1.1.19

DEFINIÇÃO DO CARIOCA (segundo HELIO BRASIL, PEDRO NAVA, MILLÔR FERNANDES, JOÃO ANTÔNIO, VINICIUS DE MORAES, DI CAVALCANTI, RICA PERRONE, ADRIANA CALCANHOTO, MILTON TEIXEIRA e o editor do blog)


SEGUNDO HELIO BRASIL

Ser CARIOCA não é nascer no Rio. Nem mesmo no Meyer, no Irajá ou nos confins da Barra. É ouvir o zumbido que fazem o fragor de ondas, as risadas e os gemidos dos quatro generosos cantos da paisagem, o Pico da Tijuca, as verdes encostas de um carrancudo jacaré que se amansa em Jacarepaguá. É respirar Leblon, ver a garota que passará por séculos e embalar-se na princesinha do mar. É ver praças Quinze, Mauá e Tiradentes em amável contradição histórica. Ser Carioca é ter o bum-bum esfolado em ônibus ruidosos mas, ao chegar no Sambódromo, vibrar na concretude de um alucinado Oscar que via nas montanhas as curvas de um sensual destino da caprichosa deusa que se fez cidade.




SEGUNDO PEDRO NAVA

Era dessas idas e vindas à Cidade, à Quinta, Cancela, ruas de São Cristóvão, Tijuca, Engenho de Dentro e Zona Sul – vendo, reparando e ouvindo o povo – que cada segunda-feira eu voltava para o Colégio mais penetrado dessa coisa sutil, rara, exquise, polimórfica indefinível (porque não é forma palpável e o que não tem de material, tem de luminosidade e perfume e vida) – que é o sentimento carioca, a alma carioca que nasce dessa paisagem, dessas ruas (oh! “A alma encantadora das ruas”), desses bairros ricos e pobres, sobretudo dos pobres, desses morros, dessa mistura de gente da terra, da do sul, do centro e do norte. Essas forças puxam para todos os lados mas sua resultante é tão forte que confere identidade a homens os mais diversos. Não há nada menos semelhante uns dos outros que Dante Milano, Álvaros, Prudente, Gastão Cruls, Marques Rebelo, Henriquinho Melo Moraes, Bororó, Di Cavalcanti, Luís Peixoto, Lima Barreto e Francisco Martorelli – esse mesmo que foi o doutor do samba, o que tirou seu anel, vestiu sua camisa listrada e saiu por aí. Entretanto se formos despojando esses homens e reduzindo-os a uma espécie de mínimo múltiplo comum, de redução de decimais a ordinárias, vamos encontrar em todos – um quid especial que é a essência do carioca. que será isso? Como se preparará essa teriaga de qualidades e defeitos onde os principais simples são alegria de viver, dor-de-corno, bloco, clube, carnaval, trepadinha, esporte, ingenuidade, improvisação, boato, jeitinho, tirar o máximo de tudo, não dar sopa, eu? hem... aparar o golpe, estar na sua, saber sua gíria, ser um pouco cafajeste ou pelo menos ter a infinita compreensão da cafajestada como arte e estado de graça. Impossível definir o que é que o carioca tem.




SEGUNDO MILLÔR FERNANDES

Os paulistanos(!) que me perdoem, mas ser carioca é essencial. Os derrotistas que me desculpem, mas o carioca taí mesmo pra ficar e seu jeito não mudou. Continua livre por mais que o prendam, buscando uma comunicação humana por mais que o agridam, aceitando o pão que o diabo amassou como se fosse o leite da bondade humana. O carioca, todos sabem, é um cara nascido dois terços no Rio e outro terço em Minas, Ceará, Bahia, e São Paulo, sem falar em todos os outros Estados, sobretudo o maior deles o estado de espírito. Tira de letra, o carioca, no futebol como na vida. Não é um conformista  mas sabe que a vida é aqui e agora e que tristezas não pagam dívidas. Sem fundamental violência, a violência nele é tão rara que a expressão "botei pra quebrar" significa exatamente o contrário, que não botou pra quebrar coisa nenhuma, mas apenas "rasgou a fantasia", conseguiu uma profunda e alegre comunicação  numa festa, numa reunião, num bate-coxa, num ato de amor ou de paixão  e se divertiu às pampas. Sem falar que sua diversão é definitivamente coletiva, ligada à dos outros. Pois, ou está na rua, que é de todos, ou no recesso do lar, que, no Rio é sempre, em qualquer classe social, uma open-house, aberta sob o signo humanístico do "pode vir que a casa é sua".

Carioca, é. Moreno e de 1,70 metro de altura na minha geração, com muitos louros de 1,80 metro importados da Escandinávia na geração atual, o carioca pensa que não trabalha. Virador por natureza, janota por defesa psicológica, autocrítico e autogozador não poupando, naturalmente, os amigos e a mãe dos amigos  ele vai correndo à praia no tempo do almoço apenas pra livrar a cara da vergonhosa pecha de trabalhador incansável. E nisso se opõe frontalmente ao "paulista", que, se tiver que ir à praia nos dias da semana,vai escondido pra ninguém pensar que ele é um vagabundo.

Amante de sua cidade, patriota do seu bairro, o carioca vai de som (na música), vai de olho (é um paquerador incansável e tem um pescoço que gira 360 graus), vai de olfato (o odor é de suprema importância na fisiologia sexual do carioca).

Sem falar, que, em tudo, vai de espírito; digam o que disserem, o papo, invenção carioca, ainda é o melhor do Brasil, incorporando as tendências básicas do discurso nacional: o humanismo mineiro, o pragmatismo paulista, a verborragia baiana.

E basta ouvir pra ver que o nervo de todas as conversas cariocas, a do bar sofisticado como a do botequim pobre e sujo, por isso mesmo sofisticadíssimo, a do living-room granfa, a da cama (antes e depois), é o humor, a crítica, a piada, a graça, o descontraimento. Não há deuses e nada é sagrado no Olimpo da sacanagem. O carioca é, antes de tudo, e acima de tudo, um lúdico. Ainda mais forte e mais otimista do que o homem da anedota clássica que, atravessado de lado a lado por um punhal, dizia: "Só dói quando eu rio", o carioca, envenenado pela poluição, neurotizado pelo tráfego, martirizado pela burocracia, esmagado pela economia, vai levando, defendido pela couraça verbal do seu humor.





