19.7.18

TRISTE FIM DE POLICARPO QUARESMA (LIMA BARRETO): UMA RESENHA



Se vocês entrarem no verbete da Wikipedia do Triste Fim de Policarpo Quaresma vão ler: O major Policarpo é um anti-herói quixotesco, imbuído de nobres ideais, alguns beirando ao tresloucado (tanto é que passa uma temporada no hospício). Bom coração, idealista, patriota, por causa de suas qualidades acaba sendo castigado e sempre se dá mal. Uma obra clássica da literatura brasileira que ajuda a explicar por que somos como somos. Esta é a minha opinião. Fui eu quem inseriu esse parágrafo lá na Wikipedia.

O livro se divide em três partes, mas na verdade são quatro: a primeira apresenta nosso anti-herói e os demais personagens e culmina com a proposta tresloucada de Policarpo de transformar o tupi-guarani em língua oficial do Brasil. A segunda é o período que Policarpo passa internado no hospício de alienados D. Pedro II, a caminho da Urca, onde hoje fica o Palácio Universitário e outras instalações da UFRJ, em frente ao Iate Clube, antiga Praia da Saudade. A terceira é quando ele resolve virar agricultor no sítio do Sossego, na serra. E a quarta é sua participação, também tresloucada, na Revolta da Armada, que foi uma revolta de marinheiros talvez ainda mais violenta que a guerra do tráfico atual, com bombardeios, balas perdidas, um horror. Tem um conto do Machado de Assis, Pílades e Orestes, onde o personagem morre vítima de uma bala perdida da Revolta.

A Revolta da Armada em foto de 1893 de Juan Gutierrez

Nosso triste anti-herói tem sempre as melhores das intenções mas nunca é compreendido e se mete em trapalhadas. É como o Dom Quixote de Cervantes. Por isso eu disse que ele é um anti-herói quixotesco

Na primeira parte Policarpo envia um requerimento à Câmara propondo que o tupi-guarani torne-se a língua oficial do Brasil. “O tupi – diz o requerimento – língua originalíssima [...] é a única capaz de traduzir as nossas belezas, de pôr-nos em relação com a nossa natureza e adaptar-se perfeitamente aos nossos órgãos vocais e cerebrais, por ser criação de povos que aqui viveram e ainda vivem”. A ideia não é tão porra-louca quanto parece. O tupi-guarani é a nossa língua original, nos primórdios da colonização chegou a ser a língua franca do Brasil, e outros países preservam, ao lado da língua do colonizador, as suas línguas originais, por exemplo em Angola o quimbundo, quicongo e umbundo, e na Irlanda o gaélico. ...

Depois Policarpo se mete na agricultura. Ele não entende como no Brasil, um país tão rico em terras, todo mundo quer ter um emprego público em vez de cultivar a terra. Vou citar um trecho: “Como era tão simples viver na nossa terra! Quatro contos de réis por ano, tirado da terra, facilmente, docemente, alegremente! Oh! terra abençoada! Como é que toda a gente queria ser empregado público, apodrecer numa banca, sofrer na sua independência e no seu orgulho? Como é que se preferia viver em casas apertadas, sem ar, sem luz, respirar um ambiente epidêmico, sustentar-se de maus alimentos, quando se podia tão facilmente obter uma vida feliz, farta, livre, alegre e saudável?” Num passeio pela região Policarpo, que imaginava que os nossos camponeses fossem felizes, saudáveis e alegres, se impressiona com a “miséria geral, a falta de cultivo, a pobreza das casas, o ar triste, abatido da gente pobre”. Mas aí, como sempre acontece com Policarpo, apesar de suas melhores intenções, tudo acaba saindo errado: ele enfrenta a praga das saúvas, dos políticos locais, da burocracia que até hoje tolhe os brasileiros que queiram empreender. “Aquela rede de leis, de posturas, de códigos e de preceitos, nas mãos desses regulotes, de tais caciques, se transformava em potro, em polé, em instrumento de suplícios para torturar os inimigos, oprimir as populações, crestar-lhe a iniciativa e a independência, abatendo-as e desmoralizando-as.” Olha que livro genial, mostra cem anos atrás um Brasil que perdura até hoje. Quem quer abrir um negócio neste país conhece as dificuldades, a burocracia, os fiscais querendo propinas, tudo isto que impede que a nossa economia deslanche.

Na última parte Policarpo se apresenta como voluntário ao marechal Floriano para lutar do lado dele na Revolta. Idealista, entrega ao marechal um relatório com sugestões para melhorar a nossa agricultura mas Floriano não está nem aí, acho que o relatório acaba virando papel de rascunho (se não me falha a memória).

A certa altura o autor fala sobre as balas perdidas: “Se uma bala zunia no alto céu azul, luminoso, as moças davam gritinhos de gata, corriam para dentro das lojas, esperavam um pouco e logo voltavam sorridentes, o sangue a subir às faces pouco e pouco, depois da palidez do medo.”


Lima Barreto é o escritor dos subúrbios, dos tipos suburbanos. Tem uma passagem bonita onde ele descreve os subúrbios cariocas, vou transcrever só o comecinho:

“Os subúrbios do Rio de Janeiro são a mais curiosa cousa em matéria de edificação de cidade. A topografia do local, caprichosamente montuosa, influiu decerto para tal aspecto, mais influíram, porém, os azares das construções. Nada mais irregular, mais caprichoso, mais sem plano qualquer, pode ser imaginado. As casas surgiam como se fossem semeadas ao vento e, conforme as casas, as ruas se fizeram. Há algumas delas que começam largas como boulevards e acabam estreitas que nem vielas; dão voltas, circuitos inúteis e parecem fugir ao alinhamento reto com um ódio tenaz e sagrado. Às vezes se sucedem na mesma direção com uma freqüência irritante, outras se afastam, e deixam de permeio um longo intervalo coeso e fechado de casas. Num trecho, há casas amontoadas umas sobre outras numa angústia de espaço desoladora, logo adiante um vasto campo abre ao nosso olhar uma ampla perspectiva.”

