19.2.17

GRAFITES NA ZONA PORTUÁRIA: Team Refugees, ACME, Rodrigo Sini, Meton, Duim, Memi, Mario Band's, Cazé, Ment, Pakaio

O auge da arte musical é a chamada “música clássica” (a Santíssima Trindade Bach-Mozart-Beethoven), o auge da literatura é a obra de Shakespeare, o auge das artes plásticas foi o Renascentismo. Mas a arte não pode congelar, tornar-se “acadêmica”, tem que evoluir, romper padrões. Só que nem toda direção evolutiva é profícua. Assim foi que as vanguardas artísticas das primeiras décadas do século XX – dodecafonismo, abstracionismo e quejandos – acabaram se distanciando demais do gosto do público. Por isso, vejo com bons olhos a volta ao ideal estético da arte como beleza dos movimentos pós-modernos. Mas se alguém quiser conhecer o que de melhor se faz em termos de artes plásticas contemporâneas não é nos museus e galerias que deverá procurar, e sim nas ruas. Desde os primórdios desse blog mapeio a produção de grafites na nossa cidade (e um pouco também em outras cidades e até outros países). Se um dia alguém quiser escrever a história da evolução do grafite no Rio de Janeiro terá que recorrer ao meu vasto arquivo, já que, por ser arte (infelizmente) efêmera, grande parte das obras acabam sendo destruídas. Flanando neste último dia de horário de verão pela nova Zona Portuária revitalizada que nos legou Eduardo Paes, em frente ao Aqua Rio deparo com lindos grafites (que na verdade já estavam lá desde a época da Olimpíada) que vieram enriquecer minha já extensa coleção fotográfica, alguns dos quais exibo nesta postagem. Clique no label “arte nas ruas” ao final para ver outras postagens sobre o tema.

Gilzin-Faria. Uma viatura da guarda municipal "atrapalhou" a foto.

Team Refugees de Rodrigo Sini e Cety Soledade

Painel de ACME em frente ao AquaRio

Rodrigo Sini

Grafite de Meton (detalhe) perto do AquaRio

Duim

Memi

Mario Band's

Cazé

Ment

Pakaio (?)

13.2.17

LANÇAMENTO DE EFEMÉRIDES CARIOCAS, DE NEUSA FERNANDES E OLINIO COELHO


7.2.17

VIAJANTES ESTRANGEIROS NO RIO DE JANEIRO: RICHARD FLECKNOE


Richard Flecknoe foi um jesuíta homem de letras, sacerdote e aventureiro do Reino Unido nascido no início do século XVII. Seu nome se liga à história do Brasil por ter estado no Rio de Janeiro em 1648 e aqui permanecido vários meses, tendo sido o primeiro viajante de língua inglesa a escrever sobre o Rio de Janeiro e Brasil em um livro, intitulado A Relation of Ten Years Travells in Europe, Asia, Affrique, and America. All by way of Letters occasionally written to divers noble personages, from place to place; and continued to this present year, with divers other historical, moral, and poetical pieces of the same author. (Relação de dez anos de viagens na Europa, Ásia, África e América, tudo por meio de cartas ocasionalmente escritas, de lugar em lugar, a diversas personalidades fidalgas, e continuadas até o ano atual, com diversas outras peças históricas morais e poéticas do mesmo autor.) Morreu em 1678. Mais informações sobre Flecknoe no verbete da Wikipedia criado pelo editor deste blog.

Flecknoe chegou no Rio de Janeiro em 16 de janeiro de 1648, onde permaneceu um semestre, voltando à Europa em agosto daquele ano. De sua estadia brasileira resultaram apenas 24 páginas de seu livro, “contribuição assaz insignificante, mas pitoresca, para a bibliografia brasileira”, segundo Afonso de E. Taunay, que dedica um capítulo de seu livro Visitantes do Brasil colonial, de 1933, a Richard Flecknoe (que ele chama de "Ricardo Fleckno"). “O livrinho de viagens de Fleckno, impresso em 1655, é hoje uma das maiores raridades bibliográficas brasileiras. Em nosso país, ao que parece, dele só existe um exemplar. Pertence à Biblioteca do Itamaraty e fez parte da livraria do Barão do Rio Branco.” Os textos de Flecknoe abaixo, traduzidos por D. Anna Eulália Monteiro de Barros, então “distintíssima funcionária da Biblioteca do Ministério das Relações Exteriores”, foram obtidos na obra de Taunay, bem como diversas informações. Ela pode ser acessada na Brasiliana Eletrônica. A imagem das naus foi obtida na Biblioteca Nacional Digital.

DA NOSSA CHEGADA A SÃO SEBASTIÃO OU RIO DE JANEIRO, NO BRASIL

Uma vez ancorados, os nossos marujos pescaram a anzol uma espécie de peixe semelhante ao nosso peixe-cabra. Faltavam-lhe somente as orelhas. Tem os ventres brancos e xadrezados, inflando como bexigas, cheias de vento, ao serem lançadas ao convés. Asseguraram-nos os portugueses que eram francamente venenosos, estando o mar cheio de outros peixes tão venenosos que se tornam as águas insalubres, como eu próprio verifiquei banhando-me, pois das ondas saí tonto e maldisposto, ao passo que, em outros mares, sentia-me mais forte e vigoroso.

Neste entrementes, havendo o forte dado à cidade o sinal da nossa chegada, e os portugueses tendo-nos por amigos, foram-nos despachadas diversas embarcações e canoas a saudar-nos, com provisões frescas e as frutas do país.

O verão daqui é o nosso inverno de lá.

À tarde chegaram os pilotos a fim de conduzir-nos para dentro da baía; ancoramos então sob a leve brisa que toda a noite sopra do mar e toda a manhã da terra.

Entramos na baía por entre dois rochedos possantes, distantes um do outro de algumas milhas (um, pela sua forma, é denominado o Pão de Açúcar). Ao avançarmos, passando algumas milhas além do forte que defende a barra, deparou-se-nos a mais sedutora paisagem do mundo, o Lago do Rio, de umas vinte e tantas milhas de extensão, todo salpicado de ilhas verdejantes, algumas de uma milha, outras mais, outras menos, e a cidade ereta à esquerda, umas três milhas além do forte, num sítio onde a baía oferece segurança a muitos milhares de naus.

Ao desembarcar, encontrei cômodos para mim arrumados pelos padres da Companhia, com dois molatos (sic) ou mestiços de negros para servir-me, com a minha dieta preparada nas suas próprias cozinhas próximas à minha morada.

