18.3.17

CINE ÍRIS: O CINEMA MAIS ANTIGO DO RIO DE JANEIRO

"Das Cine Iris" é uma 111 atrações inusitadas do livro 111 Orten in Rio de Janeiro die man gesehen haben muss (111 lugares no Rio de Janeiro que a gente tem que ter visto) da jornalista alemã Beate C. Kirchner. A autora sugere que se faça a visita entre 9:30 e 10:00, antes de começarem os filmes (e as bolinações?).



O Cinema Iris fotografado por Augusto Malta em 11/12/1921, provavelmente na reinauguração, já que a fachada está toda decorada. Aliás matéria no Jornal do Brasil de 16/12/1921 confirma que a reinauguração ocorreu nesse ano, e não em 1919, como sustenta o site do INEPAC, nem em 1922, como afirmam várias fontes.

O Cinema Iris de manhã cedo, antes de abrir (que foi o horário em que visitei)

O cinema mais antigo em funcionamento  no Rio (e um dos primeiros cinemas a serem abertos na cidade) é o Cinema Íris, na Rua da Carioca, 49. Quando foi inaugurado, em 30 de outubro de 1909, pelo empresário João Cruz Júnior, chamou-se Cinema Soberano, em homenagem a um famoso cavalo da época. Segundo o site do INEPAC, o cinema era “pequeno, com acomodações para cerca de duzentas pessoas. Dividia-se em 1ª e 2ª classe, separadas por grade de ferro. Tinha espaço para abrigar duas orquestras, uma no interior da sala de projeção e outra na sala de espera, tocando para distrair os frequentadores e prevenir tumulto, em caso de atraso”. Em 1914, foi transformado num teatro de variedades, o Theatro Victoria, “que apresentava tanto companhias famosas quanto seriados, atraindo um público fiel que incluía Rui Barbosa”, também segundo o INEPAC. Em 1921 sofreu uma reforma a cargo de Emílio Baumgarten, que se utilizou do ferro para estruturar o cinema e aumentar sua capacidade para 1.200 lugares. Ganhou um terceiro andar (como mostra a foto de Augusto Malta acima) e a ornamentação art nouveau  que se vê até hoje. Adotou então o nome Cine-Theatro Iris em virtude de um painel dessa deusa, personificação do arco-íris, que ficava na entrada (ver O Globo, 16/10/2009, Segundo Caderno, p.5). 

Anúncio da inauguração do Cinema Soberano no Jornal do Brasil de sábado, 30 de outubro de 1909

Originalmente exibia atrações de palco e de tela. Por exemplo, no jornal O Paiz de 8/8/1924, lemos à pág. 7 (converti o texto à ortografia atualmente vigente, exceto os nomes do cinema e dos artistas):

Continua [sic] sob enorme êxito os novos números de variedades que o Cine Theatro Iris vem apresentando ultimamente no seu espaçoso palco.
Além do inigualável cômico caipira Jeca Tatu, as duetistas Hermanas Iris, a cantora lírica La Rosolen, o Iris apresenta o extraordinário repentista de Chocolat, a rainha da melodia Yvogan e a genial pequena dançarina Elis.
É um conjunto de sete artistas ao todo, apresentando respectivamente doze lindo [sic] e interessantes números, todos muito bem apresentados pelos novos cenários e pela boa música.Não esquecida a parte cinematográfica o Iris ainda oferece uma boa comédia, um belo “film” instrutivo e a magistral obra-prima da Fox “O preço do luxo” de Hope Hampton.
  
Porta para o balcão

Luminária na fachada. Os prédios atrás não existiam quando o cinema foi inaugurado.

