13.2.18

CARNAVAIS DE OUTRORA, de MANUEL BANDEIRA (1938)

Carnaval de rua no início do séc. XX. Foto obtida na Biblioteca Nacional Digital.

Conheci ainda o carnaval do papel-picado, dos limões-de-cheiro e do Zé-Pereira. O carnaval do Recife, na Rua da União, entre 1892 e 1896. O Zé Pereira 

Bum! Bum! Bum!
Bum! Bum-bum-bum!
Zé-Pereira!

era o baixo-contínuo que alimentava, sustentava toda a dissonante polifonia carnavalesca. Em casa de meu avô, nas casas da vizinhança, muito antes dos dias gordos, compravam-se as grandes folhas de papel de seda, brancas, verdes, azuis, cor-de-rosa, e durante semanas as tesouras trabalhavam picando papel em minúsculos quadradinhos. Eu ainda não tinha dez anos, mas já achava insensato levar horas preparando um punhado de papel picado que se iria embora pelos ares num gesto de mão que durava um segundo. Assisti ao aparecimento dos primeiros confetti, que me deslumbraram, das primeiras bisnagas, que eram como as de pasta dental atuais, das primeiras serpentinas. Das fantasias, a que mais me impressionava eram os dominós negros, as que me pareciam mais estranhas, mais misteriosas, mais poéticas.

Em 96 vim para o Rio e conheci o carnaval carioca, tão diferente do de hoje. Impossível dizer dele o que mestre Machado de Assis disse do Natal. O centro da cidade não era então a avenida Rio Branco; era uma das ruas mais estreitas e mais curtas da cidade, e também a mais elegante – a Rua do Ouvidor. Imagine-se toda a população da cidade querendo brincar na Rua do Ouvidor! O momento capital do desfile das grandes sociedades era na Rua do Ouvidor. As mais belas senhoras da cidade estavam nas sacadas.

Depois adoeci e durante anos, muitos anos, não vi senão os carnavais das cidadezinhas do interior. No Rio abriu-se a Avenida. A Rua do Ouvidor foi perdendo o seu prestígio. Quando voltei a ver o carnaval carioca, já era ele como o descreve Mário de Andrade no seu grande poema, que é de 1923:

... sangue ardendo povo chiba frêmito e clangor
Risadas e danças
Batuques maxixes
Jeitos de micos piricicas
Ditos pesados, graça popular
Coros luzes serpentinas
Coriscos coros caras colos braços serpentinas serpentinas
Sambas bumbos guizos serpentinas serpentinas


Mário esqueceu-se do éter dos lança-perfumes. Cheirava-se éter à vontade. Havia bebedeiras de éter, sobretudo no bar e no hall do Palace Hotel, o que celebrei devidamente no meu “Rondó do Palace Hotel”:

Deus do céu! que alucinação!
Há uma criatura tão bonita,
Que até os olhos parecem nus:
Nossa Senhora da Prostituição!
– “Garçom, cinco Martinis! Os
Adolescentes cheiram éter
No hall do Palace.

Depois... Depois o carnaval carioca passou a ter fama internacional. Criou-se um Departamento de Turismo, que começou a fazer propaganda do nosso carnaval. Instituíram-se prêmios. Não sei por que, se por isto ou por aquilo, ou por coisa nenhuma, a festa entrou a murchar, e o certo é que o carnaval verdadeiro, o carnaval de rua só serve hoje para fazer cinema ou tentar uma Rita Hayworth a dar as caras por estas bandas. O carnaval visto por Mário de Andrade em 1923 não existe mais...

1.2.18

TURMAS DE BATE-BOLAS (CLÓVIS) NO CARNAVAL DO RIO DE JANEIRO

O TEXTO ABAIXO É A CONCLUSÃO DE TRAMAS SIMBÓLICAS: A DINÂMICA DOS BATE-BOLAS NO RIO DE JANEIRO DISSERTAÇÃO DE MESTRADO DE ALINE VALADÃO VIEIRA GUALDA PEREIRA. O TEXTO INTEGRAL DA TESE PODE SER ACESSADO AQUI. VÍDEO E FOTOS DO EDITOR DO BLOG & ESPOSA.




Os bate-bolas são personagens característicos do carnaval do Rio de Janeiro. Entretanto, conforme pudemos ver, sua manifestação não tem tanta projeção quanto outras manifestações carnavalescas populares locais, como os desfiles de escolas de samba e os blocos carnavalescos da cidade do Rio de Janeiro, por exemplo.

Apesar de sua visibilidade relativamente pequena num âmbito maior, nos lugares em que as turmas de bate-bolas se manifestam, elas costumam ser extremamente expressivas, principalmente pela sua capacidade de mobilizar o público local, atraindo olhares e gerando as mais diversas expectativas e espécies de comentários.



A manifestação das turmas de bate-bola parece estar em expansão. Ouve-se falar de muitos novos nomes de turmas de bate-bolas surgindo no universo carnavalesco popular do Rio de Janeiro a cada ano; também se percebe a presença dos grupos de bate-bolas em localidades do município – e até mesmo do Estado do Rio de Janeiro – onde, até então, não era comum encontrá-los. Com isso, a manifestação tem alcançado uma visibilidade aparentemente crescente na sociedade em geral.