Tudo isto não sei se por ordem do Rei ou recomendação do Governador (que viera conosco) ou se graças à caridade dos bons padres; o certo é que fui tão extraordinariamente acomodado, como por dinheiro algum poderia pagá-lo, pois aqui não existem, como em nossa terra, hospedarias ou albergues. Os que frequentam estas paragens são os mercadores, hospedados pelos seus correspondentes ou marinheiros, que permanecem a bordo, homem algum havendo ainda empreendido tal travessia movido pela simples curiosidade.

DO BRASIL EM GERAL

O Brasil, confinado pelo oceano de um lado, e os rios das Amazonas e de Plato [da Prata] do outro, é um vasto continente, muito maior do que a Europa. Tem clima quente e úmido, devido às chuvas abundantes e contínuas; no entanto, à exceção dos dois rios que o limitam, não existem outros caudais no país que possam produzir umidade por evaporação. Apenas quatro ou cinco portos, entre os quais aquele em que fundeamos, lhe dão acesso. O resto do litoral torna-se impraticável pelos rochedos e a floresta densa que se prolonga por centenas de milhas. Parece esta terra muito mais destinada à habitação futura do homem do que já ter sido habitada anteriormente.

DA CIDADE

Está a cidade de São Sebastião situada numa planície de algumas milhas de comprimento, limitada nas duas extremidades por montanhas; na parte interna fronteira ao lago, habitam e dominam os frades beneditinos, e na parte externa, junto ao mar, os padres da Companhia.

A cidade antiga erguia-se sobre o morro (como testemunham as ruínas das casas e a igreja grande), até que para a comodidade do tráfico e o transporte das mercadorias foi aos poucos baixando para a planície, são os edifícios pouco elevados e as ruas (três ou quatro apenas) todas orientadas para o mar. A umas duas milhas da cidade, estende-se grande planície, cuja vegetação ora é rasteira, ora florestal e ora ainda campestre. Passada tal planura descobre-se uma região tão absolutamente diversa das nossas que nem uma só árvore, ou planta, pássaro ou qualquer outro animal apresenta semelhança com os da Europa. Por este motivo falarei um pouco de cada uma destas particularidades.

DA TERRA

A terra quase toda coberta de matas e com o solo virgem desde a criação do mundo produz, sem cultura, árvores entre as quais algumas há tão grandes que apresentam sete ou oito braças de diâmetro e mais de setenta ou oitenta de altura. Com elas fazem os brasileiros canoas e barcos, de duas ou três toneladas, escavados num só tronco.

Quanto ao pau-brasil, a madeira por excelência, do qual a terra houve o nome, é ele um arbusto em comparação a outras árvores. Muito se assemelha ao nosso pilriteiro maior. É o país naturalmente quente e úmido, devido à frequência das chuvas, razão pela qual em lugares onde a água fica depositada se formam brejos, alguns de mais de vinte ou trinta milhas, espaços estes que parecem abandonados pelas árvores, por não oferecerem bastante resistência ao peso das suas estruturas possantes.

DOS SELVAGENS OU INDÍGENAS DO BRASIL

Quais os direitos dos indígenas ou habitantes? Serão, como quer João Baptista de Porta: a saber que cada nação tem os traços característicos de certo animal?

Assim, estes brasileiros são certamente como os asnos, dolentes e fleumáticos (in servitutem nati), e só aproveitáveis para o labor e para a escravidão, razão pela qual a Natureza não dotou este país de nenhum outro animal de carga senão eles.

São, todavia, mais corpulentos do que robustos, gente de tronco grosso, pernas curtas, olhos pequenos, pele morena e doentia, feições irregulares, cabelos negros e oleosos, muito lisos e caindo sem graça pelas orelhas abaixo.
Homens e mulheres andam geralmente nus, usando apenas um trapo que lhes esconde as partes genitais, que ninguém desejaria ver, aliás, pois é o resto bastante repugnante.

São todos cristãos, e vem-me então à mente a frase Homines et jumenta salvabis Domine, que o Senhor salve a todos, homens e animais, pois é sem dúvida aplicada a estes que não possuem inteligência bastante para cultivar vícios engenhosos nem temperança bastante para evitar os mais brutais.

Diz isto respeito aos que vivem entre os portugueses; quanto aos demais, imagino que seja a diferença a mesma do que entre os animais selvagens e os domésticos.

Em relação à sua ferocidade não acredito tudo o que dizem, mas sim o que é alegado da sua selvageria, como o de se devorarem uns aos outros ou não possuírem em seu vocabulário palavra alguma que traduza a Deus, Rei e Lei.

Se fossem tão ferozes quanto contam, não teriam cedido tão mansamente sua terra a Portugal, nem permitido que este a desfrute tão tranquilamente. Mas, voltando aos meus selvagens domesticados, aluguei quatro deles para uma viagem ao interior.

Enquanto dois me carregavam na Hamatta, os outros corriam-me ao lado. A Hamatta é uma espécie de rede de algodão do tamanho de um lençol, franzida nas duas pontas e amarrada por uma corda forte a uma grande vara que os homens levam ao ombro, e na qual podeis sentar-vos ou deitar-vos em qualquer posição com uma almofada ou um travesseiro, mais facilmente do que numa liteira.

Os portugueses fazem-se acompanhar por um negro que leva um guarda-sol aberto para abrigá-los, enquanto as mulheres ficam protegidas dos olhares do vulgo por uma rica colcha que recobre a Hamatta e acompanhadas por duas aias negras, para ajudá-las a subir ou dar- lhes as "chopinas" (sic) quando se apeiam da Hamatta.

Numa dessas fui transportado mais ou menos umas vinte milhas, conforme o permitia o caminho ora plano, ora montanhoso, tendo convencionado com os meus selvagens pequena remuneração, além da comida, que consistia num punhado de farina (sic) de pau (ou pão fabricado com a raiz de certa árvore, como já expliquei), e quanto a mim, não tendo além da farinha outra provisão se não peixe que os homens pescavam lançando os anzóis em cada riacho que atravessamos e trazendo-os em profusão suficiente para vinte homens.

Fazíamos então uma fogueira para cozinhá-los e depois os comíamos com o caldo dos limões agrestes de que o mato está cheio. Isto e água foi toda a nossa alimentação; à noite suspendíamos as nossas Hamattas de duas árvores e dormíamos até ao amanhecer.

Ao longo da costa, nas estradas abertas pelos portugueses para o tráfego do interior, encontram-se pelo menos de dois em dois dias Ross (sic), roças ou propriedades campestres dos portugueses, nas quais, a troco de algum dinheiro, se obtém hospedagem, a que acompanha todo o gênero de frutas e aves.