Tudo que eu disse nesta postagem (e um pouco mais) está no vídeo a seguir. Assistam. Se gostarem, inscrevam-se no meu canal do YouTube (aqui) e vejam também meus outros vídeos sobre clássicos da literatura! 

15.7.18

ORIGENS DO SAMBA

PESQUISA E TEXTO DE IVO KORYTOWSKI. JORNAIS E PERIÓDICOS ANTIGOS CONSULTADOS NA HEMEROTECA DIGITAL


Quem não gosta de samba bom sujeito não é (Dorival Caymmi)


Segundo o Dicionário do folclore brasileiro de Camara Cascudo, a palavra “samba” provém de semba, umbigada em Angola. Originalmente significava um “baile popular urbano e rural” (=pagode, arrasta-pé, forrobodó) ou “dança de roda” (=batuque), antes de adquirir a acepção de um gênero musical urbano. O primeiro registro escrito da palavra, segundo o folclorista, teria ocorrido no periódico recifense O Carapuceiro no 6 de 3 de fevereiro de 1838, que “esbraveja indignado contra o samba d’almocreves [condutores de bestas de carga]”.

Na verdade, o periódico não esbraveja contra o samba, mas o contrapõe às óperas de Rossini, assim como contrapõe uma garatuja de bules e bandejas chineses às pinturas de Rafael, Rubens e Corregio, e os acepipes africanos (bobó, vatapá, acarajé, caruru) às delícias de uma mesa italiana, sustentando que, ao contrário do dito popular de que “gosto não se discute”, existe, sim, o bom e o mau gosto – o “samba de almocreves”, as garatujas chinesas e os acepipes africanos sendo exemplos de “mau gosto”.

Na edição de 26 de dezembro do mesmo ano (no 72), matéria intitulada “Os Fumistas”, que exalta as virtudes do tabaco fumado e em forma de rapé – “se o tabaco é mui útil a todas as hierarquias, e profissões, para um periodiqueiro [=periodicista, profissional que escreve em periódicos] pode-se dizer que é condição sine qua non. Quem há de acudir a um apoquentado jornalista em muitas ocasiões de aperto, se não a sua inseparável amiga, a boceta de tabaco?” – refere-se ao “laborioso matuto” que, depois que lhe furtam o cavalinho, ao chafurdar “as ventas em duas ou três pitadas” de rapé, “esquece-se do cavalo, resigna-se com a sua sorte, e com uma viola nas unhas zangarreia o samba por uma noite inteira”.

Até agora a data fixada por Camara Cascudo costumava ser considerada como a do primeiro registro escrito da palavra samba. Em seu Almanaque do Samba, André Diniz confirma essa crença: “A primeira menção ao termo samba conhecida foi feita em 3 de fevereiro de 1838 no jornal satírico pernambucano O Carapuceiro.” Mas empregando o mecanismo de pesquisa da Hemeroteca Digital Brasileira, consegui localizar menções à palavra anteriores a 1838.

Por exemplo, o Diário de Pernambuco de 4 de agosto de 1830 (p. 2), em matéria sobre a indisciplina de certos corpos de soldados da capital da província, afirma que de nada adianta enviar, como castigo, esses soldados para guarnições no interior, pois lá, na falta de um serviço ativo, descambarão na ociosidade, entretendo-se (vou manter a ortografia da época) “nas pescarias de curraes [currais, ou seja, armadilhas de apanhar peixe], e trepaçoens [trepações] de coqueiros, em cujos passatempos será recebida com agrado a viola, e o samba; e aos peraltas, cada vez os fará mais dezenvolvidos na conjugação do verbo surripio [surrupio, ato de surrupiar]”.

Esse mesmo jornal em diversas edições de 1834, ao relatar incursões contra os insurgentes da Cabanada, refere-se a uma localidade chamada Samba, também Engenho do Samba e Ponto do Samba. O Diário do Governo do Ceará de 1832 (p. 360) menciona igualmente um Engenho Samba. Idem o Correio Oficial do Rio de Janeiro de 1833 (p. 363) e 1834 (p. 67): Engenho Samba do distrito das Alagoas, de propriedade de José Theodoro Pereira.

A Nova Sentinela da Liberdade baiana de 23 de outubro de 1831, alude aos “marotos solteiros sem tamba [bebida indígena fermentada] nem samba; porque esta é a gente do Comércio”.

Na edição de 5 de janeiro de 1856 do Diário do Rio de Janeiro (p.2), na seção de notícias da Província do Ceará, vemos uma menção a um samba (folia) associado a desordem, associação essa que se tornaria comuníssima no noticiário da imprensa na virada do século XIX ao século XX:


No ano seguinte, em 21 de maio (p.2), nas notícias da Bahia, esse mesmo Diário do Rio de Janeiro menciona um espetáculo teatral com “crioulas” dançando o samba:


A coluna “Carteira do Repórter”, assinada por Zé Mimoso, do Correio Paraense de 28 de setembro de 1893 narra uma cena tragicômica num samba cheio de “embigadas” [umbigadas].



