ENSEADA DE BOTAFOGO

ENSEADA DE BOTAFOGO
"Andar pelo Rio, seja com chuva ou sol abrasador, é sempre um prazer. Observar os recantos quase que escondidos é uma experiência indescritível, principalmente se tratando de uma grande cidade. Conheço várias do Brasil, mas nenhuma tem tanta beleza e tantos segredos a se revelarem a cada esquina com tanta história pra contar através da poesia das ruas!" (Charles Stone)

VISTA DO TERRAÇO ITÁLIA

VISTA DO TERRAÇO ITÁLIA
São Paulo, até 1910 era uma província tocada a burros. Os barões do café tinham seus casarões e o resto era pouco mais que uma grande vila. Em pouco mais de 100 anos passou a ser a maior cidade da América Latina e uma das maiores do mundo. É pouco tempo. O século XX, para São Paulo, foi o mais veloz e o mais audaz.” (Jane Darckê Avelar)

23.11.14

SAARA CARIOCA


A SAARA carioca, diferente do Saara africano, é a Sociedade de Amigos das Adjacências da Rua da Alfândega, uma área de comércio popular pitoresca e colorida que evoca os bazares do Oriente Médio. As lojas expõem as mercadorias nas calçadas, pregoeiros com microfones diante de algumas lojas anunciam as ofertas irresistíveis, e na época das festas de fim de ano a SAARA lota de gente que quer se beneficiar do milagre da multiplicação do dinheiro, e ali árabes e judeus sempre conviveram harmoniosamente, num exemplo que deveria ser imitado no Oriente Médio. Nas suas mais de 600 lojas podem-se encontrar roupas, brinquedos, calçados, artigos esportivos, artigos de festa, etc. Ali funcionam tradicionais restaurantes árabes. A SAARA se estende pelas Ruas da Alfândega, Senhor dos Passos e transversais, no trecho entre a Avenida Passos e o Campo de Santana.

De acordo com o Plano Agache, toda a área de sobrados neoclássicos da segunda metade do século XIX e "ecléticos" da virada do século XIX para o XX que hoje constitui o SAARA (com uma ou outra construção mais moderna destoando) deveria ter sido cortada pela avenida Diagonal ligando a Lapa à Presidente Vargas, o que exigiria a derrubada de inúmeros desses sobrados, como ocorreu na abertura da Avenida Presidente Vargas, que não poupou sequer igrejas históricas. Graças à mobilização dos comerciantes da área quando Lacerda era governador da Guanabara, que fundaram a associação conhecida como SAARA, os sobrados foram preservados e estão lá firmes e fortes, em bom estado de conservação.

Na SAARA existem dois restaurantes árabes tradicionais: Cedro do Líbano e Sírio e Libanês. O restaurante Sírio e Libanês (Rua Senhor dos Passos, 217) foi fundado em 1963 pelo imigrante libanês Jawad Ghazi e está situado no coração da SAARA. Abre de segunda a sexta das 11h às 18h e no sábado das 11h às 16h. Já o Cedro do Líbano (Rua Senhor dos Passos, 231), o restaurante árabe mais antigo do Rio, foi fundado pelo libanês Narciso Mansur em 1948 e vendido seis anos depois para dois imigrantes, um espanhol e um português, que mantiveram a culinária libanesa. Existem também três igrejas históricas: a de São Gonçalo Garcia e São Jorge (que no dia do Santo Guerreiro tem fila na porta), a de Santo Elesbão e Santa Ifigênia (santos de devoção dos escravos africanos — penúltima foto) e a de Nossa Senhora do Terço.

Sugestão de roteiro pelo Centro do Rio: Cinelândia, o conjunto colonial do Largo da Carioca, a Rua da Carioca, a Praça Tiradentes, o Real Gabinete Português de Leitura, o comércio pitoresco do Saara terminando o passeio com chave-de-ouro na mais que centenária Casa Cavé ou na charmosa Confeitaria Colombo. (Informações obtidas em Ivo Korytowski, Guia da Cidade Maravilhosa. Fotos do editor do blog. Mais informações sobre a história da SAARA clicando aqui.)












17.11.14

VERÃO NO MAR

Para mais informações sobre o MAR clique na guia MUSEU DE ARTE DO RIO (MAR) no GUIA DO RIO do cabeçalho deste blog e/ou visite o site do MAR.

14.11.14

PASSEIO ATÉ BANGU

Estação Bangu

Tendo lido na imprensa sobre o novo sistema dos trens expressos da Supervia, que reduz os tempos de viagem nos ramais de Japeri e Santa Cruz, eu, o eterno explorador dos quatro cantos do Rio — e, confesso, tendo trabalhado treze anos na extinta Rede Ferroviária, trago ainda a ferrovia no sangue  resolvi dar minha conferida como “observador externo”.

Cheguei na estação Central do Brasil (oficialmente, Estação Dom Pedro II) às 13:30 e o quadro de horários indicava que o próximo Santa Cruz sairia em sete minutos. Embarquei. No horário marcado (suponho, estava sem relógio), as portas fecham. Abrem de novo. Voltam a fechar e a abrir várias vezes. Nos próximos vinte minutos, ninguém sabe se aquele trem vai sair ou não. Não passa pela cabeça do maquinista orientar os passageiros pelo sistema de alto-falantes dos vagões. Será que ele acha que está transportando carga?

Vinte minutos depois parte dos passageiros saem correndo até o outro trem, em frente, na mesma plataforma. É o trem “seguinte” para Santa Cruz que está em vias de partir.

