11.10.17

ORATÓRIO DO MORRO DA PROVIDÊNCIA

O então conhecido como "Santuário do Cristo Redentor" em fotografia do início do século XX de Augusto Malta. Foto obtida na Biblioteca Nacional Digital

Em sua versão original de 13/5/15, esta postagem, com base em fotografia de 1881 que mostramos adiante, desmentia o “mito” de que o Oratório do Morro da Providência teria sido erguido no início do século XX. Só que novas pesquisas me revelaram que o Oratório foi, sim, construído em 1901 e que aquilo que parecia o Oratório na foto de 1881 na verdade era uma caixa d’água, conforme me informou o historiador Milton Teixeira. Esta nova versão da postagem corrige o erro da versão original. A História é uma disciplina nebulosa, cheia de pontos polêmicos, e às vezes somos induzidos ao equívoco. Agora, que os soldados iniciaram a ocupação do morro isto, sim, é um mito. Já existiam moradores lá havia tempos. Segundo Milton Teixeira, desde a época colonial. Os soldados criaram a favela. Dito isto, vamos ao que interessa.

Quando fotografado por Augusto Malta no início do século XX, o “Oratório do Morro da Providência” — situado na ponta noroeste do morro, tombado pela Prefeitura em 1986 e também conhecido por “Capela das Almas”  denominava-se Santuário do Cristo Redentor e em seu frontispício lia-se A JESUS CHRISTO (a inscrição e a cruz superior se perderam). Depois da construção da estátua do Cristo no alto do Corcovado, o santuário ao pé dessa estátua recebeu esse mesmo nome. Uma placa no interior do Oratório indica que foi construído em 1900-1901 (ver foto adiante). A data é confirmada por duas notas publicadas no semanário católico O Apóstolo

A primeira, na pág. 2 da edição de 15 de dezembro de 1900, diz (texto adaptado à ortografia atual): "Está quase concluído o monumento, a grandiosa Cruz que no Morro da Providência será erigida para comemorar a passagem do século e o amor deste povo a Jesus Cristo Redentor. Será bento e inaugurado a 31 do corrente pelo Ex. Rvm. Sr. Arcebispo. Nossos louvores a seus promotores." A segunda, na pág. 2 da edição de 22 de dezembro do mesmo ano, diz: "A inauguração da Cruz, que como monumento em honra a Jesus Cristo se erguerá no Morro da Providência, se realizará no dia 1 de Janeiro, às 5 horas da tarde, sendo benta pelo Ex. Sr. Arcebispo D. Joaquim Arcoverde." Portanto, sobre a data da construção do Oratório não paira dúvida.

As notas derrubam o mito de que Oratório teria sido erigido em homenagem aos soldados tombados em Canudos. Na verdade, homenageou a mudança do século e a devoção a Jesus Cristo. Outro mito que costumamos ouvir é que a ocupação do morro começou pelos soldados retornados de Canudos (1897). O mito cai por terra quando lemos em jornais e outras publicações anteriores menções a moradores e casas do Morro da Providência. Mais à frente mostramos algumas dessas menções. 

O que os soldados criaram foi a favela. Aliás, os soldados mudaram o nome para Morro da Favela em alusão a um morro existente em Canudos, que aliás tinha esse nome devido a um arbusto, denominado "favela" ou "faveleiro", existente na região, como vemos em Os Sertões. Mais tarde o morro retomaria o nome original.

O agora conhecido como "Oratório do Morro da Providência" com barracos em torno.

O Oratório de perto

Altar dentro do Oratório

TRECHO DE Brasil Gerson, História das ruas do Rio, quinta edição, p. 183

Ao regressarem das expedições contra Antônio Conselheiro, no fim do século passado [XIX], receberam os soldados do Coronel Moreira Cesar e do General Artur Oscar, alguns recursos para instalar-se em casa própria no Rio, e foi ali, nas abas da Providência, que eles o fizeram, e logo disseram que ela era a sua “favela” carioca, numa alusão ao morro do sertão baiano de onde a artilharia legalista bombardeava o reduto daqueles jagunços místicos... E o nome, popularizando-se, ficou sendo também dos nossos demais conglomerados humanos semelhantes para, afinal, figurar depois no dicionário como um novo brasileirismo, bem típico dos tempos modernos, nas nossas atravancadas metrópoles.

