O ipê é uma das espécies brasileiras mais conhecidas e cultivadas. Dizem que só não deu nome ao Brasil porque Cabral chegou por aqui no verão e o ipê só se torna exuberante no inverno."

Os ipês florescem entre junho e setembro. Existem ipês amarelos, rosas e roxos. As fotos foram tiradas em frente da Igreja Santa Teresinha em Botafogo, Centro, Catumbi, Copacabana (na praça à entrada do Túnel Velho) e Urca (três últimas fotos - observe na última as flores caídas sobre a camionete).







OITI:

"O oiti é uma espécie da Mata Atlântica. [...] Embeleza as principais vias do Rio de Janeiro desde o século XIX, quando Glaziou o introduziu no Centro da cidade. [...] Chama a atenção pela copa majestosa, com variada tonalidade esverdeada, resultante da mistura das folhas antigas com as novas. [...] É no enfrentamento do concreto dos viadutos como o Elevado Paulo de Frontin, e de avenidas, como a Av. N. S. de Copacabana, que o oiti mostra a resistência da mata brasileira."

Fotos tiradas na minha rua, Santa Clara, em Copacabana.



PAINEIRA:

"Sua origem é a mata virgem sul-americana. [...] É ideal para embelezar parques e jardins e foi muito utilizada por Burle Marx em seus projetos."

A Paineira floresce no outono. As três primeiras fotos abaixo foram tiradas na Cinelândia e a última no Largo da Carioca, todas em maio.





PALMEIRA IMPERIAL:

"Chegou ao Brasil nas mãos de um português, vindo da França, para ser dada de presente ao rei D. João VI. [...] Na cidade, as palmeiras documentam uma fase de nossa história e onde quer que estejam significa que vamos encontrar uma parte do nosso patrimônio cultural."

Fotos tiradas no Jardim Botânico (cujas palmeiras são famosas), Jardim Zoológico e jardim do Palácio do Catete ao entardecer.




PATA-DE-VACA:

"Pata-de-vaca é uma árvore de pequeno porte e traz um encanto especial para canteiros e ruas onde o casario predomina. [...] Recebeu o nome popular por causa do formato de suas folhas."

Duas primeiras fotos tiradas na Lapa. A última, que mostra a flor de perto, foi tirada no Aterro.




PAU-BRASIL:

"O pau-brasil deu nome ao nosso país, por causa da cor avermelhada, lembrando a brasa, de sua madeira. [...] No paisagismo urbano, sempre foi plantado em ocasiões oficiais e datas comemorativas."

Fotos tiradas no jardim do Palácio do Catete e no Parque da Catacumba (Lagoa).



PAU-REI:

"Burle Marx, com o olhar visionário que habita a alma de todos os paisagistas, usou o nativo pau-rei como uma barreira natural contra a arquitetura cada vez mais verticalizada da cidade. O porte monumental deu origem ao próprio nome."

Foto tirada na Praça Cuauhtémoque (Flamengo).


Textos (entre aspas) extraídos do livro
Árvore Cidade, de Mariana Varzea, Roberto Ainbinder e o fotógrafo Cesar Duarte. Para obter mais informações sobre estas e outras árvores do Rio, recomendamos adquirir esse maravilhoso livro ilustrado (clique no nome acima). Fotos do editor do blog. Postagem originalmente publicada no Dia da Árvore de 2006 e acrescida de fotos e textos novos em 2007 e 2008.

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17.9.09

POR QUE O LEBLON?

Crônica de Manoel Carlos publicada originalmente na Veja-Rio de 28/01/09


Praia do Leblon com o Cristo ao fundo


Grafite


Sede do Flamengo

Por que o Leblon?

É o que algumas pessoas do bairro me perguntam, sempre que eu escrevo uma novela. Por que não Ipanema, Copacabana, Barra ou então Tijuca, Jacarepaguá, Vila Isabel, Gávea, Jardim Botânico... Enfim, por que não qualquer outro bairro do Rio? Por que o Leblon?

Alguns moradores fazem essa pergunta com simpatia e afeto. Mostram-se sorridentes, acarinhados e até envaidecidos com a minha escolha permanente. De outros, a indagação surge como um protesto, sempre acompanhada por um rosário de razões afeitas à cidadania, a começar pela queixa contra os caminhões da TV Globo, que deixam as ruas intransitáveis, tumultuando a vida dos moradores. E há também os que reclamam do alto preço dos imóveis – para comprar ou alugar –, por culpa minha, dizem eles, que valorizo o bairro na novela, fazendo parecer que aqui é o paraíso, onde não há violência, nem sujeira, nem descaso das autoridades públicas. Porém, no frigir dos ovos, estabelece-se uma divisão fifty-fifty: os que gostam e os que não gostam. Para os idosos, crianças, babás e seus bebês, a sensação é de festa permanente, de feriado ininterrupto. Ao lado disso tudo há, obviamente, violência, sujeira e descaso das autoridades públicas, como em todo o Rio e em quase todo o Brasil.

Mas a felicidade maior é mesmo dos paparazzi, que têm farto material disponível, com astros e estrelas desfilando, diariamente, nos restaurantes, bancas de jornais, farmácias, livrarias e cafeterias. Nos fins de semana – muitas vezes gravamos no sábado – há praticamente um tour de turistas domésticos, que circulam com câmeras fotográficas, perseguindo, numa boa, as celebridades globais.



Maisons Leblon: "Aristocracia com melhor segurança em ponto nobre do Leblon"


Cinema Leblon: um dos poucos cinemas de rua sobreviventes no Rio


Praça Antero de Quental

Mas, afinal, por que o Leblon? Será por causa dessa movimentação toda, desse circo a céu aberto que a televisão cria, mesmo já sendo o bairro, independentemente de novelas, o preferido dos famosos? Não, nada disso. A resposta é fácil, simples, cristalina: porque moro aqui. Transito pelas ruas do Leblon, a pé, todos os dias, conhecendo seus moradores, um a um, pelo menos de vista. Aqui também formei grande parte da minha família, já que tenho dois filhos e três netos leblonenses genuínos. Sendo assim, quando penso na história central de uma novela, é natural que eu a imagine desenrolando-se aqui, nestas ruas e praças, nestes bares e restaurantes. Na sua vida agitada sete noites por semana.

O Leblon é uma pequena faixa de terra cercada de beleza por todos os lados. Situa-se entre o mar e a Lagoa Rodrigo de Freitas, e sua extensão total cobre menos de vinte ruas transversais: da Avenida Borges de Medeiros à Avenida Visconde de Albuquerque. O bairro abriga endereços famosos, moradores célebres e o Flamengo da Marilene Dabus e de todos nós.

Quando saio do Rio, a curiosidade é especulativa, cheia de perguntas feitas com os olhos brilhando. Também imaginam que o bairro seja uma espécie de Manhattan, ilha da fantasia onde as celebridades circulam de camiseta, bermudas e Havaianas. Muita gente faz essa ideia do Leblon. Conheci uma moça em São Paulo que me fez prometer que, vindo ela ao Rio, eu lhe mostrasse a Clínica São Vicente.



Avenida Ataulfo de Paiva


Rua General Urquiza, 133: neste endereço (mas não neste prédio) morei na infância.


Eu sentado no carro do meu pai; no fundo à esquerda, nossa casa na General Urquiza, 133

– Mas por quê? – perguntei eu.

– Porque é para lá que todos os artistas vão, quando ficam doentes ou quando simplesmente precisam fazer um exame, consultar um médico. Leio isso sempre nos jornais e revistas.

Não tive coragem de revelar que a Clínica São Vicente é na Gávea. Não quis lhe provocar essa decepção.

Criam-se lendas, inventam-se histórias, fantasia-se. Para mim é apenas o lugar onde eu moro e que amo de coração. Simples, quase bucólico. Parodiando Fernando Pessoa e seu Tejo, posso afirmar que:
"O Leblon não faz pensar em nada.
Quem está ao pé dele está só ao pé dele".



Prédio em estilo neocolonial na General Urquiza


Bonito prédio na General Urquiza


General Urquiza: aprazível como no meu tempo de criança


Rua Desembargador Alfredo Russel, 160


A placa já diz tudo


Prédio em estilo normando na Praça Baden Powell


Orelhão & calor


Canteiro


Pizzaria Guanabara


Moderno e pós-moderno na Rua Aristides Espínola


Painel de pastilhas na esquina da Aristides Espínola com Gal. San Martin


Mirante do Leblon


Pescador


Zózimo contempla a Praia do Leblon


Chalés à rua José Linhares


Rio Design Center

Fotos do editor do blog (exceto aquela em preto-e-branco).

7.9.09

CAMINHADAS NO RELUZENTE RIO NOTURNO


Catedral Presbiteriana (IK)

No capítulo “Horas Mortas” de seu livro Gamboa, escreve Alexei Bueno: “Talvez [...] a melhor e última visão que nos possam dar as ruas do que verdadeiramente são é vê-las na quietude e no vazio a que se entregam, eternamente, de tantas em tantas horas. [...] Não fosse a muito forte possibilidade de um assalto, recomendaríamos ao leitor esse hábitos noctívagos, deambulatórios e nefelibatas.”

Uma boa notícia ao Alexei e demais noctívagos: agora é possível fazer passeios noturnos pelo Rio sem risco de assalto. Refiro-me às ROTEIROS NOTURNOS NO CENTRO DO RIO A PÉ, organizados pelo Professor João Baptista Ferreira de Mello, do Departamento de Geografia Humana do Instituto de Geografia da UERJ. Eu já participei de várias e recomendo aos visitantes do blog — simplesmente imperdíveis. Para ver a programação de outubro e novembro de 2009 (com passeios noturnos e também diurnos) clique aqui. As fotos foram tiradas num dos passeios de 2008 por mim (IK) e pelo meu amigo fotógrafo Zeca. Conheçam outras fotos do Zeca visitando seu Flickr.


Catedral Presbiteriana (IK)


Real Gabinete Português de Leitura (IK)


Território da DASPU (nas imediações da Praça Tiradentes) (Zeca)



Rua do Lavradio (IK)


Rua do Lavradio (IK)


Rua do Lavradio (IK)


Avenida Chile (IK)


Rua do Lavradio (IK)

Arcos da Lapa (Zeca)

4.9.09

RIO, CIDADE MAIS FELIZ DO MUNDO



Desde que Fred Astaire e Ginger Rogers apareceram no filme de 1933 Flying Down to Rio, o mundo se fascinou com o Rio de Janeiro. A percepção popular da cidade está cheia de imagens de jovens felizes dançando ao anoitecer, tendo por pano de fundo imponentes montanhas e o mar escuro.

