12.6.13

TRÂNSITO DE PAULISTA

"Psicólogos já se debruçaram sobre o fenômeno do estresse no trânsito e seu poder de reduzir as pessoas a um estado animalesco, mas duvido que alguém consiga explicar o trânsito carioca. Fechar cruzamento não é só ilegal. É burrice. Assim como estacionar em calçadas. Quem gostaria de ver seu filho andando pela rua porque não tem espaço nas calçadas?" Leia mais aqui.

1.6.13

SANTA CRUZ: UMA PAIXÃO



Ver Santa Cruz num mapa maior


FOTOS DO EDITOR DO BLOG
TEXTOS (exceto legendas das fotos) EXTRAÍDOS DO LIVRO SANTA CRUZ: UMA PAIXÃO, DE NIREU CAVALCANTI (COLEÇÃO CANTOS DO RIO).


Antigo palacete do Senador Júlio Cesário de Melo na Praça Dom Romualdo em Santa Cruz (veja a localização desta e de outras atrações no mapa acima). Construção da primeira metade do século XIX, serviu de cenário para a novela O Bem Amado.

O Palacete Princesa Isabel, construído na área da Antiga Fazenda Imperial de Santa Cruz (Avenida do Matadouro) para ser a sede administrativa do Matadouro Público, foi inaugurado em 1881, com a presença do Imperador Pedro II. Tendência arquitetônica neoclássica. O prédio abrigou depois a Escola Santa Isabel e hoje lá está o Centro Cultural Municipal de Santa Cruz.

Ruínas do antigo Matadouro Imperial de Santa Cruz (atrás do palacete acima), cuja sede foi inaugurada em 1881 pelo Imperador Dom Pedro II.

Nave do Conhecimento Tim Lopes, construída na Rua Álvaro Alberto onde havia dois prédios abandonados, em ruínas, e uma cracolândia. A Nave consolida um conjunto de atividades e programas desenvolvidos pela Secretaria Municipal de Ciência e Tecnologia. Inaugurada em junho de 2012.

Palácio Real, capítulo do livro Santa Cruz: Uma paixão de Nireu Cavalcanti

Todo monarca português deveria ter, no mínimo, três imóveis diferentes: um palácio requintado na Cidade-Corte, no caso, Lisboa; um palácio de campo, em quinta (chácara) próxima à Corte e um palácio rural, em grande fazenda, para exercício das nobres atividades agropastoris da equitação e da caça silvestre.

Ao chegar e se instalar na cidade do Rio, a Corte recebeu como palácio urbano o antigo Paço dos Vice-reis — na atual Praça Quinze, prédio onde funciona o centro cultural denominado Paço Imperial —, após reforma apressada de pintura e forração de paredes com tecidos. Obras igualmente ligeiras foram realizadas nos prédios do Convento do Carmo e na Casa da Câmara e Cadeia, para anexá-los ao prédio principal. Portanto, o palácio real, que passou a abrigar o governo monárquico português, ocasionou a expulsão de suas sedes do vice-rei, seus funcionários e lacaios; dos vereadores; dos presos e seu carcereiro e dos frades carmelitas.

O palácio de campo, o príncipe regente D. João ganhou-o de presente do rico negociante Elias Antonio Lopes. Esse senhor era dono de uma chácara localizada em São Cristóvão (parte de uma das propriedades confiscadas aos jesuítas) e a casa sede estava em final de construção, quando D. João foi visitá-la. O príncipe regente ficou admirado com a grandiosidade do imóvel e, ao que dizem, fez comentários elogiosos, o que levou o proprietário a presenteá-lo. Com status de palácio nobre, foi batizado de Palácio Real da Boa Vista

Por fim, o palácio rural da monarquia foi instalado na Real Fazenda de Santa Cruz! Pronto para ser ocupado, tinha muitos quartos — antigas celas dos jesuítas — salão, cozinha e igreja. Na verdade, seus aposentos não eram dignos de um monarca europeu: necessitavam de grandes reformas, decoração requintada e muitas ampliações. Em agosto de 1808, o príncipe regente D. João já despachou do seu Paço de Santa Cruz. Porém, durante os 13 anos em que governou o Brasil, não fez as obras necessárias para adequar melhor o palácio às funções de residência rural da monarquia.