A viagem é uma festa para os ambulantes. Vendem de tudo, de barras de chocolate e de cereais (tudo mais barato que no comércio convencional) até amolador de facas. É isso mesmo. Um vendedor simpaticíssimo munido de um megafone fixa um amolador na parede do trem e põe-se a louvar suas virtudes, com direito a demonstração com faca, tesoura. (Dizem que Silvio Santos começou mais ou menos assim.) Um passageiro ao meu lado fala (comigo? brasileiro tem essa virtude de falar com a pessoa ao lado): “Em casa tenho sete facas cegas, será que isso amola mesmo?” Acaba comprando. Também a cinco reais...

A certa altura ouve-se um "batidão" em pleno trem. É o vendedor de um CD de funks. Nada de proibidões, palavrões, adverte, são funks clássicos. Um outro ambulante se anima e põe-se a dançar no trem. Numa estação, sobe uma mãe com um bebê no colo. Logo alguém avisa: “Uma mãe com um bebê, ninguém vai dar lugar?” E alguém cede o lugar (contrariado?) Regras e disciplinas no país do Carnaval não são bem-vindas, mas informalmente dá-se um jeito.

Chego em Bangu após cerca de meia hora de viagem, uma marca admirável. Vai tentar fazer esse trajeto de ônibus! O sistema de trens expressos funciona mesmo! A refrigeração do trem não estava lá essas coisas, mas aqui fora faz um calor de derreter catedrais, como diria Nelson Rodrigues. O que vim fazer nessa lonjura? Vim fazer o que faço Rio afora: explorar. Meu objetivo principal, a antiga Fábrica de Tecidos Bangu que deu início à urbanização do bairro, antes zona rural. O complexo, no estilo da arquitetura industrial inglesa da época com tijolos aparentes, depois que a fábrica fechou passou a abrigar um shopping. Projeto mais do que louvável que contribui para humanizar um bairro com poucos atrativos. 

Antiga Fábrica de Tecidos Bangu, atual Shopping Bangu. A fábrica foi construída pela Companhia Progresso Industrial do Brasil no terreno do antigo engenho Bangu. Em 1895 foi inaugurada a vila operária com 95 “casas higiênicas” que constitui a origem do bairro atual. Os mais antigos equipamentos urbanos do bairro foram criados em função da fábrica e seus operários. (Guia da Arquitetura Eclética do Rio de Janeiro)


A unidade arquitetônica do conjunto é conferida pelo tijolo aparente que harmoniza a convivência de diferentes referências estilísticas. Sob esse aspecto, Bangu repete outras fábricas brasileiras de tecidos inspiradas na arquitetura fabril inglesa. Parte da ornamentação arquitetônica — arcos, pilares com seus capitéis, dentículos etc. — é constituída por relevos da própria alvenaria. No corpo da fábrica os diferentes blocos e alas convergem para a torre do relógio de quatro mostradores. (Guia da Arquitetura Eclética do Rio de Janeiro)

Igreja de São Sebastião e Santa Cecília. Inaugurada em setembro de 1908, possui fachada em tijolo aparente avermelhado que confere unidade arquitetônica com as edificações do terreno da antiga Fábrica de Tecidos Bangu. Construída em estilo neogótico inglês, a igreja possui vitrais e arcos apontados no interior e uma torre sineira encimada por cúpula piramidal. (Guia do Patrimônio Cultural Carioca)

Bangu Atlético Clube, antigo Cassino da Vila Operária

Thomas Donohoe (chamado pelas pessoas de "seu Danau"), pioneiro do futebol brasileiro. No local desta estátua foi realizada a primeira partida de futebol no Brasil. "Thomas Donohoe chamou, de casa em casa, todos os seus companheiros dos velhos tempos. Um grupo composto de doze homens apareceu no campo improvisado em frente à fábrica, apresentando aquela que seria a primeira partida de futebol no Brasil, com a primeira bola a entrar em nosso continente." "Thomas Donohoe ajudou a fundar o Bangu Atlético Clube em 17 de abril de 1904 e seu filho Patrick foi o primeiro grande ídolo e artilheiro." (Informações transcritas das placas ao pé da estátua)

Uma última observação: na volta à Central, você mal consegue desembarcar do trem. As pessoas, na ânsia de pegarem um lugar sentado, entram feito estouro de boiada. Não posso criticá-las: deram duro o dia inteiro e ainda têm uma longa viagem pela frente.

15.10.14

NÉLSON CAVAQUINHO: AMARGO LIRISMO, PEQUENAS TRAGÉDIAS COTIDIANAS E EFÊMERO DA VIDA


Se no axé a regra é o alto astral, o "pra cima", já "pra fazer um samba com beleza é preciso um bocado de tristeza", como ensinou mestre Vinicus, e ninguém encarna melhor o lado melancólico, soturno do samba que Nelson Cavaquinho, o "Schopenhauer do samba", por assim dizer, com letras angustiadas como "Tire o seu sorriso do caminho que eu quero passar com a minha dor". Texto a seguir de Paulo Sérgio M. Machado e equipe para o fascículo Nélson Cavaquinho da Nova História da Música Popular Brasileira da Abril Cultural de 1978 (2a edição revista e ampliada). Imagens extraídas desse mesmo fascículo.

Filho de Brás Antônio da Silva e Maria Paula da Silva, Nélson Antônio da Silva nasceu no Rio de Janeiro em 29 de outubro de 1911. Entre suas lembranças da infância e da adolescência estão as constantes mudanças de endereço: Rua Mariz e Barros, Rua Silva Manuel (na Lapa), Rua Joaquim Silva (nos Arcos), uma temporada no subúrbio de Ricardo Albuquerque, outra no bairro da Gávea. A família pobre fugia dos aumentos dos aluguéis.