Essa visão impeliu o Rio para o alto de nossa lista das cidades mais felizes do mundo. Famosa por seu Carnaval anual (que ano que vem começa em 13 de fevereiro), a segunda maior metrópole da América do Sul ficou em primeiro lugar dentre 50 cidades em recente pesquisa realizada pelo consultor de políticas Simon Anholt e pela empresa de pesquisas de mercado americana GfK Custom Research.

"O Brasil está associado a todas estas qualidades de bom humor e bem viver e Carnaval", diz Anholt." O Carnaval é muito importante — é a imagem clássica que as pessoas têm do Rio, e é uma imagem de felicidade ".





Por trás dos números

Os dados de Anholt fornecidos para nossa lista fazem parte do Anholt-GfK Roper City Brands Index, divulgado em junho. A pesquisa foi compilada através de entrevistas online com 10.000 entrevistados em 20 países.

A felicidade é difícil de quantificar, e Anholt reconhece que seus dados, mais do que um indicador de onde as populações são mais felizes, são um reflexo do pensamento dos entrevistados de onde poderiam se imaginar felizes.

"Esta é uma pesquisa de percepção, não um levantamento da realidade ", diz ele. "As pessoas me escrevem o tempo todo e dizem: Isso não é verdade. Provavelmente não é verdade, mas é o que as pessoas pensam. A diferença entre a percepção e a realidade é o que interessa aos governos das cidades".

O historiador francês Fernand Braudel escreveu que “a felicidade, seja nos negócios ou na vida privada, deixa poucos traços na história. " Mas uma percepção de felicidade deixa um traço forte nos balanços de cidades que dependem de convenções, turismo e um afluxo de talento. (Matéria de Zack O'Malley Greenburg publicada na Forbes.com com o título The World's Happiest Cities e traduzida aqui parcialmente pelo editor do blog.)



Posted by Picasa

28.8.09

SÍTIO ROBERTO BURLE MARX EM GUARATIBA


Roberto Burle Marx nasceu em 1909, numa vila situada na Avenida Paulista, em São Paulo, capital. Aos quatro anos de idade, mudou-se com a família para uma bela casa no Leme, próximo a Copacabana, no Rio de Janeiro. Aos 18 anos, foi para Europa acompanhado de toda a família. Lá, decidiu tornar-se pintor ao visitar uma exposição de Van Gogh e, após conhecer a coleção de plantas brasileiras do Jardim Botânico de Dahlen, em Berlim, resolveu que, ao voltar para 0 Brasil, criaria jardins com plantas brasileiras ao invés de jardins de inspiração europeia.




Em 1949, para abrigar sua imensa coleção de plantas, Roberto Burle Marx adquiriu o Sítio Santo Antônio da Bica, em Barra de Guaratiba, junto com seu irmão Guilherme Siegfried Marx. No local havia uma antiga casa de fazenda e uma pequena capela (século XVII - ver fotos), dedicada a Santo Antônio. Burle Marx restaurou ambos os prédios e levou para este local sua coleção de plantas, iniciada aos 6 anos de idade. Em 1973, mudou-se definitivamente para o Sítio, onde veio a falecer em 4 de junho de 1994.

Em 11 de março de 1985, doou o Sítio ao governo brasileiro, que o administra através do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional / MinC. Com a doação, Burle Marx pretendia garantir seu desejo de manter a integridade da propriedade como um todo bem como criar uma escola dedicada ao paisagismo, botânica e artes em geral.


Igreja de Santo Antônio da Bica (séc. XVII): "de composição singela, com frontão triangular de modenatura simplificada e sineira lateral, encontra-se junto aos jardins criados pelo paisagista Roberto Burle Marx" (Guia da Arquitetura Colonial, Neoclássica e Romântica do Rio de Janeiro).




Ele também pretendeu deixar para as gerações futuras o inestimável jardim botânico que criou e suas coleções, adquiridas ao longo de sua vida, com objetos de arte e artesanato — "objetos de emoções poéticas".

Numa área estimada em 365.000 metros quadrados, Burle Marx conseguiu reunir uma das mais importantes coleções de plantas tropicais e subtropicais do mundo. Ao lado dos jardins ao ar livre, esta magnífica coleção apresenta aos visitantes mais de 3.500 espécies de plantas cultivadas. A coleção botânica foi considerada patrimônio cultural brasileiro em 1985.


Casa de Burle Marx (antiga casa de fazenda)





“O Sítio Burle Marx é uma obra, eu direi, de criação continuada, de criação que começa e não se extingue, que avança pelo tempo até que seu autor se vai, sai de cena. Eu assisti ao nascer do sítio. A casa que hoje é uma joia de arquitetura era uma casa velha, de paredes rachadas e com um banheiro externo. Eu vi aquilo pouco a pouco se transmutando, quase como num passe de mágica, até chegar àquela varanda magnífica, àquelas salas com tetos pintados por ele próprio, aos lustres, à sonoridade da sala do piano...”

Luiz Emygdio de Mello Filho.



Ateliê



Cristo dos Afogados de Cícero Simplício do Nascimento



“Ir à casa de Burle Marx [...] é ingressar em um estuário de objetos carregados de emoção poética.” Lélia Coelho Frota.




INFORMAÇÕES IMPORTANTES

1. O Sítio não está aberto a passeios livres, sendo obrigatório o acompanhamento de guias do Sítio.

2. É necessário o agendamento prévio, feito de segunda a sexta-feira, entre 8 e 16 horas.

3. O Sítio abre de terça a sábado (exceto feriados).

4. Visitas em dois horários: 9:30h e 13:30h.

5. Duração da visita: 1h30m aproximadamente.

7. Entrada: R$ 5,00

Deve-se usar vestimenta própria para uma caminhada. No Centro de Recepção o visitante encontrará souvenires, água mineral e banheiros. Não há lanchonete no local.

Endereço:
Estrada Roberto Burle Marx, 2019 Barra de Guaratiba - Rio de Janeiro/RJ CEP 23020-240

Telefone: (0xx21) 2410-1412.



Fotos do editor do blog. Informações extraídas do folheto recebido em visita ao sítio em setembro de 2007. Para ver uma projeção de slides do sítio clique aqui.

6.8.09

ORGULHO DO RIO, de Carlos Heitor Cony


Garantem as folhas que é uma onda fria, vinda do Sul, de onde chegam todas as ondas frias, até aí, não há novidade.

Nunca se ouviu dizer que o frio veio do Ceará ou do Piauí. A novidade é que está fazendo um friozinho gostoso aqui no Rio e eu olho e curto a minha cidade de outro jeito. Nada de praia, com muita luz e confusão, sem o chope azedo que fede duas esquinas antes de cada tasca. Sobra um Rio quase civilizado, quase manso como um corno, sem a agressividade da luz e do calor, a urgência de aproveitar a vida.

Tão bom que faço o impossível: em pleno domingo, tiro o carro da garagem (fazia isso no tempo das minhas setters Mila e Titi) e saio sem destino, dando voltas pelas ruas que cruzo diariamente sem sabor e sem afeto. Sim, aí está a minha cidade, aqui nasci e vivo, se possível aqui morrerei e meu pó será diluído neste ar e neste chão.

Passo sem querer (ou talvez por querer demais) na rua onde nasci, tantos anos passados. Relembro que durante alguns anos trabalhava duas esquinas adiante. Vivi meio século para atravessar duas esquinas na vida — na verdade, sou um fracasso. Tive e tenho amigos que vieram de longe, de Sobral, de Manaus, de Kiev, de Viena — e eu aqui, chumbado neste chão tamoio que, segundo alguns saudosistas, já era.

Volta e meia entra em discussão a decadência do Rio, o esvaziamento cultural e artístico da cidade que foi capital do Brasil durante quase dois séculos. Brasília dá conta do recado, todo dia chega um escândalo de lá. São Paulo não é mais terra da garoa, é terra de enchentes. A Bahia — bem, e aí entra a moleza — a Bahia é a terra dos santos e orixás, mágica e mítica. Segundo Vinicius de Moraes, ali os baianos fazem a arte e o engenho de viver a verdade — conheço esses babados, Vinicius de Moraes acreditou neles pelo espaço de dois verões, mas veio morrer na sua terra, no Rio, que ninguém é de ferro, nem mesmo os baianos adotivos.

Tantas vezes li que o Rio estava falido em todos os setores, sobretudo no campo das letras e artes, que já assumira a postura e o orgulho do provinciano que fica à espera das novidades vindas dos grandes e inesperados centros.

Em compensação, por prazer ou por trabalho, é que viajo com frequência. O fato de ter nascido no Rio já torna o carioca mais ou menos aberto ao mundo, não por necessidade, mas por curiosidade. Sinto-me melhor em Roma ou Florença do que no calorão da avenida Chile, como melhor no Trastevere do que no Mercado Modelo da Bahia. Podem me xingar, mas sei o que sou fazendo e sentindo.

Voltemos ao Rio. Tão cantada e decantada a sua decadência, eis que reencontro, num fim de semana plúmbeo (sei que os baianos conhecem e apreciam esta palavra, aqui no Rio seria apedrejado se a proferisse) a doce verdade: o Rio procura renovar seus encantos — que já são muitos, mas não bastantes.

A revitalização da zona portuária e da Lapa provoca grandes expectativas. A contratação do Fred para o Fluminense e do Adriano para o Flamengo foi comparada à conquista das Gálias — ouvi isso numa das mesas de esporte que enchem os domingos em todos os sentidos. A Rede Globo continua exportando o sotaque e as mazelas do Sudeste para o resto do país e até para Portugal e países lusófonos —um descalabro que não conta com a minha benção, mas ainda não chegamos ao descalabro pior de importar o sotaque e as mazelas de Petrolina, Própria, Campina Grande ou Marília.

Para acontecer mesmo, para se tornar nacional, um fato ainda precisa repercutir aqui no Rio. O finado prefeito Marcos Tamoio dizia que o charme da cidade não vinha do Corcovado nem do Pão de Açúcar, vinha do próprio nome: Rio. Três letras apenas, que a gente lê nos aeroportos do mundo: Rio.

Fellini se apaixonou por Roma quando, menino, em sua cidade natal, Rimini, viu num vagão de trem a placa com o nome: Roma. Em tempos de orgulho gay, toda vez que vejo o nome da minha cidade, mesmo num ônibus que chega de não sei de onde, coberto de pó e fadiga, sinto um orgulho besta e sempre renovado de aqui ter nascido, o rio de minha vida e de minha saudade."

Crônica originalmente publicada na Folha de São Paulo de 3/7/09, transcrita de As Ruas do Rio - blog de quem gosta do Rio nos mínimos detalhes.