Apesar destas possíveis evidências de crescimento da manifestação das turmas de bate-bolas no carnaval do Rio de Janeiro contemporâneo, vimos que poucos estudos acadêmicos se voltaram a produzir um conhecimento mais aprofundado sobre a brincadeira, e os poucos que existem limitam-se, na maioria dos casos, a estabelecer descrições baseadas em maneiras generalizadas de brincar de bate-bola.



Percebemos que os textos sobre os bate-bolas tendem a se concentrar em algumas das facetas da brincadeira, que são aquelas que se mostram mais constantes, deixando de abordar e de explicar as diferenças e variações da manifestação. Além disso, vimos que mesmo os aspectos contemplados nos estudos descritivos devem ser aplicados, hoje em dia, cuidadosamente, pois muitos deles mostram-se defasados em relação às novas formas de visualidade e de performance características das manifestações das turmas de bate-bolas da atualidade.

Para entendermos a manifestação das turmas de bate-bolas contemporâneas de uma forma mais totalizante e atualizada, buscamos considerar todo tipo de informação possível sobre ela, de fontes diversas. Assim, além de recorrermos aos estudos acadêmicos pregressos, recorremos também à mídia impressa, à mídia digital, à sociedade em geral (que chamamos de senso comum), aos fantasiados e às pessoas envolvidas direta e indiretamente na realização das brincadeiras dos bate-bolas contemporâneos, de forma a registrarmos e compreendemos as visões correntes em cada um desses meios.



O que percebemos não foi um consenso, mas sim uma coexistência de formas variadas e até mesmo controversas de entendimento da manifestação. Para alguns, a brincadeira contemporânea dos bate-bolas relaciona-se à tradição, mas para outros, à inovação; para alguns, trata-se de uma prática relacionada à marginalidade, mas para outros, é uma forma genuína de arte e de cultura popular; para uns relaciona-se à agressividade e à violência, mas para outros, é brincadeira e diversão; para uns é sinônimo de pobreza e miséria, mas para outros, é sinal de status pelo dispêndio.

Para buscarmos entender o que teria levado a este conflito de visões da atualidade, pesquisamos brevemente o histórico da manifestação dos bate-bolas no Rio de Janeiro. Percebemos que em relação às origens da manifestação também há desencontros, lacunas e controvérsias. Algumas histórias situam o nascimento dos bate-bolas no bairro de Santa Cruz, no município do Rio de Janeiro, na década de 1930. Porém há registros escritos que falam de fantasias similares em épocas anteriores a esta década. Além disso, há quem defenda a história de que os bate-bolas seriam oriundos da zona norte da cidade.



Embora tenhamos levantado algumas questões acerca das narrativas históricas sobre os bate-bolas, sabemos que este é um assunto que merece ser visto com mais atenção, e que necessita de uma pesquisa mais específica, atenta às diferenças terminológicas que denominam a brincadeira e também às influências assimiladas pela manifestação no decorrer do tempo, pois as observações que fizemos se prestaram somente a demonstrar de maneira breve a existência de incoerências e de diferentes interesses subjacentes a cada história de origem que analisamos.

Além das informações teóricas, acompanhamos, registramos e analisamos certas práticas de algumas turmas de bate-bolas por meio de análise etnográfica. Através destes registros, concluímos que as turmas de bate-bolas contemporâneas são grupos que instituem certas identidades, compartilhadas coletivamente. Compreendemos as turmas de bate-bolas como espécies de grupamentos comunitários porque notamos a existência, em níveis diferenciados, de elementos simbólicos de manutenção de identidades coletivas em todas as turmas analisadas, como por exemplo a existência de nome, de emblemas, de lemas, bandeiras, e também, de histórias e ideais, entre outros elementos.



Percebemos que as turmas de bate-bolas contemporâneas empreendem leituras particularizadas do personagem bate-bola, que, no Rio de Janeiro, seria a representação local de uma espécie de arquétipo global de comicidade (que tem sido encontrado representado com feições próprias em diferentes localidades do Brasil e do mundo). Falamos em leituras particularizadas porque não encontramos um padrão rigoroso e estável da manifestação do bate-bola balizando as formulações e reformulações das brincadeiras de cada turma. Ao contrário, presenciamos a existência de repertórios abertos de elementos materiais e performáticos com significados flutuantes, a partir dos quais as turmas elaboraram suas “versões” para a fantasia e para o comportamento dos bate-bolas.

Como forma de ilustrar a multiplicidade e a variabilidade características dos elementos componentes da manifestação das turmas de bate-bolas, expusemos alguns dos elementos materiais e performáticos captados das turmas de bate-bolas observadas no momento da pesquisa. Mostramos que estes elementos são variados, que são opcionais e que são abertos à ressignificação. Mostramos ainda que os repertórios material e performático são dinâmicos e que se alimentam de elementos do cotidiano dos brincantes que, por sua vez, ao serem incorporados à brincadeira dos bate-bolas operam o duplo de adquirirem outras significações e de, ao mesmo tempo, conferirem outras significações à manifestação.



Entretanto, como também tivemos a oportunidade de verificar, as incorporações de elementos à manifestação dos bate-bolas não se dá de maneira completamente livre. Ela se submete à compreensão mais ou menos consensual que se tem da manifestação no universo conceitual compartilhado por todos os bate-bolas. Isto fica claro ao observarmos a classificação das turmas de bate-bolas em “estilos”, que são as categorias criadas pelos brincantes e correntes no universo conceitual da manifestação, e que se estabelecem por meio de identificações / diferenciações entre as turmas.

