13.12.17

RIO DE JANEIRO ANTES E DEPOIS, de CYRO DE MATTOS


A primeira vez que vi o Rio de Janeiro foi pela janelinha do avião. Perde-se na memória dos anos quando isso aconteceu. Por ter sido aprovado no exame do vestibular do curso de Direito, em Salvador, recebi como presente do pai uma viagem para conhecer o Rio de Janeiro onde permaneceria durante trinta dias, divertindo-me e conhecendo os lugares pitorescos da cidade cantada como maravilhosa em nosso cancioneiro.


Na minha terra natal, no interior da Bahia, e em Salvador, onde fui estudar o curso clássico, ouvia ser chamada de maravilhosa a cidade que seduzia os brasileiros e gente que vinha do estrangeiro para conhecê-la de perto, com o seu jeito mestiço e alegre. Uma canção dizia que Copacabana era a princesinha do mar, não existia praia mais bela cheia de luz, nas suas areias desfilavam sereias.


O Maracanã tinha jogos empolgantes, entre as principais equipes cariocas, era uma festa de bandeiras, erguidas por torcedores vibrantes, a cada lance empolgante da partida jogada no tapete verde. De qualquer lugar você via o Cristo abençoar a cidade, os generosos braços abertos ao abraço imenso. O bondinho do Pão de Açúcar transportava gente brasileira e do estrangeiro para lá em cima do morro percorrer os olhos deslumbrados pela paisagem da cidade embaixo, cercada de morros e favelas, povoada de edifícios como espigões que furavam o céu.


Do Pão de Açúcar você tinha a cidade a seus pés, pressentindo-a com o seu ritmo por dentro, na alegria que irrompia do futebol no Maracanã e nas escolas de samba quando chegava o Carnaval. Havia, nesse tempo bom para ser vivido, sempre um sorriso na passagem da vida, embora as favelas fossem se expandindo por vielas e becos, intimidando lá do morro com as quadrilhas disputando o poder no tráfico de drogas. Gente perigosa descia a ladeira e no asfalto investia contra a cidade, tendo no rosto o espanto do assalto acompanhado da morte.

A cidade ainda não ultrapassava os limites sem fim do seu galope amarelo. Na Rua do Catete, por exemplo, com sua gente nas esquinas, discutia-se futebol e política, as luzes dos postes iluminavam à noite os ônibus e carros que passavam, alguns gatos fugiam dos velhos casarões e vinham caminhar nos passeios. O bairro do Flamengo era povoado de bares, lojas e pensões, o vento trazido do mar despejava o cheiro de maresia nos ares em silêncio.

Durante o dia, no centro, a cidade acontecia com um povo afobado, andando com pressa, a subir nos ônibus, a encher os cafés e as lojas, a entupir os passeios, a zumbir como abelhas nos ruídos de uma colmeia gigantesca. O barulhão dos motores e das buzinas, o fumaceiro dos ônibus, os sacos de lixo nas calçadas, fregueses comprando jornal ou revista nas bancas do passeio e das galerias, tudo isso enchia de prognósticos a vida diária, que a cada dia aumentava com sua gente, entre o alegre e o triste, pressentida do prognóstico que iria extraviar-se por várias direções.


A cidade ainda era cantada em prosa e verso como a que tinha encanto de sobra, chegando a causar arrepio. Naqueles idos de 1968, depois da refeição do jantar, ia com a esposa fazer o percurso entre a Rua Correia Dutra e o Largo do Machado. Era bom caminhar despreocupado. Sentir o movimento da cidade que passava segura, sem muita pressa. Voltávamos de mãos dadas, sem ter medo de nada, pois aquele vento bom, que vinha do mar, dava-nos a certeza de que viver naquela cidade grande valia a pena, chegando a ser um privilégio.

Depois de transcorridos alguns anos na cidade grande, voltei a residir em minha terra natal, no interior baiano. Os três filhos, já criados e casados, deram-me seis netos. Quanta generosidade da vida! Se me perguntassem se gostaria de morar hoje no Rio de Janeiro, seria difícil dizer sim. Nem sempre é fácil um homem do interior acostumar-se a morar numa cidade imensa, com ritmo veloz e intenso nos tempos de hoje, de disputa exacerbada pelo espaço, para não se falar do medo que ultrapassou os limites de seu galope amarelo.


Medo de ir ao supermercado. Medo de andar de ônibus. Medo de sair de casa e não voltar. Medo de ser alcançado pelo tiroteio trocado entre a polícia e os traficantes de droga, em plena luz do dia. Medo de ser atropelado por um ônibus, que subiu desembestado no passeio. Medo de ser morto pela briga das torcidas antes mesmo de o jogo ser iniciado. Medo de ser pisoteado na passeata pela multidão, que de repente confrontou-se com a facção rival. Medo de ser queimado no ônibus. Medo de ser morto por uma bala perdida quando estava rezando na missa.

Meu Rio de Janeiro, apesar de todos os traumas dos tempos atuais, gosto muito de você.

