16.6.17

ARTE DE FLANAR PELO RIO (E POR PARIS)

COM FOTOS DO EDITOR DO BLOG DE SUAS FLÂNERIES PELA MUI LEAL E HEROICA CIDADE DE SÃO SEBASTIÃO DO RIO DE JANEIRO


Flanar - andar ociosamente, sem rumo nem sentido certo; flanear, flainar, perambular (Dicionário Eletrônico Houaiss)




A ARTE DE FLANAR SEGUNDO JOÃO DO RIO

Flanar! Aí está um verbo universal sem entrada nos dicionários, que não pertence a nenhuma língua! Que significa flanar? Flanar é ser vagabundo e refletir, é ser basbaque e comentar, ter o vírus da observação ligado ao da vadiagem. Flanar é ir por aí, de manhã, de dia, à noite, meter-se nas rodas da populaça, admirar o menino da gaitinha ali à esquina, seguir com os garotos o lutador do Cassino vestido de turco, gozar nas praças os ajuntamentos defronte das lanternas mágicas, conversar com os cantores de modinha das alfurjas da Saúde, depois de ter ouvido dilettanti de casaca aplaudirem o maior tenor do Lírico numa ópera velha e má; é ver os bonecos pintados a giz nos muros das casas, após ter acompanhado um pintor afamado até a sua grande tela paga pelo Estado; é estar sem fazer nada e achar absolutamente necessário ir até um sítio lôbrego, para deixar de lá ir, levado pela primeira impressão, por um dito que faz sorrir, um perfil que interessa, um par jovem cujo riso de amor causa inveja.

É vagabundagem? Talvez. Flanar é a distinção de perambular com inteligência. Nada como o inútil para ser artístico. Daí o desocupado flâneur ter sempre na mente dez mil coisas necessárias, imprescindíveis, que podem ficar eternamente adiadas. Do alto de uma janela como Paul Adam, admira o caleidoscópio da vida no epítome delirante que é a rua; à porta do café, como Poe no Homem da Multidões, dedica-se ao exercício de adivinhar as profissões, as preocupações e até os crimes dos transeuntes. [...]

O flâneur é ingênuo quase sempre. Para diante dos rolos, é o eterno "convidado do sereno" de todos os bailes, quer saber a história dos boleiros, admira-se simplesmente, e conhecendo cada rua, cada beco, cada viela, sabendo-lhe um pedaço da história, como se sabe a história dos amigos (quase sempre mal), acaba com a vaga ideia de que todo o espetáculo da cidade foi feito especialmente para seu gozo próprio. [...] Quando o flâneur deduz, ei-lo a concluir uma lei magnífica por ser para seu uso exclusivo, ei-lo a psicologar, ei-lo a pintar os pensamentos, a fisionomia, a alma das ruas. E é então que haveis de pasmar da futilidade do mundo e da inconcebível futilidade dos pedestres da poesia de observação...

Eu fui um pouco esse tipo complexo, e, talvez por isso, cada rua é para mim um ser vivo e imóvel. (João do Rio, A alma encantadora das ruas)




A ARTE DE FLANAR (e ruminar) SEGUNDO MACHADO DE ASSIS

É meu costume, quando não tenho que fazer casa, ir por esse mundo de Cristo, se assim se pode chamar à cidade de São Sebastião, matar o tempo. Não conheço melhor ofício, mormente se a gente se mete por bairros excêntricos; um homem, uma tabuleta, qualquer basta a entreter o espírito, e a gente volta para casa "lesta e aguda", como se dizia em não sei que comédia antiga.

Naturalmente, cansadas as pernas, meto-me no primeiro bonde, que pode trazer-me à casa ou à Rua Ouvidor, que é onde todos moramos. Se o bonde é dos que têm de ir por vias estreitas e atravancadas, torna-se verdadeiro obséquio do céu. De quando em quando, para diante de uma carroça que despeja ou recolhe fardos . O cocheiro trava o carro, ata as rédeas, desce e acende cigarro; o condutor desce também e vai dar uma vista de olhos ao obstáculo. Eu, e todos os veneráveis camelos da Arábia, vulgo passageiros, se estamos dizendo alguma coisa, calamo-nos para ruminar e esperar.

Ninguém sabe o que sou quando rumino. Posso dizer, sem medo de errar, que rumino muito melhor do que falo. A palestra é uma espécie de peneira, por onde a ideia sai com dificuldade, creio que mais fina, mas muito menos sincera. Ruminando, a ideia fica íntegra e livre. Sou mais profundo ruminando; e mais elevado também. (Bons Dias, 21 de janeiro de 1889)




A ARTE DE FLANAR SEGUNDO JOSÉ DE ALENCAR

Sabeis o que é a flânerie? É o passeio ao ar livre, feito lenta e vagarosamente, conversando ou cismando, contemplando a beleza natural ou a beleza da arte; variando a cada momento de aspectos, e de impressões. O companheiro inseparável do homem quando flana é o charuto; o da senhora é o seu buquê de flores.
O que há de mais encantador e de mais apreciável na flânerie é que ela não produz unicamente o movimento material, mas também o exercício moral. Tudo no homem passeia: o corpo e a alma, os olhos e a imaginação. Tudo se agita; porém é uma agitação doce e calma, que excita o espírito e a fantasia, e provoca deliciosas emoções.

