ENSEADA DE BOTAFOGO

ENSEADA DE BOTAFOGO
"Andar pelo Rio, seja com chuva ou sol abrasador, é sempre um prazer. Observar os recantos quase que escondidos é uma experiência indescritível, principalmente se tratando de uma grande cidade. Conheço várias do Brasil, mas nenhuma tem tanta beleza e tantos segredos a se revelarem a cada esquina com tanta história pra contar através da poesia das ruas!" (Charles Stone)

VISTA DO TERRAÇO ITÁLIA

VISTA DO TERRAÇO ITÁLIA
São Paulo, até 1910 era uma província tocada a burros. Os barões do café tinham seus casarões e o resto era pouco mais que uma grande vila. Em pouco mais de 100 anos passou a ser a maior cidade da América Latina e uma das maiores do mundo. É pouco tempo. O século XX, para São Paulo, foi o mais veloz e o mais audaz.” (Jane Darckê Avelar)

5.3.14

PROCISSÃO DA QUARTA-FEIRA DE CINZAS


TEXTO E ILUSTRAÇÃO DO LIVRO MEMÓRIAS DA CIDADE DO RIO DE JANEIRO DE VIVALDO COARACY


Iniciava-se a Quaresma com a Procissão de Cinzas que percorria a cidade na quarta-feira desse nome. Segundo Moreira de Azevedo, era a mais aparatosa e que maior concurso de povo atraía de quantas se celebravam no antigo Rio de Janeiro. Nem é de duvidar. Com os seus andores imponentes e ricamente ornados, com a multidão de figurantes que a compunham: "anjos", membros das irmandades em opas multicores, clero em sobrepelizes de rendas, "virgens" cantando, estandartes, maceiros, personagens simbólicos, guarda militar, acompanhamento de devotos portadores de tochas—constituía imponente espetáculo para a assistência que se comprimia ao longo das ruas por onde serpenteava o extenso préstito.

Instituída em 1647, dela se encarregavam os Terceiros da Ordem da Penitência de cujo templo partia, descendo a Ladeira de Santo Antônio. Depois de atravessar o Largo da Carioca, percorria as ruas principais do centro da cidade, visitando várias igrejas em que se detinha, para após longas horas recolher-se novamente ao Morro de Santo Antônio. Era a princípio composta de vinte andores, número que sucessivamente foi reduzido a quinze, treze e dez, sem prejuízo da riqueza e luxo com que eram adornados e da opulência da vestimenta das imagens. Desses andores o mais notável era o da imposição das chagas, com a imagem de São Francisco de Assis ajoelhado diante de um crucifixo enorme, cuja cruz se elevava acima da altura do segundo pavimento das casas. Doze homens robustos tornavam-se precisos para, com esforço, carregar esta almanjarra, honra disputada entre os Irmãos Terceiros que, no dia seguinte, exibiam aos conhecidos, com orgulho, os ombros machucados e chagados.

À saída e entrada da procissão havia salvas de mosquetaria dadas pela tropa destacada para companhá-la. E após a recolhida, a Irmandade distribuía enormes cartuchos de amêndoas, rebuçados e doces às crianças que houvessem figurado como "anjos", o que não deixava de ser mais um atrativo para a meninada empenhar-se com as respectivas famílias para comparecer nesse caráter à procissão. O pecado da gula estimulava a devoção.