*Baiano de Itabuna, onde reside, Cyro de Mattos é contista, novelista, romancista, cronista, poeta, autor de livros para jovens e crianças, organizador de antologia e coletânea. Já publicou quarenta e três livros pessoais no Brasil e doze no exterior: Portugal, Itália, França, Espanha e Alemanha. É membro efetivo da Ordem do Mérito da Bahia, Pen Clube do Brasil, Academia de Letras da Bahia, Academia de Letras de Ilhéus e Academia de Letras de Itabuna. Doutor Honoris Causa pela Universidade Estadual de Santa Cruz (Sul da Bahia). Premiado no Brasil, Portugal, Itália e México. 

1.12.17

EDMONDO DE AMICIS NA CIDADE MARAVILHOSA


Em 1884, retornando de uma viagem à Argentina que resultou na obra Sull'oceano (sobre a qual fiz uma postagem no meu outro blog, o Sopa no Mel, que você pode acessar aqui), o escritor italiano Edmondo de Amicis, mais conhecido por seu clássico Coração, fez uma breve escala no porto do Rio de Janeiro, mas somente dezoito anos depois (1902) veio a escrever um artigo sobre a cidade, publicado no suplemento La Lettera do jornal milanês Corriere della Sera. O artigo foi incluído como "bônus" na edição brasileira do livro citado, intitulada Em Alto-Mar, publicada em 2017 pela Nova Alexandria em coedição com o Istituto Italiano di Cultura, com tradução, curadoria e notas de Adriana Marcolini. Em seguida, alguns trechos do artigo de De Amicis.  Observe que esta talvez seja a primeira vez em que se faz alusão à cidade como "maravilhosa" numa crônica. As três fotos de Marc Ferrez de 1890, obtidas na Biblioteca Nacional Digital, dão uma ideia de como teria sido a cidade na época em que De Amicis a visitou.



– Por que o senhor nunca escreveu nada sobre o Rio de Janeiro?

Esta pergunta me foi feita uma centena de vezes durante os dezoito anos que se passaram desde que fui ao Brasil, e cem vezes dei sempre a mesma resposta pronta, tal como fazem os deputados quando conversam com os eleitores: – Porque fiquei apenas três dias, quando o Sírio, o navio em que viajei de Buenos Aires para Gênova, fez uma escala no porto da cidade. Amigos bondosos se desdobraram para me mostrar tudo, levando-me para todos os lados de carruagem, de bonde e em via férrea, desde cedo até a noite, como alguém que quisessem salvar da caça de uma banda de credores; vi muito, mas vi tudo correndo, afobado e com os olhos ofuscados pelo cansaço, de forma que me esqueci de muitas coisas, e de outras só tenho uma vaga lembrança, e até das imagens que se mantiveram mais vivas tenho lacunas obscuras, sobre as quais mesmo se reflito longamente nunca consegui captar uma mínima recordação. O que poderia escrever? Seria como descrever um sonho.

A esta resposta de sempre, poucos dias atrás, um intrépido italiano, que recentemente voltou do Brasil para Itália, rebateu sagazmente: – Mas o senhor não se sente tentado a fazer a descrição de uma cidade maravilhosa, onde permaneceu somente poucas horas, e da qual se lembra apenas como um sonho?

– Eis aí uma ideia – pensei.

E aquela ideia colocou-me a pena na mão e pregou-me à escrivaninha.

Mas eis uma lacuna da memória justamente bem no começo, no momento em que o Sírio, em uma esplêndida manhã de junho, ainda balançava no porto do Rio de Janeiro. [...] O mensageiro bem-vindo estava no meio de muitos italianos queridos: lembro-me do nome de alguns, mas não me lembro da fisionomia de nenhum deles. E não me recordo nem mesmo como desembarquei, com quem subi na carruagem, o que vi nas ruas que percorri para ir a Botafogo, o bairro da aristocracia e dos diplomatas, onde me esperava o secretário da legação italiana [...] Lembro-me só de um detalhe daquele trajeto: a forte tentação, vencida com muito sofrimento, de pular da carruagem quando passamos por uma feira de frutas. Ah, que atração mágica, aquelas frutas tropicais grandes, de formas e cores desconhecidas! Eu me esqueci dos bairros, dos monumentos, dos personagens ilustres, mas ainda tenho diante dos olhos, em meio às vendedoras de frutas negras e mulatas, agachadas no chão, entre as pilhas de abacaxis e de bananas douradas e prateadas, aquelas frutas misteriosas que se parecem com pinhas verdes, com bolas douradas, com tomates em forma de fuso, com abóboras metálicas, algumas das quais, cortadas ao meio, revelavam uma cremosidade branca e rosada e prometiam sabores extraordinários.

Que ruas terei eu subido para chegar ao morro da Tijuca, o famoso belvedere da Baía, o passeio clássico do Rio de Janeiro? Parece-me agora que a carruagem puxada por quatro burros, na qual, se não me equivoco, estavam comigo o cônsul Glória, o valoroso Jannuzzi e o gentil farmacêutico Foglia, tenha chegado lá em cima como uma bola voadora através da neblina. Recordo apenas do último trecho do longuíssimo trajeto, pelas vielas de um parque encantador, ladeadas por uma vegetação soberba, entre as quais despontavam samambaias gigantescas elegantemente esbeltas que tinham a forma de guarda-chuvas e uma admirável tonalidade verde-clara, onde, com breves intervalos, a carruagem passava rente a solitários cidadãos brasileiros que estavam ali pacientemente à espera da graciosa presa, com o rosto voltado para o alto e segurando a rede para caçar borboletas, em pose de filósofos armados.