A primeira descrição de um "samba" na literatura brasileira acredito que tenha sido na obra clássica do naturalismo brasileiro A carne de Júlio Ribeiro, de 1888 (se alguém tem conhecimento de uma descrição literária anterior por favor me informe). A cena descreve uma dança dos escravos, em torno de uma fogueira, no terreiro em frente às senzalas, após um dia de trabalho, ao som de dois atabaques e vários adufes:

Os que não dançavam, que não tomavam parte no samba, grupavam-se aos magotes, acotovelando-se; olhavam em silêncio, enlevados, absortos.

Do solo batido pelo tripudiar de tanta gente erguia-se uma nuvem de pó, avermelhada pelo clarão da fogueira.

A garrafa de aguardente andava de mão em mão: não havia copos; bebiam pelo gargalo.

Ao cheiro de terra pisada, de cachaça, de sarro de pito, sobrelevava dominante um cheiro humano áspero, aliáceo, um odor almiscarado forte, uma catinga africana, indefinível, que doía ao olfato, que cortava os nervos, que entontecia o cérebro, sufocante, insuportável.
[...]

A rapariga dormia, dormia profundamente, respirando alto, em estertores.

Fora, o samba continuava; ouvia-se tutucar dos atabaques, e o estrupido surdo dos pés; sonoro, melancólico, plangente, repercutiu o estribilho:

Eh! Pomba! eh!

Em 1890 Alexandre Levy compõe uma peça orquestral intitulada Suíte Brasileira cujo terceiro movimento, inspirado na cena do samba de A Carne, intitulou-se Samba.

Em folhetins publicados na imprensa na passagem do século XIX para o XX, várias são as menções a sambas. Por exemplo, no conto “O Francellino” de Mario Negreiros, publicado na edição de julho de 1898 da “revista mensal de lettras, artes e sciencias” Genesis, encontramos este trecho:



Nas notícias dos jornais dessa mesma época o samba costuma estar associado a arruaças, bebedeiras, ocorrências policiais. Vejamos alguns exemplos:

Cidade do Rio, 14 de novembro de 1900:


Gazeta da Tarde, 30 de janeiro de 1896:


Gazeta da Tarde, 11 de novembro de 1901


Costuma-se mencionar uma suposta “repressão” ao samba no início do século XX. A minha impressão, ao ler esses jornais, é que não se reprimiu o samba em si, o ritmo, mas as rodas de samba, devido ao alarido, à arruaça (o pessoal ficava bêbado), não por causa da música em si. Imagine numa época sem carros, sem sirenes de ambulância, sem rádios, sem aparelhos de som, sem aviões sobrevoando, o silêncio sepulcral das noites ser quebrado por uma roda de samba. Aquilo incomodava os vizinhos, que chamavam a polícia. Meu amigo Alexei Bueno, a quem consultei, confirma essa minha impressão: “O problema era exatamente esse, arruaça, barulho, bebedeira, numa época onde se dormia muito cedo, pois nem rádio havia, e grande parte da população nem um romance podia ler, pois era analfabeta.” 

O samba como gênero musical nasceu em meio à população negra carioca (em grande parte, ex-escravos) da Zona Portuária (Pedra do Sal, etc.) e Cidade Nova (Praça XI, etc.) nas primeiras décadas do século XX. Em 1917 gravou-se o primeiro samba (samba-maxixe, mais propriamente), Pelo Telefone, registrado por Donga. Para quem o acusou de ter se apropriado de uma obra de criação coletiva, Donga teria replicado: Samba é que nem passarinho, é de quem pegar primeiro. E o resto da história você já conhece.

8.7.18

A TRAGÉDIA DA COPA DE 1950, de EDMÍLSON CAMINHA

Crônica originalmente intitulada "O Naufrágio do Titanic" publicada no livro Inventário de crônicas (Brasília : Thesaurus, 1997

Maracanã em cerca de 1967, foto de Marcel Gautherot obtida no site do Instituto Moreira Salles

O Brasil já viveu uma tragédia. Não me refiro à guerra do Paraguai, à revolta de Canudos, ao golpe de 64. Falo de uma com tempo marcado para acontecer: 16 de julho de 1950. Um dia, apenas; hora e meia, para falar a verdade. Não derramou sangue, mas feriu lá dentro – dói ainda hoje.

Foi somente uma partida de futebol, dirão alguns. Não, não, foi muito mais do que isso: foi o malogro de um sonho, o desmentido da esperança, a frustração da alegria, a negação de um presente que começávamos a viver. Seríamos campeões do mundo, venceríamos povos com mil anos de história, mais importantes do que nós, mais fortes do que nós, mais bonitos do que nós, derrotando-os no gramado, sujeitando-os ao talento, ao brilho e à improvisação do homem brasileiro. Sobrevivêramos à ditadura e aos transtornos da guerra: em meio aos escombros da velha ordem, anunciava-se o Brasil como a promessa de um grande país, uma nação vitoriosa a caminho da riqueza e da felicidade. Ninguém se dava conta disso, mas era esse o sentimento das 200 mil pessoas que superlotavam o Maracanã para assistir a Brasil x Uruguai. Pôr as mãos na Taça Jules Rimet já seria um bom começo.