Um episódio interessante é digno de registro, como exemplo de preconceito e superstição. Em 1849 deixou de figurar na procissão o andor de São Benedito que, havia dois séculos, nela sempre tivera seu lugar após o de Santa Isabel de Hungria. Naquele ano, porém, alguns Terceiros, mais suscetíveis às distinções de pigmento, cismaram que "branco não carrega negro nas costas, mesmo que seja Santo". A esdrúxula noção contaminou, por imitação ou timidez, a confraria e São Benedito não encontrou quem lhe levasse o andor. Teve que ficar abandonado e macambúzio na sacristia. Ora, nesse ano irrompeu no Rio de Janeiro a primeira grande epidemia de febre amarela que assolou cruelmente a população. Não tardaram, naturalmente, logo as beatas a propalar nas massas crédulas a afirmativa de que tão tremendo castigo era indubitável efeito da cólera vingativa do Santo ofendido. Resultado: no ano imediato, São Benedito, de manto novo de veludo, com resplendor dourado, foi reintegrado na procissão de Cinzas, com o andor pintado de novo e fartamente florido de palmas e rosas. Era uma penitência de apaziguamento. Nem por isso, porém, deixou a febre amarela de periodicamente fustigar a cidade, até que Osvaldo Cruz a extirpasse.

A procissão de Cinzas realizava-se imediatamente em seguida ao carnaval. Com o declínio que os costumes trouxeram ao sentimento religioso, derramado o espírito de irreverência, não faltaram os que nela vissem uma espécie de anexo ou encerramento dos folguedos profanos da véspera. Já havia quem a considerasse quase como um préstito carnavalesco retardado. Figuras de mascarados, que apareciam noutras procissões também, começaram a se imiscuir na de Cinzas. Desvanecia-se em grande parcela da massa popular o respeito que as cerimônias religiosas deste tipo antes inspiravam. Desvirtuou-se o caráter da procissão. Alguns dos elementos perniciosos que nela se introduziram tomavam atitudes grotescas, provocando os risos, as chufas, os gracejos de parte daqueles que, ao longo das ruas, assistiam à passagem do cortejo. Surgiram incidentes e conflitos a agravar-se de ano para ano. Os capoeiras, que infestavam a cidade, não perderam esta oportunidade de provocar as arruaças em que se compraziam. Tomou-se, cada vez com maior frequência, necessária a intervenção da força policial para manter a ordem e assegurar à procissão o seu curso.

De tal forma se acentuaram estas condições que em 1861 decidiu a Venerável Ordem Terceira da Penitência, por proposta do Ministro Manuel Gonçalves Machado, suprimir a Procissão de Cinzas que desde então não mais se realizou. Dizia-se ao tempo ter a Ordem tornado esta decisão por insinuação das próprias autoridades, a fim de evitar que estas se vissem forçadas a, no ano seguinte, proibir a saída do préstito transformado em ocasião de escândalo publico. 

Vivaldo Coaracy, Memórias da Cidade do Rio de Janeiro. A ilustração abre o capítulo "As Procissões" não sendo necessariamente da Procissão de Cinzas. Uma curiosidade: Em 1 de março de 1863 Machado de Assis, em crônica publicada em O Futuro, menciona a supressão dessa procissão, que portanto não se deu em 1861 como informa Coaracy. A crônica começa com este parágrafo: "Entre os poucos fatos desta quinzena um houve altamente importante: foi a supressão da procissão de Cinzas. Em 1862, logo ao começar a quinzena, publicou uma das folhas diárias desta Corte um artigo pequeno, mas substancial, no qual uma voz generosa pedia mais uma vez a supressão das procissões, como nocivas ao verdadeiro culto e filhas genuínas dos cultos pagãos. Nem o autor, nem o mais crédulo dos seus leitores, acreditaram que essa usança fosse suprimida; e a mesma grosseria, o mesmo fausto, o mesmo vão e ridículo aparato passou aos olhos do povo sob pretexto de celebrar os sucessos gloriosos da Igreja." 