A cidade do Rio de Janeiro, com seu belo céu de azul e sua natureza tão rica, com a beleza de seus panoramas e de seus graciosos arrabaldes, oferece muitos desses pontos de reunião, onde todas as tardes, quando quebrasse a força do sol, a boa sociedade poderia ir passar alguns instantes numa reunião agradável, num círculo de amigos e conhecidos, sem etiquetas e cerimônias, com toda a liberdade do passeio, e ao mesmo tempo com todo o encanto de uma grande reunião.

Não falando já do Passeio Público, que me parece injustamente votado ao abandono, temos na Praia de Botafogo um magnífico boulevard como talvez não haja um em Paris, pelo que toca à natureza. Quanto à beleza da perspectiva, o adro da pequena igrejinha da Glória é para mim um dos mais lindos passeios do Rio de Janeiro. O lanço d'olhos é soberbo: vê-se toda a cidade à vol d'oiseau, embora não tenha asas para voar a algum cantinho onde nos leva sem querer o pensamento. (Ao correr da pena, 29/10/1854)




A ARTE DE FLANAR SEGUNDO JOAQUIM MANUEL DE MACEDO

Hoje em dia uma viagem a Lisboa é coisa mais simples do que um passeio ao Corcovado.

Entretanto, eu estou convencido de que se podia bem viajar meses inteiros pela cidade do Rio de Janeiro, achando-se todos os dias alimento agradável para o espírito e o coração.

O passado é um livro imenso cheio de preciosos tesouros que não se devem desprezar; e toda a terra tem sua história mais ou menos poética, suas recordações mais ou menos interessantes, como todo o coração tem suas saudades. A capital do Império do Brasil não pode ser uma exceção a esta regra.

Vamos dar princípio hoje a um passeio pela cidade do Rio de Janeiro? É um convite que faço aos leitores do Jornal do Comércio. Se o passeio parecer fastidioso ou monótono, não haverá o menor inconveniente em dá-lo por acabado no fim da primeira hora; se agradar, continuaremos com ele até... até... quem sabe até quando? Provavelmente conversaremos de preferência a respeito dos tempos que já foram e, portanto, não é preciso que nos lembremos já do futuro, marcando o fim da nossa viagem amena.

Vamos passear. (Joaquim Manuel de Macedo, Um passeio pela cidade do Rio de Janeiro)




A ARTE DE FLANAR SEGUNDO HELIO BRASIL

Sugiro ao leitor demorar sua observação em alguns cantos do bairro. Quem sabe, até realizar caminhadas para descobertas de encantos imprevisíveis...

A era do automóvel, este “ente” maravilhoso do qual dependemos excessivamente, cada vez mais nos impede de apreciar o espaço que nos cerca. A velocidade nos rouba o convívio com os lugares por onde passamos e, sem o convívio, os significados empalidecem.

Não é à toa que, por vezes, "descobrimos" uma ruela, um beco, um conjunto de casas, um simples muro desenhado pela intempérie pelo qual passamos "batidos", no dia-a-dia, sem a real oportunidade de conhecê-los.

A "medida" do homem ainda é o seu passo. (Helio Brasil, São Cristóvão.)




A ARTE DE FLANAR SEGUNDO PEDRO NAVA

Flanar nas ruas do Rio é prazer refinado. Exige amor e conhecimento. Não apenas o conhecimento local e o das conexões urbanas. É preciso um gênero de erudição. É preciso saber colocar os pés nos locais de Matacavalos onde pisou Osório, na calçada de São Clemente onde andou Tamandaré, nesta Glória onde perpassou o vulto de Capitu — na geografia citadina real e imaginária, no Rio velho de Manuel Antônio de Almeida, Alencar, Macedo, Artur e Aluísio — irmãos Azevedo; de Lima Barreto, João do Rio, Marques Rebelo, Drummond. [...]

O conhecimento puramente local do Rio eu o aprendi numa grande escola: o serviço de ambulâncias do velho Hospital de Pronto Socorro. Dizem que quem mais entende de nossa cidade são os choferes de táxi e os médicos da Assistência. Pertenci ao grupo... E sei descobrir os segredos — a polpa de nossas ruas. Exemplo? Um belo dia verifiquei que o Rio era a cidade mais rica das que eu conhecia em matéria de serralheria. Aprendi a admirá-las. [...]

Mas andando a pé em nossa cidade não são apenas épocas coloniais e imperiais que desvendamos. Tampouco fachadas pernambucanas, baianas ou mineiras que podemos ver. Viaja-se em todas as épocas e províncias do Brasil e pode-se sair também aí afora por esse mundo vasto mundo. [...]

À medida que as obras do Metrô e a insensibilidade dos procônsules nossos governantes vão demolindo de preferência o que há de sentimental, histórico e humano no Rio de Janeiro, multiplico meus passeios nas ruas malferidas — como quem se despede. (Pedro Nava, Galo das trevas, Memórias 5)




A ARTE DE FLANAR SEGUNDO O EDITOR DESTE BLOG

No Capítulo XXI de Quincas Borba, na viagem de trem de Barbacena ao Rio de Janeiro, Rubião observa que, “para quem estava acostumado a costa de burro, a estrada de ferro cansava e não tinha graça; não se podia negar, porém, que era um progresso...”