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30.7.09

CHOVE CHUVA


Tomara que chova, três dias sem parar, dizia a velha marchinha de Carnaval. Chove chuva, chove sem parar, diz a música de Jorge Ben Jor. Pois não é que a estação de chuvas, que no Rio de Janeiro coincide tradicionalmente com o final da primavera, resolveu se estender pelo verão, outono e inverno? A impressão é que aqui no Rio o aquecimento global não “pegou”.


Orla de Copacabana


Arpoador


Ipanema


A chuva vista da janela do ônibus (fechada para você não se molhar)


O gari continua trabalhando...


A chuva não espanta o ciclista


Lagoa com o Corcovado ao fundo


Guarda-chuva: companheiro indispensável


Chove chuva, chove sem parar


Guarda-chuvas

Fotos do editor do blog.

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20.7.09

CORES DO RIO (Colourful Rio)

UM VÍDEO DE IVO KORYTOWSKI COM MÚSICA DE PIXINGUINHA.

O Rio é um festival de cores. A começar por nosso céu, considerado pelo site The Blue Sky Explorer o mais bonito do mundo. Temos no ano mais dias de sol do que de chuva (fog aqui é coisa rara), dando a tudo um colorido especial. Em pouco tempo, vamos do verde das matas da Floresta da Tijuca (ou do Jardim Botânico) para o azul do mar — na praia, barracas multicores. Andar nas ruas é mergulhar num caleidoscópio de cores. Aqui florescem ipês amarelos, roxos, rosas, o flamboyant vermelho vivo etc. De cada dois cariocas, um (estimo) é rubro-negro - bela combinação cromática. Até os ônibus cariocas são mais coloridos que em outras cidades — sem falar nos táxis amarelos.

"Uma verdadeira viagem visual e sonora pelas cores do Rio. Parabéns!" (Roger)

7.6.09

DESAFIO 2009

O blog Literatura & Rio de Janeiro completa em julho seu quarto aniversário. Para comemorar, lança o já tradicional desafio aos amigos. Seguem 25 fotos tiradas nestes bairros (aqui em ordem alfabética, mas as fotos estão em outra ordem): ARPOADOR, BARRA DA TIJUCA, BOTAFOGO, CACHAMBI, CENTRO, COPACABANA, FLAMENGO, GÁVEA, GLÓRIA, GRAJAÚ, JARDIM GUANABARA (Ilha do Governador), JOÁ, LAGOA, LAPA, LARANJEIRAS, LEME, PAQUETÁ, PENHA, RIACHUELO (colher-de-chá: uma igreja), SANTA TERESA, SÃO CONRADO, SÃO CRISTÓVÃO, TIJUCA, URCA, VARGEM PEQUENA (outra igreja). Você tem que identificar qual foto foi tirada em qual bairro. As dez pessoas que identificarem mais fotos ganharão prêmios (ver lista de prêmios adiante - em casos de empate haverá sorteio). Além disso, todos que acertarem ao menos uma foto terão direito a participar de um passeio guiado pelo Rio Histórico com o editor do blog em data a ser combinada. As respostas devem ser enviadas para ivokory@hotmail.com com assunto = DESAFIO 2009 e o prazo é até 24 de julho. Portanto, mãos à obra!

AVISO - As respostas do desafio e a relação dos vencedores estão no final da postagem, mas antes de olhar, veja quantas fotos você consegue acertar! E ano que vem (2010) tem desafio novo!


Foto 1


Foto 2


Foto 3


Foto 4


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Foto 6


Foto 7


Foto 8


Foto 9


Foto 10

Relação dos prêmios (quem tirar primeiro lugar escolhe qual prêmio vai querer; quem ficar em segundo, escolhe entre os 9 prêmios restantes; etc.):

- livro Édipo, de Ivo Korytowski

- livro A arte da escrita, de Ivo Korytowski

- livro Sopa no mel, de Ivo Korytowski

- livro Acordo ortográfico, de Ivo Korytowski

- livro Manual do poeta, de Ivo Korytowski

- livro Amigos, amantes, chocolate, do escritor escocês Alexander McCall, tradução de Ivo Korytowski

- livro A miscelânea da boa mesa, de Ben Schott

- livro Rumo à Estação Finlândia, de Edmund Wilson

- livro Universo numa casca de noz, de Stephen Hawking, tradução de Ivo Korytowski

- coleção de 3 livros de excelente prosa poética de Ana Lia Vianna



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RESPOSTAS DO DESAFIO:
01 CENTRO (Casa Franklin)
02 BOTAFOGO (Igreja S. João Batista)
03 LAPA
04 LAGOA
05 URCA (Pista Cláudio Coutinho)
06 RIACHUELO
07 CACHAMBI (Norte Shopping, o meu shopping favorito)
08 SÃO CRISTÓVÃO (Quinta)
09 SANTA TERESA
10 ARPOADOR
11 GÁVEA (Instituto Moreira Salles)
12 LARANJEIRAS (Parque Guinle)
13 GLÓRIA (Igreja da Glória)
14 TIJUCA (em frente da antiga fábrica de cerveja, hoje um supermercado)
15 LEME
16 VARGEM PEQUENA (Igreja de N.S. Montserrat)
17 JOÁ
18 SÃO CONRADO
19 BARRA DA TIJUCA (Shopping Barra World)
20 FLAMENGO (observe o Castelinho lá na frente!)
21 COPACABANA
22 JARDIM GUANABARA (Ilha do Governador)
23 PAQUETÁ
24 PENHA (lavagem da escadaria da Igreja)
25 GRAJAÚ

Vencedores:
Primeiro lugar: Roger (21 acertos)
Segundo lugar: Ana, Thiago & Helio (18)
Terceiro lugar: Amanda (13)
Quarto lugar: Ju (11)
Quinto lugar: Maria de Fátima (9)
Sexto lugar: Moira (6)

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1.6.09

FORTALEZA DE SÃO JOÃO (URCA)



Maquete

O complexo de fortificações onde hoje se situa a Fortaleza de São João começou a ser erguido na época do desembarque de Estácio de Sá, em 1o de março de 1565, por ocasião da fundação da cidade do Rio de Janeiro, na várzea entre os morros Cara de Cão e o Penedo da Urca (Pão de Açúcar). Inicialmente, as instalações eram precárias, porém, com o passar do tempo, foram sendo ampliadas e reforçadas, transformando a primitiva fortificação em um conjunto de obras espalhadas e que veio a ser chamada de Fortaleza de São João.


Fortaleza de São João vista do alto do Pão de Açúcar. Ali funcionam atualmente a Diretoria de Pesquisa e Estudos de Pessoal e a Escola Superior de Guerra.


Praia de Fora

A Fortaleza de São João talvez seja a única no país que é verdadeiramente uma fortaleza, pois segundo a concepção militar, tratava-se de um conjunto de baterias, instaladas em construções independentes, largamente intervaladas. No caso de São João, porém, o conjunto é formado por fortes independentes: São José (1578), São Teodósio (1572), São Martinho (1565) e São Diogo (1618), posteriormente reforçados pelas baterias Mallet e Marques Porto (1902). A razão dessa complexidade de construção é compreensível. Situada no local da fundação da Cidade do Rio de Janeiro, apresentava três frentes de atuação: a Praia de Fora, a Praia do Porto e a entrada da Baía da Guanabara, o que dificultava sobremaneira a organização da posição defensiva.


Marco da Fundação (réplica; o original, em mármore branco português, colocado por Estácio de Sá na área entre os morros Cara de Cão e Pão de Açúcar, foi posteriormente transferido para o Morro do Castelo e com o desmonte deste, para a Igreja dos Capuchinhos, na Tijuca)


Portão Histórico. No site do IPHAN lemos: "A Fortaleza de São João, sobre o Morro Cara de Cão, na entrada da baía da Guanabara, que teve sua origem nos primeiros tempos da cidade e que, já no início dos seiscentos possuía quatro baterias, foi sendo muito alterada com o correr dos anos, até que, nos meados do século XIX, as edificações primitivas foram ou parcialmente demolidas ou totalmente refeitas, com o fim de se adaptarem aos novos armamentos. Da antiga Fortaleza resta apenas o antigo portão de entrada. Com vão de arco abatido, ladeado por pilastras robustas, este portão, construção de alvenaria, é encimado por frontão com volutas barrocas, o qual termina por uma pira."


Duque de Caxias, patrono do Exército

Em 1715, provavelmente como decorrência da invasão de Duguay-Trouin, a Coroa portuguesa recomendou que as fortalezas de Santa Cruz e São João fossem levadas à última perfeição e estivessem sempre armadas e guarnecidas. [...] Em 1862, após o episódio da Questão Christie, pairava sobre o Imperador Dom Pedro II uma grande preocupação pela segurança do Rio de Janeiro, em virtude de seu fácil acesso pelo mar por parte de navios estrangeiros. Assim, foi criado um projeto para aumentar a capacidade de defesa da Baía da Guanabara. Uma obra de porte, por intermédio da construção de dezessete casamatas, que iria proporcionar à Fortaleza de São João o aumento do seu poder de fogo. Ao término da construção, os canhões Whitworth se posicionaram para barrar qualquer tentativa do invasor. Essa obra ficou registrada em uma placa alusiva, na entrada da Fortaleza, existente até hoje, com a marca do imperador.


Reduto São Martinho, posição ocupada por Estácio de Sá e sua gente em 1565

Em 1875, foi construída uma nova bateria sobre o Forte São Teodósio, preparada para receber um canhão Armstrong de 280 mm, com o peso de 25 toneladas, cujo projétil pesava 550 libras. No mesmo ano, foi também instalado no local o canhão mais moderno então em uso no Exército, um canhão Krupp de 75 mm, presenteado pela fábrica Krupp ao Imperador.
Em 1938, o portão da Fortaleza foi tombado pelo IPHAN.
[...]
O local além de abrigar a fortaleza é um dos sítios históricos mais importantes da cidade do Rio de Janeiro, pois foi lá que Estácio de Sá fundou a cidade. Hoje, existe no mesmo local uma réplica do marco histórico. (Texto extraído do livro de Sandra Zivkovic Moraes As fortificações da cidade do Rio de Janeiro, da coleção Patrimônio Turístico editada pela Riotur. Para obter o livro entre em contacto com a Riotur pelo telefone 2588.9018 ou dirija-se à Praça Pio X, 119 - 10 andar.)


Baía da Guanabara. Do lado de lá, Niterói. Na ilha rochosa à entrada da baía, o Forte da Laje, hoje desativado.


Canhão Armstrong (de origem inglesa, fabricado em 1872, o canhão histórico de maior calibre do Brasil) aponta para a Fortaleza de Santa Cruz, do outro lado da baía.


Ruínas do Reduto de São Teodósio (1572)


Panorama


Forte São José, reformado e equipado por ordem de D. Pedro II


Entrada do Forte São José. Observe a placa alusiva com a marca do imperador.