Escadas de ferro em preto e branco dignas de um filme noir

Por volta dos anos 1950 o cinema começou a exibir filmes de bangue-bangue, depois passou pelo kung-fu, pela pornochanchada e, no final dos anos 1970, optou por filmes pornô franceses, já que não existiam filmes nacionais do gênero, informa Raul Pimenta Neto, bisneto do fundador, na reportagem de O Globo de 16/10/2009 já citada. “Naquele período, a Censura era muito forte e não queria que exibíssemos pornografia. Nós funcionávamos com autorização de uma liminar da Justiça.” (Para ler a matéria completa, que também saiu no Extra, clique aqui.) “Na década de 1990, quando as salas de rua começaram a entrar em crise por causa da pirataria, os cinemas pornôs também sofreram. Nós só conseguimos nos manter melhor por causa dos shows de strip. Era um diferencial que outros não tinham”, explica Pimenta Neto.

Em torno dos anos 1960 o cinema virou ponto de encontro de "bichas", como se dizia na época, assim como o cinema Alaska, na galeria Alaska, Copacabana, depois convertido em templo protestante. Em 1982 a gerência do cinema tentou reverter a tendência, como lemos em O Globo de 4 de maio de 1982. “O Cinema Íris, um dos mais antigos do Rio de Janeiro, vai adotar uma nova política de marketing para mudar a sua imagem. Ponto de encontro de homossexuais, o cinema está, desde ontem, com entradas franqueadas para mulheres. [...] Uma das oito herdeiras do Íris, Nezy Cruz Sampaio, estima que atualmente para cada mulher, entram 150 homens no cinema. Ela pretende adotar, em breve, uma série de medidas em benefício da campanha de moralização do local”, informa a matéria. Parece que a campanha não surtiu efeito.

Saguão visto do balcão 

Azulejos art nouveau pintados a mão

Azulejos art nouveau, painel de madeira de lei e espelho de cristal, luxo digno de uma Colombo

Escada e guarda-corpo de ferro trabalhado

A coluna do Ancelmo Gois de 22/3/2015 conta que o secretário municipal de cultura do Rio, querendo ajudar um jovem cego que estava do seu lado no metrô, ofereceu-se para conduzi-lo ao seu destino, que era a Rua da Carioca, 49. Em lá chegando, “qual não foi a surpresa do secretário ao descobrir que no endereço funciona o rodado Cine-Theatro Íris, onde passam filmes pornôs, esquentados por shows de strip tease ao vivo.”

O cinema foi tombado pelo Instituto Estadual do Patrimônio Cultural (INEPAC), em 14/6/1978. Em 30 de outubro de 2009 comemorou seu centenário, ocasião em que filmes mudos foram exibidos com entrada franca e um bolo foi cortado no meio da rua. Nessa ocasião tirei algumas fotos que integram esta postagem. As demais fotos foram tiradas no sábado, 18 de março de 2017, de manhã cedo, antes do início das sessões, por especial gentileza da gerência da casa. Um dos gerentes (o da foto), conversando comigo, disse que se esforça por equilibrar receitas e despesas e, assim, evitar que o cinema se transforme em mais um templo evangélico, destino de tantos cinemas de rua da Cidade Maravilhosa. Amém!

Uma pergunta final: o Cine Íris, além de ser o mais antigo em funcionamento, teria sido o primeiro cinema inaugurado na cidade? A resposta é não. O jornal O Paiz de 10 de dezembro de 1909, ou seja, menos de mês e meio após a inauguração do Cinema Soberano, lista na pág. 4 os seguintes cinemas então em funcionamento. Observe que vários são mais antigos que o Soberano (Íris): 