Um estilo pode ser compreendido como uma articulação de determinados elementos materiais com outros determinados elementos performáticos, associados a certos tipos de comportamentos. Ao relacionarmos uma amostragem dos estilos que identificamos no decorrer da pesquisa, privilegiamos a exibição visual dos elementos materiais a se combinarem para caracterizar cada estilo analisado – através da representação destes elementos no formato de desenho técnico. Elaborando a legenda com os desenhos técnicos, pudemos oferecer uma noção imediata das diferenças materiais de elementos tidos como genéricos – como o macacão, a casaca, a máscara e os adereços de cabeça, mão, pernas e pés –, marcando visualmente as diferenças materiais existentes entre eles. Em seguida, mostramos cada estilo analisado e suas respectivas articulações dos elementos materiais e elementos performáticos, e os tipos de comportamento associados a cada combinação específica.



Demonstramos que o repertório de estilos também não é fechado ou estável, demonstrando que além de se constituir com base em elementos de repertórios abertos e instáveis, um estilo pode também mudar de configuração, novos estilos podem ser constantemente criados, antigos estilos podem ser renomeadas e há estilos que podem deixar de existir. Além disso, mostramos haver a possibilidade das turmas de bate-bolas migrarem entre estilos.

Com isso tudo que se pesquisou e que se observou, não poderíamos deixar de perceber como características marcantes da manifestação das turmas contemporâneas de bate-bolas a capacidade de hibridismo, de dinâmica e de dissenso, reforçadas pela existência de diferentes formas de brincar sob uma designação genérica.



Em dados tipos de abordagem teórica, a dinâmica e o dissenso característicos da manifestação poderiam levar até mesmo a se desqualificar a brincadeira dos bate-bolas enquanto objeto cultural, pois a cultura popular normalmente oscila entre duas concepções clássicas: aquela que entende o popular como sendo o campo de resistência às investidas dos meios massivos, da autonomia simbólica e da perpetuação da tradição através da conservação dos costumes; ou aquela que compreende o popular como o campo da submissão às investidas efêmeras da indústria cultural, da passividade simbólica e da ignorância ou da negação das raízes culturais.

O que vimos na manifestação dos bate-bolas contemporâneos não se enquadra nem em uma nem na outra destas concepções de cultura popular. Para nós, a cultura popular é, ao contrário, o terreno no qual as transformações são operadas. Ela não se expressa nem pela autonomia pura, nem pelo total encapsulamento; nem como algo inteiro e coerente, nem como algo corrompido, mas sim como a tensão entre estas polaridades. E, enquanto tensão, a cultura popular engendra movimento.



Para os Estudos Culturais as impurezas são características inerentes ao objeto cultural, pois um objeto cultural seria estabelecido num processo constante de contatos e influências. A cultura popular seria a arena de disputa simbólica pela definição dos objetos culturais, cujos significados permaneceriam sempre conflituosos e contestados. Por isso, adotamos os Estudos Culturais como campo teórico para subsidiar a análise da manifestação, tal qual ela se apresenta nos dias de hoje, em sua totalidade, e considerando as suas constantes atualizações.

No caso da manifestação das turmas de bate-bolas contemporâneas, as lutas simbólicas nas quais os brincantes estão envolvidos podem ser observadas por dois prismas: pelo da disputa simbólica entre as turmas, na qual está em jogo a definição hegemônica da manifestação das turmas de bate-bolas; e pelo da disputa simbólica sobre a definição dos objetos apropriados do cotidiano e incorporados aos repertórios de bens simbólicos da manifestação.



Quanto às disputas simbólicas entre as turmas, que são as que mais nos interessam, afirmamos serem lutas em processo porque não identificamos a existência de uma definição hegemônica da brincadeira que norteie os caminhos a serem percorridos pelos brincantes, na constituição de sua prática, de uma forma fechada, inequívoca. Também não vimos, na constituição das formas particulares de brincar, uma total liberdade de se autoformularem de maneira muito dissonante em relação ao que se costuma praticar no universo maior da manifestação.

Compreendemos a manifestação dos bate-bolas como um objeto cultural complexo, tenso, disputado, uma espécie de luta onde se lida com adesões e recusas simbólicas. Nesta manifestação, percebe-se que os brincantes ora se submetem às regras alheias, ora determinam regras para o jogo. São agentes culturais em potencial, e sua ação se manifesta por meio do consumo particularizado, ou seja, pelas formas próprias de uso dos bens simbólicos estabelecidos no seio do universo conceitual da manifestação.



Compreendemos, finalmente, que a manifestação dos bate-bolas não deve ser definida em ambiente externo ao universo simbólico da manifestação, pois cabe aos bate-bolas da contemporaneidade decidirem o que é, atualmente, a manifestação das turmas de bate-bolas.

Esperamos, com nossas argumentações, termos contribuído com informações mais atualizadas e abrangentes sobre a manifestação das turmas de bate-bolas, em sua complexidade atual. Esperamos também ter levantado mais uma possibilidade de abordagem do conceito de cultura popular, o que acreditamos ser de extrema relevância nos dias atuais, em virtude da ocorrência de tantas manifestações tidas como fronteiriças, ou impuras, e que estão aguardando por consideração.



Como complemento deste trabalho, em continuidade à análise da manifestação das turmas de bate-bolas contemporâneas em suas interações, acreditamos ser relevante abordar mais detalhadamente a relação da manifestação das turmas de bate-bolas contemporâneas com o contexto social mais amplo, considerando melhor as leituras da manifestação promovidas por agentes culturais externos ao universo simbólico da manifestação das turmas dos bate-bolas.