De progresso em progresso, descartamos o zepelim, o transatlântico, a maria-fumaça, o bonde (com a honrosa exceção do bondinho de Santa Teresa, o último dos moicanos). Viajamos espremidos na classe turística de monstruosos aviões. As atrações turísticas se sucedem qual programas de televisão sob a batuta do controle remoto: chegada em Paris, translado ao hotel, à tarde, city tour pelos principais monumentos, à noite, espetáculo no Lido, manhã seguinte, Museu do Louvre (correria pelos quadros mais “famosos”)...

Tudo muito vertiginoso. Um progresso, não se pode negar. Mas cá entre nós: pra conhecer uma cidade, você tem de caminhar por ela, sentir-lhe o burburinho, os odores, os sabores, o colorido, a paisagem humana.

Com o advento do assalto à mão armada, do poder paralelo dos traficantes, dos arrastões e tiroteios, passamos a temer nossa própria cidade maravilhosa e perdemos o costume de “andar por aí”, “sem lenço, sem documento”. Algumas páginas da literatura talvez nos inspirem a retomarmos esse hábito.

No conto machadiano "O Erradio", o personagem principal é um andarilho urbano. “Ia a toda parte; era comum achá-lo nos lugares mais distantes uns dos outros, Botafogo, São Cristóvão, Andaraí. Quando lhe dava na veneta, metia-se na barca e ia a Niterói. Chamava-se a si mesmo erradio.” Uma noite, após sair no meio de uma peça de teatro e tomar chá (!) no botequim próximo até o fechar das portas, Elisário (assim se chamava o Erradio) vai a pé do centro a São Cristóvão, percorrendo um Rio antigo em grande parte destruído pela abertura da Avenida Presidente Vargas e pelo aterro do Cais do Porto.

Quem leva à perfeição a arte de flanar pelo Rio antigo é Pedro Nava, que em sua obra autobiográfica descreve longos passeios pela Glória, Santa Teresa, Centro, São Cristóvão, Rio Comprido na primeira metade do século XX. E Helio Brasil, em seu primoroso livrinho São Cristóvão, sugere ao leitor “demorar sua observação em alguns cantos do bairro. Quem sabe, até realizar caminhadas para descobertas de encantos imprevisíveis...”




A ARTE DE FLANAR SEGUNDO VICTOR HUGO

Andar sem destino, isto é, flanar, é um ótimo modo de o filósofo passar o tempo; particularmente nessa espécie de campanha um tanto bastarda, bastante feia, mas interessante, composta de duas naturezas, rodeando sempre as grandes cidades, especialmente Paris. Observar os arredores de uma cidade é ver algo de anfíbio. Finda-se o arvoredo, começam os telhados; acaba-se a relva, começam as calçadas; terminam os sulcos do arado, aparecem as lojas; findam-se as estradas, iniciam-se as paixões; fim do murmúrio divino, começo do rumor humano; daí seu extraordinário interesse.

Daí os passeios do pensador, aparentemente ao léu, a esses lugares tão pouco atraentes, marcados para sempre pelo epíteto de tristes que lhe deram os transeuntes. (Victor Hugo, Os miseráveis, Parte 3, V)




A ARTE DE FLANAR PELAS CALÇADAS DO RIO SEGUNDO JOAQUIM FERREIRA DOS SANTOS

Eu sou pé no chão. Acho que uma cidade se faz especial pelo conjunto de suas calçadas, aquilo que o tecnicismo dos urbanistas chama friamente de “espaço público”. Eu, andarilho, eu, peripatético, eu prefiro a definição do compositor Antônio Maria e aqui dou o primeiro passo digital sobre este grande pátio da felicidade ambulante, a alegria simples de caminhar numa “calçada cheia de gente a passar e a me ver passar”. Uma cidade é feita a partir desta possibilidade. [...]

Existe acima de tudo a calçada e é a partir dela que veremos [...] como caminha a humanidade carioca. Foi por uma calçada que a garota de Ipanema passou. A cena era tão deslumbrante, o balanço tão doce, que a partir dela Tom e Vinicius, a tudo assistindo, musicaram uma revolução sofisticada. O Brasil nunca mais foi o mesmo. Pergunte ao mundo: o Rio de Janeiro é uma calçada onde a vida caminha em sandálias de plástico.

A pompa e a circunstância têm domicílio em outras cidades, algumas mais ricas, outras com melhor arquitetura. Aqui existe a graça divina dos diversos cartões postais e, entre eles, o calçadão de Ipanema, o calçadão de Madureira e tantos outros calçadões, o aumentativo bandeiroso de um sonho de cidade. Todos os seus moradores perambulando vadios ao sol carinhoso do outono. O pedestre finamente no poder, os estranhos marchando sem qualquer sinal de estranhamento. [...]

O pedestre não polui, não engarrafa. Ao caminhar, o movimento básico recomendado para se manter um corpo saudável, ele libera a sua parte na verba da saúde para o estado gastar com outros mais necessitados.

O pedestre é o cidadão orgânico que exigem os tempos modernos e o espaço urbano deve ser organizado sob a sua perspectiva. Tirem esses postes inúteis do caminho, que ele quer passar com o seu andor. Ao pedestre que erra, ao itinerante que zanza, todo o pouco poder que da Constituição municipal lhe emana. Que possa recuperar a calçada. É a sua propriedade inalienável, onde tudo deveria convidar à liberdade de passear, paquerar, conversar, respirar, brincar ou protestar contra a corrupção que permite quiosques no meio do caminho.

