31.10.18

O QUE É FELICIDADE, de MANOEL CARLOS

Crônica de Manoel Carlos transcrita da Veja-Rio de 10/2/2010


Andei pensando nisso ultimamente. Quem me diz? Quem me explica? Quem me define com precisão qual a identidade verdadeira dessa misteriosa e maravilhosa sensação que sentimos, que nos leva a afirmar: sou feliz? Ou, pelo menos: estou feliz? No dicionário está muito claro: felicidade é satisfação. A qualidade de estar e/ou ser feliz.
Os poetas falam muito nesse estado, mais para dizer que o desejam, que o procuram e que não o encontram. Vicente de Carvalho garante que a felicidade...
Existe, sim: mas nós não a alcançamos
Porque está sempre apenas onde a pomos
E nunca a pomos onde nós estamos.

E há também os que a encontram, mas não sabem. Ou que só ficam sabendo quando já é tarde, quando a perderam, quando a deixaram passar. Na mesma hora me vem à memória o verso de Miraí, um lindo samba de Ataulfo Alves, que, ao lembrar-se dos tempos de criança, exclama, emocionado: "Eu era feliz e não sabia!".
Lembro-me também da frase de Dorian Gray no romance de Oscar Wilde, mais ou menos assim: "Não procuro a felicidade, procuro o prazer". Mas sentir prazer não é sentir-se feliz. E estar feliz não é estar repleto de prazer? Mas também sabemos que a satisfação de Dorian Gray era extraída da dor de viver. E, principalmente, da dor que nos causa o tempo, o passar dos anos, o envelhecimento. Por isso, para ele, felicidade era ser eternamente jovem e belo.
Para os poetas e para a poesia, ser infeliz é mais inspirador do que ser feliz. Queixar-se da vida é mais comum do que louvá-la. Até nas novelas. Se o personagem vive sorrindo, logo alguém diz que ele é chato, cansativo, artificial.
Meu amigo Reynaldo é radical:
– Ninguém gosta de pessoa muito feliz. Dessas que exalam euforia e contentamento. Parece um acinte, uma afronta. Como se pode viver sem conflitos? Ser infeliz é que é o normal, porque é mais duradouro.
E Vinicius de Moraes concorda, ao afirmar:
Tristeza não tem fim
Felicidade sim.


Manuel Bandeira

Ah, os poetas! Alguns, como o nosso Manuel Bandeira, louvam a morte num poema precisamente com o nome "Felicidade":
Oh, ter vontade de se matar,
bem sei é coisa que não se diz.
Que mais a vida me pode dar?
Sou tão feliz!

Mas por que estou eu a gastar tinta, como se dizia antigamente, no tempo em que se escrevia a mão, com essa palavra tão usada e ao mesmo tempo tão obscura, que todo mundo conhece, mas que ninguém define com precisão, e que os dicionários registram, sem ênfase, em duas ou três linhas? Conto a vocês. É que lendo Um Ensaio Autobiográfico, de Jorge Luis Borges, livro que nasceu de alguns encontros que o admirável escritor argentino manteve com o americano Norman Thomas di Giovanni, seu amigo e principal interlocutor, deparei com esta declaração que Borges faz no fechamento do livro e que, pedindo licença à editora e aos tradutores Maria Carolina de Araújo e Jorge Schwartz, reproduzo aqui, de presente aos meus queridos leitores:
"Suponho que já escrevi meus melhores livros. Isso me dá uma espécie de tranquila satisfação e serenidade. No entanto, não acho que tenha escrito tudo. De algum modo, sinto a juventude mais próxima de mim hoje do que quando era um homem jovem. Não considero mais a felicidade inatingível, como eu acreditava tempos atrás. Agora sei que pode acontecer a qualquer momento, mas nunca se deve procurá-la. Quanto ao fracasso e à fama, parecem-me totalmente irrelevantes e não me preocupam. Agora o que eu procuro é a paz, o prazer do pensamento e da amizade. E, ainda que pareça demasiado ambicioso, a sensação de amar e ser amado".
Jorge Luis Borges nasceu em 1899 e morreu em 1986, aos 87 anos. O ensaio foi escrito em 1970, quando ele tinha 71 anos.