Acreditamos também que seja relevante realizar uma pesquisa histórica detida naqueles que teriam sido os modelos de comicidade popular sobre os quais a manifestação dos bate-bolas veio se definindo ao longo do tempo e que, ao que parece, possuem raízes bem mais profundas e bem menos lineares do que aquilo que investigamos até aqui.



Vemos as manifestações das turmas de bate-bolas contemporâneas como uma expressão cultural popular extremamente potente e em franca expansão. Acreditamos que as disputas simbólicas acerca da definição do seu conceito perdurarão por muito tempo, e que com isso, nos brindarão com muitos novos espetáculos de fecundidade estética, de criatividade e de talento; afinal, ao contrário de tantas outras brincadeiras carnavalescas que surgiram e desapareceram ao longo dos anos, a brincadeira dos bate-bolas permanece, dando uma prova de que a sua abertura às assimilações do cotidiano tem sido uma garantia de longevidade.

Desejamos que num futuro próximo os bate-bolas venham a ser reconhecidos e valorizados no cenário carnavalesco do Rio de Janeiro mais por sua beleza e por sua expressividade plástica, do que por qualquer espécie de demérito que, porventura, seja associado à sua manifestação, pois entendemos a manifestação das turmas de bate-bolas contemporâneas como uma genuína e inequívoca expressão da cultura e da arte populares.




21.1.18

INSCRIÇÕES FENÍCIAS NA PEDRA DA GÁVEA: LENDA URBANA OU VERDADE?

UMA PESQUISA DE IVO KORYTOWSKI


Supostas “inscrições fenícias” no alto da Pedra da Gávea vêm intrigando as imaginações desde a época de D. João VI, quando foram descobertas. Segundo algumas interpretações, o “rosto” (foto acima, seta) que aparentemente se vê na pedra seria a representação de uma esfinge, e a própria pedra serviria de túmulo a um antigo rei fenício. O filme Roberto Carlos e o diamante cor-de-rosa explorou esse tipo de ideia, e tratados, alguns volumosos, foram escritos defendendo a tese de que povos de outros continentes, como gregos e fenícios, estiveram na América antes da “descoberta”. Um clássico é Inscrições e tradições da América pré-histórica, de Bernardo de Azevedo da Silva Ramos, e atualmente circulam no YouTube e outras mídias vídeos defendendo essas teses que para os mais céticos se afiguram “esdrúxulas”, como este.


Artigo na Revista da Semana de 30 de abril de 1932 intitulado "Decifrado, afinal, o mistério da inscrição da Gávea" 

Em 1839, quando Dom Pedro II tinha treze anos e o Brasil era governado por um regente, o Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro (IHGB) organizou uma comissão, encabeçada por Manoel de Araújo Porto Alegre, para “analisar e copiar a inscrição, que se acha gravada no Morro da Gávea”. O relatório dessa missão, de 23 de maio daquele ano, foi publicado no Tomo I, Número 2, da revista do Instituto, que pode ser acessado aqui.

A comissão examina os argumentos a favor e contra a origem fenícia das inscrições, mas fica “em cima do muro”, não toma partido por nenhuma posição, seja de que os caracteres foram gravados pela mão do homem, ou de que são sulcos gravados pela linha do tempo. Diz o relatório: “Pitágoras, senhores, olhava para o sol como um Deus, e Anaxágoras como uma pedra inflamada. A comissão nesta sua primeira análise voltou, como os dois filósofos, vendo uma inscrição, e vendo uns sulcos gravados pela natureza.”

Os argumentos a favor da origem fenícia, segundo o relatório, são, em suma: 1) “diversos viajantes têm descoberto inscrições em diferentes rochedos do Brasil”; 2) “assim como Pedro Álvares Cabral, e Afonso Sanches, empurrados pelos ventos descobriram o continente da América, também alguns desses povos antigos, que a ambição do comércio forçava a sulcar os mares, podia por iguais motivos aportar às nossas praias e escrever sobre uma pedra um nome”; 3) “a inscrição da Gávea se acha colocada de uma maneira vantajosa a estas conjecturas”.

Os argumentos contra a origem fenícia são, em suma: 1) “os pretendidos caracteres, que apresenta o rochedo da Gávea, não se assemelham aos dos povos do velho continente, que empreenderam as primeiras navegações e muito menos aos dos modernos”; 2) “estes caracteres [...] não apresentam semelhança alguma de uma inscrição fenícia, cananeia, cartaginesa ou grega; e que mais parecem sulcos gravados pelo tempo, entre dois veios do granito”; 3) a profundidade dos sulcos é muito irregular; se os fenícios os tivessem gravado, teriam dado “a mesma profundidade às letras para que elas fossem igualmente visíveis”.

Primeira página do Relatório do IHGB

No final do relatório a comissão atribui a não tomada de uma posição ao fato de que “não empregou os últimos recursos, que lhe restam para verificação de semelhantes monumentos” e promete que “uma segunda exploração será feita com melhores instrumentos com um dia mais favorável, para ver se obtém um resultado de maior evidência, e mais positivo”, promessa esta nunca cumprida. A comissão encerra seu relatório declarando sua esperança no surgimento de um “Champollion brasileiro” que venha a “iluminar esta parte tão obscura da história primeira do nosso Brasil”. Você pode ler a íntegra do relatório do IHGB ao final desta postagem.