  • Ciné Radium: Rua do Catete, 96, inaugurado em 2/12/1909.
  • Cinema Carioca: Largo da Carioca, 16. Inaugurado em 10/7/1909 propondo-se a "exibir as fitas cinematográficas no que existe atualmente de mais aperfeiçoado", como vemos na pág. 4 da Gazeta de Notícias daquele dia.
  • Cinema Cattete: Rua do Catete, 279, reaberto em 29/8/1909 conforme anúncio em O Paiz do dia anterior, onde na noite de 11 de setembro de 1909 "manifestou-se um princípio de incêndio na 'cabine', sendo extinto a baldes d'água", como informou O Paiz do dia seguinte. A referência mais antiga a esse cinema que encontrei foi no Correio da Manhã de 7 de março de 1909. Em 17 de dezembro daquele ano O Século publicou na primeira página esses versinhos assinados por Ferrão, na coluna "Vespas": "Ó que tristeza infinita / Que sexta-feira cacete! /Não houve nem uma fita / No cinema do Cattete!"
  • Cinema Ideal: Rua da Carioca, 62, cuja fachada sobrevive até hoje e que foi inaugurado em 2 de outubro de 1909, como informam as Efemérides Cariocas de Neusa Fernandes e Olinio Gomes P. Coelho. O jornal O Paiz do dia seguinte informou na pág. 3 que "mais uma excelente instalação cinematográfica conta a nossa capital, e está num ponto dos mais cômodos, servido por um sem número de bonds".
  • Cinema Odeon: no Palacete Guinle, à Av. Central, esquina Sete de Setembro, portanto diferente do Odeon da Cinelândia. Inaugurado em 16 de agosto de 1909 conforme lemos em O Paiz do dia anterior, "dispondo de aparelhos os mais aperfeiçoados".
  • Cinema Palace: Rua do Ouvidor, 149. Inaugurado em 7/2/1908 "com cadeiras modernas, próprias para cinematógrafos", como informou o Correio da Manhã do dia seguinte à pág. 2.
  • Cinema Soberano: atual Íris.
  • Cinema Sul America: Rua Visc. do Rio Branco, 37. Inaugurado em 26 de setembro de 1909, conforme anúncio no Jornal do Brasil daquele dia, com o seguinte "sumptuoso programma": Cantora de Veneza, Irmãos Gêmeos, Suas Recordações, Sacrifício de um Médico ou Escravo do Dever e Santiago, o Afortunado.
  • Cinema-Theatro: Rua Visc. do Rio Branco, 53. Já funcionava em 10 de abril de 1909 como informa o semanário Rua do Ouvidor daquele dia.
  • Cinematographo Avenida: Antigo Café Frontin, na Av. Central, 155. Em 28/11/1907 já funcionava, como vemos em anúncio na pág. 12 do Jornal do Brasil daquele dia, prometendo "projeções nítidas, espetáculos maravilhosos, verdadeira fábrica de gargalhadas, novidades constantes".
  • Cinematographo Brazil: Praça Tiradentes, 1 - sobrado, que em 28/11/1907 já funcionava, como vemos em anúncio na pág. 12 do Jornal do Brasil daquele dia, prometendo "programa variado" e "seis fitas novas", entre elas A astúcia do marido, Mulher de bigode e A chapeleira feliz.
  • Cinematographo Ouvidor: Rua do Ouvidor, 97, que já existia em 1907 como atesta um anúncio na pág. 12 do Jornal do Brasil de 28 de novembro de 1907; depois de uma reforma reabriu em 4 de abril de 1909 como uma "casa chic", como informou o Correio da Manhã.
  • Cinematographo Paraiso do Rio. Av. Central, 105, esq. Rua do Rosário. Em 12/10/1907 já estava funcionando, com um "maestro regente de orquestra", como informa o Jornal do Brasil daquele dia.
  • Cinematographo Paris: Praça Tiradentes, 38. Em 14/6/1908 já funcionava, como vemos na pág. 8 de A Imprensa daquele dia.
  • Cinematographo Parisiense. Av. Central, 179. Em 17 de agosto de 1907 já anunciava no Jornal do Brasil "SESSÕES DIÁRIAS / Nos dias úteis das 6 da tarde até meia-noite / Nos domingos de 1 1/2 até meia-noite" com "mudança de programa" na terça-feira, o primeiro anúncio que consegui localizar de um estabelecimento funcionando regularmente como cinema, embora exibições esporádicas do "cinematographo" em teatros ou ao ar livre (p.ex., no Passeio Público) já ocorressem desde o início do século. Teria sido portanto o Cinematographo Parisiense o primeiro cinema carioca?  
  • Cinematographo Pathé. Av. Central, 147 e 149, portanto diferente do Pathé que funcionou depois na Cinelândia. Em 28/11/1907 já funcionava, como vemos na pág. 12 do Jornal do Brasil daquele dia.
  • Cinematographo Rio Branco. Rua Visc. do Rio Branco, 40, que já existia em 1907 como atesta um anúncio na pág. 12 do Jornal do Brasil de 28 de novembro de 1907.
 Desde o início do século ocorriam exibições esporádicas do "cinematographo" como esta num concerto no Parque Alcazar anunciado no Jornal do Brasil de 4 de dezembro de 1900 (décima linha), mas parece que só em 1907 surgiram estabelecimentos funcionando regularmente como cinemas (embora apresentassem também "atrações de palco").
Notícia da exibição do filme de Georges Méliès Viagem à lua no Teatro São Pedro, publicada na seção THEATROS do suplemento literário A Estação de 15 de abril de 1903

