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Literatura & Rio de Janeiro

O blog de quem ama o Rio de Janeiro, seus encantos, história, literatura e arte.
"Andar pelo Rio, seja com chuva ou sol abrasador, é sempre um prazer. Observar os recantos quase que escondidos é uma experiência indescritível, principalmente se tratando de uma grande cidade. Conheço várias do Brasil, mas nenhuma tem tanta beleza e tantos segredos a ae revelarem a cada esquina com tanta história pra contar através da poesia das ruas!" (Charles Stone, um dos milhares de visitantes deste blog)

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Nome: Ivo Korytowski
Local: Rio de Janeiro, RJ, Brazil

7.6.09

DESAFIO 2009

O blog Literatura & Rio de Janeiro completa em julho seu quarto aniversário. Para comemorar, lança o já tradicional desafio aos amigos. Seguem 25 fotos tiradas nestes bairros (aqui em ordem alfabética, mas as fotos estão em outra ordem): ARPOADOR, BARRA DA TIJUCA, BOTAFOGO, CACHAMBI, CENTRO, COPACABANA, FLAMENGO, GÁVEA, GLÓRIA, GRAJAÚ, JARDIM GUANABARA (Ilha do Governador), JOÁ, LAGOA, LAPA, LARANJEIRAS, LEME, PAQUETÁ, PENHA, RIACHUELO (colher-de-chá: uma igreja), SANTA TERESA, SÃO CONRADO, SÃO CRISTÓVÃO, TIJUCA, URCA, VARGEM PEQUENA (outra igreja). Você tem que identificar qual foto foi tirada em qual bairro. As dez pessoas que identificarem mais fotos ganharão prêmios (ver lista de prêmios adiante - em casos de empate haverá sorteio). Além disso, todos que acertarem ao menos uma foto terão direito a participar de um passeio guiado pelo Rio Histórico com o editor do blog em data a ser combinada. As respostas devem ser enviadas para ivokory@hotmail.com com assunto = DESAFIO 2009 e o prazo é até 24 de julho. Portanto, mãos à obra!


Foto 1


Foto 2


Foto 3


Foto 4


Foto 5


Foto 6


Foto 7


Foto 8


Foto 9


Foto 10

Relação dos prêmios (quem tirar primeiro lugar escolhe qual prêmio vai querer; quem ficar em segundo, escolhe entre os 9 prêmios restantes; etc.):

- livro Édipo, de Ivo Korytowski

- livro A arte da escrita, de Ivo Korytowski

- livro Sopa no mel, de Ivo Korytowski

- livro Acordo ortográfico, de Ivo Korytowski

- livro Manual do poeta, de Ivo Korytowski

- livro Amigos, amantes, chocolate, do escritor escocês Alexander McCall, tradução de Ivo Korytowski

- livro A miscelânea da boa mesa, de Ben Schott

- livro Rumo à Estação Finlândia, de Edmund Wilson

- livro Universo numa casca de noz, de Stephen Hawking, tradução de Ivo Korytowski

- coleção de 3 livros de excelente prosa poética de Ana Lia Vianna



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BOA SORTE! E uma última colher-de-chá: a foto de Cachambi foi tirada no Norte Shopping!

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1.6.09

FORTALEZA DE SÃO JOÃO (URCA)



Maquete

O complexo de fortificações onde hoje se situa a Fortaleza de São João começou a ser erguido na época do desembarque de Estácio de Sá, em 1o de março de 1565, por ocasião da fundação da cidade do Rio de Janeiro, na várzea entre os morros Cara de Cão e o Penedo da Urca (Pão de Açúcar). Inicialmente, as instalações eram precárias, porém, com o passar do tempo, foram sendo ampliadas e reforçadas, transformando a primitiva fortificação em um conjunto de obras espalhadas e que veio a ser chamada de Fortaleza de São João.


Fortaleza de São João vista do alto do Pão de Açúcar. Ali funcionam atualmente a Diretoria de Pesquisa e Estudos de Pessoal e a Escola Superior de Guerra.


Praia de Fora

A Fortaleza de São João talvez seja a única no país que é verdadeiramente uma fortaleza, pois segundo a concepção militar, tratava-se de um conjunto de baterias, instaladas em construções independentes, largamente intervaladas. No caso de São João, porém, o conjunto é formado por fortes independentes: São José (1578), São Teodósio (1572), São Martinho (1565) e São Diogo (1618), posteriormente reforçados pelas baterias Mallet e Marques Porto (1902). A razão dessa complexidade de construção é compreensível. Situada no local da fundação da Cidade do Rio de Janeiro, apresentava três frentes de atuação: a Praia de Fora, a Praia do Porto e a entrada da Baía da Guanabara, o que dificultava sobremaneira a organização da posição defensiva.


Marco da Fundação (réplica; o original, em mármore branco português, colocado por Estácio de Sá na área entre os morros Cara de Cão e Pão de Açúcar, foi posteriormente transferido para o Morro do Castelo e com o desmonte deste, para a Igreja dos Capuchinhos, na Tijuca)


Portão Histórico. No site do IPHAN lemos: "A Fortaleza de São João, sobre o Morro Cara de Cão, na entrada da baía da Guanabara, que teve sua origem nos primeiros tempos da cidade e que, já no início dos seiscentos possuía quatro baterias, foi sendo muito alterada com o correr dos anos, até que, nos meados do século XIX, as edificações primitivas foram ou parcialmente demolidas ou totalmente refeitas, com o fim de se adaptarem aos novos armamentos. Da antiga Fortaleza resta apenas o antigo portão de entrada. Com vão de arco abatido, ladeado por pilastras robustas, este portão, construção de alvenaria, é encimado por frontão com volutas barrocas, o qual termina por uma pira."


Duque de Caxias, patrono do Exército

Em 1715, provavelmente como decorrência da invasão de Duguay-Trouin, a Coroa portuguesa recomendou que as fortalezas de Santa Cruz e São João fossem levadas à última perfeição e estivessem sempre armadas e guarnecidas. [...] Em 1862, após o episódio da Questão Christie, pairava sobre o Imperador Dom Pedro II uma grande preocupação pela segurança do Rio de Janeiro, em virtude de seu fácil acesso pelo mar por parte de navios estrangeiros. Assim, foi criado um projeto para aumentar a capacidade de defesa da Baía da Guanabara. Uma obra de porte, por intermédio da construção de dezessete casamatas, que iria proporcionar à Fortaleza de São João o aumento do seu poder de fogo. Ao término da construção, os canhões Whitworth se posicionaram para barrar qualquer tentativa do invasor. Essa obra ficou registrada em uma placa alusiva, na entrada da Fortaleza, existente até hoje, com a marca do imperador.


Reduto São Martinho, posição ocupada por Estácio de Sá e sua gente em 1565

Em 1875, foi construída uma nova bateria sobre o Forte São Teodósio, preparada para receber um canhão Armstrong de 280 mm, com o peso de 25 toneladas, cujo projétil pesava 550 libras. No mesmo ano, foi também instalado no local o canhão mais moderno então em uso no Exército, um canhão Krupp de 75 mm, presenteado pela fábrica Krupp ao Imperador.
Em 1938, o portão da Fortaleza foi tombado pelo IPHAN.
[...]
O local além de abrigar a fortaleza é um dos sítios históricos mais importantes da cidade do Rio de Janeiro, pois foi lá que Estácio de Sá fundou a cidade. Hoje, existe no mesmo local uma réplica do marco histórico. (Texto extraído do livro de Sandra Zivkovic Moraes As fortificações da cidade do Rio de Janeiro, da coleção Patrimônio Turístico editada pela Riotur. Para obter o livro entre em contacto com a Riotur pelo telefone 2588.9018 ou dirija-se à Praça Pio X, 119 - 10 andar.)


Baía da Guanabara. Do lado de lá, Niterói. Na ilha rochosa à entrada da baía, o Forte da Laje, hoje desativado.


Canhão Armstrong (de origem inglesa, fabricado em 1872, o canhão histórico de maior calibre do Brasil) aponta para a Fortaleza de Santa Cruz, do outro lado da baía.


Ruínas do Reduto de São Teodósio (1572)


Panorama


Forte São José, reformado e equipado por ordem de D. Pedro II


Entrada do Forte São José. Observe a placa alusiva com a marca do imperador.


Forte São José (detalhe)


Forte São José (algumas das 17 casamatas)


Pão de Açúcar (atrás), Cara de Cão (na frente) e Forte São José (esquerda) vistos da Baía da Guanabara durante o passeio no rebocador Laurindo Pitta que parte do Espaço Cultural da Marinha, Praça XIV (tel. 2233-9165)

Fotos do editor do blog. Visitas à Fortaleza de São João podem ser agendadas pelo telefone (21) 2586.2291. Informações podem ser obtidas pelo e-mail sitiohistorico.fsj@gmail.com

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29.5.09

ESPERANÇA DE PAZ PARA O RIO

MATÉRIA TRANSCRITA DO JORNAL O DIA.

Unidade de Polícia Pacificadora é inaugurada no Chapéu Mangueira e Babilônia

Rio - O governador Sérgio Cabral inaugurou, na manhã desta quarta-feira, a Unidade de Polícia Pacificadora (UPP) nas comunidades do Chapéu Mangueira e da Babilônia, no bairro do Leme, Zona Sul. A unidade vai garantir o policiamento da área e dar um fim ao poder paralelo que assustava os moradores. O governo ainda vai investir na capacitação profissional, por meio de cursos, e facilitar o acesso dos moradores ao mundo digital com o Internet na Praça, que já funciona na Praça Maestro Bebetinho e oferece acesso à internet banda larga.

Esta é a quarta UPP instalada no Rio. Ao todo, serão 100 policiais militares que farão o policiamento comunitário. O capitão Felipe Lopez e a subcomandante Renata Matos são os responsáveis pela tropa, em substituição da equipe do Batalhão de Operações Especiais (Bope) e do 19º BPM (Copacabana), que ocuparam, há mais de um mês, os dois morros e neutralizaram o domínio dos bandidos sobre os habitantes.

Em 2008, brigas entre facções rivais levaram pânico aos moradores de ambas as comunidades e do entorno. A sede da UPP, situada em uma posição estratégica da Ladeira Ary Barroso, na Babilônia, foi construída em seis meses pela Empresa de Obras Públicas do Estado do Rio de Janeiro (Emop) e custou R$ 651,8 mil.

Ao lado do prefeito Eduardo Paes, o governador Sérgio Cabral anunciou que o governo do Estado já está se mobilizando para levar programas de revitalização para as comunidades: "A Benedita (da Silva) pediu à Dilma, pediu ao presidente Lula e vamos fazer o PAC aqui, que está orçado em R$ 65 milhões. É um projeto bonito, que já foi entregue à ministra Dilma. Tem também um Plano Inclinado previsto para cá", anunciou Sérgio Cabral.

Capital Humano
Uma das frentes para o desenvolvimento local é a capacitação profissional dos moradores das comunidades. Em até quarenta dias, será instalada na Ladeira Ary Barroso um Centro de Educação Tecnológica e Profissionalizante (Cetep), da Faetec, com 2.772 novas vagas por ano, em cursos de formação inicial de trabalhadores, nas áreas de idiomas (inglês, francês e espanhol), informática, hotelaria e beleza (cabeleireiro, manicura e pedicura).


DESDE A SUA CRIAÇÃO ESTE BLOG SE POSICIONA CONTRA A DITADURA DO TRÁFICO NAS COMUNIDADES. PARA LER NOSSAS OUTRAS MATÉRIAS SOBRE A VIOLÊNCIA NO RIO, CLIQUE NO MARCADOR ABAIXO.

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18.5.09

FOTOS DO RIO ANTIGO


Imperdível a matéria da Veja-Rio de 4/3/09 sobre o acervo de fotos do Rio Antigo do Instituto Moreira Salles. Para ir até lá, clique aqui.



Igualmente imperdível a matéria da Veja-Rio de 20/5/09 sobre o lançamento do livro Augusto Malta e o Rio de Janeiro. Para ir até lá, clique aqui.

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17.5.09

DALLIER E O MORRO DA CONCEIÇÃO




Um oásis de Rio Antigo em meio à agitação do centro da cidade, o Morro da Conceição — ao lado da Praça Mauá — esconde tesouros que poucos cariocas conhecem: a Fortaleza da Conceição, concluída em 1718, o antigo Palácio Episcopal, onde hoje funciona o Serviço Geográfico do Exército, o Observatório do Valongo, a Igreja de São Francisco da Prainha, a Pedra do Sal.

O Morro da Conceição também abriga uma série de ateliês de artistas plásticos (Dallier, Marcelo Frazão, Cláudio Aun, Renato Santana e outros), na Ladeira João Homem e Rua do Jogo da Bola, constituindo o Projeto Mauá.

Visitar o ateliê de Dallier no morro e ouvir suas reminiscências é, ao mesmo tempo, um exercício estético e uma viagem pelo Rio Antigo. A obra de Dallier tem afinidade com o expressionismo abstrato, movimento que combinou a intensidade emocional do expressionismo alemão com a estética antifigurativa das escolas abstratas da Europa. Para Dallier, criar um quadro é como "incorporar um santo".
Abaixo, crônica-depoimento de Dallier.


Três Sambistas, de Dallier

ESSE RIO ONDE NASCI

A velha casa onde nasci ainda teima em continuar de pé, fica situada em uma pequena rua de nome "Estela" e tem uma placa de no 28 presa em uma de suas paredes externas. Fica lá, no finalzinho da Pacheco Leão, hoje uma rua bastante conhecida por ter se tornado um reduto televisivo.

