ENSEADA DE BOTAFOGO

ENSEADA DE BOTAFOGO
"Andar pelo Rio, seja com chuva ou sol abrasador, é sempre um prazer. Observar os recantos quase que escondidos é uma experiência indescritível, principalmente se tratando de uma grande cidade. Conheço várias do Brasil, mas nenhuma tem tanta beleza e tantos segredos a se revelarem a cada esquina com tanta história pra contar através da poesia das ruas!" (Charles Stone)

VISTA DO TERRAÇO ITÁLIA

VISTA DO TERRAÇO ITÁLIA
São Paulo, até 1910 era uma província tocada a burros. Os barões do café tinham seus casarões e o resto era pouco mais que uma grande vila. Em pouco mais de 100 anos passou a ser a maior cidade da América Latina e uma das maiores do mundo. É pouco tempo. O século XX, para São Paulo, foi o mais veloz e o mais audaz.” (Jane Darckê Avelar)

MACHADO DE ASSIS

11.4.20

AS MURALHAS DE COMBATE ÀS EPIDEMIAS ESCONDEM A TRAGÉDIA SOCIAL E ESPACIAL DA POPULAÇÃO DA CIDADE MARAVILHOSA, de NIREU CAVALCANTI

desapegadas das coisas supérfluas

Dizem que algumas pessoas ao passarem por situação de morte iminente e sobreviverem, se transformam interiormente. Passam a levar a vida de forma construtiva, valorizando os demais seres humanos, buscando a paz, a alegria, o amor e desapegadas das coisas supérfluas. Disse, apenas algumas pessoas!

O mesmo ocorre nas grandes tragédias produzidas pela ganância humana e governos desumanos como as guerras. Ou, as catástrofes das chuvas, terremotos, tsunamis, erupções de vulcões, derretimento das geleiras, incêndios nas florestas e tantas outras hecatombes. Alguns países, estados, municípios e suas populações se transformam, após o serenar da tragédia, e fazem ações reconstrutivas materiais e, principalmente, humanas. Passam a viver um novo tipo de governo responsável e de sociedade mais justa e solidária.

O mesmo ocorre na Cidade Maravilhosa, após as tantas tragédias que a vitimam e a sua população? A história tem mostrado que governantes e sociedades se contentam com o tampão de esparadrapos na grande, fétida e horrorosa ferida, que aparece exposta pelas tragédias.

Vamos nos restringir às sucessivas epidemias que ocorrem e destroem vidas ao longo de nossa história. Os colonizadores trouxeram: a sífilis, tuberculose, varíola, lepra, a febre epidêmica, a guerra com arma de fogo e o regime da escravidão. Dizimaram milhares e milhares de índios e índias do Brasil e africanos trazidos e vendidos como escravos.

regime da escravidão

As doenças que aparecem externamente no corpo do enfermo foram sempre as que mais resultaram em pedidos da sociedade por ações concretas dos governantes para saná-las.

A lepra grassou já no século XVII e apavorou a sociedade convencida de que era doença transmissível. O governador Gomes Freire de Andrade (1733-1782) construiu, precariamente, o primeiro hospital destinado aos lázaros, em São Cristóvão. Os governos seguintes ampliaram e aperfeiçoaram as instalações do Lazareto. Foi uma ação positiva e permanente dos governantes.

as instalações do Lazareto

Surtos epidêmicos de varíola ocorreram sucessivamente ao longo dos séculos XVII ao atual XXI. A partir do final do século XVIII começa a aplicação da vacina, principalmente, nos escravos. Também a sífilis, o sarampo, doenças intestinais, gripes diversas, febres, escorbuto e erisipela ceifaram muitas vidas e são fartos os registros e relatórios das ações dos governantes e, principalmente, dos profissionais de saúde. Geralmente as ações eram voltadas para as doenças que mais apareciam negativamente, junto à população. Nunca eram atacadas as causas.

Iniciamos o Quadro de Óbitos no município do Rio de Janeiro, em 1903, por ser um ano marcante, para os estudiosos da questão Sanitária. O médico Oswaldo Cruz foi nomeado para dirigir o combate à principal epidemia (!) que grassava na cidade carioca: a Febre Amarela.

No entanto, podemos verificar que a Febre Amarela – “principal epidemia” (!) – estava em oitavo lugar entre as dez maiores moléstias que ceifavam vidas na Cidade Maravilhosa.

1) Tuberculose pulmonar = 2.736 mortos.
2) Moléstias do aparelho digestivo (a maioria de crianças) = 2.303 mortos.
3) Moléstias do aparelho circulatório = 2.077 mortos
4) Moléstias do aparelho respiratório = 1.597 mortos
5) Moléstias do sistema nervoso = 1.521 mortos
6) Varíola = 805 mortos
7) Paludismo agudo = 599 mortos
8) Febre Amarela = 584 mortos
9) Gripe = 490 mortos
10) Moléstias do aparelho urinário = 421 mortos

Para entendermos ─ se for possível ─ a “Escolha de Sofia” da Febre Amarela (584 mortos) em detrimento das demais nove moléstias que somam 12.549 mortos, perguntamos: quem foram os agentes políticos, econômicos, intelectuais e cientistas, do setor imobiliário e da imprensa, que se reuniram para determinar o enfrentamento da Febre Amarela, e não outras doenças mais letais, como a tuberculose?

enfrentamento da Febre Amarela

A população do município do Rio de Janeiro, em 1903, era cerca de 750 mil pessoas com parte vivendo na pobreza, passando fome, sem trabalho e enfurnada em aglomerações de habitações precárias, nas favelas, nos cortiços e casas de cômodos. No centro da cidade haviam se formado duas favelas: uma no morro de Providência, a primeira do Rio, e a outra no morro de Santo Antonio, no largo da Carioca. Esses morros, quando se inicia sua ocupação desordenada, possuíam cobertura vegetal arbórea e os terrenos eram espaçosos, permitindo que fosse feito loteamento popular para abrigar essa população. O custo dessas obras era inferior às do porto, da abertura de avenidas e outras obras de visibilidade política. Propostas nesse sentido foram feitas por engenheiros e arquitetos e alguns políticos. No entanto, as autoridades e seus apoiadores preferiram “sanear” a paisagem do centro da cidade mandando incendiar a favela de Santo Antonio e enviar os desalojados para engrossarem a favela de Mangueira – trecho denominado Santo Antonio.

Quem eram os seus moradores: parte dos velhos libertados pela Lei dos Sexagenários, conhecida como Lei Saraiva Cotegipe (13/09/1885), e da Lei Áurea (13/05/1888) que não contemplaram garantia de emprego e nem habitação para esses libertos. Tinha imigrantes portugueses, italianos e espanhóis, população rural vinda do interior do Estado, do Nordeste, do Espírito Santo e de Minas Gerais. Os desempregados e desabrigados pelas demolições dos cortiços e das casas de cômodos; soldados desertores, marginais, prostitutas e famílias pobres de trabalhadores, completavam o perfil populacional daquela favela. Ambiente propício para a tuberculose, a varíola, para as moléstias do aparelho digestivo e também para a febre amarela.

O primeiro quartel do século XX foi de grandes obras de urbanização da cidade, a construção do porto e das avenidas Central (atual Rio Branco), Francisco Bicalho, Rodrigues Alves e Beira Mar. A derrubada de morros, como o do Senado e do Castelo – crime do governo Carlos Sampaio contra o patrimônio histórico da cidade. Obras que não previram o assentamento da população pobre que habitava essa área, da qual foi expulsa.

