15.5.17

BARRA DE GUARATIBA

Casas, telhados, barcos...

Buraco no muro

Manoel Teixeira, simpático guia local (atrás dele, painel em seu bar com fotografias da história de Barra de Guaratiba)

Restinga de Marambaia

Capela de Nossa Senhora da Saúde no Morro da Vendinha, de 1750, aproximadamente. Missas no último domingo de cada mês, de manhã cedo.

MATÉRIA DE CLÁUDIA BELÉM PUBLICADA NO JORNAL DE BAIRRO DE O GLOBO DE 23/7/1989 SOBRE O LIVRO (HOJE RARO) BARRA DE GUARATIBA: SUA VIDA, SEU POVO, SEU PASSADO, DE FRANCISCO ALVES SIQUEIRA, CONHECIDO COMO SEU CHIQUINHO

A colonização de Barra de Guaratiba foi iniciada em 1579, com Manoel Velloso Espinha, que morava na antiga Vila de Santos e conseguiu a doação das terras através de sesmarias. Havia índios na região, mas foram expulsos pelos homens brancos, que aos poucos tomaram a terra.

Segundo os documentos encontrados por Francisco, em 1750 já havia muitos escravos na região, que pertenciam ao donatário da terra, Dom Fradique de Quevedo Rondon, que no mesmo ano doou parte delas para a matriz de São Salvador.

Francisco também descobriu, através de suas pesquisas, que há indícios de que em 1710 houve uma invasão francesa da cidade do Rio através de Barra de Guaratiba. Comandados pelo corsário Duclerc, os franceses teriam sido vencidos pela própria natureza, que dificultou o acesso ao Centro da cidade.

A atual igreja de Nossa Senhora da Saúde, que fica no alto do morro da Vendinha, nasceu de uma casa de orações. Já a Igreja de Nossa Senhora das Dores foi construído em 1776. Todo o material e os operários vieram de Parati e de Angra dos Reis de barco – o único meio de transporte naquela época que alcançava Barra de Guaratiba. Os moradores viviam de seus próprios recursos, sem poderem contar com o apoio externo.

Foi assim até o início do século [XX], quando foi instalado o trem que ligava o bairro a Campo Grande. Em 1928, o então Presidente Washington Luiz mandou abrir uma estrada ligando Barra a Ilha de Guaratiba. Até meados da década de 60, o bairro também era assistido pelo bonde.

Uma das histórias que Francisco conta em seu livro faz parte, até hoje, do lendário da Barra. Uma noite, no início do século, um grupo de pescadores saiu para um local chamado parcel [leito do mar de pouca profundidade]. Quando já estavam no pesqueiro, começou um forte nevoeiro. Sem saber o que fazer, os pescadores se perderam em discussões. No grupo, estava uma das figuras mais conhecidas na região, seu Bitinho, avô de Francisco. Experimentado nas manhas do mar, ele decidiu que o melhor a fazer era seguir para o porto do Rio de Janeiro. Mas a dúvida era grande, pois não havia como se guiar. Pela bússola, seu Bitinho conseguiu ir até o Rio, onde esperaram o amanhecer para voltar à Barra em segurança.

Algumas outras histórias típicas de conversas de pescadores fazem parte do livro. Francisco conta que em 11 de julho de 1984 uma lula pesando cinco quilos e semimorta foi encontrada na beira da água pelo pescador Atílio Soares. Francisco mostra uma foto que não mente: a lula é mais alta que o neto do pescador, que tinha 3 anos na época.


Morador de Barra de Guaratiba em frente à sua casa

Vista do camping Barra de Guaratiba

Restinga de Marambaia

Telhados e flores

Escadinhas no Morro da Vendinha

TRECHO DO CAPÍTULO VII, "A INVASÃO", DO LIVRO A INVASÃO FRANCESA DO BRASIL DE ANDRÉ LUIS MANSUR E RONALDO MORAIS

Situada ao pé de alguns morros, a praia de Barra de Guaratiba é bastante frequentada hoje por moradores da Zona Oeste do Rio. De mar aberto, é um pouco agitada e, provavelmente, de desembarque difícil para os navios da época de Du Clerc. Mas talvez exatamente por este motivo era o único trecho do litoral carioca desguarnecido. Como o comandante francês sabia disso? O escritor francês Henry Malo, em trabalho apresentado no I Congresso de História da Expansão Portuguesa no Mundo, afirma, apoiado em documentos consultados no Arquivo Colonial de Lisboa, que quatro negros fugidos de plantações subiram a bordo da Nau Capitânia, fundeada na Baía da Ilha Grande, e indicaram ao comandante francês a praia da Barra de Guaratiba como o melhor local para a invasão. Outros documentos, inclusive franceses, confirmam a informação.