SEGUNDO JOÃO ANTÔNIO

Carioca, carioca da gema seria aquele que sabe rir de si mesmo. Também por isso, aparenta ser o mais desinibido e alegre dos brasileiros. Que, sabendo rir de si e de um tudo, é homem capaz de se sentar ao meio-fio e chorar diante de uma tragédia. O resto é carimbo.

Minha memória não me permite esquecer. O tio mais alto, o meu tio-avô Rubens, mulherengo de tope, bigode frajola, carioca, pobre, porém caprichoso nas roupas, empaletozado como na época, impertigado, namorador impenitente e alegre e, pioneiro, me ensinar nos bondes a olhar as pernas nuas das mulheres e, após, lhes oferecer o lugar. Que havia saias e pernas nuas nos meus tempos de menino.

Folgado, finório, malandreco, vive de férias. Não pode ver mulher bonita, perdulário, superficial e festivo até as vísceras. Adjetivação vazia... E só ideia genérica, balela, não passa de carimbo [carimbo no sentido de estereótipo].

Gosto de lembrar aos sabidos, perdedores de tempo e que jogam conversa fora, que o lugar mais alegre do Rio é a favela. E onde mais se canta no Rio. E, aí, o carioca é desconcertante. Dos favelados nasce e se organiza, como um milagre, um dos maiores espetáculos de festa popular do mundo, o Carnaval.

O carimbo pretensioso e generalizador se esquece de que o carioca não é apenas o homem da Zona Sul badalada — de Copacabana ao Leblon. Setenta e cinco por cento da população carioca moram na Zona Centro e Norte, no Rio esquecido. E lá, sim, o Rio fica mais Rio, a partir das caras não cosmopolitas e se o carioca coubesse no carimbo que lhe imputam não se teriam produzido obras pungentes, inovadoras e universais como a de Noel Rosa, a de Geraldo Pereira, a de Nelson Rodrigues, a de Nelson Cavaquinho... Muito do sorriso carioca é picardia fina, modo atilado de se driblarem os percalços.





SEGUNDO VINICIUS DE MORAES

O que é ser carioca? É ter nascido no Rio de Janeiro. Sim, é claro, e também não. Não porque ser carioca é antes de tudo um estado de espírito. Ser carioca é uma definição de personalidade. [...] Porque ser carioca, mais ainda que ser parisiense, é sentir-se perfeitamente integrado com a sua cidade e o seu meio; é portar roupas como um carioca; é saber das coisas antes que elas sejam ditas; é detestar trabalhar (mas trabalhar); é adorar flanar e bater papo no meio de milhões de compromissos; é acreditar que tudo se arranja (e arranja mesmo); é ser portador não de acidez, mas de certa adstringência como a dos cajus; é gostar de estar sempre chegando e não querer nunca ir embora; é ter ritmo em tudo para tudo; é ter em alta dose o senso do ridículo e da oportunidade; é gostar de gente mesmo falando mal; é gostar de banho de chuveiro; é amar todas as coisas que maldiz; é saber conhecer outro carioca no estrangeiro, só pelo modo de andar e de vestir-se. Isso é ser carioca. E a maior felicidade é que ao carioca foi dado para amar, desamar, exaltar, trair e ser escravo um outro ser cuja graça é indefinível: a mulher carioca.





SEGUNDO DI CAVALCANTI

Todos os dramas, os mais terríveis, o carioca pode enquadrá-los numa janela aberta para um céu de estrelas.

O Rio de Janeiro tem coisas de que é impossível qualquer pessoa se desligar. Mesmo recebendo gente de toda parte, a cidade não consegue ser cosmopolita. Qualquer estrangeiro se torna carioca em pouco tempo.

O Rio de Janeiro exerce o milagre da esperança e todos que aqui vivem ressuscitam de hora em hora, sentindo na boca o gosto salgado de um novo batismo.

Ser autêntico carioca é possuir a dignidade de existir sem ambições supérfluas. É bastar-se a si mesmo, na certeza de ser um privilegiado do destino.

Deus deu o alimento sonho ao carioca.





SEGUNDO RICA PERRONE

Carioca exagera tudo, pra baixo e pra cima. Se elogiar a praia, ele exalta dizendo que é “a melhor praia do mundo”. Se falar que é perigoso, ele não nega. Diz que é “perigoso pra caramba”.

Trata sua cidade como filho. Só ele pode falar mal.

Cariocas não marcam encontro. Simplesmente se encontram.

A confirmação de um convite aqui não quer dizer nada. Você sugere “Vamos?”, eles dizem “Vamo!”. O que não implica em ter aceitado a sugestão.

Hora marcada no Rio é “por volta de”. Domingo é domingo. E relaxa, irmão. Pra que a pressa?

Em 5 minutos são amigos de infância, no segundo encontro te abraçam e já te colocam apelidos.

Não te levam pra casa. Te convidam pra rua. É curioso. Mas é que a “rua” aqui é tão linda que se trancar em casa é desperdício.

Cariocas andam de chinelo e não se julgam por isso. São livres, desprovidos de qualquer senso de sofisticação.

Ao contrário, parecem se sentir mal num ambiente formal e de algum requinte.





SEGUNDO ADRIANA CALCANHOTO


Cariocas são bonitos.
Cariocas são bacanas.
Cariocas são sacanas.
Cariocas são dourados.
Cariocas são modernos.
Cariocas são espertos.
Cariocas são diretos.
Cariocas não gostam de dias nublados.
Cariocas nascem bambas.
Cariocas nascem craques.
Cariocas têm sotaque.
Cariocas são alegres.
Cariocas são atentos.
Cariocas são tão sexys.
Cariocas são tão claros.

Cariocas não gostam de sinal fechado...





SEGUNDO MILTON TEIXEIRA

Adão e Eva eram cariocas. Não tinham o que comer, não tinham o que vestir, não tinham onde morar, não tinham um governo visível, não obedeciam a lei e achavam que estavam no Paraíso.