Foi nesse bairro chamado Jardim Botânico, cujo trecho onde nasci foi apelidado de Itália pequena, que vivi minha vida, até alcançar a maioridade e ter servido o exército (Escola de Educação Física), com breve período de ausência, como quando fomos morar na Praça Mauá em uma velha casa construída por meu avô paterno em 1904 e ainda também de pé, de no 52, na Ladeira João Homem, onde nos últimos anos voltei a viver.


Quando tento mergulhar no fundo do poço de minhas memórias, as primeiras imagens que surgem em minha mente são as de uma manhã de Natal lá pelos idos de 1936. Quando eu acabara de completar quatro anos de minha existência nesse mundo de Nosso Senhor Jesus Cristo. De manhã, ao acordar, encontrei junto à cama um carrinho de mão de madeira (parecido com os que são usados em obras) e, dentro dele, uma boneca (brinquei com bonecas até os sete anos). Horas depois, lembro-me bem do meu avô materno e sua oitava mulher, que eu e meu irmão mais velho — éramos apenas dois — fomos acostumados a chamar de avó. Quando os avistei subindo a Ladeira, comecei a gritar – "Lá vem vovô, lá vem a lingüiça do vovô! — pois sempre que ele vinha nos visitar trazia como seu cartão de visitas uma lata de lingüiça "Olderich" em conserva e alguns ovos caseiros. Não me lembro de ter ganho deles um brinquedo.

Outras lembranças dessa época surgem descompassadas: doenças nos olhos, febres constantemente, queimaduras no corpo com café fervente e o acidente que tive no dia em que minha mãe, eu e meu irmão íamos visitar amigos no bairro onde nasci. Estávamos descendo a ladeira; lembro-me bem. Meu irmão e eu vestíamos roupas novas de seda branca com botões de madrepérola; ao olhar para um papa-vento no alto de um sobrado, veio o tombo, quebrei o queixo e fui levado para o pronto-socorro por uma tia do lado paterno de nome Rosa (já que eu tinha duas tias do mesmo nome de lados opostos, morando na mesma casa), onde levei vários pontos. Lembro-me também dos ônibus de dois andares da Light que faziam o percurso Praça Mauá – Jockey Club. Das visitas que fazíamos ao auditório da Radio Nacional para ver de perto Batista Júnior (era pai de Linda e Dircinha) e seus bonecos falantes.

Villa-Lobos no Circo, de Dallier

Também o Carnaval daquela época contagiava toda família — esqueci de dizer que dividíamos a casa com mais quatro irmãos de meu pai e suas respectivas famílias. Fantasiados descíamos a ladeira rumo à Avenida Rio Branco para assistir ao desfile de carros abertos, que carregavam foliões que espalhavam confetes, serpentinas e lança-perfumes (naquela época não era proibido) e parávamos na extinta Galeria Cruzeiro, onde os bondes que chegavam traziam dezenas de carnavalescos vindos de todas as partes e que se juntavam na avenida, formando um grande bloco contagiante onde a pura alegria reinava nos quatro dias de Momo .

Costumávamos, nós os moradores do Morro da Conceição, participar do banhos à fantasia na Praia do Flamengo. Íamos todos descendo o morro e tínhamos também nossos carros alegóricos que eram empurrados pelos participantes, e em determinado ano eu saí em um deles vestido com roupa de papel crepom, como ajudante de motorista um primo da mesma idade de nome Ézio. E lá íamos nós em nosso carro de madeira empurrado por familiares enquanto todos dançavam e cantavam ao som das antigas marchinhas.

A primeira lembrança do bairro onde nasci é de quando, com seis anos, já pertinho dos sete, nos mudamos de volta. É o caminhão de mudanças chegando à Rua Lopes Quintas, e a velha e pequena casa em que fomos morar. Foi nesse dia que eu conheci Lucília (onde andará?), a primeira paixão de menino, que durou alguns anos, até que ela veio a conhecer aquele que viria a ser seu marido.

Aos domingos freqüentávamos as matinês do Cinema Floresta, que fizeram surgir em mim a paixão por Alice Faye. Via e revia seus filmes (muitas vezes às escondidas), alguns (três) ao lado da brasileiríssima Carmen Miranda.

Só mais tarde, já adolescente, surgiria em mim uma nova e definitiva paixão: Emilinha Borba. Era com ansiedade que esperava os sábados para ouvir a voz de César de Alencar anunciar:
- A minha, a sua, a nossa favorita: Emilinha Borba!

Continuo a afirmar que, junto com a minha mãe, foram elas que nortearam a minha vida, e, até hoje estão presentes no meu dia-a-dia, através de lembranças, discos e filmes, que ouço e vejo para diminuir a solidão e fazer dela uma boa companheira.



Rua do Jogo da Bola, no Morro da Conceição

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14.5.09

ZÉ CARIOCA

Zé Carioca foi criado no início da década de 1940, quando Walt Disney fez uma grande turnê pela América Latina, tomando parte de uma campanha promovida pelos Estados Unidos a fim de angariar apoio na II Guerra Mundial.

O cineasta (acompanhado de desenhistas de seu estúdio) concebeu personagens para os países visitados, como o Gauchinho Voador, para a Argentina e Panchito, para o México. Nosso adorável papagaio, batizado de Joe Carioca, foi o representante do Brasil.



E sua primeira aparição numa HQ brasileira aconteceu em julho de 1950, na capa de Pato Donald # 1, desenhada pelo argentino Luis Destuet. Coincidentemente, a revista que marcou a estréia da Abril no mercado editorial:


Em 1961, Zé Carioca ganhava título próprio e chegava às bancas do Brasil estampando na capa o número... 479! (imagem abaixo - clique nas imagens para ver em tamanho maior) A numeração da revista do Zé Carioca se alternava com a do Pato Donald. Numa semana era o Donald e na outra, o .  (Texto de Marcus Ramone obtido no site UNIVERSO HQ)


27.4.09

BONDINHO DE SANTA TERESA


Santa Teresa precisa dos bondes, da alegria dos bondes. Os passageiros gostam de sentar nos seus bancos, vivenciar a paisagem do bairro, o vento gostoso. Tempos e espaços se aliam nesse passeio. [...]

A cidade do Rio de Janeiro não utiliza mais o bonde. Os carros, os ônibus, a pressa o expulsaram. Em Santa Teresa, o bonde permaneceu, porque a curvas, as ruas estreitas o pedem. Os moradores precisam dele, do seu ruído. "É muito bom isto aqui. Eu fico com as minhas telas, ouvindo o passarinho cantando, lá longe um latido, e aí vem o barulho do bonde", disse-me Regina Toledo Piza, que tem seu ateliê em Santa Teresa.

O barulho do bonde, a presença do bonde. O bonde é a maior referência de Santa Teresa. O tempo passa, as coisas se transformam, mas o bonde tem de permanecer. [...] Se tirarem o bonde, Santa Teresa sucumbe. Morre um pedaço do Rio de Janeiro.
(Texto extraído do livro de Lilian Fontes, Santa Teresa - um livro maravilhoso para se familiarizar com o clima desse aprazível bairro carioca.)


O bonde na estação


Os Arcos da Lapa


Trilho do bonde sobre os Arcos


Bondinho sobre os Arcos


Dentro do bondinho


A vista de cima dos Arcos


Bondinho em Santa Teresa


Idem


Uma das várias casas em estilo eclético que você vê do bondinho na Rua Joaquim Murtinho


De volta à estação; ao fundo, a Catedral

CRÔNICA DE MACHADO DE ASSIS SOBRE A INAUGURAÇÃO DOS BONDES DE SANTA TERESA (15 de março de 1877)

Inauguraram-se os bonds [bondes, palavra originária do inglês bond] de Santa Teresa, — um sistema de alcatruzes ou de escada de Jacó [escada bíblica que levava ao céu], — uma imagem das coisas deste mundo. Quando um bond sobe, outro desce, não há tempo em caminho para uma pitada de rapé, quando muito, podem dois sujeitos fazer uma barretada [saudação que consiste em tirar da cabeça o barrete].
O pior é se um dia, naquele subir e descer, descer e subir, subirem uns para o céu e outros descerem ao purgatório, ou quando menos ao necrotério.
Escusado é dizer que as diligências viram esta inauguração com um olhar extremamente melancólico.
Alguns burros, afeitos à subida e descida do outeiro, estavam ontem lastimando este novo passo do progresso. Um deles, filósofo, humanitário e ambicioso, murmurava:

— Dizem: les dieux s'en vont [os deuses vão-se embora]. Que ironia! Não; não são os deuses somos nós. Les ânes s'en vont [os asnos vão-se embora], meus colegas, les ânes s'en vont.

E esse interessante quadrúpede olhava para o bond com um olhar cheio de saudade e humilhação. Talvez rememorava a queda lenta do burro, expelido de toda a parte pelo vapor, como o vapor o há de ser pelo balão, e o balão pela eletricidade, a eletricidade por uma força nova, que levará de vez este grande trem do mundo ate à estação terminal.
O que assim não seja... por ora.
Mas inauguraram-se os bonds. Agora é que Santa Teresa vai ficar à moda. O que havia pior, enfadonho a mais não ser, eram as viagens de diligência, nome irônico de todos os veículos desse gênero. A diligência é um meio-termo entre a tartaruga e o boi.
Uma das vantagens dos bonds de Santa Teresa sobre os seus congêneresda cidade, é a impossibilidade da pescaria. A pescaria é a chaga dos outros bonds. Assim, entre o Largo do Machado e a Glória a pescaria é uma verdadeira amolação, cada bond desce a passo lento, a olhar para um e outro lado, a catar um passageiro ao longe. As vezes o passageiro aponta na Praia do Flamengo, o bond, polido e generoso, suspende passo, cochila, toma uma pitada, dá dois dedos de conversa, apanha o passageiro, e segue o fadário até a seguinte esquina onde repete a mesma lengalenga.
Nada disso em Santa Teresa: ali o bond é um verdadeiro leva-e-traz, não se detém a brincar no caminho, como um estudante vadio.
E se depois do que fica dito, não houver uma alma caridosa que diga que eu tenho em Santa Teresa uma casa para alugar-palavra de honra! o mundo está virado.


Na estação, aguardando os passageiros


Idem

Fotos do editor do blog. A estação do bonde para Santa Teresa fica na Rua Lélio Gama, ruela que liga a Senador Dantas (perto da Cinelândia) ao Largo da Carioca. Mais informações sobre o bonde no site da Riotur. Clique no marcador Santa Teresa abaixo para ver outras postagens sobre esse aprazível bairro.

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24.4.09

RIO ANTIGO

Museu da Imagem e do Som visto da Ladeira da Misericórdia (que dava acesso ao Morro do Castelo)

Chegando ao Rio, vi ainda o convento da Ajuda [situado na atual Cinelândia e demolido em 1911; o chafariz da Praça General Osório, Ipanema, pertencia ao convento], de onde partiam cantos místicos; a igreja que forçava a rua larga de São Joaquim [atual Rua Marechal Floriano] a tornar-se rua estreita; os banhistas da praia de Santa Luzia [a praia de Santa Luzia ligava a Praia da Lapa à Ponta do Calabouço, onde se situa o Museu Histórico Nacional; a Igreja de Santa Luzia, na Avenida Presidente Antônio Carlos, pertinho da ABL, e a Santa Casa da Misericórdia ficavam à beira-mar!], adestrados pelo grande nadador Abraão Saliture; o teatrinho do Passeio Público, com seus cantores e transformistas e um garção que era perfeito sósia do barão do Rio Branco; o Mercado Velho [em frente à Rua do Mercado, que dá para a Praça XV, o primeiro verdadeiro mercado do Rio, onde estão agora um edifício do Ministério da Agricultura e o Entreposto do Peixe], que fartava os gulosos na carne vegetal das talhadas de abacaxis; a Chácara da Floresta [no antigo Morro do Castelo, demolido entre 1922 e 1930], um pedaço de subúrbio no centro da cidade; a sobrecasaca do poeta Múcio Teixeira; a opa rubra do irmão das almas; a muleta do panfletário Deocleciano Mártir, que classificava a febre amarela de patriótica, por liquidar tantos portugueses; a cartolinha cinzenta do cronista João do Rio; [...] as vacas leiteiras conduzidas em plena rua e mungidas à porta do freguês; as carrocinhas de sorvetes em forma de navio, a navegar em seco; [...] o chafariz da Carioca [o Aqueduto da Carioca, em estilo romano, hoje conhecido como os Arcos da Lapa, trazia a água do Rio Carioca até o chafariz], que distribuía Nossa Irmã a Água, franciscanamente, por milhares de sequiosos; os moleques baleiros, muito ágeis ao saltar no estribo dos bondes em marcha e impecáveis ao desfiar o seu pregão: "Balas de ovo, alteia, lima e rosa, ó nenê!"; o acendedor de lampiões, a quem os garotos apelidavam profeta; a caixa de doces que vendedores ambulantes transportavam à cabeça; os tabuleiros de baianas que depois passariam a ser baianas apenas de indumentária; os casais fora da lei civil ou religiosa, afeitos a rumar para o hotel Locomotora; a cara amarrada do carnavalesco Morcego, funcionário postal; o cortiço de que meu pai saiu tantas manhãs, levando-me ao colo para que o barão do Lavradio, pediatra da Santa Casa da Misericórdia, me curasse da coqueluche. (Texto extraído do livro de memórias de Agripino Grieco.)