Sim, Mantegazza tinha razão quando me escreveu: – Queira me desculpar, mas o Rio de Janeiro é mais bonito que Constantinopla. Não é que a cidade seja mais bonita, mas sim o lugar, as águas, toda a natureza que a circunda. Oh, não há comparação!


O que dizer da cidade do Rio de Janeiro? Quem a definiu melhor comparou-a a um polvo imenso, que tem a cabeça na pequena cidade original de São Sebastião – implantada entre duas colinas à beira da baía, todavia quase intacta; cheia de ruas estreitíssimas e em linha reta, de aspecto antigo, embora ainda não tenha quatro séculos – e avança para o mar; seus infinitos tentáculos, formados por fileiras de bairros cujas extremidades têm entre si uma distância maior do que de uma ponta à outra de Londres, enfiam-se por aqui e ali, em volta de lagoas e curvas, subindo morros, entrando por vales, adentrando em extensas planícies. Percorri intermináveis trajetos de carruagem entre os mais distantes pontos. Meu cicerone anunciava de vez em quando o nome de um novo bairro, e me indicava uma vista diferente das ilhas, da outra margem da baía, e das montanhas que a circundam. Mas como lembrar-se daquele monte de nomes portugueses e indígenas, daquela grande variedade de panoramas admiráveis, de tantas passagens de um bairro deserto para outro cheio de vida, de um porto para um parque, da planície para a altitude? Às vezes parecia que a cidade tivesse acabado, mas pouco depois recomeçava. Às residências carregadas dos primeiros construtores portugueses seguem-se as casas de campo surgidas há pouco, que dão ostensivamente para os jardins como para tomar grandes goles de ar.

Todas as minhas lembranças do Rio de Janeiro brilham de verde: admita-se a metáfora de mau gosto. Revejo em pensamento que, para além de qualquer coisa, o mais bonito é a vegetação opulenta, ostensiva, dominadora, e vem-me à mente a imagem de pobreza, aquela que, mesmo esquálida, também confere beleza e alegria às cidades dos nossos países. As árvores brotam do empedrado das ruas assim como na Itália os tufos de grama surgem dos velhos muros, obstinados em viver a qualquer custo, nas condições mais adversas para a vida; dos muros dos jardins despencam ramos floridos, cabeleiras esverdeadas, guirlandas e cascatinhas de folhagens e flores; por todos os lados abrem-se jardins cheios de todo tipo de samambaias, orquídeas, bromélias, bananeiras com folhas grandes, exuberantes e carregadas que parecem competir com o espaço e a luz e querer dominar as casas. A maioria das praças é palco de jardins deslumbrantes, onde as árvores gigantescas, com troncos estranhos e folhagens graciosas são tão densas, disformes e de aspecto tão diverso, com tons tão diferentes de verde que o olho se cansa até de vê-las pouco, e quase tem uma sensação de ofuscamento, como se estivesse diante de um espetáculo em constante mutação.


Sim, sem dúvida, subi no topo do Corcovado, o glorioso morro corcunda que forma a cabeça de um Gigante deitado; do qual o não menos celebrado Pão de Açúcar representa os pés unidos, que despontam do mar. [...] Visitei o admirável Jardim Botânico, nas proximidades da Lagoa Rodrigo de Freitas, mas com exceção da grande alameda das Palmeiras gigantes, famosa na América tal como o pinheiral de Ravenna na Europa, e de um copo de cerveja que engoli quando senti uma sede enorme, não tenho mais nenhum rastro na memória.

9.11.17

AQWA CORPORATE, UM PRESENTE ARQUITETÔNICO PARA O RIO DE JANEIRO



Surfando a onda da revitalização da Zona Portuária, o Casa Cor deste ano realiza-se no recém-inaugurado AQWA Corporate, arranha-céu espelhado e inclinado, empreendimento da Tishman Speyer, primeiro edifício brasileiro assinado por Norman Foster, vencedor de um prêmio Pritzker, o Nobel da arquitetura, como você pode ler em matéria de O Globo. Em sintonia com o espírito do edifício, os arquitetos expõem ambientes funcionais, clean, executivos, em sua maioria. A vista do edifício também é espetacular: Baía da Guanabara, Morro da Providência, Pão de Açúcar, Corcovado. Segundo a matéria de O Globo, “o empreendimento ‘verde’ tem certificação LEED. A inclinação de 20o do prédio faz com que a luz solar não incida diretamente nas janelas, o que ameniza o calor e melhora a acústica. O ambiente panorâmico quase dispensa a luz artificial durante o dia. O prédio possui uma estação que coleta a água da chuva para irrigar jardins e ser utilizada em banheiros, além de outros recursos sustentáveis.” No alto um terraço (sky lobby para os íntimos) oferece vista de mirante. No térreo ficarão lojas e cafés. O Casa Cor, além de mostrar as novidades em termos de decoração e planejamento de ambientes, oferece uma oportunidade de conhecer esse arrojado edifício. Depois que os escritórios estiverem funcionando normalmente, só quem for visitar um deles poderá entrar no prédio. A hora é esta!!!

