ENSEADA DE BOTAFOGO

ENSEADA DE BOTAFOGO
"Andar pelo Rio, seja com chuva ou sol abrasador, é sempre um prazer. Observar os recantos quase que escondidos é uma experiência indescritível, principalmente se tratando de uma grande cidade. Conheço várias do Brasil, mas nenhuma tem tanta beleza e tantos segredos a se revelarem a cada esquina com tanta história pra contar através da poesia das ruas!" (Charles Stone)

VISTA DO TERRAÇO ITÁLIA

VISTA DO TERRAÇO ITÁLIA
São Paulo, até 1910 era uma província tocada a burros. Os barões do café tinham seus casarões e o resto era pouco mais que uma grande vila. Em pouco mais de 100 anos passou a ser a maior cidade da América Latina e uma das maiores do mundo. É pouco tempo. O século XX, para São Paulo, foi o mais veloz e o mais audaz.” (Jane Darckê Avelar)

MACHADO DE ASSIS: PAIXÃO À PRIMEIRA VISTA

11.10.19

LITERATURA DE VIAGEM: PAUL THEROUX


Hoje vou abordar a literatura de viagem, um gênero literário que, segundo a Wikipedia, consiste geralmente em uma narrativa acerca das experiências, descobertas e reflexões de um viajante durante seu percurso. Eu mesmo gosto de escrever diários de viagem que você pode ler neste blog. Clique em viagens no menu do cabeçalho. O vídeo acima contém este mesmo texto, portanto em vez de ler você pode ouvir (ou fazer as duas coisas).

Talvez o maior autor de literatura de viagem do século XX e início do XXI seja Paul Theroux. Nascido nos Estados Unidos em 1941, desde jovem Theroux fez longas viagens solitárias que se transformaram em fascinantes livros. Atravessou a África, circundou o Mediterrâneo, percorreu a Ásia etc. Muito conhecido nos países anglo-saxônicos, no Brasil já não desfruta da mesma fama, mas teve alguns livros traduzidos aqui: O grande bazar ferroviário, Viajando de trem através da China, Até o fim do mundo, O safári da estrela negra, Trem fantasma para a estrela do Oriente e O Último Trem para a Zona Verde, este último traduzido por mim. Em um outro livro que também traduzi, O Tao da viagem, mas ainda não lançado, escreve Theroux:

Quando criança, sonhando em sair de casa e ir bem distante, a imagem em minha mente era de fuga — meu pequeno eu partindo sozinho. A palavra "viagem" não me ocorria, tampouco a palavra "transformação", que era meu desejo velado mas duradouro. Eu desejava encontrar um novo eu num lugar distante, e coisas novas por que me interessar. A importância de outros lugares era algo em que eu acreditava piamente. O outro lugar era onde eu queria estar. Jovem demais para ir, eu lia sobre outros lugares, imaginando minha liberdade. Os livros eram a minha estrada. E depois, quando cheguei à idade de ir, as estradas que percorri tornaram-se o tema obsessivo de meus próprios livros.

As narrativas de viagens são as mais antigas do mundo, as histórias que os viandantes contam às pessoas reunidas ao redor da fogueira após seu retorno de uma viagem. “Eis o que vi” — notícias do mundo maior; o bizarro, o estranho, o chocante, narrativas sobre animais ou sobre outras pessoas. “Eles são exatamente como nós!” ou “Eles não são nada parecidos conosco!” A história de um viajante possui sempre a natureza de uma reportagem. E é a origem da ficção narrativa também, o viajante animando um grupo modorrento com detalhes inventados, floreando a experiência. Foi como o primeiro romance em inglês foi escrito. Daniel Defoe baseou Robinson Crusoe na experiência real do náufrago Alexander Selkirk, embora aumentasse a história, transformando os 4,5 anos de Selkirk numa ilha remota do Pacífico em 28 anos numa ilha do Caribe, acrescentando Sexta-Feira, o canibal e o exotismo tropical.

Também Moby Dick foi baseado num naufrágio real, como a gente viu recentemente no filme No Coração do Mar.


Um dos livros mais fascinantes do Theroux é The Pillars of Hercules, os Pilares de Hércules, que é o nome que se dava na antiguidade ao Estreito de Gibraltar. É o relato de um grande tour pelo Mediterrâneo, percorrendo o sul da Europa, Oriente Médio e norte da África. Aqui está o mapa.


Uma passagem marcante do livro é quando ele aborda as touradas espanholas. Qualquer pessoa com certa sensibilidade acha as touradas, assim como as brigas de galos, uma covardia contra os animais, uma agressão, mas na Espanha constituem uma tradição cultural. A descrição que Theroux faz de uma tourada em The Pillars of Hercules não é nada lisonjeira: 

Não há nada nas touradas exceto sangue – a previsão de sangue, o derramamento de sangue, e a morte brutalmente coreografada de um animal enfurecido que apenas um minuto atrás estava pinoteando e bufando cheio de vida.

Em 1973 Theroux fez uma grande viagem de trem pelo Leste europeu e Ásia, relatada em O grande bazar ferroviárioNaquela época Theroux tinha 33 anos. Este livro ainda não li, está na tal lista que seu eu chegar aos 120 anos espero cumprir. Depois daquela jornada, muita coisa mudou: a União Soviética entrou em colapso, as economias da China e Índia cresceram. Pois aos 66 anos, com o dobro da idade, Theroux repetiu o mesmo trajeto, resultando daí o Trem fantasma para a estrela do Oriente. Eu me senti viajando junto com o Theroux quando li este livro. Criei um verbete para ele na Wikipedia onde destaco as passagens mais interessantes. Vocês podem consultar.