3.3.14

CARNAVAL DE RUA RIO 2014


Blocos de embalo na Av. Rio Branco


Enquanto no Sambódromo se desenrola o maior espetáculo da Terra (do qual a gente deveria se orgulhar mais), as ruas do Rio são tomadas por foliões. Tem atrações para todos os gostos: os blocos de rua que arrastam multidões (ou não), os shows do Rio Marchinhas patrocinados pela Fundição Progresso, este ano na Praça Tiradentes (com Casuarina, Cordão do Boitatá, Rio Maracatu, Banda Fundição e outros), o Jazz Fest na tradicional Lavradio mostrando um pouquinho do Carnaval de New Orleans, os blocos de embalo  na Rio Branco, as turmas de fantasias (segunda às 17 horas) e turmas de bate-bola (os clóvis, na terça) na Cinelândia, etc. Por quatro dias esquecemos o trânsito, o mau humor, tudo aquilo que não vale a pena quando a alma é pequena, e nos entregamos à folia. Pra tudo acabar na quarta-feira... Uma só nota negativa: Movimento grevista inoportuno de nossos normalmente tão valorosos garis & os maus hábitos da população transformaram nosso Centro em uma lixeira. Será que a boa impressão da festa conseguirá apagar a má impressão da sujeira das cabeças dos turistas?


Bloco Carioca da Gema

Rua do Lavradio

Uma campanha meritória

Pretos velhos


Turmas de fantasias no Concurso Folião Original da Riotur na Cinelândia na segunda-feira do Carnaval de 2014. Começamos com o "esquenta" e depois acompanhamos o concurso (que começou pontualmente às cinco), com suas animadas torcidas. As sete fotos a seguir são de turmas de fantasia.













Monstros & cia

Bate bola

Alegres foliões


Fantasia

Pausa para descansar


Balofo 


Concentração para o concurso de clóvis categoria sombrinha. Fotos do editor do blog. 


Turmas de bate bola (clóvis) no Concurso da Riotur (categorias bexiga e sombrinha) na Cinelândia na segunda-feira (dia 4 de março) do Carnaval de 2014. Começamos com o "esquenta" e depois acompanhamos o concurso (que começou ainda com o dia claro e terminou depois do anoitecer) com suas animadas torcidas.

24.2.14

GRES ALEGRIA DA ZONA SUL



Nos domingos que antecedem o Carnaval, o Grêmio Recreativo Escola de Samba ALEGRIA DA ZONA SUL, com quadra na Rua Saint Romain, 176, no Cantagalo, faz seus ensaios de praia na Avenida Atlântica, Copacabana, para alegria dos moradores e visitantes. Ontem (dia do encerramento das Olimpíadas de Inverno), passeando pela orla, captei alguns momentos do ensaio que compartilho com os amigos visitantes do blog. Se a Rússia conseguiu mostrar ao mundo um espetáculo esportivo inesquecível, a um alto preço, é verdade, mas "dinheiro é papel pintado de tinta", que o Carnaval próximo nos lembre de novo que somos um povo criativo, alegre, capaz de montar o maior espetáculo da Terra (no Sambódromo). Xô, baixo astral. Xô, black bloc. Alegria, alegria!

22.2.14

HAPPY HOUR NAS AREIAS DE COPACABANA


Com o calor subsaariano inviabilizando as deambulações urbanas nos horários de sol a pino e com o horário de verão (até semana passada) estendendo o dia até vinte horas, nada mais saudável (para quem tem a sorte de morar perto da orla) que uma happy-hour, fim de tarde, caminhando na areia à beira-mar (com direito a banho de mar revigorante). Para o fotógrafo contumaz a oportunidade de enriquecer seu álbum com novas tomadas, menos óbvias, da velha amiga Praia de Copacabana.





14.1.14

O SOL CAUSTICANTE DESTE COMEÇO DE ANNO

TEMPERATURAS EXCESSIVAS E RARAMENTE OBSERVADAS


O Dr. Sampaio Ferraz, director da Directoria de Meteorologia, distinguiu o GLOBO com um quadro de temperaturas maximas, colhidas em pleno sol, que é digno de ser observado neste período, já longo, de calor intenso que o Rio de Janeiro vem soffrendo.

Note-se que as temperaturas geralmente annunciadas são as colhidas à sombra, ao passo que as que se apresentam no referido quadro são “do ar ao sol”. São, portanto, as temperaturas que depauperam os que trabalham em calçamentos de ruas, nos jardins, nas pedreiras e, até, os simples transeuntes, que atravessam praças e ruas desabrigadas. São as temperaturas que cáem em cheio sobre os jogadores de football, que teimam em realisar partidas, numa quadra tão impropria do anno.