Largo de São Francisco da Prainha, na Saúde

Pátio dos Canhões (Museu Histórico Nacional)

Fotos do Rio de antigamente:

As fotos desta postagem, embora mostrem aspectos do Rio Antigo, são recentes, tiradas pelo editor do blog. Veja onde encontrar fotos antigas do Rio:

Uma lista de páginas com fotos do Rio Antigo também pode ser encontrada na comunidade Rio Antigo do Orkut.

Pinturas atuais tendo por tema o Rio Antigo podem ser encontradas no site do pintor Eduardo Camões.

Agradeço ao amigo Erik Steger por ter colaborado na pesquisa dos sites.

Cores da Lapa

Igreja de N.S. da Glória

Livros sobre o Rio Antigo:

João do Rio, A alma encantadora das ruas. Pode ser baixado em versão PDF no site Domínio Público. Existe também uma edição recente pela Companhia das Letras.

Brasil Gerson, História das ruas do Rio. Clássico da historiografia carioca, em edição revista e ampliada (depois da morte do autor) por Alexei Bueno.

Coleção Cantos do Rio da Editora Relume-Dumará. Pequenos livros abordando os bairros do Rio. Recomendo especialmente Gamboa, de Alexei Bueno, Santa Teresa, de Lilian Fontes, Lagoa, de Carlos Heitor Cony, Botafogo, de Cláudio Henrique, São Cristóvão, de Helio Brasil (livro belíssimo!), e Centro, de Antônio Torres.

A Livraria Folha Seca, à Rua do Ouvidor, 37 - Centro possui uma excelente seção de livros sobre o Rio de Janeiro antigo e moderno. Nos sebos da Praça Tiradentes e Avenida Passos também é possível encontrar livros sobre a cidade.


Encosta do Morro da Conceição

Rua do Mercado


Como conhecer o Rio Antigo
:

Uma das maneiras de conhecer o Rio Antigo é fazer um passeio guiado com o editor deste blog. Contactos pelo e-mail ivokory@gmail.com

Caso queira conhecer especificamente o Morro da Conceição, você pode fazer uma visita guiada com o pintor Paulo Dallier, que tem ateliê no morro. O telefone é (21) 2263.4663 e o e-mail é dallier@oi.com.br

Outra boa pedida são os Roteiros Geográficos do Instituto de Geografia da UERJ, que incluem o imperdível Roteiro Noturno no Centro do Rio A Pé além de outros passeios. Informações pelo e-mail roteirosgeorio@uol.com.br

Outra alternativa para conhecer o Rio antigo (& moderno) são os Roteiros do Rio a Pé, da ACADETUR (Agência Acadêmica de Turismo) da UniverCidade. Os passeios, gratuitos, começam sempre às 14 horas, e os interessados devem se inscrever alguns dias antes pelo telefone 3113-1706. Informações também podem ser solicitadas à Acadetur pelo e-mail acadetur@univercidade.br
Segue a lista dos passeios programados em 2009 e os pontos de encontro (informações fornecidas pela ACADETUR).

Janela do ateliê do pintor Dallier no Morro da Conceição

Travessa do Comércio

ABRIL
26 - Cinelândia e arredores
Encontro: Estação do Metrô Carioca-saída Rio Branco

MAIO
23 - Santa Teresa
Encontro: Estação do bondinho na Rua Lélio Gama.

JUNHO
18 - Praça Mauá e Mosteiro de São Bento
Encontro: Mosteiro de São Bento

JULHO
18 - Flamengo e Casa Julieta de Serpa
Ponto de encontro: Casa Julieta de Serpa -Praia do Flamengo, 340.

AGOSTO
19 - São Cristóvão e Quinta da Boa Vista
Ponto de encontro: Largo da Cancela

SETEMBRO
27 - Gloria e arredores
Ponto de encontro: Largo da Glória na saída do metro

OUTUBRO
24 - Urca e arredores
Ponto de encontro: Praça General Tiburcio.

NOVEMBRO
7 - Forte Duque de Caxias
Ponto de Encontro: Praça Julio de Noronha

DEZEMBRO
13-Niteroi e Niemeyer
Ponto de encontro: estação das barcas em Niterói

Feira Rio Antigo na Rua do Lavradio no primeiro sábado de cada mês

Morro da Conceição

Folhetos sobre o Rio:

A Riotur fornece gratuitamente a turistas e cariocas mapas e folhetos sobre o Rio de Janeiro na Av. Princesa Isabel, 183 (Copacabana). Você pode pedir informações pelo e-mail marketing.riotur@pcrj.rj.gov.br


Sacada de serralheria na Glória, subida para Santa Teresa

Igreja de Nossa Senhora do Carmo da Lapa

Convento do Carmo

Postagem originalmente publicada em 21/3/06 e atualizada com fotos adicionais e a programação de 2009 do Rio A Pé. Fotos do editor do blog.

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23.4.09

ANIVERSÁRIO DE PIXINGUINHA

TEXTO DE CYRO DE MATTOS


Filho de uma família musical, Alfredo da Rocha Viana Filho nasceu no Rio de Janeiro, em 23 de abril de 1897. Teve treze irmãos. O apelido Pixinguinha veio da junção de dois outros apelidos: “Pizindim”, apelido colocado pela avó Edwirges, que era africana, e “Bexiguinha”, herdado ao contrair varíola (bexiga), epidemia que deixou marcas em seu rosto.

A história da nossa música popular e do rádio confunde-se com a vida desse maravilhoso flautista, saxofonista, compositor, arranjador e regente. Choros, canções regionais, desafios sertanejos, maxixes, lundus, corta-jacas, batuques, cateretês, entre outras modalidades musicais, receberam o acento, o hálito, o sopro, a marca magistral do primeiro arranjador que a música popular brasileira teve, com “O Teu Cabelo Não Nega”, de Lamartine e os Irmãos Valença, e “Taí”, de Joubert de Carvalho.

Aos 12 anos começou a acompanhar seu pai, flautista, em festas, tocando cavaquinho. Aos treze fazia a primeira composição, “Lata de Leite”, inspirada nos chorões boêmios, músicos que de madrugada encerravam suas atividades e, voltando para casa, bebiam o leite deixado na porta das residências. De suas primeiras composições destacam-se ainda “Rosa” e “Sofre Porque Queres”.

Esse filho de Ogun, de fama internacional, fundiu a sua formação clássica, de base européia, com ritmos nossos, de raízes negras, além de incorporar a música negra norte-americana, formando assim um estilo em que sobressai o toque especial do sentimento brasileiro de nossa música popular. Diante de sua música, que mexe com a alma e traz um jeito tão nosso, não há quem não sinta o orgulho de ser brasileiro.

São tantas as composições marcantes realizadas por esse mestre de nossa música popular, entre tantos mestres, que é difícil destacar algumas dessas jóias. Cito aqui algumas do meu gosto: “Carinhoso”, “Gavião Calçudo” , “Chorei”, “Um a Zero” e “Vou Vivendo”. Mas há quem prefira “Mundo Melhor”, “Segure Ele” e “Sofres Porque Queres”. E ainda quem não abra mão de “A Vida É um Buraco”, “Naquele Tempo” e “Rosa”.

Estátua de Pixinguinha na Travessa do Ouvidor, Centro do Rio


Se música é pensar e sentir a vida através de sons, em Pixiguinha temos o exemplo primoroso de como não se pode viver sem ela. Esse poeta da nossa música popular tinha a alma de passarinho, que gostava de soltar da flauta pingos de ouro, de dia e de noite. Dos lamentos de seu saxofone lograva extrair sentimentos puros, fundos, pungentes choros, emoção numa coisa só música afinada, que traz também o riso,.além de fazer que famosos compositores, letristas e músicos de hoje se curvem diante dela.

Ele pensava, sentia e respirava música. Foi na terceira complicação cardíaca, nos idos de 1964, que ele ficou internado por mais de um mês. Foi proibido pelo médico de certas comidas pesadas, bebida e de tocar saxofone. Tempo depois, quando teve autorização para voltar a tocar saxofone, chorou. Escreveu vinte músicas durante o tempo que esteve internado,, cada uma delas se relacionando com os momentos que teve no hospital. Por exemplo, “Manda Brasa”, expressão que ouviu quando ia almoçar, e “Vou pra Casa”, escreveu no quarto, ao receber alta.

Pixinguinha morreu dentro de uma igreja, em Ipanema, no Rio de Janeiro, em 17 de fevereiro de 1973. Tinha ido batizar o filho de um amigo, depois de adiar por várias vezes o batismo por motivo de complicações no estado de saúde. É possível que não tenha resistido à emoção de ser padrinho do filho do amigo na hora do batismo quando então caiu fulminado por um enfarte. O pessoal da Banda de Ipanema, que saía pelas ruas em época de Carnaval, ao tomar conhecimento de sua morte, passou na porta da igreja onde o corpo de Pixinguinha estava sendo velado lá dentro. E naquele instante tocou como nunca o samba que homenageava o mestre. Os foliões cantavam num clima de alegria e tristeza o refrão: “Ô, lê, lê, ô,lá, lá, pega no ganzê, pega no ganzá...”

Um motorista, ao ouvir pelo rádio do carro a notícia da morte de Pixinguinha, disse para o passageiro:
- Esse homem tinha um coração tão bom que Deus quis que ele morresse dentro de uma igreja.


Painel a óleo em frente à estátua de Pixinguinha. O painel mostra um encontro hipotético entre bambas da nossa música (Nelson Sargento, Paulo Moura, Braguinha, Noel Rosa e outros) na Wiskeria Gouveia, o "Escritório do Pixinguinha".

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17.4.09

HOMENAGEM A TIRADENTES

COM FOTOS DA SUA ESTÁTUA DIANTE DO PALÁCIO TIRADENTES (ASSEMBLEIA LEGISLATIVA DO RIO DE JANEIRO)


Por aqui passava um homem
— e como o povo se ria! —
que não passava de Alferes
de cavalaria!

“Faremos a mesma coisa
que fez a América Inglesa!”
E bradava: “Há de ser nossa
tanta riqueza!”

Por aqui passava um homem
— e como o povo se ria! —
Liberdade ainda que tarde
nos prometia.

E cavalgava o machinho.
E a marcha era tão segura
que uns diziam: “Que coragem!”
E outros: “Que loucura!”

Mas ninguém mais se está rindo
pois talvez ainda aconteça
que ele por aqui não volte,
ou que volte sem cabeça...

(trechos do Romance XXXI do Romanceiro da Inconfidência de Cecília Meireles)


Não foi exatamente na Praça Tiradentes e muito menos em Minas Gerais, como muitos pensam, que Tiradentes morreu. Tendo nas mãos um mapa da Biblioteca Nacional, datado de 1785-1760, o historiador Milton Teixeira mostra o local exato da execução. Marcado pela palavra “forca”, este ficaria a algumas centenas de metros da atual Praça Tiradentes, mais precisamente no que hoje é a esquina da Avenida Passos com Rua Buenos Aires. Através do mapa e de alguns relatos históricos, também é possível reconstituir as últimas passagens da vida de Tiradentes. Milton conta que o alferes teria sido preso em 10 de maio de 1789, numa casa na Rua dos Latoeiros (atual Rua Gonçalves Dias), onde teria se escondido depois de passar um tempo na Igreja Nossa Senhora Mãe dos Homens (na atual rua da Alfândega). Tiradentes foi levado então para a Ilha das Cobras, onde passou a ocupar a cela número 3 do cubículo 5. Lá, foi submetido a vários interrogatórios, sempre negando a sua ligação com a Conjuração Mineira. Forçado pelas circunstâncias — todos os seus colegas o apontaram como líder do movimento — acabou assumindo o envolvimento. [...] Em sua sentença, a rainha Maria I foi taxativa: dos dez envolvidos, nove seriam presos e um seria condenado à morte. “Claro que sobrou para Tiradentes, que, além de ser o mais pobre entre os dez, ainda era dentista, profissão que parece nunca ter sido vista com bons olhos pelos portugueses”, brinca Milton. [...]


Não foi na Ilha das Cobras que Tiradentes passou sua última noite, e sim na Cadeia, edifício que ficava onde hoje está o Palácio Tiradentes; não por acaso, ali foi posta uma estátua do inconfidente. Vestido com uma camisa de onze varas e, segundo a lenda, depois de ter beijado as mãos e os pés do seu carrasco, Tiradentes deixou a cadeia na manhã de 21 de abril de 1792. Ele teria, então, seguido pela Rua da Cadeia (atual Rua da Assembléia), chegado ao Largo da Carioca, continuado pela Rua do Piolho (atual Rua da Carioca) até o campo da Lampadosa, assistido à missa na igreja que, na época, dava nome ao local e, finalmente, enforcado na esquina da Avenida Passos com Rua Buenos Aires. “Tiradentes nunca teve barba, bigode e cabelão, como costuma ser retratado em quadros e, no momento da execução, estava careca. Mas como a República chegou ao Brasil com um caráter agnóstico, o principal objetivo foi substituir a imagem dos santos pela das figuras pátrias. A de Tiradentes era a que mais se parecia com a de Cristo, porque, enquanto este veio para nos salvar, aquele teria vindo para nos libertar”, diz Milton, lembrando que, depois da execução, o corpo foi esquartejado na Casa do Trem (atual Museu Histórico Nacional) e cada pedaço enviado para lugares onde ele tivesse pregado suas idéias libertárias.



(Texto extraído do ótimo livro de Roberta Oliveira, Praça Tiradentes.)



Fotos da estátua de Tiradentes (diante do Palácio Tiradentes, onde fica a Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro) tiradas pelo editor do blog em 2007. Tiradentes é patrono das polícias militares do Brasil.