SEGUNDO O EDITOR DESTE BLOG



Carioca é aquilo que o paulistano não é. No bom e no mal sentido, porque São Paulo é uma espécie de locomotiva do Brasil (e, surpreendam-se, vou me mudar para lá em breve). Você anda pelas ruas paulistanas num dia e horário útil e está todo mundo apressado. Mesmo quem não está finge que está pra não destoar. Já no Rio tem sempre alguém flanando, alguém pegando uma praia, alguém de bermuda e chinelos mesmo no Centro da cidade onde teoricamente deveria estar todo mundo trabalhando. Carioca adora se reunir em torno de uma churrasqueira (a churrasqueira é uma espécie de altar do carioquismo contemporâneo) – que pode estar num quintal, na calçada diante de um bar, até num parque, numa praia, num beco, numa viela – e jogar conversa fora enquanto esvazia uma garrafa de cerveja depois da outra (depois da saideira vem outra saideira). Paulistano prefere um bom restaurante, confeitaria, cantina. Todo fim de semana rola alguma feijoada regada a samba em alguma escola de samba Rio afora (além do Cacique de Ramos) confirmando a visão predominante mundo afora de que o Rio é a cidade mais feliz do mundo (de fato, o Rio ficou em primeiríssimo lugar, no Índice Anholt-GfK Roper City Brands, divulgado em junho de 2009, das cidades mais felizes do mundo). Existe o mito do carioca inimigo do trabalho, aquele sambinha do “segunda-feira não vou trabalhar, na terça não vou pra poder descansar, na quarta preciso me recuperar...”, desmentido pelo PIB fluminense, o segundo maior do país – quem não trabalha não gera PIB. Aliás quem demonstra à perfeição o espírito trabalhador (!) do carioca são os garis da Comlurb, sempre dispostos, sempre a postos, se num domingo de sol a população emporcalha a praia, no final do dia o entulho é todo recolhido. O hábito carioca de chiar o s pode parecer esquisito, mas o Rio foi por muito tempo a capital da colônia, e esse s chiado não passa de um resquício do mais castiço português lusitano. E finalmente, no Rio você vê mendigos felizes (última foto abaixo), algo raríssimo em outras metrópoles. São muitas as peculiaridades do carioca, difícil captar sua essência – como é difícil captar qualquer essência, Platão que o diga – mas de uma coisa estejam certos: na Internet o que melhor capta a carioquice é este meu modesto blog que desde 2005 mostra o que o Rio tem de melhor. E se em meu texto não sou tão eloquente quanto um Nava, um Helio Brasil, um Vinicius, compenso essa minha deficiência com as fotografias. Essas sim, acredito terem captado a essência do carioca! Obrigado por visitarem meu blog e voltem sempre... sempre... sempre...




31.12.18

ADEUS 2018/FELIZ 2019!

5:47 da madrugada

COM ESTAS FOTOS DO AMANHECER EM COPACABANA

5:50

LITERATURA & RIO DE JANEIRO, O BLOG DE QUEM ADORA A CIDADE MARAVILHOSA,

5:54

DESPEDE-SE DE 2018

5:55

DESEJANDO AOS AMIGOS

5:58

UM FELIZ ANO NOVO

6:05

E CONTINUEM NOS VISITANDO

6:09

QUE SEMPRE TEREMOS NOVAS SURPRESAS!


6:17 - De novo a luz venceu as trevas

17.12.18

RELEMBRANÇAS DE NATAL, de ANTÔNIO RIBEIRO DE ALMEIDA



A primeira lembrança que me vem do Natal é de chuva, muita chuva. Mamãe me colocara de pé numa janela de vidro e eu olhava a chuva que caía, caía e parecia que não queria acabar mais. Gostava de ouvir o tamborilar das gotas que batiam contra o vidro da janela e produziam uma sinfonia de sons. Na rua de terra, ela formava enxurradas que corriam e carregavam pedacinhos de pau, formigas, folhas e um capim verde.Em seguida, apareciam rodamoinhos no qual estas coisas desapareciam num pequeno sorvedouro. Mamãe me dizia para olhar em direção à usina de açúcar porque logo meu pai iria chegar para o jantar. Ele viria na sua bicicleta e não temia molhar-se com a chuva que caía. Era um homem forte e decidido. Com a bicicleta, ele ia e voltava para o trabalho pedalando muitos quilômetros. Certamente, olharia lá de baixo para o sobrado onde morávamos e me veria na janela à sua espera. Naquela tarde, mamãe corrigira várias cartas que eu e os meus irmãos escrevêramos para Papai Noel e que iríamos colocar dentro dos nossos sapatos, atrás da porta. Eu me lembro de que gostaria de pedir uma bicicleta. Mamãe dissera, contudo, que a bicicleta era muito pesada e que Papai Noel, velhinho, não tinha mais forças para carregá-la. Na inocência da minha infância, eu não sabia que aquela era uma amorável mentira para que eu não percebesse que meu pai, na sua pobreza, não tinha como comprar uma bicicleta para mim. Ela sugeriu, então, que eu pedisse um livro e um papagaio para empinar. O livro que escolhi foi a Geografia de Dona Benta de Monteiro Lobato, e, com ele, aprendi que o mundo era grande e bem maior do que Rio Branco. Pelo poder da imaginação viajei com Dona Benta, Tia Anastácia, Pedrinho e o Visconde de Sabugosa a bordo do “Terror dos Mares”. Papai Noel permitira que meu pai escrevesse uma dedicatória para mim. E ela lá estava: “Meu filho, neste livro você encontrará respostas às perguntas que vive me fazendo e boa viagem”. Em certo sentido, ele estava sendo profético. Adulto, voei sobre o Oceano Pacífico a bordo de um Boeing e embaixo, no azul do mar, navegava o “Terror dos Mares” da minha infância. Naquela noite de 24 de dezembro fui dormir cedo. Antes comi um pedaço de bolo de farinha de trigo com uma xícara de chá.