O exemplo dessa mentalidade cruel que isola o fato de seu contexto foi a reurbanização da Quinta da Boa Vista. Era preciso concluir o projeto do paisagista Glaziou! Maravilha aplaudida por todos. Acontece que ao longo dos anos foram construídas moradias no terreno da Quinta, com a permissão do Imperador Pedro II e dos militares comandantes dos quartéis instalados na área. Eram cerca de 140 casas cujos moradores foram expulsos, sem indenização, por não serem donos dos imóveis. Em março de 1910 o ministro da Guerra comunicou ao da Viação que as casas habitadas por praças do 13o Regimento de Cavalaria, estavam desocupadas.

No mesmo ano surgiram barracos na encosta do morro do Telégrafo voltada para a Rua Visconde de Niterói e essa ocupação foi denunciada pela imprensa alertando as autoridades para o surgimento de uma nova favela no morro. A Prefeitura enviou o fiscal da região e um de seus engenheiros para verificar o que estava ocorrendo. O engenheiro vistoriou 12 barracos, constatou suas condições impróprias para moradia e que feriam as posturas municipais. Propôs que a Prefeitura construísse casas operárias para aquela gente em terrenos próximos ao morro.

Em maio de 1910 os moradores dos barracos foram convocados a comparecerem à sede da Prefeitura para a legalização dos barracos. Os invasores continuaram no morro do Telégrafo e não foram construídas as casas proletárias conforme proposta do técnico consciente.

Oito anos depois, 1918, já havia na batizada favela de Mangueira 49 barracões! Assim surgiu a imensa favela premiada por sua Escola de Samba Estação Primeira de Mangueira.

favela de Mangueira

As estatísticas da cidade do Rio de Janeiro, para o ano de 1914, registraram que 13.601 pobres moravam em 2.564 barracos espalhados pelos seus morros. A população total do município era estipulada em torno de 960.000 pessoas.

O combate e erradicação da febre amarela, ação positiva e elogiável, que teve todo apoio do governo federal e municipal – a cidade do Rio era a capital do Brasil – não teve investimento para eliminar as causas das demais epidemias. Nada foi feito para universalizar o esgotamento sanitário e o fornecimento de água potável para toda a cidade e sua população. A rede hospitalar e de postos de saúde cresceram inferiormente à demanda. O transporte público de massa dependia exclusivamente das linhas férreas construídas no Império: a Central do Brasil – nome republicano da antiga Pedro II – e da Leopoldina, que permitiram o crescimento da cidade para os subúrbios da Leopoldina, Zona Norte e Oeste. A malha mais urbanizada era atendida pelas linhas de bonde, em sua maioria pertencente à Light. Os fotógrafos registraram os bondes superlotados de passageiros.

linhas de bonde

A tuberculose, ou Peste Branca, exigia para seu tratamento: o isolamento do doente por vários meses, em local saudável, de bom clima, de preferência frio, arejado e ensolarado. Mas, o principal, era o doente ingerir alimentação saudável. A população pobre, e mais ainda os doentes, não tinham condições de realizar nenhuma das recomendações sanitárias, dependendo totalmente do poder público. Que por sua vez lavou as mãos para, higienizado, cuidar da Febre Amarela.

Os que tinham posse e estavam doentes, ou não, possuíam casas ou viajavam para a Europa, Petrópolis, Friburgo, Campos de Jordão e balneários mineiros. Os novos bairros do Leme, Copacabana e Ipanema eram oferecidos como o paraíso saudável do viver à beira-mar, respirando ares benéficos das brisas marítimas.

ares benéficos das brisas marítimas

Essa postura de ação pontual do poder púbico apoiada pela parte da sociedade dos não pobres se repetiu no enfrentamento da peste bubônica, ou Peste Negra, e da Gripe Espanhola, ou Influenza. Todas erradicadas com sucesso pelas ações públicas. A varíola também teve muito reduzida sua mortalidade.

A relação das 10 maiores “causa mortis” do ano de 1903, já visto anteriormente, para o ano de 1920 sofreu variações significativas: a Febre Amarela foi extinta e aparece com zero de registro. A Varíola teve apenas 4 óbitos o que indica sua breve extinção. A outra moléstia que caiu foi a do sistema nervoso que era de 1.521, descendo para 1.102. As demais moléstias subiram, sendo a do aparelho digestivo a que mais aumentou: de 2.303 para 5.235 mortos, passando a ser a primeira entre as dez maiores causadoras de óbitos. A tuberculose continua alta com 4.641 óbitos, ficando abaixo da Moléstia do aparelho digestivo.

Voltamos à pergunta inicial: a cidade do Rio de Janeiro foi liberta de suas moléstias causadoras de alto índice de mortalidade?

O MUNDO GLOBALIZADO DO COVID–19

O município do Rio de Janeiro, nesse ano de 2020, com a população estimada de 6.700.000 pessoas, apresenta deplorável quadro econômico (desemprego e subemprego), social com cerca de 1.300.000 moradores em favelas (em 1920 eram estimados 200.000 favelados) e loteamentos clandestinos precários. Os serviços públicos de saúde, educação, segurança e transporte de massa foram sucateados ou mal planejados ao longo dos 100 anos (1920-2020) e já não atendem à população usuária.

Mais grave é a poluição dos cursos d’águas, das lagoas e de toda a Baía de Guanabara e o desmatamento dos morros e das reservas florestais. Tão grave é o deficiente fornecimento de água potável, pela CEDAE, descartando mais de 30% da população, quanto o do esgotamento sanitário tratado, que atende abaixo desse outro serviço. Somando-se ao problema do lixo residencial, industrial e hospitalar cuja coleta não é universal, podemos afirmar que chegamos ao caos carioca.

Para agravar mais ainda o enfrentamento do COVID-19 – mais uma vez pontual e resultado da “Escolha de Sofia” – as velhas moléstias mortíferas continuam – a volta da febre amarela e do sarampo ─ acrescidas de novas moléstias de caráter nacional, que, em 2018, apresentaram os seguintes números de infectados e de mortos, no Brasil: dengue (240.000 /142); chikungunya (84.000 / 35) e a zica (8.024 / 4). Só nos resta rezar!

COMO REAGIR APÓS A TRAGÉDIA

Voltando ao início e acreditando que algumas pessoas, sociedades e governos se transformam para o bem depois de experiências trágicas, vamos sugerir ações duradoras para mudar as causas que nos levaram ao fundo do poço.

caos carioca

De caráter econômico:

Suspender o pagamento de juros da dívida pública brasileira – a interna e a externa fecharam o ano de 2019 no astronômico valor de R$ 4,249 trilhões de reais – e instituir grupo de especialistas para auditá-la. Quem possui essas cotas são os que possuem excedentes financeiros. Portanto, não vai pesar muito em seu bolso. O FMI já suspendeu o pagamento de países pobres. O STF brasileiro suspendeu o pagamento de juros da dívida dos estados à União.

1) Rever as taxas incidentes do Imposto de Renda sobre a renda dos brasileiros. 
2) Fazer a Reforma Tributária reduzindo o número de impostos e reduzindo alíquotas.
3) Fazer a Reforma Administrativa, fortalecendo e valorizando o serviço público. Acabar com a discrepância salarial entre os três poderes e estabelecer que todos os servidores tenham as mesmas regras de aposentadoria e de férias.
4) Fazer a Reforma Política. Aproveitar que terá de se adiar as eleições para prefeitos e, por isso ampliar seus mandatos para cinco anos, estender para os demais cargos de governadores e presidente e extinguir a REELEIÇÃO para o executivo.
5) Fazer as eleições para o Poder Legislativo antes do Poder Executivo para que elejamos parlamentos livres e independentes do Executivo. Reduzir o mandato de senadores para cinco anos e acabar com as suplências.

Construir um pacto federativo entre governo e sociedade para que todos os governos dediquem suas propostas e ações voltadas para a Educação, a Saúde, para o Transporte de passageiros e de carga eficientes. O saneamento sanitário e o abastecimento de água potável em todos os municípios brasileiros. Despoluir os rios, lagoas e mares, reflorestar as áreas degradadas e fiscalizar rigorosamente o meio ambiente.