Por exemplo:
Sobre a Romênia “O fedor e a desordem do Terceiro Mundo eram muito presentes em Bucareste. Os subúrbios pareciam deteriorados, as fazendas primitivas e enlameadas. A Romênia era mais um país de onde as pessoas fugiam, rumando sempre para o oeste.”

Turquia “Dizer que a cidade (Istambul) é linda chega a ser frívolo de tão óbvio, mas a vista das mesquitas e igrejas faz o coração disparar.” “Muito tempo atrás a Turquia parecia um país distante e exótico de homens carrancudos e mulheres enigmáticas, com telefones precários e estradas estreitas, dotado de uma cultura dramática, conflituosa. Agora tinha de tudo, fazia parte do mundo visível [...]”

Índia “Bem-vindo à Índia e à comprovação de que, como Borges escreveu certa vez, ‘a Índia é maior do que o mundo’.” “Num mundo em constante mudança, a Índia é excepcional. Todos comentam o grande salto indiano, a modernidade indiana, os milionários indianos. [...] Contudo, o país continuava existindo a seu modo desengonçado, com os defeitos e as precariedades à mostra, e o que parecia ser caos na Índia era na verdade um tipo de ordem, como o movimento furioso dos átomos.”

E assim vai. Fascinante, não acham?

Com mais de setenta anos, Theroux faz sua última viagem africana, da qual resulta O Último Trem para a Zona Verde, que eu traduzi. Sobre este livro só vou falar uma coisa: LEIAM. É duplamente bom: bem escrito e bem traduzido. Boa viagem.


1.10.19

MUSEU DE ARTE DE SÃO PAULO (MASP)


O MASP é mais antigo do que a gente imagina. Foi fundado em 1947. Quando eu era adolescente, na década de 1960, minha vovó, que morava em São Paulo, já me levava para visitá-lo. Naquele tempo ocupava um andar inteiro do prédio dos Diários Associados, na rua 7 de Abril, centro paulistano. A icônica sede atual na avenida Paulista,  projetada por Lina Bo Bardi, mulher do primeiro diretor do museu, o italiano Pietro Maria Bardi,  tem um dos maiores vãos livres (acredito) do mundo, uma façanha da engenharia, fazendo com que o museu flutue sobre uma enorme praça.

Amélia da Silva Costa, Vista da Baía do Rio de Janeiro, óleo sobre tela, 1896. Obra da coleção Fadel emprestada para a exposição Histórias das Mulheres. O panorama com o morro do Pão de Açúcar se constrói a partir da moldura de uma janela, indicando a passagem do interior da casa para o espaço aberto. A cena é plácida e calma, nada se movimenta, nem mesmo as árvores que definem a paisagem tropical.

Emily Osborn, Nameless and Friendless (Sem Nome e Sem Amigos, detalhe), obra do acervo do Museu Tate londrino emprestada para a exposição Histórias das Mulheres. Osborn se dedicou especialmente à pintura de gênero (ou seja, que retrata cenas da vida diária), abordando em diversas ocasiões o tema das mulheres de seu tempo em situação de miséria ou vulnerabilidade. A tela retrata uma jovem triste que, pelas roupas escuras, parece estar em luto, acompanhada de um menino, talvez seu filho. Ela tenta, timidamente, vender uma pintura para o negociante, que analisa com desdém o material oferecido.

Marie-Guillemine Benoist, Retrato de uma Dama na Paisagem, óleo sobre tela, c. 1805-10

Sempre achei que fosse o maior museu de arte do hemisfério sul do planeta, até conhecer o Museu de Belas Artes de Buenos Aires, que é páreo duro (você pode ler meu diário de viagem à Argentina e Uruguai clicando aqui). O site do museu paulistano diz que é o “mais importante acervo de arte europeia do Hemisfério Sul” reunindo “mais de 10 mil obras”. O site do museu argentino diz que reúne 12.000 obras. O acervo do museu dos “hermanos” formou-se na época áurea do país (fim do século XIX/início do século XX) quando os ricaços adquiriram obras de arte europeias para adornar seus palacetes. O acervo do museu paulistano formou-se mais tardiamente, no pós-Segunda Guerra Mundial, graças à visão do magnata das comunicações Assis Chateaubriand que aproveitou o momento de crise da Europa para comprar as obras a preços convidativos, valendo-se do poder de sua rede de jornais para induzir os industriais da época (ocasionalmente valendo-se de chantagem, segundo as más línguas) a fazerem a doação das obras. A magnífica biografia de Fernando Morais do grande empresário, Chatô, o Rei do Brasil, conta tudo isso.

Judith Leister, Merry Company (Alegre Companhia), óleo sobre tela, cena típica da pintura holandesa do séc. XVII. Obra de uma coleção particular britânica emprestada para o museu. As cores intensas e pinceladas vigorosas de Judith Leister dão ênfase ao prazer sensorial que a pintura proporciona ao observador. 

Segundo pavimento, onde está exposto parte do rico acervo permanente do museu, acrescido de algumas obras modernas na frente (mostradas na foto) emprestadas pelo Museu de Arte Contemporânea de Chicago. No primeiro pavimento está a mostra sobre as pintoras mulheres.