O desembarque foi feito na manhã de 11 de setembro, uma data que três séculos depois seria sempre lembrada pelo ataque terrorista às torres do World Trade Center, nos Estados Unidos. Acredita-se que os franceses entraram com seus navios pelo canal que separa a parte leste da Restinga da Marambaia da terra firme. A dúvida é se os navios ficaram ancorados na própria praia da Barra de Guaratiba, de mar aberto, ou se entraram pela Baía de Sepetiba, de águas bem mais calmas. Desembarcados, enfrentaram apenas alguns tiros de mosquete dados por moradores, que fugiram logo em seguida.

Quando olharam para os morros em frente à praia, os franceses devem ter pressentido a série de dificuldades que teriam pela frente, a uma distância de cerca de 40 quilômetros do centro da cidade através de montanhas, vegetação espessa e carregando pesados armamentos.

Informado pelo Capitão de Cavalos Joseph Ferreira Barreto, responsável pela defesa de Guaratiba até Santa Cruz, o governador Francisco de Castro Morais soube do desembarque francês já na noite de 11 de setembro. [...]

Como não foi encontrado nenhum diário da viagem de Du Clerc, não se sabe exatamente qual caminho os franceses tomaram, mas o mais indicado é que eles tenham evitado as montanhas, devido às dificuldades logísticas, e seguido pelas matas, passando pela serra da Grota Funda e chegando ao Engenho da Vargem dos Padres de São Bento e depois ao Engenho do Camorim, os dois, segundo a documentação da época, saqueados pelos corsários. As munições podiam ser transportadas individualmente ou em pequenos carros puxados por homens, mas peças grandes de desembarque, como canhões, ficaram nos navios para serem utilizadas como apoio às batalhas aguardadas para o centro da cidade. Isso, é claro, se os franceses conseguissem ocupar as fortalezas da Baía de Guanabara, o que abriria caminho para a entrada da esquadra.

Embora não haja nenhum relato, há suspeita de que os corsários tenham saqueado o Convento do Carmo, em Pedra de Guaratiba, bem perto dali e que possuía fazenda, gado, cavalos e um engenho de açúcar.


Capela de Nossa Senhora das Dores no Caminho dos Pescadores

O mar

Barquinho

Casas morro acima. Fotos do editor do blog.

30.4.17

DOCUMENTO HISTÓRICO: TRECHO DO DIÁRIO DE BORDO DA EXPEDIÇÃO DE MARTIM AFONSO DE SOUSA QUE ESTEVE NO RIO EM 1531

Capa do vol. 24 da revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro de 1973 que publicou o Diário da Navegação de Pero Lopes de Souza. É possível fazer download da revista no site do IHGB.

De 30 de abril até 1o de agosto de 1531 a expedição de reconhecimento da costa brasileira de Martim Afonso de Sousa permaneceu no Rio de Janeiro, que na época era o nome da Baía da Guanabara, supostamente considerada o estuário de um rio, já que a cidade em si ainda nem havia sido fundada. Durante a estadia enviou-se uma expedição ao interior que deparou com um "grande rei" indígena, que veio com ela até o Rio. A expedição também trouxe noticias da existência de "muito ouro e prata" no interior. Quem escreveu o diário da navegação foi Pero Lopes de Souza, irmão de Martim Afonso. A seguir transcrevemos o trecho do diário que narra a vinda de Cabo Frio ao Rio de Janeiro e a estadia de três meses aqui. 

Sexta-feira pela manhã nos fizemos à vela com o vento nordeste, indo sempre ao longo da costa três léguas dela, per [=por] fundo de cinquenta braças d’área limpa. O cabo do parcel [=recife], que jaz ao mar, se corre da banda do nordeste ao sueste, e da banda do sudoeste aloeste, e às parte a loessudoeste. Quando fui fora do parcel descobriram-se serras mui altas ao sudoeste. Ao meio-dia tomei o sol em vinte e dois graus e três quartos: ao sol posto fui com o cabo Frio: como foi noite amainamos as velas, e fomos com os traquetes [=vela que pende da verga inferior do mastro de vante] toda a noite. O cabo Frio se corre com o Rio de Janeiro leste oeste: há de caminho dezessete léguas.

