10.4.18

ILHA DE PAQUETÁ



Paquetá já não tem o charme dos anos 1920 quando senhorinhas e rapazes realizavam convescotes na aprazível ilha, com concurso de danças (Revista da Semana, 11 de novembro de 1922), nem é mais cenário de romances como A moreninha. Ninguém mais vem a Paquetá para tratamento de saúde da filha (sol e banhos de mar), como fez Licinio Athanazio Cardoso de 1891-95, e a ilha não recebe mais estadistas caídos em desgraça como o patriarca da independência. Sequer recebe mais elogios de estadistas, como o de Joaquim Nabuco, que em Minha formação escreve que “A ilha de Paquetá é uma joia tropical, sem valor para os naturais do país, mas de uma variedade quase infinita para o pintor, o fotógrafo e naturalista estrangeiro, nem se compõem mais canções como Luar em Paquetá

Ninguém mais convida a menina “pra tomar banho em Paquetá” (ou mesmo “pra piquenique na Barra da Tijuca, ou pra fazer um programa no Joá”), como na canção Vai com jeito imortalizada por Emilinha Borba. Nas revistas de hoje você não lê mais elogios pomposos como a graciosa Paquetá reserva apenas aos que penetram no seu seio de perfumes a contemplação das formosuras que não foram de longe pressentidas (Revista da Semana, 2 de abril de 1921), nem lê mais anúncios dizendo coisas como Aurora, seu procedimento me surpreende e me magoa. Esperei das 3 às 5 por você e só ontem recebi um recado de Lourdes, pelo telefone, dizendo que você não voltou de Paquetá [...] (Revista da Semana, 17 de setembro de 1921).

A classe média da Zona Sul já não passa os domingos lá, como passávamos nós, no meu tempo de criança, nos remotos anos 1960. O público agora é outro, é mais povão, torcida do Mengão, tipo público da Quinta da Boa Vista, que aliás já foi jardim da nobreza brasileira. Após uma campanha contra os maus tratos aos cavalos, as centenárias charretes foram substituídas por umas charretes elétricas que não têm a mesma poesia, mas têm a vantagem de não fazer cocô nas ruas. Tudo mudou.

Apesar dessas mudanças, Paquetá preserva sua essência: as casas ainda conservam muros baixos, jardins fronteiros, janelas sem grades. Carro na ilha só a ambulância (que raramente circula, já que a calma paquetaense favorece a boa saúde). Você entra na Casa de Arte numa tarde de domingo e se surpreende com uma seresta como nos tempos do Maestro Anacleto, que nasceu e sempre viveu na ilha.

Gente ilustre esteve ou morou em Paquetá: é o que nos ensinam as placas que preservam a memória da ilha. Marie Curie, que veio ao Brasil em 1926, teria dito ao jornalista Austregésilo de Athayde, segundo uma dessas placas, que “Paquetá é sem dúvida o mais belo recanto do mundo”. Outra dessas placas revela que Paquetá foi descoberta pelo cosmógrafo francês André Thevet em 18 de dezembro de 1555, ou seja, na época da França Antártica, ocupação que precedeu a fundação oficial da cidade. O Barão de Japurá, em Romances históricos por um brasileiro, que malgrado o título é um livro de poesias, escreveu: “Na Paquetá primorosa / Onde tristes mas sem tacha [=mácula]/ Passam-se os fugazes dias / Do ilustre e imortal Andrada [José Bonifácio]”. Joaquim Nabuco, no capítulo de Minha formação dedicado ao Barão de Tautphoeus, conta que

Nós tínhamos nos últimos tempos da vida de Tautphoeus uma pequena solidão em Paquetá, para as vizinhanças do chamado Castelo, em um remanso daquelas encantadoras paragens. Era uma antiga casa térrea a que um dos proprietários, um inglês, juntara uma varanda em roda e a meio um pequeno sobrado com venezianas verdes e balcão por onde subia uma trepadeira, dando-lhe um aspecto ao mesmo tempo singelo e pitoresco de residência estrangeira. A frente deitava para o mar e a parte baixa da costa do outro lado formava um suave fundo de quadro. A casa estava sobre uma pequena elevação, e o declive para a praia era tomado por um grande tabuleiro de grama, cuidadosamente tratado, como em um parque. [...] A nossa vivenda de Paquetá agradava-lhe por lhe dar com o silêncio e isolamento, que cercava a biblioteca, a escolha, à vontade, do mar, do campo e da montanha: as praias extensas, a floresta acessível, a planície atapetada, se lhe agradava passear; a água serena, o mar fechado à vista, como um lago suíço, se queria tomar o nosso barco e mandar o mudo, nosso saudoso remador, abrir a vela para os pequenos ilhotes de onde se avistam em um extremo os Órgãos de Teresópolis, e no outro a serrania da cidade... Ele vinha sempre aos sábados e ficava o domingo, e às vezes, nas curtas férias que tinha, dias seguidos...

Uma moradora que foi para Paquetá com sete anos e agora está com 77, se empolga e conta que “o imperador e a princesa Isabel frequentavam a ilha [!] e que a Capela de São Roque fica no lugar onde morou o santo [!!]”. Exageros à parte, a Capela é realmente uma das mais velhas do Rio, como você pode conferir na nossa postagem Qual a Igreja mais Antiga do Rio de Janeiro? (para acessar clique aqui).

Dito isto, o vídeo amador acima e as fotos a seguir contam mais que mil palavras!


Na barca

Paquetá

Capela do Cemitério de Paquetá, projeto do artista Pedro Paulo Bruno

Casas antigas & ciclista

Janela & flores

Raízes

Rio visto de Paquetá

Paquetaenses

Árvores

Capela de São Roque em Paquetá. A Capela de São Roque foi construída no finalzinho do séc. XVII (em 1698 segundo o Guia do patrimônio cultural carioca) nas terras da Fazenda de São Roque. O santo padroeiro dos proprietários da fazenda passou a ser também o dos habitantes da ilha. Até então a comunidade da ilha tinha de ir de barco até Magé a fim de participar de cultos religiosos. Tombada por decreto municipal de 1999.

Casa de Artes Paquetá. Vez ou outra rola um chorinho ali, confira no site.

Pescadores

Chalé

Tronco serrado de uma árvore que tombou

As casas ainda conservam muros baixos, jardins fronteiros, janelas sem grades

Na volta, a barca se aproxima do Centro do Rio. Fotos do editor do blog.

HORÁRIO DAS BARCAS para você também ir lá:


20.3.18

ORATÓRIO DO MORRO DA PROVIDÊNCIA

PARTE I: O MAPA, AS FOTOS E UM VÍDEO


O agora conhecido como "Oratório do Morro da Providência" com barracos em torno

O Oratório de perto

Altar dentro do Oratório

A porta

Dona Chiquinha (Francisca), a guardiã do Oratório (ver vídeo ao final)

Frente do Oratório. A inscrição "A JESUS CHRISTO" e a cruz no topo se perderam


PARTE II: OS MITOS

O Oratório do Morro da Providência e o próprio morro estão envoltos em mitos. São eles:

1)
lenda urbana de que o oratório foi erguido pelos soldados retornados de Canudos em memória das almas dos colegas que tombaram no conflito. Daí também ser conhecido como Capela das Almas. Na cartilha do teleférico lemos que 
a capela foi erguida em homenagem aos combatentes que não resistiram à Guerra de Canudos, na Bahia. Não é verdade.