Piero di Cosimo, Virgem com o Menino São João Batista criança e um anjo. 1500-10. Óleo e têmpera sobre madeira. Vale a pena morar numa cidade onde você pode contemplar obras de arte deste calibre sem ter que viajar para Buenos Aires ou Europa (embora viajar para lá também não faça mal nenhum, pelo contrário).

Para quem mora em Sampa (como eu agora passei a morar) é um privilégio poder se deleitar com obras primas da arte medieval, renascentista, barroca, impressionista etc. sem precisar viajar à Europa. Morar em Sampa e não ir ao MASP é como morar no Rio e não ir à praia. Para quem mora em outras cidades brasileiras, só a visita ao MASP já vale a vinda à cidade (embora esta tenha muito mais a oferecer. Mais informações sobre  o MASP no site do museu ou no Google Arts and Culture.

Maestro di San Martino alla Palma (Florença), Virgem com o Menino Jesus, 1310-20, têmpera sobre madeira.

Rembrandt, Retrato de Jovem com Corrente de Ouro (possível autorretrato), c. 1635, óleo sobre madeira.

Ingres, Angélica Acorrentada, 1859, óleo sobre tela. A obra remonta ao poema épico Orlando Furioso, em que a heroína é salva por Ruggiero do monstro marinho ao qual foi oferecida em sacrifício. O monstro é cegado pelo raio de luz que sai do escudo mágico do herói. O cavaleiro pagão que salva Angélica ganha então o seu amor.

Nicolau Facchinetti, Enseada do Botafogo, 1869, óleo sobre tela.

Obras de Renoir.

20.9.19

PAULICEIA REVISITADA, de HELIO BRASIL

fui parar na capital paulista


A convite de uma tia residente em São Paulo ––acompanhando minha mãe, em 1946, fui parar na capital paulista. Na época, note-se, ainda não quatrocentona.

A família Gonçalves Biar - moradora em apartamento na esquina da então verdejante Praça da República - acolheu-nos com a simpatia e elegância de sempre e minha discreta suburbanice recebeu um primeiro lustro civilizatório. A chefe do clã, minha tia, era a viúva Etelvina Gonçalves Biar.  Seus filhos, Waldemar, Beatriz, Olga, Célia e Rubens, o caçula - os três primeiros então casados. Na época eram ainda jovens e, exceto Rubens, já próximos à fronteira dos 30 anos. Com tia Etelvina morava, além de Rubens, estudante, Célia Biar, solteira, que, mais tarde viria brilhar nos palcos e na Televisão. Na época, Célia -excelente desenhista - trabalhava com a irmã na seção de modas de uma revista feminina.

São Paulo, para mim, tornou-se, então, a terra povoada pela inteligência e pela cortesia. Fomos tratados com fidalguia e carinho. 

Fazendo sua parte, Rubens incorporou o cicerone. Levou-me para conhecer a cidade, bairros e jardins, não apenas as deslumbrantes Avenidas Ipiranga e São João, com o Martinelli, pomposo e grande, disputando com o carioca edifício de A Noite, a glória de ser o primeiro arranha-céu brasileiro. Um “colosso” como exclamativamente gostava de dizer meu pai, um admirador da engenharia. Havia, também, a sede do Banco do Estado de São Paulo (hoje, Edifício Altino Arantes), novo gigante da arquitetura brasileira.

Martinelli

E ganhei autonomia para sair, pelas manhãs, sozinho (o que já fazia aqui no Rio) a procura do que me encantasse naquela cidade fervilhante de gente!

Sem dinheiro franqueado, caminhava a pé, a melhor forma de se conhecer um espaço urbano. O que seria aquela São Paulo? Conseguiria descobri-la?  Pois, para mim, o Rio já deixara de ser apenas São Cristóvão para ser também a cidade. Agora, cabia descobrir São Paulo além Praça da República e sua Escola Normal.

E São Paulo era o Viaduto do Chá, coalhado de jornaleiros gritando com sotaques italianados, japoneses sorridentes e apressados e as Estações da Luz, Sorocabana e a Franklin Roosevelt recebendo o Trem de Aço, o veloz Santa Cruz da EFCB que encurtara o espaço entre o Rio e a Paulicéia. O vale do Anhangabaú, o novo Chá em concreto e ao longe, em paralelo, Santa Efigênia elegantemente metálica, criando dois tempos tecnológicos. O Museu do Ipiranga: o orgulho de estar em sítio tão belo da história delineado por um fiapo de água.

Estação da Luz

Por tudo isto, revia as paisagens. Do belo apartamento de minha tia, na esquina do Arouche, cruzava a Praça da República, vencia a Ipiranga, subia a Sete de Abril, assumia o Chá e visitava as ruas de São Bento e adjacências, que muito se pareciam com as do velho DF (ainda abrigado no Rio); após revisitar o Largo de São Francisco, eu comprava – mania que conservo na velhice -  em discretas papelarias cadernos de desenho, lápis e borracha. Descia, de volta, a Líbero Badaró, de olho no grande edifício do Mappin.

Um passeio mais distante logo aconteceu em uma tarde de sábado, visitando o Pacaembu para ver Corinthians e São Paulo, sem opções de torcedor, para me convencer de que aquele estádio era o mais belo do Brasil.

Pacaembu

E nos belos cinemas da Avenida Ipiranga vi filmes americanos que registrei em velhos cadernos, mas que hoje não mais me ocupam a memória. Lá longe, o sagrado Jaraguá mantinha-se vigilante sobre a cidade, a urbe que jamais admitiu uma viela, um beco sequer, com o nome do ditador Vargas.