Um dos prazeres que tive ao atravessar as matas foi o de se me depararem árvores cobertas de macacos e papagaios (como se estes fossem os seus únicos frutos) caçando-se uns aos outros com um alarido ensurdecedor, ao ponto de não ouvirmos as nossas próprias vozes, e cousa digna de verdes eram as macacas com os filhotes dependurados ao pescoço ou montados às costas, modo pelo qual os transportam até se tornarem grandes.

Para apanhá-los os indígenas frechavam os adultos (são os melhores atiradores do mundo, dada a inferioridade dos seus arcos e flechas) e, quando as macacas caíam, os filhotes, pela falta de hábito de usarem as pernas, nem tentavam escapar.

DOS RECURSOS DO PAÍS

Deixando a viagem, voltarei a falar das riquezas do país. A principal é o açúcar e creio mesmo que, este lembrado, acham-se todas as outras mencionadas. Não que lhe faltem outras riquezas, mas esta supre a todas, e um país que possui com abundância um gênero de que todos os outros necessitam de mais nada precisa. Não produz trigo, nem vinho, nem sal, o que atribuo não somente à diferença de clima, mas a medidas políticas, mantendo-o Portugal em sua dependência que assim lhe vende estas mercadorias indispensáveis e impede-lhe a revolta. É o açúcar fabricado do modo seguinte: os canaviais crescem tão alto quanto o trigo, e não exigem, como cultura, senão serem cortados, de dois em dois anos, pela raiz, para que o broto volte com pujança.

A folhagem é de um verde suave e, de longe, lembra a plantação um trigal. A colheita realiza-se em junho, sendo as canas amarradas em molhos, de alguns pés de comprimento, e transportadas para o engenho, tocado por juntas de bois ou por água.

Compõem-se eles de dois cilindros como as nossas mós de moinho, chapeados de ferro, e cujo movimento rotativo, aproximando o mais possível os dois cilindros, esmaga as canas, cuspidas fora como bagaço. A garapa escorre por calhas aos caldeirões onde ferve, conservando sempre a cor de âmbar, até que, transvasada para tinas de esfriar, lhe misturem ingredientes que a tornam branca.

Nestes engenhos, durante a estação da colheita, trabalha-se noite e dia, sendo bastante perigoso o ofício de colocar as canas no moinho; se por negligência um dedo é apanhado pela engrenagem todo o corpo é carregado, razão pela qual os negros usam sempre um machado, prestes a sacrificarem uma mão ou um braço se tal desgraça lhes suceder.

21.1.17

ADONIAS FILHO NO RIO DE JANEIRO, de CYRO DE MATTOS

Adonias Filho profere seu discurso de posse na ABL

Adonias Filho (1915-1990) preferiu deixar as terras do Sul da Bahia, a cidade de Salvador e o mar como cenário privilegiado de suas criações, escolhendo o Rio de Janeiro como o espaço ideal onde irão acontecer as ações do drama na pequena novela Amor no catete e no romance Noite sem madrugada. A densidade dramática ligada à ambiência primitiva da Região Cacaueira Baiana, aos mares de Luanda e Beira, na África, de Ilhéus e Salvador, na Bahia, ou ainda ao logradouro do Largo da Palma e à casa mágica povoada de espíritos e histórias de um forte, na capital baiana, irá ser conduzida agora pelo ficcionista seguro e estilista fino por onde o frio e o vento de inverno fazem a sua morada. Gente nos ônibus, lojas, passeios, imprimem o ritmo da vida diária.

Amor no Catete conta uma história que se passa em um lugar do Rio de Janeiro, dando-nos a sensação que aquele cenário carioca bem tocava a sensibilidade de Adonias Filho. A Rua do Catete com sua gente nas esquinas, discutindo futebol e política, as luzes dos postes iluminando os bondes que passavam, a hora dos gatos que fugiam dos velhos casarões para correr nos passeios desertos constituíram um cenário que permaneceu na memória sensitiva do escritor e no coração que acordava com saudade do tempo em que ali morou, quando então era um rapaz vindo do Sul da Bahia, cheio de esperança e sonho para assumir o compromisso de se tornar escritor um dia.

Bonde na Rua do Catete, foto de Augusto Malta de cerca de 1920 obtida no site Brasiliana Fotográfica

Em Amor no catete, o cenário de uma rua, com o vento trazido do mar pelas ruas do Flamengo, povoada de bares, lojas, estudantes que se recolhiam nas pensões, serve como o local de um encontro casual que culmina em amor, vivido entre um rapaz vindo do campo e uma mulher idosa, marcada pelo trauma da morte do filho.

Já em Noite sem madrugada, em uma das primeiras passagens, a personagem Vilma e os filhos encontram cedo a Rua do Catete com o movimento grande.

“Um povo afobado, andando com pressa, a subir nos ônibus, a encher os cafés e as lojas, a entupir os passeios. O barulhão dos motores e das buzinas, o fumaceiro dos ônibus, os sacos de lixo nas calçadas, as bancas de jornais”. (p.14)

Outros locais do Rio, como Jacarepaguá, Praça Quinze, Niterói, Icaraí, Leblon, servem como referências por onde Vilma, um dos personagens centrais do romance, em seu percurso permeado de esperança e aflição, transita na busca de provar a inocência de Eduardo, o marido, um homem bom, manso como um cordeiro, que não fazia mal a uma mosca, acusado de repente de ter participado de um assalto ao banco e assassinado um homem e uma mulher.

Em Amor no Catete, o local onde os personagens aparecem com suas ações fundamentais que conduzem a trama, a Rua do Catete, é aproveitado como elemento da realidade exterior com mais ênfase do que em Noite sem madrugada, mas em ambos os casos está longe de ser o espaço frequente que se configura como fundamental, marcado de simbolismo, por exemplo, no romance O forte e nos contos de O Largo da Palma ou ainda nos mares trágicos de Luanda, Beira Bahia, e em todas as histórias que acontecem no Sul da Bahia.

Adonias Filho ocupou cargos importantes na administração pública brasileira e exerceu significativas atividades culturais. Foi nomeado diretor da Editora A Noite (1946-1950), do Serviço Nacional de Teatro (1954) e da Biblioteca Nacional (1961-1971). Em 1966, foi vice-presidente da Associação Brasileira de Imprensa; de 1969 a 1973, exerceu a função de membro do Conselho Federal de Cultura; em 1972, presidiu a Associação Brasileira de Imprensa; e de 1977 a 1990, o Conselho Federal de Cultura.