No dia de
Natal nós encontramos sobre os nossos sapatos o livro, o papagaio com a máquina e linha, e os meus irmãos os presentes que haviam pedido. Meu papagaio era azul e no seu centro havia uma linda estrela. O dia estava claro e a chuva passara. Saímos à rua do nosso bairro do Capim Cheiroso e fomos ver o que os outros meninos ganharam do velho Noel. As meninas sentaram numa escadinha e falavam das suas bonecas. Algumas as penteavam e mudavam os seus penteados. Cuidaram também de lhes dar um nome e para isto marcaram a tarde para o batizado e me convidaram para ser o padre. Eu logo procurei empinar o meu papagaio para a alegria dos meus amigos da rua. Ele foi subindo devagar e com uma lufada de vento ganhou as alturas e ficou mais alto do que a chaminé da usina de açúcar. Não temi e fui lhe dando linha para que ganhasse as nuvens. De repente, sem que esperasse, a linha arrebentou, e, livre, o papagaio foi ganhando mais altura até sumir dos meus olhos cheios de lágrimas. Fora feito para voar e não queria, pensei, voltar a terra. Triste, fui contar à mamãe que procurou consolar-me ao dizer-me: "Não se importe, meu filho. Ele foi para o céu onde mora o Menino Jesus". Naquela tardinha, ela nos levou ao presépio da Matriz para que visitássemos o Menino Jesus. Ao olhá-lo, eu não compreendi como ele morava no céu se, naquela noite, descera à terra dos homens. Moraria nos dois lugares? Será que ele vira e guardara o meu papagaio? Perguntei à minha mãe. E ela, que tudo sabia, me disse que Jesus viera a terra por pouco tempo. Que Ele voltaria logo para o céu e que meu papagaio estava bem guardadinho à espera do dia que eu também fosse ao encontro de Jesus.


Texto extraído do livro Contos do Entardecer de Antônio Ribeiro de Almeida.

1.12.18

UM CHUTE, de RUBEM BRAGA

CRÔNICA PUBLICADA ORIGINALMENTE NA REVISTA MANCHETE DE 28 DE NOVEMBRO DE 1953


Circulo um pouco pela cidade [cidade no sentido de Centro da cidade], de manhã, resolvo umas coisas mais ou menos cacetes. E de repente, na Esplanada do Castelo, reparo nesta coisa simples: estou feliz.

Não me acontece nada de especial; minha felicidade é gratuita, deriva destas coisas simples: o céu está azul, o sol está louro, eu estou andando na rua. Meu sapato é confortável, minha roupa está limpa, meu corpo está bem.

Passa uma menina com uma fita nos cabelos; em um terreno livre há um grupo de mecânicos que aproveitam a hora do almoço para um bate-bola. A bola vem para o meu lado; devolvo-a com um chute, e meu chute é certo, e é saudado com um “oba!” por um dos homens de macacão, que pega a bola com a cabeça. Estou definitivamente feliz. Meus problemas de dinheiro, minhas tristezas, minhas aflições, nada tem importância. Posso amar a quem não me liga, fazer o que me desgosta, não fazer o que queria – mas neste momento sou apenas um animal feliz; o dia está lindo e eu estou andando com prazer de andar. Sou um animal feliz. E meu chute foi bonito.

Passa um navio branco, muito grande, bojudo

Passa um navio branco, muito grande, bojudo; vem do sul. Com certeza vai entrar na baía. Vai entrar todo de branco, abrindo asas de branca espuma, desenrolando no ar, como um penacho feliz, um rolo de fumaça branca. O convés está cheio de gente que olha as praias, o casario, as montanhas. Sede felizes! Este é o desejo íntimo que nos dá, dizer a esses forasteiros que pela primeira vez entram em nossa baía, entre as montanhas azuis; dizer alto: aqui é o Rio de Janeiro, é a nossa bela cidade; é para vós que ela hoje brilha ao sol; sede felizes!

E ter inveja dos que chegam pela primeira vez, vindos do mar, ao Rio de Janeiro.

debruçados sobre as fotografias em cores

Porque em nossa infância, no interior, não se dizia: Rio. Foi de repente que surgiu essa moda, as pessoas que vinham e voltavam dizia apenas com intimidade – Rio.

Mas nós, debruçados sobre as fotografias em cores e os presentes que nos levavam, nós dizíamos, com ar de sonho e um tom de respeito: Rio de Janeiro.

23.11.18

IMAGENS DO RIO ANTIGO: EDUARD HILDEBRANDT, EDUARDO CAMÕES, AUGUSTO MALTA, MARC FERREZ, GEORGES LEUZINGER, DEBRET, FRANZ GRASSER, GUTA, JUAN GUTIERREZ, THOMAS ENDER, LEANDRO JOAQUIM, TAUNAY, ALFRED MARTINET & RICHARD BATE

EDUARD HILDEBRANDT

Eduard Hildebrandt (1818-1868) foi um pintor de paisagens alemão (prussiano) que fez inúmeras viagens mundo afora bancado pelo rei da Prússia e produziu uma enormidade de aquarelas e pinturas. Chegou no Rio de Janeiro em fins de março de 1844 e após percorrer e desenhar os recantos mais pitorescos da cidade e arredores, partiu em junho para São Paulo, donde voltou em julho, seguindo viagem em fins de agosto para o Salvador e Recife, prosseguindo depois para a América do Norte. Recebeu de D. Pedro II o título de Cavaleiro da Ordem da Rosa. "Em tão rápida estadia, produziu uma das mais belas e valiosas coleções de vistas do Brasil colonial. Se não têm a fama do Debret e Rugendas, não perdem em nada com relação à qualidade técnica e principalmente poética de suas narrativas", diz o pintor José Rosário em artigo sobre Hildebrandt publicado em seu blog. Mais informações no seu verbete da Wikipedia que criei. A seguir três aquarelas suas de 1844 que obtive no site do Museu Nacional de Berlim (aqui).


Lagoa Rodrigo de Freitas com os Dois Irmãos atrás

Baía da Guanabara, Igreja da Glória e Pão de Açúcar vistos de Santa Teresa

Igreja de Santa Rita, com a zona armada pelos escravos junto ao chafariz – dá até para ouvir a algazarra - e do outro lado a bandeira do Divino. Ao fundo a igreja de São Pedro dos Clérigos, criminosamente demolida para a construção da Av. Presidente Vargas.