Voltei para a terra carioca sempre me perguntando: Quando, de novo, ver São Paulo? Até quando terei que ficar no Rio?

Porém, uma história sem imagens... Na época, fotografias eram usadas pelas famílias para registrar datas especiais. Minha visita não era deste naipe e, assim, não tenho nenhum registro fotográfico daquele luminoso momento em minha vida. Apenas a memória, agora em desespero, pois fragmenta-se e não consegue trazer nomes e imagens com a mesma precisão de outrora. Vivi a angústia de esperar um retorno jamais alcançado. Ninguém volta ao mesmo lugar no espaço, pois o tempo é que o realiza, avançando mais do que as lembranças.


Anhangabaú

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E o tempo não perde tempo em responder.

Em 1951, já iniciando o Curso de Arquitetura na FNA/UB, surgiu a oportunidade de rever a pauliceia.

Através do trabalho de Raphael Matheus Peres, colega de turma e nosso representante, conseguimos os favores de nosso mestre Júlio Cesar de Mello e Souza, o  Malba Tahan dos contos árabes e mago das Matemáticas, para nos patrocinar uma visita à Primeira Bienal de Artes na Pauliceia.

A exposição estava fragmentada em diversos edifícios e áreas da cidade, o que nos obrigou a deslocamentos interessantes e descobertas de que, em São Paulo, fazia-se arquitetura. Moderna.  Moderníssima. Enquanto, no Rio, só nos salvavam o Ministério da Educação, a ABI e a Estação de Hidros...

em São Paulo, fazia-se arquitetura

Voltei para o Rio em companhia dos colegas, todos nós inoculados pela Arte. Boa parte deles, por terem um sedimento cultural maior do que o meu, crescidos na escalada da cultura, como João Filgueiras Lima – o Lelé, Ruben Mauro Ludolf, Elder Rocha Lima, Liberal de Castro, Raphael Perez, Jaci Hargreaves, Reynaldo Fânzeres e outros, muitos outros.

Temos imagens, desta vez.

São Paulo crescera, ganha uma fisionomia mais urbana e impunha-se como uma cidade cuja escala ainda não fora encontrada. E, tal como hoje, oferecia um assustador horizonte de prédios amontoados. 

 assustador horizonte de prédios amontoados

Posso jurar que voltei ainda carioca, sempre carioca. Mas outro carioca...

Retornamos com a FNA a São Paulo na segunda Bienal, já no Ibirapuera e desta vez, comemorando o 4° Centenário da Cidade e, empolgados, vimos a obra de Oscar recém acabada, suas arrojadas marquises, suas rampas e o desfio de um generoso espaço moderno a nos revelar Calder, os nossos Portinari e Guinhard e, para espanto geral, o fabuloso mural de Pablo Picasso: a Guernica.

Outras vezes retornei à pauliceia, cada vez mais desvairada e grandiosa. Mas em minha mente guarda-se um craquilé de formas e cores e de progresso. Passo na velha Praça da República e não mais vejo as belas árvores e canteiros. Sou esmagado pela imensidão da Paulista e seus múltiplos gigantes de concreto e aço.  Deslumbro-me com o MASP e o ousado espaço conquistado por Lina Bo Bardi.

Deslumbro-me com o MASP

Curvo-me e respiro a densa névoa de uma garoa que já não se faz sentir.

Volto às minhas amadas montanhas, às praias ensolaradas, onde o mar me sussurra que estou em outro lugar, outro povo, outro pensar..

11.9.19

ZONA NORTE, JABUTICABEIRAS E PIQUENIQUES, de JANE DARCKÊ AVELAR

Paulistana de Perdizes, Jane Darckê Avelar optou por morar no Rio por amor a esta cidade-irmã. Texto escrito especialmente para este blog. Fotos obtidas na Galeria da Saudade, página do Facebook de Klaus Jürgen Mahrenholz que você pode acessar aqui


Uma bela foto da ponte de madeira sobre o rio Tietê em São Paulo. Do outro lado, o Bairro dos Remédios. Citada como sendo em 1968. Acervo Eliana Belo Silva.

Muitos paulistanos nasceram do lado de lá do Rio Tietê, ou seja, do lado de quem vai para o centro da cidade em direção à zona sul. Nós, aqui não. Nascemos do lado de cá, sentido Serra da Cantareira. Como demoravam as coisas para acontecerem deste lado, principalmente nos anos 1940! O bairro de Sant'Anna, o maior da banda de cá, tinha uma dificuldade imensa para a integração com a banda de lá. O rio Tietê transbordava e impedia a passagem. Enormes várzeas eram formadas por conta dessa situação. Pontes existiam, mas eram muito primitivas e a região ficava a mercê do tempo, das chuvas e dos alagamentos, que só foram sanados com a construção de pontes definitivas, mais altas que o rio, com novas técnicas de engenharia, como a Cruzeiro Sul, Ponte Grande, Casa Verde, Limão, Freguesia do Ó, Piqueri etc. 

Uma foto curiosa de 1929 de uma enchente na Rua Voluntários da Pátria, esquina com Dr. César, em Santana, São Paulo. Acervo Ita Castañon.