Forte São José (detalhe)


Forte São José (algumas das 17 casamatas)


Pão de Açúcar (atrás), Cara de Cão (na frente) e Forte São José (esquerda) vistos da Baía da Guanabara durante o passeio no rebocador Laurindo Pitta que parte do Espaço Cultural da Marinha, Praça XIV (tel. 2233-9165)

Fotos do editor do blog. Visitas à Fortaleza de São João podem ser agendadas pelo telefone (21) 2586.2291. Informações podem ser obtidas pelo e-mail sitiohistorico.fsj@gmail.com

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29.5.09

ESPERANÇA DE PAZ PARA O RIO

MATÉRIA TRANSCRITA DO JORNAL O DIA.

Unidade de Polícia Pacificadora é inaugurada no Chapéu Mangueira e Babilônia

Rio - O governador Sérgio Cabral inaugurou, na manhã desta quarta-feira, a Unidade de Polícia Pacificadora (UPP) nas comunidades do Chapéu Mangueira e da Babilônia, no bairro do Leme, Zona Sul. A unidade vai garantir o policiamento da área e dar um fim ao poder paralelo que assustava os moradores. O governo ainda vai investir na capacitação profissional, por meio de cursos, e facilitar o acesso dos moradores ao mundo digital com o Internet na Praça, que já funciona na Praça Maestro Bebetinho e oferece acesso à internet banda larga.

Esta é a quarta UPP instalada no Rio. Ao todo, serão 100 policiais militares que farão o policiamento comunitário. O capitão Felipe Lopez e a subcomandante Renata Matos são os responsáveis pela tropa, em substituição da equipe do Batalhão de Operações Especiais (Bope) e do 19º BPM (Copacabana), que ocuparam, há mais de um mês, os dois morros e neutralizaram o domínio dos bandidos sobre os habitantes.

Em 2008, brigas entre facções rivais levaram pânico aos moradores de ambas as comunidades e do entorno. A sede da UPP, situada em uma posição estratégica da Ladeira Ary Barroso, na Babilônia, foi construída em seis meses pela Empresa de Obras Públicas do Estado do Rio de Janeiro (Emop) e custou R$ 651,8 mil.

Ao lado do prefeito Eduardo Paes, o governador Sérgio Cabral anunciou que o governo do Estado já está se mobilizando para levar programas de revitalização para as comunidades: "A Benedita (da Silva) pediu à Dilma, pediu ao presidente Lula e vamos fazer o PAC aqui, que está orçado em R$ 65 milhões. É um projeto bonito, que já foi entregue à ministra Dilma. Tem também um Plano Inclinado previsto para cá", anunciou Sérgio Cabral.

Capital Humano
Uma das frentes para o desenvolvimento local é a capacitação profissional dos moradores das comunidades. Em até quarenta dias, será instalada na Ladeira Ary Barroso um Centro de Educação Tecnológica e Profissionalizante (Cetep), da Faetec, com 2.772 novas vagas por ano, em cursos de formação inicial de trabalhadores, nas áreas de idiomas (inglês, francês e espanhol), informática, hotelaria e beleza (cabeleireiro, manicura e pedicura).


DESDE A SUA CRIAÇÃO ESTE BLOG SE POSICIONA CONTRA A DITADURA DO TRÁFICO NAS COMUNIDADES. PARA LER NOSSAS OUTRAS MATÉRIAS SOBRE A VIOLÊNCIA NO RIO, CLIQUE NO MARCADOR ABAIXO.

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18.5.09

FOTOS DO RIO ANTIGO


Imperdível a matéria da Veja-Rio de 4/3/09 sobre o acervo de fotos do Rio Antigo do Instituto Moreira Salles. Para ir até lá, clique aqui.



Igualmente imperdível a matéria da Veja-Rio de 20/5/09 sobre o lançamento do livro Augusto Malta e o Rio de Janeiro. Para ir até lá, clique aqui.

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17.5.09

DALLIER E O MORRO DA CONCEIÇÃO




Um oásis de Rio Antigo em meio à agitação do centro da cidade, o Morro da Conceição — ao lado da Praça Mauá — esconde tesouros que poucos cariocas conhecem: a Fortaleza da Conceição, concluída em 1718, o antigo Palácio Episcopal, onde hoje funciona o Serviço Geográfico do Exército, o Observatório do Valongo, a Igreja de São Francisco da Prainha, a Pedra do Sal.

O Morro da Conceição também abriga uma série de ateliês de artistas plásticos (Dallier, Marcelo Frazão, Cláudio Aun, Renato Santana e outros), na Ladeira João Homem e Rua do Jogo da Bola, constituindo o Projeto Mauá.

Visitar o ateliê de Dallier no morro e ouvir suas reminiscências é, ao mesmo tempo, um exercício estético e uma viagem pelo Rio Antigo. A obra de Dallier tem afinidade com o expressionismo abstrato, movimento que combinou a intensidade emocional do expressionismo alemão com a estética antifigurativa das escolas abstratas da Europa. Para Dallier, criar um quadro é como "incorporar um santo".
Abaixo, crônica-depoimento de Dallier.


Três Sambistas, de Dallier

ESSE RIO ONDE NASCI

A velha casa onde nasci ainda teima em continuar de pé, fica situada em uma pequena rua de nome "Estela" e tem uma placa de no 28 presa em uma de suas paredes externas. Fica lá, no finalzinho da Pacheco Leão, hoje uma rua bastante conhecida por ter se tornado um reduto televisivo.

Foi nesse bairro chamado Jardim Botânico, cujo trecho onde nasci foi apelidado de Itália pequena, que vivi minha vida, até alcançar a maioridade e ter servido o exército (Escola de Educação Física), com breve período de ausência, como quando fomos morar na Praça Mauá em uma velha casa construída por meu avô paterno em 1904 e ainda também de pé, de no 52, na Ladeira João Homem, onde nos últimos anos voltei a viver.


Quando tento mergulhar no fundo do poço de minhas memórias, as primeiras imagens que surgem em minha mente são as de uma manhã de Natal lá pelos idos de 1936. Quando eu acabara de completar quatro anos de minha existência nesse mundo de Nosso Senhor Jesus Cristo. De manhã, ao acordar, encontrei junto à cama um carrinho de mão de madeira (parecido com os que são usados em obras) e, dentro dele, uma boneca (brinquei com bonecas até os sete anos). Horas depois, lembro-me bem do meu avô materno e sua oitava mulher, que eu e meu irmão mais velho — éramos apenas dois — fomos acostumados a chamar de avó. Quando os avistei subindo a Ladeira, comecei a gritar – "Lá vem vovô, lá vem a lingüiça do vovô! — pois sempre que ele vinha nos visitar trazia como seu cartão de visitas uma lata de lingüiça "Olderich" em conserva e alguns ovos caseiros. Não me lembro de ter ganho deles um brinquedo.

Outras lembranças dessa época surgem descompassadas: doenças nos olhos, febres constantemente, queimaduras no corpo com café fervente e o acidente que tive no dia em que minha mãe, eu e meu irmão íamos visitar amigos no bairro onde nasci. Estávamos descendo a ladeira; lembro-me bem. Meu irmão e eu vestíamos roupas novas de seda branca com botões de madrepérola; ao olhar para um papa-vento no alto de um sobrado, veio o tombo, quebrei o queixo e fui levado para o pronto-socorro por uma tia do lado paterno de nome Rosa (já que eu tinha duas tias do mesmo nome de lados opostos, morando na mesma casa), onde levei vários pontos. Lembro-me também dos ônibus de dois andares da Light que faziam o percurso Praça Mauá – Jockey Club. Das visitas que fazíamos ao auditório da Radio Nacional para ver de perto Batista Júnior (era pai de Linda e Dircinha) e seus bonecos falantes.

Villa-Lobos no Circo, de Dallier

Também o Carnaval daquela época contagiava toda família — esqueci de dizer que dividíamos a casa com mais quatro irmãos de meu pai e suas respectivas famílias. Fantasiados descíamos a ladeira rumo à Avenida Rio Branco para assistir ao desfile de carros abertos, que carregavam foliões que espalhavam confetes, serpentinas e lança-perfumes (naquela época não era proibido) e parávamos na extinta Galeria Cruzeiro, onde os bondes que chegavam traziam dezenas de carnavalescos vindos de todas as partes e que se juntavam na avenida, formando um grande bloco contagiante onde a pura alegria reinava nos quatro dias de Momo .

Costumávamos, nós os moradores do Morro da Conceição, participar do banhos à fantasia na Praia do Flamengo. Íamos todos descendo o morro e tínhamos também nossos carros alegóricos que eram empurrados pelos participantes, e em determinado ano eu saí em um deles vestido com roupa de papel crepom, como ajudante de motorista um primo da mesma idade de nome Ézio. E lá íamos nós em nosso carro de madeira empurrado por familiares enquanto todos dançavam e cantavam ao som das antigas marchinhas.

A primeira lembrança do bairro onde nasci é de quando, com seis anos, já pertinho dos sete, nos mudamos de volta. É o caminhão de mudanças chegando à Rua Lopes Quintas, e a velha e pequena casa em que fomos morar. Foi nesse dia que eu conheci Lucília (onde andará?), a primeira paixão de menino, que durou alguns anos, até que ela veio a conhecer aquele que viria a ser seu marido.

Aos domingos freqüentávamos as matinês do Cinema Floresta, que fizeram surgir em mim a paixão por Alice Faye. Via e revia seus filmes (muitas vezes às escondidas), alguns (três) ao lado da brasileiríssima Carmen Miranda.

Só mais tarde, já adolescente, surgiria em mim uma nova e definitiva paixão: Emilinha Borba. Era com ansiedade que esperava os sábados para ouvir a voz de César de Alencar anunciar:
- A minha, a sua, a nossa favorita: Emilinha Borba!

Continuo a afirmar que, junto com a minha mãe, foram elas que nortearam a minha vida, e, até hoje estão presentes no meu dia-a-dia, através de lembranças, discos e filmes, que ouço e vejo para diminuir a solidão e fazer dela uma boa companheira.



Rua do Jogo da Bola, no Morro da Conceição

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14.5.09

ZÉ CARIOCA

Zé Carioca foi criado no início da década de 1940, quando Walt Disney fez uma grande turnê pela América Latina, tomando parte de uma campanha promovida pelos Estados Unidos a fim de angariar apoio na II Guerra Mundial.

O cineasta (acompanhado de desenhistas de seu estúdio) concebeu personagens para os países visitados, como o Gauchinho Voador, para a Argentina e Panchito, para o México. Nosso adorável papagaio, batizado de Joe Carioca, foi o representante do Brasil.