Fazer o grande mutirão nacional para construção de habitação para cada família brasileira que hoje esteja vivendo em condições inadequadas.

pacto federativo

Professor arquiteto e historiador Nireu Oliveira Cavalcanti
Abril de 2020 – era do Coronavirus (COVID–19)

19.2.20

ADÈLE TOUSSAINT-SAMSON: UMA HISTÓRIA LÚGUBRE

O episódio a seguir, narrado pela viajante francesa Adèle Toussaint-Samson, que morou pouco mais de uma década no Rio de Janeiro em meados do século XIX, em seu livro Une Parisienne au Brésil, pode perfeitamente ter inspirado Machado de Assis a escrever seu conto O Esqueleto de 1875. Confiram o relato da Adèle.



A primeira vez que fui convidada no Rio para um dos bailes de São João, lembra-me que, dançando, lancei os olhos para o artista que se achava ao piano e fiquei impressionada pela estranha palidez de seu rosto. Tão extraordinária era que não pude resistir ao desejo de perguntar se esse moço, que poderia ter trinta e cinco anos, sofria de alguma enfermidade grave. Responderam-me que ficara assim desde o dia em que matara a mulher.

Imagine o efeito que sobre mim produziu tal resposta! Quis logo conhecer os detalhes dessa trágica aventura, e eis o que me contaram:

O senhor M..., um de nossos compatriotas, chegara três meses antes com sua mulher, moça e lindíssima, contratada como cantora nos teatros do Rio. Aos pés da encantadora artista choviam, todas as noites, os buquês e as cartas, e entre os mais apaixonados fez-se logo notar um jovem doutor da cidade, que tinha feito seus estudos na França, e cujo espírito havia assumido o tom zombeteiro e cético próprio dos parisienses. A moça correspondeu logo à paixão que inspirava e tornou-se amante do doutor. Começando o marido a desconfiar de alguma coisa, fez várias cenas de ciúme para a mulher. Entretanto, não tinha ainda certeza.

Um dia, ao vê-la pronta para sair, mais adornada que de costume, teve a intuição de que ela ia a um encontro amoroso e, colocando-se à sua frente:

– Não sairás! disse-lhe.

– Hei de sair! replicou ela, dirigindo-se para a porta. Então, o marido, puxando do peito uma pistola que mantinha lá escondida, desfechou aqueles dois tiros à queima-roupa contra sua jovem esposa, que se estendeu sem vida a seus pés; feito o que, foi entregar-se à prisão. Depois de ser julgado, foi absolvido pela lei, e ficou no país, onde a cada passo encontrava o homem que o desonrara. Teve a triste coragem de matar a mulher, mas não teve a de matar o homem.

Manchado por este crime, trazendo daí em diante, como eterno estigma, essa palidez cadavérica, continuava, entretanto, a vir às noites tocar polcas e quadrilhas para a juventude brasileira dançar, pois seu crime o pusera, até certo ponto, em moda.

Esta narração gelou-me; meus olhos não podiam se desviar desse homem, a quem geralmente lastimavam, enquanto eu não achava para ele, ao observá-lo, senão esta palavra: “Covarde!” O baile perdeu logo para mim, pouco a pouco, toda sua alegre fisionomia: a nota lúgubre dominava nele. Julguei-me sob o domínio de um conto de Hoffmann; parecia que um vampiro dirigia a dança. Pensei muitas vezes nessa jovem e bela criatura, morta sem piedade na flor da idade, e quis saber se o amante teria, ao menos, conservado sua lembrança. Responderam-me que, quando a moça morreu, mostrara grande dor, e fizera mesmo resgatar secretamente os restos mortais de sua amante. Isso me enterneceu.

Alguns anos depois consegui completar as informações sobre a aventura. Ei-las:

Soube que o amante, doutor em medicina, como ficou dito, fizera preparar e articular o esqueleto de sua antiga amante e, algumas vezes, depois de beber, chegara a dizer a alguns de seus mais íntimos amigos:

“Querem saber em que se transforma, depois da morte, uma mulher jovem e bonita, loura, branca e rosada? Vou mostrar-lhes!”

O doutor abria então um armário e, indicando com o dedo, sorridente, um horrível esqueleto de dentes brancos, que havia sido a formosa criatura cuja beleza ainda é proverbial no Brasil e que fora assassinada por causa dele:

“Eis aí!” dizia.

17.2.20

ADÈLE TOUSSAINT-SAMSON SOBRE A QUALIDADE DA ÁGUA CARIOCA



Da era colonial para cá muita coisa melhorou: não temos mais escravos, o cocô já não é mais lançado no mar, a febre amarela não dizima mais a população etc. Mas uma coisa piorou: a qualidade da água. Vejam a descrição de nossa água pela viajante francesa Adèle Toussaint-Samson em seu livro Une Parisienne au Brésil, publicado em 1883:

Du reste, l'eau est si bonne à Rio, que cette boisson est presque un régal. Aussi le Brésilien en boit-il, dans sa soirée, quatre ou cinq verres; elle est si limpide, si parfumée, si légère, cette eau de la Carioca, qui serpente sur de blancs cailloux, à travers les plantes aromatiques, et vous arrive toute fraîche et pleine de senteurs, qu'on s'en souvient toujours, et que le Brésilien a raison de dire : « Quand on a bu » cette eau-là, on n'en peut plus boire » d'autre. »

Além disso, a água é tão boa no Rio, que essa bebida é quase uma delícia. Também o brasileiro bebe quatro ou cinco copos à noite. É tão límpida, tão perfumada, tão leve essa água do Carioca, que serpenteia sobre seixos brancos, através das plantas aromáticas e chega até você totalmente fresca e cheia de odores, que sempre nos lembramos dela, e os brasileiros têm razão de dizer: “Quando alguém bebeu dessa água, não consegue mais beber outra.”

10.1.20

OS CORTIÇOS COLONIAIS E AS VILAS INTIMISTAS DO ECLETISMO, de MILTON TEIXEIRA

Cortiço do final do século XIX no Morro do Livramento, uma "avenida" como diziam na época, e o mais incrível é que as casas não estão adulteradas. A porta de arco abatido em granito, no primeiro plano, é mais velha.

As raízes das vilas urbanas do final do século XIX podem ser encontradas no seu antepassado colonial mal comportado: o cortiço. Surgiram tais habitações coletivas ainda no século XVIII, parece-nos, derivadas das estalagens onde pernoitavam os tropeiros que chegavam de Minas Gerais. Seu número se multiplicou no século XIX, principalmente depois de 1850, quando ocorreu grande migração para a área urbana do Rio de Janeiro.

O cortiço era, antes de qualquer coisa, uma habitação particular coletiva para pobres, ex-escravos, imigrantes ou viajantes. Era erguido por vezes num simples lote urbano, onde caberia normalmente uma casa comum. Na testada urbana do lote, era levantada uma a duas casas de sobrado, onde, numa delas, por vezes, morava o dono do cortiço. No térreo funcionava um comércio, padaria, açougue ou armazém, que ajudava o estabelecimento a suprir-se de gêneros de primeira necessidade. Ao lado ou entre os dois sobrados, havia a entrada de uma pequena ruela, chamada, por eufemismo, de “avenida”. De ambos os lados da avenida, existiam pequenos cubículos constituídos por um único ambiente, com porta e janela. Nos fundos da avenida, tanques para lavagem de roupa, coradouros, pias e latrinas coletivas, de uso restrito da população do cortiço.