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12.4.09

ILHA DO GOVERNADOR

Texto do editor do blog com colaboração de Vitor Scalercio. Fotos do editor do blog (IK) e de Vitor Scalercio (VS).


Vista da entrada da Baía da Guanabara (IK).


Vista do Iate Clube Jardim Guanabara (VS).

O Rio é gigantesco, e por mais que você rode pela cidade, há sempre lugares novos para conhecer. Por exemplo, você conhece a Ilha do Governador? (As entranhas da Ilha, não apenas a estrada até o aeroporto.) Pois eu também só conhecia a Ilha en passant. Até que recebi do Vitor um e-mail onde ele dizia:


Vista do Jardim Guanabara (observe o Pão de Açúcar ao fundo) (VS).


Jardim Guanabara: a Ilha livrou-se da "verticalização", o gabarito lá é uniforme, máximo de três andares (VS).

Sou carioca e eterno apaixonado pela cidade do Rio de Janeiro. E não me canso, cada dia descubro lugares novos, cantinhos desconhecidos, novas impressões, um novo olhar, uma outra perspectiva. [...] O Rio é único, não há nenhum outro lugar no mundo que reúna todas essas características peculiares, elas são singulares! A cidade tem vida, uma identidade, tem uma 'alma'! [...] E o carioca é um dos trunfos desta cidade, eu diria.

E um dos motivos que escrevo é falar sobre uma outra grande paixão que também faz parte do Rio de Janeiro. Tem uma história própria, também é singular, é uma outra cidade dentro da metrópole. É a minha Ilha do Governador. [...] Não sei se você conhece seus bairros, suas características, sua vida, sua história. Bom, aqui deixo meu convite. [...] Tenho certeza que você se encantará e verá mais uma peça que faz parte deste lindo mosaico que é a nossa cidade.



Da Ilha você contempla um panorama singular do relevo carioca, as montanhas ao longe... (VS)


Rua Agostinho dos Santos: as casas ficam expostas, sem muros altíssimos nem grades de prisão (IK).

Aceitei o gentil convite do Vitor e... tornei-me um fã da Ilha! A Ilha livrou-se de um fenômeno chamado "verticalização": o gabarito lá é uniforme, máximo de três andares. Cheia de colinas, as ruas são sinuosas, seguindo as curvas de nível. Dentro da Ilha o trânsito sempre flui razoavelmente (você não fica retido no trânsito por uma eternidade), e existe a opção da barca. Muitos bairros da Ilha são seguros: as casas ficam expostas, sem muros altíssimos nem grades de prisão (veja as fotos). O calor do verão lá é atenuado pela brisa que sempre sopra do mar. A Ilha é um Rio de Zona Norte com nível de vida de Zona Sul: o bairro de Jardim Guanabara ostenta o terceiro maior IDH (índice de desenvolvimento humano) da cidade, superado apenas pela Gávea e Leblon. A Ilha está cheia de praias bucólicas como em Paquetá (é verdade que as águas da Baía estão poluídas, mas quem sabe, um dia...), com pescadores, barquinhos, peixe frito à beira-mar... Da Ilha você contempla um panorama singular do relevo carioca, as montanhas ao longe, Pão de Açúcar, Corcovado, etc. É como se existisse uma outra temporalidade, em que você está do lado da metrópole, mas consegue escapar de toda a agitação.


Parque Marcello de Ipanema: o bairro de Jardim Guanabara ostenta o terceiro maior IDH da cidade (VS).


Rua Jair Ramos: modernidade (IK).

A Ilha do Governador é enorme: com 40,8 quilômetros quadrados, aproximadamente o tamanho de todos os bairros da Zona Sul juntos. Só que 51% de sua área é ocupada pelo bairro do Galeão cuja ocupação é apenas para fins militares (aeronáutica) e para o aeroporto. A população, 211 mil habitantes (censo 2000), supera a de Copacabana (147 mil). Tem de tudo na Ilha do Governador: o aeroporto; um Porcão; um iate clube; uma escola de samba; uma grande presença militar em vários bairros (estação de radio da marinha, base aérea do galeão, fuzileiros navais, hospital da aeronáltica, hospital de medicina aeroespacial etc.); três reservas militares de mata atlântica; a APARU do Jequiá, que possui uma preservação do ecossistema de manguezal; um estádio de futebol; um shopping center; praias; as ruas costumam ser arborizadas; igrejas históricas; casas simpáticas; prédios modernos (mas baixos); favelas; tem até uma lenda indígena (a tribo de Arariboia, os temininós, habitava lá). Na verdade, a Ilha não é um bairro, mas uma região administrativa composta de duas ilhas (a do Governador e a do Fundão) e de 15 bairros: Bancários, Cacuia, Cidade Universitária, Cocotá, Freguesia, Galeão, Jardim Carioca, Jardim Guanabara, Moneró, Pitangueiras, Portuguesa, Praia da Bandeira, Ribeira, Tauá e Zumbi.


Igreja de Nossa Senhora da Conceição: antiga capela do engenho de Salvador Correia de Sá, construída na primeira metade do século XVII (IK).


Praça Jerusalém no Jardim Guanabara. Ao fundo, a Rua Uçá, ladeada de palmeiras (VS).

A Prefeitura, em seu plano de estratégias para a cidade, considera a Ilha um microcosmo do Rio de Janeiro. No Plano Estratégico da prefeitura lemos: “Com efervescente vida própria, um intenso comércio e dispondo de enormes recursos naturais, a Ilha do Governador tem tudo para se desenvolver de forma ordenada e coerente, preservando a qualidade de vida. A Região possui indicadores que representam uma média dos indicadores da cidade, ou seja, possui um ambiente urbano no qual os melhores bairros residenciais - confortáveis e elegantes - apresentam as mesmas condições de vida da Zona Sul, convivendo entretanto com favelas e cortiços com as mesmas mazelas características de alguns bairros da Zona Norte. A Região Ilha do Governador representa, em escala menor, um modelo de informações estatísticas da cidade.”


Estação de barcas de Cocotá: o trânsito flui razoavelmente e existe a opção da barca (IK).


Crianças na Praia da Bandeira: A Ilha está cheia de praias bucólicas (IK).

A Ilha também teve uma longa história: antes do descobrimento, viviam lá os temininós, a tribo de Arariboia, mas foram expulsos pelos tamoios, aliados dos franceses. Após a vitória contra os invasores, Arariboia recebeu glebas do outro lado da baía, na atual Niterói. Salvador de Sá, irmão de Estácio e primo de Mem, fundaria lá os três primeiros grandes engenhos de açúcar e aguardente do Rio. O nome Governador vem de Salvador, duas vezes governador-geral do Rio. Na Ilha D. João VI tomava banhos de mar e caçava. Vinha da Quinta do Caju num pequeno galeão. A história completa você encontra na Wikipedia. Imagens antigas da Ilha você encontra no fotolog Ilha do Governador.


Ponta do Tiro (IK).


Igreja da Sagrada Família (Ribeira) (IK).


Porta da Igreja da Sagrada Família (IK).


Vista da Igreja da Sagrada Família (VS).


Praia da Bica (VS).


Praia da Engenhoca (VS).


Igreja de N.S. da Ajuda, na Freguesia. A atual construção de 1898 apoia-se nas paredes das precedentes igrejas de 1710 e 1743. (IK)


Pedra da Onça, na Freguesia. Conta a lenda que uma índia ia todos os dias, no fim da tarde, até a praia, com seu gato maracajá, mergulhando da pedra durante horas. Um dia, a jovem índia não mais voltou, ficando o gato a esperá-la, olhando para o mar até morrer de fome (VS).

Estas e outras fotos da Ilha do Governador podem ser vistas em duas exibições de slides, uma do autor do blog e outra de Vitor Scarlecio.

9.4.09

SEMANA SANTA

MACHADO DE ASSIS


A SEMANA foi santa — mas não foi a semana santa que eu conheci, quando tinha a idade de mocinho nascido depois da guerra do Paraguai. Deus meu! Há pessoas que nasceram depois da guerra do Paraguai! Há rapazes que fazem a barba, que namoram, que se casam, que têm filhos, e, não obstante, nasceram depois da batalha de Aquidabã! Mas então que é o tempo? É a brisa fresca e preguiçosa de outros anos, ou este tufão impetuoso que parece apostar com a eletricidade? Não há dúvida que os relógios, depois da morte de López [ditador paraguaio], andam muito mais depressa. Antigamente tinham o andar próprio de uma quadra [época] em que as notícias de Ouro Preto gastavam cinco dias para chegar ao Rio de Janeiro. [...]

As semanas santas de outro tempo eram, antes de tudo, muito mais compridas. O Domingo de Ramos valia por três. As palmas que traziam das igrejas eram muito mais verdes que as de hoje, mais e melhores. Verdadeiramente já não há verde. O verde de hoje é um amarelo escuro. A segunda-feira e a terça-feira eram lentas, não longas; não sei se percebem a diferença. Quero dizer que eram tediosas, por serem vazias. Raiava, porém, a quarta-feira de trevas; era princípio de uma série de cerimônias, e de ofícios, de procissões, sermões de lágrimas, até o sábado de aleluia, em que a alegria reaparecia, e finalmente o Domingo de Páscoa, que era a chave de ouro. [...]

Como entender, depois da passagem de Humaitá [episódio da Guerra do Paraguai], que as procissões do enterro, uma de São Francisco de Paula, outra do Carmo, eram tão compridas que não acabavam mais? Como pintar-lhes os andores, as filas de tochas inumeráveis, as Marias Behus, segundo a forma popular, centurião, e tantas outras partes da cerimônia, não contando as janelas das casas iluminadas, acolchoadas e atapetadas de moças bonitas — moças e velhas — porque já naquele tempo havia algumas pessoas velhas, mas poucas. Tudo era da idade e da cor das palmas: verde.

(Trecho de crônica publicada na revista A Semana em 25 de março de 1894)


Foto de 1890 de Marc Ferrez e estatueta de Zé Andrade exposta na mega music store Modern Sound. Clique no marcador "Machado de Assis" abaixo para ver outras postagens sobre o bruxo do Cosme Velho.

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25.3.09

CONFEITARIA COLOMBO


Inaugurada a 17 de setembro de 1894, por Manoel Lebrão e Joaquim Borges de Meirelles, com o nome de Pâtisserie Colombo, quase na esquina com a Rua do Ouvidor, a rua da moda da cidade no século XIX e no início do século XX, tornou-se logo ponto de atração para a sociedade e local de reunião de artistas, intelectuais e jornalistas. A área reunia, na época, o comércio mais sofisticado do país. A Confeitaria Colombo é a única casa comercial remanescente daqueles tempos, em que era elegante fazer compras no Centro e tomar chá, às cinco, nas requintadas confeitarias. Sua aparência atual data da reforma de 1913, que lhe assegurou uma atmosfera art nouveau irresistível.


No primeiro andar, a área da confeitaria tem balcões e vitrines de jacarandá, em estilo Luís XV, bancadas de mármore italiano e antigos vidros de balas. O salão de refeições exibe monumentais espelhos belgas, com molduras brasileiras de jacarandá, paredes com a parte inferior recoberta de mármore lavrado, com desenho de delicadas gregas; as mesas, com pés de ferro fundido, têm tampos de mármore; as cadeiras são em estilo Luís XV. O teto é trabalhado com sancas e florões e os lustres obedecem a desenho caprichoso. O piso, de ladrilhos, tem desenho colorido e delicado. No segundo andar, o salão de chá tem camarotes para orquestra, atualmente ocupados, eventualmente, por piano. Uma notável claraboia de vidro decorado com motivos florais e anjos é o ponto alto do salão, em harmonia com os painéis pintados existentes nas paredes, retratando vestais, anjos e flores. (Texto extraído do Guia Michelin do Rio de Janeiro)



Em "Confeitaria Colombo: 100 anos de charme", escreve Alessandro Motta Buzas: "A roda mais famosa dos intelectuais que ali frequentaram é a de Olavo Bilac, fundador da Sociedade dos Homens de Letras, em 1914. O objetivo dessa sociedade era criar uma bandeira de luta pela defesa dos "trabalhadores intelectuais" que não tinham uma remuneração adequada em jornais e revistas. Na festa da Colombo, em 1955, quando houve o centenário de nascimento de Olavo Bilac, este foi homenageado com uma placa comemorativa na entrada da casa. O poeta era tão pontual para os diários chás da cinco que os funcionários sempre acertavam os relógios da casa assim que ele chegava. Bilac viajava muito e, sempre que retornava ao Brasil, havia festa na Colombo, com direito a "quadrinhas comemorativas" dos padrinhos da roda." Para ler o artigo completo de Alessandro sobre a Colombo, clique aqui.






Saiba tudo sobre a Confeitaria Colombo (endereço, menu, horário etc.) visitando o site da confeitaria. Para ver uma exibição de slides com estas e outras fotos da Colombo tiradas pelo editor do blog, clique aqui.

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16.3.09

Véronique, Brésil 2009


Como conheço bem o Rio, às vezes me pedem que eu organize passeios guiados. (Informações sobre meu Historical Rio Surprise Walking Tour estão no meu blog em inglês Rio de Janeiro Around the Year - o surprise é porque meu passeio é realmente uma surpresa, eu não revelo o roteiro antes.) Este Carnaval levei para passear um grupo de uns trinta franceses curtidores do samba que vieram desfilar na Sapucaí. Uma das participantes, a Véronique, achou (em francês, claro) la balade que nous avions faite avec vous dans Rio, très belle et interessante balade d'ailleurs. (Balade em francês é passeio). Ela tirou umas fotos bem interessantes. Algumas mostro nesta postagem. Para ver todas as fotos da Véronique no Brasil (inclusive na Bahia e no Sambódromo), clique aqui.