Também devido à pobreza, o menino Nélson abreviou a infância: saiu da escola no terceiro ano primário para ir trabalhar numa fábrica de tecidos e depois como auxiliar de eletricista. Mas sua formação musical iria mais longe. Começou em casa, com o pai, tocador de tuba na Banda da Polícia Militar. (Alias, essa tuba lhe traz triste recordação: para se safarem de uma situação econômica mais crítica que de costume, Nélson mais os cinco irmãos venderam o instrumento de trabalho de Seu Brás para um depósito de ferro velho.) Outro "professor" foi um tio violinista: nas tardes de domingo, o tio tocava, a família cantava e o menino tentava acompanhar num instrumento de fabricação caseira: fios de arame esticados numa caixa de charutos.

A influência mais forte, no entanto, viria dos bailes dos clubes Gravatá, Chuveiro de Ouro e Carioca Musical. Neles Nélson conheceu Edgar Flauta da Gávea, Heitor dos Prazeres, Mazinho do Bandolim e o violonista Juquinha. Este foi seu primeiro professor de fato: lhe deu as noções de como tocar — cavaquinho, principalmente. Nessa fase, Nélson adquiriu um vício que se transformou em estilo: tocar apenas com dois dedos.

Aprendeu como pôde, espiando os veteranos, perguntando a um, conversando com outro. Não tinha dinheiro para comprar o instrumento, mas logo já dava quedas até nos velhos tocadores.

"Dar uma queda" no acompanhante era um dos passatempos prediletos dos velhos chorões, que ficavam horas e horas nos bares executando variações em torno da linha melódica de uma valsa ou de um choro. Esses longos improvisos, onde se conheciam os verdadeiros mestres, lembram malabarismos feitos pelos negros do Sul dos Estados Unidos, na época das origens do jazz.

A queda praticada pelos chorões ocorria quando o tocador modulava a melodia solista de tal maneira que o acompanhante se atrapalhava na procura de nova posição, o que o obrigava aos saltos de tom. Nélson compôs Gargalhada em homenagem ao mestre Juquinha, que ria muito toda vez que lhe dava uma queda. Outro choro, composto nessa época, tinha o significativo nome de Queda.

Foi então que Ventura, um jardineiro português, ficou com pena de ver Nélson tocando tão bem no instrumento dos outros: deu-lhe de presente o primeiro cavaquinho. Muito tempo depois, já violonista, Nélson ganharia dos funcionários do Fórum do Rio mais um cavaquinho. Agradecido, comporia Nair — choro que foi gravado por Altamiro Carrilho e sua banda, e talvez a única composição em que o nome de Nélson aparece sozinho.

Mesmo tocando em instrumentos alheios, Nélson não desistia: tinha o incentivo das cabrochas que suspiravam encantadas pelos músicos.


DEGRAUS DA VIDA


Vídeo: Juízo Final, de Nélson Cavaquinho, com Herança do Samba. Vocalista: Márcio Wanderlei. Gravado na Feira das Yábas no segundo domingo de outubro de 2014. No final, um flash do bolo de aniversário de Marquinhos de Oswaldo Cruz. LETRA: O sol....há de brilhar mais uma vez / A luz....há de chegar aos corações / Do mal....será queimada a semente / O amor...será eterno novamente / É o Juízo Final, a história do bem e do mal / Quero ter olhos pra ver, a maldade desaparecer.

Nélson começava a ser "do Cavaquinho" quando, aos 21 anos, cometeu seu primeiro casamento.

Guindado à categoria de homem sério, com responsabilidades, sua família e a de Alice (a esposa) insistiam para que arranjasse um emprego condizente. Mas até o nascimento do terceiro filho, Nélson continuava passando a maior parte de seu tempo em rodas de samba e nos botecos da Lapa, a léguas do bairro de Brás de Pina, onde morava. Só voltava para casa quando o dinheiro — ou melhor, quando o crédito — acabava. Chegava com o cavaquinho (prova do crime) e uma galinha (tentativa de suborno). Alice jogava longe o instrumento e acendia o fogo para preparar a canja das crianças. Alguns dias depois, Nélson sumia de novo e talvez a cena estivesse se repetindo até hoje se alguns amigos de Seu Brás não tivessem arranjado um emprego de cavalariano da Força Pública para o sambista. O salário certo, reforçado pela comissão que o novo policial cobrava de prostitutas da Lapa, deu certa estabilidade ao lar de Nélson.

Sua função era patrulhar os botecos dos morros, o que ele fazia com inegável constância e eficiência. Para impedir arruaças, nem precisava efetuar prisões: conversava e bebia com o baderneiro até tudo se acalmar. Conta Nélson que seu cavalo conhecia todas as biroscas e parava em todas, pois também apreciava sua cachacinha:

— Ele ficava na porta do boteco, batendo com a pata no chão, até que o dono do bar levasse um pouco de pinga para ele.

A grande amizade que os unia sofreu um estremecimento na noite em que o animal largou Nélson num bar e foi sozinho para o quartel. O boêmio precisou voltar de bonde e entrar disfarçadamente na guarnição. E o cavalo, em sua baia, parecia rir dele...

Nessa época, Nélson foi se entrosando mais com Cartola, Carlos Cachaça e Zé com Fome (o futuro Zé da Zilda). E acabou compondo seu primeiro samba, Entre a cruz e a espada: "Na cruz eu vejo a imagem de Nosso Senhor/ E na espada eu vejo a tua imagem./ Quero disputar o teu amor, / Mas me falta coragem".

Depois de sete anos de casamento, Alice morreu e os filhos do casal foram viver sob tutela da avó materna. Livre de encargos, Nélson desligou-se da força e foi viver de e para a música.