Mas na lista de O Paiz o Cinema Soberano (Íris) constava como  "o mais elegante do Rio". E embora hoje esteja distante de seu apogeu, conserva um tesouro em azulejos art nouveau, escadarias e grades de ferro, espelhos de cristal, painéis de madeira de lei e pisos de pastilhas, como mostram as fotografias do editor do blog.



O gerente diante de sua sala

Azulejos esmaltados em duas cores comuns no início do séc. XX

Guarda-corpo em serralheria no balcão. Embaixo a Rua da Carioca.

Velhos tempos (foto da inauguração pendurada numa parede do saguão do cinema)

Retrato de um dos fundadores

Luminária e retrato de outro dos fundadores

Azulejo com rosa no centro

Piso de pastilhas

Bombonière e geladeira com bebidas, com o fotógrafo refletido no espelho atrás


ANEXO: QUATRO FOTOS DO CENTENÁRIO DO CINEMA, EM 2009






11.3.17

RIO VERSUS SAMPA

I - SEGUNDO NELSON RODRIGUES


Passei, no princípio da semana, dois dias em São Paulo. Com duas horas, e não mais, percebi que há, realmente, um fatal abismo entre o carioca e o paulista. Foi no almoço que percebi toda a verdade. Imaginem que entrei no, talvez, melhor restaurante da cidade. Todas as mesas ocupadas, gente até no lustre. Comi o meu bom filé. Depois, escolhi a sobremesa: melão. Enquanto o garçom ia e vinha, levantei-me e fui lá dentro. Quando volto, olho e não vejo ninguém, a não ser os garçons e as moscas vadias.

Imaginei-me vítima de uma alucinação. Quando o garçom chegou com o melão, perguntei-lhe, irritado: 
"Cadê o pessoal que estava aqui? Isso não estava cheio?” O garçom pôs o prato na mesa:   Perfeitamente.” E eu: “Não tem mais ninguém, por quê?” Antes de responder, indagou: “O senhor é do Rio?” Era do Rio. Deu a explicação sucinta e lapidar: "Aqui, trabalha-se.”

O que, evidentemente, não se dá no Rio. No Rio, três amigos que se juntam num restaurante só saem quatro horas depois. No mínimo, no mínimo. Ah, os nossos papos não acabam nunca. Mentimos muito, porque não há longa conversa sem um belo repertório de mentiras. E porque trabalha, o paulista é triste, sim, é taciturno. E o nosso horizonte é luminoso e profundo, ao passo que São Paulo não tem horizonte, simplesmente não tem horizonte. Ou por outra: o horizonte paulista está a cinco metros do sujeito e é uma parede. Durante as 48 horas de São Paulo, eu sentia a insuportável falta de alguma coisa. De alguma coisa que eu não sabia o que era. Seria da gravata, ou dos sapatos, ou da bengala? Esta eu não uso e a gravata e os sapatos estavam nos lugares próprios.