2) O mito de que os soldados retornados de Canudos iniciaram a ocupação do Morro, antes desabitado. Tampouco é verdade.


3)  A mentira deslavada de que o morro recebeu esse nome porque os soldados, ante o descumprimento da promessa de receberem residências como prêmio pela vitória, tomaram a providência de ocupar o morro (mentira essa que constava do verbete "Morro da Providência" da Wikipedia antes que o editor deste blog o corrigisse).


O então conhecido como "Santuário do Cristo Redentor" em fotografia do início do século XX de Augusto Malta. Foto obtida na Biblioteca Nacional Digital

PARTE III: OS FATOS

1) Quando fotografado por Augusto Malta no início do século XX (foto acima), o “Oratório do Morro da Providência” — situado na na parte sudoeste do morro |(ver mapa acima), tombado pela Prefeitura em 1986 e também conhecido por “Capela das Almas”  denominava-se Santuário do Cristo Redentor e em seu frontispício lia-se A JESUS CHRISTO (a inscrição e a cruz superior se perderam). Depois da construção da estátua do Cristo no alto do Corcovado, o santuário ao pé dessa estátua recebeu esse mesmo nome. Uma placa no interior do Oratório indica que foi construído em 1900-1901. 


Placa no interior sugere que o Oratório tenha sido construído em 1900-01

O Oratório foi inaugurado no dia 1 de janeiro de 1901, o primeiro dia do século XX (uma explicação: assim como o século I foi do ano 1 ao 100, o século XIX foi de 1801 a 1900, o século XX começando em 1901; a comemoração do início do século XXI em 2000 foi um grande equívoco). Foi erguido com o objetivo explícito de comemorar a passagem do século, como mostram a foto abaixo da Revista da Semana de 6 de janeiro de 1901 e as notícias na imprensa da época.



Por exemplo, na pág. 2 da edição de 15 de dezembro de 1900 do semanário católico O Apóstolo, lemos (texto adaptado à ortografia atual): "Está quase concluído o monumento, a grandiosa Cruz que no Morro da Providência será erigida para comemorar a passagem do século e o amor deste povo a Jesus Cristo Redentor. Será bento e inaugurado a 31 do corrente pelo Ex. Rvm. Sr. Arcebispo. Nossos louvores a seus promotores." Já na pág. 2 da edição de 22 de dezembro do mesmo ano lemos: "A inauguração da Cruz, que como monumento em honra a Jesus Cristo se erguerá no Morro da Providência, se realizará no dia 1 de Janeiro, às 5 horas da tarde, sendo benta pelo Ex. Sr. Arcebispo D. Joaquim Arcoverde." Portanto, sobre a data da construção do Oratório não paira dúvida.

Vejamos outros registros na imprensa sobre a inauguração do monumento.

Gazeta de Notícias de 24 de dezembro de 1900:



Jornal do Brasil de 28 de dezembro de 1900:



O Paiz de 30 de dezembro de 1900:



Estas notícias derrubam o mito de que o Oratório teria sido erigido em homenagem aos soldados tombados em Canudos. Na verdade, homenageou a mudança do século e a devoção a Jesus Cristo.

2) Outro mito que costumamos ouvir é que a ocupação do morro começou pelos soldados retornados de Canudos (1897). O mito cai por terra quando lemos em jornais e outras publicações anteriores menções a moradores e casas do Morro da Providência. Já existiam moradores lá havia tempos. Segundo Milton Teixeira, desde a época colonial. 

O que os soldados criaram foi a favela. Aliás, os soldados mudaram o nome para Morro da Favela em alusão a um morro existente em Canudos, que aliás tinha esse nome devido a um arbusto, denominado "favela" ou "faveleiro", existente na região, como vemos em Os Sertões (ver Anexos ao final da postagem). Mais tarde o morro retomaria o nome original.

Na imprensa do século XIX encontramos fartas indicações de que o morro já era habitado bem antes da chegada dos soldados de Canudos e de que a denominação "Morro da Providência" é bem anterior à chegada desses soldados, derrubando assim também o terceiro mito. 

► Diário do Rio de Janeiro de 30 de agosto de 1838 menciona a cobrança da décima urbana (espécie de IPTU) aos proprietários e inquilinos em vários logradouros, entre eles o Morro da Providência:



► O Diário do Rio de Janeiro de 2 de abril de 1846 publicou esta nota:

Não se sabendo actualmente a residencia do Sr Antonio Luiz Machado que morou no morro da Providencia n 21 A, roga-se lhe que a declare porque uma pessoa lhe deseja fallar para negocio commum.

► No Correio Mercantil de 30 de abril de 1848 encontramos esse retrato nada lisonjeiro do morro:

Tendo-se virado a atenção publica para o museu da rua da Providencia, ninguem se lembra de olhar para o morro da Providencia, ou antes da formiga [nome que tinha na época a vertente sul do morro], porque ali não há providencia de qualidade alguma, nem mesmo de luz, porque a illuminação é coisa que inda lá não chegou, patrulhas até ignorão a existência do morro, pedestres inda menos; entretanto em relação á pouca extensão já ha muito povoado, e os mal feitores e facinorosos tem ali um excellente asylo para se livrarem das pesquisas da polícia.

► Na primeira página do Correio Mercantil de 21 de junho de 1856 lemos esta queixa:

Pedem-nos que chamemos a attenção da autoridade para a falta de asseio que ha na rua do Silva Manoel [atual André Cavalcanti] e para o morro da Providencia, onde mora muita gente, e onde não ha nem illuminação, nem agua, nem asseio, nem policia.

► Em 19 de julho do ano seguinte o Correio Mercantil noticia a chegada da iluminação pública no Morro: O morro da Providencia não tinha lampeões, e pelo desvelo das autoridades competentes forão ultimamente alli postos para conforto e segurança de seus moradores.

► Em 20 de março de 1860 esse mesmo jornal informa que "o morro da Providencia continua, em maior escala do que dantes, a servir de deposito de immundicias".
► O Boletim do Ministério do Império de maio de 1861 cita um ofício ao inspetor geral das obras públicas solicitando um “parecer sobre a necessidade de abastecer de água potável o morro da Providência; propondo ao mesmo tempo os meios convenientes para levar-se a efeito semelhante medida”.

► O Boletim da Câmara Municipal da Corte de 1863 cita à pág. 10 um requerimento para a construção de uma escada da rua do Sacco [Rua do Saco do Alferes, atual Rua da América] ao Morro da Providência:

O Sr. Dr. Monteiro dos Santos apresentou os seguintes pareceres:

"Sobre a informação do engenheiro ácerca do requerimento de alguns moradores e proprietarios do Morro da Providencia, pedindo permissão para fazerem gratuitamente no dito morro uma escada ou rampa para á rua do Sacco, sendo a obra inspeccionada pela directoria das obras municipaes: conformo-me com informação do engenheiro. Rio, 15 de maio de 1863. – Dr. Monteiro dos Santos."
– Foi approvado.