Busto de Borges em Buenos Aires

10.10.18

CRIMINALIDADE NO RIO DE JANEIRO NO TEMPO DE MELO MORAIS FILHO



Alguns saudosistas têm a mania de recordar um passado “ideal”– quando os produtos eram mais baratos, havia menos violência, a vida era mais saudável – que só existe em suas fantasias. É só relembrar a história da humanidade com sua sucessão de conflitos sangrentos, invasões, atrocidades. Se o Rio no passado ainda não sofria a “guerra do tráfico”, teve, por exemplo, a Revolta da Armada, cujas balas perdidas, só em 25 de setembro de 1893, mataram um vendedor de balas no Largo do Rocio (Praça Tiradentes), uma dançarina italiana na Rua do Lavradio, além de ferirem duas crianças no Catete e danificarem diversos prédios, entre eles a igreja da Lapa dos Mercadores cuja torre foi atingida.


Nesse sentido, o livro Fatos e Memórias, publicado em 1904 e nunca mais reeditado, de Mello Moraes Filho (Melo Morais Filho na ortografia atual)  sobrinho neto de Antonio de Moraes Silva, autor de um dicionário da língua portuguesa publicado em 1890, e tio-avô de Vinicius de Moraes, que dispensa apresentação  é revelador porquanto ele mergulhou fundo no submundo carioca. “Dos muitos cronistas da vida carioca do período compreendido entre o fim do século XIX e o primeiro quartel do XX, Melo Morais Filho é dos maiores e dos menos lembrados”, diz Alexei Bueno, em Prefácio a uma edição do livro a ser futuramente lançada.

Também Melo Morais, naqueles tempos já distantes, alude a um Rio de Janeiro do passado “quando a confiança predominava entre os pacatos habitantes, e que se podia sem receio dormir a portas abertas”. Porque “agora”, ou seja, no início do século XX, quando ele escreve o livro, “ladrões de rua [...] dia e noite exercem sua arriscada profissão dentro e fora desta cidade, vergonhosamente policiada”. O triste fato é que “Não há contestar que nesta populosa capital assentaram permanentes acampamentos malfeitores e ladrões, que por aí livremente pululam, transfigurando-a em alguma coisa de arriscadamente habitável. Aqui rouba-se por todas as formas, assalta-se a qualquer hora do dia e da noite, e ninguém poderá assegurar, deixando os sobressaltados lares, se a eles voltará sem a carteira, sem o relógio, ou mesmo sem a vida.

A seguir, mais alguns trechos desse curioso livro do alvorecer do século XX que esperamos ver em breve relançado. Você também pode acessar a edição original da obra clicando aqui. As imagens foram extraídas de diversos capítulos da edição original do livro.



Para melhor formular um critério sobre o que a respeito asseguramos, basta percorrer por instantes as folhas diárias, que fatigadas de publicarem ao acaso notícias de repetidos ataques à propriedade e aos domicílios, concentraram em coluna especial tal gênero de narrativas, proporcionando ao historiador futuro fácil busca, com o fim de descrever um período social que envergonha e humilharia a qualquer povo de raso nível.

Garantidos pela quase uniformidade da justiça pública, que indulta horripilantes crimes, acoroçoados por autoridades e agentes de segurança, dispostos a dar-lhes fuga (luceres), porque auferem ocultos proventos, os gatunos e ladrões assenhorearam-se desta cidade, constituídos em classes e em turmas, com organização própria, isto é, com os recursos precisos para escaparem à letra morta da lei, com correspondentes imediatos que lhes restituem em moeda o valor do furto e do saque, com rustidores (depósitos) que resguardam as provas autênticas do delito, e com gíria privativa a cada parcialidade no exercício das depredações.

Salientando-se mais temerosa que os precedentemente assinalados, uma horda de malfeitores recebeu dessa população de réprobos o crisma de escrunchantes (arrombadores de porta), criando para seu uso um argot fixo, no que se refere ao instrumental do ofício e às peripécias decorrentes e intercorrentes à ação.


Assim aparelhada, divide-se a magna classe dos escrunchantes em gravateiros (garroteadores), em as­saltantes à mão armada, sonambulistas (narcotiza­dores), e renas (ladrões de navios ancorados); não mencionando os penosos (ladrões de aves), amostriqueiros (ladrões de amostras), etc., turba anônima do gatunismo das ruas e dos quintais.