E, súbito, descubro: o que me faltava era a paisagem. Tenho um amigo carioca, radicado em S. Paulo, que, de vez em quando, apanha o carro e vem para o Rio, numa velocidade uniforme de 180 quilômetros. Um psicanalista já o advertiu: “Rapaz, você está querendo morrer.” Simplesmente, ele vem ao Rio olhar o poente do Leblon. A falta que eu sentia, mais do que uma paisagem qualquer, era do poente do Leblon. São Paulo não tem poente (trecho da crônica “Uma Paisagem sem Paulistas”).

II- SEGUNDO RODRIGO CONSTANTINO


Sou “carioca da gema”, então posso criticar a minha “cidade maravilhosa” à vontade. E venho fazendo isso faz tempo, para desespero de meus colegas bairristas e provincianos, que precisam repetir que o Rio é a sétima maravilha do planeta, ignorando sua decadência cada vez maior. É um problema de mentalidade mesmo, como mostro em Brasileiro é Otário? – O alto custo da nossa malandragem.
O Rio é a capital nacional da malandragem, do jeitinho brasileiro, dominado por “intelectuais” socialistas, artistas engajados e servidores públicos acomodados. O Rio representa tudo aquilo que há de pior no Brasil: a confusão entre “descolado” e vagabundo, o enaltecimento da marginalidade, a elite culpada que “adora” as favelas (de longe e chamadas pelo eufemismo de “comunidades”) etc.
É a extensão do Projaquistão, como Alexandre Borges magistralmente se refere ao mundo encantado dos globais fechados em sua bolha. O estado em que Heloísa Helena, do PSOL, mais teve votos no país, ou que deu vitória folgada para Dilma, ou que quase elegeu Marcelo Freixo, outro socialista, para o comando da Prefeitura (e acabou levando o bispo Crivella, só um pouco menos pior). O quintal da esquerda caviar, de Chico Buarque e companhia.
Pois bem: tudo isso tem um elevado custo. Nenhum lugar fica impune de tanto descaso, tanta inversão de valores, tanta indecência moral. Querem atacar os empresários e endeusar o estado? Querem cuspir no capitalismo? Querem vender hedonismo e destruir as tradições? Querem disseminar vulgaridade? Querem elogiar pichadores como se fossem artistas? Então toma! Eis aí o resultado: um fracasso experimental dominado pela bandidagem.
E cada vez mais empresários e trabalhadores indo embora, abandonando o caos, o inferno, a insegurança, a mentalidade provinciana e estatizante. Enquanto isso… São Paulo, ícone dos “otários” que só pensam em trabalhar, dos “coxinhas” nada “descolados” que não sabem aproveitar a vida, segue atraindo investidores, empresas, empregos!
João Dória venceu no primeiro turno e com uma agenda de renovação e reformas profundas, impondo novo ritmo ao governo, combatendo os vagabundos. E o homem, que veio da iniciativa privada, sabe como ninguém como vender seu peixe.
São Paulo preparou o “maior programa de privatização da história”. Enquanto isso, no Rio nem mesmo a Cedae consegue ser vendida, pois o próprio PSDB, partido de Dória, une-se ao PSOL para impedir sua privatização. Pergunto: como o Rio pode dar certo? Como pode ir para frente com uma mentalidade dessas? Quem nasce para lagartixa nunca chega a jacaré…
Já disse uma vez e repito: se eu fosse voltar ao Brasil agora, não escolheria voltar ao Rio, onde vivi por 38 anos, mas para São Paulo ou Curitiba. O Brasil cansa, como digo no já conhecido bordão. Mas o Rio cansa em dobro! O Rio desespera. O Rio é vermelho demais. A esquerda caviar resolveu brincar de laboratório com o estado, e “deu ruim”. O abismo entre São Paulo e Rio ficará cada vez maior, a ponto de até os mais “malandros” cariocas perceberem. Poderá ser tarde demais…

III- SEGUNDO DOMINGOS FRAGA


São Paulo ou Rio: qual a melhor cidade para viver?