► Notícia publicada na primeira página do Jornal do Brasil de terça-feira, 5 de setembro de 1873:

BAILE A’ NAVALHA

Francisco Miguel do Nascimento dansava hontem alegremente num baile, no morro da Providencia.

Como nessas occasiões o sangue se esquenta e “o sangue é que faz mal ao corpo” o cunhado de Nascimento, de nome Josué José Gomes agrediu-o, dando-lhe tres navalhadas.

E o pobre homem passou do baile para a Misericordia.

► Também em O Paiz encontramos indícios de ocupação pré-Canudos, por exemplo, na edição de 12 de setembro de 1885, na seção ANNUNCIOS, consta: "ALUGA-SE a casa do Morro da Providencia n. 23: está limpa; para tratar na rua do General Camara n. 365." E na pág. 2 da edição de 22 de novembro de 1885 lemos: "Juvencia Maria Rosa da Conceição, moradora em um casebre no morro da Providencia, estando ante-ontem, ás 5 horas da tarde, junto ao fogão, fazendo o jantar, foi presa pelas chammas, resultando ficar bastante queimada." E na edição de 22 de abril de 1886 de O Paiz, lemos:

O governo imperial, que tão solicito se tem mostrado em favorecer a construcção de casas e alojamentos para as classes operarias, concedendo ás emprezas que a isso se propõem os favores marcados em lei, não póde deixar de attender á reclamação que lhe fazem por este meio os moradores do morro da Providencia.

Reside neste logar grande numero de operarios e pessoas que trabalham por soldadas, não só pelo menor aluguel que ali pagam, como pela elevação do solo, que lhes dá presumpção de salubridade, mais do que lhes promettem os bairros baixos da cidade. Essas condições, infelizmente, são destruidas pela má distribuição da agua.

Estas notas & notícias da imprensa daquela época mostram que o morro já era habitado antes da vinda dos soldados de Canudos no final do séc. XIX. 

3) O terceiro mito, de que o nome do morro se deve à providência tomada pelos soldados, as notícias da imprensa que acabamos de ver o desmentem. A menção mais antiga que achei ao Morro da Providência é a de 1938 supracitada. A análise de mapas antigos mostra que, até meados do século XIX, o que viria a ser o Morro da Providência era mostrado como fazendo parte do Morro do Livramento. Geograficamente falando, a Providência não é um morro separado, e sim um "cocoruto" no lado sudoeste do Livramento, tanto é que a Ladeira do Barroso que sobe o Morro do Livramento depois prossegue, por uma escadaria, Morro da Providência acima. Para ver um mapa de 1831 onde só existe o Morro do Livramento clique aqui. Para um mapa de 1858 onde já aparece o Morro da Providência clique aqui.

PARTE IV: O MISTÉRIO

A foto da Estação Marítima, de 1881, abaixo dá a impressão de que o Oratório já existia naquela época. Encontra-se na pág. 30 de Vistas Photographicas da Estrada de Ferro D. Pedro 2 que você pode consultar clicando aqui. A impressão é tão forte que no Inventário de 2015 dos Monumentos do Rio de Janeiro publicado pela Prefeitura lemos que o oratório "já aparece tal qual numa fotografia de 1881, dezesseis anos antes daquela guerra fratricida [Guerra dos Canudos]." Só que vimos farta documentação comprovatória de que o oratório foi inaugurado na virada para o século XX. Como é possível um oratório construído em 1900 constar de uma foto de 1881?

Oratório visto atualmente da Gamboa

Foto da Estação Marítima, de 1881, dando a impressão de que o Oratório já existia naquela época 

Detalhe ampliado da foto anterior. O formato não é exatamente o mesmo do posterior Oratório: as janelas não são ogivais, falta a cúpula e a cruz.

Aumentando ainda mais o mistério, duas gravuras antigas, uma de Martinet de 1847 e a outra de Sisson de data desconhecida aparentemente também mostram o oratório!!!


Gravura de Alfred Martinet de 1847 obtida na Biblioteca Nacional Digital


Gravura intitulada "Cemeterio Inglez na Gamboa" do Álbum do Rio de Janeiro (sem data) de Sebastien Auguste Sisson, artista francês que chegou no Rio de Janeiro em 1852

O historiador amador G. J. Sá Barros tem uma teoria interessante para tentar dirimir esse mistério. Depois que o corsário francês Duguay-Trouin, comandando uma poderosa esquadra, aproveitando a névoa em 12 de setembro de 1711, penetrou na Baía da Guanabara, sem ser interceptado pelas duas fortalezas guarnecendo os dois lados da entrada da barra (Santa Cruz e São João, existentes até hoje), tratou de tomar de assalto a Ilha das Cobras (13/9) e depois desembarcou na Praia de São Diogo, aos pés do morro de mesmo nome, onde fica hoje o Viaduto dos Marinheiros, ocupando os morros da atual Zona Portuária. Neste detalhe de um mapa francês de 1711 sobre a captura do Rio de Janeiro (Prise de Rio-Janeyro que você pode acessar aqui) vemos que o primeiro acampamento (Premier Campement) dos invasores foi nos morros de São Diogo, do Pinto (na época chamado de Morro de Paulo Caieiro, ou Cairô/Cairu), e o Morro do Livramento/Providência. O segundo acampamento (Second Camp) foi no Morro da Conceição.



A tese de G. J. Sá Barros é que o oratório erguido em 1900 mas que misteriosamente "já aparece em fotografias e gravuras anteriores" na verdade não foi construído do nada, mas aproveitou uma velha atalaia abandonada, remanescente dessa ocupação francesa dos morros ou construída logo depois na onda de fortificação da cidade em que se tentou "correr atrás do prejuízo" (da qual resultou a Fortaleza da Conceição). Diz Sá Barros: "IMAGINA aquele morro da Providência que é uma pedra inteira, ardendo no sol de primavera de um Rio de Janeiro com 40 graus? Ficaram dois meses os franceses aqui? Ali vigiando tudo sem um telhado no alto do morro ardente expostos ao sol (insolação) e pegando vento e chuvas? Ali surgiu uma atalaia?" O detalhe de um mapa de 1850 abaixo mostra o local da atalaia, futuro oratório, marcado com um quadradinho (sob a seta no meio do mapa).



PARTE V: APÊNDICES

► TRECHO DE Brasil Gerson, História das ruas do Rio, quinta edição, p. 183

Ao regressarem das expedições contra Antônio Conselheiro, no fim do século passado [XIX], receberam os soldados do Coronel Moreira Cesar e do General Artur Oscar, alguns recursos para instalar-se em casa própria no Rio, e foi ali, nas abas da Providência, que eles o fizeram, e logo disseram que ela era a sua “favela” carioca, numa alusão ao morro do sertão baiano de onde a artilharia legalista bombardeava o reduto daqueles jagunços místicos... E o nome, popularizando-se, ficou sendo também dos nossos demais conglomerados humanos semelhantes para, afinal, figurar depois no dicionário como um novo brasileirismo, bem típico dos tempos modernos, nas nossas atravancadas metrópoles.

► TRECHOS DE Euclides da CunhaOs Sertões, Editora Nova Cultural, págs. 23-4, 31, 37

Todas traçam, afinal, elíptica curva fechada ao sul por um morro, o da Favela, em torno de larga planura ondeante onde se erigia o arraial de Canudos[.]