Panorama: Pão de Açúcar, Morro da Providência, Corcovado e Cidade do Samba à direita

Pão de Açúcar

Pão de Açúcar

Mosaico: Corcovado

Autorretrato

Porcelana

Luminárias

Vista para a Baía da Guanabara

Vista para a Baía da Guanabara

Cais do Porto. Fotos do editor do blog.

7.11.17

O POETA CARLOS & OUTROS DRUMMONDS (CURSO)


Ministrado por EDMÍLSON CAMINHA, jornalista, professor e escritor

Dias 10, 17, 24 de novembro e 1° de dezembro, às sextas-feiras, de 17h30 às 19h30

EMENTA: Estudo da obra do poeta destacando os seguintes aspectos: O vasto mundo poético de Drummond; Maria Julieta, filha de peixe; Manolo, o que pensava com a própria cabeça; Crônicas e contos: a prosa de Drummond.

As inscrições serão realizadas pessoalmente, por e-mail (pen@penclubedobrasil.org.br) ou tel (21) 2556-0461. 

Taxa única: R$ 100,00

Número de vagas: Limitado a 20 (vinte) pessoas.

Será fornecido certificado de participação.

Local: Sede Social do PEN Clube do Brasil - Praia do Flamengo, 172 / 901- Flamengo / RJ

Importante: As aulas começarão e terminarão britanicamente no horário marcado.

5.11.17

CHEGADA DA PRINCESA LEOPOLDINA NO RIO DE JANEIRO

Desembarque da Princesa Leopoldina, gravura de Debret. Observe que o pavilhão onde ela desembarcou da galeota (porque os navios ficavam ao largo e os passageiros e cargas eram trazidos ao cais por embarcações menores) fica onde hoje é a Orla Conde. Atrás vemos o mosteiro de São Bento e as torres de sua igreja.

Depois de ter se casado por procuração em Viena em 13 de maio de 1817 com o príncipe D. Pedro, a Princesa Leopoldina (Carolina Josefa Leopoldina Francisca Fernanda de Habsburgo-Lorena) chegou ao Rio de Janeiro em 5 de novembro daquele mesmo ano, exatamente dois séculos atrás. O Padre Perereca, em suas Memórias, assim descreve o fato:

Eram quase duas horas da tarde quando Suas Majestades, e Altezas chegaram ao elegante Pavilhão do Arsenal Real; e ao desembarcar da galeota a Sereníssima Senhora Princesa Real D. Maria Leopoldina Josefa Carolina [sic] pela mão do seu Augusto Esposo, o Sereníssimo Senhor Príncipe Real D. Pedro de Alcântara, deram as fortalezas, e embarcações de guerra uma salva real, todas ao mesmo tempo; e o ar retumbou com os altos brados de repetidos vivas, que deram os numerosíssimos espectadores, que do mar, e da terra presenciavam o desembarque de tão egrégia Princesa: e os sinos de S. Bento, seguidos dos demais sinos das igrejas todas desta cidade, com alegres, e harmoniosos repiques anunciavam ser aquele o feliz momento, em que a augusta filha do César austríaco pisava o solo do Brasil, e ia entrar como em triunfo na mais afortunada cidade do Novo Mundo, por tantos motivos já tão ditosa, e agora ainda mais pela posse de tão preciosa, e inestimável joia, que com os seus brilhantes reflexos vinha realçar a beleza dos luzentes diamantes, que ornam a Real Coroa Portuguesa.

Leopoldina, Arquiduquesa d'Áustria, Princesa Real do Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarves em gravura de Jean François Badoureau

Noticiou a Gazeta do Rio de Janeiro do sábado, 8 de novembro de 1817:


Primeira página da Gazeta do Rio de Janeiro de 8/11/1817

Quarta-feira 5 do corrente pela manhã recebendo-se a mui grata notícia de se avistarem as naus e fragata, que compunham a esquadra, que conduzia Sua Alteza Real a Sereníssima Senhora Princesa Real do Reino Unido de Portugal, do Brasil e dos Algarves, encheram-se logo de alvoroço os ânimos de todos os portugueses, e os montes sobranceiros a essa cidade começaram desde logo a cobrir-se de imenso povo, que com os olhos pregados no horizonte, aguardava impaciente a chegada da afortunada nau, que trazia o complemento dos mais ardentes desejos. [...]  É impossível descrever o alvoroço, com que o povo corria pelas ruas como transportado, e o imenso concurso [=afluência], que juncava o Arsenal Real da Marinha. Com efeito era ele digno de toda a atenção, e foram precisas longas páginas para referir a elegância, que ostentava.