Desde 1866 são frequentes, entre nós, os roubos de igreja. O primeiro de que reza a tradição popular foi cometido na matriz de Santo Antônio dos Pobres, à rua dos Inválidos, por um célebre vigarista cearense, punguista e escrunchante, Pamplona de tal, que num ataco (assalto) àquele templo, depois de ter pilhado alfaias e adereços pertencentes às imagens, substituiu o resplandor do pa­droeiro por um chapéu de palha, que trazia na ocasião, pregando em redor larga tira de papel com o seguinte dístico: "Quem é pobre não tem luxo". [...]


Em pequenas quadrilhas, nesta cidade, os assaltos são cometidos ordinariamente à noite.
Nunca menos de quatro se incumbem do trabalho (roubo). A ferramenta do estilo e armas de ataque limitam-se ao pé-de-cabra, à dentosa (chave de abrir burras), ao alfinete (faca), cabelo (serra fina), a lanterneta (lanterna de furta-fogo) e aos berrantes (revólveres), indispensáveis à proteção das saídas e entradas dos referidos malfeitores. [...]


Postos em fuga, é vulgar entre os assaltados e os assaltantes, entre estes e a vizinhança alarmada, haver prolongados tiroteios, verdadeiros combates, dos quais resultam mortes e ferimentos.

Em fins de 1900 registrou a imprensa desta capital um caso de roubo à mão armada, uma escalada de ladrões a uma habitação em freguesia suburbana, que se destacou em meio de dezenas de outros ultimamente praticados, não só pela temeridade dos sicários, como também pela desfaçatez com que esses miseráveis, em face da vítima ultrajada, declararam em seus depoimentos torpezas que lhe macularam o lar.

Os gatunos arrombaram a parede da cozinha, servindo-se do orifício dos tijolos arrancados, penetraram no prédio em horas adiantadas da noite, quando o sono havia irmanado com a morte a quietação dos domiciliados.


E o revólver do bandido, apontado à fronte de uma senhora que acordara em sobressalto, impôs-lhe a revelação dos lugares certos onde existiam jóias e dinheiro, ao passo que as sombras da meia-noite velavam cenas de lubricidade e de desgrenhado pavor.

No extremo pólo, e epilogado de ridículo, figura caricatamente o arrombamento, seguido de roubo, da joalheria Luís de Resende, à rua do Ouvidor.

Trabalho lento, e de penosa execução, os cautelosos e ignorados escrunchantes, escorregando pelo ralo das águas pluviais e tomando a direção da galeria de esgotos, brocaram para cima uma entrada comunicável com o grande compartimento de jóias, pedras preciosas e outros objetos de real valor.

Apropriando-se do opulento acervo, estimado em 200:000$000, os salteadores evadiram-se, deixando unicamente, como rastro maravilhoso da aventura, o célebre buraco, desde logo denominado pelo povo – O buraco do Resende.

1.9.18

ARQUITETURA CARIOCA: UM PATRIMÔNIO MENOSPREZADO, de LUIS EDUARDO MATTA

PUBLICADO ORIGINALMENTE NO DIGESTIVO CULTURAL DE 27/4/2004


Nos últimos anos, o Rio de Janeiro vem assistindo a uma revolução silenciosa e um tanto tardia que, lentamente, está transformando a maneira de enxergar e pensar a cidade: o resgate da sua memória, através da recuperação de parte do patrimônio arquitetônico e a consequente valorização do espaço urbano circundante. Não deixa de ser uma mudança radical numa cidade que, durante décadas, tratou as ruas com menos carinho do que o merecido, inclusive calando-se diante do apetite criminoso da especulação imobiliária, que fez desaparecer ao longo do século XX verdadeiros tesouros em nome do progresso a qualquer custo. Nessa onda destruidora foram-se, entre outros, o Palácio Monroe, o Ministério da Agricultura, o Teatro Lírico, o Pavilhão do Mourisco, o Hotel Avenida, o Hotel Palace, a Mansão Martinelli e o Edifício Ferrini. Este último, situado em plena avenida Atlântica e demolido em 1978, foi, seguramente, um dos cinco mais estupendos e luxuosos prédios residenciais erguidos na orla brasileira em todos os tempos. Até o famoso Copacabana Palace correu o risco de vir abaixo por iniciativa da própria família proprietária do hotel, que pretendia erguer no local um complexo de prédios de luxo, mas, felizmente nessa época, início dos anos oitenta, a sociedade já se mostrava bem mais consciente da importância da conservação dos seus ícones arquitetônicos e a idéia foi suplantada antes mesmo de ganhar fôlego.