Placa no interior sugere que o Oratório tenha sido construído em 1900-01

A porta

Dona Chiquinha (Francisca), a guardiã do Oratório (ver vídeo ao final

TRECHOS DE Euclides da Cunha, Os Sertões, Editora Nova Cultural, págs. 23-4, 31, 37

Todas traçam, afinal, elíptica curva fechada ao sul por um morro, o da Favela, em torno de larga planura ondeante onde se erigia o arraial de Canudos[.]

Galgava o topo da Favela. Volvia em volta o olhar, para abranger de um lance o conjunto da terra.

Do topo da Favela, se a prumo dardejava o Sol e a atmosfera estagnada imobilizava a natureza em torno, atentando-se para os descampados, ao longe, não se distinguia o solo.

As favelas, anônimas ainda na ciência — ignoradas dos sábios, conhecidas demais pelos tabaréus — talvez um futuro gênero cauterium das leguminosas, têm, nas folhas de células alongadas em vilosidades, notáveis aprestos de condensação, absorção e defesa.



Frente do Oratório. A inscrição "A JESUS CHRISTO" e a cruz no topo se perderam. 

INDICAÇÕES DE QUE O MORRO JÁ ERA HABITADO ANTES DA CHEGADA DOS SOLDADOS

O Boletim da Câmara Municipal da Corte de 1863 cita à pág. 10 um requerimento para a construção de uma escada da rua do Sacco [Rua do Saco do Alferes, atual Rua da América] ao Morro da Providência:

O Sr. Dr. Monteiro dos Santos apresentou os seguintes pareceres:
"Sobre a informação do engenheiro ácerca do requerimento de alguns moradores e proprietarios do Morro da Providencia, pedindo permissão para fazerem gratuitamente no dito morro uma escada ou rampa para á rua do Sacco, sendo a obra inspeccionada pela directoria das obras municipaes: conformo-me com informação do engenheiro. Rio, 15 de maio de 1863. – Dr. Monteiro dos Santos."
– Foi approvado.

O Diário do Rio de Janeiro de 6 de junho de 1860 menciona a cobrança da décima urbana (espécie de IPTU) aos proprietários e inquilinos também no Morro da Providência:



Notícia publicada na primeira página do Jornal do Brasil de terça-feira, 5 de setembro de 1873:

BAILE A’ NAVALHA

Francisco Miguel do Nascimento dansava hontem alegremente num baile, no morro da Providencia.

Como nessas occasiões o sangue se esquenta e “o sangue é que faz mal ao corpo” o cunhado de Nascimento, de nome Josué José Gomes agrediu-o, dando-lhe tres navalhadas.

E o pobre homem passou do baile para a Misericordia.

Também em O Paiz encontramos indícios de ocupação pré-Canudos, por exemplo, na edição de 12 de setembro de 1885, na seção ANNUNCIOS, consta: "ALUGA-SE a casa do Morro da Providencia n. 23: está limpa; para tratar na rua do General Camara n. 365." E na pág. 2 da edição de 22 de novembro de 1885 lemos: "Juvencia Maria Rosa da Conceição, moradora em um casebre no morro da Providencia, estando ante-ontem, ás 5 horas da tarde, junto ao fogão, fazendo o jantar, foi presa pelas chammas, resultando ficar bastante queimada." E na edição de 22 de abril de 1886 de O Paiz, lemos:

O governo imperial, que tão solicito se tem mostrado em favorecer a construcção de casas e alojamentos para as classes operarias, concedendo ás emprezas que a isso se propõem os favores marcados em lei, não póde deixar de attender á reclamação que lhe fazem por este meio os moradores do morro da Providencia.
Reside neste logar grande numero de operarios e pessoas que trabalham por soldadas, não só pelo menor aluguel que ali pagam, como pela elevação do solo, que lhes dá presumpção de salubridade, mais do que lhes promettem os bairros baixos da cidade. Essas condições, infelizmente, são destruidas pela má distribuição da agua.