Galgava o topo da Favela. Volvia em volta o olhar, para abranger de um lance o conjunto da terra.

Do topo da Favela, se a prumo dardejava o Sol e a atmosfera estagnada imobilizava a natureza em torno, atentando-se para os descampados, ao longe, não se distinguia o solo.

As favelas, anônimas ainda na ciência — ignoradas dos sábios, conhecidas demais pelos tabaréus — talvez um futuro gênero cauterium das leguminosas, têm, nas folhas de células alongadas em vilosidades, notáveis aprestos de condensação, absorção e defesa.

► E para terminar, uns versinhos engraçadinhos que pesquei no Jornal do Povo de 24 de novembro de 1879:

Fui á cata do Bandarra
No morro da Providencia
Para intervir na pendencia
Entre a formiga e a cigarra;
Que eu nunca toquei guitarra
Nos harens de Salatino;
E o cervejeiro Gambrino
Nunca indagou minha sorte
Se eu sou do sul ou do norte
Se Facundes ou Galdino.

15.3.18

PLANTA DA CIDADE DE SÃO SEBASTIÃO DO RIO DE JANEIRO COM SUAS FORTIFICAÇÕES (1713)


A Planta da Cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro com suas Fortificações, do Brigadeiro João Massé é a primeira das que se conhecem, a mostrar em escala correta, todo o centro urbano quando a cidade não alcançava ainda o local da futura Rua da Vala [atual Uruguaiana].

Faz parte do manuscrito desse engenheiro militar francês, a serviço de Portugal: “Relação de todas as fortificações e reparações necessárias para a conservação e defesa da cidade de S. Sebastião do Rio de Janeiro o do seu porto.” Rio de Janeiro, 1 de maio de 1714.

Massé foi um dos vários engenheiros que Lisboa nos enviou durante o século XVIII, com carta patente de Dom João V de 17 de junho de 1712 e encarregado de “fazer examinar e reparar as fortificações... e fazer as mais que forem necessárias para a defesa e conservação” da Cidade.

Nesta Planta vê-se nitidamente que a última rua cordeada [=alinhada] paralelamente ao mar era a dos Ourives [mutilada pela abertura da Av. Central e depois da Av. Pres. Vargas, correspondia às atuais Rua Rodrigo Silva e Rua Miguel Couto]; além só havia a Igreja do Rosário e uma ou outra casa. O morro de Santo Antônio estava como que isolado da cidade propriamente dita.

(Texto extraído de Raymundo de Castro Maya, A muito leal e heroica cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro, edição fac-símile de 2015, pag. 28  a edição original, hoje rara, foi de 1965. A planta original encontra-se no Arquivo Histórico Ultramarino de Lisboa.)


LEGENDA DA PLANTA, na ortografia atual, com explanações entre colchetes extraídas do artigo de Gilberto Ferrez, João Massé e sua Planta do Rio de Janeiro de 1713, publicado no Jornal do Brasil de 7 de setembro de 1958 e republicado na revista do IHGB, no 242  (para ver a planta em tamanho ainda maior, clique na própria planta ou aqui):


A - Fortaleza de S. Sebastião com suas obras feitas de novo, e dessinadas [projetadas, possível galicismo derivado de dessiné]

B - Baluarte dessinado no sítio em que está a Sé, com sua Linha de Comunicação
[projeto, 
 não executado, de um baluarte ao Forte de São Sebastião por uma linha de comunicações protegida por muralhas, que tornaria o sistema defensivo esparso do Castelo num conjunto fortificado mais poderoso]

C - O Colégio com sua cerca e ladeiras [colégio e igreja dos jesuítas com sua cerca e as duas ladeiras que lhe davam acesso rápido]

D - A Misericórdia [hospital e igreja]

E - Fortaleza antiga de Sto. Iago [velho forte de S. Tiago, mais tarde do Calabouço, que existiu junto ao atual Museu Histórico Nacional, e cujos últimos vestígios foram demolidos na década de 1950]

F - Cais dessinado [projeto de um cais ao longo de toda a marinha desde o Calabouço até São Bento, realizado em parte]

G - Armazéns del Rey / H - Casa da Moeda [todo este terreno ocupava o espaço e local exato da futura Casa dos Governadores, mais tarde Paço Real e Imperial]

I - Convento do Carmo
[área ocupada pelo convento, cerca e igreja do Carmo]

L - Casas do Governador
  e Alfândega
[na Rua Direita, atual Primeiro de Março. A primeira com a mudança para o Largo do Carmo, transformar-se-ia em Casa dos Contos, sendo o seu local o do atual CCBB]

M - Convento de São Bento, com sua cerca e ladeira

N - Armazéns da Junta
[armazéns da Junta do Comércio da Companhia Geral, criada em 1649, e que tinha o odioso monopólio do comércio entre o Brasil e Portugal]

O - Bateria da Prainha que deve ser reparada [pequena bateria que ficava na atual Praça Mauá]

P - Trapiche dos Terceiros [vasto trapiche no sopé do Morro da Conceição, pertencente à Ordem Terceira de São Francisco]

Q - Fortaleza da Conceição com suas comunicações ao mar, e o muro da Cidade

R - Casas do Bispo, com suas plataformas por diante
[Palácio Episcopal, atual Serviço Geográfico do Exército]

SSS - Muro da Cidade [famoso projeto da muralha, fechando por completo a cidade, correndo do morro da Conceição ao do Castelo; as obras foram logo iniciadas, mas depois abandonadas, por suas deficiências e por impedir o crescimento normal da cidade]

T - Convento de Santo Antônio com sua cerca e ladeira, e uma obra dessinada na coroa do seu monte [projeto de um forte que também não se concretizou no cume do Morro de Santo Antônio]

V. - A Ilha das Cobras com suas fortificações dessinadas, e sua ponte de comunicação [projeto de remodelação da fortaleza da Ilha das Cobras]

X - Linha pontuada que mostra outro sítio, onde se pode atar o muro, se se quiser incluir os quartéis dentre dele [indicação de onde poder-se-ia construir uma muralha fechando a cidade desde o morro do Castelo até o mar; projeto de muralha não executado]


Afora as igrejas e conventos já mencionados, estão assinaladas por uma cruz as seguintes: São José, Cruz dos Militares, Candelária, Rosário, Nossa Senhora do Parto e, fora dos muros, de São Domingos.



ANEXO: Trecho do livro O Rio de Janeiro setecentista, do historiador Nireu Cavalcanti, sobre a vinda do engenheiro militar João Massé para reforçar a segurança do Rio (págs. 47-8):

Além dos prejuízos materiais, financeiros, documentais e humanos que causaram, as duas invasões francesas tornaram evidentes a vulnerabilidade do sistema de defesa da cidade, no qual haviam sido investidos durante 150 anos grandes somas de recursos públicos e de contribuições recolhidas ao longo de diversas gerações. Questionou-se também a capacidade técnica dos engenheiros e estrategistas militares portugueses com relação ao domínio da ciência das fortificações. Aquele foi um momento importante para a administração pública rever as estratégias e detectar as causas do fracasso do sistema de defesa do Rio de Janeiro.