Sua formação jornalística desenvolveu-se no Rio de Janeiro e em São Paulo. Foi colaborador em jornais importantes, como Correio da Manhã e o Jornal do Comércio. Participou como crítico literário do jornal Hora Presente, A Manhã, Jornal de Letras, Diário de Notícias, O Estado de São Paulo e na Folha da Manhã. Exerceu a crônica na Última Hora. Tanta atividade em suas trilhas de vida, dedicada à imprensa e à gestão cultural, que poderia ter se afastado de sua vocação literária. Tal não ocorreu porque tinha uma vocação legítima para ser escritor, um raro talento que não permitia que fosse diferente o homem que escolheu a literatura como leitura da vida.

Jamais recorreu ao pai para sobreviver. Como tradutor e jornalista, buscou os meios para subsistir com dignidade. Alcançou cargos importantes por méritos. Nunca cobiçou, nem procurou confundi-los com a sua carreira de escritor.

NOTA: A novela Amor no Catete faz parte da antologia Histórias dispersas de Adonias Filho, organizada por Cyro de Mattos, que você pode baixar gratuitamente clicando aqui

1.1.17

O QUE ESPERO DO NOVO PREFEITO, de ROLLAND GIANOTTI

PUBLICADO ORIGINALMENTE EM O GLOBO DE 31/10/2016, LOGO APÓS A ELEIÇÃO DE CRIVELLA. PARA LER A MATÉRIA COMPLETA CLIQUE AQUI.


O que espero do novo prefeito (ou meus dez desejos para Marcello Crivella):

1) que, durante todo o seu mandato, respeite as minorias e prove ser merecedor dos votos da maioria;

2) que entre 2017 vestido de branco, saltando três ondinhas e saudando Iemanjá no réveillon de Copacabana;

3) que em seu primeiro ato como prefeito de fato, cumpra a promessa de campanha e monte um secretariado estritamente técnico, evitando o loteamento da máquina pública entre políticos fichas-sujas, pastores evangélicos e milicianos;

4) que no dia de São Sebastião (20 de janeiro, é bom anotar...), o novo prefeito procure bênçãos na Igreja dos Capuchinhos da Tijuca e, braços dados com padres e bispos católicos, siga a procissão do santo padroeiro deste Rio de Janeiro;

5) que, no carnaval, ponha seu bloco na rua e, boquiaberto, assista aos desfiles na Sapucaí, onde beijará bandeiras, mulatas e baianas das escolas de samba (observação aqui: vale chorar com Portela, Mangueira e Império);

6) que se orgulhe do Cais do Valongo, lugar por onde passaram milhares de negros escravizados trazidos da África, ponto de grande importância para os representantes de religiões afrodescendentes e local candidato a Patrimônio da Humanidade;

7) que no Dia Internacional do Orgulho Gay (28 de junho, registra aí, Crivella, para não esquecer) se declare defensor das causas LGBT e reconheça o mérito para o Rio do titulo de destino gay friendly (são milhões de reais gastos na rede hoteleira, em bares, restaurantes e no comércio em geral);

8) que evite picuinhas com seu antecessor e preserve e amplie conquistas como o BRT, o VLT, a malha cicloviária e a Orla Conde;

9) que cuide das belezas locais (vale lembrar que o Rio foi a primeira cidade do mundo a receber o título da Unesco de Patrimônio Mundial como Paisagem Cultural Urbana);

10) e que, em meio a tudo isso, encontre tempo para um mergulho em Ipanema, um passeio pelo novo Porto, uma roda de samba em Madureira...

Enfim, que ame o Rio e sua gente.

30.12.16

ADEUS 2016/FELIZ 2017!

5:47 da madrugada

COM ESTAS FOTOS DO AMANHECER EM COPACABANA

5:50

LITERATURA & RIO DE JANEIRO, O BLOG DE QUEM ADORA A CIDADE MARAVILHOSA,

5:54

DESPEDE-SE DE 2016

5:55

DESEJANDO AOS AMIGOS

5:58

UM FELIZ ANO NOVO (SEM RECESSÃO E COM CRESCIMENTO ECONÔMICO)

6:05

E CONTINUEM NOS VISITANDO

6:09

QUE SEMPRE TEREMOS NOVAS SURPRESAS!


6:17 - De novo a luz venceu as trevas

21.12.16

CAIS DO VALONGO, de NIREU CAVALCANTI

TEXTO ESCRITO PELO HISTORIADOR NIREU CAVALCANTI EM 20 DE DEZEMBRO DE 2016 E ENVIADO AOS AMIGOS, ENTRE OS QUAIS TENHO A SORTE DE ESTAR

Pessoal amigo

Venho há muito tempo tentando trazer para a reflexão na mídia essa farsa do “Cais do Valongo” destinado ao desembarque de escravos. Assim, trago algumas de minhas conclusões sobre a questão resultantes de árduas pesquisas.

O comércio de escravos (os armazéns) no Valonguinho (a primeira parte da imensa praia que se estendia da Pedra do Sal até o morro da Saúde), seguida da parte chamada de Valongo, transferiu-se para a região por iniciativa da Câmara de Vereadores, dos comerciantes de grosso-trato não envolvidos com o comércio negreiro, dos cirurgiões e médicos, dos profissionais de engenharia e arquitetura, a partir de janeiro de 1758.

Naquela época acreditava-se que as epidemias que grassavam na cidade tinham origem nos armazéns situados na área central – região do entorno da atual Praça XV – condição incompatível, segundo os contemporâneos, com cidade do porte e da importância do Rio de Janeiro.

Alguns negociantes negreiros entraram no Tribunal da Relação questionando se procedia, de fato, a relação entre as epidemias e os armazéns de escravos. O processo arrastou-se naquele Tribunal, mas por decisão do vice-rei Marquês do Lavradio, aqueles comerciantes foram obrigados a se deslocar a nova região demarcada pela Câmara de Vereadores.

O comércio negreiro no Valongo teve sua duração de 1760 até 1830, ano em que o tráfico negreiro efetivamente já estava reduzido. Para alcançar 1.000.000 de escravos seria necessário que entrassem mais de 14 mil escravos por ano. Os livros da Alfândega durante o século XVIII registram no máximo 11.000 em alguns anos (cerca de cinco).