Ah! Mas coisas boas (e só agora valorizadas) aconteciam por conta deste capricho geográfico e meteorológico: bairros como a Vila Guilherme, Vila Ede, Vila Gustavo, Vila Maria, Parada Inglesa, Santa Teresinha, Santana, Freguesia do Ó, Casa Verde, Bairro do Limão, Pirituba e Jaguaré eram favorecidos pelas vistosas chácaras, onde se desenvolviam os pés de couve manteiga e tronchuda, chicória amarga, escarola, agrião, salsa, cebolinha e pimenta dedo de moça. Essa produção era vendida nas imediações por senhoras geralmente vestidas de preto, usando lenços na cabeça, com carriolas de madeira. Provavelmente, portuguesas viúvas. Outra parte da produção ia para a região do Mercado Municipal, no lombo de burricos. Também havia criação de cabras que produziam leite também vendido de porta em porta; coelhos também eram comercializados, assim como leitões novinhos, galinhas e frangos, que eram vendidos vivos. Haviam também alguns doces em compota, de banana, mamão verde, moranga e laranja amarga (chamavam de laranja cavalo). 

Uma linda foto antiga do Bairro de Santana, zona norte de São Paulo/SP em 1920, até então existiam muitas chácaras. Acervo Folha.

Já ia me esquecendo dos porcos. Eles vendiam a carne cozida em pedaços, em latas mergulhadas na banha e foi aí que nós crianças aprendemos a comer pão com banha de porco e o tal salzinho. Isso era feito por não haver refrigeradores. E acreditem, era prático: a mãe pegava um pedaço da carne da lata, que naturalmente já vinha besuntada com a banha e o feijão semi gordo, estava garantido: era só juntar uma folhinha de louro, alho fritinho e pronto! 

Santana é um dos bairros mais antigos da Zona Norte de São Paulo. Nessa foto antiga temos o dia de festa: regata de inauguração da Ponte das Bandeiras, em 25 de janeiro de 1942. Acervo Clube Esperia.

Agora, vamos às deliciosas bolinhas pretas que ilustram o nosso assunto. Em Santana, próximo ao Cemitério Chora Menino, existe uma rua de nome Copacabana. Hoje, toda feita de espigões luxuosos de 4, 5 até 6 dormitórios e obviamente, muitas vagas de garagem. Essa região era um vale, o que facilitou a edificação, pois faz-se 4 ou 5 subsolos de garagem e ao chegar ao nível da rua, começam os andares para apartamentos. Pois bem,
esses vales eram repletos de jabuticabeiras. Pessoas de outros bairros vinham em busca dessa fruta tão brasileira e apreciada. Era tanta procura que passaram a alugar os pés de jabuticabas. As famílias chegavam com filhos, netos, amigos, os “nonnos” (avós, em italiano) sem esquecerem-se do cachorro. E se apropriavam de um pé carregado e podiam devorá-lo por inteiro, não sem antes estender uma colorida toalha sob a frondosa selecionada. Sobre ela, cestos de vime com duas portinholas e dentro deles: torta de palmito ou frango, sanduichinhos de sardinha em lata com salsinha e naturalmente doces: bolo de fubá ou de mandioca. Guaraná da Brahma para a criançada, Cerveja Antarctica para os homens e Malzbier para as mulheres que estavam amamentando os seus bebês. Pronto! Feita a propaganda, sem querer... 

Uma bela Chácara na Vila Bela Vista em Vila Maria, São Paulo/SP. Foto de 1939. Acervo Hagop Garagem.

Este era um dos domingos paulistanos. Isso mesmo! Um “convescote” ou piquenique. Bons e velhos tempos de uma São Paulo que não existe mais. 

Ida ao mar? Falo depois... Um outro e delicioso assunto...

27.8.19

PASSEIO PÚBLICO



Tombado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional IPHAN em 1938, o Passeio Público é o primeiro jardim público do Rio de Janeiro, mandado construir pelo vice-rei D. Luiz de Vasconcelos, em 1783. Projetado por Mestre Valentim, importante artista do período colonial brasileiro, o jardim apresentava ruas retas que se cruzavam ortogonalmente e outras formando diagonais, e ostentava elementos decorativos também criados pelo artista, que ainda hoje estão presentes. Entre eles, o tombamento federal destaca o Portão Principal, o Chafariz dos Jacarés (Fonte dos Amores) e os Obeliscos (Pirâmides).

Uma grande reforma foi executada no Passeio Público em 1861, pelo botânico e paisagista francês Auguste Glaziou. Nela foram conservados os elementos arquitetônicos e artísticos originais, mas foi alterado o partido do jardim, adotando-se aleias curvas e sinuosas, lagos e pontes, à feição do paisagismo romântico (informação de um letreiro existente no Passeio Público).


Portão de acesso em bronze com feição rococó

Medalhão de D. Maria I, rainha de Portugal, mais tarde aqui no Brasil cognominada a Louca, e do rei consorte de Portugal, seu marido Pedro III

... ide passear algumas horas no Passeio Público...

Quando estiverdes de bom humor e numa excelente disposição de espírito, aproveitai uma dessas belas tardes de verão como tem feito nos últimos dias, e ide passear algumas horas no Passeio Público, onde ao menos gozareis a sombra das árvores e um ar puro e fresco, e estareis livres da poeira e do incômodo rodar dos ônibus e das carroças. 

José de Alencar em crônica de 29 de outubro de 1854

Chafariz dos Jacarés


Uma das obras primas do Mestre Valentim, a Fonte dos Amores foi projetada em 1783, quando a cidade do Rio de Janeiro era marcada pela sujeira e pela insalubridade. A falta de água potável foi amenizada a partir da construção, pelo vice-rei, de fontes e chafarizes por toda a cidade.

No projeto de Valentim, como se pode observar, a Fonte foi colocada em local de destaque dentro do jardim. Ao entrar no Passeio, o visitante avistava imediatamente a Fonte dos Amores.