Cortiço na rua Bento Ribeiro, perto da Central

Alguns cortiços possuíam dois andares, sendo a ascensão aos cubículos superiores feito por escadas que davam acesso a uma varanda coletiva. Sobre as portas, às vezes existia uma bandeira gradeada para ventilação. Os cubículos eram numerados, invariavelmente, em algarismos romanos. Na entrada, à guisa de lavabo, existia uma pia para os visitantes lavarem as mãos. A intimidade familiar inexistia e realmente eram habitações muito insalubres com as latrinas usadas por todos, moços e velhos, homens e mulheres. Hoje restam na cidade apenas seis deles, sendo três na rua Senador Pompeu e dois na rua Sacadura Cabral – curiosamente hoje todos tombados pela Municipalidade como importantes bens culturais da cidade.

Depois de 1850 começou lentamente uma migração constante de europeus para o Rio de Janeiro, bem como, em sentido inverso, de ex-escravos do campo para a cidade. Com as latrinas coletivas, os cortiços logo foram culpabilizados pelas epidemias infecto-contagiosas que desde essa época atingiram a cidade na época do verão. Desde 1870 surgiram leis restritivas à sua construção na área urbana da cidade, mas seu número só fez crescer até os primeiros anos da República, quando os primeiros prefeitos lhe dedicaram uma guerra sem trégua. O maior cortiço de todos, era o “Cabeça de Porco”. Ficava na base do morro do Livramento, onde hoje está o túnel João Ricardo, próximo à Central do Brasil. Seu nome, dizia-se, derivava de um porco de louça usado como enfeite sobre a entrada principal. Moravam nele cerca de 4.000 pessoas e possuía mais de vinte casas comerciais. Foi destruído em fins de janeiro de 1893 por uma tropa de cavalaria chefiada pelo Prefeito Barata Ribeiro, que enfrentou forte oposição de deputados que defendiam os donos de cortiço, dentre elas, Dona Felicidade Perpétua de Jesus, proprietária majoritária do “Cabeça de Porco” e de outros cortiços na região portuária.

Antiga vila operária da Fábrica Aliança na Rua Pires de Almeida, Cosme Velho. 

Em fins de 1902, o Prefeito Francisco Pereira Passos, coadjuvado por seu Diretor da Saúde Pública, Oswaldo Cruz, desenvolveu sistemática oposição a essas habitações populares, tendo destruído a maioria delas. Os restantes foram abaixo nas administrações que se sucederam até 1930. O último cortiço foi construído em 1917, na rua Senador Pompeu. Foi o derradeiro Moicano. Conta-se que chegaram a existir mais de trezentos somente na área Central, mas os havia desde a Glória ao Humaitá, sendo que em Botafogo (Rua Assunção) ficava o que inspirou ao escritor Aluísio Azevedo o seu famoso livro.

As vilas surgiram no ocaso dos cortiços. Em 1888, com a Lei Áurea, ocorreu uma grande migração de ex-escravos para a Côrte. Isso estimulou os determinados investidores, principalmente ingleses, em aproveitar essa mão de obra disponível e barata, que se juntava agora às dos imigrantes europeus para investir no mercado fabril do Rio de Janeiro. Nos últimos anos do século XIX surgiram então várias fábricas de tecidos pela cidade, das zonas Sul a Oeste, que absorveu essa oferta barata. Surgiram, assim, em rápida sucessão: a Progresso Industrial, em Bangu; a Aurora, no Humaitá; a Corcovado, na Lagoa; a Carioca, no Jardim Botânico; a São Félix, na Gávea; a Aliança, em Laranjeiras; a Confiança, em Vila Isabel, e muitas outras, têxteis ou não. Como o Governo não se interessava pela construção de casas populares, os empresários tiveram de fazê-las. Pegaram alguma experiência das vilas operárias europeias, bem como a algo da realidade luso-brasileira dos cortiços.

Remanescente da antiga vila operária da Fábrica Bangu

As primeiras vilas operárias eram bem diferentes dos velhos cortiços. Todas as unidades eram compostas de, no mínimo sala, quarto, cozinha, coradouro e banheiro. Ainda eram geminadas, como nos cortiços e, assim como estes, o acesso era feito por uma única via, usança que permitia melhor controle sobre a entrada e saída dos empregados. Na entrada da “avenida”, casas altas para os supervisores. Algumas dessas vilas eram imensas, em especial a da Fábrica Bangu, que possuía igreja, escolas para os dois sexos, posto médico, mercado e clube desportivo, além de um teatro. A Fábrica Corcovado possuía cerca de treze mil operários e podia contar até com um hospital, igreja Católica e templo Metodista. A família era amparada por quatro planos previdenciários e a vila contava com infraestrutura de cidade. A vila da Fábrica Carioca, na rua Pacheco Leão, era motivo de orgulho nacional, projetada segundo os preceitos modernos de higiene, com clubes, escolas, mercados e bandas de música. Para o operário usufruir disso era-lhe feito pequeno desconto na folha de pagamento. Mas, se embebedasse, chegasse tarde à casa ou pior, organizasse greves ou delas participasse, era demitido e toda a sua família perdia a moradia e benefícios.

Para fugir a esse controle, muitos operários desistiam de morar na vila da fábrica. Colocavam toda a família para trabalhar e, com uma renda melhor, podia então alugar uma casa de vila particular, onde o controle patronal era menor. Essas vilas particulares seguiram o padrão dos cortiços coloniais. O dono era normalmente um português. Uma a duas casas grandes marcava a entrada, onde no térreo funcionava um comércio; o acesso era pela “avenida”, mas as semelhanças acabavam aí. As casas ainda eram geminadas, mas agora todas possuíam banheiro e área de serviços individualizados.

Cortiço num velho sobrado na Rua Costa Ferreira, 70 (Centro) tombado pelo município. Com dois pavimentos, é uma habitação coletiva característica da segunda metade do século XIX.

Um dos maiores defensores das vilas operárias foi o construtor Antônio Januzzi. Nascido em Cosenza, Itália; trabalhou na construção civil de seu país como autodidata, tendo apenas algumas aulas de desenho. Migrou em 1881 para Buenos Aires, onde trabalhou numa pedreira. Em 1885 embarcou num mercante como clandestino para o Rio de Janeiro, onde arrumou trabalho na construção do elevador a vapor para Santa Teresa, obra inaugurada em 1886. Reconhecido o seu talento, ganhou muitos admiradores e montou a maior empresa de construções da cidade, onde fazia do projeto à construção. Dotado de talento nato, chegou a ganhar encomendas oficiais e não foi à toa que construiu mais de trinta prédios somente na Avenida Central em 1904/05. Era dono do morro da Viúva, no Flamengo, onde fornecia pedra para todas as obras da cidade. Sua amizade com Pereira Passos rendeu-lhe bons contratos.

Januzzi era presbiteriano e considerava a missão de construir para os pobres uma cruzada religiosa. Para ele, a casa era o tijolo da família e esta o alicerce da sociedade. Era propugnador da ideia da construção de casas dignas para os operários e chegou a escrever um livro sobre o assunto, e a fundar uma empresa apenas para construção de vilas particulares: a Evonéas Fluminense. Januzzi começou construindo as vilas da Fábrica Carioca, ainda existente. Aproveitou a baixa dos preços dos terrenos no Humaitá, Botafogo, Catete, Laranjeiras, Vila Isabel e São Cristóvão para comprar velhos palacetes da época da escravidão, demoli-los e, em seu lugar, construir pequenas vilas. Trabalhou muito para os maiores donos de vilas do Rio de Janeiro: Conde Modesto Leal, Luís Camuirano, Antônio Valentim do Nascimento, Conde São Salvador de Matosinhos, Visconde de Santa Isabel e Visconde de Moraes. Para estes nababos de além-mar, ergueu dúzias de vilas por todos os bairros da cidade, sendo algumas delas tão grandes que deram origem a ruas, como a Camuirano, a Muniz Barreto, e a Barão de Itambi.

Cortiço na Rua Senador Pompeu, 34. Tombado pela Prefeitura.  O cortiço de dois pavimentos foi construído, no final do século XIX, para atender a população de baixa renda.