Se a sorte estiver ao lado, que possa ver a garota de Ipanema flanar a caminho do mar.



8.6.17

DOCUMENTO HISTÓRICO: UMA VIAGEM A PETRÓPOLIS EM 1846

Planta da Imperial Colônia de Petrópolis em 1854

Durante sua primeira viagem de volta ao mundo, a escritora e aventureira austríaca Ida Pfeiffer esteve no Rio de Janeiro, onde desembarcou em 17 de setembro de 1846 e que descreveu em termos nada lisonjeiros em seu livro Eine Frauenfahrt um die Welt (Viagem de uma mulher ao redor do mundo), publicado em Viena em 1850, como você poderá ver no verbete sobre ela na Wikipedia. Além da capital, a viajante visitou cidades serranas recém-fundadas por colonos alemães, entre elas Petrópolis e Nova Friburgo. O relato a seguir, de sua excursão até Petrópolis, pegando uma barca até o fundo da baía e de lá subindo a serra a pé, foi extraído do Capítulo III de seu livro e traduzido do alemão (com cotejo do texto inglês) pelo editor do blog. As fotos são de recentes visitas do editor do blog a essa encantadora cidade, cujo Museu Imperial está entre os melhores do país e cuja fábrica da Bohemia oferece aos apreciadores dessa bebida milenar uma experiência inesquecível (Prost!). As gravuras foram obtidas na Biblioteca Nacional Digital.  

Contaram-me tanto, aqui no Rio de Janeiro, sobre o rápido florescimento de Petrópolisuma colônia perto da capital fundada por alemães, sobre a magnífica região onde se situa e sobre as florestas virgens pelas quais passa uma parte do caminho que não consegui resistir ao desejo de fazer uma excursão até lá. Meu companheiro de viagem, Conde Berchtold, me acompanhou, de modo que pagamos em 26 de setembro [de 1846] duas passagens em uma das várias barcas que diariamente navegam até Porto da Estrela [Porto d'Estrella no original alemão, então um município, mais tarde incorporado a Magé], uma distância entre 20 e 22 milhas marítimas, de onde se deve prosseguir a jornada por terra. Navegamos por uma baía, notável por suas vistas realmente pitorescas e que, muitas vezes, me lembraram vivamente os lagos tão singulares da Suécia. Ela é circundada por encantadoras cadeias de montanhas e está cheia de pequenas ilhas e grupos de ilhas, às vezes cobertas por palmeiras e outras árvores e mato tão exuberante, que parece impossível que se possa pisar nelas, e outras vezes assomando do mar qual rochas colossais ou estão empilhadas livremente umas sobre as outras. Em muitas destas últimas é digna de nota a forma redonda, muitas vezes parecendo ter sido esculpida.

Nossa barca foi conduzida por quatro negros e um capitão branco. No início o vento, soprando nas velas desfraldadas, impeliu nossa barquinha, e os marinheiros aproveitaram esses momentos favoráveis para fazer uma refeição, constituída de uma boa porção de farinha de mandioca, peixe cozido, milho assado, laranjas, coco e outros tipos de nozes menores, e não faltou o pão branco, um artigo de luxo para os negros. No fundo fiquei satisfeita por ver aquelas pessoas sendo tão bem tratadas. Após duas horas o vento nos abandonou e os marinheiros tiveram de pegar os remos. Achei muito árdua a forma local de remar. Cada vez que mergulha o remo na água, o marinheiro precisava subir num banco à sua frente e depois, durante a remada, se lançar com força de volta para trás. Após duas horas deixamos o mar e adentramos à esquerda o rio Inhomirim
[Geromerim no original], em cuja embocadura fica uma hospedaria, onde paramos meia hora. Ali vi também um estranho farol consistindo em uma lanterna pendurada em uma rocha. A beleza da região termina, mas apenas para os leigos; para um botânico agora é que se torna magnífica e maravilhosa, pois as mais bonitas plantas aquáticas, especialmente a ninfeia, Pontedera e relva cipriota [tradução literal de cyprianische Gras, possivelmente o papiro de Chipre como observa um leitor - ver comentários], espalham-se na água e em torno dela. As duas primeiras se enroscam até o alto das arvorezinhas próximas, e a relva cipriota alcança uma altura de 1,8-2,4 metros. As margens do rio são planas e estão cercadas de arbustos e árvores jovens. Ao fundo erguem-se cadeias de montanhas. As casinhas, que vez ou outra aparecem, são construídas de pedra e cobertas de telhas, mas nem por isso se afiguram menos miseráveis.

Navegamos por 7 horas pelo rio e chegamos sem incidentes em Porto da Estrela, um lugar não desprovido de importância, por ser o entreposto das mercadorias que chegam do interior e daqui são transportadas por via aquática até a capital do Brasil. Existem lá duas bonitas hospedarias, bem como uma construção semelhante a um khan turco e um imenso telhado de tijolos apoiado em fortes pilares de pedra. O primeiro servia para as mercadorias e este último, para os tropeiros, que se haviam acomodado confortavelmente e preparavam seu jantar em fogueiras que ardiam alegremente. Esse tipo de alojamento noturno muito nos agradou, mas preferimos ir para a hospedaria “Estrela”, cujos quartos e camas limpinhos e refeições condimentadas foram mais atraentes.