Este suposto Champollion brasileiro, decifrador da inscrição da Pedra da Gávea e de outras milhares Brasil afora, surgiu na primeira metade do século XX na figura de Bernardo de Azevedo da Silva Ramos (1858-1931), amazonense, numismata, historiador, fundador do Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas. Em sua alentada obra Inscrições e Tradições da América Pré-histórica Silva Ramos examina milhares de supostas “inscrições” Brasil afora e decifra sua origem “grega”, “hebraica” ou “fenícia”, inclusive a famosa inscrição da Pedra da Gávea. Segundo o autor, essa inscrição significaria: Tiro, Fenícia, Badezir Primogênito de Jethbaal. Aqui está a figura 1226 (!) de seu livro onde demonstra sua interpretação, primeiro transcrevendo a inscrição para o hebraico, depois em letras romanas da direita para a esquerda (já que as escritas fenícia e hebraica seguem esse sentido) e enfim chega à tradução brasileira. Tudo parece muito lógico, muito convincente.



Mas existem dois senões:


1) O primeiro senão é o próprio método de Silva Ramos, que parece meio arbitrário, tipo interpretação de “profecia” de Nostradamus, em que você vê nas imprecisas e confusas centúrias o que você “quer” ver, não o que Nostradamus realmente disse. Vamos examinar na prática. Primeiro ele pega um desenho “rupestre” aparentemente sem sentido, assim:




Aí ele decompõe arbitrariamente o desenho em partes e associa essas partes a letras de um alfabeto antigo, formando alguma palavra, assim:


A seguir você tem a figura do livro de Silva Ramos com o exemplo acima e mais dois. Repare que a figura original que gera a palavra grega na verdade é confusa e não significa nada. Ademais, se gregos ou fenícios pretendiam fazer inscrições aqui no Brasil, por que escreveram dessa forma esquisita, aglutinando as letras num desenho confuso. Por que não escreveram de forma clara como faziam na própria Grécia ou Fenícia? 

Três exemplos do método de interpretação de Silva Ramos (o primeiro do qual destrinchamos acima)
2) O segundo senão é que Silva Ramos, ao transcrever a inscrição da Pedra da Gávea, já a “deformou” para se adequar à sua pretensa interpretação. Eis a prova. Em cima você vê a transcrição da inscrição feita pelo Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro e que se encontra no artigo citado; embaixo a transcrição de Silva Ramos. Ela não é fiel.

A inscrição como figura na revista do IHGB


A inscrição como aparece na obra de Silva Ramos

Vários especialistas contestaram a “teoria” de Silva Ramos. Vamos ver alguns deles.

· Segundo o professor Hilgard O’Reilly Sternberg, consultor-técnico do Conselho Nacional de Geografia, “as pseudo-inscrições da Pedra da Gávea consistem em uma série de sulcos proximamente verticais e foram produzidas pelas águas pluviais que descem do alto da montanha.” (Diário Carioca, 9 de junho de 1953)

· David J. Peres, em artigo do Jornal do Commercio de 4/9/1932 (pág. 3), escreve: “A arqueologia hoje tem um certo número de exigências, e não é só porque encontremos uns riscos em cima de uma pedra, que devamos concluir que foi de tal data ou de tal origem, e que tenha esta ou aquela tradução. [...] Tanto quanto se conhece hoje da língua fenícia, não se permite afirmar que os [traços] da Gávea sejam dessa origem. O alfabeto fenício era em geral representado por traços finos. Além disso, os da Gávea nada de comum apresentam com os cananeus e em nada se assemelham.”

· Em 28 de julho de 2000, uma expedição de cientistas da UFRJ e UERJ, munidos de um equipamento GPR (radar de penetração no solo) que “enxerga” através da rocha, não detectou nenhuma cavidade ou reentrância que pudesse servir de túmulo para um rei fenício. Segundo o geólogo Marco André Malmann Medeiros, da UERJ, “as tais inscrições não passam de falhas geológicas. Com as intempéries, os minérios mais sensíveis gastam e o resultado ficou com a aparência de inscrições”. (O Globo, 6 de agosto de 2000, p. 28)

Diz o historiador Milton Teixeira, que consultei: “Isso é lenda urbana. Mas tem gente (não muito séria) que leva a sério. Eu acho uma patacoada. Os sulcos na pedra são provocados pela erosão. Fizeram até um filme de fantasia sobre essa lenda: 'Roberto Carlos e o Diamante Cor de Rosa' - 1968, com Roberto, Erasmo, Wanderléa e José Lewgoy.”

Segundo Alexei Bueno, que também consultei: “Essa é uma das histórias mais ridículas da nossa História. Os ‘fenícios’ [seus descendentes libaneses] chegaram no Brasil lá pela época da Primeira Guerra, mascates, caixeiros-viajantes, donos de armarinhos e fazedores de kibe e de esfiha.”

Para quem pretende se aprofundar no assunto, recomendo a excelente tese de doutorado de Guilherme Dias da Silva, intitulada “A recepção da Antiguidade nas Inscripções e Tradições da América Prehistorica de Bernardo de Azevedo da Silva Ramos (1930-1939)”, que pode ser acessada aqui.

A seguir, a íntegra do artigo de 1939 do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro que desencavei no site do instituto e “traduzi” para a ortografia hoje vigente. Agradeço ao historiador Nireu Cavalcanti que me informou da existência desse artigo.