A tabela de temperaturas máximas ao sol, que o Dr. Sampaio Ferraz nos enviou e que abrange o período de 30 de dezembro último a 10 do corrente, é a seguinte:


DIAS
      9 hs.
      12 hs.
     15 hs.
29
37,0
39,0
36,4
31
38,2
41,8
41,4
1
38,2
42,8
39,8
2
39,4
39,8
38,8
3
35,4
43,8
38,2
4
39,1
41,6
39,6
5
33,4
42,6
38,0
6
38,2
41,4
39,4
7
35,9
43,0
40,4
8
37,0
42,0
38,2
9
36,8
39,2
32,0
10
38,5
37,4
37,2


Matéria publicada na primeira página da edição das 17 horas do jornal O GLOBO de 14 de janeiro de 1930. Assinantes podem ver essa página clicando aqui

13.1.14

UM EMBAIXADOR MEXICANO NO RIO, de Cyro de Mattos



Graças à literatura tenho feito bons amigos. O último deles foi há poucos anos. É um americano, erudito, sensível, atencioso, qualidades inconfundíveis de seu caráter. Professor Emérito da Universidade de Austin, Texas, Fred Ellison tem um amor forte pelo Brasil. O abraço rico que vem dando há anos ao nosso País manifesta-se no ensino de língua e literatura brasileira nos Estados Unidos, passa pelo ensaísmo lúcido e alcança traduções admiráveis de autores importantes de nossas letras, como Rachel de Queiroz, Helena Parente Cunha, Adonias Filho e Affonso Romano de Sant´Anna. Para minha sorte, alguns poemas de minha lavra levam a marca da tradução exemplar do caro amigo.

Brasilianista” dos melhores, Fred Ellison proporciona agora em “Alfonso Reyes e o Brasil” (Editora Topbooks, Rio, 2002) estudo substancioso sobre a temporada que o embaixador-poeta mexicano passou entre nós, morando no Rio, cidade que tanto o encantou desde que aqui chegou. O assunto encontra no americano o ensaísta maior. A pesquisa criteriosa do espírito sensível, que caminha de mãos dadas com o discernimento para erguer na escrita agradável uma vida intelectual plena de reflexões, projeções, esperanças e realizações em chão brasileiro.
          

Desse livro emerge todo o clima intelectual e emotivo que o embaixador-poeta mexicano teve pelo Brasil durante os sete anos em que aqui esteve. Abordam-se como nenhum intelectual brasileiro tentou fazer até hoje, o que não deixa de ser omissão lamentável, as múltiplas atividades e relações culturais que Alfonso Reys empreendeu em prol do Brasil. Foram anos em que ele, morador do Rio, dedicou-se de modo afetuoso às relações diplomáticas e à cultura brasileira, em namoro intenso, de quem escreveu contos, poemas e ensaios tendo como ponto de referência nossas coisas e gente.


O livro de Fred Ellison é leitura obrigatória para quem quiser saber sobre a vida cultural do Brasil nos anos 30. Reconhecer intelectuais do circulo de relações de Alfonso Reyes, bem como suas atuações culturais em nossas artes e letras. Cecília Meireles, Oswald de Andrade, Renato Almeida, Di Cavalcanti, Portinari, Cícero Dias, Manuel Bandeira, Ribeiro Couto e Alceu Amoroso Lima, estes foram alguns de nossos homens de letras e artes que se tornaram amigos desse embaixador e escritor de extração renascentista. Manuel Bandeira fala do mexicano com afeto em “Rondó dos Cavalinhos”, no almoço de despedida oferecido por diplomatas e entidades brasileiras no Jóquei Clube do Rio, e no outro poema “Rondó do Palace Hotel”, no qual os dois últimos versos, “Por alguém que não está presente/ No hall do Palace”, dizem respeito a Alfonso Reyes.