Essa revolução ainda não chegou a afetar o grosso da população, mas já constitui um avanço notável, pois, ao incutir no governo e nas elites a necessidade de se cultivar a memória de uma cidade onde boa parte da História do Brasil foi escrita, coloca um freio no processo de descaracterização arquitetônica, abrindo caminho para um planejamento mais racional do uso e da ocupação do solo urbano, revitalizando áreas degradadas e estimulando o empresariado a investir na restauração e modernização de antigos prédios decadentes situados em bairros centrais, em vez de simplesmente se limitar à tarefa de erguer novas construções em áreas residenciais afastadas. Isso, na realidade, já começa a acontecer, embora ainda timidamente e dois exemplos conhecidos são o do tradicional prédio do restaurante Amarelinho, na Cinelândia e o do Edifício Guarujá, em Copacabana, que ficou anos abandonado até ser reformado e transformado num requintado hotel-residência.

Um dos maiores entraves para a consolidação dessa mentalidade talvez seja a notória resistência que boa parte do povo carioca, mesmo entre as camadas mais instruídas, ainda tem em valorizar a vertente, digamos, mais urbana da cidade, ao contrário do que sempre aconteceu com a paisagem natural, historicamente enaltecida. Outro dia, por exemplo, quase fui atropelado por um ciclista alucinado e mal-educado, em Copacabana, porque, inadvertidamente, parei num canto da calçada por alguns instantes que não chegaram a um minuto para apreciar a beleza dos contornos de um imponente edifício residencial, erguido sobre uma pequena galeria comercial de inspiração parisiense. Entre outras coisas, eu tentava calcular a idade do prédio, que, apesar da sua fachada neoclássica, fora, provavelmente, concluído entre o fim da década de trinta e o começo da de quarenta 
 quando já predominavam o Art Déco e a sua variante Marajoara -, pois obedecia a uma norma instituída naquele período, obrigando as novas construções a guardar uma distância maior do meio-fio, a fim de tornar as calçadas mais largas. Só a título de comparação: o edifício do cinema Roxy, situado ao lado, fora, de acordo com o Guia da Arquitetura Art Déco no Rio de Janeiro (Prefeitura do Rio/Casa da Palavra; 162 páginas; 1997), erguido em 1934, quando ainda não vigorava a tal norma, razão pela qual a calçada no seu entorno é mais estreita do que no restante do quarteirão.

Felizmente, não tive o desprazer de conversar com o cavalheiro montado na bicicleta 
 que, não satisfeito em quase ter me atropelado num espaço reservado aos pedestres, ainda me xingou e à minha mãe , mas passado o susto, comentei o incidente com um outro pedestre e ele me respondeu mais ou menos o seguinte: "O cara não devia ter feito isso, mas aqui também não é lugar para o senhor ficar parado. Se ainda fosse na praia, apreciando o mar, as mulheres... Mas, aqui não tem nada para ver".

Eu poderia ter rebatido, apontando uns quatro edifícios com belas portarias de mármore visíveis daquele ponto, mas concluí, sabiamente, que não valeria a pena. Como bem disse o jornalista inglês Christopher Pickard, numa entrevista em 1993, "os cariocas andam pelas ruas do Rio, indiferentes à riqueza das suas construções históricas". Experimente fazer um elogio à arquitetura da cidade e sempre haverá alguém com ares de superioridade por perto para estufar o peito e, com a voz impostada de quem, supostamente, viajou o mundo, lhe chamar a atenção de forma quase professoral, insinuando que você não tem a menor noção do que diz, que bonitas cidades, urbanisticamente falando, você encontra no Hemisfério Norte: Veneza, Paris, Praga, Sevilha, Barcelona, Nova York, Londres, São Francisco, Montreal... No Rio, o que conta mesmo são as praias, as mulheres, o verde dos parques, o azul do mar, o time do coração, as escolas de samba, o chope gelado no botequim, a ginga, o molejo e a simpatia do povo. A arquitetura é sem-graça, pobre. As ruas são congestionadas, os prédios maltratados, as calçadas sujas... Vá viajar e ver como é o mundo, antes de ficar dizendo bobagem.