Após amplo debate sobre essa questão no Conselho Ultramarino, e dos pareceres de notáveis engenheiros portugueses [...] o rei decidiu enviar à cidade um especialista em fortificações, o engenheiro militar João Massé (técnico francês que servia a Portugal), para uma análise mais apurada da situação. Vinha ele com a incumbência de avaliar problemas, propor alterações e sobretudo projetar uma muralha de pedra capaz de proteger a cidade de ataques vindos do interior continental.

Acompanhando o novo Governador nomeado, [...] João Massé chegou à cidade em 1713, encontrando a guarnecida com 15 fortificações: Santa Cruz, São João, São Thiago, São Sebastião, da Praia Vermelha, Villegaignon, da Praia do Saco, de Nossa Senhora da Boa Viagem, da Ilha das Cobras, da Laje, reduto da Prainha, de São Bento, da Conceição, da praia de Santa Luzia e de Gragoatá.

Tendo aprovado no geral a distribuição dessas fortificações, o engenheiro francês propôs reformar algumas e aumentar a potência das baterias de outras, principalmente as de Santa Cruz, São João e Ilha das Cobras, porta de entrada da baía de Guanabara. Com o intuito de revigorar a defesa, projetou mais uma fortaleza, a se construir na pequena ilha de pedra chamada de Laje que dividia a entrada da barra em dois canais, além da muralha para proteger a retaguarda da Cidade.

A Fortaleza da Laje era uma proposta antiga que dividia as opiniões dos técnicos. Os críticos argumentavam que os custos das obras não compensavam os benefícios, porque as fortalezas de Santa Cruz e São João já guarneciam a entrada da Bahia. Tais argumentos haviam levado a coroa a protelar sua edificação. Todavia, com invasão de Duguay-Trouin, a posição hesitante do governo mudou a favor da imediata construção.
[...]
A proposta de construção de uma nova muralha cercando a cidade para defendê-la representava uma volta às suas origens, quando foi concebida como praça de fortificação, localizada primeiramente na região da Urca e, mais tarde, no Morro do Castelo.

1.3.18

DOCUMENTO HISTÓRICO: CARTA DO PADRE ANCHIETA SOBRE A FUNDAÇÃO DO RIO DE JANEIRO


Esta carta é importante por diversos motivos. Primeiro, trata-se do único documento hoje existente de uma testemunha ocular da fundação do Rio. Segundo, é um dos dois documentos (ambos de Anchieta) que permitiram a Capistrano de Abreu fixar a data de fundação da cidade em 1o de março. Terceiro, nele vemos que a denominação São Sebastião foi adotada desde os primórdios da cidade, e não depois de vencida a batalha contra os franceses no dia de São Sebastião em 1567, como lemos em algumas fontes. Quarto, porque mostra (como também mostram outros documentos e mapas) que, seis décadas após a viagem de exploração de Gaspar de Lemos, em que a baía da Guanabara teria sido confundida com um rio, esta continuava sendo chamada de Rio de Janeiro (ou “boca do Rio de Janeiro” como lemos na carta de Anchieta, ou mesmo Rio da Guanabara como vemos em mapas franceses), ou seja, àquela altura aparentemente ainda se acreditava que fosse a desembocadura de um rio. Finalmente, mostra o incrível heroísmo dos fundadores de nossa cidade, enfrentando o oceano, a fome, a sede e os inimigos franceses e tamoios, sempre confiando na providência divina.

CARTA DO PADRE ANCHIETA AO PADRE DIOGO MIRÃO, DE 9 DE JULHO DE 1565, NARRANDO A FUNDAÇÃO DE SÃO SEBASTIÃO DO RIO DE JANEIRO (FONTE: CARTAS, INFORMAÇÕES, FRAGMENTOS HISTÓRICOS E SERMÕES do Padre Joseph de Anchieta, S.J. (1554-1594), Editora Civilização Brasileira, 1933)

De São Vicente se escreveu largamente o que aconteceu à armada, que da cidade do Salvador foi povoar o Rio de Janeiro este ano passado de 1564; partiu no fim do ano de 1564 (1), agora darei conta do que mais sucedeu.

Depois de passar muito tempo (2) em se reformar a armada de cordas, amarras e outras cousas necessárias, e esperar pelo gentio dos Tupinanquins, com os quais se fizeram pazes, indo duas vezes em navios às suas povoações a os chamar, para darem ajuda contra os Tamoios do Rio, os quais prometendo de vir, não vieram senão mui tarde e poucos, e tornaram-se logo de São Vicente, sem quererem com os nossos vir ao Rio, a qual foi a principal causa de muita detença que a armada fez em São Vicente; e, finalmente, depois de haver muitas contradições, assim dos povos de São Vicente, como dos capitães e gente da armada, aos quais parecia impossível povoar-se o Rio de Janeiro com tão pouca gente e mantimentos, o capitão-mor Estácio de Sá e o ouvidor geral Braz Fragoso, que sempre resistiram a todos estes encontros e contradições, determinaram de levar ao cabo esta empresa que tinham começado. E confiados na bondade e poder divino assentaram que se ficasse o ouvidor geral em São Vicente, fazendo consertar o galeão e a nau francesa [tomada no Rio de Janeiro], que se achavam comidos de busanos, e não estavam para poder navegar, e depois se viria com socorro ao Rio, e que o capitão-mor se passasse logo em sua nau capitânia e alguns navios pequenos e canoas a começar a povoação.

Mapa da França Antártica mostrando que na década de 1550 ainda se acreditava que a Baía da Guanabara fosse a desembocadura de um rio. A baía é chamada de La Rivière de Ganabara autrement Rio Janeiro, e no fundo da baía desembocam dois rios com as designações "Rivière d'eau douce", rio de água doce (a baía sendo assim o "rio de água salgada"). Fonte: Maurício de Almeida Abreu, Geografia Histórica do Rio de Janeiro.

Partiu o capitão-mor só em sua nau aos 22 de Janeiro de 1565, e no mesmo dia veio ter à ilha de São Sebastião, que está 12 ou 13 léguas de São Vicente, onde esteve esperando pelos navios pequenos que se ficaram aviando, os quais partiram de Bertioga a 27 do mês [20 de janeiro segundo outra fonte], e ao seguinte dia vieram com a capitânia; os navios pequenos eram cinco somente, e os três deles de remos, e com eles vieram oito canoas (3), as quais traziam a seu cargo os Mamalucos de São Vicente, com alguns Índios do Espírito Santo, que o ano passado haviam ido com o capitão-mor, e alguns outros de São Vicente dos nossos discípulos cristãos de Piratininga, de maneira que toda a gente, assim dos navios como das canoas, poderiam chegar até 200 homens, que era bem pouco para se poder povoar o Rio, ao que se ajuntava o pouco mantimento que traziam, que se dizia poder durar 2 ou 3 meses; com tudo isto, como digo, chegamos à Ilha de São Sebastião onde já estava o capitão-mor, e aí dissemos missa, e se confessou e comungou alguma gente; e como comumente vinham com grande alegria e fervor confiados que com aquela pouca força e poder que traziam haviam de povoar, ajudados do braço divino, e que não lhes havia de faltar o mantimento nesta ilha, ordenou o capitão-mor que os navios de remos acompanhassem as canoas que daí por diante entravam já na terra dos Tamoios e era necessário cada dia pousarem em terra em algumas ilhas, e para virem mais seguras mandou meter gente em sua canoa, que vinha por popa de um navio, dando os seus escravos que a remassem com alguns Mamalucos; e deu-lhe Nosso Senhor tão bom tempo, que sempre os navios de remos chegavam a pousar onde elas estavam, até entrar na Ilha Grande (4), onde estiveram muitos dias esperando pela capitânia, a qual teve muitos ventos contra, até não poder aferrar pano como os navios pequenos, e foi forçada a arribar a uma ilha com a verga do traquete [=mastro de vante de navio veleiro] quebrado, e rendido o mastro grande.

