1.12.16

HISTÓRIA DO CLIMA DO RIO DE JANEIRO DOS TEMPOS COLONIAIS À ERA DO AQUECIMENTO GLOBAL: SEMPRE FEZ CALOR OU ANTIGAMENTE ERA MAIS FRESCO?

“Que verão insuportável!
Não se pode caminhar!
Que calor desagradável!
Vivem todos a pingar!
Tal verão parece incrível,
É o verão do Senegal!
Ó que calor impossível!
Ó que calor infernal!
É um tormento, uma agonia,
Um martírio de matar!
Só com dez banhos por dia
Pode a gente se lavar!


O ano vai chegando ao fim e o carioca tem a consciência de que, passada a temporada de chuvas, virá o calor implacável, o Rio 40 Graus. Será que antigamente fazia menos calor no Rio de Janeiro? Ou a cidade sempre foi um “forno”, uma "sauna"? A julgar pelos versinhos acima, que encontrei no jornal Correio da Manhã de 21 de fevereiro de 1909, ou pelo hábito da família imperial e da nobreza brasileira de passarem o verão em Petrópolis, parece que o calor carioca é um fenômeno antigo, embora tenha se agravado com o aquecimento global, como veremos. Mas comecemos pelo princípio, pelos primórdios da cidade.

O primeiro registro sobre o clima carioca de que temos notícia é do jesuíta português Fernão Cardim, que aqui esteve como secretário do visitador da companhia, de 1583 a 1598, retornando como provincial da companhia de 1604 a 1609. Em carta ao padre provincial de Portugal onde descreve sua passagem pelo Rio de Janeiro, em dezembro de 1584, Cardim discorre sobre o clima brasileiro. A carta encontra-se na obra Tratados da terra e gente do Brasil que pode ser acessada na Brasiliana Eletrônica. Vejamos o que diz Cardim levando em conta que naquela época grande parte da mata atlântica que cobria nosso litoral ainda estava intacta e a cidade do Rio de Janeiro se restringia a algumas construções no Morro do Castelo e em pequeno trecho da Várzea:

O clima do Brasil geralmente é temperado de bons, delicados, e salutíferos ares, donde os homens vivem muito até 90, cento e mais anos, e a terra é cheia de velhos; geralmente não tem frios, nem calmas [=calor forte causado pelo sol com cessação dos ventos], ainda que do Rio de Janeiro até São Vicente há frios, e calmas, mas não muito grandes; os céus são muito puros e claros, principalmente de noite; a lua é mui prejudicial à saúde, e corrompe muito as cousas; as manhãs são salutíferas, têm pouco de crepúsculos, assim matutinos, como vespertinos, porque, em sendo manhã, logo se sai o sol, e em se pondo logo anoitece. O inverno começa em março, e acaba em agosto, o verão começa em setembro e acaba em fevereiro; as noites e dias são quase todo o ano iguais.

Na época colonial, as Observações físicas meteorológicas feitas na cidade do Rio de Janeiro no anno de 1787, manuscrito de Bento Sanches Dorta, correspondente da Real Academia de Ciências de Lisboa, que podem ser acessadas na Biblioteca Nacional Digital, dão uma ideia do clima da época. A Tabela 3a das Observações, intitulada Graus de Calor no Termômetro, apresenta as temperaturas máxima e mínima de cada mês e a média daquele mês. A seguir, a tabela original, em graus Fahrenheit, seguida de um quadro com sua conversão para graus centígrados. Observe que as temperaturas máximas são relativamente altas para a época, considerando-se a inexistência de ar-condicionado (atingindo um pico de 34,17oC em 3 de março), e que a média anual de 23,41 não está tão distante assim das médias dos últimos cinquenta anos (mais adiante examinaremos séries de temperaturas de 1961 até 2015 obtidas no banco de dados do INMET).




dia
máxima
dia
mínima
média
jan
14
32,22
2
20,00
27,25
fev
8
33,47
2
22,22
28,22
mar
3
34,17
16
20,00
26,06
abr
27
31,39
20
16,39
23,81
mai
19
24,72
6
15,56
20,11
jun
21
26,67
10
12,78
20,56
jul
31
27,78
9
13,89
19,50
ago
27
28,33
15
12,78
19,89
set
29
27,22
2
16,67
22,06
out
3
31,11
20
16,11
23,84
nov
10
30,28
12
16,67
23,88
dez
30
32,78
16
16,11
25,74
MÉDIA ANUAL