Esse tipo de argumentação é consequência não só de uma nefasta ignorância em relação ao próprio meio, como também de um certo temor que muita gente tem de passar por caipira, por alguém que não conhece outros lugares e, portanto, não possui parâmetros de comparação suficientes para situar o Rio dentro de um contexto mais amplo. Aí eu pergunto: para que perder tempo fazendo comparações, quando é muito melhor avaliar cada lugar isoladamente? Afinal, as cidades são diferentes entre si, possuem características que lhes são próprias, umas são mais bonitas do outras, algumas são lindas, outras horrorosas. Veneza, Sevilha e Praga por exemplo, são, em tese, mais belas do que Budapeste, Zurique e Londres. E daí? Alguém vai afirmar que, por conta disso, Budapeste é uma cidade feia? Nesse caso, seria simples: se elegeria a cidade mais bonita do mundo e o resto seria, metaforicamente, jogado numa vala comum.

O mesmo raciocínio se manifesta quando pensamos o Brasil historicamente. Isso ficou bastante evidente na época da celebração dos quinhentos anos. Ouvi gente afirmar que comemorar quinhentos anos não era nada, era sinal de pieguice ufanista. A Áustria, por exemplo, havia festejado mil anos, recentemente. Então, como, inclusive, eu tive a oportunidade de argumentar na ocasião, a Áustria também devia ter se abstido de realizar qualquer comemoração, já que o Irã, em 1971, havia festejado dois mil e quinhentos anos. E se nós formos falar da civilização indiana, com mais cinco mil anos, então, nada surgido depois deveria ser lembrado. Até mencionar a Roma imperial como sendo algo "antigo" acabaria soando como sintoma de estreiteza cultural.

O curioso é que essas mesmas pessoas que enchem a boca para falar mal da cidade, são as primeiras a contribuir para descaracterizá-la, ao construir "puxadinhos" nas suas coberturas, cercar suas portarias com grades medonhas, escolhidas sem o menor critério e não achar nada demais em fechar suas varandas com esquadrias de alumínio, transformando-as em horrendos jardins de inverno, desfigurando, assim, todo o projeto original do prédio, como se vê muito em bairros mais tradicionais, notadamente Copacabana e Flamengo. É como aquela típica história do sujeito que sai de carro até para ir à esquina e depois se queixa dos engarrafamentos, esquecendo-se de que é um dos causadores. Ou do cidadão que emporcalha as ruas e depois reclama que a cidade está imunda.

E andar pelas ruas do Rio, apreciando as esquinas, as portarias, a essência de cada construção, é um exercício tão estimulante, interessante e enriquecedor que eu chego a sentir pena dos cariocas que não conseguem se entregar a esse deleite. Existe uma tamanha riqueza de estilos arquitetônicos 
 que vão do Barroco ao Moderno, passando pelo Neoclássico e o Art Déco  que fica difícil encontrar paralelo em qualquer outra cidade brasileira. Muita gente desconhece, por exemplo, que as pilastras revestidas de pastilhas, comuns nas portarias de muitos edifícios residenciais da Zona Sul, são resultado da incorporação de elementos da escola modernista em projetos da construção civil, principalmente a partir da década de 50 e que o valor arquitetônico desses imóveis é muito maior do que se imagina. Uma outra curiosidade interessante é que muitas garagens subterrâneas de prédios erguidos nos anos quarenta foram concebidas para servir como abrigos antiaéreos a fim de proteger os moradores de um eventual bombardeio nazista durante a Segunda Guerra Mundial.