Sábado trinta dias d’abril, no quarto d’alva, éramos com a boca [=foz] do Rio de Janeiro, e por nos acalmar o vento, surgimos a par de uma ilha, que está na entrada do dito rio, em fundo de quinze braças d’área limpa. Ao meio dia se fez o vento do mar, e entramos dentro com as naus. Este rio é mui grande; tem dentro oito ilhas, e assim muitos abrigos: faz a entrada norte sul toma da quarta do noroeste sueste: tem ao sueste duas ilhas, e outras duas ao sul, e três ao sudoeste; e entre elas podem navegar carracas [=navio mercante português de grande porte e longo curso]: é limpo, de fundo vinte duas braças no mais baixo, sem restinga nenhuma e o fundo limpo. Na boca de fora tem duas ilhas da banda de leste, e da banda d’aloeste tem quatro ilhéus [=ilhotas]. A boca não é mais que de um tiro d’arcabuz; tem no meio uma ilha de pedra rasa com o mar; pegado com ela há fundo de dezoito braças d’área limpa. Está em altura de vinte e três graus e um quarto.

Como fomos dentro, mandou o capitão J. fazer uma casa forte, com cerca por derrador; e mandou sair a gente em terra, e pôr em ordem a ferraria para fazermos cousas, de que tínhamos necessidade. Daqui mandou o capitão J. quatro homens pela terra dentro: e foram e vieram em dois meses; e andaram pela terra cento e quinze léguas; e as sessenta e cinco delas foram por montanhas mui grandes, e as cinquenta foram por um campo mui grande; e foram até darem com um grande rei, senhor de todos aqueles campos, e lhes fez muita honra, e veio com eles até os entregar ao capitão J.; e lhe trouxe muito cristal, e deu novas como no Rio de Peraguai havia muito ouro e prata. O capitão lhe fez muita honra, e lhe deu muitas dádivas, e o mandou tornar para as suas terras. A gente deste rio é como a da Bahia de todolos Santos; senão quanto é mais gentil gente. Toda a terra deste rio [Rio de Janeiro, ou seja, Baía da Guanabara] é de montanhas e serras mui altas. As melhores águas há neste rio que podem ser. Aqui estivemos três meses tomando mantimentos, para um ano, para quatrocentos homens, que trazíamos; e fizemos dois bargantins [=bergantim, tipo de veleiro] de quinze bancos.

Terça-feira, primeiro dia d’agosto de mil e quinhentos e trinta e um partimos deste Rio de Janeiro com vento nordeste. Fazíamos o caminho a loeste a quarta do sudoeste.

23.4.17

IMAGENS DE SÃO JORGE (2007-2017)

"Santinho" de São Jorge
Igreja de São Jorge em Quintino

Vitral de São Jorge na Igreja de São Gonçalo Garcia e São Jorge, Praça da República

Grafite de São Jorge na Rua das Laranjeiras

Painel de São Jorge num bar do Riachuelo (2007)

Imagem de São Jorge na Quadra da Beija Flor, em Nilópolis

Pintura de São Jorge em Quintino no dia da festa do Santo Guerreiro (2010)

Altar de São Jorge na Praça Quintino Bocaiúva no dia da festa do santo (2010)

Jorge é da Capadócia, como bem celebra a canção-homenagem de Jorge Ben Jor. Mas, cá para nós, é como se fosse carioca, tamanha a adoração que recebe na nossa cidade. Nenhum outro ato religioso mobiliza tanto os católicos daqui quanto as comemorações de 23 de abril. Nesse dia dedicado ao santo, quase 300 000 pessoas costumam se amontoar nas paróquias da Praça da República e do subúrbio de Quintino para professar sua fé — público equivalente a quatro Maracanãs lotados. Trata-se de uma veneração que extrapola qualquer estrato, unindo gente de classes sociais e níveis de instrução extremos. Entre os seguidores mais destacados de São Jorge figuram atrizes e cantores, a exemplo de Regina Casé e Zeca Pagodinho. No ano passado, o sambista de Deixa a Vida Me Levar promoveu na data uma grande festa em sua casa de Xerém, onde no jardim se destaca uma colossal estátua do seu alvo de devoção na pose clássica de luta contra o dragão. “Ele é o símbolo da bravura, da vitória sobre as provações do mundo”, afirma Pagodinho.