Com o passar dos anos, morar em vila deixou de ser coisa de operário para se transformar num estilo de vida. As vilas evoluíram e passaram a ficar mais luxuosas, bem acabadas e com detalhes primorosos de arte, serralheria, estuque, etc. Algumas passaram a ter nomes altivos ou a se chamar bairros, como São Jorge, no Catete. Das melhores vilas da década de 20, estão as: Vila Abrunhosa, na rua da Passagem e os Apartamentos George, na rua São Clemente, ambas em Botafogo. Esta última parece um vilarejo inglês, projetada e construída por Eduardo Pederneiras, o maior sucessor de Januzzi (falecido em 1949) na construção civil no Rio de Janeiro.

Em 1931 Getúlio Vargas literalmente decretou o fim das vilas. Agora as casas operárias passariam a ser construídas pelo Estado e não mais por particulares. No mesmo ano ele criou o Instituto Nacional de Previdência e seis Institutos de Aposentadorias e Pensões, autarquias que possuíam,  dentre outras funções -, a missão de construir casas populares para o povo – IAPI, IAPC, IAPB, IAPM, IAPTEC, etc. Logo depois o mesmo presidente congelou os aluguéis, tirando o motivo maior de existência das vilas: o pequeno aluguel que gerava a renda mensal que permitia a vida confortável dos donos de vilas lusitanos. Isso desestimulou também a iniciativa particular de construí-las, pois as casas eram já alugadas por muito baixo preço. Muitas vilas foram então vendidas e algumas até demolidas. Agora os donos dos terrenos mudaram a orientação, passando a erguer pequenos prédios residenciais multifamiliares de até cinco andares, sem elevadores, com um ou mais apartamentos por andar. Eram as famosas “Casas de Apartamentos”, cuja moda perdurou até o fim da Segunda Guerra Mundial, até que a especulação imobiliária também as desbancou e fez surgir o prédio de apartamentos moderno.

Revalorizadas no final do século XX, as vilas foram tombadas como patrimônio urbano e se converteram em opção elegante de moradia. Descobriu-se que com apenas uma pequena grade na entrada, consegue-se fácil a segurança necessária. A casa de vila, mesmo com a intimidade um tanto comprometida, voltou a ser uma rara oportunidade de residir numa residência unifamiliar individualizada em meio ao caos em que se converteu a maioria dos bairros residenciais da cidade.

Pequena Itália (Vila Operária Sauer da Fábrica Carioca) no Jardim Botânico

Texto gentilmente cedido pelo professor Milton Teixeira. Fotos do editor do blog.

10.12.19

SÃO PAULO, crônica de CYRO DE MATTOS


(Para Samuel Penido - em memória)

O Brasil é uma nação com várias nações dentro de seu território de dimensões continentais. Encontramos em São Paulo todas essas nações brasileiras com pessoas vindas dos lugares mais distantes do País. Nessa cidade com uma superpopulação sempre crescente ouvimos, diariamente, vozes estranhas, costumes vindos de povos que possuem tradições das mais singulares.

costumes vindos de povos que possuem tradições das mais singulares


O homem do interior que pisa pela primeira vez nessa aldeia global fica como peixe fora d’água. Impressiona-se com a paisagem feita de cimento e aço, de grandes edifícios, que buscam as nuvens mais altas. No asfalto, pneus cantam, o homem passa anônimo e veloz nessa forja gigantesca que nunca descansa.

Corre no tempo que nessa cidade trabalho e dinheiro andam de mãos dadas. O homem aqui tem que ganhar dinheiro com unhas e dentes numa maratona suicida. O coração financeiro da cidade é a Avenida Paulista com o seu modo intenso de estipular o mundo.

de grandes edifícios, que buscam as nuvens mais altas

Riqueza e pobreza são vizinhas em São Paulo. Ao céu aberto e nas galerias, elas estão juntas, vivem em seu ritmo tumultuado. Soltam fumaça nas fábricas com suas inúmeras chaminés, que tornam o sol pálido, as nuvens cinzentas e o ar que tosse constante. Prenhe de detritos, o Tietê percorre a cidade na descida triste inventada por bocas de vômito. Um rio com sua mágoa desce no curso viscoso, pulmões quase sem ar nas águas escuras, como a dizer SOS São Paulo antes tarde do que nunca.

 fábricas com suas inúmeras chaminés

Falam que o ser humano em São Paulo está prisioneiro num tempo de bruma. Diluído na multidão. É um partir que não chega, um caminhar sem parar. Hospitais, escolas, igrejas, fichários, descargas de fumaça, lá se vai o fiel habitante sem bagagem e com suas armas que comovem. Nas esquinas, bares, restaurantes, danceterias, madrugadas. Nos motéis com fumos, com cio, álcool, drogas. Colmeia gigantesca, aqui o homem tem a língua presa na sua ânsia de falar com solidariedade e doçura. Esse homem sem nome na selva de pedra. No shopping center, no subsolo, na Avenida São João, no estádio, no metrô, no supermercado, na fábrica, no elevador. O homem e seus dentes de fera naquele velho aprendizado de ter uma vida com sobras. Nessa cidade onde o povo é fluxo e refluxo em torno de si mesmo, tão luta.

O homem tão do mundo, vivendo o seu medo na cidade enevoada.

dentes de fera

Você acha um lugar ao sol na praça, onde os pombos fazem uma bela aparição. Igual à Cinelândia, no Rio de Janeiro. Os pombos fazem uma bela formação, baralham em festa tormentas, suavizando o animal insano, o desarmado pedestre, o audaz andarilho diário em seu estado de graça.


  • Cyro de Mattos é autor de mais de 50 livros, de diversos gêneros. Também editado no exterior, Do Pen Clube do Brasil e Academia de Letras da Bahia. Doutor Honoris Causa da Universidade Estadual de Santa Cruz (Bahia). Premiado no Brasil, Portugal, Itália e México. Fotos tiradas em São Paulo pelo editor do blog.

o animal insano

1.12.19

LIQUIDAÇÃO PARA ENTREGA DO PRÉDIO, crônica de OSVALDO MOLES

PUBLICADA ORIGINALMENTE NO DIÁRIO DA NOITE PAULISTANO DE 23 DE AGOSTO DE 1949


Enquanto os grandes cronistas literários da imprensa carioca têm sua memória preservada e suas obras reeditadas, o grande cronista paulistano pós-Alcântara Machado, Osvaldo Moles, praticamente caiu no esquecimento – sequer nome de rua virou. Eu mesmo só vim a descobri-lo ao ler a ótima biografia do Adoniram Barbosa escrita por Celso de Campos Jr. Além de cronista exímio, Osvaldo foi um colosso do rádio, em sua época de ouro, em que desempenhava o papel – informar, divertir, distrair – mais tarde assumido pela televisão. Osvaldo escrevia de tudo, esquetes humorísticos, programas culturais, e foi graças aos seus textos que Adoniram viveu uma grande fase como “ator” radiofônico antes de se celebrizar por seus sambas paulistanos "em linguajar popular" nos anos 1950. 

Alberto Helena Jr., em seu prefácio à biografia de Adoniran Barbosa escrita por Celso de Campos Jr., assim descreve Osvaldo Moles: “ [...] um homem da renascença moderna, com traços de enciclopedista – pioneiro da publicidade eletrônica, radialista, poeta, roteirista de cinema e cronista maior da cidade, legítimo herdeiro de Mário de Andrade, Alcântara Machado e Juó Bananere.

Aqui está uma crônica do Osvaldo publicada originalmente no Diário de Noite paulistano de 23/8/1949.