Com a chegada da Corte e assinatura de tratado comercial com a Inglaterra, um dos seus itens estabelecia o compromisso da monarquia portuguesa iniciar a redução do tráfico negreiro, até sua total extinção (que só veio a ocorrer em 1850). Os comerciantes negreiros apressaram-se, então, em trazer mais escravos. Registros na Alfândega para os anos de 1810 e 1811 mostram a chegada de 20.000 escravos, em cada ano.

O cais da cidade (da Misericórdia até o Arsenal da Marinha) ficou incompatível com a demanda oriunda da abertura dos portos do Brasil, pelo príncipe regente D. João, ao comércio com as nações amigas. O número de navios mercantes estrangeiros aumentou significativamente, além dos navios originários do crescimento do comércio interno entre as províncias.

Na última década do século XVIII os comerciantes que usavam os portos do interior da Baía de Guanabara, principalmente os negociantes de Minas Gerais, solicitaram permissão para construírem, às suas custas, um cais na região do Valongo, ou Gamboa. Argumentavam sobre o prejuízo que tinham com a pequenez do “Cais dos Mineiros”, vizinho à Alfândega. Foi negado o pedido pelo vice-rei conde de Resende, sob o argumento de que seria perigoso incentivo ao contrabando de mercadorias, principalmente de escravos.


Este perfeito mapa da região (1791) do Valonguinho-Valongo mostra a Pedra do Sal (“Pedra da Prainha”) avançando pelo mar da baía, interrompendo a ligação entre o trecho da Prainha (atual Praça Mauá) e a marinha do Valongo. Assim como não registra nenhum cais público, apenas os atracadouros dos diversos trapiches.


A ausência de cais público ocorre neste mapa de 1808. Mostra a cidade que D. João encontrou quando chegou.

Dom João, em 1809, resolveu fazer um cais do Largo da Prainha até o morro da Saúde. Foi feito o projeto, mas não tinha o Tesouro recursos para arcar com essa despesa, principalmente fazer o corte na Pedra do Sal e indenizar todos os proprietários que tinham trapiches, ou moradias e comércio ao longo desse cais. A obra se arrastou por anos e a partir de 1821 já há citação documental de que foram construídos parte do cais (muralha), algumas rampas e degraus. É importante frisar que esse cais Joanino destinava-se aos navios mercantes, não negreiros. Os escravos continuavam a desembarcar, serem cadastrados e pagos os impostos na Alfândega [atual Casa França-Brasil], como registra Rugendas em 1828.



Esta aquarela de Thomas Ender (c. 1818) mostra a Pedra do Sal ainda em processo de corte e a praia do Valonguinho-Valongo sem cais.


Neste mapa (1829) observamos que o corte da Pedra do Sal foi totalmente realizado e feito para a nova urbanização da orla, registrando ainda o aparecimento de vários atracadouros e novos trapiches ao longo de toda a marinha.


Gravura de Rugendas (1828) mostrando o processo de chegada dos escravos novos na Alfândega.

Uma grande obra de renovação, ampliação e embelezamento do cais do Valongo foi realizada para o desembarque da imperatriz Theresa Cristina (03/09/1843), esposa de D. Pedro II.


Mapa de 1844, um ano após a construção do cais da Imperatriz (Praça Municipal), mostra a nova zona portuária da cidade do Rio de Janeiro.

Portanto, o cais descoberto na região do Valongo e que poderemos ter a felicidade de visitar é o construído para aquele importante marco político-histórico no Brasil.

O tombamento da região do Valongo como Patrimônio da Humanidade é mais do que recomendável: zona do comércio negreiro, abrigo do campo santo dos escravos novos. O cemitério lá se encontra, sob várias construções da Rua Pedro Ernesto – a antiga rua do Cemitério ─, além de ter sido o cenário vivo da união das nobrezas europeias: os Bourbon e os Bragança, nos trópicos e continente Americano.

Cabe, por fim, destacar que o Brasil é o único país da América que foi reinado e império.


Grandjean de Montigny: Projeto de fonte comemorativa da chegada da imperatriz D. Theresa Cristina. (1843).

Observação: todos os mapas e iconografias pertencem ao Acervo da Biblioteca Nacional e podem ser acessados no seu portal digital.

Escrito por Nireu Cavalcanti. Rio de Janeiro, 20 de dezembro de 2016. Clique no label "História do Rio" abaixo para ler outras matérias neste blog sobre a história da cidade.

1.12.16

HISTÓRIA DO CLIMA DO RIO DE JANEIRO DOS TEMPOS COLONIAIS À ERA DO AQUECIMENTO GLOBAL: SEMPRE FEZ CALOR OU ANTIGAMENTE ERA MAIS FRESCO?

“Que verão insuportável!
Não se pode caminhar!
Que calor desagradável!
Vivem todos a pingar!
Tal verão parece incrível,
É o verão do Senegal!
Ó que calor impossível!
Ó que calor infernal!
É um tormento, uma agonia,
Um martírio de matar!
Só com dez banhos por dia
Pode a gente se lavar!


O ano vai chegando ao fim e o carioca tem a consciência de que, passada a temporada de chuvas, virá o calor implacável, o Rio 40 Graus. Será que antigamente fazia menos calor no Rio de Janeiro? Ou a cidade sempre foi um “forno”, uma "sauna"? A julgar pelos versinhos acima, que encontrei no jornal Correio da Manhã de 21 de fevereiro de 1909, ou pelo hábito da família imperial e da nobreza brasileira de passarem o verão em Petrópolis, parece que o calor carioca é um fenômeno antigo, embora tenha se agravado com o aquecimento global, como veremos. Mas comecemos pelo princípio, pelos primórdios da cidade.

O primeiro registro sobre o clima carioca de que temos notícia é do jesuíta português Fernão Cardim, que aqui esteve como secretário do visitador da companhia, de 1583 a 1598, retornando como provincial da companhia de 1604 a 1609. Em carta ao padre provincial de Portugal onde descreve sua passagem pelo Rio de Janeiro, em dezembro de 1584, Cardim discorre sobre o clima brasileiro. A carta encontra-se na obra Tratados da terra e gente do Brasil que pode ser acessada na Brasiliana Eletrônica. Vejamos o que diz Cardim levando em conta que naquela época grande parte da mata atlântica que cobria nosso litoral ainda estava intacta e a cidade do Rio de Janeiro se restringia a algumas construções no Morro do Castelo e em pequeno trecho da Várzea:

O clima do Brasil geralmente é temperado de bons, delicados, e salutíferos ares, donde os homens vivem muito até 90, cento e mais anos, e a terra é cheia de velhos; geralmente não tem frios, nem calmas [=calor forte causado pelo sol com cessação dos ventos], ainda que do Rio de Janeiro até São Vicente há frios, e calmas, mas não muito grandes; os céus são muito puros e claros, principalmente de noite; a lua é mui prejudicial à saúde, e corrompe muito as cousas; as manhãs são salutíferas, têm pouco de crepúsculos, assim matutinos, como vespertinos, porque, em sendo manhã, logo se sai o sol, e em se pondo logo anoitece. O inverno começa em março, e acaba em agosto, o verão começa em setembro e acaba em fevereiro; as noites e dias são quase todo o ano iguais.