Esta e outras notícias da imprensa da mesma época mostram que o morro já era habitado (ao menos esparsamente) antes da vinda dos soldados de Canudos.

Oratório visto da Gamboa

Esta foto da Estação Marítima, de 1881, dá a impressão de que o Oratório já existia naquela época. Encontra-se na pág. 30 de Vistas Photographicas da Estrada de Ferro D. Pedro 2 que você pode consultar clicando aqui. Mas se você examinar bem verá que o formato não é exatamente o mesmo (as janelas não são ogivais, falta a cúpula e a cruz), como confirma a ampliação abaixo. Trata-se provavelmente de uma caixa d'água erguida por André Rebouças em 1881, como informou Milton Teixeira ao editor deste blog.


E para terminar, uns versinhos engraçadinhos que pesquei no Jornal do Povo de 24 de novembro de 1879:

Fui á cata do Bandarra
No morro da Providencia
Para intervir na pendencia
Entre a formiga e a cigarra;
Que eu nunca toquei guitarra
Nos harens de Salatino;
E o cervejeiro Gambrino
Nunca indagou minha sorte
Se eu sou do sul ou do norte
Se Facundes ou Galdino.

10.10.17

EXPOSIÇÃO PORTO CIDADE: A MEMÓRIA DO LUGAR

Grafite na fachada de um galpão perto da exposição

Não obstante toda a corrupção agora vindo à tona envolvendo as Olimpíadas cariocas, tivemos, sim, um forte legado em termos de transportes e embelezamento da cidade. O Porto Maravilha – revitalização da Zona Portuária – é emblemático: uma área antes decadente, sem bom acesso por transporte público, enfeada pela Perimetral – mas com muita história, muita vocação turística inexplorada – metamorfoseou-se na terceira maior atração para os turistas que visitam a cidade. Nesse novo contexto insere-se a recém-inaugurada GALERIA NOVOCAIS, num dos imponentes prédios pós-modernos que brotaram numa área onde antes predominavam sobrados, formando um contraste arquitetônico como os londrinos sabem tão bem explorar, em terreno que compartilha com um primoroso passeio público inaugurado no final de 2016 que homenageia o compositor Ernesto Nazareth, filho na região (ver aqui). Recomendo fortemente a visita à galeria, cuja exposição PORTO CIDADE: A MEMÓRIA DO LUGAR, tece “a história urbana e cotidiana da região do porto” numa “rede de memórias afetivas através de um recorte fotográfico de mais de 570 imagens, que representam a evolução dos bairros e de suas identidades, de 1800 a 1980”, conforme explica o folheto da exposição.

um recorte fotográfico

A exposição divide-se em cinco espaços: “o primeiro apresenta uma estrutura metálica que avança sobre o mezanino e recebe imagens da primeira grande obra do Porto, de 1903 a 1911; o segundo é demarcado por um grande painel fotográfico que representa a teia de memórias da região, com 274 imagens oriundas de diferentes acervos e exibidas em ordem cronológica, marcando a evolução urbana e humana do lugar; o terceiro é um passeio pelo bairro do Santo Cristo de ‘ontem’; e por fim apresentamos com destaque uma homenagem a dois personagens históricos da região, o fotógrafo Sebastião Pires e o músico Ernesto Nazareth, que recebem duas salas especiais.”


o fotógrafo Sebastião Pires

Para os motorizados existe estacionamento no local, mas o mais pitoresco é ir de VLT, saltando na estação Cordeiro da Graça (sentido Rodoviária) e andando duas quadras (mapa abaixo). Para voltar ao Centro pegue o VLT na estação Equador. Em vez de pegá-lo, aproveitei o ensejo para caminhar pela parte “velha” da Zona Portuária, por onde aliás já venho caminhando desde meus tempos de RFFSA nos anos 70-80, observando casario, ladeiras, azulejos, a alma do Rio Antigo. Depois do mapa, fotos da exposição e do meu passeio.



