ENSEADA DE BOTAFOGO

ENSEADA DE BOTAFOGO
"Andar pelo Rio, seja com chuva ou sol abrasador, é sempre um prazer. Observar os recantos quase que escondidos é uma experiência indescritível, principalmente se tratando de uma grande cidade. Conheço várias do Brasil, mas nenhuma tem tanta beleza e tantos segredos a se revelarem a cada esquina com tanta história pra contar através da poesia das ruas!" (Charles Stone)

VISTA DO TERRAÇO ITÁLIA

VISTA DO TERRAÇO ITÁLIA
“São Paulo, até 1910 era uma província tocada a burros. Os barões do café tinham seus casarões e o resto era pouco mais que uma grande vila. Em pouco mais de 100 anos passou a ser a maior cidade da América Latina e uma das maiores do mundo. É pouco tempo. O século XX, para São Paulo, foi o mais veloz e o mais audaz.” (Jane Darckê Avelar)

19.9.21

EXPOSIÇÃO "HÁ LUZ ATRÁS DOS MUROS" NO MUSEU DE ARTE OSÓRIO CESAR (MAOC), EM FRANCO DA ROCHA

Você pega o trem na estação paulistana do Brás e em menos de uma hora está em Franco da Rocha, cidadezinha aprazível, colorida, arejada, arborizada, diferente do "mar de prédios" paulistano. À direita, a meio quilômetro da estação, você chega ao museu (e atrás dele, as antigas instalações do complexo psiquiátrico). Você assiste a um vídeo que conta a história do Osório Cesar, marido da artista Tarsila do Amaral, pioneiro na humanização do tratamento psiquiátrico no Brasil, inspirador da doutora Nise da Silveira, e se surpreende com o altíssimo nível do acervo de obras de arte dos antigos internos. Bom passeio para uma tarde de sábado ou domingo.


Istvan Csibak, Museu Dr. Osório Cesar, 1989, acrílica, guache e óleo sobre papel


O museu, instalado na antiga casa do diretor, que compunha o conjunto do projeto original do Hospital Psiquiátrico do Juquery, concluído em 1898. Moraram nesta casa Francisco Franco da Rocha e Antônio Carlos Pacheco e Silva. Com o passar do tempo, também foi sede de uma importante escola de enfermagem. Em 1985 passou a sediar a primeira fase do museu, abrigando também o atelier dos artistas do Juquery. Fechado em 2005, mais adiante foi restaurado e reinaugurado em 2020 com a exposição de longa duração "Há luz atrás dos muros" aqui mostrada.

Na exposição “Há luz atrás dos muros”, que (re)inaugura o Museu de Arte Osório Cesar (MAOC), apresentamos a rica criação de mais de 60 artistas que, em diferentes momentos da vida, tiveram suas trajetórias marcadas pela internação no Complexo Hospitalar do Juquery.

Em meio a um dia-a-dia de violações à dignidade humana, os artistas-internos aprenderam técnicas e conhecimentos em frequências e interesses tão diversos quanto suas trajetórias. Os suportes e seus modos de expressão são também variados, abarcando desenho, cerâmica, gravura, escultura e pintura. A fluência da produção e a espontaneidade alheia às questões que os artistas comuns se debatem são um fator distintivo. Recorrendo a memórias afetivas, extraindo do âmago experiências vividas ou relatando a imposta realidade, os artistas constituíram maneiras inventivas de (re)ver seus mundos, contorcendo o sentido do que é entendido como “normal”.

A mostra está organizada em dois blocos interligados. Uma seção agrupa os trabalhos por gêneros e temas transversais que compõem o acervo do MAOC, como registros da arquitetura e paisagem do Juquery; casas, animais e ambientes rurais; naturezas-mortas; construções geométricas abstratas; signos religiosos e do mundo extrassensível.

