26.9.08

MACHADO DE ASSIS: CEM ANOS DEPOIS




Na madrugada de 29 de setembro de 1908, morria Machado de Assis. Morreu em casa, como se morria na época (hoje se morre sedado e entubado no hospital), recebendo as últimas visitas. No dia anterior, visitou-o um moço desconhecido, que sem dizer uma palavra, ajoelhando-se ao lado de seu leito, tomou-lhe reverentemente a mão esquálida e beijou-a, retirando-se em seguida, sem dizer quem era. (Muitos anos mais tarde, soube-se que o rapaz anônimo se chamava Astrogildo Pereira, futuro comentador da obra de Machado.)

Filho de pais humildes - costureira branca nascida nos Açores e operário pintor de casas e dourador mulato forro (não-escravo), Machado de Assis nasceu no Morro do Livramento, Centro do Rio, na época local da chácara da viúva de Bento Barroso Pereira (daí a Ladeira do Barroso).

Autodidata, nunca cursou a universidade, o que não o impediu de tornar-se exímio tradutor, teatrólogo, crítico literário, jornalista, contista, folhetinista, romancista, poeta, dedicado funcionário de carreira do Ministério da Indústria, Viação e Obras Públicas e, na maturidade, fundador e presidente da Academia Brasileira de Letras. Vida metódica e visão do mundo cética (lia Schopenhauer), raramente viajou para fora do Rio de Janeiro, cenário de sua obra.
Sobre Machado, escreve Antonio Carlos Villaça: "A vida de Machado foi a passagem, a trajetória de Machadinho a Machado. Uma ascensão contínua. Moleque de morro, baleiro, pobre, mulato, gago, epiléptico, sem nenhuma escolaridade. E lia francês, inglês, alemão, latim, italiano. Quando morreu, aos 69 anos, aprendia grego. Que aplicação. Que seriedade. Que empenho. Que desejo de subir." (Trecho do meu livro A arte da escrita, que acaba de ser lançado pela Editora Ciência Moderna.)





Ao longo da minha formação, Machado de Assis foi-me inculcando a marca de um pensamento que, além de preservar preciosas concepções estéticas, reforçava-me a brasilidade. Sua vida, escassamente faustosa, destituída de lances arrojados, como aqueles que eu atribuía a Simbad, o marujo, inspirou-me, desde cedo, a coragem de lhe conferir uma dimensão simbólica, de ampliar sua presença na minha cidadania, de associá-lo as noções que eu podia ter de pátria. Daquela espécie de pátria que, modelada ao acaso, à mercê das emoções aleatórias, pode ser também tudo que se espera dela. Desde a mangueira do quintal dos avós, a paisagem da pequena aldeia, até o retrato de Machado de Assis dependurado nas paredes do Brasil. Palavras a esmo que, no entanto, me levam a considerar este brasileiro como a minha pátria. A pátria que tenho no coração, a representação que elegi à guisa de bandeira. A pátria do país que almejo ter. E não se estranhe semelhante convicção, se Machado de Assis, para tantos de nós, encarna um ideal que corresponde à medida de nosso humanismo. E por que não acreditar na pátria de Machado de Assis, na pátria de Homero, na pátria de Dante, na pátria de Camões, na pátria de Cervantes, na pátria de Shakespeare? (Trecho do discurso "O Brasileiro Machado de Assis" proferido por Nélida Piñon na abertura da exposição sobre Machado na ABL. Para ler o discurso completo clique aqui.)




Machado de Assis era inquietante. Conheci-o pessoalmente, eu era rapazola. Laranjeiras... O rio da Carioca a descoberto. Era particularmente pitoresco nas proximidades da casa do mestre. Uma casa que era um amor de simpatia. Porque era do mestre. A prova é que havia mais duas ou três iguais a ela e não eram a mesma cousa. Eu passava por lá sempre com um bruto respeito. O Brás Cubas fora escrito ali? Em todo caso o Dom Casmurro. A casa de Capitu. À tardinha havia sempre uma janela aberta na sala de visitas, a primeira janela à esquerda, e eu já sabia que havia um vulto de senhora, bonita cabeça de cabelos todos brancos, com um livro aberto nas mãos. Era Carolina, a esposa do mestre, que o esperava de volta do Ministério da Viação. Todas as noites quando eu ganhava a rua depois do jantar via passar um casal agarradinho: o mestre com Carolina. Machado de Assis dava a impressão de um homem muito tímido, muito discreto, incapaz da menor maldade. Seria bom? Era bom no sentido de não fazer a menor maldade a ninguém. Mas eu lhe tinha lido a obra inteira. E embora fosse um fedelho, não sei, Machado de Assis me inquietava. Aquela história do enfermeiro... O soneto “Suave mari magno”... Nos versos como no conto o gosto doentio de espiar o sofrimento alheio. E a psicologia dura, derrotista, insultante de quase toda a obra. Sempre o móvel egoísta, e ainda que limpo, inconfessável. Machado de Assis dava o sentimento desconfortante que aos olhos dele não adiantava ser bom, que era impossível fazê-lo reconhecer a generosidade de um nosso gesto de bondade, de dignidade ou de modéstia. (Trecho da crônica de Manuel Bandeira "Antonieta Rudge", de 1930, incluída no livro Crônicas inéditas I).