Olhar vitrinas pachorrentamente, domingueiramente, é bem um interesse, um divertimento de senhoras pobres que esperam a visita da cegonha, a única visita que pobre recebe com bolacha de água e sal. Mas, como dizíamos, espiar vitrinas, sonhar diante dos preços reduzidos pela época, é o tipo do cinema de gente sem dinheiro. Várias coisas constituem o cinema de pobre: – o bonde que passa cheio de pernas, o desenlace do trabalho nas fábricas e as vitrinas da cidade, aos domingos à noitinha.

A Rua Direita, por exemplo, já entendeu que a gente que vai lá aos domingos não é essa gente que as agências de publicidade chamam de “classe B” e de poder aquisitivo médio. Portanto, os comerciantes da Rua Direita fecham cedo suas vitrinas aos domingos, dando margem a mais um ditado das populações que invadem a rua nas noites de domingo:

– Nego num oia vitrina. Mastiga a escuridão.

Mas as da Rua Barão de Itapetininga estão abertas aos domingos à noite. E é para lá que correm os “marcianos”. Marciano é essa gente que quase nunca anda no centro da cidade e que só desce de Marte, o bairro distante, nos dias de exceção. É por isso que agora que o comércio anda apertado, nunca tanta gente olhou vitrina com tanta cobiça no olhar. Começaram a descer os preços, a cidade anda repleta de liquidações. E aqueles risquinhos que cortam os preços altos têm mais fascinação para as donas de casa do que toda a fantasia de Goethe.

É por isso que o velho Montesquieu acreditava na honestidade das massas. Não porque estas sejam cândidas, mas porque só o homem do povo tem o dom de acreditar e de fazer, com sua fé, um movimento que abale o mundo. Ainda se acredita nas liquidações, como ainda se acredita no jogo do bicho. E é essa crença da mulher gorda que leva o marido, a filharada, os cunhados, a família inteira ao centro da cidade, para devanear diante das vitrinas abarrotados de artigos liquidados “a qualquer custo, para reforma do prédio”.

Por sua vez, os comerciantes acham que a coisa vai mal... muito mal! Vai muito mal porque agora não é mais o tempo em que eles podiam ganhar mil por cento. Hoje em dia estão quase na miséria os comerciantes. Só conseguem arrancar um lucro de novecentos e cinquenta por cento.

31.10.19

VIAJANTES ESTRANGEIROS NO RIO DE JANEIRO: ERNST EBEL (1824) & AUGUSTUS EARLE (1820, 1821-24, 1832)


Folha de rosto do livro RIO DE JANEIRO und seine Umgebungen im Jahr 1824 in Briefen eines Rigaer's  (O RIO DE JANEIRO e seus arredores em 1824 em cartas de um natural de Riga) que, embora escrito em alemão, foi publicado pela Real Academia de Ciências de São Petersburgo em 1828. Uma edição brasileira, com tradução e notas de Joaquim de Sousa Leão Filho, foi publicada pela Companhia Editora Nacional em 1972, podendo ser acessada no site da UFRJ. Dessa edição extraímos os textos aqui transcritos.

Mapa do Rio de Janeiro incluído no livro de Ebel


Da vida de Ernst Ebel pouco se sabe: natural de Riga (fato que revela no título de sua obra), capital da Letônia, na época controlada pelo Império Russo, em 14 de novembro de 1823 embarcou no brigue Theodor, na cidade dinamarquesa de Helsingor, com destino ao Rio de Janeiro, onde chegou em 28 de fevereiro de 1824, desembarcando na manhã seguinte. Seu livro, em forma de cartas a um amigo, escreveu-o em língua alemã, para seu entretimento, como narra no Prefácio, sem o propósito de divulgá-las. “Não obstante, para atender ao desejo de vários amigos que são de opinião que elas podem servir de guia útil a futuros visitantes daquela cidade, entrego-as agora à publicidade.” A obra, publicada em 1828 pela  Real Academia de Ciências de São Petersburgo, teve uma edição brasileira em 1972 em tradução do diplomata e estudioso de iconografia e história da arte Joaquim de Sousa Leão Filho. Na Introdução, escreve o tradutor: “Tendo conhecido o Rio de começos de 1824, seu livrinho – uma compilação de cartas escritas a um amigo – permaneceu, pela sua raridade, uma peça, por assim dizer desconhecida da nossa bibliografia exótica, conquanto seja dos mais interessantes depoimentos que possuímos sobre a cidade e o país que acabava de conquistar sua independência – verdadeira reportagem – em que a pessoa do jovem soberano é olhada com simpatia e admiração.” Observe que o conceito negativo que Ebel tem dos negros escravos contrasta com a visão simpática de Maria Graham que esteve aqui mais ou menos na mesma época (como você pode conferir neste blog clicando aqui).

Sobre a vida do pintor inglês Augustus Earle (filho do pintor norte-americano James Earl) sabe-se bem mais. Sua curiosidade e espírito de aventura o levaram a longas e demoradas viagens mundo afora, conhecendo, entre outros países, Estados Unidos, Chile, Peru, Brasil, Austrália, Nova Zelândia, Índia. Em todos os lugares em que esteve documentou paisagens, costumes e personalidades. Esteve três vezes no Brasil: em 1820, permaneceu no Rio por dois meses (abril e maio). Após prosseguir viagem para o Chile e Peru, retornou à capital brasileira, lá permanecendo de janeiro de 1821 a princípios de 1824, tendo se tornado amigo de Maria Graham, a quem ofereceu três ilustrações para seu livro. Após três anos de permanência aqui, partiu rumo à África do Sul e Índia, mas acabou abandonado na ilhota de Tristão da Cunha, onde teve de permanecer oito meses até que um navio surgisse e o levasse à Oceania, onde permaneceu até 1828. Na Austrália deixou as aquarelas pintadas no Rio de Janeiro, que hoje integram o patrimônio da National Library of Australia, em cujo site podem ser acessadas (aqui). 

A Revista do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional publicou em seu no 12, em 1955 (aqui), artigo sobre Earle intitulado “Um pintor inglês no Brasil do Primeiro Reinado”, de autoria de David James. Também na Wikipedia encontramos um bom verbete sobre Earle. O artista integrou a equipe do Beagle na viagem de pesquisas topográficas e científicas de que participou também o então jovem Darwin, ocasião em que esteve pela terceira vez no Rio , de abril a junho de 1832. Em seu artigo, escreve David James: “As aquarelas brasileiras, feitas entre 1820 e 1824, podem ser divididas em quatro categorias: paisagens, cenas populares, retratos e espécimes de história natural. [...] É nas cenas populares que Augustus Earle revela seu grande talento para captar a essência da vida da gente do povo, no momento em que o Brasil passava de colônia a Império. Seu estilo é mais pungente e mais vigoroso do que se revela na arte um tanto pálida do desenho de Debret. É evidente que Earle não se sentia tolhido nem contrafeito pelas concepções e preconceitos neoclássicos que David havia imposto a Debret e que por vezes impedia o artista francês de desenhar com perfeita liberdade as cenas que se apresentavam a seus olhos. Há maior similaridade entre a obra de Earle e a de Rugendas".


Capoeira, aquarela, 1822

DESEMBARQUE NO RIO DE JANEIRO


Estranha é a sensação do desembarque. Ao invés de brancos, só vi negros, seminus, a fazerem um barulho infernal e a exalarem um cheiro a altamente ofensivo ao olfato. Além do mais, era intenso o calor e tivemos que fazer longa caminhada até a polícia, cujo chefe, no momento, tinha ido à missa. Depois de esperarmos mais de uma hora voltou ele, finalmente, mais a família, ainda compenetrado da sacra cerimônia. Fomos, porém, pronta e cortesmente despachados, recebendo permissão para circularmos à vontade. [...] O barulho é incessante. Aqui uma chusma de pretos, seminus, cada qual levando à cabeça seu saco de café, e conduzidos à frente por um que dança e canta ao ritmo de um chocalho ou batendo dois ferros um contra o outro, na cadência de monótonas estrofes a que todos fazem eco; dois mais carregam ao ombro pesado tonel de vinho, suspenso de longo varal, entoando a cada passo melancólica cantilena; além, um segundo grupo transporta fardos de sal, sem mais roupa que uma tanga e, indiferentes ao peso como ao calor, apostam corrida gritando a pleno pulmão. [...] Por cima de tudo, o badalar contínuo dos sinos. É realmente para atordoar.