EDUARDO CAMÕES

Se existe algo que se aproxima da máquina do tempo, é a arte de Eduardo Camões, que reconstitui um Rio de Janeiro que já não existe mais. Na Introdução ao belo livro de Camões Rio Antigo — Old Rio, Ivan Horácio Costa conta como foi que o pintor (que fizera incursões pelas marinhas, pelo hiper-realismo etc.) resolveu dedicar-se ao tema do Rio de outrora: "Em uma livraria de Brasília, tipo ‘sebo’, descobre alguns livros antigos sobre o Rio de Janeiro e, estranhamente, sente saudades, não só do mar e nem só do Rio, mas de toda uma nostálgica época passada que lhe parece inteiramente familiar! Toma, então, a resolução de voltar para o Rio e registrar, através de sua pintura, as imagens que seus bisavós, avós e pais haviam conhecido..."

Conheça melhor esse notável retratista do Rio Antigo visitando o seu site.



Aqueduto da Carioca em 1875

Ipanema, Leblon e Lagoa em 1904

Rua Jardim Botânico em 1880

Lagoa em 1871

Enseada de Botafogo em 1820

AUGUSTO MALTA

Augusto César Malta de Campos (1864-1957) foi fotógrafo oficial da Prefeitura do então Distrito Federal, nomeado por Pereira Passos.

De 1903 a 1936, documentou um período de notáveis transformações urbanísticas e arquitetônicas na cidade, acompanhando as grandes remodelações do Rio de Janeiro de seu tempo, como o desmonte do Morro do Castelo, a abertura da Av. Central, a Exposição Nacional de 1908 e a Exposição Internacional de 1922, em comemoração ao Centenário da Independência do Brasil.

Malta também registrou a execução e a inauguração de obras públicas, monumentos, prédios históricos, carnavais antigos, os corsos e as batalhas de flores, flagrantes do momento, o surgimento das favelas, notícias e acontecimentos da época, em obra de inestimável valor histórico para a preservação da memória da cidade.
(Texto obtido no site do Museu da Imagem e do Som. Uma dica: você achará um bom acervo de fotos de Malta e outros fotógrafos na Biblioteca Nacional Digital e no site do Instituto Moreira Salles.)



Vista Chinesa em 1906

Bairro da Glória. Observe o relógio da Glória, estátua de Pedro Álvares Cabral, chaminé da City (esquerda), Igreja da Glória e o Pão de Açúcar ao fundo.

Morro do Castelo, mais tarde demolido
(no seu lugar estende-se a Esplanada do Castelo, repleta de prédios)

Av. Atlântica na altura do Leme em 1921. Em frente a Pedra do Leme. 

Palácio Monroe

Chafariz das Saracuras, no Convento da Ajuda, no local que depois se tornaria a Cinelândia, demolido em 1911. O chafariz encontra-se na Praça General Osório, Ipanema.

Avenida Vieira Souto em 1911

Igrejinha de Copacabana na pedra onde depois se ergueu o Forte de Copacabana

Igrejinha de São Cristóvão então a beira-mar (hoje nem se vê o mar de lá)

Vista aérea em 1906, vendo-se Botafogo, Urca e a entrada da baía

Avenida Delfim Moreira (Praia do Leblon) em 1906

Rua Real Grandeza com o Cemitério São João Batista à direita (1910)

Túnel Velho, ligando Copacabana a Botafogo, em 1930

No alto do Corcovado em 1906

Trecho da rua dos Ourives (atual Miguel Couto) entre a rua da Alfândega e do Hospício (atual Buenos Aires)

Avenida Rio Branco

Quiosque na rua Frei Caneca (1906)

MARC FERREZ

Marc Ferrez nasceu no Rio de Janeiro em 1843, apenas quatro anos após a fotografia ser inventada oficialmente por Louis Daguerre, na França. No início da década de 1860 começou a fotografar. Em 1867, abriu seu próprio estabelecimento, no Rio. Em 1870, se tornou fotógrafo da Marinha Imperial.

A produção de Ferrez se torna histórica e mais intensa a partir de 1875, quando passa a trabalhar na Comissão Geológica do Império, o que o leva a viajar pelo Brasil. Ferrez constitui a partir daí o acervo mais rico de imagens do Brasil, sem paralelo com outros fotógrafos.
(Eder Chiodetto, Folha de São Paulo de 13/11/2006.)


Baie de Botafogo. Enseada de Botafogo. (1890)

Vue topografique de Botafogo. Vista topográfica de Botafogo. (1890)

Aqueduto da Carioca transformado em viaduto para bondes, foto de 1896

Botafogo na década de 1870 (observe o Corcovado ao fundo, sem o Cristo!)

Escola Militar da Praia Vermelha e Pão de Açúcar
(sem o bondinho!) em torno de 1885

Real Gabinete Português de Leitura (existente até hoje) em 1895 com o bonde puxado a burro em frente

Rua São Clemente em foto de cerca de 1885 com o Corcovado ao fundo. Hoje está cheia de prédios!

Igreja da Ordem Terceira de N. S. do Carmo na atual Praça XV (foto de cerca de 1880); atrás a Igreja de N. S. do Carmo da Antiga Sé ainda sem a torre alta acrescida em 1905 e mais ao fundo o Convento do Carmo.

FAMÍLIA FERREZ

Ícone da fotografia nacional, Marc Ferrez (1843-1923) deixou um legado de belíssimos retratos do Brasil. Sua obra foi continuada pelos filhos Luciano (1884-1955) e Júlio (1881-1946) e pelo neto Gilberto (1908-2000), numa produção que resultou em 8 000 negativos doados pela família ao Arquivo Nacional. Parte desse patrimônio foi exposto no Centro Cultural Banco do Brasil no início de 2008 na exposição Família Ferrez: Novas Revelações e reunido num livro com este nome. As fotos a seguir foram dessa exposição.


Luciano Ferrez: Ressaca na Praia da Glória (praia esta que, com o Aterro do Flamengo, deixou de existir)

Luciano Ferrez: Praia de Ipanema em 1945

Luciano Ferrez: Lapa vista do Morro de Santo Antônio

Luciano Ferrez: Cinelândia (observe o Palácio Monroe ao fundo)

Júlio Ferrez: Pedra do Arpoador em 1918

Júlio Ferrez: Desmonte do Morro do Castelo. Observe a Igreja de Santa Luzia, que existe até hoje, mas longe, bem longe do mar!