Uma seção monográfica destaca trabalhos de 14 artistas. Do período de funcionamento da Escola Livre de Artes Plásticas, estão Antônio Sérgio, Aurora Cursino, Farid Geber, Ioitiro Akaba, Masayo Seta, Caraíba, Rubens Neves Garcia e Valeriano; dos artistas que vivenciaram o Atelier de Arte do Museu, além de Masayo Seta (cuja estadia compreendeu os dois períodos), apresentamos obras de Almir D’Avila, Maria Aparecida Dias, Istvan Csibak, Otaviano, Ubirajara e Waldemar.

A apresentação desobedece a ordenamentos lineares. Antes, valorizamos os encontros fortuitos, a quebra de expectativa e caminhos labirínticos. As obras dos artistas do Juquery (artistas do mundo), testemunhos da força de vida de indivíduos que se sobrepuseram ao trauma da internação, são como luzes que, não só no fim, mas por detrás das paredes do túnel, dos muros reais ou imaginários, alargam frestas, alicerçam mundos.

Hélio Menezes

Pedro Quintanilha

Curadores


Esquerda para direita e de cima para baixo: Tamara, Sem título / Autoria desconhecida / José Otaviano Rafael, Sem título, 1998 / Conceição, Sem título, 1989 / Cleusa, Sem título, 1976 / José Valeriano Annes, Sem título

Ioitiro Akaba, Bandiza, óleo sobre papel, sem data

Istvan Csibak, Freud, 1994, acrílica e óleo sobre tela

José Otaviano Rangel, Casal Entrelaçado, 1994, óleo e tinta de tecido sobre tela

Istvan Csibak, Espelho Mágico, 1994, óleo sobre tela: Espelho meu diga se existe homem mais feio do que eu

Farid Geber, sem título, sem data, llnoleogravura

Aurora Cursino dos Santos, Autorretrato, sem data, óleo sobre papel

Quatro obras (década de 1950) de João Rubens Neves Garcia, todas sem título

Waldemar Lúcio Raymond, sem título, 1990, giz de cera, hidrocor e pastel oleoso sobre papel

Quatro obras de José Otaviano Rafael

Istvan Csibak, Autorretrato, 1996, grafite e guache sobre papel: Sou natural da Ungria Capital de Budapest

Almir D'Ávila, O sanhaço comendo goiaba, 1993, grafite e guache sobre papel

Arte no Juquery

A história da arte produzida no Juquery é uma história das técnicas, das palavras e, sobretudo, do tempo e do encontro entre artistas, pesquisadores e profissionais da instituição que promoveram o fazer artístico e a preservação do acervo.

A data da primeira obra de arte é incerta, pois, entre 1920 e 1930, há produções artísticas nas oficinas de ergoterapia, nos desenhos em papéis descartados ou paredes do hospital e com o uso de suportes incomuns, como esculturas feitas de miolo de pão.

Em 1949 é criada a Seção de Artes Plásticas do Juquery, com direção do psiquiatra Mário Yahn. Na década de 1950 a seção foi transformada em Escola Livre de Artes Plásticas (ELAP) e Osório Cesar passa a ser o diretor, até 1964. A ELAP resistiu em suas atividades até a década de 1970, e por ela passaram artistas como Maria Leontina, Clélia Rocha e Moacyr Rocha, que orientaram os artistas do Juquery, procurando manter a liberdade de escolha de cada um/a na utilização de materiais e técnicas para as suas composições.

No ano de 1985 é inaugurado o Museu Osório Cesar, com objetivo de preservar a coleção da ELAP e abrir o Atelier de Arte. Nesta segunda fase, as obras produzidas são incorporadas ao museu, ampliando, assim, seu acervo. Em 2006, a instituição é fechada, após o incêndio que atingiu o prédio administrativo e a biblioteca do Juquery.

A exposição “Há luz atrás dos muros” apresenta obras que foram realizadas durante esse duradouro caminho, reabrindo com o Museu de Arte Osório Cesar.