Folguedos durante o Carnaval no Rio de Janeiro, aquarela, c. 1822

CARNAVAL

O carnaval, que em todos os países católicos é tão alegremente festejado, passa aqui despercebido; somente os três últimos dias são marcados por uma folia que, fora de Portugal, em nenhuma parte encontra paralelo. Consiste esta em divertirem-se senhores e gentalha, do meio-dia às Ave-Marias, molhando-se com água uns aos outros. Para isso, enchem os pretos uns limões de cera que põem à venda pelas ruas e com os quais a clientela trava combate até ficarem todos encharcados como pintos, inundando os interiores, ou até suspendê-lo de cansaço. Em muitas casas não se contentam as famílias com jogar limões senão que se servem de baldes e de esguichos para molhar os transeuntes. Onde as janelas estão fechadas, quebram as vidraças. Em suma, é uma brincadeira absurda a que se entregam não só conhecidos mas toda a sorte de gente.

Vista dos arredores do Rio de Janeiro, aquarela

PASSEIO PELA CIDADE

Agora, caro amigo, tens que me acompanhar num passeio pela cidade, cuja situação procurarei descrever da melhor maneira. O Rio de Janeiro está situado a 22° - 53 min de latitude sul e 43º - 12 min de longitude oeste, à margem esquerda da baía, na direção sudeste-nordeste. O extremo sul da cidade assinala-se por um monte sobre o qual fica o Convento de Santa Teresa; ao lado, e por ela em parte circundado, está o Morro de Santo Antônio com o Convento do mesmo nome; próximo ao mar, é o Morro do Castelo, fortificado, e, contíguo, o Calhabouço ( sic) – a prisão dos negros – ao alto, a igreja de São Sebastião. Estende-se o casario ao longo da praia até o Morro da Conceição e o Mosteiro de São Bento, também sobre uma colina, os quais constituem-lhe o extremo oposto. A cidade mede quase tanto de larga quanto de comprida e divide-se, de certo modo, em duas partes: a Velha e a Nova. A primeira vai da praia à rua do Vallo [Rua da Vala, atual Uruguaiana] e é a ocupada pelo comércio e o artesanato, sendo a mais densamente povoada; a segunda começa da referida rua em rumo oeste-sudoeste, atravessando a Praça da Lampadosa ou Largo do Teatro [atual Praça Tiradentes], o Campo de Santana ou da Aclamação, e chega até a Estrada Real. Nela moram a nobreza e o setor mais pobre da população: portugueses como brasileiros. As ruas cortam-se quase todas em ângulo reto, mas há muitas travessas mais antigas, tortas ou irregulares, que facilitam a localização quando se tem uma ideia de sua planta.

Valongo, ou Mercado de Escravos no Rio - 5 de abril de 1824 - Desenho de Augustus Earle, gravura de Edward Finden - Do livro de Maria Graham Diário de uma viagem ao Brasil e de uma estada neste país durante parte dos anos de 1821, 1822 e 1823

MERCADO DE ESCRAVOS

Depois dessa sumária descrição, iniciemos o nosso passeio, começando pelo Valonguinho – a rua mais ao nordeste – onde ficam os mercados de escravo, os quais antes parecem uns barracões, e têm quase todos um quintal ao fundo.
Logo que chegam os navios negreiros – ocorrência frequente – os escravos são desembarcados e depois que se restabelecem relativamente da viagem, no geral curta, lá são expostos para serem vendidos. Há dias fundeou um com 250 negros, na maioria crianças de dez a quatorze anos, que, acocoradas nesses galpões em filas de três, pelo chão, assemelham-se mais a macacos, dando mostra, por sinal, de bom humor e satisfação, embora repelentes no aspecto e depauperados. Alguns compradores andavam à escolha dos que mais lhes convinham, o preço variando entre 150 a 300 mil-réis a peça (750 a 1 500 rublos).

Não posso deixar passar este ensejo sem abordar mais detidamente o tema da escravidão.

Os negros são importados da costa africana deste e daquele lado do Cabo da Boa Esperança, Moçambique, etc.; e isso porque, em virtude de tratados, não podem ser adquiridos ao norte do Equador, mas como os que procedem dessa parte são os melhores e mais robustos buscam os pombeiros recebê-los também de lá por vias travessas. Contudo, não abundam estes no Rio. De preferência trazem rapazes e raparigas novos para que se criem aqui, já que nem sempre os adultos se habituam às novas condições. As diversas raças africanas diferenciam-se quase à primeira vista pelas suas peculiaridades fisionômicas como pelo seu caráter de origem. Certa casta de negros por melhor tratados que sejam, guarda seus vícios e instintos de origem, enquanto outros, como os de Moçambique. são de índole mais branda e domável. Quase todos largam uma catinga, qual animais, que torna sua presença repulsiva ao forasteiro. O tratamento aqui dispensado aos escravos é, de modo geral, bom, seus senhores sendo severamente proibidos de puni-los com mais de quarenta chibatadas e, nos casos de crimes graves, devem ser entregues às autoridades que, por certo, os castigam severamente, segundo as circunstâncias, mas tal rigor sendo necessário para mantê-los sob o jugo, já que ultrapassam de longe, em número, a população branca. Os escravos podem alforriar-se legalmente quando indenizam seus senhores do que lhes custaram. Isto, para muitos, não é difícil porque têm a liberdade de procurar trabalho mediante o pagamento de uma prestação. Mas o negro pensa raramente no dia seguinte e, quando logra ganhar alguns vinténs gasta-os logo bebendo. Suas necessidades são mínimas, de resto. A roupa praticamente nada lhes custa e eles podem manter-se muito bem com 80 a 100 réis diários.

Rita, decantada beleza negra no Rio de Janeiro, aquarela, 1822

CARACTERÍSTICAS DOS NEGROS

Conquanto não vá contestar que entre eles possa haver gênios e os tem havido, qual um Toussaint [L'Ouverture, líder da Revolução Haitiana], um Cristoph [Rei do Haiti], etc. nenhum observador de espírito aberto poderá negar que esta raça se encontra como que na meninice e se caracteriza por uma típica apatia que a inabilita para qualquer alto sentimento moral, só lhes deixando a inconsciente alegria da infância, pelo que nunca pensam no dia seguinte, sendo incapazes de qualquer vocação duradoura; na realidade só querem comer, dormir e amar. Isto se observa sobretudo entre os negros nascidos na África, mesmo quando chegados novos.

Castigando negros no Calabouço, aquarela, 1822

MAU CHEIRO

Seguimos agora ao longo da praia ou do cais. A praça a que vamos dar [atual Praça XV], fica repleta até os muros de artigos postos à venda, toda sorte de lenha, bananas, tremoços, mandioca, feijão, etc. Aí prevalece um cheiro insuportável tal a imundície que nela se acumula, pois no Rio não há esgotos nem latrinas; tudo o que sai das casas é aqui em parte descarregado pelos negros no mar, para que as marés levem o que elas alcançam.

AGUARDENTE

Recém-destilada. a aguardente é uma bebida nociva que só as classes baixas e os negros consomem, mas quando envelhecida algum tempo perde essas propriedades maléficas. Velha, pareceu-me mesmo de gosto excelente.