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2.3.09

CORES DO RIO (Colourful Rio)

UM VÍDEO DE IVO KORYTOWSKI COM MÚSICA DE PIXINGUINHA.

O Rio é um festival de cores. A começar por nosso céu, considerado pelo site The Blue Sky Explorer o mais bonito do mundo. Temos no ano mais dias de sol do que de chuva (fog aqui é coisa rara), dando a tudo um colorido especial. Em pouco tempo, vamos do verde das matas da Floresta da Tijuca (ou do Jardim Botânico) para o azul do mar — na praia, barracas multicores. Andar nas ruas é mergulhar num caleidoscópio de cores. Aqui florescem ipês amarelos, roxos, rosas, o flamboyant vermelho vivo etc. De cada dois cariocas, um (estimo) é rubro-negro - bela combinação cromática. Até os ônibus cariocas são mais coloridos que em outras cidades — sem falar nos táxis amarelos.

CORES DO RIO - PS

As fotos do vídeo CORES DO RIO com as respectivas legendas também podem ser vistas em forma de exibição de slides. Basta clicar aqui.

28.2.09

A VISITA DO POETA

Crônica de Antônio Maria


Estatueta de Zé Andrade exposta na Modern Sound


Bar Garota de Ipanema (esquina das ruas Vinicius de Moraes e Prudente de Morais), onde Tom Jobim e Vinícius de Moraes se inspiraram para compor a música Garota de Ipanema

Cá está o poeta Vinicius de Moraes. Bebe, silenciosamente, um copo de cerveja, enquanto desenha.
— Vai falando, Poesia — digo-lhe, de vista baixa...
— Eu não — responde ele, de vista mais baixa ainda.
Vou desenhando e pensando. O que haverá com Poesia? Alguém judiou dele. Para ele estar assim...

Terá sido mulher? Sempre que o vi, estava feliz. Opulento, até. Na face, o seu saudável “rosa-colonial”. Hoje, até pálido ele está. Poucos sabem a extensão da maldade, quando se faz sofrer aos poetas. Aos poetas, não se pode negar nada. Tirar, muito menos. Principalmente a este, que é um franciscano. Vocês não sabiam? Vinicius de Moraes é franciscano, apenas está dispensado de usar o hábito porque todos o dispensam de fazer sacrifícios. O Itamarati, por exemplo, o dispensou de ir lá. Quando o ministro Hermes Lima precisa de alguma orientação, manda Lolô Bernardes telefonar e Vinicius instrui, pelo telefone. Na Casa de Rio Branco não se faz nada sem ouvir Vinicius de Moraes. Daí a mágoa de Pomona Politis, que se considera uma continuação e, às vezes, o próprio Barão do Rio Branco.

Mas, o que há com Poesia para estar ali sentado, sem um som, sequer o da respiração? Esse poeta arfava muito. Antigamente, a dois metros dele, era possível ouvir-se-lhe a arfância. E nunca foi de sentar muito tempo, a não ser se tivesse alguém no colo. No mínimo, uma criança. Também, não se pode dizer que tenha sido um poeta vertical; isto é, em pé. Na horizontal, com simples acenos, abalou montanhas, causou muita febre terçã, afundou navios e derrubou aeronaves. O Zepelin, não o bar, mas o Graf Zepelin pegou fogo por quê?

E hoje, cá está o poeta, de vista baixa, bebendo sua cervejinha, calado, de repente, como ele mesmo vaticinou, “não mais que de repente”. Poesia, que é da moça, que dizia à lua: “Minha carne é cor-de-rosa; não é verde como a tua.” Que é da mulher, que passou, com sete esperanças na boca fresca. Que é da outra, cujos cabelos rescendiam à flor da murta. E tu disseste, Poesia, gloriando a todas elas: “Tende piedade, Senhor, de todas as mulheres!”

Não queria ver o poeta assim, em minha casa. A cabeça pendida, o peito silencioso, a mão trêmula, erguendo o copo de cerveja... cerveja que sabe às amargas ingratidões. Quero-o, como antes, contando o abalo que causou em Ava Gardner, em Rosana Schiafino, na Soraya, na própria Edith Piaf, quando essas senhoras o viram pela primeira vez. Ava Gardner, coitada, ainda era virgem e ficou de tal maneira perturbada que se casou com Mickey Rooney.

Uma vez, no Louvre, diante da Gioconda, eu lhe disse, muito a sério:
— Vamos sair daqui, Poesia, que essa mulher vai se descontrair e cair na gargalhada.


Bar Vinicius, em frente ao Garota de Ipanema


Toca do Vinicius, na rua Vinicius de Moraes

Crônica extraída da antologia Seja feliz e faça os outros felizes organizada por Joaquim Ferreira dos Santos e publicada pela Civilização Brasileira. Clique no marcador abaixo para ver outras postagens sobre Vinicius.

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19.2.09

CARNAVAL DE RUA

Fotos do Carnaval de 2008


Neste Carnaval de 2009 mais de 700 mil turistas visitam o Rio. Se os americanos conseguiram enviar uma nave tripulada à Lua, nós conseguimos organizar o maior espetáculo da Terra (o desfile das Escolas de Samba). Ano retrasado, escrevi neste blog: “Ano que vem, se Deus quiser, estarei lá”. Estive nos ensaios técnicos, já é alguma coisa. Mas nem só de Sapucaí vive o Carnaval do Rio. Os blocos de rua a cada ano atraem mais gente. O Carnaval carioca é cem por cento democrático, sem "cordinhas" de isolamento, sem abadás — diversão garantida a baixo custo (o custo das cervas vendidas por ambulantes). "Ninguém precisa ficar de fora, tem bloco para todos os gostos. Dos antigos Cordão da Bola Preta, Banda de Ipanema e Simpatia é Quase Amor — que arrastam milhares de pessoas em seus desfiles — aos estreantes como o alegre Filhos de Bambi, que se concentra na Rua Bambina." (O Dia)

As dezesseis primeiras fotos da postagem foram tiradas durante o desfile dos blocos de embalo (Bafo da Onça, Turma do Serrote, Cacique de Ramos etc.), domingo à noite, na Avenida Rio Branco. A antepenúltima e penúltima fotos, no desfile do Clube do Samba, terça-feira, na Avenida Atlântica, e a última, na velha e boêmia Lapa. As fotos são do Carnaval de 2008, quando esta postagem foi originalmente ao ar.

















Fotos de Ivo & Mi. Para ver outras postagens sobre o Carnaval carioca, clique no marcador abaixo.

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4.2.09

RIO DE JANEIRO DE ENCANTOS MIL

Texto de Paulo César Martinez y Alonso (Pró-Reitor de Desenvolvimento da UniverCidade)


Praia de Copacabana; ao fundo, Leme e Pão de Açúcar

O Rio de Janeiro precisa de gente que vive, ama e trabalha pelo seu permanente progresso, desenvolvimento e (re)construção. E, para tanto, não somente o carioca como todos aqueles que elegeram o Rio para viver precisam se empenhar para que a Cidade possa continuar Maravilhosa. Para que isso ocorra, todos os cidadãos devem contribuir. E as autoridades constituídas têm o dever constitucional de zelar por sua segurança, além, é claro, de buscar caminhos, visando oferecer, e de forma permanente, educação, cultura, cidadania, saúde e bem-estar social.


Praia de Ipanema, pertinho do Arpoador

Não há no mundo Cidade mais encantadora. Paris, Londres, Roma, Atenas, Jerusalém, Cairo, Tóquio e Nova York guardam seus encantos, suas tradições, suas culturas e suas civilizações. A Cidade Maravilhosa, coração do Brasil, guarda encantos mil. Guarda praias, abriga florestas, encanta com o Pão de Açúcar e é abraçada pelo Cristo Redentor, que, diariamente, do Alto do Corcovado, também abençoa a todos, e sempre de braços abertos.


Corcovado visto do Jardim Botânico

Entre o sol de Ipanema, o mar de Copacabana, as Lagoas Rodrigo de Freitas e de Marapendi e a Mata Atlântica, está geograficamente a Cidade do Rio de Janeiro, que vem servindo de inspiração permanente para músicos, cineastas, poetas, escritores e artistas plásticos. Tom Jobim e Vinícius de Moraes, por exemplo, se serviram dos cenários da Cidade para compor músicas inesquecíveis, além de Chico Buarque e Belchior, dentre outros. João Cabral, na Praia do Flamengo, Manuel Bandeira, na Glória, e Carlos Drummond de Andrade, em Copacabana, foram, lembrando o poeta português Fernando Pessoa, grandes "antenas do Mundo". Fizeram versos e poesias, declarando, dessa maneira, amor e paixão, além de reverência, pela cidade. Pancetti e Sylvio Pinto, com suas marinhas, retrataram o litoral da Cidade, do cais do porto a Grumari.


Casa França-Brasil; ao fundo, Igreja da Candelária

Que maravilha! A atriz Teresa Rachel costuma dizer que, quando está com as malas prontas para viajar, curte a idéia de passar alguns dias fora, mas, quando demora em uma capital, sente saudades do Rio de Janeiro. Sentimento que certamente é dividido por todos os cariocas. Aliás, sentir saudades do Rio de Janeiro é até motivo de orgulho. A magia da cidade, com seu clima paradisíaco, banhada pelo Atlântico Sul, debaixo da linha do Equador e sob o Trópico de Capricórnio, seduz. E não é à toa que ela recebe, e sempre com hospitalidade, pessoas de todas as partes do mundo.


Igreja de N.S. da Lapa dos Mercadores vista da Rua do Mercado

Lembrando o maestro e compositor Tom Jobim, "Minha alma canta, vejo o Rio de Janeiro. Estou morrendo de saudades. Rio, teu mar, praias sem fim..., você foi feito para mim...". Aqui apareceram a Garota de Ipanema (..."olha que coisa mais linda, mais cheia de graça..."). Salve Helô Pinheiro, imortalizada pelo maestro maior, e o Menino do Rio, do baiano Caetano Velloso. As imagens das praias cariocas, do Morro Dois Irmãos, do Joá, do Jardim Botânico, da Princesinha do Mar, da Ilha Fiscal, da Floresta da Tijuca e dos carnavais (Mangueira e "as rosas não falam", de Cartola e de Dona Zica, Império Serrano, Beija-Flor, Portela e Salgueiro), sem esquecer do Maracanã (50 anos de vida e de glórias) são registradas por todas as emissoras de televisão do mundo.


Detalhe do Rio Antigo

Gláuber Rocha, Albino Pinheiro, Leila Diniz, Mário Peixoto e Sérgio Cabral foram/ são alguns dos personagens mais ilustres da Cidade. O Rio Antigo, de Ferrer, de Debret e de Rugendas...


Favela Pavão-Pavãozinho vista da Rua Raul Pompéia (Copacabana)

Ser carioca, aliás, é um estado de espírito, como costuma dizer a colunista Danuza Leão, sempre tão exuberante nas palavras. Ruas, praças, becos e favelas da Cidade estão imortalizadas, em belas canções. A Rua Nascimento Silva, por exemplo, ficou eternizada na voz da "Divina" Elizeth Cardoso, assim como o bairro de Copacabana, nas interpretações de Farney.


Igreja da Glória

Poder contemplar o projeto paisagístico do Aterro do Flamengo, a Igreja da Glória, no alto da Colina do Outeiro, a Candelária, os prédios centenários e históricos do Centro Cultural do Brasil e a Casa França-Brasil, assim como o Mosteiro de São Bento - uma jóia rara - , é absolutamente fantástico.


Igreja da Glória (detalhe)

Caminhar pela Paineiras é igualmente prazeroso. E a Cidade vista lá de cima mais parece um imenso, e gigantesco, postal. Em cores... Santa Teresa também encanta, com seu charme e beleza.


Cariocas ilustres: João do Rio, Rosinha, Villa Lobos, Noel Rosa, Manuel Bandeira, Madame Satã, Portinari, Di Cavalcanti

O Rio de Janeiro merece que todos seus habitantes trabalhem pela valorização dos seus encantos, pela preservação da sua história, pela divulgação da sua cultura, pela propagação da sua música, pela proteção ao seu rico meio-ambiente e pela obstinação em transformar, e definitivamente, a Cidade Maravilhosa no portão principal de entrada do turismo da América Latina.


Jardim Botânico: Chafariz das Musas

Para tanto, faz-se mister que todos juntos estejam de prontidão e em sua defesa.


Beco dos Barbeiros

Sempre.

O Rio é simplesmente incomparável !



Praia de Ipanema: ao fundo, Morro Dois Irmãos e Pedra da Gávea

Texto originalmente publicado no livro Anos de avanço na educação, no Jornal de Brasília e Jornal do Commercio. Agradecemos ao autor por ter autorizado a reprodução. A postagem foi originalmente publicada neste blog em junho de 2007 mas vale a pena ver de novo. Fotos do editor do blog.

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3.2.09

ACORDO ORTOGRÁFICO


ACORDO ORTOGRÁFICO: O QUE MUDA E O QUE CONTINUA IGUAL NA LÍNGUA PORTUGUESA, de Ivo Korytowski

Assinado por representantes dos países de língua portuguesa em 1990, após uma série de resistências e dificuldades práticas, enfim o presidente Lula promulgou o Acordo Ortográfico dos sete países de Língua Portuguesa, que passou a vigorar por aqui este ano de 2009.