12.3.21

RIO DE JANEIRO, por FLOOR BOON


Publicado originalmente na revista literária holandesa DAS MAGAZIN (no 6, verão de 2013) e traduzido para o português pelo editor do blog.

INTRODUÇÃO

Em 2013, uma jornalista dos Países Baixos, que me localizou através de meu blog, pediu que eu lhe mostrasse os locais do centro do Rio associados à literatura. Fiz o possível: mostrei a Biblioteca Nacional, o Real Gabinete Português de Leitura, a Confeitaria Colombo, ponto de reunião de intelectuais na Belle Époque, etc. Algum tempo depois, ela me enviou o PDF da revista literária onde saiu publicado seu texto, mas na época eu não entendia xongas do idioma neerlandês (e o Google Tradutor naquele tempo ainda não estava tão desenvolvido quanto hoje). Somente agora (2021), depois de ter estudado tal idioma no Duolingo (valendo-me das semelhanças com o alemão), enfim consigo ler seu artigo e constato que ela observou as coisas com perspicácia. Na época ainda havia recitais regulares de poesia (no Teatro Gláucio Gil, em Copacabana, por exemplo) e novelas de televisão de alta qualidade (com excepcional dialogismo), por grandes autores como Manoel Carlos e Glória Perez. E, como aprendi nos seis anos em que frequentei a oficina literária do grande mestre Ivan Proença, o roteiro de um filme, série ou novela (ou mesmo uma letra da MPB) é uma obra literária, sim, tanto quanto uma peça de teatro ou uma cantiga medieval. Vamos ao texto! 

 



Machado de Assis no Morro do Livramento

Ali, logo atrás do porto, onde está em construção a Vila Olímpica, fica o Morro do Livramento, um dos muitos morros do Rio de Janeiro. Lá nasceu Machado de Assis, o escritor mais importante do Brasil no século XIX. Mais ao sul, em Botafogo, bairro com a mais bela enseada da cidade, veio ao mundo Paulo Coelho. Nenhum escritor brasileiro vendeu mais livros do que ele.

Morros verdes e rochosos (Morro do Urubu)

Os morros verdes e rochosos não são apenas uma festa para o olho, eles abrigam histórias de pequenos e grandes escritores e constituem o cenário de diversos romances. Mesmo assim, esses lugares são desconhecidos por muitos cariocas, como são chamados os moradores do Rio. A literatura é algo como as notícias internacionais: pouco importante e enfadonha.

Aguardando o metrô

No metrô do Rio de Janeiro ninguém lê. Nem nos ônibus. No máximo, brasileiros entediados folheiam o jornal gratuito do metrô, em casos excepcionais alguém pega um livro. Já os salões de cabeleireiro estão cheios de revistas reluzentes com informações sobre quem os atores das famosas telenovelas estão namorando e que locais estão frequentando. Almas românticas que saem ingenuamente em busca do coração literário da cidade se decepcionam, ao menos à primeira vista, porque na superfície se acha pouca coisa. Os brasileiros nem leem jornal, suspira desanimada uma moça cosmopolita e com formação superior. “Música e filmes, eles adoram isso aqui. Nacionais, quero dizer. Mas onde fica Paris ninguém sabe.”

Real Gabinete: livros até o teto

A literatura no Rio de Janeiro é como uma caça ao tesouro, mas quem seguir o caminho encontrará mais do que esperava. No centro da cidade, onde construções portuguesas antigas erguem-se lado a lado com arranha-céus modernos, escondem-se as mais magníficas bibliotecas e livrarias. Na biblioteca portuguesa [Real Gabinete Português de Leitura], com dezenas de metros de altura, os livros vão até o teto. A Academia Brasileira de Letras está abrigada em uma réplica do Petit Trianon de Versalhes.