GEORGES LEUZINGER

Durante a década de 1860, este suíço radicado na capital do Império desde 1832 realizou um trabalho sistemático de documentação fotográfica do Rio de Janeiro. Incluindo cenas urbanas, vistas de Niterói, da Serra dos Órgãos e de Teresópolis, suas paisagens e panoramas surgiam apenas duas décadas depois da invenção da daguerreotipia — fazendo do artista não apenas um dos pioneiros dessa atividade no Brasil, ao lado de Augusto Stahl, Revert Henry Klumb e, mais tarde, Marc Ferrez, mas um de seus grandes inovadores no século XIX. (Texto extraído do folheto da exposição "Georges Leuzinger: Um pioneiro do século XIX".)



Chafariz do Mestre Valentim e (ao fundo, da esquerda para a direita) Convento do Carmo, Igreja de N. S. do Carmo e Igreja de N.S. do Carmo da Antiga Sé, ainda existentes na atual Praça 15 de Novembro

Lagoa Rodrigo de Freitas e (ao fundo, da esquerda para a direita) Morro Dois Irmãos, Pedra da Gávea e outras montanhas, em torno de 1866

Dedo de Deus, Teresópolis

Igreja de Santa Luzia, Rio de Janeiro, em torno de 1865 (atualmente situada na Avenida Presidente Antônio Carlos, a igreja ficou distante do mar)

Praia de Botafogo (1865)

Vista Chinesa

Pedra da Itapuca na Praia de Icaraí, Niterói. Observe o Pão de Açúcar (esquerda) e Corcovado (direita) atrás.

Praia da Saudade, onde hoje fica o Iate Clube, e Hospício D.Pedro II, onde esteve internado Policarpo Quaresma e que hoje abriga instalações da UFRJ (1867)

Praça da Constituição, atual Praça Tiradentes, com a estátua de Dom Pedro I que está lá até hoje (1865)

Botafogo (1876)

Largo dos Leões (incluí esta foto em homenagem ao meu amigo Márcio Steinbruch e à poetisa Thereza Noronha, que moram lá. Só que hoje o largo está bem mais "modernizado"!)

JEAN-BAPTISTE DEBRET

Um dos primeiros artistas (se não o primeiro) a retratar o Rio de Janeiro (e o Brasil) foi o pintor, desenhista e gravurista francês Jean-Baptiste Debret, que integrou a Missão Artística Francesa que desembarcou por estas plagas em 1816. Debret permaneceu por aqui até 1831 e de volta a Paris publicou sua Viagem Pitoresca e Histórica ao Brasil, da qual fazem parte as gravuras abaixo. Um bom acervo da obra de Debret pode ser achado na Biblioteca Nacional Digital.


Entrada da Baía da Guanabara

Largo do Paço, atual Praça XV, com o chafariz do Mestre Valentim e o cais (recentemente desencavado por arqueólogos urbanos  você pode ir lá ver) na frente 

Vista da Igreja da Glória. Observe os Arcos à esquerda e o Morro do Castelo no centro-direita.

Vista do Mosteiro de São Bento

FRANZ GRASSER

Grasser nasceu em 1911 em Bad Wörishofen, Alemanha. Aprendeu a profissão de fotógrafo com seu tio Othmar Rutz, que dirigia uma loja de fotografia e souvenires em St. Moritz, Suíça. De 1936 a 1939, Grasser trabalhou em navios de várias empresas de navegação, viajando por  diversos países, principalmente na América do Sul. São desta época as fotos cariocas abaixo. Com o início da Segunda Guerra Mundial, os navios de passageiros alemães deixaram de circular e Grasser perdeu seu emprego. Em 1942 foi convocado para o exército e em 1944 morreu como prisioneiro de guerra em Novorossiysk, nas margens do Mar Negro. Fotos obtidas no site Deutsche Fotothek.

Pão de Açúcar visto da Praia de Botafogo

Avenida Rio Branco e o Centro vistos do Edifício A Noite. Observe a Candelária no centro-esquerda em meio aos prédios, antes da abertura da Av. Presidente Vargas.

Praia de Copacabana

Entrada da barra com Pão de Açúcar e Corcovado

Palácio Monroe

Vista do Corcovado com o hipódromo em construção, que Grasser achou que fosse um aeroporto, como vemos na legenda da foto no site Deutsche Fotothek

CARLOS GUSTAVO NUNES PEREIRA, o GUTA

Nascido em 1952 na Cidade do Rio de Janeiro, Carlos Gustavo Nunes Pereira, mais conhecido como Guta, foi artista gráfico e designer de grande valor. Dotado de uma apurada visão artística, Guta foi um dos precursores da arte fotorrealística publicitária no Brasil, desenvolvendo trabalhos para as maiores empresas mundiais. Guta produziu obras de grande reconhecimento ao longo de sua vida quando deu iní­cio ao projeto que veio a se tornar uma de suas grandes paixões, o trabalho da evolução urbana, arquitetônica e cultural da cidade do Rio de Janeiro. Desde 1988 desenvolveu a série de livros e posters intitulada "Um Passeio no Tempo", onde apresenta, por meio de imagens hiperrealistas, a evolução urbaní­stica do Rio de Janeiro desde os seus primeiros anos até os dias de hoje, focalizando pontos de importância histórica de seus cenários mais significativos. Em 1988 lançou as séries "Praça XV 1580 - 1988" e "Arcos da Lapa 1755- 1988". Mais tarde, acompanhando o desenvolvimento da tecnologia digital, Guta lançou as séries "Largo da Carioca, um passeio no tempo, 1608 - 1999", "O Porto do Rio 1608 - 2002", "Copacabana 1893 - 2008", "Quinta da Boa Vista 1808 - 2008", "Cinelândia 1608 - 2008" e "Praça Mauá 1820 - 2008", dando assim continuidade ao elaborado projeto que revela cenas e fatos do cotidiano carioca desde os tempos de seu descobrimento. Guta faleceu em 2012. Fotos abaixo da série de quatro pranchas Copacabana: Um passeio no tempo. Dados obtidos no texto do decreto do vereador Edison da Creatinina que dá o nome do artista a um logradouro público.