Palavras antes acentuadas perdem o acento: caso de paranoico, feiura, voo, creem, averigue, polo, quinquenio. Palavras antes hifenizadas perdem o hífen: paraquedas, antisséptico. Outras palavras passam a conter hífen: micro-ondas, circun-navegação. Et cetera e tal.

Se você escreve textos, quaisquer que sejam — postagens num blog, memorandos na empresa, relatórios, ficção, tradução, matérias jornalísticas, seu próprio currículo etc. — encontrará aqui um guia completo do que muda e do que permanece igual na língua portuguesa.

Lançado em meados de dezembro, nos dois primeiros meses meu livro já vendeu quase 1200 exemplares e foi recomendado pelo Espaço Viva Mais da Bradesco Vida e Previdência e pelo Brogue do Cassano; pode ser adquirido mais barato do que você imagina no site da Editora Ciência Moderna.

2.2.09

PASSEIO NOTURNO PELO CENTRO DO RIO


Catedral Presbiteriana (IK)

No capítulo “Horas Mortas” de seu livro Gamboa, escreve Alexei Bueno: “Talvez [...] a melhor e última visão que nos possam dar as ruas do que verdadeiramente são é vê-las na quietude e no vazio a que se entregam, eternamente, de tantas em tantas horas. [...] Não fosse a muito forte possibilidade de um assalto, recomendaríamos ao leitor esse hábitos noctívagos, deambulatórios e nefelibatas.”

Trago uma boa notícia ao Alexei e demais noctívagos: agora é possível fazer um passeio noturno pelo centro do Rio sem risco de assalto. Refiro-me ao ROTEIRO NOTURNO NO CENTRO DO RIO A PÉ, organizado pelo Professor João Baptista Ferreira de Mello, do Departamento de Geografia Humana do Instituto de Geografia da UERJ. Eu já participei de dois desses passeios e os recomendo aos visitantes do blog — simplesmente imperdíveis. Adiante informações detalhadas sobre o próximo passeio (caso já tenha sido marcado; senão você encontrará a programação do último passeio realizado). As fotos foram tiradas no passeio de 29 de maio último por mim (IK) e pelo meu amigo fotógrafo Zeca. Conheçam outras fotos (magníficas) do Zeca visitando seu Flickr.


Catedral Presbiteriana (IK)


Real Gabinete Português de Leitura (IK)


Território da DASPU (nas imediações da Praça Tiradentes) (Zeca)

ROTEIRO NOTURNO NO CENTRO DO RIO A PÉ

25 DE JUNHO DE 2009 – QUINTA-FEIRA – 20 HORAS E 30 MINUTOS

ENCONTRO NO ADRO DA CATEDRAL PRESBITERIANA (NA CONFLUÊNCIA DA PRAÇA TIRADENTES COM AS RUAS DA CARIOCA E SILVA JARDIM)

ROTEIRO:

ILUMINADOS PRÉDIOS DA CATEDRAL EVANGÉLICA DO RIO DE JANEIRO E REAL GABINETE PORTUGUÊS DE LEITURA - IGREJA NOSSA SENHORA DA LAMPADOSA - AV. PASSOS - TERRITÓRIO DA “DASPU” - PRAÇA TIRADENTES DOS TEATROS SECULARES E DOS MODERNOS HOTÉIS - RUA DA CONSTITUIÇÃO - GOMES FREIRE DOS HOTÉIS DE ALTA ROTATIVIDADE - LAVRADIO DOS ANTIQUÁRIOS E CASAS DE SHOWS - ESPLANADA DE SANTO ANTONIO - LARGO BRAGUINHA - MEM DE SÁ DOS SOBRADOS EXUBERANTES, SAMBA DE RAIZ, MARCHINHAS, MAMBO, FUNK, ROCK, TRAVESTIS E MITOLÓGICA MALANDRAGEM - SECULARES E SIMBÓLICOS ARCOS DA LAPA - RUA JOAQUIM SILVA - ESCADARIA SELARON - LARGO NELSON GONÇALVES - SALA CECÍLIA MEIRELES

Término próximo à meia-noite

Coordenação: Prof. Dr. João Baptista Ferreira de Mello do NEPEC (Núcleo de Estudos e Pesquisas sobre Espaço e Cultura) do Departamento de Geografia Humana do Instituto de Geografia da UERJ (Universidade do Estado do Rio de Janeiro).

Inscrições grátis (limitada a 60 participantes): roteirosgeorio@uol.com.br

Informações: 8871 7238

Com tempo chuvoso, roteiro adiado



Rua do Lavradio (IK)


Rua do Lavradio (IK)


Rua do Lavradio (IK)


Avenida Chile (IK)


Rua do Lavradio (IK)

Arcos da Lapa (Zeca)

30.1.09

Tesouros muito bem guardados


Com obras espalhadas por 35 museus, 38 centros culturais e cerca de trinta galerias, o Rio reserva bons programas para os apreciadores das artes. Há instituições imponentes, com arquitetura e acervos valiosos, cujos principais representantes são os museus de Arte Moderna e Nacional de Belas Artes. Atrás deles, existe um circuito de lugares menos conhecidos, mas igualmente interessantes e bem focados em seu perfil, diz a matéria "Tesouros muito bem guardados" de Carlos Henrique Braz publicada na Veja Rio desta semana. A matéria também pode ser acessada na Internet clicando-se AQUI ou no título da postagem.

26.1.09

A KOMBI (homenagem a Pedro Nava)

Texto (de 2004) e fotos da Glória do editor do blog


E ela, a paisagem, como tudo, na Natureza, é graça.
Pedro Nava, Cera das almas (último livro de memórias, inacabado)

No prédio com portão maciço de ferro e vidro, fachada de mármore no térreo e amplas janelas envidraçadas no corpo abaulado, no estilo Art Déco tão típico da geração de prédios cariocas da década de 30 — entrada descaracterizada por grade de ferro recentemente instalada para espantar mendigos e ladrões — a placa indica (mas os transeuntes, apressados, não prestam atenção):

Pedro da Silva Nava
1903-1984
Médico, escritor e poeta
Mineiro de Juiz de Fora,
aqui residiu entre 1943 e 1984.
Sua obra destaca-se no panorama cultural brasileiro.


Pouco adiante, vestígios grafitados de antigo chafariz colonial, onde escravos, barris equilibrados à cabeça (imagino), vinham pegar água — bons tempos? Ambulantes oferecem quinquilharias: velhos vinis, revistas de mulher nua pra lá de amassadas (quantas punhetas já inspiraram!), software pirata, incensos, caquis de um vermelho que fere a vista (dois reais a caixa). Cãozinho, preso ao poste por corda, dormita.


Outro lado da rua, a amurada, de onde podemos imaginar Camilo olhando para o mar, até onde a água e o céu dão um abraço infinito, em "A Cartomante" — e o famoso relógio da Glória, que orna as capas dos livros de memórias do Nava na edição da Nova Fronteira (e que aparece também na foto de Nava da quarta capa do volume 5 das memórias, na edição original da José Olympio). Atualmente nem sinal do mar, empurrado pra bem longe dali.



Na banca de jornais, Syang exibe os dotes físicos no cartaz da Status. Discreto a um canto, o apontador do jogo do bicho, velhinho de cabelos brancos. Verde das frondosas árvores contra o brancoazul celeste. A esse caleidoscópio de cores vêm se juntar as listras laranja das camisetas de grupo de alunas da escola municipal próxima.

Pouco depois do ponto final do Glória—Leblon, via Copacabana, fica o ponto da Kombi que leva a Santa Teresa. A rigor, deveria sair de quinze em quinze minutos, mas não estamos em Londres, are we? E enquanto restarem lugares vazios o motorista se verá tentado a esperar só mais um "minutinho" pra ver se a Kombi lota. Ganhar a vida não é brinquedo não.

Antes da partida, um auxiliar (às vezes, o próprio motorista) cobra as passagens — dinheiro, um e trinta; vale-transporte, um e cinqüenta.
No pára-sol aberto do lado do "carona", os dizeres edificantes: "Entrega tua vida a Jesus. Confia nele e o mais ele fará." Vai contar isto a um prisioneiro de campo de concentração. Menino, dois incisivos faltando, chupa pirulito com a mesma verdade com que a pequena suja comia chocolates no poema do Pessoa.

Na hora de pagar, uma velhinha mirrada, coque prateado, mas ainda transbordando vitalidade, brinca com o cobrador:

— Você fica explorando a velhinha — e, logo em seguinte, abre um sorriso. O cobrador sorri de volta. A velhinha entrega nota amarfanhada de um real, e umas moedas. (A rigor, a velhinha deveria ser dispensada do pagamento, mas no transporte alternativo essas regras nem sempre são observadas.)
— Tenho 82 anos — revela a velhinha. — Está na hora do Homem lá em cima me chamar.
— Pra 82 anos a senhora até que está ótima — elogia uma passageira.
Parte a Kombi. Dobra à direita e sobe o início da Cândido Mendes. Caminhão de lixo atravanca a entrada da Hermenegildo. Alguém resmunga:
— Neste país não tem lei, não tem nada, e mesmo que tiver, ninguém obedece.

A Kombi segue o mesmo percurso que Nava costumava fazer a pé, e narra com detalhes em Galo das trevas:

Meus passeios a pé pelo bairro seguem sempre os mesmos itinerários. Saio do meu 190 para a direita, transponho fachadas de arranha-céus. Na esquina, onde havia aquele café das madrugadas, existe hoje uma lanchonete [atualmente, Chopperia Vila Rica, "o melhor chopp do bairro" "Não temos comida a quilo, tudo é feito na hora e não demora. Experimente."]. Virando à direita, começo a subir Cândido Mendes. (...) Nenhuma casa antiga no princípio. Só os altos prédios. (...) Estaco sempre a contemplar as fachadas dos belos sobradões de números 118 e 117.

A velhinha põe-se a contar que, dia desses, tropeçou e caiu; culpa da sandália, de plástico. Na terra onde nasceu (e aí ela abre um parêntese e conta que nasceu em Sergipe) as sandálias eram de couro. Velhinha arretada!

Da vida nada se leva. A velhinha vive sua vida humilde, mas se tem o que comer, já é bom demais. Os filhos, criados, lhe deram netos, bisnetos. Mês passado, a filha, que mora em Aracaju, veio visitar a mãe, e foi logo reclamando da casa.

— Achou a casinha pequena demais. Por que não aluga um apartamento pra mim aqui na Glória? Filho, hoje em dia, só quer saber de bater papo. "Mãe, como é que está? Mãe, tudo bem?" Sabe de uma coisa? Quem bate papo é sapo. Dinheiro mesmo que é bom, pra ajudar, os filhos nem dão.


Quem acompanha o blog desde o princípio lembrará que esta foi a postagem número 1, de 17/7/05. Agora foi reformatada e ganhou fotos novas.

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20.1.09

SÃO SEBASTIÃO DO RIO DE JANEIRO

SABE O PORQUÊ DO NOME SÃO SEBASTIÃO DO RIO DE JANEIRO? O TRECHO A SEGUIR DA HISTÓRIA DAS RUAS DO RIO, DE BRASIL GERSON, EXPLICA

Estátua de São Sebastião na Glória

A primeira tentativa de desembarque de Estácio, em 1564, fracassou. Reparadas suas forças, em S. Vicente, insistiu de novo em 1565, e então pôde fixar-se numa praia abrigada entre o Morro Cara de Cão e Pão de Açúcar, onde um aldeamento de “choças com feitio misto, aborígine e oriental, choças de toscas ramas e palmas secas algum tanto selvagens” foi construído e logo rodeado de paliçadas protetoras, porque não muito distante os tamoios rondavam, atiçados pelos franceses.


Denise Araripe: São Sebastião do Rio de Janeiro (técnica mista)

Não bastava, porém, o espírito heróico dos colonizadores. Sozinhos, sem maior ajuda, acabariam eles por sucumbir. E eis por que mandou D. Catarina que Mem de Sá, reforçado, retornasse à Guanabara e nela desse maior envergadura à colonização portuguesa.

A batalha que decidiria, de uma vez por todas, da sorte da cidade nova foi travada a 20 de janeiro de 1567dia de São Sebastião — e culminou com a derrota dos tamoios e dos franceses nas fortificações que detinham no Flamengo, até a encosta sul do outeiro da Glória, onde Estácio, que era muito moço ainda, caiu atingido por uma flecha para morrer dias após na sua casa do Cara de Cão.



Imagem de São Sebastião na Cidade do Samba, Gamboa

Em companhia de Mem de Sá estava o Bispo da Bahia, D. Pedro Leitão. Concordaram ambos em que melhor seria que a cidade ficasse em lugar menos exposto, num monte. E fundaram-na de novo, em proporções maiores, no alto do que, a princípio, teve o nome de do Descanso [mais tarde denominado Morro do Castelo] porque a um descanso realmente semelhava nele ficarem os lutadores, vindos de tão duras vicissitudes na planície praieira. E batizaram-na de S. Sebastião do Rio de Janeiro em homenagem ao santo do dia da vitória recente e também sem dúvida ao seu jovem rei predestinado a viver, em breve, um dos dramas mais pungentes da história de Portugal, o da sua morte heróica em defesa da pátria e da fé em Alcácer Quibir [...]


Estátua de São Sebastião na Glória (fotos do editor do blog, exceto da obra de Denise Araripe, obtida no site do Atellier Villa Olivia)

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9.1.09

LAGOA RODRIGO DE FREITAS

Texto de Carlos Heitor Cony extraído do livro Lagoa: História, Morfologia e Sintaxe, editado pela Relume Dumará. Fotos do editor do blog (exceto a última, da antiga Fonte da Saudade, de Augusto Malta).