Carioca da Ilha do Governador, nascido por acaso em Botafogo, cheguei a São Paulo, em novembro, de 1989. Era editor do falecido jornal Última Hora. Aceitei um convite generoso e vim trabalhar no também já falecido Diário Popular. Fui morar no Largo do Paissandu, próximo à antiga sede da Polícia Federal. No início, achei tudo aquilo muito feio, mas, pelo menos, parecia seguro. O Rio passava por uma fase braba. Falido, sujo e perigoso. Mesmo assim, esperava ansioso pelo sábado quando, finalmente, voltava para aquela decadência maravilhosa.
São Paulo ainda era a terra da garoa e, como eu trabalhava só depois das cinco da tarde, aproveitava minhas horas livres e chuvosas para ir ao cinema e comer; comer e ir ao cinema. Nesse ritmo, lentamente, fui me apaixonando pelo que São Paulo tem de melhor. A gastronomia e a cultura. Pegava um ônibus e saía sem destino; a esmo. Quando percebia que a vizinhança não era tão hospitaleira, descia e voltava. Anos depois, por razões profissionais,  voltei a viver no Rio, fiquei seis meses, me casei, e retornei para São Paulo. Morei em dez bairros e, em todos, me senti bem.
Adoro as duas cidades e tenho a presunção de achar que conheço-as bem. Por isso, fico entediado quando vejo debates acalorados sobre qual cidade é melhor. Para valorizar uma, detona-se a outra. É uma rixa xexelenta, ultrapassada, que, hoje, só cabe no futebol, e, mesmo assim, com ressalvas. Para falar mal de algum lugar, a gente precisa, no mínimo, ter conhecido este lugar e sua gente. Mas, geralmente, não é o que acontece quando discutimos sobre Rio e São Paulo. Estereótipos imbecis  como são imbecis quase todos os estereótipos  alimentam uma rivalidade tola.
Passados 24 anos da minha chegada, ainda ouço comentários maldosos sobre a violência carioca. E, como é notório, São Paulo ostenta um padrão suíço na área da segurança. Nós, cariocas, ainda somos esssspertos, marrentos e preguiçosos. Mas, se alguns não sabem, fiquem sabendo. Wanderlei Luxemburgo nem carioca é.
Muitos justificam o que seria a nossa pouca vontade com o trabalho pelo grande número de banhistas nas praias. Ora, em qualquer cidade litorânea é assim. Se você está de folga, e a praia está logo ali, por que não usufruir dela, Mané? Pelo volume de carros que descem a serra nos finais de semana, imagino como seria a rotina do paulistano se tivesse qualquer coisa que lembrasse uma praia na cidade.
No Rio também se fala muita besteira sobre São Paulo. É sempre curioso quando levo algum amigo carioca para a minha casa. Ele olha as árvores frutíferas do jardim com o mesmo espanto, creio, dos que veem os moais da Ilha de Páscoa. São Paulo é muito mais do que a selva de pedra do senso comum. Para quem, de fato, quer sentir a alma da cidade, recomendo passeios simples, como ir ao Mercado Municipal, ver porque a Praça do Pôr do Sol tem esse nome, percorrer a Galeria do Rock, andar pelas ruas coloridas da Liberdade.
Essa rivalidade só tem alguma graça quando é tratada de maneira engraçada. Ora, pois. Uma vez perguntado sobre o lugar mais estranho onde fez amor, Bussunda respondeu: "São Paulo". Ou quando sai da boca de um gênio, como Nelson Rodrigues. “A companhia de um paulista é a pior forma de solidão”, bradava o nosso eterno anjo pornográfico.
Quando me pedem para comparar Rio e São Paulo, faço a seguinte analogia. O Rio de Janeiro é como aquela mulher jovem, linda, estonteante, que te seduz de cara. Após algum tempo, você percebe que ela prefere vinho "doce", não sabe nada de Pessoa, muito menos de Alberto Caeiro, dorme de boca aberta e acorda de mau humor. Mas, diante de tanto deslumbramento físico, nada disso importa.
Já São Paulo é aquela mulher de passado glorioso, porém com sinais evidentes da ação da lei da gravidade. E daí? Ela declama Baudelaire, sabe que Figueroa foi o maior de todos, pagou a faculdade cantando nas ruas de Munique, e se sente plena quando ouve Lupicínio nos botecos da Vila Madalena. Dito de outra maneira, o Rio é a paixão à primeira vista; São Paulo precisa de tempo. Temos de ter paciência para revelar toda a sua exuberância e, assim, amá-la de fato e com a grandeza que merece.
Tenho uma amiga, a jornalista Márcia Cunha, que, embora nascida na mais paulista das avenidas, acha que veio ao mundo nas areias de Ipanema. É dela uma frase preciosa para tentar entender as duas maiores metrópoles brasileiras. "O Rio é o amante. São Paulo é o marido". E faz um adendo, que explica tudo: "mas aquele marido dos bons, que, por mais que a gente brigue, sempre quer voltar”.
E você tem resposta para a pergunta lá de cima? Eu prefiro as duas.