SAMBAS EFÊMEROS OU ETERNOS

Cigano urbano, profundo conhecedor dos mocós do Rio, conhecido nas rodas de samba dos morros, Nélson passou a compor com maior frequência. Inclusive porque essa era a sua moeda: passou a trocar composições por hospedagens em hotelecos, cachaça, comida, uma roupa feita. Não sabia que seus sambas tinham valor muito superior ao que lhe pagavam. Mas às vezes o comprador também era prejudicado. Certa vez um "parceiro" apareceu reclamando:

— A gente tava muito bêbado quando comprei aquele seu samba e agora eu não lembro mais a letra nem a música...
— Azar seu, compadre, eu também esqueci tudo.

E com os 5$000 que lhe rendera a venda, Nélson comeu durante uma semana no Bar do China.

Ele nunca se interessou muito pela industrialização de sua arte. Os sambas eram feitos para se consumirem nas madrugadas, convertidos em alegria e bebida. Gravar pra quê? Mas, ainda no início da década de 30, aconteceu o primeiro disco. Rubens Campo e Henricão, homens de rádio, ouviram Não faça vontade a ela e insistiram até Nélson aceitar a "oportunidade" que eles lhe ofereciam (em troca de parceria). A música foi gravada, mas em edição particular.

Seria um início de carreira de compositor profissional, mas o notívago não tinha tempo nem disposição para andar atrás de gravadoras e cantores. Vários sambas que se tornariam clássicos·da MPB ficaram guardados durante anos na memória do menestrel, esperando a hora da gravação. Foi o que aconteceu, por exemplo, com Rugas (gravado em 1946, por Ciro Monteiro) e Degraus da vida (em 1961, por Roberto Silva). Nélson vivia de biscates e da venda de sambas. Mílton Amaral, também boêmio e compositor, conta que, certa madrugada, fizeram um samba em parceria. Alguns dias depois, quando foi à editora para assinar o contrato, já era o 16o coautor: Nelson havia vendido catorze parcerias da mesma música.

Na década de 40, o nome de Nélson Cavaquinho — alias, N. Silva, como ele então se assinava — começa a aparecer em etiquetas de discos da RCA Victor. Ciro Monteiro gravou, em 1943, Apresenta-me aquela mulher (de N. Silva, Augusto Garcez e G. Oliveira); ainda no mesmo ano, Não te dói a consciência (Augusto Garcez, N. Silva e Ary Monteiro); e, em 1945, Aquele bilhetinho.

Foi por essa época que Nélson conheceu Guilherme de Brito, que viria a ser seu maior e mais constante parceiro. Juntos fariam sambas antológicos, do porte de Pecado, Palavras malditas, Cinzas, Depois da vida, Pranto do poeta e Degraus da vida.

"TIRE O SEU SORRISO DO CAMINHO, QUE EU QUERO PASSAR COM A MINHA DOR"


Guilherme de Brito Bolhorst nasceu no Rio em 3 de janeiro de 1922. Perdeu o pai muito cedo e logo precisou trabalhar para ajudar em casa. Tinha catorze anos quando foi contratado pela Casa Édison. A situação econômica do país estava difícil, os empregos eram raros e Guilherme não podia perder aquele. E o pior é que precisava trabalhar na loja, trajando-se com relativa elegância — justo ele, que não tinha nem um terno. Um amigo da família arranjou um paletó, outro, a calça, e assim por diante.

— Mas como eu era garoto ainda pequeno, minha mãe teve de adaptar as roupas, e não ficaram "sob medida". Daí me deram o apelido de Calça balão. Me senti humilhado e fiz meu primeiro samba, Calça balão, do qual, aliás, nem me lembro mais.

Guilherme superou a brincadeira de mau gosto e ficou na Casa Édison durante trinta anos, passando de office-boy a chefe dos mecânicos de máquinas de calcular, cargo no qual se aposentou em 1966. A ligação de Guilherme com a música começou cedo: o pai e uma das irmãs eram violonistas e logo o menino se viu com um cavaquinho nas mãos. Além disso, ele nasceu em Vila Isabel, um dos principais núcleos de sambistas.

O que retardou a divulgação de seu trabalho como compositor foi o serviço na Casa Édison, que lhe deixava sem tempo para a boêmia e o relacionamento no meio artístico. Pouco divulgadas, suas músicas não conseguiam gravação. Ademilde Fonseca e Roberto Silva cantavam algumas delas nos programas de auditório, mas não as levaram ao disco.

— Acho que não gravavam — conjetura Guilherme de Brito —, porque não existia a parte promocional das gravadoras. Quem fazia a promoção era o próprio compositor, que saía pelas rádios fazendo caitituagem. E eu não tinha tempo nem conhecimento pra fazer isso. Nessa época já tinha muita gente desconhecida doida pra aparecer. E os caras famosos, que podiam dar uma força, humilhavam a gente. Mandavam esperar um pouco e iam embora, marcavam encontro e não apareciam...

Assim, a primeira gravação só aconteceu em 1954. Um concunhado de Guilherme, que acompanhava Augusto Calheiros, conseguiu uma apresentação. E Augusto acabou registrando num 78 da Todamérica Meu dilema e Audiência divina, ambas de Guilherme de Brito.

— Quer dizer, demorei pra começar mas comecei bonito.

Depois disso, as coisas se tornaram um pouco mais fáceis, e Guilherme conseguiu gravar com outros nomes conhecidos, como Pedro Caetano, Orlando Silva, Trio Irakitan e Vocalistas Tropicais. Mas não foram grandes sucessos comerciais, pela falta de divulgação.