Aquele era o dia dos 27 anos de meu pai. E lá estava ele, perdido na multidão que desde o meio-dia correra para o estádio. O clima era de festa, de exultação, de delírio popular. Sequer se cogitava de que o Brasil pudesse perder: na disputa entre os finalistas, arrasáramos a Suécia por 7 x 1 e destruíramos a Espanha por 6 x 1, enquanto o Uruguai não fora além dos 2 x 2 frente aos espanhóis e de apertados 3 x 2 contra os suecos. Com a vantagem de um ponto, ganharíamos a Copa ainda que empatássemos; cabia-nos, portanto, confirmar o triunfo a que nos condenara o destino. Sabia-se de cor a escalação dos brasileiros, recitada como um credo: Barbosa, Augusto e Juvenal; Bauer, Danilo e Bigode; Friaça, Zizinho, Ademir, Jair e Chico. Achava-se até quem dissesse a formação dos uruguaios: Máspoli, Matías González e Tejera; Gambetta, Obdulio Varela e Rodriguez Andrade; Ghiggia, Julio Pérez, Miguez, Schiaffino e Morán. O árbitro seria George Reader – um inglês, por coincidência, testemunha da cerimônia em que o “nobre esporte bretão” se naturalizaria brasileiro.

O resultado, no entanto, começara a definir-se antes da luta. Ninguém duvidava de que éramos os melhores do mundo: aos campeões prometiam-se casas, carros, empregos públicos e até vitória nas eleições; ganhariam fortunas transformando-se em nome de cervejas, cigarros, refrigerantes e outros lançamentos; na véspera da partida, assinaram mais de duas mil fotos em que se lia "Brasil, campeão do mundo". Havia, porém, que dar muito mais por tanta glória: concentrada no Joá, a seleção foi transferida para São Januário, onde se abriram as portas para uma verdadeira romaria de visitantes, desde candidatos à presidência da república até colecionadores de autógrafos. No sábado, a maioria dos jogadores só conseguiu dormir às onze da noite, após dezenas de homenagens e solicitações. Às sete da manhã estavam de pé, para assistir a missa em ação de graças pela inauguração de uma rádio. Dali a pouco iriam correr 90 minutos, mas tiveram de empurrar o ônibus enguiçado em que chegariam ao Maracanã. Apesar de tudo, entraram em campo como vencedores, cabendo aos uruguaios exercer com timidez e humildade o papel que lhes coubera na consagração do protagonista.

Assim começou o jogo, às duas e cinquenta e cinco daquela tarde de angústia e emoção. O primeiro tempo ficou em 0 x 0, mas nos mostramos bem melhores: chutamos 17 vezes a gol, os uruguaios apenas 6. Obdulio Varela, "El Gran Capitán", não admitia perder, e por isso gritava, reclamava, pressionava, na tentativa de compensar a diferença. Aos 27 minutos, aproxima-se de Bigode e dá-lhe não se sabe exatamente o quê – um tapa no rosto, como viram muitos, ou um tapinha no pescoço, como querem alguns. De qualquer forma, sua arrogância teria amedrontado os brasileiros, que não conseguiriam manter a superioridade com que dominavam a partida.

Apesar de tudo, voltamos para o segundo tempo cheios de confiança. Mal a bola começou a rolar, Zizinho passou para Ademir e Ademir deu na medida para Friaça, que disparou uma bomba no canto direito de Máspoli. GOOOOL! GOOOOL DO BRASIL! O Maracanã quase vem abaixo numa explosão de alegria que dura três minutos: até que enfim! Aquele era somente o primeiro! Seríamos campeões em grande estilo, enchendo a rede do Uruguai! Vinte minutos depois, acontece o que todos temiam: Obdulio passa para Ghiggia, Ghiggia escapa de Bigode e lança para Schiaffino: gol do Uruguai. Continuávamos campeões, o empate nos favorecia, mas um grande silêncio, um medo profundo cobriu o Maracanã, como se pressentíssemos o desastre. Se a comemoração se fizera antes do tempo, também nos apressávamos em consentir o revés, aceitar o castigo – era a copa da precipitação.

Os uruguaios devem ter dito é agora ou nunca, e com 13 minutos aconteceu mais do que o improvável, o impossível: Ghiggia tabelou com Julio Pérez e disparou pela direita perseguido por Bigode; Juvenal corria para interceptá-lo e Schiaffino chegava pelo meio esperando o passe; quase sem condições de tentar direto, o ponta recuaria para o companheiro, acreditou Barbosa, que não fechou o ângulo; Ghiggia enxergou o buraco e chutou meio sem jeito; a bola correu fraca, entrando pelo espaço mínimo entre o goleiro e o poste: gol do Uruguai. Barbosa deixou-se ficar batido no chão, e Bigode em desespero levou a mão à cabeça. Se os uruguaios já tinham marcado um, aquele era o segundo, o que significava dizer que eles estavam ganhando, a pouco mais de dez minutos do final da partida – pensavam os brasileiros, num grande esforço de raciocínio. O que restava de tempo foi um desespero, os jogadores lutando, o público gritando, até que Mr. Reader apitou. Por incrível que pudesse parecer, terminara o jogo. E não éramos nós os vencedores. Não éramos nós os campeões.

A torcida não arredou pé do estádio, meio tonta, esperou meia hora para começar a sair. O Maracanã, o "Gigante do Derby", templo do futebol, altar onde nos sagraríamos, era um majestoso barco à deriva, o Titanic sem rumo depois de trombar com um iceberg. Diziam que o colosso inglês jamais afundaria, e lá estava ele, fazendo água, mergulhando a proa rumo às profundezas do oceano. Como pôde acontecer?, perguntava-se nas ruas, nas biroscas, nos salões de sinuca, nos cabarés, onde quer que se encontrasse um brasileiro. Era como se o velocista campeão disparasse na reta de chegada e torcesse o pé, arrebentando-se no asfalto; como se no último round o boxeador invencível recebesse um cruzado no queixo e desse com a cara na lona; como se o maior nadador do mundo cruzasse a Baía de Guanabara para morrer a cem metros da praia. Como se a seleção brasileira precisasse de um empate para ganhar a Copa e perdesse de 2 x 1 para o Uruguai.