Leopoldina a cavalo, fotografia de autor e data desconhecidos. Todas as imagens desta postagem foram obtidas na Biblioteca Nacional Digital.

Os textos a seguir foram extraídos dos "textos de parede" da exposição Leopoldina, princesa da Independência, das artes e das ciências exibida pelo Museu de Arte do Rio de 12/07/2016 a 26/03/2017.  Para ter acesso aos textos completos clique aqui.

O casamento

O marquês de Marialva, emissário da corte de dom João VI para tratar do casamento, apresentou à princesa a imagem de um Brasil paradisíaco, que Leopoldina descreveu para a irmã Luísa, em 4 de outubro de 1816, como

país magnífico e ameno, terra abençoada que tem habitantes honestos e bondosos; além disso louva-se toda família, têm muito bom senso e nobres qualidades... mas esteja convicta que o meu maior empenho será corresponder à confiança que toda família e meu futuro esposo em mim depositam através de meu amor por ele e do meu comportamento

O casamento foi realizado por procuração em Viena, no dia 13 de maio de 1817, data de aniversário de dom João VI. O noivo, que não estava presente, foi representado em cerimônia pelo arquiduque Carlos, tio paterno de Leopoldina. No Rio de Janeiro, também foi festejada a notícia do ajustado enlace. Mas dom Pedro I e a arquiduquesa da Áustria só se viram pela primeira vez cinco meses depois – a bordo do barco que a trouxera. Dona Leopoldina desembarcou no Rio de Janeiro em 5 de novembro. No dia seguinte, as definitivas cerimônias de matrimônio se pronunciavam na Capela Real [atual Igreja de N.S. do Carmo da Antiga Sé, na Praça XV] e enchiam de vida eventos por toda a cidade.

Simplício de Sá, Pedro I e a Imperatriz Leopoldina, óleo sobre tela, Fundação Romão Duarte

A viagem

A viagem de Leopoldina ao Brasil foi difícil e demorada. A arquiduquesa partiu de Viena em direção a Florença em 2 de junho de 1817, onde esperava definições da corte portuguesa para prosseguir com a travessia que a levaria ao marido, dom Pedro. Ainda era recente o restabelecimento da ordem monárquica, destituída em Recife por revoltosos de ideias liberais no episódio conhecido como Insurreição Pernambucana.

Dona Leopoldina embarcou em Livorno, na Itália, na esquadra portuguesa composta das naus D. João VI e São Sebastião. Era a primeira vez que via o mar. Com uma bagagem de princesa e numerosa comitiva, enfrentou 86 dias de travessia nas águas do Atlântico. Quarenta caixas da altura de um homem contendo o enxoval, livros, suas coleções e presentes para a futura família somavam-se a algumas damas da corte, uma camareira-mor, um mordomo-mor, seis damas, quatro pajens, seis nobres húngaros, seis guardas austríacos, seis camaristas, um esmoler-mor, um capelão, um secretário particular, um médico, um mineralogista e seu professor de pintura.

Partiu definitivamente rumo ao Brasil em 15 de agosto. As diferenças de hábitos e costumes, notadas já no período em que esteve embarcada, prenunciavam as dificuldades que teria de enfrentar no Rio de Janeiro. A primeira vez que pisou em território português, contudo, não foi em terra Brasilis, mas na Ilha de Madeira, em 11 de setembro de 1817.


Hippolyte Taunay, Desembarque de S. A. a Princesa Real do Reino Unido, Portugal, Brasil e Algarves na cidade do Rio de Janeiro no Arsenal Real da Marinha

1.11.17

A PROCISSÃO DOS OSSOS, de VIEIRA FAZENDA

TEXTO EXTRAÍDO DA OBRA ANTIQUALHAS E MEMÓRIAS DO RIO DE JANEIRO DE VIEIRA FAZENDA, PARCIALMENTE REPRODUZIDA NA REVISTA DO INSTITUTO HISTÓRICO E GEOGRÁFICO BRASILEIRO, TOMO 88, VOL. 140 (1919)

Procissão dos Encapuzados, desenho de Manuel de Araújo Porto-Alegre (fonte: Biblioteca Nacional Digital)

Começavam, de véspera, os preparativos para a anual comemoração dos mortos, ordenada pela Igreja Católica.

No dia 1 de novembro, depois do meio-dia, dobravam lugubremente a finados todos os templos e capelas desta cidade. E era tal o efeito aterrador desse triste badalar de sinos, que em 1850, por ocasião da primeira epidemia de febre amarela, a polícia o proibiu. Ao entardecer abriam-se de par em par as portas da velha igreja da Misericórdia para, terminadas às Vésperas, deixar passar longo, imponente e significativo cortejo: era a Irmandade, que revestida de seus amplos e negros balandraus [=veste com capuz e mangas largas], ia, em nome de Cristo e da Caridade, disputar à voragem dos urubus e dos cães os restos mortais dos justiçados pela implacável e muitas vezes falível justiça dos homens. 