         

O diplomata mexicano teve ânsias de entrar em contato com os intelectuais brasileiros assim que aqui chegou. No início, nossos homens de letras não foram tocados pelos acenos do mexicano, que nunca escondeu nas intenções e atitudes a inquieta admiração pelos brasileiros e sua paisagem. Momentos de amizade foram se fazendo com nitidez pouco depois, e, dos encontros que continuavam, a oportunidade era dada ao intercâmbio de idéias, informações e juízos críticos consistentes.

Até hoje pouco se sabia da atuação e amor desse notável embaixador-poeta- mexicano pelo nosso País. Acredito que o mesmo se deu com a minha geração nos anos 60. No livro de Fred Ellison, através de entrevista concedida a Aurélio Buarque de Holanda, posso sentir como esse embaixador mexicano teve no Brasil uma temporada das mais felizes de sua vida, contribuindo para isso dois elementos essenciais: o homem e a natureza.. “Tudo do melhor em minha existência”, ele assinalou, em momento de puro encantamento. E, nessa admiração contagiante pelo Brasil, de um estrangeiro enamorado do Rio, cada vez mais, tantos foram os elogios que todos os mexicanos quiseram vir ao Brasil como embaixador e desse modo lhe tomaram o posto.



Río de olvido, de Alfonso Reyes
(do livro Romances del Río de Enero, 1932)

Río de Enero, Río de Enero:
fuiste río y eres mar:
lo que recibes con ímpetu
lo devuelves devagar.

Madura en tu seno al día
con calmas de eternidad:
cada hora que descuelgas
se vuelve una hora y más.

Filtran las nubes tus montes,
esponjas de claridad,
y hasta el plumón enrareces
que arrastra la tempestad.

¿Qué enojo se te resiste
si a cada sabor de sal
tiene azúcares el aire
y la luz tiene piedad?

La tierra en el agua juega
y el campo con la ciudad,
y entra la noche en la tarde
abierta de par en par.

Junto al rumor de la casa
anda el canto del sabiá,
y la mujer y la fruta
dan su emanación igual.

El que una vez te conoce
tiene de ti soledad,
y el que en ti descansa tiene
olvido de lo demás.

Busque el desorden del alma
tu clara ley de cristal,
sopor llueva el cabeceo
de tu palmera real.

Que yo como los viajeros
llevo en el saco mi hogar,
y soy capitán de barco
sin carta de marear.

Y no quiero, Río de Enero,
más providencia en mi mal
que el rodar sobre tus playas
al tiempo de naufragar.

—La mano acudió a la frente
queriéndola sosegar—.
No era la mano, era el viento.
No era el viento, era tu paz..


Fotos de Peter Fuss de 1935/36 digitalizadas por Milton Teixeira do álbum "Brazil".

15.12.13

RECORDAÇÕES DO RIO ANTIGO: O CARCELER, de Luís Edmundo



Parece ter sido o italiano Luiz Bassini o introdutor do comércio de gelo e de sorvetes na cidade do Rio de Janeiro. O que se sabe exatamente é que em 1835 ele já desse negócio se ocupava. Em companhia de N. Denis, montou à Rua Direita o “Café do Círculo do Comércio que até possuía uma sala especial para senhoras. Além de um bom sorvete, nele poderia o carioca saborear refrescos de toda espécie, chá, mate e café gelados.

O gelo recebido por Bassini era o gelo natural que se importava dos Estados Unidos. Vinha em lascas, no fundo de embarcações, envolto, cuidadosamente, em camadas espessas de serradura de madeira. Aqui desembarcado, era ele remetido para os depósitos que pelo tempo se encontravam para as bandas de Santa Luzia, sendo logo posta em covas fundas feitas na terra, mantidas as precauções observadas desde o momento em que era retirado das geleiras de origem. As perdas da matéria, não eram, como talvez se acredite, muito grandes. Perdiam-se do gelo, apenas, 30 ou 40 por cento no fim de quatro ou cinco meses. Os americanos chegavam a enviá-lo, em seus navios, até para o Oriente. O gelo que pela primeira vez chegou à Índia era de procedência americana.