D. Pedro I, entretanto, encomendou ao seu arquiteto particular, o francês Pierre Joseph Pezerat, autor da reforma do palacete da marquesa de Santos, o levantamento das construções existentes no conjunto do palácio e um projeto de reforma do mesmo. [...] Do ponto de vista de quem olha o palácio de frente, ele ainda não possuía o trecho da fachada à direita da igreja, construído posteriormente, no governo do imperador Pedro II. Debret e Thomas Ender registraram, em belas perspectivas, esse conjunto de edificações desenhado em planta baixa por Pezerat.

Muitas obras de urbanização e a edificação de novos imóveis em apoio às funções palacianas foram realizadas. O largo em frente ao palácio foi urbanizado e foi melhorada a Real Estrada de Santa Cruz. Novos logradouros foram abertos e neles aforados terrenos para construção de casas térreas e sobrados, alguns requintados, para abrigar atividades comerciais e os nobres e ricaços sequiosos de desfrutar a convivência com o poder real.

Casarão de 1896 com bela fachada adornada com mísulas "sustentando" a cornija, platibanda vazada e coroada por compoteiras laterais e um frontão de inspiração barroca, na rua Felipe Cardoso, esquina com Dr. Continentino.

Batalhão Vilagran Cabrita na Praça Ruão (300 metros ao norte da estação de trem), antiga sede (ampliada e modificada) e igreja da fazenda dos jesuítas.

Batalhão Vilagran Cabrita: antigo portal da igreja, único traço barroco que restou do conjunto original.

Maquete (no Centro Cultural de Santa Cruz) da antiga sede e igreja da Fazenda dos Jesuítas que depois deu lugar ao Batalhão Vilagran Cabrita.

Matriz Nossa Senhora da Conceição (perto da Praça Dom Romualdo) em dia de chuva intensa.

Igreja de Nossa Senhora da Glória na Praça Santa Cruz num belo dia de sol.

Casas antigas (Rua Senador Câmara).

Lembranças pessoais (1971-2003), capítulo do livro Santa Cruz: Uma Paixão de Nireu Cavalcanti

[...]
Imbuído desse novo espírito, fui in loco reconhecer e apreciar os monumentos históricos de Santa Cruz.

O núcleo principal da fazenda jesuítica, depois, sucessivamente, da Coroa portuguesa e da brasileira, situado em platô no alto de uma suave colina, estava profundamente modificado. Do antigo largo do Paço, hoje praça Ruão, só ficou o traçado, a forma retangular e suas dimensões. No tocante às edificações, resta apenas o conjunto — muito alterado na volumetria e estética — da igreja e do palácio. Dos traços barrocos originais do prédio onde hoje se situa o Batalhão Vilagran Cabrita, só restou o portal da igreja [ver foto acima]. Apesar das transformações, esse prédio principal, com três pavimentos, apresenta volumetria proporcional e guarda certa monumentalidade e traços neoclássicos de boa arquitetura. O largo ou praça e agradável e imponente e merece ser vivenciado por quem for a Santa Cruz.