ANEXO: 



RELATÓRIO
SOBRE
A INSCRIÇÃO DA GÁVEA
MANDADA EXAMINAR PELO INSTITUTO HISTÓRICO E GEOGRÁFICO BRASILEIRO

Senhores, a comissão encarregada pelo Instituto Histórico e Geográfico para analisar e copiar a inscrição, que se acha gravada no Morro da Gávea, transportou-se ao lugar, e não se poupou aos meios e fadigas, que uma primeira excursão demanda, para obter-se um resultado digno de sua missão; e vem hoje perante o Instituto Histórico e Geográfico dar conta do que viu e observou, assim como trazer uma cópia fiel da pretendida inscrição, desse monumento que pertence à classe daqueles, que Mr. Court de Gibelin coloca no seu “Mundo Primitivo”, e que têm chegado às recente gerações envolvidos no mistério dos tempos com os hieróglifos, os caracteres cuneiformes, e as construções ciclopeanas.

A descoberta de uma inscrição é um fato, que pode fazer uma revolução na história; que pode reconquistar ideias perdidas, e aniquilar outras em pleno domínio: um nome, uma frase em uma lápide, podem preencher lacunas imensas, restaurando conjecturas, e abrir uma estrada luminosa do passado ao futuro.

Os povos que têm uma civilização nascente são naturalmente crédulos, e sua imaginação os arrasta a ver tesouros encantados por todas as partes; e os homens amigos dos mistérios algumas vezes também creem encontrar vestígios dos outros homens naquilo que é um acaso da natureza.

A comissão cumpre, que aqui manifeste perante o Instituto Histórico e Geográfico a sua gratidão para com os Sr. Rev. ex-vigário da Lagoa, Manoel Gomes Souto, Manoel Joaquim Pereira, e João Luiz da Silva, pela bizarra [=gentil] e cordial hospitalidade que deles recebeu; assim como ao Revisão. Sr. José Rodrigues Monteiro, Capelão de S. M. I. [Sua Majestade Imperial], que teve a bondade de acompanhar e servir de testemunha na averiguação da cópia que se fez da pretendida inscrição, participando dos incômodos sofridos nesta exploração arqueológica.

Senhores, que no cume da Gávea do lado direito aos que vão pelo Serrote [=pequena serra] da Boa-vista, numa pedra de forma cúbica existem caracteres, ou sulcos que a eles se assemelham, é indubitável; mas, a comissão não afirma que eles sejam gravados pela mão do homem, ou pela linha do tempo.

Assim como a natureza esculpiu sobre a rocha de Bastia a forma de um leão em repouso; na gruta das Sereias, em Tívoli um dragão em ar ameaçador; e na mesma Gávea a forma de um mascarrão [=máscara grande] trágico; assim como ela eleva pontos naturais, constrói fortificações e baluartes, que ao primeiro lampejo da vista fazem crer ao viajor monumentos da mão do homem, assim ela podia gravar na rocha viva aqueles caracteres que podem mais ou menos por suas formas aproximarem-se a algumas das letras dos alfabetos das nações antigas e orientais.

A comissão não deseja representar perante o Instituto Histórico o papel dos antiquários de Walter Scott e Goldoni, para não encontrar a ilusão de suas conjecturas na ingenuidade de um mendigo, ou nas trapaças de um Brighella [personagem mentiroso da Commedia dell'arte]; tanto mais que com os seus próprios olhos ela encontrou em diversas pedras isoladas em roda da mesma Gávea, sulcos profundos entre dois veios do granito, que mais ou menos representavam caracteres hebraicos, e alguns até romanos, e de uma maneira assaz evidente e caprichosa.

Pitágoras, senhores, olhava para o sol como um Deus, e Anaxágoras como uma pedra inflamada. A comissão nesta sua primeira análise voltou, como os dois filósofos, vendo uma inscrição, e vendo uns sulcos gravados pela natureza.

Argumentos notáveis se apresentam de uma e de outra parte para que ambas as conjecturas tenham seu fundamento, e suas principais proporções [proposições?] vão ser apresentadas.

1a Que os diversos viajantes têm descoberto inscrições em diferentes rochedos do Brasil, e que a da serra da “Anabastabia [Minas Gerais], onde se crê ver a descrição de uma batalha, assim como a das margens do Yapura e outras mais, que se veem na famosa coleção das palmeiras de “Spik et Martiles” [Spix e Martius?], dão uma prova da existência desta sorte de monumentos no nosso solo: acrescentando mais a tradição das “letras do diabo” num rochedo em Cabo Frio, que depois de dados mais exatos, algum de nós se transportará ao lugar para copiá-la, e descortinar mais esta ponta do véu que encobre a história primitiva desta terra bem-aventurada.

2 a Que assim como Pedro Álvares Cabral, e Afonso Sanches, empurrados pelos ventos descobriram o continente da América, também alguns desses povos antigos, que a ambição do comércio forçava a sulcar os mares, podia por iguais motivos aportar às nossas praias e escrever sobre uma pedra um nome, ou aquele acontecimento, para que a todo o tempo as gerações vindouras lhe restituíssem a glória de tão grande descoberta.

3a Que a inscrição da Gávea se acha colocada de uma maneira vantajosa a estas conjecturas: voltada para o mar em uma face da rocha cúbica, pouco escabrosa, com caracteres colossais de 7 a 8 palmos, ao rumo de L.S.E. [leste-sudeste], pode ser vista a olho nu de todas as pessoas que por ali passarem; e notável é que os habitantes daqueles lugares todos conhecem as letras da pedra. A inscrição assim colocada está exposta à fúria das tempestades e dos ventos do meio-dia, e por consequência deve estar mui safada [=gasta], tanto mais que o granito da pedra, em que está gravada, é de uma consistência menos forte, por conter muito talco e mica, e na sua base existem três concavidades esboroadas que formam o aspecto do mascarrão.