Era essencialmente bom e puro, de uma delicadeza e sensibilidade que não podia, por mais que o quisesse, acomodar-se à rudeza das cousas e dos homens. Essa mesma delicadeza e sensibilidade o fez tímido e aparentemente fraco, a ele que foi um forte. Contradição da natureza, que tão bem se exprimiu no genial humor de toda a sua obra.
[...]
Tinha o espírito forrado de uma filosofia forte, que lhe dera a própria vida e a cultura. Sabia que o que é, é porque tem de ser. Compreendia a maldade e a bondade, admirava o idealismo da regeneração humana, entendendo a sua inutilidade e ineficácia; não tinha nenhuma forma de religião e admitia e respeitava todas as religiões. Tudo era expressão humana, e não lhe cabia senão olhar e comentar os homens. [...] Era um puro, nobre e grande artista, superior às modalidades de escolas. Com o decorrer do tempo, agora que vai acabar a presença corpórea do escritor, crescerá a admiração da sua obra e ficará para sempre. (Mário de Alencar, filho de José de Alencar e segundo ocupante da Cadeira 21 da ABL, "Machado de Assis, páginas de saudades". As linhas acima foram escritas em 28 de setembro de 1908, dia anterior ao da morte de Machado. Para ler o texto completo clique aqui.)




A exemplo da irmã, seria plausível que Machado morresse ainda criança, das tantas pestes que vitimavam a população do Rio de Janeiro. Tão pobre, surpreende que tenha aprendido a ler e acumulado tanta cultura e conhecimento. Numa sociedade racista, com uma elite reacionária e ociosa, e ainda mais sofrendo de tantas enfermidades, seria ainda mais natural que jamais tivesse sido alguém, quanto mais o escritor e a celebridade que conhecemos hoje. Mas estaria em seus padecimentos o segredo de sua grandeza; ou em sua capacidade de superá-los? Só que aí temos de voltar à pessoa, ao ser humano, ao gênio — e este parece ser o elemento que mais desafia nossa compreensão... Machado de Assis foi um gênio, e nessa explicação que não elucida mas que conclui a questão talvez devesse se encerrar qualquer pergunta sobre o que originou sua obra.

Então, cada vez que você pegar um livro de Machado de Assis, deve se lembrar que tem nas mãos um milagre, algo que contrariou a adversidade, a lógica, a compreensão, as possibilidades. Mas, ali está. E você pode ler Machado de Assis, esse escritor, por diversas razões, miraculoso. (Luiz Antonio Aguiar, Almanaque Machado de Assis, pp. 58-9).

14 comentários:

Caminha disse...

Prezado Ivo,

Em fevereiro, a Associação Nacional de Escritores (ANE) retomará, aqui em Brasília, o programa das suas "Terças Literárias", com uma palestra em que falarei sobre "2008, o ano de Machado de Assis e de Guimarães Rosa". Por feliz coincidência, quando morria o romancista de "Quincas Borba" nascia o criador do "Grande sertão: veredas", de sorte que a literatura brasileira via um gênio passar o bastão a outro... Não nos esqueçamos de que, em 2008, comemoram-se, também, os 80 anos do nascimento de Antonio Carlos Villaça e de Maria Julieta Drummond de Andrade, entre outros registros marcantes. Temos, pois, muito que comemorar...

Abraço fraterno do amigo e leitor

Edmílson Caminha

Alexandre Core disse...

Ivo,

Você nunca perde a oportunidade de recordar e homenager o Machadão.
Excelente post!
abrs,

Anônimo disse...