Em 90 minutos, passáramos da euforia à depressão, subíramos aos céus e descêramos ao mais escuro dos infernos, a glória inteira que podia ter sido e que não foi. Juvenal passou 14 dias sem sair de casa; Bauer voltou para São Paulo escondido em um trem; Friaça perdeu a memória e não sabe como foi parar em Teresópolis – voltou a si dois dias depois, cinco quilos mais magro; e Zizinho, por muito tempo, garantia que se comunicava telepaticamente com Obdulio Varela. Na concentração, Barbosa assinara um manifesto em favor da paz que depois se descobriria procedente do PCB, o Partido Comunista Brasileiro; como não fora campeão, o goleiro teve de ir ao Dops para declarar se conhecia Marx e Lênin e se gostava deles. Nem o capitão uruguaio suportou o peso daquele domingo: de volta ao hotel, pôs algum dinheiro no bolso e saiu sozinho pela noite, comandante vitorioso a passear por entre os escombros dos vencidos. Entrou num bar, pediu uma caipirinha e logo foi reconhecido por brasileiros que se embriagavam; pensou que seria agredido mas o que veio foi o convite para que aceitasse um copo. Faz algum tempo, declarou que se pudesse voltar atrás marcaria um gol contra, só para não se sentir responsável pela tristeza desse grande povo. Em vez de jogador excelente, nota-se que Obdulio Varela poderia ter sido um escritor de sucesso, tal o jeito que possui para a criação literária. Pudesse reviver aquela partida, faria quantos gols estivessem ao alcance dos seus pés, pois no esporte o que conta é vencer – se possível honestamente. Essa história de que basta competir é conversa daquele barão que provavelmente nunca chutou uma bola na vida.

Muitos esqueceram, deixaram cicatrizar a ferida. Em outros, porém, a lembrança continua, como se uma perna amputada pudesse doer para sempre. São Os Órfãos de 50, Os Deserdados de Ghiggia, que escreveram sobre o jogo para libertar-se dele. Paulo Perdigão dedicou-lhe um livro inteiro, Anatomia de uma derrota. Mário Filho, Nélson Rodrigues, Antônio Maria, Edilberto Coutinho, Armando Nogueira e Luís Fernando Veríssimo publicaram crônicas. Geneton Moraes Neto reuniu, em 200 páginas, o depoimento dos onze jogadores e do técnico Flávio Costa. Ana Luíza Azevedo e Jorge Furtado fizeram o curta Barbosa, levando para o cinema o conto "O dia em que o Brasil perdeu a Copa", de Paulo Perdigão. Na história, o protagonista – na verdade, o próprio autor – aciona a máquina do tempo de H. G. Wells para voltar ao Maracanã naquele dia fatal, em que, menino de onze anos, assistira ao drama que o atormentava como culpa. Quando Julio Pérez lançasse para Ghiggia, avisaria ao goleiro que o uruguaio chutaria no canto. Aos 33 minutos do segundo tempo, lá está ele, atrás do gol à direita das cabines de rádio: Ghiggia corre, aproxima-se da pequena área, Barbosa ouve um grito e... Como se costuma dizer nestas ocasiões, leia o conto e veja o filme.

Em 1992, fui a Montevidéu. Andando pela Dezoito de Julho, imaginei o carnaval naquela noite de domingo, o povo nas ruas, o mar de bandeiras transbordando a avenida, o pequeno Uruguai maior do que o Brasil, melhor do que a Europa, o primeiro do mundo. No hotel, perguntei por Ghiggia: soube que trabalhava em um cassino, fora da cidade, raramente aparece. Queria conhecê-lo, olhar para o homem que fizera um país inteiro chorar. "Por que vocês falam tanto nessa copa? O Brasil já ganhou três campeonatos, joga muito mais do que nós, tem o melhor futebol do mundo!", ouvi de um dirigente esportivo com quem conversei. "Fizemos dois gols por sorte: se tivéssemos de disputar outra partida, jamais ganharíamos. Esqueçam aquele dia!"

Não dá. Em 16 de julho de 1950, perdemos um jogo que não podíamos perder, que não soubemos ganhar. Nas arquibancadas do Maracanã, 200 mil brasileiros sentiram o sol escurecer, a terra cair, o coração parar, a morte em vida. Todos estávamos lá, mesmo os que nascemos depois.


6.7.18

CASA DE ROBERTO MARINHO no COSME VELHO


Roberto Marinho não era como esses milionários cujas casas são absolutamente indevassáveis. Quem passava diante do seu portão na Rua Cosme Velho via uma nesga da casa rosa, como mostra a foto abaixo tirada em 2013, mas jamais imaginava que um dia poderia adentrar aquele casarão que, pela extensão do muro, via-se que ocupava vasto terreno. Pois este ano seus filhos tomaram a louvável iniciativa de transformar a casa em centro cultural, permitindo que qualquer um a visite e contemple os quadros que Roberto Marinho colecionou durante sua vida. 

Contam seus filhos: “Movido pelo amor à arte e pela crença no talento dos artistas brasileiros, costumava adquirir obras diretamente dos pintores e escultores que considerava promissores, ou, como dizia, porque gostava do trabalho, pela emoção que lhe provocava. Frequentava bienais e salões, galerias e ateliês, mas também adquiria quadros e esculturas para ajudar um artista em dificuldades.”

A casa vista da rua em 2013

A casa de 1938 inspirou-se na casa grande do engenho Megaípe, daí suas linhas levemente coloniais, mas sem a estilização do neocolonial em voga na época.