A Fonte possui duas faces. Na que está voltada para o jardim, encontra-se o Chafariz dos Jacarés. As esculturas, fundidas em bronze na antiga Casa do Trem, despejam [na verdade, despejavam; a fonte atualmente está seca] pela boca a água que cai no tanque semicircular que rodeia a cascata. A outra face da Fonte dos Amores tem o Chafariz do Menino. Para observá-lo melhor é necessário subir até o terraço.

Mesmo com toda a transformação realizada por Glaziou, em 1861, foram mantidas do original do Mestre Valentim a Fonte dos Amores e as pirâmides. 

Informação de um letreiro do Passeio Público.

Chafariz dos Jacarés (detalhe)

Chafariz do Menino: "Sou útil inda brincando".

Entrava então no Passeio Público, e tudo me parecia dizer a mesma coisa. — Por que não serás ministro, Cubas? — Cubas, por que não serás ministro de Estado? Ao ouvi-lo, uma deliciosa sensação me refrescava todo o sistema. Entrei, fui sentar-me num banco, a cavar comigo aquela ideia. 

Machado de Assis, Memórias póstumas de Brás Cubas


Duas pirâmides em granito de Mestre Valentim (1806)

[Mestre] Valentim pertenceu à Irmandade de Nossa Senhora da Conceição, composta de homens pardos como ele, tendo a ela se filiado em 1766. Desde então, até 1813, produziu valioso acervo de obras que o tornaram notável entre os demais artistas do Rio de Janeiro colonial. Embelezou a cidade com dois importantes marcos: para o largo do Paço (atual praça Quinze), a mais importante praça da cidade, produziu o belíssimo chafariz; na área do aterro da antiga lagoa do Boqueirão projetou e realizou o primeiro jardim público da cidade, o atual Passeio Público, inaugurado em 1783. Aliás a obra do Passeio representou a primeira intervenção do poder público na cidade, que partia de um ponto de vista global e objetivava retirar o largo do Paço de sua posição de único marco espacial no gênero. Foi sem dúvida uma proposta ousada, que partiu do vice-rei d. Luis de Vasconcelos e Souza. Exigiu obra complexa e cara de aterramento da lagoa e desbastamento de parte do morro do Desterro (atual morro de Santa Teresa). O projeto não se resumia ao Parque, mas compreendia um todo integrado e inovador, ao qual a baía de Guanabara se incorporava ao mesmo tempo como paisagem descortinada por quem no Passeio estivesse plantado, ou como ponto de vista de quem chegava à cidade pelo mar. Em seu lado oposto e extremo, no vértice formado pela atual rua Evaristo da Veiga, ficava o chafariz das Marrecas, que fornecia água potável acessível ao consumo da população. Unindo o parque ao chafariz corria uma rua larga, reta, direcionadora do olhar daquela pessoa que se dirigia ao grande jardim, preparando-a ao deleite de um passeio pelas alamedas floridas que convergiam para o eixo principal e terminava no terraço descortinando a bela visão da baía de Guanabara. Nos extremos desse terraço erguiam-se dois pavilhões hexagonais em que se exibia a arte muralista de painéis com conchas e penas, obras de Francisco dos Santos Xavier (Xavier das Conchas) e de Francisco Xavier Cardoso Caldeira (Xavier dos Pássaros) muito apreciadas pela população da cidade. No interior do Parque não faltavam elementos de adorno, presentes em famosos passeios públicos de outras cidades da Europa, como fontes e estátuas. A rua que unia o Passeio Publico ao chafariz, atual Marrecas, principal via de acesso ao Parque, foi batizada com o poético nome de "Belas Noites", numa clara alusão ao espetáculo visual que oferecia aos transeuntes nas noites de luar. Foi a primeira rua aberta sem o objetivo utilitário de circulação e oferta de lotes para novas construções. Ao contrario, nasceu para desempenhar uma função estético-espacial e expressar, deliberadamente, o mais sofisticado nível do viver urbano com arte.

Com esse conjunto inovador, a cidade passou a oferecer a todos a oportunidade do deleite urbano, e possibilitou a seus usuários a chance de demonstrarem o grau de civilidade que possuíam, bem como os gestos e as maneiras de uma educação requintada. A cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro poderia, a partir dessa grande intervenção, colocar-se ao lado da cidade de Lisboa e outras do Reino.

Nireu Cavalcanti, O Rio de Janeiro Setecentista, pp. 312-13


Da esquerda para a direita: Verão, outono, inverno, primavera, esculturas em ferro fundido de Mathurin Moreau (Fundições Val d'Osne) de 1860.

Em cima, da esquerda para a direita: bustos de Raimundo Correia, Chiquinha Gonzaga, Alberto Nepomuceno, Pedro Américo; em baixo: Vítor Meireles, Castro Alves e Mestre Valentim.

O espetáculo dessa natureza opulenta...

FAZEI de conta que vos achais agora comigo no aprazível terraço do Passeio Público do Rio de Janeiro. O dia foi calmoso. Em compensação, porém, a tarde é bela e fresca. O sol derrama sobre a terra seus últimos raios. Anuncia-se a hora do crepúsculo. A viração festeja docemente as verdes folhas das árvores que sussurram com um leve ruído. Imaginai tudo isto. Embalar-vos-eis com uma ficção que já tem sido e será mil vezes uma verdade. Sentemo-nos nestes bancos de mármore e de azulejos. Voltemos as costas para o mar. O espetáculo dessa natureza opulenta, grandiosa, sublime, absorve-nos-ia em uma contemplação insaciável. Cerremos por algum tempo os olhos à majestade das obras de Deus. A hora do crepúsculo é suave, melancólica e propícia aos sonhos do futuro e às recordações do passado. Deixemos o futuro a Deus no Céu e aos poetas na Terra.