Recantos escondidos da cidade: Camões diante do Real Gabinete Português de Leitura

Acontece nos nichos, nos recantos escondidos da cidade: noites semanais de poesia, clubes de leitura e discussões literárias. Segundo Ivo Korytowski, amante da literatura com um blog onde associa locais históricos com obras literárias, a literatura está profundamente enraizada em cada brasileiro. “As populares telenovelas, que duram vários meses, são como romances”, diz ele. “Esta é a moderna literatura.” 

15.2.21

ÁLBUM DO RIO DE JANEIRO MODERNO de SÉBASTIEN AUGUSTE SISSON

 


Sébastien Auguste Sisson foi um litógrafo e caricaturista natural da Alsácia que chegou no Rio de Janeiro em 1852 e aqui passou a viver até sua morte em 1898, tendo sido um dos pioneiros da litografia no Brasil. Publicou a Galeria dos brasileiros ilustres (1859-61), com retratos de personalidades históricas do Brasil, e o Álbum do Rio de Janeiro moderno (folha de rosto acima, sem indicação de data, mas provavelmente do mesmo período), com doze cromolitografias de cenários cariocas, das quais nove reproduzimos aqui. As imagens foram obtidas na Biblioteca Nacional Digital.

Sisson é considerado precursor das histórias em quadrinhos no Brasil com seu O NAMORO, QUADROS AO VIVO (abaixo), no estilo de Wilhelm Busch, precursor dos quadrinhos na Alemanha, publicado na revista Brasil Ilustrado em 1855. Também nesta revista publicava caricaturas e charges.



A seguir nove cenas cariocas de Sisson comparadas com imagens atuais do Street View (Google Maps) dos mesmos lugares, na medida do possível.


Cemitério dos Ingleses, então a beira-mar, e o Morro da Providência atrás, ainda sem a favela, vistos do mar em frente (talvez de dentro de um barco). Com o aterro para a construção do moderno cais do porto no início do século XX, o mar se afastou, e no local de onde se tem esta visão hoje existe a Cidade do Samba. 
 
A Cidade do Samba nos impede de reproduzirmos o ângulo da gravura anterior, mas nesta foto do editor do blog tirada do edifício Aqwa Corporate a gente vê o Morro da Providência agora com a favela, a capela do Cemitério dos Ingleses (grandona na gravura acima, aqui indicada pela seta) e a própria Cidade do Samba no canto inferior direito.


Estação antiga (de 1870) da Estrada de Ferro Dom Pedro II, mais tarde substituída pela icônica estação art déco que conhecemos hoje. Para sua construção foi demolida a Igreja de Santana. Atrás o Morro da Providência sem a favela, mas já com a pedreira que vemos até hoje. 

A estação art déco moderna.

Igreja da Glória e antigo Mercado da Glória, que funcionou de meados do século XIX ao início do século XX. Com o aterro para a construção da Avenida Beira Mar, no início do século XX, e na década de 1960 com o enorme Aterro do Flamengo, o mar se afastou.

Igreja da Glória com a praça Nossa Senhora da Glória e estátua de Pedro Álvares Cabral. O mar agora está longe. 

Antigo Hospício D. Pedro II, na Praia da Saudade, a caminho da Urca. Atrás o Morro da Babilônia separando a Urca do Leme.

O antigo hospício agora abriga instalações da UFRJ, na Avenida Pasteur. A Praia da Saudade deu lugar ao Iate Clube.

Antigo hospital da Beneficência Portuguesa, agora Glória D'Or. O prédio, tombado, sobrevive. Atrás o Morro Santo Amaro, onde existe hoje uma favela.

Hospital Glória D'Or no imóvel que pertenceu ao antigo hospital da Beneficência Portuguesa, na Rua Santo Amaro, Catete.

Igreja da Ordem Terceira do Carmo, na Praça XV.

A mesma igreja hoje em dia. Igualzinha.

Jardim Botânico com as palmeiras ainda relativamente baixas.

Jardim Botânico hoje. As palmeiras cresceram. Cresceram tanto que a principal, a palma mater, plantada por D. João VI, morreu em 1972 atingida por um raio.