Possui o bairro outro conjunto de edificações do século XIX, de grande expressividade arquitetônica — que visitei em 1971 e revi recentemente — onde funcionou o antigo Matadouro, inaugurado solenemente às 9 horas da manha de 30 de dezembro de 1881, com a presença do imperador D. Pedro II, dos vereadores, de membros do ministério e de grande multidão, tendo recebido a benção do padre Dâmano do Rego Barros. Localiza-se em ampla quadra entre as ruas das Palmeiras Imperiais, do Matadouro, do Ferreira e o largo do Bodegão. Formava um conjunto arquitetônico significativo, como se pode constatar pelas belas ruínas do bloco principal, do qual restou parte da fachada com sua interessante seqüência de vãos de portas e janelas dotados de vergas circulares [ver foto acima]. As edificações de apoio permaneceram, delas destacando-se o majestoso sobrado onde funcionava a administração do Matadouro, depois ocupado pela Escola Santa Isabel. Se em minha primeira visita a esse belo conjunto senti um misto de emoção estética e tristeza por constatar o abandono em que se encontrava, trinta anos depois encontrei-o revitalizado e abrigando a sede do Cetep Santa Cruz (Centro de Educação Tecnológica e Profissionalizante), ligado à Secretaria de Estado de Ciência e Tecnologia, inaugurado em 26 de setembro de 1998. Nesse Centro funcionam uma escola técnica, uma de ensino industrial, Centro de Informática, um centro referencial de informações, a escola 24 horas de apoio ao estudante, creche e amplo complexo esportivo. Frequentam o Cetep, cerca de 10 mil alunos.

O prédio da antiga Escola Santa Isabel passou por ampla reforma, que o fez renascer e realçou-lhe a beleza neoclássica. Hoje, abriga o Centro Cultural de Santa Cruz [ver foto do Palácio Santa Isabel acima], com varias atividades e funções. Foi tombado pelo município em 7 de maio de 1981 e nele funciona o Ecomuseu e o NOPH, associação cultural guardiã de documentos manuscritos, de publicações e de peças ligadas à história da antiga fazenda dos jesuítas. Acham-se ali expostos uma arca e um sacrário em madeira entalhada, pertencentes à antiga capela do período setecentista.

Outro exemplar significativo do patrimônio histórico do bairro é o hangar do Zeppelin [foto da capa do livro acima], na Base Aérea de Santa Cruz, tombado pelo município em 24 de novembro de 1992, por sua importância para a história da aviação brasileira. Trata-se de edificação de grande porte iniciada em 1934 e inaugurada dois anos depois, para abrigar os dirigíveis (Graff Zeppelin e o Hindenburg) da linha aérea entre a Alemanha e o Brasil, na rota Frankfurt-Recife-Rio de Janeiro.

Para nós, arquitetos e urbanistas, o hangar do Zeppelin tem importância para a história da arquitetura brasileira, pois foi lá que desembarcou Le Corbusier, vindo da França, a fim de divulgar os princípios da arquitetura moderna , convidado pelo ministro Gustavo Capanema, do então Ministério de Educação e Saúde. Em suas memórias, o arquiteto Lúcio Costa registra a sua ida junto a uma comissão para receber o ilustre visitante: “"Fomos todos de madrugada [12/07/1936] esperá-lo em companhia de Hugo Gouthier, então do gabinete do ministro [Gustavo Capanema], chefiado por Carlos Drummond de Andrade.”

O ponto alto dos monumentos históricos de Santa Cruz é, sem dúvida, a Ponte dos Jesuítas [ver fotos abaixo], construída no século XVIII pelos inacianos. Além de ponte, desempenhava a função de comporta reguladora do regime das águas dos rios que transbordavam no período das grandes chuvas. Na época das secas, as comportas dos arcos da ponte eram abertas e a água se esvaía, irrigando e umedecendo o solo ressecado pelo sol. É uma das mais importantes obras de engenharia hidráulica realizada no Rio de Janeiro colonial. É lamentável que em seu entorno não haja um complexo turístico com lojas, restaurantes e salas de exposição com a história das obras jesuíticas no bairro.

Santa Cruz mudou muito ao longo do período de 1971 a 2003: perdeu, sobretudo, seu ar bucólico e tranquilo. A rua Felipe Cardoso (antiga Estrada Real de Santa Cruz), principal artéria do bairro, viu-se privada da maioria dos seus antigos casarões, substituídos por prédios novos com linguagem arquitetônica moderna. [...] Um logradouro que guarda sua imagem de trinta anos atrás é a avenida Isabel, pois lá ainda se encontram velhos casarões e arborização frondosa, com alguns espécimes majestosos.