Casa grande do engenho Megaípe, por Percy Lau

Casa do Roberto Marinho

Matéria de O Globo por Nani Rubin de 19/4/2018 informa: “A instituição cultural nasce no lugar que por décadas serviu de residência ao jornalista, e tem como objetivo ser um centro de exibição e pesquisa da arte moderna brasileira, foco da coleção adquirida ao longo de sete décadas.

A casa limítrofe à Floresta da Tijuca foi palco de festas memoráveis, que juntavam empresários, artistas e intelectuais. Ali, Dorival Caymmi e Amália Rodrigues cantaram, e Tônia Carrero e Paulo Autran encenaram peça do Teatro Brasileiro de Comédia. Após a morte de seu proprietário, em 2003, e a da viúva, Lily Marinho, em 2011, o local ficou desocupado.

Desde então, os três filhos do jornalista (com Stella Marinho, a primeira mulher) vinham pensando em como transformá-la em uma casa viva, mas que não passasse pelo culto à personalidade do pai, nem que fosse uma casa-museu, como conta Lauro Cavalcanti, diretor do espaço.”




A casa, na Rua Cosme Velho, 1105, pode ser visitada de terça a domingo, das 12 às 18 horas, com entrada até 17h15. O ingresso custa 10 reais (com meia para estudantes e os mais velhos como eu), mas nas quartas-feiras a entrada é gratuita. Para os andarilhos, do Largo do Machado até lá são 3,2 quilômetros. Tranquilo. Mas você pode saltar do metrô no Largo do Machado e pegar o ônibus integrado para o Cosme Velho.

Modernos 10: Mostra inaugural da Casa Roberto Marinho reunindo dez expoentes do modernismo brasileiro nos anos 1930 e 1940


Tarsila do Amaral, Paisagem II, 1963

Milton Dacosta, Roda, 1942

Djanira

Alberto da Veiga Guignard, Sem Título, 1927-31 





A TAÇA DO MUNDO É NOSSA, de IVO KORYTOWSKI


Não sou nenhum Pelé ou Ronaldinho, mas as Copas do Mundo fizeram parte também de minha vida.

Por exemplo — acredite se quiser — estive na fatídica final da Copa de 1950, aqui no Maracanã. É bem verdade que, oficialmente, eu sequer havia nascido (nem se trata de regressão a vida passada), mas minha mãe já carregava a sementinha no ventre quando foram, ela e meu pai, assistir à partida. A vitória brasileira, tão certa como o fato de que no dia seguinte o sol se levantaria. Mas o sol não se levantou! Quantas vezes ouvi meu pai narrando o silêncio, a desolação de enterro que se abateu sobre aqueles quase 200 mil espectadores: todos saíram do estádio cabisbaixos, depressão coletiva, ninguém ousando puxar conversa com ninguém. Meu pai me contou.

Da Copa de 58 guardo vagas lembranças: todos ao pé do rádio, vibrando, brado de guerra, “aleguá” (se vocês consultarem o termo no Aulete Digital vão ver que a abonação foi retirada do meu livro Marcos, o Iluminado). E a canção:

A Taça do Mundo é nossa,
Com brasileiro não há quem possa!

Na Copa de 62 o rei se contundiu logo nos primeiros jogos e a estrela foi “Seu Mané”: assim os locutores esportivos se referiam a Mané Garrincha, a Alegria do Povo. Alegria de pobre dura pouco.

Quatro anos depois (1966), só um cético empedernido duvidaria de que traríamos o tri. O dia em que Brasil perdeu de Portugal, ainda na primeira fase, de grupos, viu-me em São Paulo, em visita à vovó. Aliás, o apartamento de minha avó, na Avenida Angélica, dava para o Pacaembu: a gente conseguia ver os jogos. Pois foi da janela do apartamento de vovó que, certa feita, vi (com auxílio do binóculo de corridas de cavalo do vovô) Pelé jogando pelo Santos. Teria sido contra o Vasco?

A Taça do Mundo é nossa,
Com brasileiro não há quem possa!

1970. Ditadura militar. Noventa milhões em ação, pra frente Brasil, salve a seleção! Saldanha quis barrar Pelé da Seleção: acabou barrado do cargo de técnico (ao resistir à pressão de Médici pela convocação de Dario). A seleção ia mal das pernas, só mesmo um otimista empedernido acreditava na possibilidade do tri. Foi a primeira Copa televisionada: a imaginação, que antes transformara a descrição radiofônica em imagens do jogo, agora transformaria o preto-e-branco em vistosas cores. A turma se reunia no Castelinho (bar na Vieira Souto em forma de castelo medieval, já demolido), que instalou uma televisão do lado de fora — acho que foi pioneiro nesse hábito hoje generalizado de instalar televisões em locais públicos. Ganhamos o tri!

A Taça do Mundo é nossa,
Com brasileiro não há quem possa!

Levamos longos 24 anos pra repetir a proeza. E muita água rolou sob a ponte: o Brasil se redemocratizou e a Copa de 94 me viu casado, pai de um encantador menino, bem-sucedido tradutor. Meu grande sonho ainda irrealizado: o sucesso como escritor. Sozinho: filho e esposa passavam as férias em Minas. Meio de porre. O tri de 1970 veio à lembrança: folheei antigos diários em busca de alguma referência à velha Copa. Encontrei umas filosofias de botequim que escrevinhei naquela ocasião, embalado pela euforia geral. Euforia que agora se repetia.

A Taça do Mundo é nossa,
Com brasileiro não há quem possa!