Casario (a casa superior esquerda, um tesouro com fachada de azulejos tipo portugueses, dilapidado)

Morro da Providência

Painel no Passeio Público Ernesto Nazareth

Edifício Novocais do Porto

Foto da exposição: casa com fachada de azulejos esmaltados

Foto da exposição: Igreja de Santo Cristo antes da descaracterização

Estrutura metálica

o terceiro é um passeio pelo bairro do Santo Cristo de ‘ontem’

Canções de Ernesto Nazareth

Flanando pela Zona Portuária

Uma sossegada ruazinha na Gamboa

Casas coloridas na velha Gamboa

Vista do alto da Rua Leôncio de Albuquerque com Morro do Livramento ao fundo

Velhas portas e janelas na Gamboa. Em um "recanto da Gamboa" Brás Cubas adquiriu uma casinha, "um brinco", para seus encontros amorosos com Virgília: quem leu as Memórias Póstumas deve se lembrar.

Ladeira Morro da Saúde (esquerda)

Quartel da PM na Praça Cel. Assunção (ex-da Harmonia)

Cristo visto do Boulevard Olímpico

1.10.17

BRAZ DE PINA: O HOMEM E O BAIRRO


Braz de Pina foi um empresário português, contratador de pesca de baleia e senhor de engenho do Brasil colonial (século XVIII), ativo na Capitania do Rio de Janeiro, como informa a Wikipedia. Seu negócio de pesca de baleia ficava sediado no “Caes de Braz de Pina”, na praia de mesmo nome, depois chamada de Praia dos Mineiros, no local da atual Rua Visconde de Itaboraí, que vai do Arsenal da Marinha à Av. Presidente Vargas, no Centro do Rio. 

Praia dos Mineiros (seta), detalhe de um mapa de 1831 obtido na Biblioteca Nacional Digital 

Braz também fundou em 1740 “seis legoas ao norte de Cabo Frio, e perto do Cabo dos Busios uma “povoação com o nome de Armação” “onde formou um outro estabelecimento para o fim que tractamos” (Almanak Historico de Lembranças Brasileiras, 1863). Trata-se da Armação dos Búzios, ou simplesmente Búzios, que ganhou fama internacional graças à atriz francesa Brigitte Bardot. A Wikipedia define uma “armação baleeira” como “uma instalação litorânea estruturada para a pesca ou caça às baleias e o processamento dos seus produtos [azeite de baleia]”. Ou seja, existe uma ligação entre o subúrbio de Brás de Pina (que é como se escreve na ortografia atual), o Centro carioca e a famosa Búzios.

Na primeira metade do século XVIII os grandes engenhos e fazendas da então Zona Rural da cidade (mais tarde, subúrbios e hoje bairros da Zona Norte) já começam a ser desmembrados, como mostram alguns anúncios de vendas de sítios na imprensa da época. Por exemplo:

Anúncio do Diário do Rio de Janeiro de 12 de novembro de 1824:



Anúncios nesse mesmo jornal em 7 de abril de 1837:



Nas últimas décadas do século XIX esse processo de desmembramento avançara significativamente, de modo que o que antes eram grandes engenhos e fazendas, como de Vigário Geral, Cordovil, Braz de Pina, já haviam sido loteados e eram cultivados por pequenos lavradores, a maioria de origem portuguesa, suprindo de legumes e frutas os nossos mercados, como informa artigo intitulado “A propósito de abolição” na Gazeta Suburbana de 15 de dezembro de 1884. Diz o artigo (adaptado à ortografia atualmente vigente):

Gazeta Suburbana

Próximas do grande centro consumidor, como é a capital do Império [Rio de Janeiro], cortadas quase todas pela E. F. D. Pedro II, e as de Inhaúma e Irajá por esta e a Estrada do Rio do Ouro [atual Linha 2 do metrô], tendo ainda ao litoral portos de embarque marítimo a uma hora mais ou menos de distância da capital [essas fazendas] podem e devem assumir papel importante na pequena lavoura; porque para elas a grande já não existe e a pouca que há é para vergonha própria.