Os antigos campos agrícolas e pastoris foram ocupados por conjuntos de edifícios residenciais, favelas, galpões e edificações industriais. Sepetiba emancipou-se de Santa Cruz e suas praias foram poluídas pelos rios que nelas deságuam[...]

Sem dúvida, Santa Cruz é um Canto do Rio que merece todo apoio do poder público e de todos os cidadãos que amam a nossa Cidade Maravilhosa, para que as suas qualidades — especificidades diferenciadoras de outros bairros, como o seu rico patrimônio histórico, arquitetônico, artístico e ambiental —, sejam preservadas. Para mim, Santa Cruz continua a ser um belo Canto do Rio.


Fonte Wallace na Praça Dom Romualdo (sob uma chuva torrencial). De autoria de Charles Auguste Lebourg, foi executada pela Fundições Val d'Osne, França. Tombada pelo Município.

Marco 11 da Estrada Real de Santa Cruz na Rua Felipe Cardoso, esquina com Av. Isabel (sob chuva torrencial — observe as pessoas se abrigando na marquise da loja).

Ponte dos Jesuítas no encontro da Estrada do Guandu com a Estrada do Cortume. "Esta ponte-comporta edificada pelos jesuítas nas terras de sua fazenda de Santa Cruz tinha a função de regularizar o curso do rio Guandu. Construção: 1740-1752" (Guia da Arquitetura Colonial, Neoclássica e Romântica no Rio de Janeiro)

Ponte dos Jesuítas (detalhe).

17.5.13

DO ATELIÊ DE DALLIER NO MORRO DA CONCEIÇÃO À CASA AMARELA NO MORRO DA PROVIDÊNCIA


Ver Do ateliê do Dallier no Morro da Conceição à Casa Amarela no Morro da Providência num mapa maior

Dallier é o idealizador do Projeto Mauá (o correspondente ao "Arte de Portas Abertas" do Morro da Conceição") e seu ateliê na Ladeira João Homem, 52 é uma atração turística desse aprazível morro. Dallier sempre recebe com um sorriso os visitantes do ateliê, contando histórias do morro e de sua longa vida de artista. Para ver mais fotos clique aqui.

Morro do Livramento

Morro do Livramento

"Favela Leite": escadaria ligando o Morro do Livramento ao da Providência

 Dallier diante da Casa Amarela, o Centro Cultural do Morro da Providência

 Exposição de fotos do Morro por Maurício Hora: conheça sua obra no Flickr.

Panorama da Casa Amarela

Grafite em frente da Casa Amarela

Grafite e Oratório (atrás, à esquerda) tombado do tempo da criação da "favela" pelos ex-combatentes de Canudos

Casa Amarela (lateral)

Projeto "Descascando a Superfície" de intervenção artística coordenado pelo artista Alexandre Farto em setembro/outubro de 2012 no Morro da Providência

Numa tarde ensolarada desse como sempre agradável início de outono (acabou o calor, terminaram de cair as "águas de março"), apanhei o pintor Dallier em seu ateliê do Morro da Conceição para um passeio (através dos morros da Zona Portuária) à Casa Amarela, o Centro Cultural do Morro da Providência que está celebrando os 115 anos da favela mais antiga da cidade com a mostra "Desarquitetura". Segue-se o depoimento de Dallier, "NO DIA QUE PISEI NO PROVIDÊNCIA":