Se São Sebastião foi oficializado o padroeiro do Rio de Janeiro, essa consagração, de fato, caberia melhor ao santo guerreiro. Por uma coincidência pouco comum, o Dia de São Jorge neste ano [2011] calhou de cair justamente no Sábado de Aleluia, uma data que os católicos reservam para a introspecção e a abstinência. Por recomendação da Arquidiocese do Rio, todas as celebrações de louvor deveriam ser transferidas para o dia seguinte. Ou seja: neste sábado, não é de bom-tom montar barracas para vender comidas, velas e camisetas, nem realizar a tradicional alvorada com queima de fogos que costuma marcar a efeméride. “O próprio São Jorge seria o primeiro a concordar com isso, uma vez que deu a vida por sua fé em Cristo”, diz o monsenhor Sérgio Costa Couto, porta-voz da Cúria. Mas vá convencer os devotos. No templo de Quintino, na Zona Norte, foi montada toda a infraestrutura para a comemoração. Estava prevista também a realização de uma procissão no próprio sábado, com um espetáculo pirotécnico no começo da manhã. Só a missa, por determinação expressa da arquidiocese, não seria celebrada.

Tanta fidelidade remete a um passado longínquo e não se encerra em uma só explicação. Decerto, contribui para a imensa popularidade de São Jorge a imagem triunfante de lança em punho derrotando o apavorante adversário. Passa confiança e capacidade de superação, duas das virtudes mais realçadas nos livros de autoajuda. Pároco da igreja de São Jorge, em Quintino, o padre Marcelino Modelski aponta uma preocupação atual que ele acredita levar parte dos fiéis a se apegar ainda mais ao santo: a necessidade de segurança, um problema que atormenta a sociedade carioca há três décadas. (Texto extraído da Veja-Rio de 27/4/2011.)

Grafite no elevado que dá acesso ao Túnel Rebouças na Lagoa

Pintura de São Jorge na Rua Saint Romain (Copacabana)

Pintura sobre azulejos de São Jorge em Sepetiba

Imagem de São Jorge na Associação dos Franciscanos Menores Conventuais (Rio Comprido)

Painel de São Jorge nas proximidades da Igreja de São Jorge e Santo Expedito em Inhaúma

Painel de São Jorge no muro da Estação de Quintino

— Quem é você, criaturinha? — perguntou São Jorge parando diante dela.

— Eu sou a Emília, antiga Marquesa de Rabicó, sua criada — respondeu a boneca, muito lampeira e lambeta.

O santo ficou na mesma. E ainda estava na mesma, sem compreender coisa nenhuma, quando viu aparecerem Pedrinho e Narizinho com Tia Nastácia atrás, de mãos postas, rezando atropeladamente quantas orações sabia.

— Como conseguiram chegar ate aqui? — perguntou ele. — Isto me parece a maravilha das maravilhas.

— Foi o pó de pirlimpimpim que nos trouxe — respondeu Pedrinho — e dessa vez São Jorgeficou na mesmíssima.

[...]

São Jorge estava ali desde o reinado do Imperador Diocleciano sem outra companhia a não ser o dragão, de modo que ficava muito alegre quando alguém aparecia por lá. [...]

— E o senhor? — quis saber Emília depois que tudo foi explicado. — Agora que sabe a nossa historia, conte-nos a sua.

São Jorge contou que nascera príncipe da Capadócia e tivera no mundo vida muito agitada. A sua luta contra o poderosíssimo mágico Atanásio ficou histórica. Por fim fez-se cristão e em virtude disso padeceu morte cruel numa das matanças de cristãos ordenadas pelo Imperador Diocleciano. Depois da morte veio morar na Lua.

— E sabe que é hoje o patrono da Inglaterra? — lembrou Narizinho. — Vovó diz que o senhor é o santo mais graúdo de todos, porque dá o nome a muitas ordens de cavalaria e tem aparecido até em moedas de ouro.