Na época colonial, as Observações físicas meteorológicas feitas na cidade do Rio de Janeiro no anno de 1787, manuscrito de Bento Sanches Dorta, correspondente da Real Academia de Ciências de Lisboa, que podem ser acessadas na Biblioteca Nacional Digital, dão uma ideia do clima da época. A Tabela 3a das Observações, intitulada Graus de Calor no Termômetro, apresenta as temperaturas máxima e mínima de cada mês e a média daquele mês. A seguir, a tabela original, em graus Fahrenheit, seguida de um quadro com sua conversão para graus centígrados. Observe que as temperaturas máximas são relativamente altas para a época, considerando-se a inexistência de ar-condicionado (atingindo um pico de 34,17oC em 3 de março), e que a média anual de 23,41 não está tão distante assim das médias dos últimos cinquenta anos (mais adiante examinaremos séries de temperaturas de 1961 até 2015 obtidas no banco de dados do INMET).




dia
máxima
dia
mínima
média
jan
14
32,22
2
20,00
27,25
fev
8
33,47
2
22,22
28,22
mar
3
34,17
16
20,00
26,06
abr
27
31,39
20
16,39
23,81
mai
19
24,72
6
15,56
20,11
jun
21
26,67
10
12,78
20,56
jul
31
27,78
9
13,89
19,50
ago
27
28,33
15
12,78
19,89
set
29
27,22
2
16,67
22,06
out
3
31,11
20
16,11
23,84
nov
10
30,28
12
16,67
23,88
dez
30
32,78
16
16,11
25,74
MÉDIA ANUAL




23,41

Escreve o meteorologista dos tempos coloniais: “O maior calor desse ano, indicado no termômetro de Fahrenheit, é de 93,5 [34,17oC] pelas horas da tarde do dia 3 de março: havendo no céu várias nuvens brancas espalhadas em forma de barras, e correndo o vento N'. [...] O menor calor foi 55 [12,78oC] anunciado pelo mesmo instrumento duas vezes. Primeira a 10 de junho às 7 da manhã; estando o céu muito claro; e ventando levemente do N'O. [...] Segunda a 15 de agosto às 6 da manhã: havia nuvens negras acasteladas [=empilhadas] formadas pelo céu, e soprava um forte vento de O. [...] O calor médio de todo o ano chegou a 74,16 [23,42oC], resultado que deu a adição de 2816 observações. Uma curiosidade: Em seu estudo meteorológico, Dorta menciona uma terrível tempestade ocorrida em janeiro:

No dia 24 de janeiro de 1787, pelas 2 da tarde estando o barômetro na direção de 28. [?] e o termômetro anunciando 84. [28,89oC] de calor, ventando fortem. do S.O., começou uma grande chuva, acompanhada de horríveis trovões, e continuados relâmpagos de diversos pontos do horizonte, que incendiavam todo o hemisfério, e prolongando-se essa tormenta até as 4.h 20’ [4 horas e 20 minutos], acabou lançando um Raio em uma Corveta, que se achava neste Rio.

O viajante inglês John Luccock, que residiu no Rio de Janeiro de 1808 a 1818 e viajou pelo Brasil, escreve no Capítulo 2 de seu Notes on Rio de Janeiro and the Southern parts of Brazil: "The great heat of the climate of Rio, has repeatedly been alluded to: I have seen Farenheit's thermometer, when exposed to the sun, as high as 130°; at the same time, it reached 96° in the shade. The country round about is, in general, cooler than the city; in some of the mountainous parts, it is much cooler than its immediate neighbourhood." Traduzindo e convertendo: "O grande calor do clima do Rio tem sido repetidamente citado: vi um termômetro Farenheit, quando exposto ao sol, atingir 130° [54 graus centígrados]; ao mesmo tempo, atingiu  96° [36 graus centígrados] na sombra. O campo circundante costuma ser mais fresco do que a cidade; em algumas partes montanhosas, é bem mais fresco do que sua vizinhança imediata." Observe que esse capítulo foi escrito em 1808!

Nessa mesma época, o oficial Thomas O'Neil, da Marinha Real do Reino Unido, vindo na esquadra inglesa que escoltou a corte portuguesa na viagem de Lisboa ao Rio de Janeiro, em seu A concise and accurate account of the proceedings of the squadron under the command of Rear Admiral Sir Sydney Smith, K.S.&c. effecting the escape of the Royal Family of Portugal to the Brazils on November, 29, 1807, observou (a tradução do inglês é minha): “O clima da América do Sul é agradável e saudável, estando livre de muitos inconvenientes que são incidentes a outros países tropicais. Embora situado sob o Trópico de Capricórnio, o ar é poucas vezes imediatamente quente, já que a brisa marinha regularmente começa a soprar de manhã e continua até a noite, quando é sucedida por um agradável vento terrestre.” 

Em seu livro Travels in South America, During the Years of 1819-20-21 (Viagens na América do Sul durante os anos de 1819-20-21) o negociante e viajante inglês Alexander Caldcleugh, que acompanhou o ministro inglês à corte no Rio, escreveu: “O mês mais quente é fevereiro, quando o barômetro fica em cerca de 86° ou 88° Fahrt. [30 ou 31°C] e, se nesse período, a ordem da natureza é invertida permitindo que a brisa terrestre prevaleça o dia inteiro, um evento que felizmente acontece raramente, o termômetro se eleva proporcionalmente. Em uma ocasião, quando a brisa terrestre continuou até quatro horas da tarde, o ar esteve intoleravelmente opressivo, parecendo o vento quente da Índia. Às cinco horas o temporal começou, e uma queda imediata ocorreu no termômetro, que logo após a luz do sol na manhã seguinte, quando foi registrado, estava assim: máxima 120° [48,9°C], mínima 56° [13,3°C], uma diferença de 84º. Durante o verão os habitantes preservam uma baixa temperatura na casa abrindo as janelas por uma ou duas horas à luz do dia e depois fechando as persianas o resto do dia. 