CRUELDADE DAS MULHERES

Correu há dias o boato de que uma senhora, conhecida pela sua crueldade, havia morto a pancadas uma de suas escravas. A reação foi tão generalizada e rumorosa que as autoridades, informadas, deram-lhe ordem de prisão. É verdade que ela logo conseguiu sair; todavia por este exemplo se verifica que conduta assim escandalosa não passa sem punição. Contudo parece ser verdade e é curioso que quase todas essas desumanidades aqui praticadas contra o negro partam das mulheres. O elemento feminino da população trataria os escravos com mais dureza que o masculino. Que capítulo edificante não poderia escrever algum inimigo da mulher sobre qual seria a sorte de nós homens se o belo sexo também mandasse na sociedade!

Dança de negros na rua, aquarela, 1822

BARULHO DAS RUAS

Entretanto, meus ouvidos europeus não se conciliam é com o barulho das ruas. Bem cedo, às cinco horas começa o espetáculo.
Primeiro, um retumbante tiro de canhão da Ilha das Cobras estremece as janelas e obriga-me a despertar, conquanto a escuridão seja ainda total. Às cinco e meia, um corneta da guarda policial, vizinha, soa a alvorada e de que maneira dissonante! Logo a seguir badalam os sinos por toda a cidade, especialmente os da Candelária, justo ao lado, tão ruidosa e demoradamente como se quisessem acordar os mortos. Nos dias santos, soltam, ainda por cima, rojões às dúzias, para que os fiéis não durmam a primeira missa. Às seis em ponto, passam os presos a buscar água, rangendo as correntes. Os papagaios, de que a redondeza está saturada, soltam seus gritos estridentes e, antes mesmo das sete, a ralé dos cangueiros e vendilhões já está de pé a tagarelar e a berrar.

Extraindo um bicho-de-pé, aquarela, 1822

INSETOS

O que incomoda de mais o forasteiro é a variedade de insetos que o apoquentam. Malgrado estar eu morando em casa nova, que mantenho na maior limpeza, logo se infiltraram inúmeras baratas. Não é que causem danos, mas são repugnantes como as nossas tarakanen [tenebrião].

FALTA DE BELEZA DAS MULHERES

Pude ver nessa oportunidade grande número de mulheres, confirmando-se minha primeira impressão de que, entre as naturais do país, poucas mostram beleza de traços; em compensação não lhes faltam olhos bonitos, negros e expressivos. Sua compleição amarela e descorada, porém não as favorece. Deste ponto de vista, as mulatas, no geral, mostram uma coloração mais viva, em nada desagradável. Quanto às negras, pouquíssimas chamam a atenção.
[...]
Quando jovens são bastante esbeltas, apesar de não usarem cintas ou raramente, mas têm forte inclinação para a gordura, logo perdendo este encanto.

D. Pedro I no dia de sua coroação no Rio de Janeiro, aquarela, 1822

DOM PEDRO I

D. Pedro I, Imperador e Defensor Perpétuo do Brasil – assim reza o seu título – é um jovem de vinte e poucos anos, de ótima constituição física, presença sem dúvida imponente e traços aristocráticos. No geral, tem um ar sobranceiro sem ser sombrio, e é dotado, de mais a mais, de coragem e pertinácia. É certo que sua educação foi muito descurada e lhe faltam conhecimentos científicos, mas parece que ele se dá conta dessa falha e faz o possível por superá-la.
[...]
Em tais circunstâncias, não é coisa fácil, na verdade, tomar as rédeas do governo, tanto mais quanto se vive perenemente sob a ameaça direta ou indireta de um ataque de Portugal. Ninguém ousa confiar no próximo e, além do mais, o tesouro do Estado atravessa terrível maré baixa de que só o tempo e uma boa administração poderão safá-lo. O Imperador faz o que pode. Com coragem pessoal e enérgica conduta soube infundir respeito àqueles de seus súditos que não conseguiu levar por bem; mostra-se sempre e de bom grado ao povo, tendo sabido impor-se; inspeciona em pessoa e amiúde a Alfândega, o Arsenal e outras repartições. Onde surpreende operários desocupados, castiga-os a bengaladas com as próprias augustas mãos, como eu mesmo presenciei no Arsenal.
[...]
Assim, é bem sabido que se ele chega a casa com fome e encontra seus criados à mesa, participa sem a menor cerimônia da refeição; também quando toma banhos de mar em Botafogo, o que é sempre motivo para atrair curiosos, diverte-se o Imperador em brincar com as crianças, jogando-as na água; outras vezes sai a passeio, muito à vontade, pela praia in puris naturalibus [em estado de natureza, ou seja, nu], deixando que desconhecidos lhe beijem as mãos, o que às vêzes acontece na presença de mulheres.

EXECUÇÃO DE UM CRIMINOSO

Acabo de assistir a uma cena verdadeiramente horripilante: a execução de um criminoso. [...] A execução teve lugar no Morro da Conceição, onde foi levantada uma forca. Cheguei lá justo no momento em que aquele já estava sobre o catafalco, as mãos atadas, o rosto escondido por amplo capuz que o tornava invisível; um padre à frente fazia sua exortação e dois negros desempenhavam as funções de carrascos. Tinham-lhe amarrado a corda ao pescoço, mas tanto demoraram os dois diabos na terminação dos seus preparativos que foi, sem dúvida, uma falta de humanidade deixar o delinquente nessas condições, que na certa equivaleu a dez suplícios o tempo levado nesses vaivéns. Finalmente, foi ele empurrado do estrado, enquanto um dos negros pendurou-se de seu pescoço para quebrar-lhe a nuca, tudo terminando depois disso.

Vista do Pico do Corcovado, perto do Rio de Janeiro, aquarela, c. 1822

SUBIDA AO CORCOVADO

Depois elo desjejum, subimos o Corcovado, o pico mais alto nas imediações do Rio, que não fica longe dessa plantação. A subida é muito difícil e cansativa, mas quando se chega ao cume, somos mais que compensados pelo imenso panorama que de lá se descortina. O oceano perde-se no infinito, o Rio e seus arredores ficam aos nossos pés.

SEGURANÇA PÚBLICA

A segurança pública é mantida com rigor por soldados que patrulham as ruas toda a noite e, fora alguns roubos insignificantes, não ouvi falar, durante minha permanência de três meses, de nenhum atentado, posto que se pretenda que muitas dessas patrulhas, compostas de brasileiros, cometam elas mesmas excessos. Várias vezes circulei, tanto de dia como de noite, mesmo pelos arrabaldes afastados, sem ser jamais molestado. Escusado é dizer que ninguém deve se expor afoitamente, pois que em cidade alguma escapará incólume ao perigo.

Um eclesiástico do Rio de Janeiro, aquarela, 1822

EDUCAÇÃO

De modo geral, a educação que recebe a gente da terra é deficiente. Mesmo nas melhores famílias, os jovens são malcriados e preguiçosos e, como nessa idade, entregam-nos aos cuidados dos escravos, com estes se parecem sob muitos aspectos. Se um rapaz aprende a ler, escrever e contar, dão por terminada sua educação: outros conhecimentos são grego para ele. Igualmente, no que respeita à moral, sendo da mesma forma seus mestres os negros e, como estes têm na infidelidade, na preguiça e na licença uma segunda natureza, pode-se imaginar que formação imprimem em seus discípulos.
[...]
A educação das jovens ainda é mais desleixada, se possível, já que, até casarem, pouco saem de casa, salvo para ir à missa: contatos com o outro sexo são-lhes proibidos. A educação que recebem é das mães, não menos ignorantes, e das escravas.

DIVERSÕES PÚBLICAS

No que concerne a diversões públicas, a situação é lamentável; na verdade, não existem de todo. O brasileiro costuma sentar-se, de noite, à porta da casa para fumar o seu charuto; quando muito vai até a praia ou ao Largo do Paço respirar a aragem do mar, mas raramente o acompanha a família.


Vista de perto do Rio de Janeiro, aquarela, 1822