Os Mamalucos e Índios enfadados de esperar tanto tempo pela capitânia, e forçados da fome, que quase já não tinham mantimentos, determinaram de o ir buscar a uma aldeia de Tamoios, que estava daí a 2 ou 3 léguas, e ajudou-os Cristo Nosso Senhor, que chegaram à aldeia e queimaram-a, matando um contrário, e tomando um menino vivo, e toda a mais gente se acolheu pelos matos; e com esta vitória alegres se mudaram todos ao outro porto da mesma Ilha Grande, onde tinham muita abundância de peixe e carne; a saber, bugios, cotias, caça do mato, e aí dissemos também muitas vezes missa, e se confessou e comungou muita gente, aparelhando-se para a guerra a que esperavam no Rio de Janeiro; porém ainda que muito trabalhamos nós pela nossa parte, e os capitães dos navios pela sua, não pudemos acabar com os Índios que esperassem pelo capitão-mor, como ele tinha ordenado, antes apartando-se dos navios se vieram para dentro de uma ilha chamada Marambaia, por entre aldeias dos Tamoios, caminho do Rio de Janeiro; e porque eram poucos e vinham em grande perigo, pareceu bem se viessem os Mamalucos após eles, e que todos eles juntos esperassem pelos navios numas ilhas que estão uma légua fora da boca do rio, às quais eles chegaram sem nenhum encontro de Tamoios, ou outro perigo algum (5).

Os navios ficaram esperando pela capitânia cinco ou seis dias, e por derradeiro parecendo-lhes que seria já passada de mar em fora, e temendo o perigo das canoas, partiram-se uma madrugada (6); e saindo pela boca da ilha viram a capitânia que esta noite havia entrado; e assim todos juntos, com muita alegria, começaram com próspero vento a ter vista das ilhas onde as canoas estavam esperando; mas não quis Nosso Senhor que chegassem aquele dia, antes acalmando o vento, e vindo depois outro contrário, junto com as grandes correntes das águas, tomou a capitânia a Ilha Grande, e no caminho esteve em grande perigo de se perder sobre a amarra em uma baixa (7). Os outros navios andaram com muito trabalho, ora a vela, ora a remos, dois ou três dias, para poderem tomar as ilhas (8), e acudir às canoas, que bem adivinhavam seriam tomadas dos contrários, ou tornadas para São Vicente, ou mui perto disso, como em verdade o estavam; porque havendo já seis ou sete dias que estavam esperando, faltando-lhes já o mantimento, comiam somente palmitos e peixes, e bebiam duma pouca água, de que todos estavam debilitados, e alguns doentes de câmaras [=diarreia]; e perdendo já a esperança dos navios chegarem tão cedo, determinaram de partir cada um para sua terra, a saber: os Índios do Espírito Santo com três canoas para a sua, e os Mamalucos com os Tupinanquins para São Vicente. E estando já assentados de efetuar esta sua determinação, viram um dos navios, que a força de braços e remos vinham já perto das ilhas, com cuja vista se alegraram, e esperaram alguns dois dias mais, até que chegaram quatro, que foi aos 27 de Fevereiro; e porque nestas ilhas não havia mais que uma pouca dágua, e a gente era muita; e as secas grandes, acabou-se e não havia mais que para beber um dia. Mas o Senhor, que tomou esta obra a seu cargo, mandou tanta chuva o dia que os navios ali chegaram, que se encheu o poço, e abastou a todos em quanto ali estiveram; e por nos mostrar que um particular cuidado tinha por nós, permitiu que a capitânia com outro navio que haviam arribado não viessem tão cedo, como todos queríamos, donde nasceu tornarem-se a amotinar não somente os Índios e Mamalucos, mas também alguns dos capitães dos navios querendo entrar dentro do rio, contra o regimento que o capitão-mor tinha dado, e tomavam por achaque, principalmente os Índios, não terem que comer, e que dentro do rio, com os combates que esperavam ter dos Tamoios, sofreriam melhor a fome; e começariam a roçar e cercar o lugar onde estava assentado que se havia de fundar a povoação.

Houve muito trabalho em os aquietar (9), porque em verdade o porto em que estávamos era mui perigoso, os navios não tinham breu, e faziam tanta água que era necessário grande parte do dia dar à bomba; os Índios não tinham que comer; os Portugueses não tinham para lho dar; porque havia quase um mês que com os partidos todos andavam fracos, e muitos doentes; finalmente determinaram os Índios de não esperar mais que um dia, e se a capitânia não chegasse, ou se meterem dentro do rio, ou se irem para suas terras, o que fora causa de grande desconsolação. Neste trabalho acudiu a Divina Providência, que logo aquele mesmo dia vimos três navios, que iam de cá da Baía com socorro, de mantimento, que era o de que a armada tinha maior necessidade; e ao seguinte (10), chegou a capitânia e outro navio, e assim todos juntos, em uma mesma maré, com grande alegria entramos pela boca do Rio de Janeiro, começando já os homens de ter maior fé e confiança em Deus, que em tal tempo socorrera as suas necessidades.

Logo ao seguinte dia, que foi o último de Fevereiro, ou primeiro de Março, começaram a roçar em terra com grande fervor e cortar madeira para a cerca (11), sem querer saber dos Tamoios nem dos Franceses, mas como quem entrava em sua terra, se foi logo o capitão-mor a dormir em terra, e dando ânimo aos outros para fazer o mesmo, ocupando-se cada um em fazer o que lhe era ordenado por ele, a saber: cortar madeira, e acarretá-la aos ombros, terra, pedra, e outras cousas necessárias para a cerca, sem haver nenhum que a isso repugnasse; desde o capitão-mor até o mais pequeno todos andavam e se ocupavam em semelhantes trabalhos; e porque naquele lugar não havia mais que uma légua de ruim água, e esta era pouca, o dia que entramos choveu tanto que se encheu, e rebentaram fontes em algumas partes, de que bebeu todo o exercito em abundância, e durou até que se achou água boa num poço, que logo se fez ; e como esta esteve em termos de se poder beber, secou-se de todo a lagoa, e além disto se achou uma fontezinha num penedo d'água muito boa, com que todos se alegraram muito, e se vão firmando mais na vontade que traziam de levar aquela obra ao cabo, vendo-se tão particularmente favorecidos da Divina Providencia.