Hospital da Santa Casa da Misericórdia, na época à beira da Praia de Santa Luzia, hoje Rua de Santa Luzia, no Centro, sem nenhum sinal de mar por perto. Observe que a fachada daquela época foi tapada por uma fachada nova, na frente, o que fica bem evidente na imagem abaixo, do Google Maps, onde a cúpula do corpo central entrou mais para dentro (seta).


Ilha da Boa Viagem em Niterói.



27.1.21

AS PONTES, A PONTE, UMA PONTE, de HELIO BRASIL

 

Ponte Rio-Niterói vista da barca para Paquetá

Até os idos de 1940 os arquitetos iniciavam sua formação na Escola de Belas Artes onde aprendiam mais sobre artes e artifícios do desenho do que os engenheiros, voltados para a forte matemática – no antigo templo da engenharia, no Largo de São Francisco. Os primeiros seriam os “sonhadores” entregues a divagações estéticas. Os outros, homens “sérios” voltados para as implacáveis verdades da matemática, da física, a mecânica racional e outras ciências respeitáveis, adquirindo um “saber” mais específico e objetivo. Para alguns engenheiros (naqueles dias...) os arquitetos cuidavam da beleza, coisa adjetiva e de todo inútil... Uma “perfumaria”. Daí o atrito inicial em que as duas profissões – na verdade perfeitamente harmonizáveis e, a meu ver, até complementares – disputavam hipotético mercado.

Para muitos engenheiros, arquitetos seriam “apenas” bons desenhistas, “artistas”, jamais técnicos. Em resposta, para os arquitetos, engenheiros só sabiam matemática, lidar com o cimento e o ferro e nada entendiam de arte... Empate técnico? Felizmente havia prorrogação, sem recorrer aos pênaltis...

Ponte Sant'Angelo sobre o Rio Tibre em Roma

        Separados os cursos, definidos currículos e atribuições (praticamente as mesmas, diga-se) “brigas” e “picuinhas” cavavam o abismo entre as duas profissões. A história nos mostra que pelos séculos a disputa não era bem assim. Grandes arquitetos eram excelentes engenheiros (hábeis construtores) e vice-versa, não havendo o tal abismo que cavaram por imaturidade, incultura ou tolices políticas. Um cruel impeditivo, porém, foi imposto aos arquitetos: era-lhes vedado o projeto de pontes, tarefa de fato, por vezes de alta complexidade... Não insuperável.

Hoje, a legislação não é mais impeditiva, embora os engenheiros, por força da tradição, ainda sejam os donos “do pedaço”. E temos obras notáveis por eles produzidas. Como exemplo, temos a polêmica ponte Rio-Niterói – batizada com um marechalato de má lembrança – criticada mais por razões políticas, mas que se harmonizou com o espelho da bela Guanabara. E jamais deixaremos de falar das pontes arrojadas e belas de Eiffel(*) no século XIX e, na atualidade, as do coleguinha Santiago Calatrava (**).

Ponte Vecchio vista da Galeria degli Uffizi em Florença

             Resumindo: gostaria de ter projetado uma ponte...

Mas aqui, deixo a técnica de lado, pois estou em praia estranha e convido o leitor a outras divagações.

Tento falar sobre meu fascínio pelas pontes. Das pontes romanas em cimento pozolânico (um concreto natural usado pelos romanos, de jazidas no sul da Itália) às projetadas em aço pelo citado Eiffel. E ainda sob nossos olhos descuidados, desde o século XIX, o Estado do Rio de Janeiro possui em suas linhas férreas – criminosamente abandonadas – belas pontes, dando majestade às paisagens, facilitando os caminhos.