Em dezembro de 1817, Rose Marie de Freycinet, que veio (inicialmente como clandestina) junto com o marido, oficial da Marinha, na expedição científica da corveta Uranie ao redor do mundo, ao chegar no Rio de Janeiro em dezembro de 1817, escreveu em seu diário: “Il fait extrêmement chaud dans la ville, mais chaque jour, vers 11 heures du matin, il s'éleve de la rade un vent frais, que nous autres marins nous appelons une petite brise, qui vient rendre la chaleur supportable et entretenir l'éclat de la verdure." Tradução: "Faz muito calor na cidade, mas todos os dias, em torno das 11 da manhã, levanta-se, do porto, um vento fresco que nós, marinheiros, chamamos de brisa leve, que torna o calor suportável e conserva o brilho da vegetação." (PDF com texto original baixado do site Gallica. Ver também: Luís Edmundo, Recordações do Rio Antigo, “Diário de Rose de Freycinet”.)

A inglesa Maria Graham, que em 1821 acompanhou o marido, oficial da marinha real britânica, em missão naval à América do Sul, em 1o de março de 1822 escreveu o seguinte em seu diário de viagem sobre o calor carioca: O tempo agora está excessivamente quente, o termômetro raramente caindo abaixo de 88[Fahrenheit = 31oC], e tivemos a bordo 92o Fahrenheit [33,3oC]. Em outro ponto do diário, no contexto dos distúrbios entre tropas portuguesas e brasileiras após a decisão de D. Pedro de, desobedecendo às Cortes, permanecer no Brasil, quando quis ir até o Campo de Santana ver as tropas brasileiras reunidas, Maria Graham comenta que custou a conseguir uma carruagem para levá-la até lá, já que "estava quente demais para ir andando". Depois que o navio deixa o Rio rumo ao Chile, ela anota: "O frio aumentou sensivelmente. O termômetro Fahrenheit com frequência marcava 92o [33,3oC] no porto do Rio. Agora está em 68o [20oC], e temos muitos doentes."

Em seu diário de 5 de outubro de 1824, o naturalista naturalizado russo barão Georg Heinrich von Langsdorff, ao defender a transferência da capital brasileira para o Arraial de Curral D'El Rei, futura Belo Horizonte, devido à sua posição estratégica “no centro desta Província populosa e do Império”, cita como ponto negativo do Rio de Janeiro, além de “sua distância em relação às mais longínquas províncias”, o “calor e o clima” (Fonte: pág. 159 da edição dos diários pela Fiocruz, acessível aqui).

Também o arquivista real Luís Joaquim dos Santos Marrocos, que chegou no Rio em 1811 acompanhando a transferência da biblioteca real de Lisboa para cá, em suas cartas ao pai reclama do calor carioca:

“Eu tenho curtido um grande defluxo procedido do ar infernal desta terra e tenho sofrido uma grande hemorragia de sangue (sic) pelo nariz, por cuja causa estou temendo os grandes calores do verão, porque me hão de afligir muito.” (21/7/1811, fonte: “MEMÓRIAS E COTIDIANO DO RIO DE JANEIRO NO TEMPO DO REI”, Biblioteca Nacional Digital)

“tenho sofrido grandes incômodos com o calor que vai agora apertando com força, não obstante as chuvas e trovoadas; em um destes dias caiu um raio no iate de S.A.R., o Monte de Ouro, mas não causou dano. Aqui são frequentes e fáceis em cair na terra, por serem muito baixas as trovoadas e os ares muito crassos.” (17/11/1812)

“tenho passado muito incomodado com esta quadra de calor, que sendo muito intenso, afrouxa, abate e torna a gente incapaz para tudo, chegando o termômetro a subir 95 graus e nunca descendo de 80 [graus Fahrenheit = 26,7oC].” (25/1/1814)


“No princípio de janeiro, levantei-me da cama, mesmo por causa do intenso calor da estação e comecei a tomar tônicos e cáusticos, por causa do ouvido e olho” (2/2/1817)

A austríaca Ida Pfeiffer, uma ex-pacata dona de casa que, depois de criar os filhos, resolveu se dedicar às viagens internacionais e deu duas voltas ao mundo, escreveu sobre o clima do Rio, cidade onde desembarcou em 17 de setembro de 1846: Achei o clima e o ar bem opressivos e desagradáveis, o calor, embora naquela época do ano mal passasse dos 24 graus na sombra, bem debilitante – nos meses quentes, que duram do fim de dezembro até maio, o calor sobe na sombra até 30 graus, ao sol acima de 40 graus. Eu suportei no Egito um calor maior com bem mais facilidade do que um menor aqui, o que talvez resulte do fato de ali ser mais seco, enquanto aqui reina uma grande umidade [...]

 Mas se sempre fez calor no Rio, deve haver registros disso em nossa literatura. Aqui estão alguns: 

► Em Fogo fátuo, um romance de base memorialística do escritor brasileiro Coelho Neto, continuação de A Conquista, tendo como personagens sua geração de poetas, teatrólogos, jornalistas, intelectuais e boêmios cariocas no período que vai da Abolição até os primeiros anos da República Velha. No romance existem duas menções ao calor do Rio.

Página 41:
O verão ardia asfixiante com a febre amarela no auge. Tinha-se a impressão de que os telhados e as pedras do calçamento crepitavam.

Página 62:
O que está me fazendo falta é uma boa borrasca, como as de janeiro, na Europa: neve nas ruas, o vento a esfrolar frocos, o termômetro abaixo de zero, como eu, e um bom lume a arder no fogão Pode-se lá viver a 36o à sombra, com o mesmo capote com que se atravessava o Neva em trenó!? Isto é um país horrendo! Toda a minha indumentária decente está inutilizada: peliça, gorros de astracã, luvas forradas... Se eu arranjasse um emprego na fábrica de gelo, ainda bem. Mas qual! Hei de morrer assim.

► Em "folhetins" (como se chamavam então as crônicas publicadas na imprensa) "Ao Correr da Pena" escritos por José de Alencar antes de se tornar um romancista célebre. No folhetim de 26 de novembro de 1854, escreve Alencar: "A força do verão já se vai fazendo sentir. e aqueles que não estão presos à vida da cidade estão já tratando de fugir desse clima ardente, e de procurar algures um refrigério aos calores da estação." Mas menos de um mês antes (29 de outubro) Alencar citara tardes de verão mais amenas: "Quando estiverdes de bom humor e numa excelente disposição de espírito, aproveitai uma dessas belas tardes de verão como tem feito nos últimos dias, e ide passar algumas horas no Passeio Público, onde ao menos gozareis a sombra das árvores e um ar puro e fresco, e estareis livres da poeira e do incômodo rodar dos ônibus e das carroças." 