Copacabana 1893. "Chamada de Sacopenapan pelos índios tupinambá, a Copacabana original era uma vasta planície arenosa de vegetação típica de restinga." 

Copacabana 1927. "A partir de 1892, a abertura do Túnel Velho e a inauguração da primeira linha de bondes finalmente tornaram possível a ocupação do bairro."

Copacabana 1956. "A ocupação do bairro se acelerou fortemente a partir dos anos 1940."

Copacabana 2007. "No início dos anos 1970, [a Avenida Atlântica] foi alargada e duplicada." Textos extraídos do livreto que acompanha a coleção de quatro pranchas de Copacabana que comprei na Livraria Pereira Passos. Talvez ainda tenham em estoque.

JUAN GUTIERREZ

O espanhol Juan Gutierrez fixou-se no Rio de Janeiro por volta de 1880 e tornou-se fotógrafo da Casa Imperial no último ano do Império. Documentou a "Revolta da Armada" (1893/94), retratando as fortificações, os soldados e o armamento utilizado. Suas lentes captaram, ainda, vistas de vários bairros da antiga cidade do Rio de Janeiro, reproduzindo seus panoramas, arquitetura e cotidiano. Morreu na Guerra de Canudos em 1897. As fotos abaixo, de 1894, foram obtidas na Biblioteca Nacional Digital. Um bom conjunto de fotos de Gutierrez pode ser visto no site do Museu Histórico Nacional.

Praia de Botafogo e Corcovado. Observe que a Igreja da Imaculada Conceição de 1881, que na época se destacava das demais construções, hoje está "escondida" por um viaduto. 

Praia de Copacabana em 1894. Sem prédios!

Pavilhão do Corcovado (onde hoje se ergue o Cristo) e Pedra da Gávea atrás.

Inauguração da estátua do General Osório na Praça Dom Pedro II, atual Praça XV. Observe que a Igreja do Carmo, então catedral, ainda não tinha a torre alta acrescentada no início do séc. XX.

Palácio Itamaraty. Está lá até hoje.

Vista do Morro do Pasmado (onde depois se formou uma favela, erradicada nos anos 60, dando lugar a um mirante pouco conhecido mas que vale a pena visitar). No primeiro plano a então Praia da Saudade, onde hoje fica o Iate Clube. Atrás, a Escola Militar, Morro da Urca e Pão de Açúcar. O bairro da Urca, resultante de um aterro, ainda inexistia.

Vista do Corcovado

THOMAS ENDER

Pintor, aquarelista, gravador e desenhista, o austríaco Thomas Ender estudou na Academia de Belas Artes de Viena, dedicando-se à pintura de paisagens a aquarela. Em 1817, veio ao Brasil na Expedição Científica de História Natural que acompanhou a comitiva austríaca, por ocasião do casamento da arquiduquesa Leopoldina com D. Pedro I. Em sua curta estada de dez meses, pintou panoramas do litoral e cenas urbanas; retratou igrejas, edifícios públicos e praças. Apesar de executar pouco mais de 700 obras sobre o Brasil, não produziu nem publicou um álbum com esse material. No entanto, algumas de suas criações aparecem em livros de cientistas naturalistas da época. Esse conjunto de obras está conservado na Academia de Belas Artes em Viena. (Informações obtidas na Enciclopédia Itaú Cultural. Imagens obtidas na Biblioteca Nacional Digital, exceto as três pinturas a óleo iniciais, a primeira obtida no Warburg - Banco Comparativo de Imagens e as duas seguintes fotografadas pelo editor do blog no MAR.)


Thomas Ender, Vista do Rio de Janeiro, óleo sobre tela, 1837, Gemaeldegalerie der Akademie der Bildenden Kuenste | Viena - Áustria 


Thomas Ender, Vista da Praia de Botafogo, óleo sobre madeira, coleção Hecilda e Sergio Fadel

Thomas Ender, Antiga Ponte sobre o Canal do Mangue, óleo sobre madeira, coleção Hecilda e Sergio Fadel

Forte de Santa Cruz visto do mar

Entrada de Mata Porcos (atual Rua Estácio de Sá, no Estácio; o nome Mata Porcos devia-se a um matadouro de porcos que teria ali existido)

Rua de Matacavalos (onde cresceu Bentinho, o "Dom Casmurro"), atual do Riachuelo, no Centro

Vista (pasmem!) do Corcovado com o Pão de Açúcar à direita e a baía no fundo

Catumbi

Valongo, uma das praias (além de enseadas e até ilhotas) que, com a construção do moderno cais do porto no início do século XX,  foram aterradas e sumiram do mapa.

LEANDRO JOAQUIM

Leandro Joaquim foi um pintor, cenógrafo e arquiteto mulato do Rio colonial (1738-1798). Suas obras mais célebres são um conjunto de oito painéis elípticos com cenas do Rio de Janeiro encomendados pelo vice-rei D. Luís de Vasconcelos e Sousa para decorar um dos pavilhões do Passeio Público. Os seis painéis sobreviventes, mostrados abaixo, agora fazem parte do acervo do Museu Histórico Nacional e costumam estar em exibição. (Informações obtidas na Enciclopédia Itaú Cultural, site do Museu Histórico Nacional e livro A muito leal e heroica cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro. Imagens e suas legendas obtidas no site do Museu Histórico Nacional.)


Boqueirão e Arcos da Lapa. Vista da Lagoa do Boqueirão (onde hoje fica o Passeio Público), vendo-se ao fundo os Arcos da Lapa, à esquerda, a igreja da Lapa e, acima dela, o convento e igreja de Santa Teresa, além de construções e de figuras que revelam os costumes da época. 

Esquadra Inglesa. Essa cena registra a visita de uma esquadra inglesa na Baía da Guanabara. Em função do regime de ventos no Atlântico Sul, o caminho mais curto para o Oriente atravessava o litoral do Rio de Janeiro, em cuja baía eram admitidos apenas os navios dos países amigos de Portugal. É possível que a grande esquadra de batalha aqui representada esteja em viagem para o Índico, em 1783. 

Igreja e Praia da Glória. A Igreja de Nossa Senhora da Glória permanece até hoje, embora a praia da Glória, aterrada, já não mais exista. 