E se não fora a iniciativa particular de grande número de cidadãos portugueses que ali exercem a pequena lavoura com admirável proveito, estimulando o nacional a envergonhar-se da vadiação, porque não foi acostumado ao trabalho como o escravo – talvez que o nosso mercado estivesse deserto dos legumes e frutas que lá encontramos.

É, pois, com essa colonização espontânea e com os braços nacionais desaproveitados, que devemos prosseguir e progredir no Município Neutro [depois Distrito Federal, depois Estado da Guanabara].

Para justificar esse acerto basta nomearmos as fazendas do Vigário Geral, Cordovil, Brás de Pina, Frutuoso e muitas outras em Irajá, decaídas há muito da grande lavoura e hoje alevantadas pela pequena, por essa gente que tem vindo em busca do pão por meio do trabalho honesto e inteligente, sem nos custar um só real o seu transporte a esta terra!

Braz de Pinna (seta) em mapa da década de 1870. Observe as ilhas que depois se juntaram para formar o Fundão e os portos que faziam a ligação aquática com a cidade.

Nessa mesma época a imprensa já registra a ação de “desordeiros, vagabundos e ratoneiros” pela “estrada do Braz de Pina” carecendo de “severa punição”, como mostra esta nota da Gazeta de Notícias de 13 de maio de 1885:


Em 1928 a Companhia Immobiliaria KOSMOS, fundada e dirigida por Oscar Sant’Anna, lançou grandes loteamentos que resultariam na urbanização de áreas que então constituíam arrabaldes (fora da zona urbana propriamente, ocupados por chácaras) como a Tijuca, ou Zona Rural. Entre esses loteamentos estavam a VILLA FLORENÇA (que deu origem ao bairro de Vila Cosmos), VILLA IGARATÁ (que deu origem ao bairro de Cosmos) e a VILLA GUANABARA, que originou o bairro de Brás de Pina). Aqui está um anúncio publicado em O Jornal em 16 de junho de 1928:


No domingo, 24 de novembro de 1929, foi inaugurada a Igreja de Santa Cecília (foto no alto da postagem) em terreno doado pela Companhia Kosmos, como informa o Diário Carioca de 21 de novembro [ortografia da época]:

No próximo domingo será inaugurada, festivamente, a matriz de Santa Cecília de Braz de Pinna.

O novo templo, que se ergue com as suas harmoniosas linhas architectonicas no pittoresco outeiro ao lado da estação de Braz de Pinna, dos suburbios da Leopoldina, foi construído pela Companhia Immobiliaria Kosmos, que o doou com amplo terreno á exma. Mitra Archiepiscopal do Rio de Janeiro.


Santa Cecília, padroeira da música e dos músicos

Altar da Igreja de Santa Cecília

Um dos quadros dos passos da Paixão, com legenda em francês: Jésus dépouillé de ses vêtements, Jesus despojado de suas vestes. Em e-mail ao editor deste blog, Alexei Bueno informa: "Se as legendas estão em francês, os vitrais vieram de lá, a França - com todo o laicismo e o anticlericalismo hidrófobo - tinha uma gigantesca indústria de objetos sacros - imagens, vitrais, etc. - desde meados do século XIX, e os exportava para todo o mundo católico. Muita imagem barroca nossa foi sordidamente trocada pelas francesas de gesso, feitas em linha de montagem! Já em relação às pinturas a coisa é mais estranha, o pintor também devia ser francês."

O jornal católico A Cruz, ao visitar o local da construção da igreja, assim descreveu a vista do alto do outeiro:

O local destinado a essa construcção offerece aos olhos um magnífico panorama. De lá se avistam a serra dos Órgãos, a ilha do Governador, o penhasco onde se ergue a igreja de Nossa Senhora da Penha, o píncaro do Corcovado, o   Cáes do Porto, etc.