PORTO DO ESTRELLA (PORTO DA ESTRELA), gravura de Victor Adam (1801-1866), em Rugendas, Johann Moritz, Viagem pitoresca através do Brasil. [gravura 13]

27 de setembro [de 1846]. De Porto da Estrela a Petrópolis são ainda 7 léguas. Normalmente esse trecho é transposto em muares, pagando-se quatro milréis por animal. Como no Rio de Janeiro esse caminho nos foi descrito como um bonito passeio, passando em parte por florestas maravilhosas e, além disso, bem movimentado e seguro, por ser a principal ligação com Minas Gerais [Minas Gueras no original], resolvermos percorrê-lo a pé, ainda mais porque o conde queria estudar a flora e coletar insetos. As primeiras duas léguas passavam por um vale largo, coberto na maior parte com denso matagal e bosques jovens e cercado por altas montanhas. Destacavam-se à beira do caminho os bonitos abacaxis silvestres que, ainda não totalmente maduros, brilhavam em cores rosadas. Infelizmente não são tão saborosos quanto sua beleza sugere e por isso raramente são colhidos. Fiquei encantada com os colibris, dos quais vi aqui mais da espécie menor. Não se consegue imaginar nada de mais delicado e gracioso que esses animaizinhos. Eles recolhem seu alimento dos cálices das flores, em volta dos quais esvoaçam feito borboletas, com as quais em seu rápido voo podem ser confundidos. Raramente os vemos parados em galhos. Depois de termos transposto o vale, chegamos na serra: assim são chamadas pelos brasileiros os picos das montanhas que precisam ser transpostas. Aquela à nossa frente media 914 metros de altura. Uma estrada larga e pavimentada subia a serra em meio à mata virgem.

Eu sempre imaginara que, em uma floresta virgem, as árvores tivessem troncos anormalmente grossos e altos. Não foi o que encontrei aqui. Talvez a vegetação seja densa demais, e os troncos principais são sufocados e apodrecem sob as massas de árvores menores, mato, trepadeiras e parasitas. Estas duas últimas espécies são tão comuns e cobrem tão completamente as árvores que muitas vezes mal se veem as suas folhas e, menos ainda, os troncos. Um botânico, Senhor Schleierer, nos assegurou que certa vez encontrou, em uma árvore, 36 tipos de trepadeiras e parasitas.

SILVA PRIMAEVA IN MONTE SERRA D'ESTRELLA, a floresta virgem que deslumbrou Ida Pfeiffer e o conde em gravura de Benjamin Mary (1792-1846)

Fizemos uma rica coleta de flores, plantas e insetos e seguimos tranquilos nosso caminho, encantados com os maravilhosos bosques e as não menos encantadoras vistas, que se descortinavam sobre montanha e vale até o mar e suas baías, às vezes até a capital.

As tropas frequentes, conduzidas por negros, assim como alguns caminhantes, dos quais encontramos muitos, nos tiraram qualquer medo, de modo que o fato de estarmos sendo seguidos por um negro nos passou despercebido. Mas ao nos encontrarmos num local um tanto solitário, ele saltou subitamente à frente, com um facão em uma mão e um laço na outra, veio em nossa direção e nos deu a entender, mais pelos gestos do que por palavras, que nos mataria e arrastaria até a floresta.

Não trazíamos nenhuma arma conosco, já que haviam nos dito que aquela viagem era totalmente segura, e como defesa contávamos apenas com nossos guarda-sóis. Eu possuía ainda um canivete, que imediatamente tirei da bolsa e abri, decidida firmemente a cobrar caro por minha vida. Na medida do possível, defendemo-nos dos golpes com nossos guarda-sóis. Mas estes não duraram muito. Além disso, ele conseguiu agarrar o meu que, com a luta, quebrou, restando comigo apenas um toco do cabo na mão. Mas durante essa luta, a faca escapou-lhe da mão e caiu alguns passos adiante. Corri até lá e achei que poderia pegá-la, mas ele, mais rápido do que eu, afastou-me com mãos e pés e se apoderou novamente dela. Ele a brandiu, raivoso, sobre minha cabeça e infligiu duas feridas, uma picada e um corte profundo, ambos no braço esquerdo. Achei que estava perdida, e somente o desespero me deu a coragem de fazer uso também do meu canivete. Tentei golpear o peito do negro, ele se esquivou e só consegui feri-lo com força na mão. O conde aproximou-se de um salto e agarrou o sujeito por trás, dando-me oportunidade de me erguer de novo do chão. Aquilo tudo transcorreu no espaço de alguns segundos. O ferimento deixara o negro raivoso. Ele rangeu os dentes como um animal selvagem e brandiu seu facão com uma rapidez aterrorizante. Logo o barão também tinha recebido um corte na mão inteira, e estaríamos certamente perdidos, se Deus não tivesse enviado ajuda. Ouvimos passos de cavalo no calçamento de pedras e imediatamente o negro nos deixou e saltou floresta adentro. Logo depois dois cavaleiros surgiram na curva do caminho. Corremos em direção deles. As feridas que sangravam muito, bem como nossos guarda-sóis retalhados, logo esclareceram nossa situação. Eles nos perguntaram que direção o fugitivo tomara, saltaram dos cavalos e tentaram capturá-lo. Seus esforços teriam sido em vão se dois negros não surgissem no caminho, oferecessem sua ajuda e logo capturassem o sujeito. Ele foi amarrado e, como não queria andar, recebeu uma boa surra, principalmente na cabeça, de modo que temi que seu crânio tivesse se fraturado. Mesmo assim não fez nenhuma careta e permaneceu, como que paralisado, deitado no chão. Os dois negros tiveram de levantá-lo para levá-lo até a casa mais próxima, enquanto ele dava mordidas, como um animal selvagem. Nossos salvadores, assim como o conde e eu, fomos juntos para que tratassem lá de nossos ferimentos e continuamos a viagem, não sem algum medo, principalmente quando cruzávamos com um ou mais negros, mas sem outro incidente e sempre admirando a encantadora paisagem.