Ponte Pietra sobre o Rio Ádige em Verona

             Os professores Eduardo Corona e Carlos Lemos definem ponte como “Sistema estrutural destinado a permitir a passagem de veículos, animais e pedestres sobre rios, vales, estrada de ferro ou caminhos...” e adiante, “Ponte suspensa ou Pênsil, é aquela construída com um taboleiro, sustentado por hastes ou cordas verticais...etc”

No “Aurélio” veremos que o vocábulo ponte tem inúmeras significações, desde a trivial “Obra construída para estabelecer comunicação entre dois pontos separados por um curso de água ou qualquer depressão do terreno”, passando pela anatomia geral até o sentido figurado, como “Elemento de ligação entre pessoas ou coisas” e ao prosaico “Prótese destinada a substituir a falta de um ou mais dentes”.

E se disséssemos, com certa obviedade, que os nossos sonhos serão pontes entre diferentes dimensões da vida?

Pontes sobre o Rio Sena na Cidade Luz

         E então entro com cogitações outras: raramente cruzei a pé uma grande ponte. Em geral, o fiz a bordo de veículos, em rápida marcha, fosse a paisagem bela ou belíssima, como se impelido pela necessidade de não permanecer olhando abismos, rios, vales ou cordilheiras. Na prática turística, para-se à margem da ponte (certas pontes, claro) e faz-se a tradicional pesquisa com o olhar ou com a câmera. Não da ponte, mas do que ela vence ou oferece nos horizontes. Torna-se então a mera “passagem” que se abandona até com pressa. Vi algumas fotografias de pequenas pontes, onde haveria um pescador solitário ou um homem, mãos na amurada (estaria tentando aprisionar o presente?), olhando o rio que escapava de seus olhos em busca de um irmão ou de seu estuário. 

     O belo filme de Clint Eastwood, “As pontes de Madison”, apresenta construções especiais, cobertas, envolvidas em significados psicológicos. Passado, presente e futuro? Alguém, sob a proteção de um teto, escolheria não chegar ao outro lado? Tudo isto reforça meu sentimento de que a ponte é um “não lugar”, uma experiência passageira que venceu abismos e que nos levará sempre a novos caminhos. Procuraremos uma ponte que nos permita vencer um obstáculo ou um período difícil. “Ponte” pode designar um amigo que nos ajuda, uma empresa a que recorremos. Um golpe do destino. Será uma rápida passagem para se chegar a ponto seguro, mais à frente, sem retornar – porém - ao ponto de partida.

A ponte nos deixou do “outro lado”, em “outra situação”, um breve futuro logo feito passado, o mesmo mundo de sonhos onde deixamos nossa “ponte”.

Devo perguntar: Que “ponte” estará cruzando nosso querido Brasil?


(*) Gustave Eiffel (1832 – 1923) engenheiro e arquiteto francês, bastante conhecido pelo projeto e construção do grande marco mundial em Paris, a torre para a exposição das indústrias, de 1889.

(**) Santiago Calatrava (19 - ) arquiteto espanhol


Ponte sobre o Rio Limmat e velhas igrejas em Zurique

Ponte Rio-Niterói

Ponte sobre o Rio Kwanza em Angola

7.1.21

BRAZIL PITTORESCO (BRASIL PITORESCO), DE CHARLES RIBEYROLLES & VICTOR FROND


BRAZIL PITTORESCO (BRASIL PITORESCO na ortografia atual) foi uma obra bilíngue (francês/português) sobre a "HISTÓRIA – DESCRIÇÕES – VIAGENS – INSTITUIÇÕES – COLONIZAÇÃO" do Brasil (conforme consta da folha de rosto) dividida em três tomos, de autoria do jornalista e político francês Charles Ribeyrolles (1812-1860), publicada em 1859, acompanhada por um "álbum de vistas" (PANORAMAS – PAISAGENS – COSTUMES, ETC. ETC.) anexo (uma espécie de quarto tomo) lançado em 1861 composto de litografias, executadas em Paris por diferentes gravuristas, baseadas em fotografias de Victor Frond, e não mais em desenhos como era costumeiro antes. Assim, podemos dizer que é o primeiro "álbum de fotografias" publicado no Brasil. 