Em crônica "A Semana" de Machado de Assis de 7 de janeiro de 1894: 
Quem será esta cigarra que me acorda todos os dias neste verão do diabo, — quero dizer, de todos os diabos, que eu nunca vi outro que me matasse tanto. Um amigo meu conta-me coisas terríveis do verão de Cuiabá, onde, a certa hora do dia, chega a parar a administração pública. Tudo vai para as redes. Aqui não há rede, não há descanso, não há nada. Este tempo serve, quando muito, para reanimar conversações moribundas, ou para dar que dizer a pessoas que conhecem pouco e são obrigadas a vinte ou trinta minutos de bond [bonde]. Começa-se por uma exclamação e um gesto, depois uma ou duas anedotas, quatro reminiscências, e a declaração inevitável de que pessoa passa bem de saúde, a despeito da temperatura. 
— Custa-me a suportar o calor, mas de saúde passo maravilhosamente bem.  

 Em O Ateneu de Raul Pompeia: "Por ocasião dos intensos calores de fevereiro e março e do fim do ano, havia aí dois banhos por dia. E cada banho era uma festa [...]"

 Em O Triste Fim de Policarpo Quaresma de Lima Barreto:

Às vezes, o fiel Anastácio seguia-o no descanso e ambos, lado a lado, à sombra de uma fruteira mais copada, ficavam a ver o ar pesado daqueles dias de verão que enrodilhava as folhas das árvores e punha nas cousas um forte acento de resignação mórbida. Então, aí por depois do meio-dia, quando o calor parecia narcotizar tudo e mergulhar em silêncio a vida inteira, é que o velho major percebia bem a alma dos trópicos, feita de desencontros como aquele que se via agora, de um sol alto, claro, olímpico, a brilhar sobre um torpor de morte, que ele mesmo provocava.

► Em Baú de Ossos, primeiro livro de memórias de Pedro Nava, onde ele conta como seu avô literalmente “morreu de calor”, especificamente, de tísica galopante resultante de um banho gelado tomado para aliviar o calor. Conta Nava:

Só o que meu avô não tolerava era o calor. Aquele túnel ardente em que se tornava a Rua General Câmara em janeiro, fevereiro, março, quando pesava um ar de forno úmido, cuja imobilidade lhe fazia suspirar pelos secos ventos da Fortaleza. A noite ainda era pior e parecia que as rochas escalavradas das nossas encostas esperavam que o sol escondesse para substituí-lo, irradiando aquela temperatura que tinha cheiro de tijolo cozido. Meu avô aproveitava essa hora para sair pelo bairro com a mulher, procurando um pouco de ar respirável. [...] Num dia particularmente quente [em 1880], falhou o seu juízo e ele chegou em casa mais cedo, ar deliberado, acompanhado de galego portador de uma barra de gelo. Mandou pô-la na banheira, abriu a torneira, deixou derreter e quando a água estava bem fria, surdo às advertências de Dona Nanoca, meteu-se no banho, em que ficou até sentir o mal-estar que o levou para a cama tremendo todo, naquele arrepio profundo da febre, que põe ventos polares nas areias da Líbia. [...] A 1o de junho de 1880 meu avô saiu de casa para sempre. Seguiu o mesmo trajeto cotidiano, agora no coche fúnebre que minha avó viu estrelar-se como ameba preta dentro de suas lágrimas [...] Ali, na Quadra 38, Sepultura Perpétua 2.502, a terra lhe comeria as carnes e o lençol-d'água lhe lavaria os ossos.

Vimos assim que o Rio de Janeiro sempre foi quente no verão, mas será que o aquecimento global aumentou ainda mais as temperaturas? Para responder a estas perguntas, obtive no banco de dados do INMET (Instituto Nacional de Meteorologia) as temperaturas máxima média, compensada média e mínima média, mês a mês, de 1961, quando os dados começaram a ser registrados, até 2015. Depois calculei as médias anuais, que você pode ver no quadro abaixo. Observe que faltam alguns anos, seja porque a série nesses anos está incompleta (caso de 1979 a 1982), ou porque os dados não foram registrados naqueles anos (caso da lacuna de 1991 a 2002).

Ano
Temperatura Máxima Média
Temperatura Média Compensada
Temperatura Mínima Média
1961
28,07
24,53
21,65
1962
26,55
23,19
20,47
1963
27,55
23,85
20,76
1964
26,34
22,99
20,24
1965
27,79
24,21
21,36
1966
27,80
24,23
21,36
1967
27,09
23,88
21,30
1968
26,09
22,74
19,97
1969
27,10
23,76
21,11
1970
27,12
23,65
20,79
1971
27,32
23,77
20,81
1972
27,87
24,16
21,28
1973
27,62
24,26
21,54
1974
26,92
23,58
20,70
1975
26,61
23,27
20,43
1976
26,73
23,44
20,64
1977
27,57
23,95
21,01
1978
27,03
23,59
20,70
1983
26,95
23,69
21,18
1984
27,46


1985
27,06


1986
27,77


1987
27,66
0,00
21,23
1988
27,29
0,00
20,77
1989
27,10
0,00
20,91
1990
27,82
24,19
21,19
2003
30,60
25,52
22,16
2004
29,63
24,77
21,44
2005
30,57
25,49
22,02
2006
30,29
25,09
21,67
2007
30,92
25,51
21,89
2008
29,80
24,80
21,48
2009
30,85
25,72
22,21
2010
30,85
25,62
22,18
2011
29,91
24,77
21,59
2012
30,80
25,39
22,12
2013
29,46
24,90
21,74
2014
29,80
25,36
22,02
2015
29,99
25,67
22,50

Observamos que, de 1961 a 1990, a temperatura média compensada (23,74oC) praticamente empata com aquela de 1787 (23,41oC), ou seja, durante séculos a temperatura carioca manteve-se estável. Mas no século XXI as temperaturas dão um salto, como mostra o quadro a seguir:


Faixa de anos
Máxima média
Média compensada
Mínima média
1961 a 1990
27,24
23,75
20,93
2003 a 2015
30,27
25,28
21,92


A temperatura máxima média aumentou mais de três graus, a temperatura média aumentou um grau e meio, e a mínima média ficou um grau mais alto. Moral da história: O Rio sempre foi quente, mas no século atual esquentou ainda mais. (PS. Clique no label calor carioca abaixo para ver outras postagens sobre o tema.)