E sua primeira aparição numa HQ brasileira aconteceu em julho de 1950, na capa de Pato Donald # 1, desenhada pelo argentino Luis Destuet. Coincidentemente, a revista que marcou a estréia da Abril no mercado editorial:


Em 1961, Zé Carioca ganhava título próprio e chegava às bancas do Brasil estampando na capa o número... 479! (imagem abaixo - clique nas imagens para ver em tamanho maior) A numeração da revista do Zé Carioca se alternava com a do Pato Donald. Numa semana era o Donald e na outra, o .  (Texto de Marcus Ramone obtido no site UNIVERSO HQ)


27.4.09

BONDINHO DE SANTA TERESA


Santa Teresa precisa dos bondes, da alegria dos bondes. Os passageiros gostam de sentar nos seus bancos, vivenciar a paisagem do bairro, o vento gostoso. Tempos e espaços se aliam nesse passeio. [...]

A cidade do Rio de Janeiro não utiliza mais o bonde. Os carros, os ônibus, a pressa o expulsaram. Em Santa Teresa, o bonde permaneceu, porque a curvas, as ruas estreitas o pedem. Os moradores precisam dele, do seu ruído. "É muito bom isto aqui. Eu fico com as minhas telas, ouvindo o passarinho cantando, lá longe um latido, e aí vem o barulho do bonde", disse-me Regina Toledo Piza, que tem seu ateliê em Santa Teresa.

O barulho do bonde, a presença do bonde. O bonde é a maior referência de Santa Teresa. O tempo passa, as coisas se transformam, mas o bonde tem de permanecer. [...] Se tirarem o bonde, Santa Teresa sucumbe. Morre um pedaço do Rio de Janeiro.
(Texto extraído do livro de Lilian Fontes, Santa Teresa - um livro maravilhoso para se familiarizar com o clima desse aprazível bairro carioca.)


O bonde na estação


Os Arcos da Lapa


Trilho do bonde sobre os Arcos


Bondinho sobre os Arcos


Dentro do bondinho


A vista de cima dos Arcos


Bondinho em Santa Teresa


Idem


Uma das várias casas em estilo eclético que você vê do bondinho na Rua Joaquim Murtinho


De volta à estação; ao fundo, a Catedral

CRÔNICA DE MACHADO DE ASSIS SOBRE A INAUGURAÇÃO DOS BONDES DE SANTA TERESA (15 de março de 1877)

Inauguraram-se os bonds [bondes, palavra originária do inglês bond] de Santa Teresa, — um sistema de alcatruzes ou de escada de Jacó [escada bíblica que levava ao céu], — uma imagem das coisas deste mundo. Quando um bond sobe, outro desce, não há tempo em caminho para uma pitada de rapé, quando muito, podem dois sujeitos fazer uma barretada [saudação que consiste em tirar da cabeça o barrete].
O pior é se um dia, naquele subir e descer, descer e subir, subirem uns para o céu e outros descerem ao purgatório, ou quando menos ao necrotério.
Escusado é dizer que as diligências viram esta inauguração com um olhar extremamente melancólico.
Alguns burros, afeitos à subida e descida do outeiro, estavam ontem lastimando este novo passo do progresso. Um deles, filósofo, humanitário e ambicioso, murmurava:

— Dizem: les dieux s'en vont [os deuses vão-se embora]. Que ironia! Não; não são os deuses somos nós. Les ânes s'en vont [os asnos vão-se embora], meus colegas, les ânes s'en vont.

E esse interessante quadrúpede olhava para o bond com um olhar cheio de saudade e humilhação. Talvez rememorava a queda lenta do burro, expelido de toda a parte pelo vapor, como o vapor o há de ser pelo balão, e o balão pela eletricidade, a eletricidade por uma força nova, que levará de vez este grande trem do mundo ate à estação terminal.
O que assim não seja... por ora.
Mas inauguraram-se os bonds. Agora é que Santa Teresa vai ficar à moda. O que havia pior, enfadonho a mais não ser, eram as viagens de diligência, nome irônico de todos os veículos desse gênero. A diligência é um meio-termo entre a tartaruga e o boi.
Uma das vantagens dos bonds de Santa Teresa sobre os seus congêneresda cidade, é a impossibilidade da pescaria. A pescaria é a chaga dos outros bonds. Assim, entre o Largo do Machado e a Glória a pescaria é uma verdadeira amolação, cada bond desce a passo lento, a olhar para um e outro lado, a catar um passageiro ao longe. As vezes o passageiro aponta na Praia do Flamengo, o bond, polido e generoso, suspende passo, cochila, toma uma pitada, dá dois dedos de conversa, apanha o passageiro, e segue o fadário até a seguinte esquina onde repete a mesma lengalenga.
Nada disso em Santa Teresa: ali o bond é um verdadeiro leva-e-traz, não se detém a brincar no caminho, como um estudante vadio.
E se depois do que fica dito, não houver uma alma caridosa que diga que eu tenho em Santa Teresa uma casa para alugar-palavra de honra! o mundo está virado.


Na estação, aguardando os passageiros


Idem

Fotos do editor do blog. A estação do bonde para Santa Teresa fica na Rua Lélio Gama, ruela que liga a Senador Dantas (perto da Cinelândia) ao Largo da Carioca. Mais informações sobre o bonde no site da Riotur. Clique no marcador Santa Teresa abaixo para ver outras postagens sobre esse aprazível bairro.

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24.4.09

RIO ANTIGO

Museu da Imagem e do Som visto da Ladeira da Misericórdia (que dava acesso ao Morro do Castelo)

Chegando ao Rio, vi ainda o convento da Ajuda [situado na atual Cinelândia e demolido em 1911; o chafariz da Praça General Osório, Ipanema, pertencia ao convento], de onde partiam cantos místicos; a igreja que forçava a rua larga de São Joaquim [atual Rua Marechal Floriano] a tornar-se rua estreita; os banhistas da praia de Santa Luzia [a praia de Santa Luzia ligava a Praia da Lapa à Ponta do Calabouço, onde se situa o Museu Histórico Nacional; a Igreja de Santa Luzia, na Avenida Presidente Antônio Carlos, pertinho da ABL, e a Santa Casa da Misericórdia ficavam à beira-mar!], adestrados pelo grande nadador Abraão Saliture; o teatrinho do Passeio Público, com seus cantores e transformistas e um garção que era perfeito sósia do barão do Rio Branco; o Mercado Velho [em frente à Rua do Mercado, que dá para a Praça XV, o primeiro verdadeiro mercado do Rio, onde estão agora um edifício do Ministério da Agricultura e o Entreposto do Peixe], que fartava os gulosos na carne vegetal das talhadas de abacaxis; a Chácara da Floresta [no antigo Morro do Castelo, demolido entre 1922 e 1930], um pedaço de subúrbio no centro da cidade; a sobrecasaca do poeta Múcio Teixeira; a opa rubra do irmão das almas; a muleta do panfletário Deocleciano Mártir, que classificava a febre amarela de patriótica, por liquidar tantos portugueses; a cartolinha cinzenta do cronista João do Rio; [...] as vacas leiteiras conduzidas em plena rua e mungidas à porta do freguês; as carrocinhas de sorvetes em forma de navio, a navegar em seco; [...] o chafariz da Carioca [o Aqueduto da Carioca, em estilo romano, hoje conhecido como os Arcos da Lapa, trazia a água do Rio Carioca até o chafariz], que distribuía Nossa Irmã a Água, franciscanamente, por milhares de sequiosos; os moleques baleiros, muito ágeis ao saltar no estribo dos bondes em marcha e impecáveis ao desfiar o seu pregão: "Balas de ovo, alteia, lima e rosa, ó nenê!"; o acendedor de lampiões, a quem os garotos apelidavam profeta; a caixa de doces que vendedores ambulantes transportavam à cabeça; os tabuleiros de baianas que depois passariam a ser baianas apenas de indumentária; os casais fora da lei civil ou religiosa, afeitos a rumar para o hotel Locomotora; a cara amarrada do carnavalesco Morcego, funcionário postal; o cortiço de que meu pai saiu tantas manhãs, levando-me ao colo para que o barão do Lavradio, pediatra da Santa Casa da Misericórdia, me curasse da coqueluche. (Texto extraído do livro de memórias de Agripino Grieco.)

Largo de São Francisco da Prainha, na Saúde

Pátio dos Canhões (Museu Histórico Nacional)

Fotos do Rio de antigamente:

As fotos desta postagem, embora mostrem aspectos do Rio Antigo, são recentes, tiradas pelo editor do blog. Veja onde encontrar fotos antigas do Rio:

Uma lista de páginas com fotos do Rio Antigo também pode ser encontrada na comunidade Rio Antigo do Orkut.

Pinturas atuais tendo por tema o Rio Antigo podem ser encontradas no site do pintor Eduardo Camões.

Agradeço ao amigo Erik Steger por ter colaborado na pesquisa dos sites.

Cores da Lapa

Igreja de N.S. da Glória

Livros sobre o Rio Antigo:

João do Rio, A alma encantadora das ruas. Pode ser baixado em versão PDF no site Domínio Público. Existe também uma edição recente pela Companhia das Letras.

Brasil Gerson, História das ruas do Rio. Clássico da historiografia carioca, em edição revista e ampliada (depois da morte do autor) por Alexei Bueno.

Coleção Cantos do Rio da Editora Relume-Dumará. Pequenos livros abordando os bairros do Rio. Recomendo especialmente Gamboa, de Alexei Bueno, Santa Teresa, de Lilian Fontes, Lagoa, de Carlos Heitor Cony, Botafogo, de Cláudio Henrique, São Cristóvão, de Helio Brasil (livro belíssimo!), e Centro, de Antônio Torres.

A Livraria Folha Seca, à Rua do Ouvidor, 37 - Centro possui uma excelente seção de livros sobre o Rio de Janeiro antigo e moderno. Nos sebos da Praça Tiradentes e Avenida Passos também é possível encontrar livros sobre a cidade.


Encosta do Morro da Conceição

Rua do Mercado


Como conhecer o Rio Antigo
:

Uma das maneiras de conhecer o Rio Antigo é fazer um passeio guiado com o editor deste blog. Contactos pelo e-mail ivokory@gmail.com

Caso queira conhecer especificamente o Morro da Conceição, você pode fazer uma visita guiada com o pintor Paulo Dallier, que tem ateliê no morro. O telefone é (21) 2263.4663 e o e-mail é dallier@oi.com.br

Outra boa pedida são os Roteiros Geográficos do Instituto de Geografia da UERJ, que incluem o imperdível Roteiro Noturno no Centro do Rio A Pé além de outros passeios. Informações pelo e-mail roteirosgeorio@uol.com.br

Outra alternativa para conhecer o Rio antigo (& moderno) são os Roteiros do Rio a Pé, da ACADETUR (Agência Acadêmica de Turismo) da UniverCidade. Os passeios, gratuitos, começam sempre às 14 horas, e os interessados devem se inscrever alguns dias antes pelo telefone 3113-1706. Informações também podem ser solicitadas à Acadetur pelo e-mail acadetur@univercidade.br
Segue a lista dos passeios programados em 2009 e os pontos de encontro (informações fornecidas pela ACADETUR).