Charles Ribeyrolles 
(1812-1860) foi um jornalista e político republicano francês exilado da França por Napoleão III. Chegou ao Brasil em julho de 1858 e, cerca de dois anos depois, faleceu em Niterói, como informa o artigo O fotógrafo francês Jean Victor Frond (1821 – 1881) e o “Brasil Pitoresco” no site Brasiliana Fotográfica.

O fotógrafo francês Victor Frond, igualmente republicano e exilado da França em 1852, chegou ao Brasil em outubro de 1856 e em 1857 tornou-se proprietário de um estúdio fotográfico no Rio de Janeiro. Além da cidade do Rio de Janeiro, fotografou, para O Brasil Pitoresco, fazendas do interior com seus trabalhadores da roça, livres e escravos, Campos dos Goitacazes, São Fidélis e Bahia (Salvador). Em 1860, acompanhando a viagem do naturalista e explorador suíço Johan Jacob von Tschudi, produziu registros fotográficos do Espírito Santo, tanto de Vitória como das colônias agrícolas de imigrantes, segundo informa também o artigo supracitado.  Em meados da década de 1860 retornou à França onde faleceu em 1861. 

Uma curiosidade: na equipe de tradutores do francês para o português estava o então jovem poeta, cronista e crítico teatral Machado de Assis. Mais informações sobre a obra podem ser obtidas aqui e aqui.

A seguir uma seleção de dez imagens do álbum comentadas e acompanhadas de citações (entre aspas) de trechos do segundo tomo da obra.

Aqueduto do Rio de Janeiro (Arcos da Lapa) com Convento de Santa Teresa (canto superior direito) e Igreja da Glória (ao fundo, à esquerda). “Salvo o aqueduto que tem bom aspecto, realmente, com as suas duas arcadas, no Rio não há um único monumento publico, nem uma colunata, nem uma estátua. Será esquecimento, preguiça ou bom senso?” (Brazil Pittoresco, tomo 2, pág. 57).


 Foto tirada do Morro da Babilônia mostrando o Morro dos Urubus, Morro da Urca e Pão de Açúcar. “Estávamos defronte do Pão de Açúcar, e posto que tivesse já caído a noite, eu via em fusco perfil, a algumas braças de mar, esse bloco enorme de granito, postado ali como um gigante de atalaia à entrada da baía.” (idem, pág. 26)

Igreja da Glória no outeiro de mesmo nome e antigo Mercado da Glória (direita). “Os verdadeiros passeios do Rio são os que se fazem aos morros. Mas árduas são as subidas do Castelo, da Glória, de Santa Teresa. Só os artistas, os estrangeiros ou os negros, se lhes atrevem no pino do sol, e o melhor é escalar pela madrugada, antes que a cidade e a baía fiquem abrasadas.” (pág. 49) 

Hospício D. Pedro II, atual Palácio Universitário da UFRJ (ver aqui). Em frente, onde hoje está o Iate Clube, ficava a Praia da Saudade. O personagem Policarpo Quaresma, de Lima Barreto, ficou internado um período neste hospício.

Hospital da Santa Casa da Misericórdia, existente até hoje, só que não mais de frente para o mar devido aos aterros. Atrás dele o Morro do Castelo, já demolido. O hospital ainda sem a nova ala com o grande pórtico central (ver aqui) construída posteriormente em frente à antiga fachada. “O hospital da misericórdia é um esplêndido e vasto edifício, dividido em quarteirões, em grandes salas, e magnificamente assente na praia que faz frente à entrada da baía. Tem ricas dependências, sucursais na cidade, ótimos rendimentos [...]. É um estabelecimento de primeira ordem. Paris e Londres não possuem melhor.” (pág. 55)