23,41

Escreve o meteorologista dos tempos coloniais: “O maior calor desse ano, indicado no termômetro de Fahrenheit, é de 93,5 [34,17oC] pelas horas da tarde do dia 3 de março: havendo no céu várias nuvens brancas espalhadas em forma de barras, e correndo o vento N'. [...] O menor calor foi 55 [12,78oC] anunciado pelo mesmo instrumento duas vezes. Primeira a 10 de junho às 7 da manhã; estando o céu muito claro; e ventando levemente do N'O. [...] Segunda a 15 de agosto às 6 da manhã: havia nuvens negras acasteladas [=empilhadas] formadas pelo céu, e soprava um forte vento de O. [...] O calor médio de todo o ano chegou a 74,16 [23,42oC], resultado que deu a adição de 2816 observações. Uma curiosidade: Em seu estudo meteorológico, Dorta menciona uma terrível tempestade ocorrida em janeiro:

No dia 24 de janeiro de 1787, pelas 2 da tarde estando o barômetro na direção de 28. [?] e o termômetro anunciando 84. [28,89oC] de calor, ventando fortem. do S.O., começou uma grande chuva, acompanhada de horríveis trovões, e continuados relâmpagos de diversos pontos do horizonte, que incendiavam todo o hemisfério, e prolongando-se essa tormenta até as 4.h 20’ [4 horas e 20 minutos], acabou lançando um Raio em uma Corveta, que se achava neste Rio.

O viajante inglês John Luccock, que residiu no Rio de Janeiro de 1808 a 1818 e viajou pelo Brasil, escreve no Capítulo 2 de seu Notes on Rio de Janeiro and the Southern parts of Brazil: "The great heat of the climate of Rio, has repeatedly been alluded to: I have seen Farenheit's thermometer, when exposed to the sun, as high as 130°; at the same time, it reached 96° in the shade. The country round about is, in general, cooler than the city; in some of the mountainous parts, it is much cooler than its immediate neighbourhood." Traduzindo e convertendo: "O grande calor do clima do Rio tem sido repetidamente citado: vi um termômetro Farenheit, quando exposto ao sol, atingir 130° [54 graus centígrados]; ao mesmo tempo, atingiu  96° [36 graus centígrados] na sombra. O campo circundante costuma ser mais fresco do que a cidade; em algumas partes montanhosas, é bem mais fresco do que sua vizinhança imediata." Observe que esse capítulo foi escrito em 1808!

Nessa mesma época, o oficial Thomas O'Neil, da Marinha Real do Reino Unido, vindo na esquadra inglesa que escoltou a corte portuguesa na viagem de Lisboa ao Rio de Janeiro, em seu A concise and accurate account of the proceedings of the squadron under the command of Rear Admiral Sir Sydney Smith, K.S.&c. effecting the escape of the Royal Family of Portugal to the Brazils on November, 29, 1807, observou (a tradução do inglês é minha): “O clima da América do Sul é agradável e saudável, estando livre de muitos inconvenientes que são incidentes a outros países tropicais. Embora situado sob o Trópico de Capricórnio, o ar é poucas vezes imediatamente quente, já que a brisa marinha regularmente começa a soprar de manhã e continua até a noite, quando é sucedida por um agradável vento terrestre.” 

Em dezembro de 1817, Rose Marie de Freycinet, que veio (inicialmente como clandestina) junto com o marido, oficial da Marinha, na expedição científica da corveta Uranie ao redor do mundo, ao chegar no Rio de Janeiro em dezembro de 1817, escreveu em seu diário: “Faz muito calor, na verdade, mas todos os dias, antes do meio-dia, levanta-se, vindo do mar, um vento fresco, que torna o rigor da estação suportável.” (Fonte: Luís Edmundo, Recordações do Rio Antigo, “Diário de Rose de Freycinet”)

Mas se sempre fez calor no Rio, deve haver registros disso em nossa literatura. Aqui estão alguns: 

► Em Fogo fátuo, um romance de base memorialística do escritor brasileiro Coelho Neto, continuação de A Conquista, tendo como personagens sua geração de poetas, teatrólogos, jornalistas, intelectuais e boêmios cariocas no período que vai da Abolição até os primeiros anos da República Velha. No romance existem duas menções ao calor do Rio.