Um dos dados arqueológicos, para fortificar qualquer conjectura na averiguação de tais monumentos, é o da possibilidade de poder-se ou não gravar naquela altura imensa uma inscrição tão colossal, e o caráter geológico do mesmo lugar.

O terreno que circunda as raízes do Morro da Gávea é todo primitivo, à exceção de uma pequena enseada que está na base da colina da fazenda da Gávea, que é de terreno de aluvião, pouco acima do nível do mar, e que nada influi sobre os pontos principais que se denotam dos “Dois Irmãos” à Tijuca, e desta à Gávea, que são massas enormes de granito, cobertas de uma crosta de terra vegetal, assaz delgada, e tendo aqui e ali glebas de carbonato de ferro, ou saibro micoso; o mar está mui próximo, nenhuma revolução grande, se excetuarmos alguns calhaus destacados dos morros, se denota naquele recinto.

O homem, que levado àqueles lugares quisesse deixar uma memória da sua passagem, facilmente seria seduzido pela majestade e grandeza do Morro da Gávea, e pela disposição daquela pedra com uma face quase plana, e fronteira ao mar: enquanto ao acesso ao cume da Gávea ele é incontestável, porque dias antes da nossa exploração alguns oficiais da marinha inglesa lá subiram, e colocaram umas bandeirinhas, ainda que com muito custo.

O lugar onde está a inscrição pode ser que em tempos remotos fosse mais aterrado, e com os séculos tenha sido escalvado pelas contínuas umidades, chuvas e ventos do sul.

Porém, senhores, além dessas considerações, e outras mais diminutas, que conduzem o nosso espírito à crença, outras se levantam para encontrá-las, e nos obrigam a oscilar entre a afirmativa e a negativa.

1a Que os pretendidos caracteres, que apresenta o rochedo da Gávea, não se assemelham aos dos povos do velho continente, que empreenderam as primeiras navegações e muito menos aos dos modernos.

2a Que estes caracteres, comparados com os alfabetos e inscrições, que Mr. Court de Gibelin dá na sua obra do Mundo Primitivo, não apresentam semelhança alguma de uma inscrição fenícia, cananeia, cartaginesa ou grega; e que mais parecem sulcos gravados pelo tempo, entre dois veios do granito, pois com iguais aparências se encontram, não só no lado oposto do da inscrição da mesma Gávea, como em outras pedras destacadas, e principalmente uma grande, que se encontra à esquerda, na base do morro, quando se sobe para casa do Sr. João Luiz da Silva.

3a Que a parte da rocha, onde começa a pretendida inscrição, além de perpendicular e de um acesso quase impossível, é a menos conservada, ou a mais apagada; sendo aquela que está menos exposto à fúria das estações; alguns traços perpendiculares, outros mais ou menos oblíquos, mais ou menos curvos, ligados por hastes interrompidas, que muito e muito se assemelham a veios, fazem o todo da inscrição, e uma grande irregularidade de profundidade se observa na gravura, assim como no largo veio da base, que se poderia conjecturar como traço, para melhor se descobrirem as letras o qual é interrompido visivelmente, e dá formas não equívocas de um veio mais profundo. Este argumento é fortificado pela profundidade dos caracteres da parte esquerda, que estão mais expostos, do que os da direita, por entrarem na curva, que se dirige para o norte.

Os fenícios escreviam da direita para a esquerda, e trabalhando destarte, deviam dar a mesma profundidade às letras para que elas fossem igualmente visíveis.

Mas a comissão, senhores, vindo perante o Instituto Histórico e Geográfico dar conta de sua missão, está longe de protestar solenemente contra a ideia de ser, ou não, uma inscrição aqueles sulcos ou traços, que se encontram no cume da Gávea, porque ela ainda não empregou os últimos recursos, que lhe restam para verificação de semelhantes monumentos; ela vem, em família, expor as suas impressões e conjecturas, e protestar [=comprometer-se] que uma segunda exploração será feita com melhores instrumentos com um dia mais favorável, para ver se obtém um resultado de maior evidência, e mais positivo; lastimando contudo o não poder estudar a memória que o ilustre Fr. Custódio escrevera, noutros tempos, sobre esta mesma inscrição.

A comissão tem presente na lembrança as navegações desses povos da antiguidade, e se triunfar a ideia do ilustre Padre Mestre, ela a fortificará por uma memória mais ampla e circunstanciada, e nas formas demandadas pela ciência da Arqueologia, em que não somente passará em resenha todas as tradições que temos das navegações dos antigos, como também procurará nas línguas, e tradições de diversos povos, a esteira luminosa traçada pela civilização dos fenícios, entre os povos das ilhas, onde eles tiveram suas feitorias, e onde eles deixaram monumentos materiais de sua existência e passagem, tanto na Ásia e África, como na América, que segundo Stevam Sewall, e Court de Gibelin ali aportaram, e deixaram inscrições na parte setentrional.