Então Guilherme passou a procurar um parceiro que fizesse essa parte. Morava em Ramos, um dos vários locais onde Nélson Cavaquinho fazia ponto, e o encontro entre eles acabou acontecendo. De noite, quando Guilherme voltava da Casa Édison, Nélson estava pelos bares, bebendo e cantando, rodeado de amigos. De manhã, quando ia para o trabalho, Nélson ainda estava lá, acompanhado pelos mais resistentes. Acabaram se conhecendo, tornando-se amigos e parceiros. É verdade que Nélson nunca iria caitituar as músicas da dupla, mas deu-se muito com Guilherme — os dois tinham uma visão de mundo bem semelhante.

Formou-se então uma dupla de compositores de amargo lirismo, voltados para as pequenas tragédias cotidianas e para o efêmero da vida. Poucos poetas tiveram inspiração suficiente para condensar numa frase toda a magoa transmitida por eles nestes dois versos de A flor e o espinho: "Tire o seu sorriso do caminho, / Que eu quero passar com a minha dor".

Mesmo composições feitas para a escola de samba querida de Nélson mantêm a preocupação quase obsessiva com a morte: "Em Mangueira, / Quando morre um poeta, todos choram./ Vivo tranquilo em Mangueira, / Porque sei que alguém há de chorar / Quando eu morrer. / Em Mangueira o pranto é tão diferente, / É um pranto sem lenço, que alegra a gente. / Hei de ter um alguém pra chorar por mim / Através de um pandeiro e de um tamborim" (Pranto de poeta, de Nélson e Guilherme).

Na década de 50, as músicas da dupla começaram a ser gravadas com mais frequência. Mas ainda não era o sucesso: nomes de "comprositores" continuavam a constar ao lado dos de Nélson e Guilherme. E não adiantava muito este pressionar o companheiro contra tais "parcerias", pois se ele não divulgava as composições, Nélson muito menos. O ex-cavalariano estava inteiramente voltado para a sua arte e para a boêmia. Não via por que não ceder coautoria a um novo amigo de balcão ou a alguém que fizesse a composição render algum dinheiro para novas farras.

Por outro lado, entre Guilherme e Nélson existe o pacto de só fazerem música junto e sempre a dois mesmo:

— Eu não me sentiria bem se meu nome entrasse sem eu ter feito nada — garante Guilherme e concorda Nélson, emborcando um cálice de conhaque. Por isso, mesmo que dê pra um terminar a música sozinho, ele sempre deixa um pedaço pro outro fazer.

MINHA FESTA


Em 1961, Nélson começou a frequentar regularmente a casa de Cartola e sua mulher, Dona Zica. Estimulados por cervejas e saborosos petiscos, passavam as madrugadas em memoráveis rodas de samba compositores de real valor, como Zé Kéti, Paulinho da Viola, Jair do Cavaquinho, Anescar Bigode, Élton Medeiros e muitos outros.

A casa da Rua dos Andradas foi ficando famosa — e pequena. Então surgiu a ideia de se abrir um restaurante: Zica entrava com a comida e Cartola com o violão. Logo o Zicartola tornou-se reduto de toda a boa música popular, independentemente de linhas ou temáticas. E, com a revalorização das raízes musicais, provocada pelo Centro Popular de Cultura da União Nacional dos Estudantes e assimilada pela bossa nova, velhos sambistas foram descobertos ou redescobertos.

Nélson foi um deles. Em 1965, Nara Leão gravou com algum sucesso Pranto de poeta; os convites para que ele tocasse em shows se multiplicaram; e sua fama ultrapassou as fronteiras da boêmia carioca.

Agora o desligamento de Nélson ganhava notoriedade, tornava-se folclórico. Conta-se que certa noite ele tocou com Jobim até amanhecer, chegando a combinar um show conjunto. O produtor Jorge Coutinho, ao saber da história, correu à procura de Nélson para acertar os detalhes do tal espetáculo. Ao que Nelson reagiu espantadíssimo:

— Tom?! Que tom? Dó maior?

Noutra ocasião, Paulinho da Viola organizou um show que teria, entre os artistas, Nélson Cavaquinho. Paulinho lembrou-o varias vezes do compromisso, mas no dia Nélson simplesmente desapareceu. Paulinho quase não recebeu, por quebra de contrato. Depois, ao encontrar o velho boêmio, tomou fôlego para a maior esculhambação, mas Nélson o interrompeu na primeira frase:

— Você não avisa nada e ainda vem dando bronca no Nélson! Assim não é possível!

(Outra mania do sambista é referir-se a si mesmo na terceira pessoa.)

Na esteira dessa revalorização, em 1970 gravou seu primeiro LP exclusivo como cantor, na etiqueta Castelinho (disco depois comprado pela Continental).

Durante toda a década de 70 ele foi muito requisitado, e teve inúmeras músicas gravadas por intérpretes de sucesso: Paulinho da Viola (Duas horas da manhã), Chico Buarque de Holanda (Cuidado com a outra, de Nélson e Augusto Tomás Jr.), Clara Nunes (Minha festa, de Nélson e Guilherme e Palhaço, de Nélson, Washington e Osvaldo Martins), Beth Carvalho (Quero alegria, de Nélson e Guilherme), além de Elizeth Cardoso, o saxofonista Paulo Moura e outros.

Com Guilherme de Brito ele gravaria um LP em 1977: Quatro grandes do samba (os outros dois grandes eram Candeia e Élton Medeiros). Guilherme estreou como cantor, registrando duas de suas composições de maior sucesso —A flor e o espinho e Quando eu me chamar saudade — e duas outras menos conhecidas — A vida e Gota de luar (também de Nélson e Guilherme).