Janela do ateliê do pintor Dallier no Morro da Conceição

Travessa do Comércio

ABRIL
26 - Cinelândia e arredores
Encontro: Estação do Metrô Carioca-saída Rio Branco

MAIO
23 - Santa Teresa
Encontro: Estação do bondinho na Rua Lélio Gama.

JUNHO
18 - Praça Mauá e Mosteiro de São Bento
Encontro: Mosteiro de São Bento

JULHO
18 - Flamengo e Casa Julieta de Serpa
Ponto de encontro: Casa Julieta de Serpa -Praia do Flamengo, 340.

AGOSTO
19 - São Cristóvão e Quinta da Boa Vista
Ponto de encontro: Largo da Cancela

SETEMBRO
27 - Gloria e arredores
Ponto de encontro: Largo da Glória na saída do metro

OUTUBRO
24 - Urca e arredores
Ponto de encontro: Praça General Tiburcio.

NOVEMBRO
7 - Forte Duque de Caxias
Ponto de Encontro: Praça Julio de Noronha

DEZEMBRO
13-Niteroi e Niemeyer
Ponto de encontro: estação das barcas em Niterói

Feira Rio Antigo na Rua do Lavradio no primeiro sábado de cada mês

Morro da Conceição

Folhetos sobre o Rio:

A Riotur fornece gratuitamente a turistas e cariocas mapas e folhetos sobre o Rio de Janeiro na Av. Princesa Isabel, 183 (Copacabana). Você pode pedir informações pelo e-mail marketing.riotur@pcrj.rj.gov.br


Sacada de serralheria na Glória, subida para Santa Teresa

Igreja de Nossa Senhora do Carmo da Lapa

Convento do Carmo

Postagem originalmente publicada em 21/3/06 e atualizada com fotos adicionais e a programação de 2009 do Rio A Pé. Fotos do editor do blog.

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23.4.09

SALVE SÃO JORGE!


Vitral de São Jorge na Igreja de São Gonçalo Garcia e São Jorge, na Praça da República


Grafite de São Jorge na Rua das Laranjeiras


Painel de São Jorge num bar do Riachuelo


Imagem de São Jorge na Quadra da Beija Flor, em Nilópolis

— Quem é você, criaturinha? — perguntou São Jorge parando diante dela.

— Eu sou a Emília, antiga Marquesa de Rabicó, sua criada — respondeu a boneca, muito lampeira e lambeta.

O santo ficou na mesma. E ainda estava na mesma, sem compreender coisa nenhuma, quando viu aparecerem Pedrinho e Narizinho com Tia Nastácia atrás, de mãos postas, rezando atropeladamente quantas orações sabia.

— Como conseguiram chegar ate aqui? — perguntou ele. — Isto me parece a maravilha das maravilhas.

— Foi o pó de pirlimpimpim que nos trouxe — respondeu Pedrinho — e dessa vez São Jorge ficou na mesmíssima.

[...]

São Jorge estava ali desde o reinado do Imperador Diocleciano sem outra companhia a não ser o dragão, de modo que ficava muito alegre quando alguém aparecia por lá. [...]

— E o senhor? — quis saber Emília depois que tudo foi explicado. — Agora que sabe a nossa historia, conte-nos a sua.

São Jorge contou que nascera príncipe da Capadócia e tivera no mundo vida muito agitada. A sua luta contra o poderosíssimo mágico Atanásio ficou histórica. Por fim fez-se cristão e em virtude disso padeceu morte cruel numa das matanças de cristãos ordenadas pelo Imperador Diocleciano. Depois da morte veio morar na Lua.

— E sabe que é hoje o patrono da Inglaterra? — lembrou Narizinho. — Vovó diz que o senhor é o santo mais graúdo de todos, porque dá o nome a muitas ordens de cavalaria e tem aparecido até em moedas de ouro.

São Jorge não sabia nada daquilo, nem sequer que era santo, porque só depois de sua morte é que começou a virar tanta coisa. Também não sabia o que era ser "patrono da Inglaterra", nem o que significava isto de "ordens de cavalaria". Os meninos tiveram de dar-lhe uma liçao de tudo.

— Mas não posso compreender donde vem a minha importância, o meu "graudismo" ... — declarou ele com toda a modéstia, pensativamente.

— Eu sei! — berrou Emília. — E por causa do dragão e dessa tremenda e bonita armadura de guerreiro. Santos de camisolão e porretinho podem ser muito milagrosos, mas não impressionam. Diga-me uma coisa: onde é que descobriu esse dragão?

O santo contou que era um monstro que ele havia matado certa vez em que o encontrou prestes a devorar a filha do rei da Líbia.

Mas se o matou, como é que o dragão está vivinho aqui?

Mistérios deste mundo de mistérios, gentil bonequinha. Eu também fui morto e no entanto todos lá da Terra (segundo vocês dizem) me veem aqui nesta Lua, a cavalo, de lança erguida contra o dragão. Mistérios deste mundo de mistérios.

(Monteiro Lobato, Viagem ao Céu, trecho do Capítulo VII, "Coisas da Lua". Na infância e pré-adolescência, o editor deste blog foi leitor contumaz do genial Lobato.)


Grafite no elevado do Rebouças na Lagoa

Fotos do editor do blog

ANIVERSÁRIO DE PIXINGUINHA

TEXTO DE CYRO DE MATTOS


Filho de uma família musical, Alfredo da Rocha Viana Filho nasceu no Rio de Janeiro, em 23 de abril de 1897. Teve treze irmãos. O apelido Pixinguinha veio da junção de dois outros apelidos: “Pizindim”, apelido colocado pela avó Edwirges, que era africana, e “Bexiguinha”, herdado ao contrair varíola (bexiga), epidemia que deixou marcas em seu rosto.

A história da nossa música popular e do rádio confunde-se com a vida desse maravilhoso flautista, saxofonista, compositor, arranjador e regente. Choros, canções regionais, desafios sertanejos, maxixes, lundus, corta-jacas, batuques, cateretês, entre outras modalidades musicais, receberam o acento, o hálito, o sopro, a marca magistral do primeiro arranjador que a música popular brasileira teve, com “O Teu Cabelo Não Nega”, de Lamartine e os Irmãos Valença, e “Taí”, de Joubert de Carvalho.

Aos 12 anos começou a acompanhar seu pai, flautista, em festas, tocando cavaquinho. Aos treze fazia a primeira composição, “Lata de Leite”, inspirada nos chorões boêmios, músicos que de madrugada encerravam suas atividades e, voltando para casa, bebiam o leite deixado na porta das residências. De suas primeiras composições destacam-se ainda “Rosa” e “Sofre Porque Queres”.

Esse filho de Ogun, de fama internacional, fundiu a sua formação clássica, de base européia, com ritmos nossos, de raízes negras, além de incorporar a música negra norte-americana, formando assim um estilo em que sobressai o toque especial do sentimento brasileiro de nossa música popular. Diante de sua música, que mexe com a alma e traz um jeito tão nosso, não há quem não sinta o orgulho de ser brasileiro.

São tantas as composições marcantes realizadas por esse mestre de nossa música popular, entre tantos mestres, que é difícil destacar algumas dessas jóias. Cito aqui algumas do meu gosto: “Carinhoso”, “Gavião Calçudo” , “Chorei”, “Um a Zero” e “Vou Vivendo”. Mas há quem prefira “Mundo Melhor”, “Segure Ele” e “Sofres Porque Queres”. E ainda quem não abra mão de “A Vida É um Buraco”, “Naquele Tempo” e “Rosa”.

Estátua de Pixinguinha na Travessa do Ouvidor, Centro do Rio


Se música é pensar e sentir a vida através de sons, em Pixiguinha temos o exemplo primoroso de como não se pode viver sem ela. Esse poeta da nossa música popular tinha a alma de passarinho, que gostava de soltar da flauta pingos de ouro, de dia e de noite. Dos lamentos de seu saxofone lograva extrair sentimentos puros, fundos, pungentes choros, emoção numa coisa só música afinada, que traz também o riso,.além de fazer que famosos compositores, letristas e músicos de hoje se curvem diante dela.

Ele pensava, sentia e respirava música. Foi na terceira complicação cardíaca, nos idos de 1964, que ele ficou internado por mais de um mês. Foi proibido pelo médico de certas comidas pesadas, bebida e de tocar saxofone. Tempo depois, quando teve autorização para voltar a tocar saxofone, chorou. Escreveu vinte músicas durante o tempo que esteve internado,, cada uma delas se relacionando com os momentos que teve no hospital. Por exemplo, “Manda Brasa”, expressão que ouviu quando ia almoçar, e “Vou pra Casa”, escreveu no quarto, ao receber alta.

Pixinguinha morreu dentro de uma igreja, em Ipanema, no Rio de Janeiro, em 17 de fevereiro de 1973. Tinha ido batizar o filho de um amigo, depois de adiar por várias vezes o batismo por motivo de complicações no estado de saúde. É possível que não tenha resistido à emoção de ser padrinho do filho do amigo na hora do batismo quando então caiu fulminado por um enfarte. O pessoal da Banda de Ipanema, que saía pelas ruas em época de Carnaval, ao tomar conhecimento de sua morte, passou na porta da igreja onde o corpo de Pixinguinha estava sendo velado lá dentro. E naquele instante tocou como nunca o samba que homenageava o mestre. Os foliões cantavam num clima de alegria e tristeza o refrão: “Ô, lê, lê, ô,lá, lá, pega no ganzê, pega no ganzá...”

Um motorista, ao ouvir pelo rádio do carro a notícia da morte de Pixinguinha, disse para o passageiro:
- Esse homem tinha um coração tão bom que Deus quis que ele morresse dentro de uma igreja.


Painel a óleo em frente à estátua de Pixinguinha. O painel mostra um encontro hipotético entre bambas da nossa música (Nelson Sargento, Paulo Moura, Braguinha, Noel Rosa e outros) na Wiskeria Gouveia, o "Escritório do Pixinguinha".

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17.4.09

HOMENAGEM A TIRADENTES

COM FOTOS DA SUA ESTÁTUA DIANTE DO PALÁCIO TIRADENTES (ASSEMBLEIA LEGISLATIVA DO RIO DE JANEIRO)


Por aqui passava um homem
— e como o povo se ria! —
que não passava de Alferes
de cavalaria!