O Rio é mais Rio no verão, quando — como dizem os franceses — é bom suar. Sem jogar no lixo a temporada folgazã do carioca, prefiro a cidade nesse meio-ano.


Embora não seja outono, as amendoeiras na praça Paris ficam douradas, o chão coberto de folhas — anos atrás, trazendo Otto Maria Carpeaux para o trabalho, ele comparou a paisagem a um quadro de Utrillo. Um vienense, o Carpeaux: seu referencial era a cultura europeia. Sou carioca, meu referencial é minha própria raiz, Utrillo uma ova, o meu Rio é como aquele relógio do português que às vezes era de ouro e às vezes não era.


Tropical ou impressionista, a cidade talvez não seja boa para se viver, mas é ótima para se olhar. Quando acordo, olho a Lagoa, que renasce a cada manhã como uma criança. São três planos superpostos: o céu muito lavado, nem se pode dizer que é azul; as montanhas, que deviam ser verdes, ficam indecisas sobre a cor que o sol trará a cada uma delas. E a Lagoa, em si, é uma lâmina fina de laboratório que mistura em suas águas as cores que ainda não se definiram.


Eis que surge, enfim, uma cor nítida, estanque: é um barco de corrida, comprido, branco, uma brancura de creme, de filme de Luchino Visconti. Corta com a decisão de seu branco, esse amontoado de cores que aguardam o sol para serem azul ou verde, pelo menos até que a tarde chegue e misture tudo outra vez.


Os barcos de regata costumam ser da cor dos violinos. Mas este, que vem todas as manhãs, é branco. É ele que recebe a primeira luz do sol que enfim deu a cara, depois de vencer a nua pedra do morro dos Cabritos. E é dele que a luz parece se espalhar: o céu fica azul, verde fica a montanha, o dia nasceu da pele escura da Lagoa cortada pelo barco branco.


É um Rio bom que vejo a cada manhã. Depois leio os jornais. Olho mais uma vez a Lagoa: o barco branco sumiu. Amanhã virá outra vez.






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6.1.09

CHOVE CHUVA


Tomara que chova, três dias sem parar, dizia a velha marchinha de Carnaval. Chove chuva, chove sem parar, diz a música de Jorge Ben Jor. Pois não é que a estação de chuvas, que no Rio de Janeiro coincide tradicionalmente com o final da primavera, este ano adentrou o verão? Enquanto preparo esta postagem (em 6 de janeiro de 2009), o termômetro no meu escritório registra 25 graus — dando a impressão de que aqui no Rio o aquecimento global não “pegou”.


Orla de Copacabana


Arpoador


Ipanema


A chuva vista da janela do ônibus (fechada para você não se molhar)


O gari continua trabalhando...


A chuva não espanta o ciclista


Lagoa com o Corcovado ao fundo


Guarda-chuva: companheiro indispensável


Chove chuva, chove sem parar


Guarda-chuvas

Fotos do editor do blog.

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2.1.09

ARTE NAS RUAS II


Um dos temas recorrentes deste blog é a arte nas ruas. Como tudo na natureza e na civilização, a arte nas ruas passou por uma evolução. No tempo da ditadura tivemos as pichações políticas, que podiam dar cadeia. Depois veio a onda de pichações de "garatujas", espécie de "rubricas" dos pichadores que até hoje "emporcalham" os muros e fachadas. Em seguida, a invasão da estética hip-hop. E eis que a arte nas ruas diversifica temáticas e técnicas, transcendendo a iconografia hip-hop (como procuro mostrar nesta coletânea que recolhi pelas ruas cariocas).

O grafite é arte efêmera. Se ninguém fotografar, perde-se, como se perdeu a arte das ruas que João do Rio descreveu. Os grafites aqui mostrados do São Jorge e do Mágico de Oz, por exemplo (no elevado da entrada do Rebouças na Lagoa) recobrem grafites anteriores registrados na nossa postagem Poesia Jovem.



Moça no balanço, de Tito (Rua Tonelero)


Grafite multicolorido de Fael (Copacabana)


Grafite psicodélico na Rua Cinco de Julho, esquina com Santa Clara (Copacabana)


E o povo engole sapo.


Cena dantesca (perto do Jóquei Clube)


Paisagem carioca (Gávea)


Carmem Miranda


São Jorge vencendo o dragão (elevado do Rebouças na Lagoa)


O Mágico de Oz (mesmo local)


Um gari (Comlurb junto à estação de metrô Siqueira Campos; autor: Tito)


Um dos elefantes indianos em portas de lojas de Ipanema do artista plástico mineiro Andrea Brandani


Simpáticos gatinhos de E. Landim (Rua Barata Ribeiro)


Encerrando a postagem com chave de ouro, outro belíssimo grafite (Rua Figueiredo de Magalhães, esquina com Tonelero) de Tito, artista nova-iorquino que está morando no Rio.

Fotos do editor do blog. Se topar com um grafite interessante, você pode mandar uma foto para este blog (ivokory@hotmail.com). Para ver outras postagens sobre arte nas ruas, clique no marcador abaixo.

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27.12.08

ADEUS 2008/FELIZ 2009!


COM ESTAS FOTOS DURANTE O PÔR-DO-SOL NO ARPOADOR


LITERATURA & RIO DE JANEIRO - O BLOG DE QUEM ADORA O RIO DE JANEIRO -


DESPEDE-SE DE 2008,


DESEJANDO AOS AMIGOS


UM FELIZ ANO NOVO!


E CONTINUEM NOS VISITANDO,


QUE SEMPRE TEREMOS


NOVAS SURPRESAS!

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20.12.08

ÁRVORE DE NATAL DA LAGOA



A inauguração da 13ª. edição consecutiva da Árvore de Natal da Bradesco Seguros e Previdência reuniu, em 29 de novembro, cerca de 400 mil pessoas no Parque do Cantagalo, onde o evento foi realizado, e também em todo entorno da Lagoa Rodrigo de Freitas, no Rio de Janeiro.

A maior Árvore de Natal flutuante do mundo, que desde 1996 enfeita a Lagoa Rodrigo de Freitas no Rio de Janeiro e já se tornou tradição nas festas de fim de ano, acendeu as luzes às 20h50 com uma queima de fogos ao seu redor.
Este é o terceiro maior evento da cidade do Rio de Janeiro, após o Carnaval e o Réveillon.

A Árvore deste ano tem o tema "Uma melodia de paz para a família brasileira". O espetáculo de luzes e cores ganhou um toque musical. Um carrilhão eletrônico - importado da Itália, semelhante ao usado na Basílica de São Pedro, no Vaticano - instalado dentro de sua estrutura reproduz canções natalinas, gravadas na Itália, com sinos tocados manualmente por sineiros profissionais (texto obtido no site da Riotur).




que fazer
senão dizer
Bom Natal?

se for preciso
mando tembém
o meu sorriso!

e pros Amigos
dizer de novo
Bom Ano Novo!

sem desengano
vamos passar
o Fim-de-Ano...

e mais não faço
mas inda vai
um forte abraço!

Salomão Rovedo

AOS AMIGOS VISITANTES DO BLOG FICAM AQUI OS VOTOS DE UM FELIZ NATAL, FELIZ CHANUCÁ, FELIZ ANO NOVO, FELIZ TUDO!





Não é preciso ser original para escrever sobre o Natal. A gente só quer que ele seja tranqüilo e gostoso, e que nos faça acreditar: em Papai Noel, em anjos, em famílias amorosas ou amigos fiéis, em governantes mais justos e líderes mais capazes, em um povo mais respeitado – em alguma coisa a gente acaba sempre acreditando. Porque, afinal de contas, é a ocasião de ser menos amargo, menos crítico, menos lamurioso e mais aberto ao sinal deste momento singular, que tanto falta no mundo: a possível alegria, e o necessário amor (trecho da crônica "Acreditar no Natal" de Lya Luft publicada na Veja de 24/12/08).

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18.12.08

MORRO DA CONCEIÇÃO

Fotos de Alessandra Vieira (AV), Maurício Limeira (ML) e do editor do blog (IK). Texto de Antônio Agenor de Melo Barbosa.


IK


AV

Situado em pleno coração do Centro Antigo, o Morro da Conceição encontra-se nas franjas remanescentes da urbe colonial, desta Muito Leal e Heróica Cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro. Um lugar de gente simples, solidária e, sobretudo, educada. Características aprendidas, desde o berço, no dia-a-dia da vivência nos becos, ladeiras, escadas, largos e ruas estreitas que tornam o local tão peculiar. Espaço pitoresco e aprazível que guarda, no calçamento de pé-de-moleque e outras pedras, a memória cultural e histórica da Cidade Maravilhosa.


AV


IK

Logo à chegada por uma das principais entradas que dão acesso ao Morro propriamente dito, chegando à Praça Major Valô, ergue-se a bonita imagem da Virgem Santa que batiza com seu nome o lugar e que lhe confere tanta proteção, paz e segurança quanto as guaritas da Fortaleza onde estão os soldados do Exército brasileiro que dão alguma contribuição à santa na proteção e na ampliação da sensação de segurança que se tem por aqui. Mas além da pura e simples sensação de segurança, aqui se pode vivenciar cotidianamente, de fato, a tão sonhada segurança pública que em muitas partes da metrópole já não se encontra mais.


ML


AV


IK

Visitar o Morro da Conceição nos faz conhecer, (re)conhecer e vivenciar um tempo arcaico que não é nosso e sim dos nossos distantes ancestrais que, de fato, construíram estes sobrados e rechearam de vida e impregnaram de memória as ruas deste lugar. É, talvez, esta energia latente de memória contida nas suas calçadas e nas suas paredes que permite que senhores e senhoras de 70, 80 e até quase 90 anos circulem a pé e tenham forças para subir estas ladeiras coloniais.


AV


AV


ML

Uma das poucas e principais ruas do Morro da Conceição, a Rua do Jogo da Bola (este poético nome da rua permanece desde os tempos da colônia onde, de fato, havia um jogo da bocha) é uma rua pequena e estreita, onde só passa um carro de cada vez, o que amplia ainda mais, a meu ver, a vocação para a civilidade e urbanidade do lugar; pois alguém terá sempre que ceder a vez ao outro carro que vem em sentido contrário.


IK


IK


AV


AV


AV

Texto extraído de "Morro da Conceição: a geografia da cordialidade" de Antônio Agenor de Melo Barbosa - para ler o texto inteiro clique aqui. Saiba mais sobre o Morro da Conceição clicando no marcador abaixo ou visitando meu outro blog Sopa no Mel.

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10.12.08

BARROCO E ROCOCÓ NAS IGREJAS DO RIO

Texto de Lívia de Almeida transcrito da Veja-Rio de 3/12/08. Fotos do editor do blog.


Rio de Janeiro colonial sobrevive em meio ao burburinho do Centro


Outeiro da Glória

Rio de Janeiro colonial sobrevive em meio ao burburinho do Centro. A melhor representação desse período está no quadrilátero cujos vértices são o Outeiro da Glória, o Morro de São Bento e o que restou dos morros do Castelo e de Santo Antônio. Na região há um conjunto de vinte igrejas tombadas por seu inestimável valor histórico. Para apreciar essas relíquias da arquitetura sacra do século XVIII, basta disposição para caminhar. E conhecimento para elaborar o roteiro, que pode ser feito após a leitura do recém-lançado guia Barroco e Rococó nas Igrejas do Rio de Janeiro (R$ 90,00), das historiadoras da arte Myriam Andrade Ribeiro de Oliveira e Fátima Justiniano. Editada pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), a obra se divide em três pequenos volumes que cabem numa bolsa. "É um verdadeiro milagre que tenha sobrevivido até hoje um patrimônio tão rico", destaca Myriam, que é conselheira do instituto.


Na região há um conjunto de vinte igrejas tombadas


a encantadora Igreja de Nossa Senhora Mãe dos Homens

Os livros, didáticos e bem ilustrados, sugerem quatro percursos que incluem preciosidades pouco conhecidas dos cariocas, como a encantadora Igreja de Nossa Senhora Mãe dos Homens, na Rua da Alfândega. Sua ornamentação rococó permanece quase intocada desde o início do século XIX. Se o tempo for escasso, Myriam recomenda reduzir a visitação a quatro endereços. Dois deles, as igrejas de São Bento e de São Francisco da Penitência, ilustram magnificamente o estilo barroco. A Igreja do Carmo da Antiga Sé, na Praça XV, exuberante após recente restauração, e a de Santa Rita encarnam o auge do rococó. "São obras-primas", diz a historiadora.


talhas douradas elaboradíssimas


o que restou dos morros do Castelo...

No primeiro volume, é apresentado o contexto histórico, com explicações sobre as particularidades dos dois estilos associados ao período colonial. O barroco, que surgiu na Itália, ligado à Contra-Reforma, salta aos olhos pelo excesso e pela opulência nas ornamentações de interiores, em contraste com exteriores austeros. São talhas douradas elaboradíssimas, magníficas pinturas de teto, esculturas dramáticas. Toda essa volúpia visual estava a serviço da doutrinação religiosa. "Procura-se concentrar a maior quantidade de informação possível no menor espaço", explica Myriam. Embora muitos apontem o Mosteiro de São Bento como o ícone do barroco na cidade, na verdade ele exibe estilos de diferentes épocas, habilmente integrados pelos beneditinos. Para a historiadora, impressionante mesmo é a unidade estilística da Igreja da Ordem Terceira de São Francisco da Penitência, no Largo da Carioca, erigida entre 1726 e 1743. Trata-se de um barroco à moda de dom João V, enriquecido pelo toque dos entalhadores portugueses Manuel de Brito e Francisco Xavier de Brito.