30 de abril de 2013 uma data histórica para mim. Envergonhado de desmarcar com meu amigo Ivo convites que ele por tantas vezes me fez para visitar o Morro da Providência, desta vez resolvi enfrentar a empreitada de subir as ladeiras do morro e principalmente as escadarias que nos levariam à Casa Amarela que eu tinha muita vontade de conhecer e encontrar nela dois amigos: Maurício Hora, grande fotógrafo, e João Guerreiro, que me envia sempre e-mails contando os acontecimentos realizados na Casa Amarela e mesmo fora dela. Pois bem, comecei a subida pensando nas minhas pernas que não aguentariam essa grande aventura, fui subindo, subindo e quando dei por mim, lá estávamos eu e o Ivo dentro da tão badalada casa, orgulho desses dois amigos citados mais acima. Pena que não os encontramos, mais fomos muito bem recebidos por uma jovem cujo nome, Carolina, deve ter sido inspirado na bela música de Chico Buarque. Ela nos acompanhou até o mirante do morro onde se descortinam belas paisagens que a máquina fotográfica do Ivo registrou. Seja no Centro da cidade, Zona Sul ou Zona Norte, lá vai o Ivo , com sua máquina mágica mostrando ao mundo o que é que o Rio de Janeiro tem de mais tradicional e a beleza desta Cidade Maravilhosa. Obrigado, Ivo, por ter me proporcionado uma tarde tão especial. Paulo Dallier.

12.5.13

CONTRASTES ARQUITETÔNICOS NO RIO DE JANEIRO

Um aspecto que me fascina no Rio de Janeiro é sua paisagem arquitetônica tão diversificada, tão plena de contrastes, às vezes até caótica — o velho sobrado tendo ao fundo o prédio moderno, a igreja colonial espremida entre arranha-céus, essas coisas. "O Rio é uma cidade de diálogos arquitetônicos, em que o sobrado dialoga com essas towers (torres) mais recentes", comenta o professor de geografia João Baptista Ferreira de Mello, coordenador dos Roteiros Geográficos do Rio, em matéria no Globo-Rio.  Que diferença em relação às cidades do Velho Mundo com sua arquitetura mais ou menos padronizada — em Munique todos os prédios (com as raras exceções das igrejas históricas) têm a mesma altura, o mesmo número de pavimentos. Em minhas andanças pela cidade procuro captar o lado estético dessa aparente bagunça. É o que mostra essa exibição de slides.

1.5.13

HOSPITAL CENTRAL DO EXÉRCITO em BENFICA


O primeiro hospital militar da cidade, o Hospital Real Militar e Ultramar, foi criado em 1768, sob o governo do vice-rei Conde de Azambuja, nas casas do antigo Colégio dos Jesuítas, no Morro do Castelo.

Portão

Em 1830 uma Comissão Municipal considerou a localização do hospital inadequada: “A situação deste hospital sobre o Morro do Castelo nos parece ser a pior possível; sobre o cimo de uma montanha elevada, e defronte da barra ele está exposto a uma ventilação excessiva e sujeito aos inconvenientes de uma condição difícil para os objetos de primeira necessidade; para os mesmos doentes é grande o martírio de serem conduzidos por uma ladeira tão íngreme e perigosa [...]

O Pavilhão Central, único remanescente do projeto original.
 
Decreto da Regência de 1832 extinguiu os hospitais militares e criou os Hospitais Regimentais, tendo sido instalado no Rio de Janeiro um no Campo da Aclamação (atual Praça da República) e outro no Depósito da Praia Vermelha. Os Hospitais Regimentais foram extintos em 1844, dando lugar ao Hospital Militar da Guarnição da Corte, de volta ao Morro do Castelo.

Cúpula do Pavilhão Central, construído em 1912 e inaugurado em 1913
 
Com a proclamação da República, formou-se uma comissão para modernizar o exército e o serviço médico militar. Decreto do Marechal Deodoro de 1890 determinou a criação “na Capital Federal [de] um hospital central, único de 1a classe!”. Em 1892 foi lançada a pedra fundamental do novo hospital na grande área de 78.960 metros quadrados, adquirida ao Jóquei Club, no bairro de Benfica. O projeto previa oito pavilhões isolados para enfermarias e um grande pavilhão para administração de serviços gerais.