PS. do editor do blog: Sampa abriga o melhor museu de arte do hemisfério sul do planeta Terra

1.3.17

O MORCEGO, de LIMA BARRETO (com fotos do Carnaval carioca de 2017)


Todo ano faço aqui neste blog uma crônica do Carnaval, para recordar quando ficar velhinho (aos 65 anos estou longe disso). O Carnaval da Sapucaí vocês devem ter visto na televisão. O maior espetáculo da Terra, feito por gente humilde, do morro. O paradoxo brasileiro. Mas em época de crise sai mais em conta o Carnaval de rua. Ano após ano o Carnaval nos logradouros cariocas se agiganta. A cidade vira um enorme parque de divertimento. Com a nova orla no Centro, o VLT e a Rio Branco repaginada o Centro ganhou vida nova, e no Carnaval isso ficou ainda mais patente. As ruas são do povo como o céu é do condor. Este ano, com o Carnaval caindo no final de fevereiro, quando o auge do calor já havia passado, deu para curtir a folia diurna (sem o "sol inclemente" da crônica abaixo). Chegou até a chover um pouquinho no domingo. Engraçado ver o Centro, por onde geralmente circulam pessoas sérias em seus afazeres diários (ou turistas), tomado de assalto por foliões fantasiados. As fotos contam o resto. E vai de quebra texto de Lima Barreto sobre o Carnaval, publicado originalmente no Correio da Noite no início de 1915 e que O Globo reproduziu quatro dias atrás junto com mais quatro textos de grandes escritores sobre os festejos de Momo. Para acessar clique aqui.

Filhos de Gandhi na Zona Portuária

O MORCEGO, de LIMA BARRETO

O carnaval é a expressão da nossa alegria. O ruído, o barulho, o tantã espancam a tristeza que há nas nossas almas, atordoam-nos e nos enche de prazer.

Todos nós vivemos para o carnaval. Criadas, patroas, doutores, soldados, todos pensamos o ano inteiro na folia carnavalesca.

O zabumba é que nos tira do espírito as graves preocupações da nossa árdua vida.

O pensamento do Sol inclemente só é afastado pelo regougar de um qualquer Iaiá me deixe.

Segunda-feira: roda de samba na Pedra do Sal 

Segunda-feira: concurso de turmas de fantasia  na Cinelândia

Há para esse culto do carnaval sacerdotes abnegados.

O mais espontâneo, o mais desinteressado, o mais lídimo é certamente o Morcego.

Durante o ano todo, Morcego é um grave oficial da Diretoria dos Correios, mas, ao aproximar-se o carnaval, Morcego sai de sua gravidade burocrática, atira a máscara fora e sai para a rua.

A fantasia é exuberante e vária, e manifesta-se na modinha, no vestuário, nas bengalas, nos sapatos e nos cintos.