Joaquim Manuel de Macedo, Um passeio pela cidade do Rio de Janeiro, “Passeio Público”


Fonte do Tritão, em bronze, réplica de 2004 da fonte original de Nicolina Vaz de Assis furtada em 1993

O Passeio Público é um parque aprazível, embora de reduzidas dimensões. Contudo, é atravessado por belas alamedas sombreadas de tamarindos, cajueiros, goiabeiras e mangueiras. Crescem nestas últimas parasitas floridas de vermelho e lilás. Cercas de bambu, caprichosamente trançadas, delimitam canteiros repletos de arbustos variados tais como: rosas-de-jericó, flores-de-cera, ervilhas-de-cheiro, pés de camélia, cardamomo, cana-índica e ainda de numerosas espécies de flores europeias, tudo bem tratado. Bancos de pedra convidam a sentarmo-nos defronte a um belo chafariz dágua cristalina e refrescante, tendo ao fundo um terraço murado de pedra no qual as ondas vêm bater e de onde se goza a brisa do mar e de uma vista encantadora sobre a baía. O parque andou muito tempo abandonado e só recentemente, graças aos esforços do grande botânico, frei Leandro, a quem sua direção foi entregue, como a do Jardim Botânico, está sendo recuperado e diariamente embelezado. É pena que lugar tão aprazível esteja na extremidade da cidade; daí ser tão pouco frequentado!

Ernst Ebel, O Rio de Janeiro e seus arredores em 1824


18.8.19

FUNDAÇÃO EMA KLABIN

TEXTOS OBTIDOS NO SITE DA FUNDAÇÃO EMA KLABIN. FOTOS DO EDITOR DO BLOG.


EMA GORDON KLABIN

Nascida no Rio de Janeiro em 1907, Ema Gordon Klabin era filha de Hessel Klabin e Fany Gordon Klabin, imigrantes lituanos vindos para o Brasil na última década do séc. XIX. Seu pai, naturalizado brasileiro em 1923, foi um empresário que se distinguiu no desenvolvimento da indústria do papel e da celulose no país.

Foi educada no Brasil e na Europa (Alemanha e Suíça), onde residiu durante a Primeira Guerra Mundial. Além da atividade empresarial, assumida em 1946, com a morte de seu pai, Ema dedicou-se a inúmeras atividades filantrópicas e assistenciais, dentre as quais se destaca o papel desempenhado na construção do Hospital Israelita Albert Einstein em São Paulo.

Apreciadora de música e de arte, Ema Klabin teve uma significativa atuação na vida cultural da cidade, com participação nos conselhos de instituições culturais, além de promover artistas, participar de leilões beneficentes em prol das entidades que apoiava e realizar concertos em sua própria casa com artistas de renome.

A partir do final dos anos 1940, passou a adquirir importantes obras de arte em galerias europeias e americanas, além de comprar diversas peças de outros colecionadores brasileiros e de diplomatas estrangeiros de passagem pelo Brasil. Além das obras de arte que ornamentavam a antiga residência paterna, Ema formou, no pós-guerra, um importante conjunto de telas de pintura européia, além de alguns itens de mobiliário europeu antigo.

Logo começou a acalentar o sonho de construir uma residência onde pudesse conviver com o belo acervo que ia se formando e onde pudesse receber seus familiares, amigos e artistas em ambiente refinado. A casa, feita sob medida para abrigar sua coleção, foi inaugurada no final de 1960.

Já no final de sua vida, e não tendo herdeiros diretos, Ema Klabin preocupou-se com o destino de sua coleção e, como sua irmã Eva fizera no Rio de Janeiro, criou a Fundação Ema Klabin para que sua casa se tornasse um museu aberto à visitação pública.

Casa vista do jardim projetado por Burle Marx

FUNDAÇÃO EMA KLABIN (Rua Portugal, 43 - Jardim Europa - São Paulo)

Oficialmente registrada em 1978, a Fundação Cultural Ema Gordon Klabin é uma instituição sem fins lucrativos, declarada de utilidade pública federal, que tem por objetivos a promoção e divulgação de atividades de caráter cultural, artístico e científico, além da transformação da residência de Ema Gordon Klabin em museu aberto à visitação pública.

Os trabalhos de catalogação do acervo foram iniciados em 1997, três anos após o falecimento de Ema Klabin, e possibilitaram uma compreensão profunda das peças e sua história. Para divulgar o seu acervo, além da visitação pública, a Fundação Cultural Ema Gordon Klabin tem cedido obras para inúmeras exposições no Brasil e na Europa.

O imóvel sede da Fundação localiza-se à rua Portugal em São Paulo. O terreno, de quase 4.000 metros quadrados, faz parte do Jardim Europa, loteamento de alto padrão projetado pelo engenheiro-arquiteto Hipólito Pujol Jr. no final da década de 1920, nos mesmos moldes das cidades-jardim britânicas do contíguo Jardim América, projeto do urbanista inglês Barry Parker. Em sua proximidade estão outras duas instituições culturais: O MUBE – Museu Brasileiro da Escultura e o MIS, Museu da Imagem e do Som.