A colônia de Petrópolis fica no meio de uma floresta virgema 762 metros do nível do mar. Foi fundada há apenas uns 14 meses [os primeiros colonos chegaram em 29 de junho de 1845], com o propósito principal de fornecer várias espécies de legumes e frutas europeias, que nos países tropicais só crescem a uma determinada altura, para o consumo da capital. Uma pequena fileira de casinhas compunha já uma rua, e numa praça iluminada erguia-se já a estrutura de madeira de uma grande construção, a residência de verão do imperador, mas que dificilmente teria um aspecto imperial, já que portas de entrada pequenas e estreitas contrastavam estranhamente com as janelas largas e grandes [com a modificação do projeto original, acrescentando o pórtico de granito ao corpo central, esse "defeito" foi sanado]. Em torno do palácio será construída a cidade. Mas existem muitas casinhas isoladas mais distante, nos bosques. Uma parte dos colonos, como os artífices, lojistas, etc. receberam pequenos terrenos na proximidade do palácio, os agricultores, terrenos maiores, mas que não chegam a dois hectares. Que miséria deve ter sofrido essa pobre gente em sua terra natal para procurar uma região estranha do mundo por uns poucos acres de terra.

PALAIS IMPÉRIAL DE PÉTROPOLIS (PALÁCIO IMPERIAL DE PETRÓPOLIS, ao fundo, ainda sem o pórtico, aparentemente), gravura de Eugène Ciceri (1813-1890)

Nossa boa velhinha que fez a viagem conosco da Alemanha até o Rio de Janeiro encontramos aqui junto ao seu filho. A alegria de poder compartilhar a vida de seu querido muito a rejuvenesceu nesse curto período. Seu filho tornou-se nosso guia. Ele nos mostrou a jovem colônia, situada em amplas ravinas. As montanhas em volta são tão íngremes que, quando se derrubam as árvores para uso agrícola, a terra fofa é facilmente removida pelas enxurradas.

A uma légua da colônia uma cachoeira cai, com grande estrondo, em uma garganta que ela própria cavou [provavelmente a Cascata do Itamarati - gravura abaixo]. Mais do que pela altura ou volume d'água, ela se destaca pelo belo contorno de montanhas que a cercam em forma de caldeirão e pela penumbra solene da floresta virgem circundante.

CASCADE D'HAMARATY [ITAMARATI] À PÉTROPOLIS, gravura de Eugène Ciceri (1813-1890). A Cascata do Itamarati é hoje conhecida como Cascata de Bulhões.
29 de setembro [de 1846]. Apesar de nosso incidente anterior, fizemos nossa viagem de volta a Porto da Estrela novamente a pé, pegamos uma barca e viajamos durante a bela noite até o Rio de Janeiro, onde chegamos contentes de manhã. Por toda parte, tanto em Petrópolis como também na capital, as pessoas se espantavam com o ataque às nossas vidas que sofremos, no qual sequer acreditariam se não exibíssemos os ferimentos. O sujeito foi considerado um bêbado ou maluco. Só depois ficamos sabendo da verdadeira causa. Seu senhor pouco antes o havia castigado por uma transgressão e, quando ele nos encontrou na floresta, achou que seria sua oportunidade de extravasar impunemente sua raiva contra os brancos.

NOTA: Uma versão em inglês do livro de Ida Pfeiffer é oferecida gratuitamente em ebook na Amazon.

Imperial Fazenda do Córrego Seco, gravura de Franz Xaver Nachtmann (1799-1846, em Spix, Johann Baptist von, 1781-1826. Atlas zur Reise in Brasilien. p. [Gravura 24-A]


APÊNDICE: ALGUMAS LINHAS SOBRE A FUNDAÇÃO DE PETRÓPOLIS

A história da fundação de Petrópolis começa pelo decreto imperial de 16 de março de 1843, que ordenou a construção de um palácio de verão em terras da Imperial Fazenda de Córrego Seco, em uma garganta no alto da serra da Estrela, e a criação de uma povoação em torno segundo um arruamento previamente traçado (Petrópolis foi portanto a primeira “cidade planejada” do Brasil). Coube ao major de engenheiros Julio Frederico Koeler a construção do palácio e o planejamento da povoação. Por falta de verbas, somente no início de 1845 foi o Imperador até a serra marcar os lugares da igreja, do palácio, etc. e em maio daquele ano foi assentada a pedra fundamental do palácio [foto abaixo] e começaram as obras. Em 29 de junho chegaram em Petrópolis os primeiros colonos alemães, recém-aportados no navio Virginia e originalmente contratados para trabalharem nas estradas da província. Já na época se discutia a conveniência de trocar a mão de obra escrava por colonos importados.