Os Tamoios começaram logo a fazer ciladas por terra e por mar; mas os nossos não curavam senão de cercar-se e fortalecer-se, parecendo-lhes que não faziam pouco em defender dentro da cerca; mas Nosso Senhor, não querendo que se contentassem com isso, permitiu que aos 6 de Março viessem quatro canoas dos Tamoios, e fazendo uma cilada junto da cerca tomassem um Índio, que se desmandou, e indo já muito longe com sua presa deitaram os nossos as suas canoas ao mar, perseguiram os inimigos, e os fizeram saltar em terra e fugir pelos matos, deixando as canoas, arcos, flechas, espadas, e quanto nelas tinham, e o Índio, que escassamente tiveram tempo para os matar; os nossos os perseguiram pelo mato um bom pedaço, e não os podendo alcançar se tornaram trazendo-lhes as canoas e suas armas, que haviam deixado, e que foi um grande triunfo para os nossos cobrarem ânimo, e os tamoios enfraquecerem e temerem; assim daí por diante não ousavam aparecer senão de longe, e muitas canoas juntas.

Mapa de Luiz Teixeira de cerca de 1574 que permitiu que se determinasse o lugar exato onde a cidade foi fundada, antes objeto de polêmica. Observe que a Cidade Velha situa-se exatamente entre os morros Pao de Sucar e Cara de Cam! Fonte: Maurício de Almeida Abreu, Geografia Histórica do Rio de Janeiro, livro fundamental para quem quer se aprofundar nos estudos cariocas.

A 10 de Março vimos uma nau francesa, que estava légua e meia da povoação dentro do rio; e ao outro dia (12) foi o capitão-mor sobre ela com quatro navios, deixando na cerca a gente que parecia necessária, que ainda não era acabada; e sendo já junto dela, e começando a atirar de sua parte e doutra, os Tamoios, que aquela cilada tinham assim ordenado, saíram detrás de uma ponta em quarenta e oito canoas cheias de gente, e arremeteram com a cerca com tão grande ímpeto, e não havendo nela baluarte nem casa alguma feita em que se pudesse a gente recolher. Ajudou-nos Nosso Senhor, de maneira que andando no meio do terreiro descobertos, e chovendo flechas sobre eles, não os feriram, antes mataram alguns dos inimigos, e feriram muitos; e não contentes com isso arremeteram com eles fora da cerca, e os fizeram fugir e embarcar em suas canoas bem desbaratados. E esta vitória, a que se houve da nau francesa, a qual se entregou sem guerra aos nossos, e foi desta maneira que vendo vir o capitão-mor as quarenta e oito canoas sobre a cerca, meteu-se em um navio de remos por lhes ir acudir, deixando mandado aos outros capitães dos outros navios que ficassem em guarda da nau até pela manhã, que tornasse, ou se lhe mandasse recado; esta noite houveram falas dos Franceses, e falando-lhes um seu parente, que estava num dos navios, e dizendo-lhes que cedessem sem guerra, que o fariam de misericórdia com eles, mostraram folgar muito, e disseram que eram uns pobres mercadores que vinham ganhar sua vida, e que estavam já de caminho, levavam alguns Franceses dos que estavam em terra para França; que deixando-os ir se fiariam deles os outros que ficavam em terra. E porque eles tinham dado uma regueira em terra, e tinham consigo trinta canoas de Tamoios para despejar a nau, se se vissem em pressa, e queimá-la com dois barris de pólvora que tinham desfundados no convés com seus morrões, e eles acolheram-se à terra; porque não fosse o derradeiro erro pior que o primeiro do ano passado, que se fez em tomar outra nau, e deixar mais Franceses em terra; pareceu bem aos capitães, porque havia perigo na tardança de mandar recado ao capitão-mor, dar-lhes segurança, e prometer-lhes que eles alcançariam do capitão-mor que lho confirmasse e houvesse por bem, e com isto se entregaram e se vieram, porém ficando os Tamoios espantados de saber como se fiavam dos Portugueses; mas os Franceses, que estavam já na nau, e se iam para a França com os seus, temendo que lhes não cumprissem o que prometiam, vendo chegar os nossos navios a ela, lançaram-se ao mar, e a nado: fugiram à terra, à vista dos nossos sem se seguir trás deles. O capitão-mor e todos tiveram isto por grande mercê do Senhor, por ser este grande caminho para se desarreigarem do Rio de Janeiro os Luteranos que nele ficam, que serão até trinta homens, repartidos em diversas aldeias, e todos homens baixos, que vivem com os Índios selvagens, e determinou de cumprir o que seus capitães tinham prometido, ainda que teve algumas contradições de homens, que mais olham seu próprio interesse que o bem comum; mas sendo a maior parte de parecer que os devia deixar ir em paz, e que daquela maneira se fazia maior serviço a Deus e a Sua Alteza, e era caminho para mais facilmente se povoar e sustentar o Rio de Janeiro, lhes deu licença que se fossem, tomando-lhes a pólvora e a artilharia que era necessária para a cerca, deixando eles escrito aos seus que se fiassem de nós, e se saíssem dentre os selvagens, e se lançassem conosco, contando-lhes o bom tratamento que dos nossos haviam recebido; estes desta nau eram católicos, segundo as mostras que traziam, a saber: horas de Nossa Senhora, sinais, contas, e cruzes. Pelo que é de crer que lhes fez o Senhor esta misericórdia, porque não ficassem em terra, e se viessem com os outros, e aos nossos dessem grandíssima opressão favorecendo os Tamoios: determinava o capitão-mor à minha partida de lá, que foi o derradeiro de Março, a falar com os Franceses, levando-lhes um seguro real de Sua Alteza, e a carta de seus parentes para poder apartá-los dentre os Tamoios para que esses não sujeitem os Índios e em pouca força na costa do Brasil, se não vem socorro de Sua Altesa, pelo qual todos estão esperando.

Antes que a nau francesa se partisse, fizeram os Tamoios outra cilada de vinte e sete canoas (13), aos quais ela tirou muitos e bons tiros, o que também será a ajuda para eles lhes darem' pouco credito e amor, e facilmente fazerem pazes com os Portugueses, se forem deste Reino favorecidos, e assim ficar são o Rio; e estas traziam nove ou dez e meteram esses nossos mão com tanto pulso que foi flechada a gente de seis aldeias que se fez em terra para os defender, e alguns dos nossos saíram após eles, e houve uma brava peleja, em que foram feridos dez ou doze dos nossos, e alguns de flechadas mui perigosas, as quais pela misericórdia de Deus facilmente sararam; mas dos contrários foram muitos os feridos, os quais os nossos viam levar a rasto pela praia, e meter nas canoas, e assim os foram perseguindo por mar e por terra, quase até meio caminho de suas aldeias, e tomaram-lhes uma canoa, e tornaram-se com grande vitória: gloria seja ao Senhor!

Ao derradeiro dia de Março parti do Rio de Janeiro para esta cidade, por mando da santa obediência (14), com um homem tomado da Capitania de Ilhéus, chamado João D’Andrade, o qual havia sido chamado de São Vicente pelo capitão-mor a buscar mantimentos a estas capitanias, e por sua boa indústria e diligência chegou ele, como acima digo, no mesmo dia e maré que a armada chegou de São Vicente, e de caminho levou cinco homens brancos, que resgatou dentre os Tamoios aquém do Cabo-Frio, os quais se haviam perdido em um navio que antes de João D’Andrade fora mandado a buscar mantimentos; e depois de estar no Rio todo este tempo, e achando-se nos combates que tenho referido, o tornou o capitão-mor, por se fiar de sua diligência, a mandar a negociar mais mantimento, porque a falta dele é que lhes faz uma maior guerra.