“Faremos a mesma coisa
que fez a América Inglesa!”
E bradava: “Há de ser nossa
tanta riqueza!”

Por aqui passava um homem
— e como o povo se ria! —
Liberdade ainda que tarde
nos prometia.

E cavalgava o machinho.
E a marcha era tão segura
que uns diziam: “Que coragem!”
E outros: “Que loucura!”

Mas ninguém mais se está rindo
pois talvez ainda aconteça
que ele por aqui não volte,
ou que volte sem cabeça...

(trechos do Romance XXXI do Romanceiro da Inconfidência de Cecília Meireles)


Não foi exatamente na Praça Tiradentes e muito menos em Minas Gerais, como muitos pensam, que Tiradentes morreu. Tendo nas mãos um mapa da Biblioteca Nacional, datado de 1785-1760, o historiador Milton Teixeira mostra o local exato da execução. Marcado pela palavra “forca”, este ficaria a algumas centenas de metros da atual Praça Tiradentes, mais precisamente no que hoje é a esquina da Avenida Passos com Rua Buenos Aires. Através do mapa e de alguns relatos históricos, também é possível reconstituir as últimas passagens da vida de Tiradentes. Milton conta que o alferes teria sido preso em 10 de maio de 1789, numa casa na Rua dos Latoeiros (atual Rua Gonçalves Dias), onde teria se escondido depois de passar um tempo na Igreja Nossa Senhora Mãe dos Homens (na atual rua da Alfândega). Tiradentes foi levado então para a Ilha das Cobras, onde passou a ocupar a cela número 3 do cubículo 5. Lá, foi submetido a vários interrogatórios, sempre negando a sua ligação com a Conjuração Mineira. Forçado pelas circunstâncias — todos os seus colegas o apontaram como líder do movimento — acabou assumindo o envolvimento. [...] Em sua sentença, a rainha Maria I foi taxativa: dos dez envolvidos, nove seriam presos e um seria condenado à morte. “Claro que sobrou para Tiradentes, que, além de ser o mais pobre entre os dez, ainda era dentista, profissão que parece nunca ter sido vista com bons olhos pelos portugueses”, brinca Milton. [...]


Não foi na Ilha das Cobras que Tiradentes passou sua última noite, e sim na Cadeia, edifício que ficava onde hoje está o Palácio Tiradentes; não por acaso, ali foi posta uma estátua do inconfidente. Vestido com uma camisa de onze varas e, segundo a lenda, depois de ter beijado as mãos e os pés do seu carrasco, Tiradentes deixou a cadeia na manhã de 21 de abril de 1792. Ele teria, então, seguido pela Rua da Cadeia (atual Rua da Assembléia), chegado ao Largo da Carioca, continuado pela Rua do Piolho (atual Rua da Carioca) até o campo da Lampadosa, assistido à missa na igreja que, na época, dava nome ao local e, finalmente, enforcado na esquina da Avenida Passos com Rua Buenos Aires. “Tiradentes nunca teve barba, bigode e cabelão, como costuma ser retratado em quadros e, no momento da execução, estava careca. Mas como a República chegou ao Brasil com um caráter agnóstico, o principal objetivo foi substituir a imagem dos santos pela das figuras pátrias. A de Tiradentes era a que mais se parecia com a de Cristo, porque, enquanto este veio para nos salvar, aquele teria vindo para nos libertar”, diz Milton, lembrando que, depois da execução, o corpo foi esquartejado na Casa do Trem (atual Museu Histórico Nacional) e cada pedaço enviado para lugares onde ele tivesse pregado suas idéias libertárias.



(Texto extraído do ótimo livro de Roberta Oliveira, Praça Tiradentes.)



Fotos da estátua de Tiradentes (diante do Palácio Tiradentes, onde fica a Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro) tiradas pelo editor do blog em 2007. Tiradentes é patrono das polícias militares do Brasil.

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12.4.09

ILHA DO GOVERNADOR

Texto do editor do blog com colaboração de Vitor Scalercio. Fotos do editor do blog (IK) e de Vitor Scalercio (VS).


Vista da entrada da Baía da Guanabara (IK).


Vista do Iate Clube Jardim Guanabara (VS).

O Rio é gigantesco, e por mais que você rode pela cidade, há sempre lugares novos para conhecer. Por exemplo, você conhece a Ilha do Governador? (As entranhas da Ilha, não apenas a estrada até o aeroporto.) Pois eu também só conhecia a Ilha en passant. Até que recebi do Vitor um e-mail onde ele dizia:


Vista do Jardim Guanabara (observe o Pão de Açúcar ao fundo) (VS).


Jardim Guanabara: a Ilha livrou-se da "verticalização", o gabarito lá é uniforme, máximo de três andares (VS).

Sou carioca e eterno apaixonado pela cidade do Rio de Janeiro. E não me canso, cada dia descubro lugares novos, cantinhos desconhecidos, novas impressões, um novo olhar, uma outra perspectiva. [...] O Rio é único, não há nenhum outro lugar no mundo que reúna todas essas características peculiares, elas são singulares! A cidade tem vida, uma identidade, tem uma 'alma'! [...] E o carioca é um dos trunfos desta cidade, eu diria.

E um dos motivos que escrevo é falar sobre uma outra grande paixão que também faz parte do Rio de Janeiro. Tem uma história própria, também é singular, é uma outra cidade dentro da metrópole. É a minha Ilha do Governador. [...] Não sei se você conhece seus bairros, suas características, sua vida, sua história. Bom, aqui deixo meu convite. [...] Tenho certeza que você se encantará e verá mais uma peça que faz parte deste lindo mosaico que é a nossa cidade.



Da Ilha você contempla um panorama singular do relevo carioca, as montanhas ao longe... (VS)


Rua Agostinho dos Santos: as casas ficam expostas, sem muros altíssimos nem grades de prisão (IK).

Aceitei o gentil convite do Vitor e... tornei-me um fã da Ilha! A Ilha livrou-se de um fenômeno chamado "verticalização": o gabarito lá é uniforme, máximo de três andares. Cheia de colinas, as ruas são sinuosas, seguindo as curvas de nível. Dentro da Ilha o trânsito sempre flui razoavelmente (você não fica retido no trânsito por uma eternidade), e existe a opção da barca. Muitos bairros da Ilha são seguros: as casas ficam expostas, sem muros altíssimos nem grades de prisão (veja as fotos). O calor do verão lá é atenuado pela brisa que sempre sopra do mar. A Ilha é um Rio de Zona Norte com nível de vida de Zona Sul: o bairro de Jardim Guanabara ostenta o terceiro maior IDH (índice de desenvolvimento humano) da cidade, superado apenas pela Gávea e Leblon. A Ilha está cheia de praias bucólicas como em Paquetá (é verdade que as águas da Baía estão poluídas, mas quem sabe, um dia...), com pescadores, barquinhos, peixe frito à beira-mar... Da Ilha você contempla um panorama singular do relevo carioca, as montanhas ao longe, Pão de Açúcar, Corcovado, etc. É como se existisse uma outra temporalidade, em que você está do lado da metrópole, mas consegue escapar de toda a agitação.


Parque Marcello de Ipanema: o bairro de Jardim Guanabara ostenta o terceiro maior IDH da cidade (VS).


Rua Jair Ramos: modernidade (IK).

A Ilha do Governador é enorme: com 40,8 quilômetros quadrados, aproximadamente o tamanho de todos os bairros da Zona Sul juntos. Só que 51% de sua área é ocupada pelo bairro do Galeão cuja ocupação é apenas para fins militares (aeronáutica) e para o aeroporto. A população, 211 mil habitantes (censo 2000), supera a de Copacabana (147 mil). Tem de tudo na Ilha do Governador: o aeroporto; um Porcão; um iate clube; uma escola de samba; uma grande presença militar em vários bairros (estação de radio da marinha, base aérea do galeão, fuzileiros navais, hospital da aeronáltica, hospital de medicina aeroespacial etc.); três reservas militares de mata atlântica; a APARU do Jequiá, que possui uma preservação do ecossistema de manguezal; um estádio de futebol; um shopping center; praias; as ruas costumam ser arborizadas; igrejas históricas; casas simpáticas; prédios modernos (mas baixos); favelas; tem até uma lenda indígena (a tribo de Arariboia, os temininós, habitava lá). Na verdade, a Ilha não é um bairro, mas uma região administrativa composta de duas ilhas (a do Governador e a do Fundão) e de 15 bairros: Bancários, Cacuia, Cidade Universitária, Cocotá, Freguesia, Galeão, Jardim Carioca, Jardim Guanabara, Moneró, Pitangueiras, Portuguesa, Praia da Bandeira, Ribeira, Tauá e Zumbi.


Igreja de Nossa Senhora da Conceição: antiga capela do engenho de Salvador Correia de Sá, construída na primeira metade do século XVII (IK).


Praça Jerusalém no Jardim Guanabara. Ao fundo, a Rua Uçá, ladeada de palmeiras (VS).

A Prefeitura, em seu plano de estratégias para a cidade, considera a Ilha um microcosmo do Rio de Janeiro. No Plano Estratégico da prefeitura lemos: “Com efervescente vida própria, um intenso comércio e dispondo de enormes recursos naturais, a Ilha do Governador tem tudo para se desenvolver de forma ordenada e coerente, preservando a qualidade de vida. A Região possui indicadores que representam uma média dos indicadores da cidade, ou seja, possui um ambiente urbano no qual os melhores bairros residenciais - confortáveis e elegantes - apresentam as mesmas condições de vida da Zona Sul, convivendo entretanto com favelas e cortiços com as mesmas mazelas características de alguns bairros da Zona Norte. A Região Ilha do Governador representa, em escala menor, um modelo de informações estatísticas da cidade.”


Estação de barcas de Cocotá: o trânsito flui razoavelmente e existe a opção da barca (IK).


Crianças na Praia da Bandeira: A Ilha está cheia de praias bucólicas (IK).

A Ilha também teve uma longa história: antes do descobrimento, viviam lá os temininós, a tribo de Arariboia, mas foram expulsos pelos tamoios, aliados dos franceses. Após a vitória contra os invasores, Arariboia recebeu glebas do outro lado da baía, na atual Niterói. Salvador de Sá, irmão de Estácio e primo de Mem, fundaria lá os três primeiros grandes engenhos de açúcar e aguardente do Rio. O nome Governador vem de Salvador, duas vezes governador-geral do Rio. Na Ilha D. João VI tomava banhos de mar e caçava. Vinha da Quinta do Caju num pequeno galeão. A história completa você encontra na Wikipedia. Imagens antigas da Ilha você encontra no fotolog Ilha do Governador.


Ponta do Tiro (IK).


Igreja da Sagrada Família (Ribeira) (IK).


Porta da Igreja da Sagrada Família (IK).