Página 41:
O verão ardia asfixiante com a febre amarela no auge. Tinha-se a impressão de que os telhados e as pedras do calçamento crepitavam.

Página 62:
O que está me fazendo falta é uma boa borrasca, como as de janeiro, na Europa: neve nas ruas, o vento a esfrolar frocos, o termômetro abaixo de zero, como eu, e um bom lume a arder no fogão Pode-se lá viver a 36o à sombra, com o mesmo capote com que se atravessava o Neva em trenó!? Isto é um país horrendo! Toda a minha indumentária decente está inutilizada: peliça, gorros de astracã, luvas forradas... Se eu arranjasse um emprego na fábrica de gelo, ainda bem. Mas qual! Hei de morrer assim.

► Em "folhetins" (como se chamavam então as crônicas publicadas na imprensa) "Ao Correr da Pena" escritos por José de Alencar antes de se tornar um romancista célebre. No folhetim de 26 de novembro de 1854, escreve Alencar: "A força do verão já se vai fazendo sentir. e aqueles que não estão presos à vida da cidade estão já tratando de fugir desse clima ardente, e de procurar algures um refrigério aos calores da estação." Mas menos de um mês antes (29 de outubro) Alencar citara tardes de verão mais amenas: "Quando estiverdes de bom humor e numa excelente disposição de espírito, aproveitai uma dessas belas tardes de verão como tem feito nos últimos dias, e ide passar algumas horas no Passeio Público, onde ao menos gozareis a sombra das árvores e um ar puro e fresco, e estareis livres da poeira e do incômodo rodar dos ônibus e das carroças." 

Em crônica "A Semana" de Machado de Assis de 7 de janeiro de 1894: 
Quem será esta cigarra que me acorda todos os dias neste verão do diabo, — quero dizer, de todos os diabos, que eu nunca vi outro que me matasse tanto. Um amigo meu conta-me coisas terríveis do verão de Cuiabá, onde, a certa hora do dia, chega a parar a administração pública. Tudo vai para as redes. Aqui não há rede, não há descanso, não há nada. Este tempo serve, quando muito, para reanimar conversações moribundas, ou para dar que dizer a pessoas que conhecem pouco e são obrigadas a vinte ou trinta minutos de bond [bonde]. Começa-se por uma exclamação e um gesto, depois uma ou duas anedotas, quatro reminiscências, e a declaração inevitável de que pessoa passa bem de saúde, a despeito da temperatura. 
— Custa-me a suportar o calor, mas de saúde passo maravilhosamente bem.  

 Em O Ateneu de Raul Pompeia: "Por ocasião dos intensos calores de fevereiro e março e do fim do ano, havia aí dois banhos por dia. E cada banho era uma festa [...]"

 Em O Triste Fim de Policarpo Quaresma de Lima Barreto:

Às vezes, o fiel Anastácio seguia-o no descanso e ambos, lado a lado, à sombra de uma fruteira mais copada, ficavam a ver o ar pesado daqueles dias de verão que enrodilhava as folhas das árvores e punha nas cousas um forte acento de resignação mórbida. Então, aí por depois do meio-dia, quando o calor parecia narcotizar tudo e mergulhar em silêncio a vida inteira, é que o velho major percebia bem a alma dos trópicos, feita de desencontros como aquele que se via agora, de um sol alto, claro, olímpico, a brilhar sobre um torpor de morte, que ele mesmo provocava.