Fonte

Em 1902 foi inaugurado o hospital com apenas três pavilhões construídos. Somente em 1913, o majestoso Pavilhão Central, denominado "Floriano Peixoto", foi inaugurado pelo Presidente Marechal Hermes Rodrigues da Fonseca. Os pavilhões restantes foram entregues em 1915, 1916 e 1922. Sessenta anos depois, o hospital foi modernizado. Para isso demoliram-se os antigos pavilhões, exceto o pavilhão central, belo exemplar da sobriedade e imponência do estilo Luís XVI adaptado ao uso hospitalar e militar, único remanescente do projeto original.

Fundos do hospital (detalhe).
 
O editor do blog agradece à direção do Hospital pela autorização para fotografá-lo. Informações históricas obtidas no site do Hospital Central do Exército.

Janela gradeada.

Janela gradeada (por dentro).

Corrimão de madeira de lei.
 
Piso.
 
A escada.

O interior com a claraboia acima.
O interior.
 
Claraboia.

17.4.13

RECANTO DO TROVADOR, ANTIGO JARDIM ZOOLÓGICO (VILA ISABEL)

Portão do Recanto do Trovador, executado nas Fundições Val d'Osne na França, semelhante ao existente no Campo de Santana

Criado em 1888, o primeiro Jardim Zoológico do Rio de Janeiro [onde hoje se situa o Parque Recanto do Trovador] fez parte dos planos modernizadores do Barão José Batista de Vianna Drummond para a região. Após a proclamação da República e sem os recursos do imperador, o empreendimento tornou-se um dispendioso encargo financeiro. Assim, com a intenção de custear a manutenção do Jardim Zoológico o Barão de Drummond criou o jogo do bicho. No local encontra-se a primeira parte do gradil original do Campo de Santana e um portão executado nas Fundições Val d'Osne na França. (Guia do Patrimônio Cultural Carioca)

Da esquerda para a direita: Pico do Andaraí Maior, Pico da Tijuca, Pedra do Andaraí (bem no meio e mais à frente, também conhecida como Pedra do Grajaú) e Morro do Elefante. Logo mais à direita da árvore aparece um pedacinho da Serra dos Pretos Forros por onde passa a Estrada Grajaú-Jacarepaguá. 
Pista de skate

Crianças

Parte do antigo gradil do Campo de Santana (ver texto abaixo)

Na época da abertura da Avenida Presidente Vargas, o Campo de Santana perdeu 18 mil metros quadrados. Os imponentes portões, que estiveram na Exposição Universal de 1862, realizada em Londres, continuam a embelezar as entradas do parque, porém o gradil não está mais lá. Logo depois da Proclamação da República, os brasões do Império, fundidos segundo os caprichosos desenhos de Glaziou, foram substituídos pelas armas da República. Em 1938, o gradil foi retirado e espalhado por quatro locais diferentes da cidade, tão grande era sua extensão. Pode ser apreciado no prédio da UFRJ na Urca, na parte que confronta com a Avenida Wenceslau Brás; na saída da Floresta da Tijuca, no Portão do Açude; na Sociedade Hípica Brasileira, na Lagoa; e no Recanto do Trovador, em Vila Isabel, onde também existe um portão semelhante ao do Campo de Santana. (Eulalia Junqueira e Pedro Oswaldo Cruz, Arte Francesa do Ferro no Rio de Janeiro, Memória Brasil, pp. 118-121)


Comunidade do Morro dos Macacos. No tempo do domínio do tráfico, o parque passou a ser considerado área de risco e caiu no abandono. Com a pacificação, no final de 2011 a Prefeitura remodelou o parque, que agora está uma beleza.

TRECHO DO LIVRO GANHOU, LEVA! O JOGO DO BICHO NO RIO DE JANEIRO (1890-1960), DE FELIPE MAGALHÃES:


Cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro, 3 de julho de 1892. Nesse domingo de inverno carioca foram inaugurados vários divertimentos na empresa do Jardim Zoológico, de propriedade do sr. João Baptista de Viana Drummond, o barão de Drummond. O parque estava localizado no “pitoresco bairro de Vila Isabel”, na encosta da serra do Engenho Novo. Por ser um dia especial, a Companhia Ferro Carril Vila Isabel dispôs carros especiais para levar o público e os convidados até as dependências do zoo.