MEU CORAÇÃO AMIGO

Um dia apareceu na vida do compositor a moça Durvalina, trinta anos mais nova que ele. E não passou, como tantas outras. Ficou: de dia empregada doméstica na mansão de um banqueiro, à noite cuidando de sua casinha no Jardim América. E de Nélson Cavaquinho.

Um Nélson Cavaquinho que ainda precisa que o parceiro e amigo de várias décadas o acompanhe quando há algum dinheiro a ser recebido, para que o pagamento não seja todo consumido em noites de farra. Separada uma importância que Guilherme levará para Durvalina pagar as contas, Nélson passeia sua liberdade pelo Rio de Janeiro. Num balcão qualquer da noite carioca, ele pedirá a primeira. Dedilhará o violão, provavelmente cantara Caridade:

"Não sei negar esmola a quem implora caridade. / Me compadeço sempre de quem tem necessidade. / Embora algum dia eu receba ingratidão, / Não deixarei de socorrer a quem me pedir um pão. / Eu nunca soube evitar de praticar o bem, / Porque posso precisar também. / Sei que a maior herança que eu tenho na vida / É meu coração amigo dos aflitos. / Sei que não perco nada em pensar assim / Porque amanhã não sei o que será de mim".

— Esse samba sou eu mesmo.

Vai beber o resto do cachê, conversar, cantar, beber, ter novas ideias que depois mostrará ao parceiro. E talvez amanhã nasça mais um clássico da música popular brasileira. (Texto de 1978. Nélson Cavaquinho viria a falecer em 1986.)

12.9.14

ART RUA 2014

"Muito mais do que uma exposição, o ART RUA é um movimento de revitalização urbana através da arte." Criado em 2011 pelo Instituto R.U.A. em parceria com a produtora Visionart'z, a edição de 2014 realizou-se no Centro Cultural Ação Cidadania, Zona Portuária, de 11-14 de setembro. Uma das atrações foram sete murais gigantes sob o tema Daydreaming, cinco dos quais você vê nas fotos a seguir. 

Ramon Martins, "37 semanas"

Rodrigo Branco, "Acaso"

Bicicleta sem Freio, "Noite Escura"

Ana Marietta, Los "Pescados"

Seth the Globe Painter, "Do Outro Lado"

5.9.14

STEFAN ZWEIG NO RIO DE JANEIRO - PARTE 1: CHEGADA DE NAVIO


Antes de emigrar definitivamente para o Brasil fugindo da barbárie nazista, Stefan Zweig já fizera uma viagem pelo país, descrita no ensaio PEQUENA VIAGEM AO BRASIL, escrito no outono de 1936 e incluído no livro ENCONTROS COM HOMENS, LIVROS E PAÍSES, publicado pela Editora Guanabara em 1939 em tradução de Milton Araujo e gentilmente cedido a este blog por Salomão Rovedo. Fotos do Rio antigo extraídas de PPS que circularam pela Internet. O texto aqui reproduzido é um raro relato da entrada de navio na Baía da Guanabara que tanto impressionava os visitantes da Cidade Maravilhosa  incluindo minha mãe como você pode ler em seu diário clicando em Diário de minha mãe no menu à direita — antes do advento da aviação intercontinental. 


De manhã cedo, já todos os passageiros esperam com impaciência e curiosidade, a bordo, munidos de binóculos e câmaras; ninguém quer perder a ocasião de ver a entrada famosa do Rio de Janeiro, mesmo aqueles que já a conhecem de muitas viagens. Ainda o mar brilha azul e metálico como há dias e dias, numa monotonia acalmante e ao mesmo tempo fatigante, e, não obstante, sente-se a proximidade da terra; respira-se a terra antes de vê-la, pois o ar torna-se de repente úmido, doce e mais suave, uma exalação pesada vem voando imperceptivelmente, conglomerada, nas profundidades dos bosques imensas, do hálito das plantas e da umidade dos cálices, aquela exalação das regiões tropicais, indescritível, quente, mormacenta, como o vinho em fermentação, que de maneira ensurdecedora, nos torna ébrios e cansados ao mesmo tempo. Agora, finalmente, muito ao longe, avista-se um contorno: uma cadeia de montanhas destaca-se com alguma incerteza ainda, nebulosa, no horizonte, e, à medida que o navio sulca seu caminho pelas águas, vai sendo avistado mais perceptivelmente; é uma série de montanhas que com braços estendidos protege uma das maiores baías do mundo, a bela baía de Guanabara. Todos os navios de todas as nações caberiam aí ao mesmo tempo, tão vasta e grandiosa ela é, abaulando-se com suas múltiplas enseadas e promontórios. Dentro dessa concha gigantesca arrombada estão espalhadas, como pérolas, inúmeras ilhas, cada uma diferente em forma e cor. Algumas mal aparecem, uniformes e acinzentadas, de dentro do mar ametístico; podia-se tomá-las, à distância, por baleias, tão nuas e peladas são suas costas. Outras são oblongas e pedregosas, estriadas como crocodilos; outras povoadas de casas; algumas são fortalezas, outras assemelham-se a jardins flutuantes com palmeiras e flores; e, enquanto se admira curiosamente essa variedade inesperada das formas, com o auxilio do binóculo, vêm-se destacar ao mesmo tempo, bem ao fundo, plasticamente, as montanhas, também cada uma delas diferente, cheia ·de caprichos. Uma é nua, a outra coberta de um vestido de palmas verdes, esta com penhascos, aquela cingida por um cinto resplandecente de casas e jardins; parece que a natureza, como escultora atrevida, experimentou colocar todas as formas terrestres uma ao lado da outra; e por isso, a fantasia do povo deu nomes terrestres a cada uma dessas figuras de pedra: Morro da Viúva, Corcovado, Cão, Dedo de Deus, e, à mais visível de todas, o nome de Pão de Açúcar. Esta montanha, subindo diante da cidade, com seu declive abrupto, acha-se na entrada do Rio de Janeiro como a estátua da Liberdade diante de New York, ambas como o símbolo antiquíssimo e imóvel destas cidades. Por cima de todos esses monólitos e montanhas vê-se, como capital dessa geração de gigantes, o Corcovado, onde se eleva a imagem de Jesus, de braços abertos (à noite toda iluminada), abençoando o Rio de Janeiro como um padre ao levantar o hostiário sobre os crentes ajoelhados.