...e de Santo Antônio


Igreja de Santa Rita

O rococó proliferou numa fase posterior. Chegou ao Rio na segunda metade do século XVIII, na época em que a cidade virava sede da colônia, e por isso foi mais difundido. Começou na França como decoração de interior de residências. Enquanto o barroco se caracteriza pela densidade e pela intensidade, o rococó é leve e iluminado. "O Rio é uma cidade rococó. Aqui tudo é festa: o ouro dá vida aos detalhes e contrasta com as paredes brancas. Há espaço para o cheio e o vazio", descreve Myriam. Na esquina da Avenida Marechal Floriano com a Rua Miguel Couto, a Igreja de Santa Rita foi a primeira a adotar o estilo em sua talha, executada entre 1753 e 1759. Ao contrário de outras construções do período, ela não sofreu acréscimos no fim do século XIX, quando o ecletismo acadêmico passou a achar pobre a presença de todo aquele espaço em branco – e decidiu preenchê-lo. No segundo volume do guia, dedicado ao entorno da Praça Quinze, as autoras chamam atenção para os enfeites acrescentados à Igreja da Ordem Terceira do Carmo. "Foi tudo preenchido", conta Myriam, mineira de São João del-Rei, há dezoito anos na cidade. "Quando cheguei, tinha dificuldade de assimilar essas mudanças. Mas no Rio até os acréscimos eram feitos com extrema perícia."

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2.12.08

RIO DAS ALTURAS

FOTOS AÉREAS DE NILO LIMA


RIO DAS ALTURAS: Assim se chamará o livro a ser publicado ainda este ano com fotos de tirar o fôlego, tiradas de helicóptero por Nilo Lima. Em seu site Das Alturas, diz Nilo: “Há mais de 10 anos, fotografar voando tem sido minha paixão. Adoro as nuvens, a sensação do vôo, as cores do Rio e o clique da minha Nikon.”As fotos desta postagem são de um PPS (slides do Power Point) que circula pela Internet. Outras fotos, disponibilizadas para uso não-comercial, você encontra em Das Alturas .










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19.11.08

NA MINHA LAJE OU NA SUA?

Paulo da Mata-Machado Jr.
Para o Paulinho, que gosta do Rio ainda mais que eu



Deu na TV: concurso da “garota da laje” parou o Centro do Rio. As imagens mostravam as moças desfilando em uma rua do “Saara” – aquele tradicional comércio carioca. A tigrada em volta, babando. Olhinhos arregalados, os marmanjos se regalavam com toda aquela plástica eufórica, que só a juventude tem. Quase uma epifania coletiva.

Corta para o subúrbio longínquo lá pros lados da Baixada: um daqueles “jardim” isso, ou aquilo, eufemismos lançados pela especulação imobiliária. Lá estão aquelas centenas de habitações, espremidas em lotes mínimos, em sua maioria de tijolo sem reboco. Por cima a laje nua e só uma caixa de água de amianto - mineral largamente utilizado em nosso país, depois que a indústria provou por A+B que o tipo brasileiro é a crisolita, que faz até bem pra saúde (só não explicaram que se tratava da saúde financeira dos donos do negócio).

Então como eu ia dizendo, a câmara fecha em uma bonita jovem na porta de sua casa, que vai explicando como ela, as amigas e as vizinhas se bronzeiam. Enquanto sobe uma frágil escada do lado de fora da casa rumo ao teto, mostra os accessórios que vai tirando de dentro da grande bolsa: um vidro de loção própria “é para ficar que nem frango de padaria: Lustrosa”... uma canga, óculos escuros marca camelô do Méier, sandálias de salto, vez ou outra uma revista, dessas de fofocas.

Aí já aparece a moça em pé, no alto da laje de sua casa. Um sumaríssimo fio dental adorna sua magnífica nudez, para gáudio da vizinhança masculina e (talvez) inveja das comadres, pois a quase-menina como direi, ainda está com “tudo em cima”.

Bendita moça, de quem não guardei o nome! Bendita basbacaria! Esse talento inventivo nunca faltou ao carioca: não tem grana para os vários ônibus até a praia? Vai pra laje, põe uma piscininha (pequena pra não pesar muito) o último funk berrando no toca discos portátil, algumas vezes uma churrasqueira pra carne de gato e vamos nós! Geralmente vira festa e segue noite adentro. E depois de muito samba, suor e cerveja, imagino a gracinha da moça, enleada pelo galã do pedaço que sussurra tesudo: “Na minha laje ou na sua?”


Texto gentilmente enviado pelo autor. A foto desta vez não é do editor do blog: foi obtida no Blogadão.

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15.11.08

TEMPLO POSITIVISTA

O AMOR POR PRINCÍPIO, E A ORDEM POR BASE; O PROGRESSO POR FIM.


Em pedra e cal, o prédio foi concluído em 1897 e abriga, até hoje, a Igreja Positivista, fundada no Brasil em 1881, por Miguel Lemos. Dentro do espírito eclético, a fachada reproduz a do Panteon de Paris, com robustas colunas e destacado frontão. Uma rosa dos ventos, na entrada do templo, indica a direção de Paris. No Brasil, as idéias positivistas começaram a chegar na segunda metade do século XIX e tiveram grandes divulgadores como Benjamin Constant, Miguel Lemos e Teixeira Mendes. Penetraram nas universidades e no meio militar, atuando como suporte das críticas à Monarquia e da propaganda republicana. Exemplos da influência do positivismo podem ser encontrados no culto cívico a personalidades históricas [Tiradentes, por exemplo] e no lema “Ordem e Progresso” presente na bandeira nacional. (Transcrito do Guia Michelin do Rio de Janeiro.)

O Templo da Humanidade (fotos) fica na Rua Benjamin Constant, 74 - Glória. É um dos três únicos templos positivistas do mundo, os outros situados em Paris (5 rue Payenne) e Porto Alegre (Av. João Pessoa, 1.058). Abre aos domingos a partir das 10 da manhã.


Escreve João do Rio em As religiões no Rio:

Era domingo, à porta do templo da Humanidade, na rua Benjamim Constant. Com o céu luminosamente azul e o sol tépido, havia muita concorrência nessa rua, de ordinário deserta: senhoras, cavalheiros de sobrecasaca, militares, crianças. Uns subiam logo as escadas do templo, cuja fachada recorda um templo grego; outros mais íntimos, seguiam para o fundo, pelo lado direito. Teixeira Mendes fazia a sua prédica dominical. [...]

- Mas este templo como foi feito?
- O Apostolado deixou a sede da rua Nova do Ouvidor para a rua do Lavradio. A mudança determinou o lançamento de um empréstimo em 1891 para a construção do templo, no que muito concorreram Pereira Reis, Otero, Rufino de Almeida, Décio Vilares. A inauguração foi em 1894, e a igreja custou 250 contos.
- É mais uma prova da importância do Centro no regime republicano.
- A nossa intervenção no início da República foi de primeira ordem. Basta citar a Bandeira Nacional, a separação da Igreja do Estado, a liberdade dos professores, a reforma do código no caso da tutela de filhos menores. [...]

O templo da humanidade é lindo. Ao alto, junto ao teto correm janelas que arejam o ambiente. Todo pintado de verde-mar, está-se dentro como num suave banho de esperança.




Fotos do editor do blog.

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2.11.08

FINADOS

HISTÓRIA DOS CEMITÉRIOS
DO RIO DE JANEIRO


Textos de Alexei Bueno, Pedro Nava, Mauro Matos e Cláudio Henrique, com fotos do Cemitério São João Batista


CEMITÉRIO DOS INGLESES

Durante todo o período colonial no Brasil, as inumações foram feitas dentro das igrejas, ou, quando muito, em catacumbas anexas. [...] Tal hábito começou a declinar com a chegada da Corte portuguesa, fugida de Napoleão, em 1808, e sobretudo com a abertura dos portos às nações amigas, entenda-se Inglaterra. Foi numa encosta do morro da Providência, na Gamboa — o mesmo que, em sua outra face, veria nascer a primeira favela após o desmobilizamento das tropas da guerra de Canudos, sendo por isso também conhecido como morro da Favela —, voltada para o mar, que surgiu o Cemitério dos Ingleses, o primeiro a céu aberto do Rio de Janeiro e um dos primeiros do Brasil.

Pelo Tratado de Amizade e Comércio, assinado entre o príncipe regente D. João e o rei Jorge III, no dia 19 de fevereiro de 1810, ficava permitido "o enterramento de vassalos de Sua Majestade Britânica, que morressem nos territórios de Sua Alteza Real o príncipe Regente de Portugal, em convenientes lugares, que seriam designados para este fim, não se perturbando, de modo algum, por qualquer motivo, os funerais e as sepulturas dos mortos".

Do livro de Alexei Bueno, Gamboa, pp. 27-28.


CEMITÉRIO DO CAJU

Não sei se existe uma história dos cemitérios do Rio de Janeiro. Quase todos foram abertos depois das hecatombes da febre amarela, a partir de dezembro de 1849. O do Caju é anterior. É o mais antigo da cidade. Foi instalado em 1839 por José Clemente Pereira, numa gleba comprada a José Goulart, para enterrar os indigentes e escravos até então sepultados nos terrenos de Santa Luzia, onde se ia erguer o atual hospital da Santa Casa de Misericórdia, no Rio de Janeiro. Foi chamado Campo-Santo do Caju. Seu primeiro defunto foi inumado em 1840.

Em 1851 o nome foi mudado para o de Cemitério de São Francisco Xavier. Entretanto, não só persiste a antiga denominação, como ela entrou nas frases feitas. Assim, quando se diz — um dia, Pedro, irás para o Caju — quer dizer — um dia, Pedro, ai! de ti, também morrerás, e serás enterrado. Naquele ano o campo-santo é ampliado e juntaram-se às terras de José Goulart, as da antiga Fazenda do Murundu, de Baltasar Pinto dos Reis. Em 1858 desmembra-se o terreno que vai ser o Cemitério da Venerável Ordem Terceira da Penitência e em 1859 o que vai ser o Cemitério da Venerável Ordem Terceira do Carmo. Essa vasta área corresponde, mais ou menos, ao que é hoje limitado pela Avenida Brasil, pelas Ruas Carlos Seidl, Indústria e Monsenhor Manuel Gomes e nela estão os quatro cemitérios [os três citados e o Cemitério Comunal Israelita], fábricas, depósitos e favelas; as ruas novas dos fundos das necrópoles; e o Hospital São Sebastião. Os aterros, em frente, fizeram desaparecer os cais [...]

Do segundo livro de memórias de Pedro Nava, Balão cativo.


CEMITÉRIO DO CATUMBI

Inaugurado em 19 de março de 1850, o cemitério de São Francisco de Paula ou cemitério do Catumbi, como é mais conhecido, foi o primeiro do Brasil construído a céu aberto destinado a não-indigentes. Antes, somente religiosos e ricos eram sepultados nas criptas das igrejas.

Na época, devido ao efeito devastador das epidemias na cidade do Rio de Janeiro, principalmente da febre amarela, foi construído com urgência o cemitério pela Ordem Terceira de São Francisco de Paula, com aprovação do Império. O resumo histórico e ilustrado da Ordem atesta a compra do terreno que pertencia ao proprietário Dionísio Orioste tendo sido lavrada em cartório pela Irmandade em 12 de maio de 1849.

De fato, já no primeiro ano, foram sepultados cerca de 3 mil corpos com morte provocada pela epidemia da febre amarela, além de 323 irmãos da Congregação, como atestam os documentos da Ordem. Em seguida foram para lá transladados cerca de 450 restos mortais, na sua maior parte da nobreza brasileira que estavam sepultados na igreja de São Francisco de Paula.

Do livro de Mauro Matos, Catumbi, um bairro do tempo do império. Veja na postagem Você tem medo do Catumbi? como adquirir o livro ou contactar o autor.


CEMITÉRIO SÃO JOÃO BATISTA

Em 1852 foi inaugurado o Cemitério São João Batista, historicamente importante por ter sido, junto com o do Caju, o primeiro da cidade a permitir enterros para pessoas de qualquer classe social. Até então pobres e ricos viravam pó em lugares diferentes — e em igrejas. Há um registro sinistro da "estréia" do cemitério: consta que era uma menina de apenas quatro anos, Rosaura.

Além de abrigar belíssimas obras em gesso, mármore e bronze [VER FOTOS], o São João Batista, sem dúvida, é o Père Lachaise carioca: estão enterrados ali, entre outros, Vicente Celestino, Evaristo da Veiga, José de Alencar, Benjamim Constant, Floriano Peixoto, Gustavo Capanema, Oswaldo Aranha, Machado de Assis, Ari Barroso, Nelson Rodrigues, Francisco Alves, Miguel Couto, o escultor Rodolfo Bernardelli, Luis Carlos Prestes, Carmem Miranda, Tom Jobim, Vinicius de Moraes, Cazuza, Clara Nunes, Chacrinha, Jardel Filho e Santos Dumont.

Do livro de Cláudio Henrique, Botafogo, pp. 51-2.






Fotos tiradas no cemitério São João Batista por Ivo & Mi. Postagem originalmente publicada no dia de Finados de 2006. Clique no marcador Cemitério São João Batista abaixo para mais informações sobre esse cemitério. Visite também a postagem Cemitério São João Batista no meu outro blog, o Sopa no Mel. Uma dica: A VEJA-RIO de 5/11/08 publicou uma ótima matéria sobre os cemitérios do Rio (embora o mapa do cemitério contenha incorreções).

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