 Morro do Castelo. Na ponta esquerda do morro a antiga igreja dos jesuítas e o hospital militar onde antes era o Colégio dos Jesuítas e onde depois se instalou o Observatório Nacional. Para ver minha postagem sobre a demolição desse morro histórico clique em "Morro do Castelo" no menu da barra vertical direita. “Viam-se apenas as fraldas longínquas em que se escondem os montes e as pequenas ilhas; mas o Castelo com seu farol de sinais brilhava como um Sinai, e os olhos seguiam, luz após luz, a bela garganta de mar que ondula até Botafogo.” (pág. 27)


Vista de São Cristóvão, em ângulo raro a partir da Ilha Pombeba, como observou meu amigo Raul Félix. Na época um bairro de chácaras como Botafogo e Catumbi. Também lá os aterros empurraram o mar para mais longe. Vemos, da esquerda para a direita: Hospital dos Lázaros (que existe até hoje como você pode ver aqui), Morro do Barro Vermelho, Igrejinha de São Cristóvão. Morro do Tuiuti, Morro de São Januário, Morro do Retiro da América (ou Pedregulho). Ao fundo a Pedra do Conde e Pico da Tijuca. O acesso a São Cristóvão dava-se por barcas, como lemos no Ribeyrolles: “Há pequenas barcas que fazem o tráfego de Niterói, Botafogo, Baía de São Cristóvão, etc. Mas conta-se apenas duas ou três estações de ônibus, e quanto a carros e cabriolés da praça, conquanto flanqueiem as ruas e em distâncias convenientes, não são de fácil acesso.” (pág. 45)

Quinta Imperial da Boa Vista, na época em arrabalde afastado, como lemos no texto de Ribeyrolles. “Ha ainda outros sítios encantadores, mas bastante afastados tais como as gargantas da Tijuca onde a cascata murmura, Boa Viagem de Niterói, o Saco da Jurujuba, garganta estreita que abre para um dos ninhos da baía, orlada de picos, a ponta do Caju, Boa Vista de São Cristóvão, residência Imperial, e entre todos o Jardim Botânico, fechado, ou antes, perdido nas lagoas de S. João de Freitas [Rodrigo de Freitas], no fundo de Botafogo.” 

Foto tirada da Ilha das Cobras. Vemos, entre outras coisa: Morro de Santa Teresa (esquerda), Morro de Santo Antônio com o convento (pouco abaixo), Corcovado, Igreja da Candelária (centro) e Arsenal da Marinha (direita).  No final do século XIX, a Candelária era a mais alta construção da cidade (62,24 metros de altura do chão até o zimbório), visível à distância. “No Rio, cada uma das oito freguesias tem a sua igreja, algumas têm mais, sem contar as capelas e ermidas; e como julgamos que o leitor acharia fastidioso olhar aqui a nomenclatura minuciosa e circunstanciada de cada uma, escolheremos de todos esses quase monumentos, aquelc que nos pareceu mais notável, pelas suas formas arquitetônicas, pela altura e construção das suas torres; é a Candelária, mas entaipada em uma pequena rua, essa igreja fica afrontada.” (idem, pág. 51)

Vista da Ilha das Cobras. Em frente, o Mosteiro de São Bento, que até hoje tem o mesmo aspecto como você pode ver na foto abaixo que tirei da mesma Ilha das Cobras. À esquerda do mosteiro, o Palácio Episcopal (atual Serviço Geográfico do Exército), no Morro da Conceição, e em frente ao mosteiro os prédios do Arsenal da Marinha, alguns existindo até hoje como você vê na foto abaixo. “Na Europa, impelido pelos sopros dos séculos, o convento tem desaparecido, mas no Rio ainda existe; no meio da baía, depois de passar a ilha das Cobras, olhai em frente e vede. Aquele pesado edifício, de formas grossas, como um antigo castelo, é o mosteiro de S. Bento. Sua fundação é remota, e para o país é uma verdadeira antiguidade.” (pág. 52)