Agora percebe-se a cidade após a passagem por um complicado labirinto de ilhas. Não se avista, porém, toda de uma vez. Não é como em Nápoles, na Argélia ou em Marselha, cujas cidades aparecem num panorama de casas, como uma arena aberta com degraus de pedras, logo à primeira vista. Quadro por quadro, parte por parte, plano por plano, desdobra-se a cidade do Rio de Janeiro como um leque, e é por isso que a sua entrada é tão dramática, tão inexpressivelmente admirável e surpreendente. Cada uma dessas baías povoadas, de cuja reunião resulta a sua costa, é separada uma da outra por meio de cadeias de montanhas — são como as varetas do leque, que isolam cada quadro, reunindo-as ao mesmo tempo. Finalmente avistamos a praia arqueada. Aspecto encantador! Um passeio vasto ao longo da praia, continuamente espumada pelas ondas, com casas, praças e jardins; distingue-se claramente o hotel de luxo e, elevando o olhar, os outeiros com as vilas cercadas de árvores — porém, novo engano! É somente a praia de Copacabana, uma das mais belas do mundo, um bairro novo e chic, não a própria cidade. Ainda é preciso passar o Pão de Açúcar, que impede a vista; somente então é que se vê a cidade maciça e branca, olhando para o mar e deslizando nas alturas verdes. Veem-se os jardins públicos das praias, recentemente feitos, e o campo de aviação, que há pouco tempo foi ganho do mar. Já vamos atracar e a impaciência será satisfeita. Mas não! Era novamente um erro. Desta vez é a enseada de Botafogo e a praia do Flamengo; o vapor ainda deve ser pilotado; ainda é preciso abrir-se outra folha desse leque divino, resplandecente, com todas as cores; ainda é necessário passar a ilha da marinha e aquela outra pequena com o palácio gótico, onde o imperador D. Pedro, dois dias antes de sua deposição deu, sem nenhum pressentimento, o último baile. E só agora podemos saudar as casas altas, uma só massa vertical; agora o vapor pode atracar e estamos na América do Sul, no Brasil, estamos na cidade mais maravilhosa do mundo — o Rio de Janeiro.


Essa entrada de uma hora é um acontecimento único no seu gênero e comparável somente à impressão irresistível daquela de New York, porém a saudação de New York é mais dura, mais enérgica, como um golfo setentrional com seus cubos amontoados, brancos como gelo. Manhattam nos oferece uma saudação viril, heroica; é a vontade humana indômita da América, uma irrupção da força acumulada. Rio de Janeiro estende-nos os seus braços meigos de mulher, recebe-nos com carinho, atrai-nos, entrega-se ao espectador, com uma certa voluptuosidade. Tudo aqui é harmonia; a cidade, o mar, o seu verde e as montanhas, tudo desliza como que ao som de uma música; mesmo os arranha-céus, os navios, os reclames luminosos de muitas cores não perturbam; e esta harmonia repete-se em acordes sempre novos. Diferente é a cidade vista do alto dos outeiros e vista do mar; contudo, é sempre harmonia, multiplicidade desprendida num conjunto completo, natureza que ficou cidade, e uma cidade que causa o efeito da natureza. Pela maneira grandiosa e generosa que o Rio nos recebe, já se sabe de antemão que a vista não se cansará de apreciar e a alma não se fartará dessa cidade extraordinária. 



23.7.14

DESPEDIDA DE JOÃO UBALDO RIBEIRO, de Cyro de Mattos


Nascido em 23 de janeiro de 1943, na Ilha de Itaparica, o escritor João Ubaldo Ribeiro faleceu na última sexta-feira (18), no seu apartamento, do bairro Leblon, Rio de Janeiro, vítima de embolia pulmonar. Jornalista, contista, romancista, cronista, tradutor e roteirista de cinema. Laureado com o Prêmio Jabuti duas vezes, Golfinho de Ouro (Rio), Prêmio Camões, para autores brasileiros e portugueses. Esse baiano de Itaparica deixa uma obra de altíssimo nível no corpo das letras brasileiras. Destacam-se na sua vasta produção os livros Sargento Getúlio (1971), Viva o povo brasileiro, (1984) O sorriso do lagarto (1989), romances, e Livro de histórias (1981). Formado pela Faculdade de Direito da Universidade Federal da Bahia, na turma de 1962, nunca exerceu a advocacia.

Começou a escrever muito cedo, publicando os primeiros contos nas coletâneas Panorama do conto baiano (1959), Reunião (1961) e Histórias da Bahia (1963). O romance Sargento Getúlio, que virou filme e, há pouco tempo, foi adaptado ao teatro, colocou João Ubaldo Ribeiro como um valor excepcional na moderna literatura brasileira. O livro foi traduzido por ele mesmo para o inglês e publicado nos Estados Unidos. Foi editado também na França. Com Livro de histórias (1981), o modo debochado de narrar do autor baiano mais uma vez retorna com incursões nas venturas e desventuras do povo de Itaparica e do sertão da Bahia.