Resumindo as singelas expressões do Capítulo XXXVII do Compromisso Do modo com que se hão de ir buscar as ossadas dos que padeceram por justiça, tentaremos descrever a chamada procissão dos ossos [o autor refere-se a um capítulo do Compromisso da Irmandade da Misericórdia no qual se baseia para sua descrição da macabra procissão].

Abria o préstito o irmão oficial da vara com um homem do azul (empregado subalterno) tangendo a campainha.

Em seguida ia a Bandeira da Misericórdia conduzida por um irmão nobre entre dois tocheiros [=castiçal para tocha] levados por um irmão nobre e outro oficial. Após desfilava a Irmandade posta em procissão sem distinção alguma, nem precedência de lugar; e pelo meio ia o mordomo da vara, nobre, governando entre a irmandade, e em lugar conveniente ia a primeira tumba carregada pelos homens ordinários com quatro tocheiros às ilhargas [=ao lado], levados pelos homens que com eles andam nos enterramentos.

Diante dessa tumba caminhava o mordomo dos presos, oficial, levando a competente vara. Seguia-se a segunda tumba conduzida da mesma maneira que a outra, indo diante o mordomo nobre dos presos com a sua vara. No couce [=retaguarda] da procissão caminhavam os capelães da casa com suas sobrepelizes, e no remate deles o crucifixo, levado pelo escrivão da mesa acompanhado por 8 tocheiros. Atrás do crucifixo ia o provedor.

Chegado o préstito à forca, eram recolhidos os ossos nas tumbas, e a procissão voltava na mesma ordem, passando, porém, o provedor para diante do crucifixo, e indo após os capelães encomendando os defuntos, e em último lugar as duas tumbas com os dois mordomos dos presos.

Dentro da igreja eram as tumbas depositadas e, sentados os irmãos, havia pregação, sendo no dia seguinte enterrados os ossos no cemitério da Misericórdia, junto ao Morro do Castelo, na parte posterior do hoje Hospital Velho. Quando o dia de Todos os Santos caía em sábado, a procissão era feita no domingo.

Qual é a origem desta cerimônia religiosa, que de Portugal passou ao Brasil?

Os antigos juízes distinguiam duas espécies de mortes a atroz e a cruel; na primeira, o condenado depois de enforcado era decapitado, e a cabeça ficava exposta no patíbulo; outras vezes era o cadáver esquartejado, podendo também ser queimado e aos ventos lançadas as cinzas! Na segunda, o réu antes de morrer era atormentado, atenazado; podiam ser seus membros quebrados com massas de ferro, etc.

Da primeira temos exemplo com Tiradentes, da segunda com os Távoras! [ver "Processo dos Távoras" na Wikipedia]

Sempre, porém, nos intrigaram as duas fórmulas das sentenças de pena última: morte natural PARA SEMPRE e morte natural.

Deu-nos a chave do enigma uma nota das Ordenações Filipinas comentadas pelo erudito Cândido Mendes, que para explicar tais expressões encontrou fundamento em uma memória do bacharel João José Miguel Ferreira da Silva Amaral. Por aí podemos ter a significação da Procissão dos Ossos.

Os corpos dos condenados à morte natural para sempre ficavam suspensos da forca, e no dia 1 de novembro iam processionalmente os irmãos da Misericórdia buscá-los para os enterrar em lugar sagrado.

Eram passíveis dessa pena os grandes criminosos, contra os quais havia circunstâncias agravantes; os condenados ficaram expostos para exemplo e escarmento [=punição]. Disso nos dá prova o seguinte alvará de d. Manuel em data de 2 de novembro de 1498:

“Nós El-Rei fazemos saber a quantos este Nosso Alvará virem que a Nós praz havendo assim por serviço de Deus e Nosso que a Confraria que agora é feita em esta Cidade, possa tirar os justiçados da forca desta Cidade e ossadas deles, por dia de Todos os Santos de cada um ano e soterrá-los no Cemitério da dita Confraria, isto para sempre em cada ano etc.”

Os que deviam sofrer somente morte natural não tinham por patíbulo a forca de Santa Bárbara, mas o Pelourinho da Ribeira, e os restos deles podiam ser inumados no mesmo dia. Para esse mister, a Misericórdia de Lisboa havia requerido a construção de uma forca levadiça; mas o rei, por outro alvará de 2 de novembro de 1498, declarou: “que se não faça a dita forca levadiça, e os que assim houverem de padecer serão enforcados no Pelourinho.”

Pensamos fossem feitas, até certo ponto, no Brasil, as execuções da pena de morte por esses dois modos, e que entre nós houvesse anualmente a procissão dos ossos. Caiu ela em desuso, quando, com o progresso dos tempos, foram a pouco e pouco sendo abolidos os rigores e crueldades da antiga legislação, principalmente com o decreto do príncipe regente d. João, firmado em 12 de dezembro de 1801.

Já dissera o grande Alexandre de Gusmão: as leis são feitas mais para intimidar do que para punir. E em tempos anteriores um governador-geral pedia ao rei certa benevolência para os criminosos do Brasil: “esta terra não se deve, nem pode regular pelas leis e estilos do Reino; se Vossa Alteza não for muito fácil em perdoar, não terá gente no Brasil.”