São Jorge não sabia nada daquilo, nem sequer que era santo, porque só depois de sua morte é que começou a virar tanta coisa. Também não sabia o que era ser "patrono da Inglaterra", nem o que significava isto de "ordens de cavalaria". Os meninos tiveram de dar-lhe uma liçao de tudo.

— Mas não posso compreender donde vem a minha importância, o meu "graudismo" ... — declarou ele com toda a modéstia, pensativamente.

— Eu sei! — berrou Emília. — E por causa do dragão e dessa tremenda e bonita armadura de guerreiro. Santos de camisolão e porretinho podem ser muito milagrosos, mas não impressionam. Diga-me uma coisa: onde é que descobriu esse dragão?

O santo contou que era um monstro que ele havia matado certa vez em que o encontrou prestes a devorar a filha do rei da Líbia.

Mas se o matou, como é que o dragão está vivinho aqui?

Mistérios deste mundo de mistérios, gentil bonequinha. Eu também fui morto e no entanto todos lá da Terra (segundo vocês dizem) me veem aqui nesta Lua, a cavalo, de lança erguida contra o dragão. Mistérios deste mundo de mistérios.

(Monteiro Lobato, Viagem ao Céu, trecho do Capítulo VII, "Coisas da Lua". Na infância e pré-adolescência, o editor deste blog foi leitor contumaz do genial Lobato.)

Painel de São Jorge em Marechal Hermes

Painel de São Jorge em Benfica

Painel de São Jorge em Cascadura

Fachada de azulejos com imagem de São Jorge em Cascadura

Painel de São Jorge ao lado da estação do teleférico do Morro da Providência

Imagem de São Jorge ao lado da estação do teleférico do Morro da Providência  

São Jorge por Daniel Jaén na exposição Salve São Jorge 23 (2017)


São Jorge por Patrícia Bowles na exposição Salve São Jorge 23 (2017)

17.4.17

IGREJA DE NOSSA SENHORA DA SAÚDE, na MORRO DA SAÚDE, bairro GAMBOA

Igreja de N.S. da Saúde antes da restauração ("mudo martírio dos monumentos desprezados pela urbe"), em foto publicada no Jornal do Brasil de 30 de maio de 2001. Segundo a reportagem, "em estado precário, sujeita a goteiras e desabamentos, a igreja teve o que restou de suas imagens e outros objetos de valor retirados pela Cúria Metropolitana para evitar a continuação dos saques de que tem sido vítima desde a sua deterioração". 

Texto de Alexei Bueno obtido no livro Gamboa publicado em 2002 na coleção Cantos do Rio. Quando o livro foi escrito estava começando um trabalho de restauração dessa joia da arquitetura religiosa, após décadas de abandono e depredações.

A pequena Igreja de Nossa Senhora da Saúde foi construída por Manuel da Costa Negreiro, a partir de 1742, em um montículo à beira do mar. Hoje a sua entrada é por um portão na Rua Silvino Montenegro, belo portão neoclássico, em granito, ao lado de um simpático botequim. Com frontão e sineira barrocos, fachada algo alterada por uma janela oitocentista em arco pleno sobre o portal de granito, possui nave única e um interior de grande elegância. Em um corpo ao lado fica a sacristia, com um notável lavabo de embrechados [=incrustações] de louça das Índias, e, no fundo, restos de um antigo cemitério. À volta de toda a nave, uma série de painéis de azulejos portugueses narra a história de José no Egito.

Igreja de Nossa Senhora da Saúde no Morro da Saúde, bairro da Gamboa, "em um montículo [agora não mais] à beira do mar". Mas com a derrubada da Perimetral a igreja ganhou uma nova visibilidade.

"a sua entrada é por um portão na Rua Silvino Montenegro, belo portão neoclássico, em granito"

Degraus de acesso com calçamento de pé-de-moleque. À direita, rampa de cimento acrescentada na última restauração.

"Com frontão e sineira barrocos, fachada algo alterada por uma janela oitocentista em arco pleno sobre o portal de granito..."