Alguém poderá alegar que essa discussão é fútil numa cidade com tantos problemas sociais e estruturais; ou delirante, já que o Rio está repleto de construções feias, verdadeiros caixotes encardidos de concreto, que parecem já ter nascido decadentes. Digo que, se a cidade tivesse abraçado esse debate há mais tempo, muitos desses problemas talvez nem existissem. A ausência de consciência e cultura urbanas é uma das piores doenças de que uma cidade pode sofrer e esse mal, infelizmente, está presente em todo o Brasil. Hoje, enquanto as favelas crescem de um lado e a classe média se encastela em shoppings e condomínios fortificados do outro, à cidade resta o papel inexpressivo de mero espaço comum de passagem. Valorizar a sua arquitetura pode ser um ótimo começo para levar à população a ideia da rua como centro principal da vida social e, assim, atenuar o processo de degradação urbana que tanto prejuízo traz ao bem-estar, à imagem e à auto-estima das metrópoles brasileiras.

30.8.18

DIFERENÇA ENTRE NEGRO, CRIOULO, PARDO, MULATO, CABRA, CAFUSO, FORRO E LIVRE, SEGUNDO O HISTORIADOR NIREU CAVALCANTI

Texto explicativo que recebi certa vez por e-mail do historiador Nireu Cavalcanti, maior autoridade viva sobre a história do Rio, e resolvi incluir aqui para compartilhar com o público a terminologia com que se designava a população africana e afro-descendente na época da escravatura, de triste memória. Fotos de grafites que tirei aqui no Rio. 


O pessoal faz uma confusão imensa com essas classificações de negros e mestiços [na época da escravatura].

1- O negro que saiu diretamente da África = preto (negro) de Nação ... Mina, Cabinda, Angola etc.
2- O negro que nasceu de escravo no Brasil = crioulo
3- O filho da primeira mistura de negro com branco = pardo
4- O filho do pardo com branco = mulato
5- O filho do pardo com negro = cabra
6- O filho de preta escrava (ou livre), ou misturada, com o índio = cafuso
7- O escravo que tornou-se livre: a classificação da cor da pele (mistura) seguida de forro
8- O filho de forro = a classificação da cor da pele (mistura) seguida de livre, ou simplesmente a cor da pele.

Algum tradutor da primeira metade do século XIX é que escreveu essa bobagem de cabra ser o animal. Não me lembro se foi no Debret que o tradutor (ou o próprio) referindo-se a um escravo masculino escreveu bode.

Se não me engano o tradutor (ou a própria) do livro da Mary Karasch fez essa mesma confusão.


26.8.18

O MORRO DA VIÚVA


O Morro da Viúva, entre Botafogo e Flamengo, que na foto aérea em preto e branco do Jorge Kfuri acima se vê claramente no canto superior esquerdo (indicado pela seta), e onde na década de 1920 se planejou construir um hotel e belvedere (como informa a matéria "Embeleza-se o Morro da Viúva", da Revista da Semana de 12 de março de 1921), hoje é um morro "invisível", cercado de prédios por todos os lados. O fortim lá erguido por ocasião da Questão Christie (século XIX - foto abaixo) desapareceu, mas ainda subsistem ruínas do antigo reservatório, construído em 1891, tombado pelo INEPAC em 1998, mas em péssimo estado de conservação (ver fotos adiante). 


Entrada do forte do Morro da Viúva em foto de Carlos Malta de 1906 obtida no site do Instituto Moreira Salles. Segundo o engenheiro militar Augusto Fausto de Sousa (tomo 48 da revista do IHGB), "foi construído por ocasião do conflito com a Inglaterra, a chamada Questão Christie. Era uma bateria levantada em 1863 com o fim de defender a baía de Botafogo e a enseada do Flamengo, até em frente do Passeio Público, auxiliando a defesa de algumas das faces das fortalezas de São João, Lage e Villegagnon. O espaço acanhado, de que dispunha a mesma bateria, a pouca elevação e a facilidade de ser ofendida por fogos curvos, não permitem ligar a esta obra grande importância". A posição acabou sendo abandonada e a fortaleza foi arrasada em 1922 para a construção do Hotel Sete de Setembro, que acabou não ocorrendo, conforme informa Ulysses de Aguiar em "Terra Carioca" numa edição da Revista da Semana de 1934. O local no morro onde se erguia esse forte ignoro, se alguém souber, por favor informe. 