Prezado Ivo!É muito grandioso saber que alguém com você dá VIDA e "SAÚDE" à obra do nosso escritor maior,MACHADO DE ASSIS!
Enquanto tiver alguém como você que divulga uma grande obra,ela terá sempre "SAÚDE E VIDA"!!!
Parabéns!!!
Siomara de Cássia Miranda

Waldir do Val disse...

Sempre cada vez mais vivo o Machado. Gostei de ler no seu blog sua chamada para o centenário de morte do nosso grande escritor, a comemorar-se a 29 de agosto, ou melhor dizendo, durante todo este ano. Você já deu uma idéia do que será feito pela Academia Academia Brasileira de Letras. Sabe-se que não foi ele o idealizador da instituição, título que deve caber a Lúcio de Mendonça, mas certamente, como primeiro presidente e grande esteio da ABL no seu ínicio, cabe a Machado de Assis o título de fundador-consolidador da ABL Casa de Machado de Assis, sempre foi e será a Academia. Certamente muitos e muitos prestarão homenagem ao escritor-maior da Literatura Brasileira. De minha parte, pretendo editar um número especial de minha revista POESIA PARA TODOS, focalizando o Machado de Assis poeta, uma das faces menos conhecidas, porém também muito interessante do nosso escritor.

Camomila disse...

Nasci e vivi no Rio até os 20 anos, e sempre amei a cidade desde menina. Vivi em Copacabana, até os 5 anos, e depois em Vila Isabel, até 1994.
Meu pai me ensinou a ver a beleza dessa cidade, em cada pedra, a história em cada sinal arquitetônico.
Fico feliz de ver que você está realizando algo que sempre quis fazer.
Já está nos favoritos. Abraço imenso, e continue o trabalho, que está incrível.

Iaiá disse...

Fiquei com mais saudades ainda do meu Rio..Lindo o blog, adorei!

Marilia disse...

Lindas cronicas, do Mario Bandeira e do Mario Alencar - uma completa a outra na apreciacao da figura humana de MA. Outro dia saiu no NYT uma materia sobre ele, mto bom artigo. Seu blog demora a entrar, entao nao vejo sempre, mas sempre que vejo, fico comovida, leio tudo, vale a pena. Parabens, seu trabalho eh precioso. Bjos

Anônimo disse...

Quando penso que o Brasil não tem jeito lembro de Machado de Assis e as esperanças se renovam.
Ivo, valeu!
Mariza Rebouças

Carlos disse...

Muito boa homenagem, Ivo, a Machado tão vivo em nossas letras. Parabéns. (enviado por e-mail)

Siomara de Cássia Miranda disse...

Prezado Ivo
Eu moro perto da casa onde morou MACHADO DE ASSIS(hoje é um edificío e tem uma pequena placa onde se lê que ali morou MACHADO DE ASSIS).
Sempre que passo perto desse prédio,eu leio a placa e faço uma reverência ao nosso GLORIOSO MESTRE JOAQUIM MARIA MACHADO DE ASSIS!VIVA MACHADO!!!
Mais uma vez,parabés pela bela matéria!
Siomara de Cássia Miranda

pime disse...

oi ivo
tenho 20 anos e sou fascinada pelas historias do machado de assis
as lei muito principalmente do DOM CASMURRO parabens adorei!!!!

Stella Cristina disse...

Adorei esta materia

Gosto muito da obras de Machado de Assis.

Minha turma do Centro Educacional Crescer em Aimorés-MG adorou a materia

Bjo p/ Mili minha fessora de Lingua Poertuguesa q nos ensetiva a ler obras e + obras de Machado de Assis

Bjocas ao povao de AIMORÉS
e a galera do Cetro Educacional Crecer

Eliane F.C.Lima disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Eliane F.C.Lima disse...

Parece que Deus, para nos compensar da perda do Machado, nos deu, naquele 1908, outro gênio, o Guimarães Rosa. Leio os dois da mesma forma, ficando arrepiada com ambos e sempre pensando: "Esse homem escrevia com iluminação divina".
Há pouco tempo fiz um ensaio superficial sobre o narrador em Machado - ali saliento a importância do narrador em primeira pessoa em "Dom Casmurro" - e as personagens femininas do escritor em meu blogue "Literatura em vida 2". Foi um prazer imenso o estudo.
Parabéns pela excelente seleção dos textos postados.
Eliane F.C.Lima (Blogues "Poema Vivo" e "Conto-gotas").