Uma das coisas extraordinárias nessa igreja, para além de sua arquitetura, é o seu lento martírio, ou mudo martírio dos monumentos desprezados pela urbe. Com os aterros, perdeu o mar, a vista, e ficou cercada de armazéns imundos e nuvens de monóxido de carbono. Com a construção de uma nova matriz, perdeu os fiéis. Tombada pelo Iphan em 1938, foi restaurada pelo mesmo órgão nos anos 1960, e novamente no fim da década seguinte. Nos anos 1980, o vigia que nela morava, bêbado, louco ou os dois, matou toda a família em crime de pouca repercussão, como todas as tragédias populares. Abandonada, foi sendo pilhada paulatinamente, desde alfaias e pedaços de talha até que, horror dos horrores, fato inacreditável, surrupiaram-lhe dois dos painéis de azulejo, peça a peça, em trabalho cirúrgico e demorado, deixando incompleta, provavelmente para sempre, a linda bande dessiné azul que contava a história do sábio José e de seus desalmados irmãos  Para cúmulo de tudo, exatamente embaixo da sua fachada ergueu a Casa da Moeda uma monstruosa almanjarra metálica, crematório de células velhas imprestáveis, sonhos desfeitos de fortuna que vão poluir impiedosamente a igreja secular em cima .

Pedra comemorativa da fundação da Irmandade de N.S. da Saúde em 1898. 1742 seria a suposta data de construção da igreja, mas existe pouca documentação a respeito.

"um interior de grande elegância"

Pintura do teto da nave em estilo neorrococó executada sob encomenda em 1906. Removida na segunda metade do séc. XX, a pintura foi restaurada e recolocada em seu lugar.

Afresco sobre argamassa de cal substituindo um dos antigos painéis de azulejos roubados. "José descobre o sonho a seus irmãos."

No presente momento, com verba do BNDES, começam outra vez a restaurar a igrejinha. No morro a seus fundos, antes deserto, a Prefeitura construiu um interessante conjunto de casas populares . A cúria promete um pároco para que o templo funcione. Esperemos que tudo corra bem, que a Casa da Moeda desative o seu forno abominável, e que mais nenhuma peça da igreja engrosse o rol sem fundo das coisas roubadas nesta cidade, do Manequinho até quilômetros de fios de cobre, da taça Jules Rimet até as tampas de bueiros de ferro, do busto de Villa-Lobos na frente do Assírio até a cartela de mestre Valentim na Fonte dos Amores: “Sou útil inda brincando”, das flechas de São Sebastião até os baixos-relevos do monumento do Almirante Barroso, tudo, tudo, tudo, enfim, que pode ser derretido, do ouro ao chumbo, nesse circo de misérias em que vamos caindo.

E não é a Gamboa que iria escapar dele.


Painel de azulejos (linda bande dessiné azul que contava a história do sábio José e de seus desalmados irmãos): "José é metido em uma cisterna pelos irmãos."

Painel de azulejos: "Os filhos de Jacó voltam para o Egito levando consigo Benjamin."

Imagem de N.S. da Saúde no altar-mor, réplica da original que se encontra no Museu da Catedral Metropolitana.

Talha em vermelho, verde e dourado

OBSERVAÇÕES DO EDITOR DO BLOG: Com a revitalização da Zona Portuária e a criação do calçadão, as nuvens de fumaça já não cobrem a igreja. A chacina ocorreu no domingo, 3/6/90, como narra o Jornal do Brasil da terça-feira seguinte, e na verdade não foi cometida pelo vigia. A zeladora da igreja foi uma das três vítimas, entre elas uma criança, de um grupo que pretendia assaltar a igreja. Na recente restauração que durou de 2001 a 2007 os dois painéis de azulejos faltantes foram substituídos por afrescos pintados sobre argamassa de cal, como informa Leonardo Ladeira em A Igreja da Saúde e a Evolução Urbanística da Cidade, que você pode acessar clicando aqui]. Aparentemente o crematório de cédulas” foi removido. Quanto ao conjunto de casas populares, está mais para um condomínio de classe média: Condomínio Residencial Moradas da Saúde. Atualmente a igrejinha encontra-se em perfeito estado de conservação como atestam as fotos recentes (março de 2017) do editor do blog.

ANEXOS:


Jornal do Brasil de 10 de dezembro de 1891, anunciando a benção da Igreja de N.S. da Saúde após a realização de "grandes obras" de conservação.



Notícia da reinauguração da Igreja após a restauração em
O Fluminense de 12 de abril de 2007.

Anúncio da "missa inaugural da nova capela da Igreja de N.S. da Saúde em O Paiz de 10 de julho de 1898, ano da criação da irmandade.