Se você olhar o mapa do Google Maps do Morro da Viúva, verá que a nordeste existe uma grande área, mais alta, com a mata totalmente preservada (letra A). No centro (letra B) existem piscinas e outras instalações tipo clube pertencentes a condomínios aparentemente de dois edifícios, um na Avenida Oswaldo Cruz e o outro na Avenida Rui Barbosa (Edifício Residência). O edifício da Av. Oswaldo Cruz ergueu-se no terreno do antigo Palacete Martinelli e incorporou a área que esse palacete ocupava no morro, que incluía até uma capela, conforme informação de um morador do morro. A sudoeste (letra C) ficam as ruínas do reservatório e umas casinhas de uns moradores que ocupam aquela área há muitas décadas. São casas simples mas com acabamento, não são casas de tijolos aparentes como nas favelas. 

O morro ficava à beira-mar até que, no início da década de 1920, abriu-se a Avenida Rui Barbosa contornando o morro e ligando a Avenida Beira-Mar à Praia de Botafogo. Com a construção do Aterro do Flamengo na década de 1960 o morro afastou-se ainda mais do mar, como você pode conferir no mapa acima. O plano de construir um hotel e belvedere no morro nunca saiu do papel, e o morro acabou sendo cercado por prédios cada vez mais altos que taparam sua visão para quem está embaixo. Mesmo assim, do alto do morro, ainda se avista o Pão de Açúcar e Corcovado por algumas nesgas entre um prédio e outro.

O acesso ao reservatório se dá pela Travessa Acaraí, no início da Av. Oswaldo Cruz, altura da Praça Nicarágua, na Praia de Botafogo. Essa travessa não consta do Google Maps mas tem placa indicando (vide foto). No início da escadaria tem uma portinhola aparentemente fechada, mas você pode puxar o trinco que ela abre. O morro e as ruínas do reservatório são considerados "um dos grandes segredos da cidade" pelo guia RIO SECRETO de Manoel de Almeida e Silva, Marcio Roiter e Thomas Jonglez. No final desta postagem transcrevemos (em azul) o texto do guia referente ao morro.

Travessa Acaraí, no início da Av. Oswaldo Cruz, altura da Praça Nicarágua

Travessa Acaraí (placa)

Portinhola e escada de acesso ao Morro da Viúva no fundo da Travessa Acaraí (no. 127)

Escadinha de acesso ao morro 

Alto da escadinha, com reservatório em cima

Mais em cima, quase chegando 

Antigo Reservatório do Morro da Viúva, construído em 1891 por Antônio Gabrielli, com projeto dos engenheiros Jerônimo Jardim e Luiz Francisco Monteiro de Barros. Feito de alvenaria, o reservatório possui três compartimentos cobertos por abobadilhas (uma das quais vemos na foto), alimentados pela tubulação que sai do Reservatório de Pedregulho. O simpático morador de uma das casas me mostrou a área, contou que os moradores, que ocupam o espaço faz décadas, ocasionalmente sofrem tentativas de despejo, e disse que graças aos moradores o local está limpo e conservado.

Outra abobadilha

Para um bem tombado, poderia estar mais bem conservado

Entranhas do velho reservatório

O Morro da Viúva foi sendo cercado por prédios cada vez maiores

Do alto do morro, por algumas nesgas entre os prédios, dá para ver o Pão de Açúcar e Corcovado

Casas do moradores do "núcleo pobre". O núcleo rico são as instalações e piscinas dos condomínios dos prédios

Casa do  "núcleo rico" vista por sobre o muro



Completamente cercado por prédios altos, o Morro da Viúva é invisível a partir das ruas ao redor. Muitos cariocas nem sabem da sua existência. 

Apesar de alguns prédios terem construído acessos para o morro, com quadras de esporte e outros prazeres para os felizes privilegiados que moram nos prédios vizinhos, existe um meio oficial, público e secreto, para subir lá. No final da avenida Oswaldo Cruz, do lado de Botafogo, a viela chamada travessa Acaraí dá para uma pequena porta. Basta empurrá-la para abrir.

Não é preciso ter medo. Um comandante da polícia mora na esquina e o lugar é conhecido como sendo bastante seguro.

A impressão de chegar a um dos recantos realmente secretos da cidade é particularmente agradável para aqueles que gostam de exploração urbana e que têm verdadeiro prazer em subir os 195 degraus dessa escada que leva às ruínas de um antigo reservatório.