Era assim que em santa e gloriosa missão a Misericórdia, fazendo a solene procissão dos ossos, dava prova eloquente de piedade cristã e procurava obrigar aos demais fiéis a se lembrarem dos defuntos – ainda que sejam tão desamparados como estes (os justiçados) parecem.

Não vem longe o dia de finados, e é justo lembrar mais essa feição simpática do sublime instituto, que, tênue arbusto no começo desta cidade, se tornou copada árvore, à cuja sombra, durante três séculos, se tem abrigado milhares e milhares de filhos do desamparo e do infortúnio.

Recordar tais antiqualhas é concorrer com pequeno contingente para a história econômica dos nossos usos e costumes, a qual está ainda por fazer.


15 de outubro de 1901.

11.10.17

ORATÓRIO DO MORRO DA PROVIDÊNCIA

O então conhecido como "Santuário do Cristo Redentor" em fotografia do início do século XX de Augusto Malta. Foto obtida na Biblioteca Nacional Digital

Em sua versão original de 13/5/15, esta postagem, com base em fotografia de 1881 que mostramos adiante, desmentia o “mito” de que o Oratório do Morro da Providência teria sido erguido no início do século XX. Só que novas pesquisas me revelaram que o Oratório foi, sim, construído em 1901 e que aquilo que parecia o Oratório na foto de 1881 na verdade era uma caixa d’água, conforme me informou o historiador Milton Teixeira. Esta nova versão da postagem corrige o erro da versão original. A História é uma disciplina nebulosa, cheia de pontos polêmicos, e às vezes somos induzidos ao equívoco. Agora, que os soldados iniciaram a ocupação do morro isto, sim, é um mito. Já existiam moradores lá havia tempos. Segundo Milton Teixeira, desde a época colonial. Os soldados criaram a favela. Dito isto, vamos ao que interessa.

Quando fotografado por Augusto Malta no início do século XX, o “Oratório do Morro da Providência” — situado na ponta noroeste do morro, tombado pela Prefeitura em 1986 e também conhecido por “Capela das Almas”  denominava-se Santuário do Cristo Redentor e em seu frontispício lia-se A JESUS CHRISTO (a inscrição e a cruz superior se perderam). Depois da construção da estátua do Cristo no alto do Corcovado, o santuário ao pé dessa estátua recebeu esse mesmo nome. Uma placa no interior do Oratório indica que foi construído em 1900-1901 (ver foto adiante). A data é confirmada por duas notas publicadas no semanário católico O Apóstolo

A primeira, na pág. 2 da edição de 15 de dezembro de 1900, diz (texto adaptado à ortografia atual): "Está quase concluído o monumento, a grandiosa Cruz que no Morro da Providência será erigida para comemorar a passagem do século e o amor deste povo a Jesus Cristo Redentor. Será bento e inaugurado a 31 do corrente pelo Ex. Rvm. Sr. Arcebispo. Nossos louvores a seus promotores." A segunda, na pág. 2 da edição de 22 de dezembro do mesmo ano, diz: "A inauguração da Cruz, que como monumento em honra a Jesus Cristo se erguerá no Morro da Providência, se realizará no dia 1 de Janeiro, às 5 horas da tarde, sendo benta pelo Ex. Sr. Arcebispo D. Joaquim Arcoverde." Portanto, sobre a data da construção do Oratório não paira dúvida.

As notas derrubam o mito de que Oratório teria sido erigido em homenagem aos soldados tombados em Canudos. Na verdade, homenageou a mudança do século e a devoção a Jesus Cristo. Outro mito que costumamos ouvir é que a ocupação do morro começou pelos soldados retornados de Canudos (1897). O mito cai por terra quando lemos em jornais e outras publicações anteriores menções a moradores e casas do Morro da Providência. Mais à frente mostramos algumas dessas menções. 

O que os soldados criaram foi a favela. Aliás, os soldados mudaram o nome para Morro da Favela em alusão a um morro existente em Canudos, que aliás tinha esse nome devido a um arbusto, denominado "favela" ou "faveleiro", existente na região, como vemos em Os Sertões. Mais tarde o morro retomaria o nome original.

O agora conhecido como "Oratório do Morro da Providência" com barracos em torno.

O Oratório de perto

Altar dentro do Oratório

TRECHO DE Brasil Gerson, História das ruas do Rio, quinta edição, p. 183

Ao regressarem das expedições contra Antônio Conselheiro, no fim do século passado [XIX], receberam os soldados do Coronel Moreira Cesar e do General Artur Oscar, alguns recursos para instalar-se em casa própria no Rio, e foi ali, nas abas da Providência, que eles o fizeram, e logo disseram que ela era a sua “favela” carioca, numa alusão ao morro do sertão baiano de onde a artilharia legalista bombardeava o reduto daqueles jagunços místicos... E o nome, popularizando-se, ficou sendo também dos nossos demais conglomerados humanos semelhantes para, afinal, figurar depois no dicionário como um novo brasileirismo, bem típico dos tempos modernos, nas nossas atravancadas metrópoles.