Museu Imperial

Na pág. 2 do Jornal do Commercio de 17 de novembro de 1845 encontramos informações preciosas sobre esse início da história da cidade de Petrópolis (este e outros textos foram convertidos à ortografia atualmente vigente pelo editor do blog):

S.M. o Imperador houve por herança uma fazenda denominada Córrego Seco. Por decreto de 16 de março de 1843 ordenou ao seu mordomo que, a expensas da casa imperial, erigisse ali um palácio com as necessárias dependências e jardins, e que aos cidadãos que também quisessem edificar aforasse prazos de terras, sob a condição de se sujeitarem ao alinhamento que se lhes prescrevesse, a fim de se poder fazer uma povoação regular. A esta povoação concedeu o mesmo augusto senhor, sem ônus algum, todo o terreno para uma igreja com a invocação de S. Pedro de Alcântara, e para um cemitério; obrigando-se a dar as alfaias e vasos sagrados que requer o culto divino.

O restante da fazenda do Córrego Seco mandou o imperador que fosse arrendada ao major Koeler, com a condição de promover este o aforamento das terras da mesma fazenda.

O estabelecimento fica no alto da serra da Estrela, nove léguas distante desta capital, sendo cinco por mar e quatro por terra; tem meia légua de comprido e uma de fundo, formando duas meias léguas quadradas.

O mordomo não pôde logo principiar a construção do palácio; porque, além de S.M. o Imperador haver concedido duzentos contos da sua dotação a favor das necessidades públicas, acresceram as despesas do seu casamento, dos de S.A. a Senhora D. Januária e de S.A. a Senhora Princesa de Joinville; o que tudo impediu que se pudessem distrair [=desviar] dinheiros para outros dispêndios.

No começo deste ano [1845], porém, foi o Imperador marcar os lugares da igreja, do palácio, etc. e em maio se deu princípio às obras, ficando delas encarregado o major Koeler; o qual rescindiu o contrato de arrendamento já mencionado. Quando se estava nestes preparatórios, chega em junho do porto de Dunquerque o navio Virginia, trazendo a bordo 160 colonos, dos que tinham sido contratados para trabalhar nas estradas da província. O mordomo, autorizado por S.M. Imperial, ofereceu ao vice-presidente do Rio de Janeiro, o Sr. Conselheiro Cândido Batista de Oliveira, as terras de Petrópolis para habitação dos colonos, visto que as obras da estrada da serra lhe estão contíguas, e é cortada pela estrada normal, que pela serra passa. Aceita a oferta, partiram os colonos para Petrópolis, vindos de Niterói ao arsenal da marinha, onde S.M. Imperial se dignou ir vê-los, e lhes assegurou a sua proteção por meio de alocuções que fizeram os Srs. Theremin e Riedil, mandando dar a cada indivíduo cinco mil réis.

No dia de São Pedro [29 de junho] entraram em Petrópolis os primeiros colonos, sendo acolhidos pelo seu compatriota o major Koeler, que do Imperador em pessoa tinha tido a honra de receber as ordens para assim o praticar. No dia 15 de julho distribuiu a cada casal uma data [=doação] de cinco mil braças de superfície de boas terras de cultura, ferramenta, semente e de todos os socorros necessários, como lhe fora ordenado. De então para cá têm subido para Petrópolis quase todos os colonos que o Exm. Sr. Aureliano mandara contratar, e têm recebido da munificência imperial os mesmos benefícios que receberam os primeiros.

É admirável a atividade que tem o major Koeler empregado no distribuir terras, no assentar os colonos, socorrê-los e animá-los. [...]

Enquanto porém os colonos não tiram do seio da terra tudo quanto lhes é necessário para a sua subsistência, isto é, enquanto as suas plantações não produzirem, está providenciado que eles trabalhem nas obras da estrada e na construção do palácio; de sorte que vão já ganhando dinheiro por seus ofícios, e ao mesmo tempo vão cuidando nas suas lavouras e na edificação daquelas de suas casas que ainda se acham por acabar. E quando vierem a produzir as suas lavouras, eles já estarão livres e desembaraçados das dívidas que contraíram com a província para as suas passagens.

Praça Dom Pedro II. Estátua do Imperador de 1911.

O Imparcial, Folha Política e Comercial, de 24 de maio de 1845, na seção referente à Família Imperial, informa sobre uma viagem do Imperador a Córrego Seco para assentar a pedra fundamental do palácio:

SS. MM. estão em vésperas de uma viagem à sua fazenda do Córrego Seco; onde o Imperador vai assentar a primeira pedra do palácio que ali mandou edificar, criando juntamente uma cidade com o título de Petrópolis.

Janelas do Museu Imperial

No Jornal do Commercio de 17 de fevereiro de 1945, Julio Frederico Koeler, planejador da cidade, havia comunicado:

No alto da serra da Estrela, em espaçosa garganta, é situada a fazenda do Córrego Seco, chamada hoje Petrópolis, que pertence a S.M. o Imperador. Por ali passa a maior parte do comércio de Minas, Goiás e Mato Grosso, e o governo provincial já mandou delinear e construir a estrada normal, que, em seguida à nova da serra, atravessa a fazenda.

S.M.I. [Sua Majestade Imperial] acaba de ordenar a construção do seu palácio de verão na Petrópolis, e o abaixo assinado [Koeler] se acha incumbido da direção e administração desta obra, com ordem de aprontar, até 1o de outubro do corrente ano, tal parte dela que possa servir para aposento provisório do mesmo augusto senhor.