O templo de Santa Cecília destacar-se-á, portanto, como mais uma joia artística embellezando a nossa cidade. [3/3/29]


Vista da lateral direita da igreja, em direção a Cordovil 

Vista dos fundos da igreja, na direção da Ilha do Governador 

Vista da frente da igreja para a parte alta de Brás de Pina

Essa igreja, com sua torre pontuda, é única no Rio em seu estilo de igrejinha de cidadezinha da Europa Central. Eis uma foto da igreja de Santa Cecília de Brás de Pina (esquerda) ao lado de outra dedicada à mesma santa da cidade alemã de Dauchingen (direita, foto obtida na Internet):


Em junho de 1930 a Companhia Kosmos convidou 70 representantes da imprensa para uma visita à Villa Guanabara. O jornal A Noite de 2/7 assim descreveu o loteamento:


Faça o leitor uma idéa do que é a Villa Guanabara idealisando um esplendido bairro saneado, com os seus serviços de luz e de esgotos, ruas admiravelmente projectadas, egreja, campo de tennis, canaes, avenidas e jardins, Accrescente a tudo isto as condições admiráveis do clima, que é ameno e suave, offerecendo por isso, aos que se installam na villa, elementos de tranquilidade e bem estar. E terá então uma impressão exacta do magnífico bairro que a audacia emprehendedora de Oscar Sant’Anna e mais alguns outros brasileiros decididos resolveram fundar nas terras claras e saudáveis de Braz de Pinna.


Planta do loteamento

Se você examinar o mapa do bairro observará que corresponde exatamente ao traçado da planta do loteamento original

A revista O Cruzeiro de 5 de junho de 1930 também menciona a  visita proporcionada à imprensa “á formosa Villa Jardim que, com o nome de Villa Guanabara, se levanta em Braz de Pinna”, descrevendo-a nestes termos:

É uma cidade moderna, obedecendo a todos os requisitos da hygiene, do conforto e da arte, com campo de sport, squares e avenidas arborisadas, e onde as edificações obedecem já uniformemente a uma concepção architectonica primorosa.

As fotos publicadas na revista confirmavam essa impressão. Aqui estão, com legendas da própria revista:


O ponto mais elevado da Vila Guanabara, onde foi servido um coquetel à imprensa

Aspecto da Rua IV

Entroncamento de três ruas na parte montanhosa da Vila Guanabara

Num de seus suplementos ilustrados de 1935 o jornal A Noite, em matéria intitulada "Um novo bairro cheio de encantos", descreveu a "villa" como
“o mais lindo suburbio da Leopoldina, servida por 60 trens diários, e a 27 minutos do centro. [...]



Já dispõe de todos os recursos e o seu progresso é incessante, estando sendo asphaltadas as suas ruas, providas de galerias pluviaes, arborisação, canalização d'água, luz, telephone, etc.

Há na Villa oito parques de eucalyptos, que lhe purificam o ar, evitam os insectos e a embellezam singularmente.

Essa originalidade é exclusiva da VILLA GUANABARA e não se vê em nenhum outro bairro do Rio de Janeiro.

Vamos ver agora o que o editor do blog, adepto da "arte de flanar", encontrou em andanças recentes pelo bairro:


O casarão normando perto da estação hoje, dilapidado.

"Uma das lindas residências da Vila Guanabara." Casarão normando em foto de A Noite Ilustrada de 1935

Escritório da Companhia Kosmos em foto publicada na revista Vida Doméstica em agosto de 1930

Estado atual do antigo escritório

Curiosidade: prédio em Santa Teresa com desenho semelhante ao da sede da Kosmos, deve ter sido projetado pelo mesmo arquiteto!

Igrejinha de Santa Cecília vista (com auxílio do zoom) do alto da escadaria da Rua Orica

Igrejinha da Penha vista (com auxílio do zoom) do alto da escadaria da Rua Orica

Casas verdes
Coqueiro em tranquila rua de subúrbio (Rua Guacira)

Contraste: o prédio e as casas

Casa em estilo Missões

Vista da Rua Orica com Favela do Quitungo atrás

Manhã de primavera ensolarada

A casinha na encosta e a favela atrás

Casinha antiga na Rua Orica

Vista da esquina da Rua Orica com Idume

Casas vistas do alto da Rua Jaboti

A pedra da Rua Jaboti