Placa no interior sugere que o Oratório tenha sido construído em 1900-01

A porta

Dona Chiquinha (Francisca), a guardiã do Oratório (ver vídeo ao final

TRECHOS DE Euclides da Cunha, Os Sertões, Editora Nova Cultural, págs. 23-4, 31, 37

Todas traçam, afinal, elíptica curva fechada ao sul por um morro, o da Favela, em torno de larga planura ondeante onde se erigia o arraial de Canudos[.]

Galgava o topo da Favela. Volvia em volta o olhar, para abranger de um lance o conjunto da terra.

Do topo da Favela, se a prumo dardejava o Sol e a atmosfera estagnada imobilizava a natureza em torno, atentando-se para os descampados, ao longe, não se distinguia o solo.

As favelas, anônimas ainda na ciência — ignoradas dos sábios, conhecidas demais pelos tabaréus — talvez um futuro gênero cauterium das leguminosas, têm, nas folhas de células alongadas em vilosidades, notáveis aprestos de condensação, absorção e defesa.



Frente do Oratório. A inscrição "A JESUS CHRISTO" e a cruz no topo se perderam. 

INDICAÇÕES DE QUE O MORRO JÁ ERA HABITADO ANTES DA CHEGADA DOS SOLDADOS

O Boletim da Câmara Municipal da Corte de 1863 cita à pág. 10 um requerimento para a construção de uma escada da rua do Sacco [Rua do Saco do Alferes, atual Rua da América] ao Morro da Providência:

O Sr. Dr. Monteiro dos Santos apresentou os seguintes pareceres:
"Sobre a informação do engenheiro ácerca do requerimento de alguns moradores e proprietarios do Morro da Providencia, pedindo permissão para fazerem gratuitamente no dito morro uma escada ou rampa para á rua do Sacco, sendo a obra inspeccionada pela directoria das obras municipaes: conformo-me com informação do engenheiro. Rio, 15 de maio de 1863. – Dr. Monteiro dos Santos."
– Foi approvado.

O Diário do Rio de Janeiro de 6 de junho de 1860 menciona a cobrança da décima urbana (espécie de IPTU) aos proprietários e inquilinos também no Morro da Providência:



Notícia publicada na primeira página do Jornal do Brasil de terça-feira, 5 de setembro de 1873:

BAILE A’ NAVALHA

Francisco Miguel do Nascimento dansava hontem alegremente num baile, no morro da Providencia.

Como nessas occasiões o sangue se esquenta e “o sangue é que faz mal ao corpo” o cunhado de Nascimento, de nome Josué José Gomes agrediu-o, dando-lhe tres navalhadas.

E o pobre homem passou do baile para a Misericordia.

Também em O Paiz encontramos indícios de ocupação pré-Canudos, por exemplo, na edição de 12 de setembro de 1885, na seção ANNUNCIOS, consta: "ALUGA-SE a casa do Morro da Providencia n. 23: está limpa; para tratar na rua do General Camara n. 365." E na pág. 2 da edição de 22 de novembro de 1885 lemos: "Juvencia Maria Rosa da Conceição, moradora em um casebre no morro da Providencia, estando ante-ontem, ás 5 horas da tarde, junto ao fogão, fazendo o jantar, foi presa pelas chammas, resultando ficar bastante queimada." E na edição de 22 de abril de 1886 de O Paiz, lemos:

O governo imperial, que tão solicito se tem mostrado em favorecer a construcção de casas e alojamentos para as classes operarias, concedendo ás emprezas que a isso se propõem os favores marcados em lei, não póde deixar de attender á reclamação que lhe fazem por este meio os moradores do morro da Providencia.
Reside neste logar grande numero de operarios e pessoas que trabalham por soldadas, não só pelo menor aluguel que ali pagam, como pela elevação do solo, que lhes dá presumpção de salubridade, mais do que lhes promettem os bairros baixos da cidade. Essas condições, infelizmente, são destruidas pela má distribuição da agua.

Esta e outras notícias da imprensa da mesma época mostram que o morro já era habitado (ao menos esparsamente) antes da vinda dos soldados de Canudos.

Oratório visto da Gamboa

Esta foto da Estação Marítima, de 1881, dá a impressão de que o Oratório já existia naquela época. Encontra-se na pág. 30 de Vistas Photographicas da Estrada de Ferro D. Pedro 2 que você pode consultar clicando aqui. Mas se você examinar bem verá que o formato não é exatamente o mesmo (as janelas não são ogivais, falta a cúpula e a cruz), como confirma a ampliação abaixo. Trata-se provavelmente de uma caixa d'água erguida por André Rebouças em 1881, como informou Milton Teixeira ao editor deste blog.


E para terminar, uns versinhos engraçadinhos que pesquei no Jornal do Povo de 24 de novembro de 1879:

Fui á cata do Bandarra
No morro da Providencia
Para intervir na pendencia
Entre a formiga e a cigarra;
Que eu nunca toquei guitarra
Nos harens de Salatino;
E o cervejeiro Gambrino
Nunca indagou minha sorte
Se eu sou do sul ou do norte
Se Facundes ou Galdino.