A comissão não desespera [=perder a fé] da glória, que aguarda o Instituto Histórico e Geográfico na descoberta de iguais monumentos; nem da esperança de ver aparecer em seu seio um Champollion brasileiro, esse Newton da antiguidade egípcia ou Cuvier do Nilo, para com o facho de seu gênio indagador iluminar esta parte tão obscura da história primeira do nosso Brasil; e porque ela pode um dia contemplar aquele monumento como Anaxágoras o Sol, e no outro como Pitágoras, ver naquela rocha uma inscrição gravada pelo acaso e o tempo, ou um padrão, pelo cinzel do homem, deixado às gerações vindouras.


Rio de Janeiro, 23 de maio de 1839. Manoel de Araújo Porto-AlegreJ. da C. Barbosa. Como testemunha, José Rodrigues Monteiro.

20.1.18

SÃO SEBASTIÃO DO RIO DE JANEIRO

SABE O PORQUÊ DO NOME SÃO SEBASTIÃO DO RIO DE JANEIRO? O TRECHO A SEGUIR DO CAPÍTULO "AS PROCISSÕES" DAS MEMÓRIAS DA CIDADE DO RIO DE JANEIRO, DE VIVALDO COARACY, EXPLICA


Estátua de São Sebastião na Glória

Vinte de janeiro é o dia que a igreja consagra a São Sebastião. E São Sebastião é o padroeiro da cidade que foi posta pelo Fundador sob a sua invocação por ser o onomástico do soberano então reinante em Portugal, D. Sebastião, aquele rei-menino que foi morrer em Alcácer-Quibir. Quando Estácio lançou os fundamentos da cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro, que mais tarde havia de receber oficialmente o atributo de “leal”, governava Portugal, como regente, pelo neto ainda na infância, a rainha viúva D. Catarina d’Áustria. Foi ela quem mandou levantar uma cidade às margens da Guanabara. Mas ninguém lhe homenageia a memória por isso. Muitos nem mesmo sabem quem foi. 

Denise Araripe: São Sebastião do Rio de Janeiro (técnica mista)


Cumprindo as ordens que da Rainha recebera, Estácio agarrou-se com unhas e dentes àquela língua de terra onde plantara o marco inicial da cidade a que ia sacrificar a vida. E ali ficou por dois anos, numa tenacidade heroica, até que Mem de Sá viesse da Bahia trazer-lhe o auxílio preciso para expulsar e esmagar definitivamente os franceses. Foi a 20 de janeiro de 1567 que se deu a batalha que assegurou o domínio lusitano sobre o Rio de Janeiro. São os combates desse dia, em que Estácio foi ferido de morte, que podem ser legitimamente comemorados nesta data.

Mem de Sá a escolhera para atacar os redutos de franceses e tamoios justamente por ser o dia do Padroeiro. Naqueles tempos de fé robusta e ingênua, confiava-se no santo protetor para dar a vitória à sua gente. Não se afirmava já então que o mártir fora visto, sob a forma de um mancebo “muy fero e fermoso”, combatendo em pessoa ao lado das forças de Estácio, na duvidosa batalha das canoas? Aliás, não se pode desconhecer que essa confiança no apoio dos santos dava valor e ânimo capaz de conduzir, como conduziu, à vitória.

Imagem de São Sebastião na Cidade do Samba, Gamboa

São Sebastião foi sempre o padroeiro do Rio de Janeiro e, como tal, alvo de um culto carinhoso por parte dos cariocas. A ele foi consagrada a primeira capela erguida nestas terras: uma tosca igrejinha de taipa, coberta de sapé que Estácio se apressou em mandar levantar no primeiro sítio da cidade, ao sopé do Pão de Açúcar. Era a matriz, incipiente. E nela foi sepultado, de início, o próprio Fundador. Transferida a cidade para o Morro do Descanso, que depois se chamou do Castelo, um dos primeiros cuidados de Salvador de Sá foi ali erguer a igreja do Padroeiro, a Sé Velha, para onde foram trasladados os restos mortais de Estácio de Sá, hoje repousando na nova igreja de São Sebastião, sob a guarda dos Barbadinhos, na rua Haddock Lobo. 

Uma relíquia carioca: imagem recém-restaurada de São Sebastião do séc. XVI trazida por Estácio de Sá e guardada (e ocasionalmente exposta) na Igreja dos Capuchinhos, na Tijuca

Sempre foi muito devoto do seu patrono o povo do Rio de Janeiro. Nos tempos coloniais e nos da monarquia, a festa de São Sebastião era celebrada com vibrante entusiasmo em que as comemorações oficiais se aliavam às manifestações populares. Salvas das fortalezas e dos navios, parada de tropas em grande gala, cerimônias religiosas com missa solene e sermão adequado, repiques de sinos, foguetório, janelas ajaezadas de colchas de damasco e tapetes do oriente, luminárias em todas as casas, danças populares em plena rua. Os festejos estendiam-se ao mar onde se efetuava um combate simulado, com fogos de artifício, entre dois grupos de embarcações, para rememorar a famosa batalha das canoas em que, segundo a lenda, o Santo em pessoa tomara parte, descendo à terra, vindo combater ao lado de seus devotos, na defesa da sua cidade. Com a vinda para o Rio de Dom João VI, rei beato por excelência, os festejos religiosos e oficiais adquiriram ainda maior pompa e brilho, iniciando-se na noite de 17 de janeiro.

Imagem de São Sebastião na Igreja de São Francisco de Paula

Estátua de São Sebastião na Glória

Grafite de São Sebastião na Zona Portuária (fotos do editor do blog, exceto da obra de Denise Araripe, obtida no site do Atellier Villa Olivia)