Com Viva o povo brasileiro (1984), magnífico romance, com seu prodígio técnico, conhecimento incomum de linguagem e fala brasileira, vasto cabedal de informações sobre a vida e cultura do povo, João Ubaldo Ribeiro passa a ser reconhecido como um dos escritores mais significativos da América latina, ao lado de Jorge Amado, Gabriel Garcia Márquez, Mario Vargas Llosa, Carlos Fuentes e outros.

É triste, muito triste, essa despedida física de João Ubaldo Ribeiro. Ele foi meu amigo, companheiro de geração em Salvador e colega na Faculdade de Direito da Universidade Federal da Bahia, no período compreendido entre 1958 e 1962.

Quando estudante universitário, uma das coisas que eu gostava era de ir à Rua Chile. Quase todos os dias, visitava a Livraria Civilização como uma necessidade que o tempo me impunha, semelhante àquela quando se tem sede ou fome. Era lá que eu me encontrava com os companheiros de geração, à qual alguns deles pertenciam por afinidades eletivas, enquanto outros em razão da idade. Ildásio Tavares, Alberto Silva, Ricardo Cruz, Marcos Santarrita, Orlando Sena, Olnei São Paulo, Adelmo Oliveira, Carlos Nelson Coutinho e, presença indispensável, João Ubaldo Ribeiro. Lá estava o jovem de voz gutural, contador de casos como o primeiro sem segundo, sorriso largo e franco, olhos por trás de óculos com lente forte e armação grossa. De bom humor com tudo que viesse de graça e da graça da boa terra baiana.

E não é que, neste instante, pregando mais uma de suas travessuras e saindo da memória de repente, eis que risonho vejo diante de mim o colega que deu as mãos à criação literária como meio de leitura crítica da vida? João Ubaldo Ribeiro, com o seu jeito brincalhão de circular naquela querida Faculdade de Direito. Ele era encontrado na cantina, às vezes namorando com Belô, a moça mais bonita da faculdade. Comentava-se que feio como ele só mesmo sua inteligência rara poderia levá-lo à conquista do coração daquela moça, que, quando passava, arrancava suspiros dos estudantes universitários, de tão bela. Lá mesmo na cantina contava alguma história de sua gente de Itaparica aos colegas Davi Sales e Ildásio Tavares, o primeiro mostrando que sua vocação era para crítico literário e o segundo para a poesia, e não para a profissão de advogado. 

Uma vez fez uma prova de Direito do Trabalho em versos e ganhou do professor Elson Gottschalk a nota máxima. Outra vez, quando soube que havia passado de ano, subiu numa cadeira da cantina e, em transe, como se algum espírito de luz tivesse se apossado dele, começou a recitar Shakespeare em inglês clássico. Com aquela cabeça grande de baiano em que formigavam histórias, gozações repentinas, que pegavam os colegas sem defesa, só podia João Ubaldo Ribeiro dá no que deu. Em vez de advogado militante, dotado de vasto saber jurídico, fôlego de sete gatos para enfrentar os litígios forenses, tornou-se em pouco tempo o romancista consagrado de Sargento Getúlio e Viva o povo brasileiro, entre outros livros soberbos.

Era membro da Academia Brasileira de Letras. Seus livros foram traduzidos para oito idiomas. 

14.7.14

ADEUS, COPA!


Se perdemos a Copa futebolisticamente falando (e ainda por cima batendo vários recordes negativos, como a pior goleada já sofrida por nossa seleção, a pior goleada numa semifinal etc.), ganhamos a Copa no sentido de que apresentamos ao mundo um espetáculo primoroso & inesquecível. Os aeroportos não entraram em pane, os transportes públicos deram conta das multidões, nosso povo maravilhoso recebeu os turistas de braços abertos, projetamos uma imagem positiva do país ao bilhão de telespectadores da Copa mundo afora, e a aliança do mal dos blac blocks + sindicalistas tresloucados + partidos de ultraesquerda + certos movimentos sociais apequenou-se ante a euforia do povo que torcia pela (até então gloriosa) seleção canarinho. Valeu a pena porque a alma brasileira não é pequena! E agora vamos nos preparar para as Olimpíadas (aqui em nosso Rio) e a Copa seguinte (em mais um BRIC, a Rússia)! Bola pra frente!


28.6.14

TEVE COPA, SIM!

O mascote Fuleco (de futebol + ecologia) no Norte Shopping
A Santa Aliança agressiva e antidemocrática do “Não Vai Ter Copa” de black blocs fascistas, partidos ultraesquerdistas, políticos de passado sombrio, sindicalistas tresloucados e os chatos-de-galocha de plantão fez tanto estardalhaço que abafou algumas verdades óbvias, quais sejam, 1) que somos, sim, o país do futebol, 2) adoramos de coração a nossa gloriosa Seleção canarinho e 3) futebol e política são como água e óleo, não se misturam. Enfim as bandeiras se desfraldaram, os torcedores perderam o medo e estamos curtindo uma das melhores Copas de todos os tempos, tanto no nível técnico das partidas como na empolgação de turistas e brasileiros irmanados numa grande festa. E passada a Copa, nada de descambar novamente no mau humor. Lembremos que em outubro temos uma chance magna de passar o país a limpo: eleições!


Trio de Ouro

Felipão

Fuleco

Bandeiras nas janelas de um prédio do Cachambi, Zona Norte

Bandeiras em Copacabana

Fitas verdes e amarelas (e velhos sobrados) na Glória

Nossos heróis

Templo Positivista na Glória. Os dizeres "Ordem e Progresso" da bandeira foram tirados de um lema positivista.

Camisetas à venda. Fotos do editor do blog.