E eis que o pentacampeonato, na Copa de 2002, me viu descasado, escritor enfim. Da Copa de 2002 lembro ainda que foi disputada do outro lado do mundo, as partidas travadas de madrugada pelo horário daqui, deu pra ver quase nada.  

Desencalhei, voltei a casar. Copa de 2006  na Alemanha curti a dois (a Alemanha foi a terra pela qual meus dois avôs, materno e paterno, arriscaram a vida na Grande Guerra para depois serem escorraçados por serem judeus). A Copa de 2010 do outro lado do oceano foi bem animada por aqui, a gente se identificou com os irmãos africanos... Vuvuzela, jabulani...

Em 2014, quando enfim a Copa voltou às nossas plagas e tivemos a chance de nos exibirmos ao mundo e alavancarmos nossa indústria do turismo, nosso velho complexo de vira-lata e uma Santa Aliança de black blocs fascistas, ultraesquerda, políticos de passado suspeito, sindicalistas radicais, movimentos sociais de sem-isto-e-sem-aquilo afagados pelo desgastado PT e os ranzinzas-chatos-de-galocha-mal-humorados-cricris de sempre... essa Santa Aliança, dizia eu, tentou gorar tudo, pôr água no nosso chope, com a campanha do NÃO VAI TER COPA (só no Brasil uma campanha ridícula dessas, coisa de esquerda subdesenvolvida!). Mas quando a bola começou a rolar, a verdadeira natureza lúdica e alegre e descontraída do brasileiro veio à tona, e vibramos, vibramos... até o fatídico 7 a 1! Esconjura!

A Copa do Mundo de 2018 até agora vem sendo a Copa dos azarões, das surpresas! A nossa seleção tem tudo para acrescentar a sexta estrelinha à camisa da gloriosa seleção! Haja coração! E que possamos mais uma vez entoar:

A Taça do Mundo é nossa,
Com brasileiro não há quem possa!

Se é que alguém ainda se lembra desta velha musiquinha! Aleguá!

PS. Não foi desta vez... Contra a Bélgica, desperdiçamos o primeiro tempo e quando fomos pra cima com nossa raça e superioridade, já não dava mais tempo. Deixamos pra última hora e nos ferramos. Os europeus investem, os europeus colhem. A semifinal virou um torneio europeu. Mas outras Copas virão... Ainda hei de registrar neste blog a nossa sexta estrelinha. Quem viver verá!

4.7.18

GOL SALVADOR, de CYRO DE MATTOS


Tinha a pele amarelada, os dentes miúdos, os olhos como dois pequenos caroços nas órbitas fundas. Talvez fosse apelidado de Quebradinho por causa das pernas. Como dois cambitos, tinham dificuldade em sustentar o corpo magro com aquela barriga grande, pesada. Quando andava, as pernas pareciam que podiam quebrar a qualquer instante, uma corrida, até mesmo pequena, era impossível para ele. Suas pernas mal aguentavam andar quanto mais correr. 

Ninguém queria que ele jogasse no time dos meninos lá da rua. Nem para ficar na banheira, na ponta-esquerda, nem para isso servia, era um inútil como jogador de futebol em qualquer posição. Insistia em querer jogar em um dos times formados pelos meninos lá da rua. Achava-se graça do seu pedido e da sua insistência. Não era aceito nem como juiz. 

Era filho adotivo de um abastado fazendeiro e comerciante próspero, com lojas de artigos para campo e cidade instaladas na avenida do comércio. Como o fazendeiro e comerciante não tinha filhos, ele recebia do pai adotivo um tratamento especial. Não lhe faltava dinheiro para guloseimas, comprar gibi e guri, comparecer quantos vezes quisesse para se divertir à vontade no parque ou em algum circo que havia chegado à cidade.

Disse um dia, vocês me pagam, ainda vou ser o dono de um time porreta, uniformizado com calção e camisa com numeração atrás nas costas. Esse time seria chamado de Expressinho do Vasco. Não demorou de cumprir o que apregoara. Apareceu no campinho da Praça Camacã, nas imediações do rio Cachoeira, anunciando que havia comprado o jogo de calção e camisa do Vasco da Gama e uma bola de couro novinha. Acrescentou que queria que o maior número de meninos bons de bola estivesse presente ao campinho da Praça Camacã no sábado quando iria escolher os onze jogadores e mais quatro reservas para compor o Expressinho do Vasco. 

No sábado, os jogadores escolhidos por ele para compor o elenco do Expressinho do Vasco da Gama ouviram assustados o que ele afirmara sério. Quebradinho comunicou que entraria para jogar as partidas como centroavante, aos 30 minutos do segundo tempo, estivesse ganhando ou perdendo o Expressinho do Vasco. Ninguém contestou. Afinal, ele era o dono da bola de couro e do jogo de calção e camisa do Vasco da Gama. E qual o menino que não queria jogar num time de futebol que usasse calção e camisa numerada nas costas, como se estivesse atuando num time verdadeiro de futebol? 

A partida contra o Bangu valeu taça, melhor dizendo, Taça Rio Cachoeira. O Expressinho do Vasco da Gama venceu o Bangu por um a zero, depois de uma partida acirrada até os quarenta e quatro minutos do segundo tempo. No último minuto o gol salvador. Gol de quem? De Quebradinho, a bola chutada da linha de fundo pelo ponta-direito Magrelo raspou na sua barriga e entrou. Foi a sua consagração. Quem poderia imaginar aquele gol incrível por um jogador que mal conseguia andar?