Construído por Antônio Gabrielle em 1891 para levar água potável aos bairros de Botafogo, Praia Vermelha e Leme, ele foi fechado em 1970 e parcialmente tombado em 1998. Hoje, abandonado, ele faz parte de um espaço onde vivem, modestamente, seis famílias, que terão prazer, na sua maioria, em fazê-lo descobrir o lugar que proporciona uma vista, através das árvores, para a praia do Botafogo, a Pedra da Gávea e o Corcovado, de um lado, e para o Pão de Açúcar, do outro.

13.8.18

IGREJA DE SÃO LOURENÇO DOS ÍNDIOS (1585)

Texto de Alexei Bueno da pág. 42 do livro PATRIMÔNIO CONSTRUÍDO: As 110 mais belas edificações do Brasil, da Capivara Editora


ORAÇÃO DE SÃO LOURENÇO: Ó Deus, que comunicastes o ardor da Vossa caridade ao diácono S. Lourenço e fizestes fiel no ministério e glorioso no martírio, fazei com que o vosso povo siga os seus ensinamentos e o imite no amor a Cristo e aos irmãos.

A igreja no dia da festa de São Lourenço

Em 22 de novembro de 1573, o chefe temiminó Arariboia – por batismo Martim Afonso de Souza – tomava posse da sesmaria, do outro lado da baía, que lhe fora doada cinco anos antes, por sua ajuda na expulsão dos franceses do Rio de Janeiro. Data daí o assentamento indígena de São Lourenço, origem da futura cidade de Niterói. Em 10 de agosto de 1585 foi inaugurada a ermida inicial, com a representação do auto de São Lourenço. O que se sabe de posterior são duas reconstruções, em 1627 e 1769, embora a igreja apresente todas as características de obra antiga. Com nave única, frontão triangular com óculo, portada de verga reta e três janelas também de verga reta, ladeada por uma pequena sineira com dois arcos plenos, reproduz muito de perto, em escala mais singela, o partido da Igreja de Santo Inácio do colégio do Rio de Janeiro (que você pode ver aqui), projetada pelo irmão Francisco Dias e desaparecida no vergonhoso arrasamento do Morro do Castelo nos anos 1920, assim como recorda o partido da grandiosa São Roque de Lisboa (aqui).



Com duas sacristias laterais, coro e capela-mor, é um exemplar típico do primeiro estilo jesuítico no Brasil. A praça em frente, totalmente descaracterizada, era a praça do aldeamento. Com a expulsão dos jesuítas, passou para a Mitra de Niterói, até ser desapropriada como monumento histórico da cidade, em 1915, pelo então prefeito de Niterói, Manuel Otávio de Souza Carneiro, fato absolutamente pioneiro e admirável para a época, mas que só se concretizou juridicamente em 1934.

capela-mor

coro

púlpito lateral

Passo XIII da Paixão

telhado sem forro

pia batismal

confessionário

Em seu interior, destaca-se o magnífico retábulo do altar-mor, muito próximo dos três retábulos da já mencionada Igreja de Santo Inácio do Rio de Janeiro, hoje conservados na Igreja de Nossa Senhora de Bonsucesso. É obra do final do século XVI ou início do XVII, das mais belas e importantes do Brasil nesse período, tendo passado recentemente por acurada restauração, assim como toda a igreja. Outro elemento de grande importância são os pisos de tijoleira muito antigos da capela-mor e da sacristia, com desenhos geométricos de evidente origem indígena, sem dúvida trabalho dos habitantes da extinta aldeia jesuítica.

magnífico retábulo maneirista (renascentista tardio) do altar-mor

Imagem de São Lourenço com a grelha, de origem portuguesa

São Lourenço

pintura de anjo à esquerda do altar-mor

trabalho de talha à esquerda do altar-mor, em estilo maneirista, que é o renascentista tardio, portanto anterior ao "rebuscamento" do barroco

anjos entalhados

pisos de tijoleira muito antigos da capela-mor, com desenhos em ziguezague (cobrinhas) feitos com os dedos dos índios aldeados e pegada de cachorro que pisou num deles quando secava ao sol, segundo informação de Alexei Bueno