► Em Baú de Ossos, primeiro livro de memórias de Pedro Nava, onde ele conta como seu avô literalmente “morreu de calor”, especificamente, de tísica galopante resultante de um banho gelado tomado para aliviar o calor. Conta Nava:

Só o que meu avô não tolerava era o calor. Aquele túnel ardente em que se tornava a Rua General Câmara em janeiro, fevereiro, março, quando pesava um ar de forno úmido, cuja imobilidade lhe fazia suspirar pelos secos ventos da Fortaleza. A noite ainda era pior e parecia que as rochas escalavradas das nossas encostas esperavam que o sol escondesse para substituí-lo, irradiando aquela temperatura que tinha cheiro de tijolo cozido. Meu avô aproveitava essa hora para sair pelo bairro com a mulher, procurando um pouco de ar respirável. [...] Num dia particularmente quente [em 1880], falhou o seu juízo e ele chegou em casa mais cedo, ar deliberado, acompanhado de galego portador de uma barra de gelo. Mandou pô-la na banheira, abriu a torneira, deixou derreter e quando a água estava bem fria, surdo às advertências de Dona Nanoca, meteu-se no banho, em que ficou até sentir o mal-estar que o levou para a cama tremendo todo, naquele arrepio profundo da febre, que põe ventos polares nas areias da Líbia. [...] A 1o de junho de 1880 meu avô saiu de casa para sempre. Seguiu o mesmo trajeto cotidiano, agora no coche fúnebre que minha avó viu estrelar-se como ameba preta dentro de suas lágrimas [...] Ali, na Quadra 38, Sepultura Perpétua 2.502, a terra lhe comeria as carnes e o lençol-d'água lhe lavaria os ossos.

Vimos assim que o Rio de Janeiro sempre foi quente no verão, mas será que o aquecimento global aumentou ainda mais as temperaturas? Para responder a estas perguntas, obtive no banco de dados do INMET (Instituto Nacional de Meteorologia) as temperaturas máxima média, compensada média e mínima média, mês a mês, de 1961, quando os dados começaram a ser registrados, até 2015. Depois calculei as médias anuais, que você pode ver no quadro abaixo. Observe que faltam alguns anos, seja porque a série nesses anos está incompleta (caso de 1979 a 1982), ou porque os dados não foram registrados naqueles anos (caso da lacuna de 1991 a 2002).

Ano
Temperatura Máxima Média
Temperatura Média Compensada
Temperatura Mínima Média
1961
28,07
24,53
21,65
1962
26,55
23,19
20,47
1963
27,55
23,85
20,76
1964
26,34
22,99
20,24
1965
27,79
24,21
21,36
1966
27,80
24,23
21,36
1967
27,09
23,88
21,30
1968
26,09
22,74
19,97
1969
27,10
23,76
21,11
1970
27,12
23,65
20,79
1971
27,32
23,77
20,81
1972
27,87
24,16
21,28
1973
27,62
24,26
21,54
1974
26,92
23,58
20,70
1975
26,61
23,27
20,43
1976
26,73
23,44
20,64
1977
27,57
23,95
21,01
1978
27,03
23,59
20,70
1983
26,95
23,69
21,18
1984
27,46


1985
27,06


1986
27,77


1987
27,66
0,00
21,23
1988
27,29
0,00
20,77
1989
27,10
0,00
20,91
1990
27,82
24,19
21,19
2003
30,60
25,52
22,16
2004
29,63
24,77
21,44
2005
30,57
25,49
22,02
2006
30,29
25,09
21,67
2007
30,92
25,51
21,89
2008
29,80
24,80
21,48
2009
30,85
25,72
22,21
2010
30,85
25,62
22,18
2011
29,91
24,77
21,59
2012
30,80
25,39
22,12
2013
29,46
24,90
21,74
2014
29,80
25,36
22,02
2015
29,99
25,67
22,50

Observamos que, de 1961 a 1990, a temperatura média compensada (23,74oC) praticamente empata com aquela de 1787 (23,41oC), ou seja, durante séculos a temperatura carioca manteve-se estável. Mas no século XXI as temperaturas dão um salto, como mostra o quadro a seguir:


Faixa de anos
Máxima média
Média compensada
Mínima média
1961 a 1990
27,24
23,75
20,93
2003 a 2015
30,27
25,28
21,92


A temperatura máxima média aumentou mais de três graus, a temperatura média aumentou um grau e meio, e a mínima média ficou um grau mais alto. Moral da história: O Rio sempre foi quente, mas no século atual esquentou ainda mais. (PS. Clique no label calor carioca abaixo para ver outras postagens sobre o tema.)