29.6.18

COPA DO MUNDO 1950, de CYRO DE MATTOS

Maracanã em cerca de 1967, foto de Marcel Gautherot obtida no site do Instituto Moreira Salles

Já vão longe aqueles idos. Tento tirar da memória alguns momentos daquele mundo que rolava com a infância na bola. Da fumaça do tempo procuro encontrar o menino que jogava pelada nos campinhos improvisados dos terrenos baldios, espalhados pela cidade pequena, com alguns bairros e poucas ruas calçadas. Às vezes o campinho era improvisado em algum fundo de quintal ou pastagem de uma roça perto do centro da cidade. O jogo era disputado debaixo de chuva ou sol escaldante.

Havia o Campinho do Fole no outro lado do rio. Ali eram jogadas aos domingos, pela manhã, as partidas mais importantes. O time de garotos da rua de cima contra o da rua de baixo. No vaivém do jogo não faltavam empurrões, bate-bocas, xingamentos e algumas brigas intensas. Terminando o jogo, o banho na correnteza de águas límpidas serenava os ânimos. Uma amizade feita de relações naturais logo se refazia com mergulhos e saltos a partir de barrancos íngremes.

O pai levava-me para ver os jogos dos times amadores da cidade no Campo da Desportiva. No início cercado com folhas de zinco, depois murado, o Campo da Desportiva era uma festa aos domingos. As folhas de zinco que cobriam a arquibancada zuniam forte quando as rajadas de vento penetravam entre suas frestas. Dava arrepios, parecia que algumas folhas de zinco na cobertura da arquibancada podiam se soltar a qualquer momento e causar danos entre os torcedores.

Lá, naquele campo de grama maltratada, o menino viu lances para não esquecer. Os dribles do meia-esquerda Macaquinho faziam os torcedores sorrir, a bola ficava grudada no seu pé, ninguém conseguia tomar dele. Delicado era um maestro, como sabia tocar a bola com sutileza para o companheiro. Carrapeta tinha uma visão de jogo que só o craque possui. Distribuía o jogo com a cabeça erguida, lançava a bola para o atacante fazer o gol, sem maior esforço. Mais adiante, na época da seleção amadora de ouro, conheci o centroavante Zé Reis, um artilheiro que se o marcador desse bobeira sabia marcar sua presença. Não era jogador técnico, mas longe de ser cabeça de bagre. Cumpria bem a sua missão de fazer gol. Jogou no Fluminense local, na seleção de Itabuna e no Leônico de Salvador, onde foi artilheiro do campeonato por várias temporadas.

E a pior derrota? Em 1950, Brasil contra Uruguai, final do campeonato mundial no Rio. O Brasil jogava pelo empate. Um gol fazia balançar o estádio com 200 mil pessoas. Foi de Friaça no início do segundo tempo, lenços acenavam para os valentes atletas uruguaios. “É campeão! É campeão!” Todos os brasileiros cantavam o grito de glória numa só corrente de vasto amor. Veio o gol de empate dos uruguaios, Schiafino o autor da proeza. Um calafrio penetrava ossos e nervos do Maracanã com a lotação máxima. O inexorável iria acontecer aos 34 minutos. O ponteiro Gighia chutava a bola e a grama. Ninguém acreditava no que se estava vendo, a bola entrando entre a trave e o goleiro Barbosa. Lenços já não acenavam. Aquela coisa que só infundia medo, estupidamente sem tamanho, percorria todo o estádio. Dominava o ar de milhões de brasileiro. Ninguém podia reverter o capricho dos deuses. Contava o locutor que, encerrado o jogo, a procissão de mortos saía do Maracanã, o país em chuteiras, que pensava e amava pelos pés naquele dia, em caos desencantava-se.

Na cidade pequena, eu via as ruas desertas, bares fechados, a praça em silêncio. O padre não rezou a missa das oito à noite. Daí para frente o canto amargo da memória iria lamber as chagas daquele menino que ficou frustrado no cais da vida, esquecido de si, preso ao nada.

Ainda tentei reagir àquela frustração sem igual com os amigos de minha rua. Soube na semana que, em cada domingo, o Cine Itabuna iria projetar na tela as partidas do Brasil no Campeonato Mundial de Futebol. Meus olhos ávidos não perderiam um lance em cada partida da nossa seleção. Hipnotizados acompanhariam cada jogada, cada drible, cada chute contra a meta adversária. Vibraria com a garotada em cada gol que o Brasil marcasse. Contra a Suécia e a Espanha tinha sido demais. Duas estrondosas goleadas. Era melhor não assistir a final contra o Uruguai. O que era uma trama cruel, orquestrada pelos deuses do futebol na final, não devia ser assistido. Seria para todos nós, pequenos torcedores, lotando o Cine Itabuna, muito doloroso a repetição do drama. Nenhum dos meninos ia conseguir resistir ao trauma tão profundo, vendo dessa vez com os olhos a festa dos jogadores uruguaios no Maracanã e a tristeza de nossos craques, chorando, sem saber explicar o que tinha havido de errado naquela derrota trágica.

Valia a pena driblar as sombras de um pesadelo que se alojava em meu pequeno coração. Afugentar aquela coisa que só infundia tristeza, aderia à pele, ardia tanto no coração. Empurrava-me com os outros meninos para os campos do abismo. O plano que armei com os meninos da Rua do Quartel Velho era simples. Não assistiríamos mesmo, na tela do Cine Itabuna, a derrota do Brasil na final contra o Uruguai. Em algazarra sairíamos pela rua gritando “É campeão! O Brasil é campeão!”, batendo com pau nas latas vazias.

Eu liderava o desfile com algazarra feita pelos queridos amigos, ia na frente da turma, segurava o cartaz com o letreiro grande:

BRASIL CAMPEÃO MUNDIAL DE FUTEBOL 1950.