A construção, com cerca de 900 metros quadrados, foi cuidadosamente projetada e construída pelo engenheiro-arquiteto Alfredo Ernesto Becker, em meados dos anos 50, para abrigar a coleção reunida por Ema Klabin. A casa não possui um estilo definido, como era comum nas outras residências da época, unindo elementos clássicos, como os arcos plenos nas portas e janelas externas, com elementos modernos, notadamente nos materiais de acabamento utilizados. A decoração ficou a cargo de Terri Della Stuffa, também responsável pela distribuição e adaptação das peças pelos ambientes da casa.

Cama veneziana do séc. XVIII no quarto principal

Obras do modernismo brasileiro no quarto principal

Quarto de hóspedes com cama em estilo rococó português

Suntuoso banheiro revestido em placas de virtrolite, inspirado nos cenários hollywoodianos dos anos 1940. No espelho o editor do blog tirando a fotografia.

Tríade (Buda e atendentes) japenesa do período Kamakura (séc. XII)

Alessandro Allori, Retrato de Dama Florentina, séc XVI

O PROJETO FINAL (texto extraído do catálogo da exposição A CASA DA RUA PORTUGAL realizada de 23/8 a 30/11 de 2014)





Alfredo Ernesto Becker (1894-1963) nasceu em Porto Alegre e foi criado na Alemanha, onde realizou seus primeiros estudos. Após se formar pela Escola Politécnica de Zurique, em 1922, retornou ao Brasil e, depois de um breve período no Rio de Janeiro, estabeleceu seu escritório em São Paulo, em 1924. Por quase toda sua carreira, dedicou-se ao projeto e à construção de dezenas de residências de luxo nos novos bairros do Jardim América, Jardim Europa e Pacaembu.

Como era membro do corpo editorial da revista Acrópole, teve muitos projetos publicados, o que nos permite perceber que realizava seus projetos de forma pragmática, atendendo aos desejos de sua clientela e seguindo os estilos então na moda. Cuidava também da construção das casas e era conhecido pelo cuidado no detalhamento e na execução de seus projetos, que acompanhava de perto até à finalização.

Em 1937, durante viagem à Europa, encantou-se com o clássico modernizado que viu na Exposição de Artes e Técnicas da Vida Moderna, em Paris, bem como no estádio de Nuremberg, na Alemanha, e passou a adotar o estilo, que considerava “um ponto de partida para a sedimentação definitiva da arquitetura contemporânea”, em grandes casas que construiu na década seguinte, especialmente em torno da avenida Brasil. Foram justamente esses projetos que levaram Ema a conhecer seu trabalho e a contratá-lo, já que conseguiam unir o clássico ao moderno da forma que ela, naquela altura, desejava.

Os primeiros estudos que Becker realizou, no final de 1954, propunham uma casa de planta bem incomum, organizada em torno de um grande hall circular central, a partir do qual os ambientes se distribuíam em dois pavimentos. Chegaram a ser apresentadas cinco diferentes versões dessa solução, até que, em fevereiro de 1955, surgiu uma proposta completamente nova, na qual a casa tinha apenas um pavimento de planta quadrada, onde o hall foi substituído por um grande pátio aberto, circundado por uma galeria em forma de loggia. Curiosamente, não há nenhum desenho de fachadas ou elevações de todos esses estudos, indicando que já havia um certo consenso sobre o estilo a ser adotado.

Não se tem como saber de quem partiu a ideia de usar o Palácio de Sanssouci como modelo para o projeto seguinte, apresentado em março de 1955. Tanto Ema quanto Becker passaram a juventude na Alemanha, quando tiveram oportunidade de visitá-lo, e ambos estudaram a arte e arquitetura alemãs do período. É possível até que tenha surgido de uma conversa entre ambos, pois em um dos últimos desenhos anteriores foram feitas anotações indicando volumes circulares nas extremidades da fachada principal, em solução que já remetia ao palácio.

Projetado por Georg Wenzeslaus von Knobelsdorff, entre 1745 e 1747, para o rei Frederico II da Prússia, o palácio é um dos mais famosos exemplares da arquitetura rococó alemã. Concebido como residência de veraneio destinada a grandes festas e recepções, era um modelo perfeito para Ema, que também desejava uma casa de uso semelhante. Apesar de ser frequentemente comparado a Versailles ou ao Château de Marly, Sanssouci possui, ao mesmo tempo, uma escala monumental e dimensões reduzidas, com apenas dez aposentos principais.

Becker soube aproveitar o modelo com extrema habilidade, distribuindo toda a casa em torno de uma longa galeria semicircular, ligando, a partir do hall, os ambientes sociais aos íntimos, em solução também inspirada na planta de Sanssouci. A fachada voltada ao jardim repete fielmente as aberturas em arcos plenos, bem como a cobertura em rotunda sobre o hall.

Esse estudo evolui rapidamente para o anteprojeto, que conseguiu, finalmente, satisfazer todos os desejos de Ema. A casa proposta tinha ambientes amplos o suficiente para abrigar sua coleção, e o estilo das fachadas conseguia ser quase atemporal, ao aplicar materiais modernos e pouca ornamentação a um desenho clássico.


Pompeo Batoni, Retrato de Dama como Diana Caçadora, 1760

Talha do Mestre Valentim proveniente da Igreja de São Pedro dos Clérigos na sala de jantar

Jardim de inverno

Sala de jantar e jardim de inverno atrás

Relógio de piso francês estilo Luís XV na sala de música

Salão criado como um espaço de encontro e diversão

Escola Flamenca, Torre de Babel, séc. XVI