Já á minha partida tinham feito muitas roças em derredor da cerca, plantados alguns legumes e inhames, e determinavam de ir a algumas roças dos Tamoios a buscar alguma mandioca para comer, e a rama dela para plantar; tinham já feito um baluarte mui forte de taipa de pilão com muita artilharia dentro, com quatro ou cinco guaritas de madeira e taipa de mão, todas cobertas de telha que trouxe de São Vicente, e faziam-se outras e outros baluartes, e os Índios e Mamalucos faziam já suas casas de madeira e barro, cobertas com umas palmas feitas e cavadas como calhas e telhas, que é grande defensão contra o fogo. Os Tamoios andavam se ajuntando para dar grande combate na cerca (15); já havia dentro do Rio oitenta canoas, e parece-me que se ajuntariam perto de duzentas, porque de toda a terra haviam de concorrer à ilha, e dizia-se que fariam grandes mantas de madeira para se defenderem da artilharia e balroarem [=abalroarem] a cerca; mas os nossos tinham já grande desejo de chegar àquela hora, porque desejavam e esperavam fazer grandes cousas pela honra de Deus e do seu rei, e lançar daquela terra os Calvinos, e abrir alguma porta para a palavra de Deus entrar os Tamoios: todos viviam com muita paz e concórdia; ficava com eles o Padre Gonçalo d'Oliveira, que lhes dizia cada dia missa, e confessava e comungava a muitos para a glória do Senhor.

O maior inconveniente que ali havia, ultra da fome, é que estão lá muitos homens de todas as capitanias, os quais passa de ano que lá andam, e desejam ir-se para suas casas (como é razão): se os não deixam ir perdem-se suas fazendas, e se os deixam ir fica a povoação desamparada, e com grande perigo de serem comidos os que lá ficarem, de maneira que por todas as partes há grandes perigos e trabalhos, e se não fosse o capitão-mor amigo de Deus e afável, que nunca descansa de noite e de dia, acudindo a uns e a outros sendo o primeiro nos trabalhos, e terem todos grande e certa confiança que Sua Alteza proverá, tanto que souber estar já feito pé no Rio de Janeiro, que tão temeroso era, ainda lá nessas partes tão remotas; e que se agora se não leva ao cabo esta obra, e se abre mão dela, tarde ou nunca se tornará a cometer; já creio que houveram rebentados muitos e desamparados quase todos, máxime [=principalmente] tendo novas que deram aqueles homens que saíram do cativeiro dentro os Tamoios, os quais souberam de uma nau francesa, que ali estava, que estava o sobrinho de Villegaignon (16), capitão que foi da antiga fortaleza, para vir ao Rio de Janeiro e São Vicente com uma grossa armada; a cerca que tem feita não é mais que um pé a tomar posse da terra, sem se poder dilatar nem sair dela sem socorro de Sua Alteza, a quem Vossa Reverendíssima deve lembrar e incitar que logo proveja, porque ainda que é cousa pequena a que se tem feito, contudo é maior, e basta-lhe chamar-se cidade de São Sebastião para ser favorecida do Senhor, e merecimentos do glorioso mártir; e acrescentada de Sua Alteza que lhe tem tanta devoção e obrigação (17). Esta é a breve informação do Rio de Janeiro; resta pedir a Vossa Reverendíssima nos encomende e faça encomendar muito a Nosso Senhor, e tenha particular memória dos que residem e ao diante residirão naquela nova povoação, oferecidos a tantos perigos, da qual se espera haver de nascer muito fruto para glória do Senhor e salvação das almas.

Desta cidade do Salvador da Baía de Todos os Santos, aos 9 de Julho de 1565,

Minimus Societatis Jesu.


NOTAS

(1) Deve ser erro de cópia. A armada de Estacio de Sá chegou à barra do Rio de Janeiro em fevereiro de 1564, havendo partido da Baía em princípios desse ano. Como porém aportou no Espírito Santo, onde recebeu numeroso socorro e portanto se demorou, é possível que a partida da Baía se desse em fins de 1563, sendo essa a data escrita por Anchieta. A chegada ao Rio em fevereiro de 1564 é confirmada por B. da Silva Lisboa (Anais, cap. 8), que precisa o dia: 6.
(2) A armada partiu do Rio de Janeiro para São Vicente depois da Páscoa (2 de abril) de 1564.
S. de Vase. (o. c , 1. 3, n. 63-4).
(3) Compunha-se a armada, segundo S. de Vasc., de "seis navios de guerra, alguns barcos ligeiros e nove canoas de mestiços e Índios".
(4) Segundo presume Capistrano, a partida de São Sebastião se deu a 1 de fevereiro e a chegada á Ilha Grande a 4 ou 5.
(5) Segundo Capistrano, a 10 de fevereiro.
(6) A partida da Ilha Grande foi a 15 de fevereiro segundo Capistrano.
(7) Passou-se isso a 16 de fevereiro segundo Capistrano.
(8) Os navios juntaram-se ás canoas nas ilhas fora da baía a 21 de fevereiro, segundo supõe Capistrano.
(9) Foi então que se deu o "caso digno de memória" de que fala S. de Vasconcelos. Para conter os Índios "lhes empenhou Joseph [José de Anchieta] sua palavra", afirmando "que antes que o sol chegasse a tal parte do céu, mostrando-lha, chegariam sem dúvida os mantimentos, e após eles pouco depois a nau capitânia", o que de fato se deu.
(10) A 28 de fevereiro.
(11) Os portugueses se fortificaram "com trincheiras e fossos, no lugar onde depois chamaram Vila Velha, junto a um penedo altíssimo, que pela forma se diz Pão de Açúcar, e outra penedia, que por outro lado cercava, com que ficavam em parte defendidos" (S. de Vasc.). Quase textualmente é também o que diz frei Bernardo da Cruz, na Crônica de D. Sebastião, p. 351, escrita em 1586 mas só publicada em 1837.
(12) A tomada da nau foi a 13 de março, segundo Varnhagen, ou nesse ou no dia anterior, conforme Capistrano.
(13) Foi esta cilada a 10 de março, segundo S. de Vasconcelos, combatendo os portugueses em "dez canoas com duas lanchas de remo".
(14) Anchieta seguiu para a Baía a fim de ser aí ordenado pelo bispo d. Pedro Leitão. Ao passar pelo Espírito Santo, visitou a casa da Companhia e as aldeias indígenas, a mandado de Nobrega. Este partiu logo de São Vicente para o Rio de Janeiro com alguns companheiros. Na Baía Anchieta fez ver a Mem de Sá a necessidade de enviar nova armada ao Rio de Janeiro para consolidar a conquista, armada que partiu da cidade do Salvador em novembro de 1566, nela embarcando o canarino em companhia do governador, provincial Luiz da Grã, visitador Inácio de Azevedo e bispo d. Pedro Leitão. A chegada ao Rio foi a 18 de janeiro de 1567.
(15) O ataque, de que Anchieta só chegou a presenciar os preparativos, se deu nos primeiros dias de junho, feito por 3 naus francesas e 130 canoas tamoias.
(16) Bois-le-Comte se achava na Europa por esse tempo.
(17) D. Sebastião, que reinaria ainda durante treze anos.