A glória e a fama da loja de gelo e de sorvetes de Bassini, a bem-dizer, só terminaram com a inauguração do célebre “Hotel do Norte, na mesma rua, mais próximo à Igreja do Carmo, ns. 7 e 9. Fundara-o outro italiano, Antônio Franzione que, pouco depois de inaugurada a casa, na fachada da mesma suspendia vistosa tabuleta onde fez pintar este letreiro: Antônio Franzione, sorveteiro de S. S. M. M. I. I.

O estabelecimento era modelar para a época, quiçá luxuoso. O Imperador D. Pedro II, não raro, pelos dias calmosos, em companhia da Imperatriz, em sala especial, nele ia tomar o seu sorvete. As pitangueiras de Copacabana, em campo enorme que ia do Leme ao Ipanema, forneciam o ácido fruto que refrigerava a abrasada garganta carioca. O caju, o cajá, a carambola, a manga, o abacaxi e a laranja, não conseguiam disputar a preferência que davam, todos, à pitanga, de exótico sabor, hoje quase desaparecida do comércio de frutas carioca. Era esse delicioso refrigerante tomado em alongadas taças de cristal, iguais às usadas então para beber os vinhos espumantes. Como, porém, era preparado esse sorvete, há mais de um século? Com a velha sorveteira feita em folha de Flandres, cilíndrica, que era metida em um balde ou em uma tina entre blocos de gelo, rodada de um lado para outro lado, durante certo tempo, à mão. E as caldas? As caldas ainda eram geralmente feitas de acordo com as que encontramos no livro de José Bulhões, impresso em Lisboa no ano de 1788. "A arte nova e curiosa para conserveiros, confeitos, copeiros e mais pessoas que se ocupam em fazer doces e outras receitas que pertencem à mesma arte", livro copiado aos que, no gênero, apareciam em França, na Inglaterra e na Itália. Desse manual impresso por Bulhões extratamos a curiosa e exótica receita para um sorvete que se chamou "papinha" — "calda de papinha para gelar, em sorvete". Ei-la: "Esbrugue-se uma mão cheia de pevides de melão, outra de melancia, e com quatro, ou cinco amêndoas doces, se pisará tudo muito bem, depois de estar pisado, se lhe deita o açúcar, e passado por pano ralo se aumenta o que houver com água, até fazer três quartilhos, que se gelarão com mais brevidade que as outras caldas."




O "Hotel do Norte" de Franzione, sorveteria de fama, à Rua Direita, fez-se, pouco depois da sua inauguração, o ponto de encontro mais elegante dos "leões da moda” da cidade. A primeira "terrasse" do café que teve o Rio de Janeiro aí surgiu. Com a passagem da firma para os cuidados comerciais da Viúva Carceler e Filhos essa "terrasse" foi a nota mais distinta e mais comentada da rua carioca. Nela se sentaram figuras como Mauá, Sales Torres Homem, Pereira da Silva, José de Alencar, Maciel Monteiro, Zacarias de Góis, Cotegipe, Sousa Leão, Barões do Catete e de Penedo, Viscondes de Camaragibe. de Jequitinhonha, do Rio Branco; Nabuco de Araújo, Suaçuna, Marquês do Paraná...

Era toda a fina-flor da sociedade nossa, pela época.

Desde os tempos de Antônio Franzione que o estabelecimento se incumbia de organizar banquetes e merendas (lanches) a domicílio, fornecendo iguarias das mais finas, vinhos os mais caros, tudo isso servido em baixelas de luxo — pratos de porcelana esmaltada, pratas, cristais de maior preço maior distinção. Era a copeiragem feita por hábeis criados que vestiam uniformes de seda, à século XVIII.