Esbanjando a cordialidade de um nobre, associando-a aos interesses de um empresário, o barão recebeu seus ilustres convidados, entre os quais o vice-presidente da República, cuja presença foi saudada por todos com um brinde à mesa do jantar. No agradável passeio, tendo em vista o clima ameno e a satisfação de todos, o barão e seu gerente Manoel Zevada lhes apresentaram as dependências do Jardim. Além das jaulas, gaiolas e viveiros presentes em qualquer empreendimento desse porte, a empresa de Drummond contava com um hotel “nas melhores condições, um magnífico restaurante e tinha em construção um grande salão especial para concertos”.

Os visitantes ainda poderiam passar seu tempo divertindo-se em animados bailes públicos, no circo de cavalinhos, em variados espetáculos ou fazendo apostas em alguns jogos liberados para aquelas dependências. Havia bilhar, carteado, jogo da pelota, frontão e outros. No entanto, esse domingo era especial, um novo divertimento estava para ser inaugurado.

Ao comprar o ingresso de entrada para o Jardim Zoológico, o visitante passaria a receber um ticket. No bilhete estaria impressa a figura de um animal. Pendurada num poste a cerca de três metros de altura, próxima ao portão de entrada do parque, havia uma caixa de madeira. Dentro desta ficava escondida a gravura de um animal, escolhida pelo barão em uma lista de 25 bichos que ia de avestruz a vaca, passando por borboleta e jacaré. Nesse domingo, às cinco horas da tarde, a caixa seria aberta pela primeira vez, e o público presente poderia, afinal, descobrir o animal encaixotado e saber se teria direito ao prometido prêmio de 20$000, 20 vezes o valor gasto com a entrada para o zoo. Na hora marcada, o barão dirigiu-se até o poste, revelou a avestruz e fez a alegria de 23 sortudos visitantes. (pp. 19-20)

13.4.13

TAMOIOS NO ARPOADOR





Texto de Zuenir Ventura publicado originalmente no encarte "Aniversário do Rio" de O Globo de 1o de março de 2013 e reproduzido com a gentil permissão do autor.

Aconteceu neste verão. Convidado a escrever sobre um canto do Rio, escolhi o Arpoador, porque de lá se costuma desfrutar deslumbrantes entardeceres. Os termômetros marcavam quase 40º, com a sensação térmica beirando os 50º. Sentado nas pedras, apreciava o sol refletir com tal intensidade sobre o mar espelhado que devo ter experimentado aquela ilusão ótica que no deserto se chama miragem. A gente entra num clima onírico e acredita ver o que não existe. De repente, senti uma urgência febril de dividir aquele espetáculo mágico com alguns personagens que cantaram e encantaram o Rio. A primeira aparição foi de Millôr, que veio correndo pela areia, como sempre fazia. Passou pelo largo que agora leva o seu nome, subiu até onde eu estava e repetiu uma de suas geniais definições: “O pôr do sol é de quem olha”. Em seguida, foi a vez de Tom e Vinicius, que atravessaram o Parque Garota de Ipanema carregando o violão. Tinham acabado de acordar, após uma longa noite de boemia. Finalmente, vindo de Copacabana, chegou Oscar Niemeyer, trazendo nos olhos as curvas das mulheres e dos morros cariocas com que fez sua arquitetura.

Como não podia deixar de ser, a conversa girou em torno dessa cidade solar, sensual, exibida que nasceu para ser musa. Falou-se principalmente do narcisismo de quem desde pequena se habituou aos elogios. Era ainda uma criança quando um de seus adoradores, o primeiro governador-geral Tomé de Souza, se desmanchou: “Tudo é graça o que dela se pode dizer”. Alguém lembrou que até os religiosos lançaram sobre ela olhares profanos: “É a mais airosa e amena baía que há em todo o Brasil”, suspirou o padre Anchieta, inteiramente catequizado. Seu colega da Companhia de Jesus, o padre Fernão Cardim, sentiu o mesmo: “É coisa fermosíssima e a mais aprazível que há em todo o Brasil”.