Vista da Igreja da Sagrada Família (VS).


Praia da Bica (VS).


Praia da Engenhoca (VS).


Igreja de N.S. da Ajuda, na Freguesia. A atual construção de 1898 apoia-se nas paredes das precedentes igrejas de 1710 e 1743. (IK)


Pedra da Onça, na Freguesia. Conta a lenda que uma índia ia todos os dias, no fim da tarde, até a praia, com seu gato maracajá, mergulhando da pedra durante horas. Um dia, a jovem índia não mais voltou, ficando o gato a esperá-la, olhando para o mar até morrer de fome (VS).

Estas e outras fotos da Ilha do Governador podem ser vistas em duas exibições de slides, uma do autor do blog e outra de Vitor Scarlecio.

9.4.09

SEMANA SANTA

MACHADO DE ASSIS


A SEMANA foi santa — mas não foi a semana santa que eu conheci, quando tinha a idade de mocinho nascido depois da guerra do Paraguai. Deus meu! Há pessoas que nasceram depois da guerra do Paraguai! Há rapazes que fazem a barba, que namoram, que se casam, que têm filhos, e, não obstante, nasceram depois da batalha de Aquidabã! Mas então que é o tempo? É a brisa fresca e preguiçosa de outros anos, ou este tufão impetuoso que parece apostar com a eletricidade? Não há dúvida que os relógios, depois da morte de López [ditador paraguaio], andam muito mais depressa. Antigamente tinham o andar próprio de uma quadra [época] em que as notícias de Ouro Preto gastavam cinco dias para chegar ao Rio de Janeiro. [...]

As semanas santas de outro tempo eram, antes de tudo, muito mais compridas. O Domingo de Ramos valia por três. As palmas que traziam das igrejas eram muito mais verdes que as de hoje, mais e melhores. Verdadeiramente já não há verde. O verde de hoje é um amarelo escuro. A segunda-feira e a terça-feira eram lentas, não longas; não sei se percebem a diferença. Quero dizer que eram tediosas, por serem vazias. Raiava, porém, a quarta-feira de trevas; era princípio de uma série de cerimônias, e de ofícios, de procissões, sermões de lágrimas, até o sábado de aleluia, em que a alegria reaparecia, e finalmente o Domingo de Páscoa, que era a chave de ouro. [...]

Como entender, depois da passagem de Humaitá [episódio da Guerra do Paraguai], que as procissões do enterro, uma de São Francisco de Paula, outra do Carmo, eram tão compridas que não acabavam mais? Como pintar-lhes os andores, as filas de tochas inumeráveis, as Marias Behus, segundo a forma popular, centurião, e tantas outras partes da cerimônia, não contando as janelas das casas iluminadas, acolchoadas e atapetadas de moças bonitas — moças e velhas — porque já naquele tempo havia algumas pessoas velhas, mas poucas. Tudo era da idade e da cor das palmas: verde.

(Trecho de crônica publicada na revista A Semana em 25 de março de 1894)


Foto de 1890 de Marc Ferrez e estatueta de Zé Andrade exposta na mega music store Modern Sound. Clique no marcador "Machado de Assis" abaixo para ver outras postagens sobre o bruxo do Cosme Velho.

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25.3.09

CONFEITARIA COLOMBO


Inaugurada a 17 de setembro de 1894, por Manoel Lebrão e Joaquim Borges de Meirelles, com o nome de Pâtisserie Colombo, quase na esquina com a Rua do Ouvidor, a rua da moda da cidade no século XIX e no início do século XX, tornou-se logo ponto de atração para a sociedade e local de reunião de artistas, intelectuais e jornalistas. A área reunia, na época, o comércio mais sofisticado do país. A Confeitaria Colombo é a única casa comercial remanescente daqueles tempos, em que era elegante fazer compras no Centro e tomar chá, às cinco, nas requintadas confeitarias. Sua aparência atual data da reforma de 1913, que lhe assegurou uma atmosfera art nouveau irresistível.


No primeiro andar, a área da confeitaria tem balcões e vitrines de jacarandá, em estilo Luís XV, bancadas de mármore italiano e antigos vidros de balas. O salão de refeições exibe monumentais espelhos belgas, com molduras brasileiras de jacarandá, paredes com a parte inferior recoberta de mármore lavrado, com desenho de delicadas gregas; as mesas, com pés de ferro fundido, têm tampos de mármore; as cadeiras são em estilo Luís XV. O teto é trabalhado com sancas e florões e os lustres obedecem a desenho caprichoso. O piso, de ladrilhos, tem desenho colorido e delicado. No segundo andar, o salão de chá tem camarotes para orquestra, atualmente ocupados, eventualmente, por piano. Uma notável claraboia de vidro decorado com motivos florais e anjos é o ponto alto do salão, em harmonia com os painéis pintados existentes nas paredes, retratando vestais, anjos e flores. (Texto extraído do Guia Michelin do Rio de Janeiro)



Em "Confeitaria Colombo: 100 anos de charme", escreve Alessandro Motta Buzas: "A roda mais famosa dos intelectuais que ali frequentaram é a de Olavo Bilac, fundador da Sociedade dos Homens de Letras, em 1914. O objetivo dessa sociedade era criar uma bandeira de luta pela defesa dos "trabalhadores intelectuais" que não tinham uma remuneração adequada em jornais e revistas. Na festa da Colombo, em 1955, quando houve o centenário de nascimento de Olavo Bilac, este foi homenageado com uma placa comemorativa na entrada da casa. O poeta era tão pontual para os diários chás da cinco que os funcionários sempre acertavam os relógios da casa assim que ele chegava. Bilac viajava muito e, sempre que retornava ao Brasil, havia festa na Colombo, com direito a "quadrinhas comemorativas" dos padrinhos da roda." Para ler o artigo completo de Alessandro sobre a Colombo, clique aqui.






Saiba tudo sobre a Confeitaria Colombo (endereço, menu, horário etc.) visitando o site da confeitaria. Para ver uma exibição de slides com estas e outras fotos da Colombo tiradas pelo editor do blog, clique aqui.

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16.3.09

Véronique, Brésil 2009


Como conheço bem o Rio, às vezes me pedem que eu organize passeios guiados. (Informações sobre meu Historical Rio Surprise Walking Tour estão no meu blog em inglês Rio de Janeiro Around the Year - o surprise é porque meu passeio é realmente uma surpresa, eu não revelo o roteiro antes.) Este Carnaval levei para passear um grupo de uns trinta franceses curtidores do samba que vieram desfilar na Sapucaí. Uma das participantes, a Véronique, achou (em francês, claro) la balade que nous avions faite avec vous dans Rio, très belle et interessante balade d'ailleurs. (Balade em francês é passeio). Ela tirou umas fotos bem interessantes. Algumas mostro nesta postagem. Para ver todas as fotos da Véronique no Brasil (inclusive na Bahia e no Sambódromo), clique aqui.









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2.3.09

CORES DO RIO - PS

As fotos do vídeo CORES DO RIO com as respectivas legendas também podem ser vistas em forma de exibição de slides. Basta clicar aqui.

28.2.09

A VISITA DO POETA

Crônica de Antônio Maria


Estatueta de Zé Andrade exposta na Modern Sound


Bar Garota de Ipanema (esquina das ruas Vinicius de Moraes e Prudente de Morais), onde Tom Jobim e Vinícius de Moraes se inspiraram para compor a música Garota de Ipanema

Cá está o poeta Vinicius de Moraes. Bebe, silenciosamente, um copo de cerveja, enquanto desenha.
— Vai falando, Poesia — digo-lhe, de vista baixa...
— Eu não — responde ele, de vista mais baixa ainda.
Vou desenhando e pensando. O que haverá com Poesia? Alguém judiou dele. Para ele estar assim...

Terá sido mulher? Sempre que o vi, estava feliz. Opulento, até. Na face, o seu saudável “rosa-colonial”. Hoje, até pálido ele está. Poucos sabem a extensão da maldade, quando se faz sofrer aos poetas. Aos poetas, não se pode negar nada. Tirar, muito menos. Principalmente a este, que é um franciscano. Vocês não sabiam? Vinicius de Moraes é franciscano, apenas está dispensado de usar o hábito porque todos o dispensam de fazer sacrifícios. O Itamarati, por exemplo, o dispensou de ir lá. Quando o ministro Hermes Lima precisa de alguma orientação, manda Lolô Bernardes telefonar e Vinicius instrui, pelo telefone. Na Casa de Rio Branco não se faz nada sem ouvir Vinicius de Moraes. Daí a mágoa de Pomona Politis, que se considera uma continuação e, às vezes, o próprio Barão do Rio Branco.

Mas, o que há com Poesia para estar ali sentado, sem um som, sequer o da respiração? Esse poeta arfava muito. Antigamente, a dois metros dele, era possível ouvir-se-lhe a arfância. E nunca foi de sentar muito tempo, a não ser se tivesse alguém no colo. No mínimo, uma criança. Também, não se pode dizer que tenha sido um poeta vertical; isto é, em pé. Na horizontal, com simples acenos, abalou montanhas, causou muita febre terçã, afundou navios e derrubou aeronaves. O Zepelin, não o bar, mas o Graf Zepelin pegou fogo por quê?

E hoje, cá está o poeta, de vista baixa, bebendo sua cervejinha, calado, de repente, como ele mesmo vaticinou, “não mais que de repente”. Poesia, que é da moça, que dizia à lua: “Minha carne é cor-de-rosa; não é verde como a tua.” Que é da mulher, que passou, com sete esperanças na boca fresca. Que é da outra, cujos cabelos rescendiam à flor da murta. E tu disseste, Poesia, gloriando a todas elas: “Tende piedade, Senhor, de todas as mulheres!”

Não queria ver o poeta assim, em minha casa. A cabeça pendida, o peito silencioso, a mão trêmula, erguendo o copo de cerveja... cerveja que sabe às amargas ingratidões. Quero-o, como antes, contando o abalo que causou em Ava Gardner, em Rosana Schiafino, na Soraya, na própria Edith Piaf, quando essas senhoras o viram pela primeira vez. Ava Gardner, coitada, ainda era virgem e ficou de tal maneira perturbada que se casou com Mickey Rooney.

Uma vez, no Louvre, diante da Gioconda, eu lhe disse, muito a sério:
— Vamos sair daqui, Poesia, que essa mulher vai se descontrair e cair na gargalhada.


Bar Vinicius, em frente ao Garota de Ipanema


Toca do Vinicius, na rua Vinicius de Moraes

Crônica extraída da antologia Seja feliz e faça os outros felizes organizada por Joaquim Ferreira dos Santos e publicada pela Civilização Brasileira. Clique no marcador abaixo para ver outras postagens sobre Vinicius.

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