E então ele esquece tudo: a pátria, a família, a humanidade. Delicioso esquecimento!... Esquece e vende, dá, prodigaliza alegria durante dias seguidos.

Nas festas da passagem do ano, o herói foi o Morcego.

Passou dois dias dizendo pilhérias aqui, pagando ali; cantando acolá, sempre inédito, sempre novo, sem que as suas dependências com o Estado se manifestassem de qualquer forma.

Ele então não era mais a disciplina, a correção, a lei, o regulamento; era o coribante1 inebriado pela alegria de viver. Evoé, Bacelar!

Jovens foliões

Jovem folião

Essa nossa triste vida, em país tão triste, precisa desses videntes de satisfação e de prazer; e a irreverência da sua alegria, a energia e atividade que põem em realizá-la, fazem vibrar as massas panurgianas2 dos respeitadores dos preconceitos.

Morcego é uma figura e uma instituição que protesta contra o formalismo, a convenção e as atitudes graves.

Eu o bendisse, amei-o, lembrando-me das sentenças falsamente proféticas do sanguinário positivismo do senhor Teixeira Mendes3.

A vida não se acabará na caserna positivista enquanto os “morcegos” tiverem alegria...

Correio da Noite, Rio, 2-1-1915.

1 Sacerdote da deusa romana Cibele, que dançava ao som de flautas, címbalos e tamborins.
2 Aquele que segue cegamente um chefe.
3 Raimundo Teixeira Mendes (1855-1927), pensador brasileiro, líder do Apostolado Positivista.

Saxofonista do Favela Brass Project em canja na Heineken Jazz Fest na Rua do Lavradio

Terça-feira: Concurso de turmas de bate bola na Cinelândia

A praça é do povo...

Mascarada

19.2.17

GRAFITES NA ZONA PORTUÁRIA: Team Refugees, ACME, Rodrigo Sini, Meton, Duim, Memi, Mario Band's, Cazé, Ment, Pakaio

O auge da arte musical é a chamada “música clássica” (a Santíssima Trindade Bach-Mozart-Beethoven), o auge da literatura é a obra de Shakespeare, o auge das artes plásticas foi o Renascentismo. Mas a arte não pode congelar, tornar-se “acadêmica”, tem que evoluir, romper padrões. Só que nem toda direção evolutiva é profícua. Assim foi que as vanguardas artísticas das primeiras décadas do século XX – dodecafonismo, abstracionismo e quejandos – acabaram se distanciando demais do gosto do público. Por isso, vejo com bons olhos a volta ao ideal estético da arte como beleza dos movimentos pós-modernos. Mas se alguém quiser conhecer o que de melhor se faz em termos de artes plásticas contemporâneas não é nos museus e galerias que deverá procurar, e sim nas ruas. Desde os primórdios desse blog mapeio a produção de grafites na nossa cidade (e um pouco também em outras cidades e até outros países). Se um dia alguém quiser escrever a história da evolução do grafite no Rio de Janeiro terá que recorrer ao meu vasto arquivo, já que, por ser arte (infelizmente) efêmera, grande parte das obras acabam sendo destruídas. Flanando neste último dia de horário de verão pela nova Zona Portuária revitalizada que nos legou Eduardo Paes, em frente ao Aqua Rio deparo com lindos grafites (que na verdade já estavam lá desde a época da Olimpíada) que vieram enriquecer minha já extensa coleção fotográfica, alguns dos quais exibo nesta postagem. Clique no label “arte nas ruas” ao final para ver outras postagens sobre o tema.

Gilzin-Faria. Uma viatura da guarda municipal "atrapalhou" a foto.

Team Refugees de Rodrigo Sini e Cety Soledade

Painel de ACME em frente ao AquaRio

Rodrigo Sini

Grafite de Meton (detalhe) perto do AquaRio

Duim

Memi

Mario Band's

Cazé

Ment

Pakaio (?)