Pesca da Baleia. A cena registra a pesca de baleias na Baía da Guanabara. Registre-se a existência de um grande número de animais da espécie em águas dos Rio de Janeiro no final do século XVIII. Em primeiro plano, a Ilha de Villegaignon.

Procissão Marítima. A cidade do Rio de Janeiro desempenhou, desde o momento de sua fundação, em 1565, uma função marítima. Sua situação geográfica privilegiada tornou-se porto por excelência, porta de entrada da Colônia, trancada por poderosas fortificações. Até sua religiosidade expressava-se no mar, em eventos tais como essa romaria de barcos que desfila diante do Hospital dos Lázaros, em São Cristóvão, construção que existe até hoje, como você pode ver aqui.

Revista Militar no Largo do Paço, atual Praça XV. Em primeiro plano, o chafariz de mestre Valentim. À esquerda, o então Palácio dos Vice-Reis, depois Paço Real e Imperial. Ao fundo, Convento do Carmo, sua capela (que com a vinda da Família Real virou catedral) e a Igreja da Ordem Terceira do Carmo. À direita, as casas do Teles com o famoso arco no meio. Todas essas construções estão preservadas até hoje. 


NICOLAS-ANTOINE TAUNAY

Nicolas-Antoine Taunay, nascido em Paris em 10 de fevereiro de 1755, de família nobre e filho de artista emérito, cedo apendeu com os melhores mestres a arte de pintura. Expôs em diversos salões, foi vice-presidente e presidente da Academia de França, em Roma, e da Académie de Beaux Artes e Membro do Instituto de França. Veio ao Rio em 1816, com toda a família, que se compunha de sua mulher e cinco filhos, integrando a missão artística francesa que fundou a Real Academia de Belas Artes. Dessa missão fizeram parte também Debret, Grandjean de Montigny e outros. Viveu ao pé da Cascatinha da Tijuca, hoje Cascatinha Taunay, até 1821, quando desgostoso com a nova direção da Academia e a falta de estímulo por parte do governo, voltou à pátria. Ficaram entre nós quatro de seus filhos cujos descendentes constituem uma grande família brasileira. Continuou trabalhando e expondo nos salões obras que hoje se encontram em museus da Europa e em coleções particulares. Deixou várias telas do Rio e arredores, de valor iconográfico. Faleceu em Paris a 20 de março de 1830. (A Muito Leal e Heroica Cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro, p. 66)


Vista do Outeiro, Praia e Igreja da Glória (1817 - Acervo dos Museus Castro Maya) 

Vista do jardim do Convento de Santo Antônio (1816 - acervo do Museu de Belas Artes). A rua no centro é a São José. À direita, o Morro do Castelo. No canto superior esquerdo, a torre (antiga) da Igreja do Carmo e o Convento do Carmo. O quadro "mostra um Rio de Janeiro pacífico e bucólico, em que o sol ilumina as ruas e as nuvens dão sombra para a conversa de três frades. Ao lado dos religiosos, bananeiras, como se para provar que se trata de uma paisagem tropical, e não européia. Vacas andam plácidas pelas ruas quase desertas. Só com atenção se enxergam os escravos que encaminham a boiada. As ruas da cidade podiam ser de uma vila italiana, de tão serenas. Ao longe, vê-se o movimento dos navios atracados na baía, a marca de um país aberto. Um Brasil exótico, mas civilizável." (Thomas Traumann em matéria na Época sobre o livro O Sol do Brasil) A boiada está a caminho do matadouro da Praia de Santa Luzia, atual Rua de Santa Luzia. No centro do casario vemos o Recolhimento do Parto. No fim da Rua São José, as obras da nova igreja, iniciadas em 1807, ainda sem as torres. (A Muito Leal e Heroica Cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro, p. 66)

Entrada da baía e da cidade do Rio a partir do terraço do convento de Santo Antônio (1816 - acervo do Museu de Belas Artes)

JOSEPH ALFRED MARTINET

Joseph Alfred Martinet foi um gravurista (litógrafo) francês nascido em 1821. Gilberto Ferrez registra sua chegada ao Brasil a 18 de janeiro de 1841, vindo do Havre pelo navio Le Béranger. No Rio de Janeiro, trabalhou na casa litográfica de Heaton & Rensburg, rua da Ajuda 68, e na editora dos irmãos Eduardo e Henrique Laemmert. Ferrez o considerou o "melhor litógrafo que por aqui trabalhou". Morreu em 1875.


Vista do Corcovado. Litografia colorida de 1841-47 do acervo dos Museus Castro Maya.

Enseada e praia de Botafogo, com seus casarões e chácaras. Esta e as próximas litografias obtidas na Biblioteca Nacional Digital.

Pão de Açúcar, Igreja da Glória e Cais da Glória. Litografia colorida. 


Hospital da Beneficência Portuguesa na Glória.

Hotel dos Estrangeiros, no Largo do Catete, atual Praça José de Alencar, fundado em 1849. 

Passeio Público. Litografia colorida. 

Rio de Janeiro visto da Ilha das Cobras. Litografia colorida. 

RICHARD BATE


Richard Bate (1775 — Londres, 1856) foi um pintor amador e negociante inglês, que chegou na cidade do Rio de Janeiro com sua família em 1807, a bordo do veleiro Integrity, e que estabeleceu um comércio de instrumentos náuticos, ópticos, matemáticos, cirúrgicos, óculos etc situado inicialmente na Rua Direita, e depois na Rua da Quitanda, nº 25. De sua permanência no Brasil, deixou pintadas em aquarelas diversas vistas muito detalhadas da cidade do Rio de Janeiro, que se encontram guardadas na Universidade Cornell, em Ithaca, no estado de Nova Iorque, e que foram publicadas em 1965 pelo historiador Gilberto Ferrez. (Informações transcritas da Wikipedia.)


Panorama do terraço da Igreja da Glória em 1809 mostrando toda a marinha, do Passeio Público até a ponta do Calabouço. Da esquerda para a direita: Passeio Público, Convento da Ajuda, Morro do Castelo (ou de São Sebastião), Praia de Santa Luzia, Ponta do Calabouço.

Largo do Paço, atual Praça XV, em 1808. Fonte: Digital Collections da Cornell University.