Numa carta que fomos encontrar nos "Reservados" da Biblioteca de Lisboa, carta de Antônio Dias da Guarda a seu irmão, datada do Rio de Janeiro (25 de março de 1869) arrancamos estas interessantes linhas: "Assim na festa em casa do Silveira babamos de gozo e nos enchemos a valer, que a terra é de fartura e nada deixa desejar a outras terras. O mais interessante, porém, foi ver, na hora da mesa, com comida de fora, em magnífica coberta, entre os servidores dela, dois negros suando debaixo de cabeleiras artificiais, brancas, vestidos à Luís XV, distribuindo guardanapos em dois pratarrazes de porcelana do Japão."

Não será difícil deduzir-se, por estas linhas, que as iguarias, baixelas e até os criados de serviço eram os de Antônio Franzione que só passou o estabelecimento de luxo à viúva Carceler pelo ano de 1861.

“Hotel do Norte e "Confeitaria Carceler, pontos chiques das elegâncias do Rio de Janeiro pelo meado do século XIX, valem, porém, uma evocação em nota especial.

1.12.13

PARATY


Igreja Matriz (de noite)


Yemanjá

A região de Paraty recebeu os primeiros portugueses no final do século XVI. Quando aqui chegaram, construíram suas casas no local que hoje é conhecido como Morro do Forte. Na época, esses imigrantes conviviam com índios locais, os "Guaianás", que já habitavam a região e para a qual deram o nome de Paraty, que em tupi significa "água de mar".

Por volta de 1630, Dona Maria Jácome de Melo doou algumas terras localizadas na região entre os rios Perequê-Açu e Patitiba, onde foi iniciada a construção do novo povoado e onde ergueram uma capela para Nossa Senhora dos Remédios. Em 28 de fevereiro de 1667, o povoado, que até então pertencera à Vila de Angra dos Reis, passou a ser reconhecido como independente graças sistema solar revolta popular.

No final do século XVII, uma trilha indígena — por onde transitavam pessoas, gêneros e tradições portuguesas — passou a ser utilizada para o escoamento da produção de ouro e pedras preciosas das Minas Gerais, atividade que originou o que hoje conhecemos como "Caminho do Ouro" ou "Estrada Real".

Foi no século XVIII que a tradicional Igreja da Matriz foi erguida, assim como as igrejas de Santa Rita e de Nossa Senhora do Rosário. Essas construções tiveram grande peso na definição do traçado urbano da cidade, em forma de leque, à moda portuguesa. Também nessa época, a produção de aguardente intensificou-se, e foi aí que começou uma cultura que atá hoje acompanha a região. No século XIX, a produção de cachaça atingiu cerca de dois milhões de litros, e pela estrada da serra descia o café do Vale do Paraíba. Ainda nesse época, as ruas terminaram de ganhar seu calçamento em pedras, foi construído um novo hospital e uma nova capela (Capela das Dores) e as obras da Igreja da Matriz foram concluídas.

Durante quase cem anos, Paraty amargou uma época decadente por estar isolada das rotas de comercio do país. Ironicamente, esse foi o fator-chave da preservação de seus edifícios, ruas, cultura e tradições, que hoje, aliados a sua exuberante natureza — que conta com inúmeras praias, ilhas, trilhas e cachoeiras — são seus principais atrativos turísticos.

Paraty foi inscrita nos livros de Tombo do IPHAN (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional) em 1958, e reconhecida como Monumento Nacional em 1966. Hoje, Paraty é candidata ao título de Patrimônio Mundial pela UNESCO.

(Mapa e história obtidos no folheto turístico distribuído pela Prefeitura de Paraty. Mais informações pelo telefone (24) 3371-1222 ou em http://www.paraty.com.br.)










Igreja de Santa Rita

Igreja Matriz


Igreja de Nossa Senhora do Rosário e São Benedito

idem



Pousada do Sandi

Chafariz de 1851

Piscina natural em Trindade

Vista da trilha entre a Praia do Meio e a do Cachadaço, em Trindade. Fotos do editor do blog.