Estimulado pela exuberância sensorial daquela tarde, resolvi corrigir Vinicius, que dizia que ser carioca é um estado de espírito. Acho que é mais. Não se trata apenas de alma, mas de corpo e alma. Ama-se a cidade com todos os sentidos, a começar pelos olhos. Olha que coisa mais linda uma garota de Ipanema a caminho do mar. Ela vai se molhar e se estender nas areias para dourar seu copo quase nu. Segundo Tom, que transformou em música tudo isso, esse rito hedonista, quase erótico, é uma herança de nossos antepassados tamoios, que nos ensinaram a curtir a água, o corpo, a música e a dança.

O sol já estava sendo rendido no seu plantão diário, e os banhistas noturnos começavam a estender suas cangas na areia para o mais novo modismo deste verão: o banho de lua. Foi quando chegou Cazuza para fazer parte do show. Antes de dar um mergulho, cantou: “Vago na lua deserta das pedras do Arpoador”.

Nunca me senti tão tamoio quanto nesse fim de tarde, início de noite nas pedras mágicas do Arpoador.

23.3.13

O IMPREVISTO E O INESPERADO, de Teresa Souza



Frescão é um meio de transporte muito confortável e que adoro.
Dá para colocar a agenda em dia, verificar extratos, acertar a sobrancelha, ler o jornal, cochilar no ar condicionado, etc. etc. etc.
Coisas  simples e que geralmente não conseguimos tempo para fazer ao longo do dia.
Quando eu chegava ao Centro da cidade, um telefonema anunciando um imprevisto cancelou o meu compromisso. 
E agora? Eram 10 horas da manhã e eu só precisava estar em Ipanema às 13. O que fazer?
Descer do ônibus e voltar para o Jardim Botânico? Nada disso.
Resolvi me divertir no Centro do Rio e fazer coisas que normalmente só fazemos em países distantes.

Desci na rua 1º de março e a Igreja do Carmo estava aberta!
Só entrei lá em criança em algum casamento de família.
Como é linda! Enorme!
Pouquíssimas pessoas em um silêncio sepulcral à meia-luz.
Um som bem baixinho onde Roberto Carlos, o rei, cantava uma canção religiosa.
Sentei e me pus a observar: as imagens, a construção, os vitrais, as cúpulas, o altar, o silêncio. O silêncio.
Fiz uma oração e saí feliz continuando o meu caminho.


Seguindo em frente lembrei, graças a Deus e à Igreja do Carmo, da exposição sobre Leonardo Da Vinci na Casa França Brasil a poucos metros dali.
Que homem genial! Que sensibilidade, que arte maravilhosa.
Descobri que Da Vinci é sépio. A exposição é toda cor sépia. 
As imagens, os papéis, os objetos, os códices.
Ele disse: “Quando o espírito não trabalha com a mão, não existe arte.” 

Saí de lá uma pessoa melhor, muito melhor. 
Saí de lá emocionada pela oportunidade de ter visto o que vi.


Quando me dirigia para o metrô percebi que a Igreja da Candelária também estava com as portas abertas. Seria um sinal divino?
Ia ter uma missa meio-dia e meia.  
Vi os desenhos pintados na calçada dos meninos mortos na chacina. 
Vi a cúpula mais bonita de todas.
Ouvi um órgão gregoriano.
Vi o tapete vermelho enrolado em um grande carretel. 
Vi o padre com seu manto branco arrumar o altar.

Me benzi e me retirei.
Abençoada por Deus e Da Vinci.


Texto do livro de crônicas Palavra Carioca reproduzido com autorização da autora. O livro está à venda na livraria da Casa de Cultura Laura Alvim. Visite o blog da autora O Rio Que Eu Piso.