S.M. o Imperador, querendo franquear os benefícios e os gozos que promete a habitação na Petrópolis, permite que ali se forme uma povoação, e para este fim ordenou que se arruasse uma porção de terreno, mandando ao mesmo tempo ao Exm. Mordomo que consentisse na divisão das terras de Petrópolis em prazos de foro perpétuo, de cuja ordem resultou efetuar-se o contrato que possui o abaixo assinado, do arrendamento de toda a fazenda.  

PANORAMA DE PETRÓPOLIS, gravura de Sabatier em Ribeyrolles, Charles, 1812-1860. Brazil pittoresco : album de vistas, panoramas, monumentos.... p. [gravura 19]
A Gazeta Oficial do Império do Brasil, na edição de 6 de outubro de 1846, relata o testemunho de um estrangeiro, dedicado ao estudo da colonização, sobre o “bom resultado que vai apresentando o estabelecimento de colonização formado debaixo dos auspícios de S.M. o Imperador, em Petrópolis”. “Confesso”, diz esse estrangeiro, “que não acreditava que dentro dos limites dos trópicos se pudessem achar terras e um clima adaptados para uma povoação alemã; mas Petrópolis veio convencer-me de que minha opinião era mal fundada, e declaro que as minhas esperanças foram a todos os respeitos excedidas.” “Em cima da Serra e em Petrópolis o clima é inteiramente diferente do do Rio; o termômetro durante os dez dias de minha residência naquele estabelecimento nunca excedeu 72o Fah. [22o C] ao meio-dia; descendo a 50o [10oC] de manhã e de noite, o que tornava a temperatura mui fresca.” “Dificilmente se acreditará que a colônia só fosse fundada no ano próximo passado; grande número de colonos já tem boas casas cercadas de hortas com toda a casta de hortaliça; seus campos já estão em grande extensão cultivados; tudo parece ser obra de anos, e só conta um ano de existência! Os colonos e as crianças com faces rosadas não parecem transportados para regiões tropicais; todos anunciam saúde e contentamento.” “Os vales com seus regatos pelos diferentes quarteirões de que se compõe a colônia, os seus campos e pitorescos caminhos que dão trânsito por toda ela, apresentam um aspecto verdadeiramente encantador.” “Os colonos estão satisfeitos com seus lotes; o jornal [remuneração salarial por dia de trabalho] que recebem nas obras públicas chega para seu sustento, e de nada se queixariam se houvesse regularidade no pagamento.”

Catedral neogótica São Pedro de Alcântara (1846)

O relatório da Sessão Imperial da Abertura Da Assembleia Geral Legislativa, em 3 de maio de 1846, publicado no Anuário Político Histórico e Estatístico do Brasil, na seção dedicada à Família Imperial, ao se referir a Petrópolis, revela que “Ali se acha assentada, e em mui próspero estado, uma colônia alemã, que conta 1.921 pessoas, a qual com alguns nacionais e poucos estrangeiros de outras nações, forma o núcleo de uma linda, salubre e populosa cidade, para a qual se acham lançadas as primeiras linhas, e que, em mui poucos anos, se desenvolverá debaixo dos auspícios e do nome do seu augusto fundador” (p. 6) Mais adiante (p.43), informa: “Um dos mais ardentes desejos dos colonos, que ali se acham, é o de serem cidadãos brasileiros, e partilharem assim todos os ônus e encargos dos cidadãos do estado que os recebe e protege”.



Palácio de Cristal, raro exemplar dos pavilhões da arquitetura do ferro do séc. XIX (1879)

O Mapa Estatístico das Colônias Existentes em Todo o Império do Relatório do Ministério do Império de 1848 apresentado à Assembleia Geral Legislativa informa que Petrópolis contava naquele ano com 2.473 colonos. “O número dos colonos notado compreende somente os alemães, sendo deles 1.301 do sexo masculino e 1.172 do sexo feminino; daqueles 485 são maiores de 10 anos, e destes 426 da mesma idade; as famílias são 475, repartidas pelos 20 quarteirões em que se divide a colônia. Há 1.584 católicos e 889 protestantes; 955 casados e 143 solteiros em estado núbil; sabem ler e escrever 1.652–Contém a colônia 658 casas, afora 38 que estão se edificando; possui muito bons hotéis, excelentes armazéns, e muitas oficinas em constante trabalho.”

Visita à fábrica da Bohemia

Petrópolis é "um dos principais berços da produção cervejeira no Brasil", como informa a exposição na sede histórica da Companhia Cervejaria Bohemia, a cervejaria mais antiga do país em funcionamento. No Anuário Político Histórico e Estatístico do Brasil de 1847 existe uma menção à atividade cervejeira na colônia: 

Existem já na colônia dois engenhos de serrar; uma fábrica de cerveja; trata-se de estabelecer outra de sabão; alguns colonos preparam a potassa; e um alemão que se retirou do comércio da Corte se dedica à criação do bicho-da-seda, e tem já uma plantação de amoreiras, que ali crescem com rapidez.

Um estudo interessante sobre a colonização alemã em Petrópolis é a tese de mestrado EMIGRANTES ALEMÃES E A SUA INSERÇÃO NO PROCESSO HISTÓRICO DE FORMAÇÃO DA POVOAÇÃO – PALÁCIO DE PETRÓPOLIS (1845 – 1886) de JORGE OLMAR MARIALVA COPELLO que pode ser acessada clicando aqui.