ENSEADA DE BOTAFOGO

ENSEADA DE BOTAFOGO
"Andar pelo Rio, seja com chuva ou sol abrasador, é sempre um prazer. Observar os recantos quase que escondidos é uma experiência indescritível, principalmente se tratando de uma grande cidade. Conheço várias do Brasil, mas nenhuma tem tanta beleza e tantos segredos a se revelarem a cada esquina com tanta história pra contar através da poesia das ruas!" (Charles Stone)

VISTA DO TERRAÇO ITÁLIA

VISTA DO TERRAÇO ITÁLIA
São Paulo, até 1910 era uma província tocada a burros. Os barões do café tinham seus casarões e o resto era pouco mais que uma grande vila. Em pouco mais de 100 anos passou a ser a maior cidade da América Latina e uma das maiores do mundo. É pouco tempo. O século XX, para São Paulo, foi o mais veloz e o mais audaz.” (Jane Darckê Avelar)

17.2.10

CARNAVAL NO RIO 2010

Segundo a atriz Dira Paes, a Norminha da novela Caminho das Índias, o Carnaval do Rio é um dos “espetáculos mais deslumbrantes do mundo”. Nosso Carnaval é democrático: tem diversão para todos os gostos e todos os bolsos, do Baile do Copacabana Palace, cujo ingresso custa entre R$1100 e R$3200, ao Carnaval de rua, onde até humildes catadores de latinhas caem no embalo. E tem mil e um blocos, as rodas de samba do Rio Folia na Lapa, o Terreirão do Samba, o baile da Cinelândia, o desfile do Cacique de Ramos na Avenida Rio Branco, as Escolas de Samba mirins e do Grupo de Acesso. O ponto alto (e aí irei mais longe que Dira Paes e direi que se trata do maior espetáculo da Terra), o desfile das Escolas de Samba do Grupo Especial. Na TV já é divino-maravilhoso, mas ao vivo... Este ano (pela primeira vez) fui lá. As fotos dão apenas uma imagem pálida da suntuosidade. Vejam o paradoxo: esse espetáculo que é um luxo só tem sua base não em bairros chiques, bairros nobres, e sim em “comunidades” pobres. Suas raízes estão na cultura popular. Esse povo supostamente “ignorante” (ao olhar das elites) consegue produzir (claro que sob a batuta do carnavalesco) um espetáculo de dimensões hollywoodianas. E tudo com organização e segurança de primeiro mundo e pontualidade britânica (porque quem atrasa perde pontos). O recorte da coluna de Ancelmo Gois abaixo enviado pelo amigo Manoel Rodrigues prova que não estou exagerando. Além disso, diz o jornal O Dia de 23/2: "Carnaval trouxe 800 mil turistas à cidade e levou às ruas 3,5 milhões de foliões. Pesquisa feita para a Riotur aponta que mais de 90% dos turistas voltarão para a folia carioca." Após o recorte, as fotos das seis escolas que desfilaram no domingo.

1. União da Ilha - Dom Quixote de La Mancha, o cavaleiro dos sonhos impossíveis.
“A Ilha vem cantar / Mais um sonho impossível… Sonhar! / Quem é que não tem, / uma louca ilusão / E um Quixote no seu coração?” O carro alegórico da primeira foto mostra Dom Quixote.

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2. Imperatriz Leopoldinense – Brasil de todos os Deuses. “O índio dançou em adoração / O branco rezou na cruz do cristão / O negro louvou os seus orixás / A luz de Deus é a chama da paz” Muito bonito o enredo mostrando a convivência de diferentes crenças religiosas no nosso país.

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3. Unidos da Tijuca – É Segredo! “É segredo, não conto a ninguém / Sou Tijuca, vou além / O seu olhar vou iludir / A tentação é descobrir” A primeira foto mostra o Cavalo de Troia, a segunda, os Jardins Suspensos da Babilônia. Os truques de ilusionismo da comissão de frente empolgaram o público, que ao final do desfile bradava: “É campeão!”

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4. Viradouro – México, o Paraíso das Cores, sob o Signo do Sol. “Arriba, Viradouro! / Uma tequila para comemorar / Um lenço vermelho, sombrero na mão / O México em cores vou cantar.” A segunda foto mostra o carro alegórico de Finados.

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5. Salgueiro – Histórias Sem Fim. O refrão conquistou o público: “Uma história de amor / Sem ponto final / Academia do Samba é Salgueiro / No livro do meu Carnaval.” E o enredo, uma declaração de amor aos livros, conquistou este blogueiro: “Páginas descrevendo pensamentos / Clássicos, ideais e sentimentos / Romance e aventura / Quanta riqueza na nossa literatura.”

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6. Beija-Flor – Brilhante ao sol do novo mundo, Brasília do sonho à realidade, a capital da esperança. “Sou candango, calango e Beija-Flor! / Traçando o destino ainda criança / A luz da alvorada anuncia! / Brasília capital da esperança.” Desfile de puro luxo.

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8.2.10

PÔR-DO-SOL NO ARPOADOR


Com a temperatura beirando os quarenta graus, fazer o que no fim de semana? Trancafiar-se em casa no ar-condicionado? Filar o ar-condicionado do shopping? Entornar umas cervejas e sair nos blocos carnavalescos? Um programa cada vez mais popular é pegar uma praia sem raios ultravioleta no fim da tarde, início da noite. No Arpoador e Ipanema o sol faz o espetáculo, ao mergulhar no horizonte. Com direito a palmas do público. Altas vibes no nosso Rio de Janeiro.


1.2.10

POEMAS DE COPACABANA

PoemasDeCopacabana1

COPACABANA
Geir Campos

dormes
            entre teus sustos
                                        relaxada
imagem do meu tudo
                                    e do meu nada

teu fundo respirar contemplo
                                                 é onde
a vida se pergunta
                              e se responde

enquanto dormes
                             por teu sono vela

trazida de uma ilhota peruana
      e aqui no exílio da sua capela

      nossa senhora de copacabana

PoemasDeCopacabana2

COPACABANA
Vinicius de Moraes

Esta é Copacabana — ampla laguna
Curva e horizonte, arco de amor vibrando
Suas flechas de luz contra o infinito.
Aqui meus olhos desnudaram estrelas
Aqui meus braços discursaram a lua
Desabrochavam feras dos meus passos
Nas florestas de dor que percorriam.
Copacabana, praia de memórias!
Quantos êxtases, quantas madrugadas
Em teu colo marítimo! Esta é a areia
Que tanto enlameei com minhas lágrimas.
Aquele é o bar maldito. Não estás vendo
Aquele escuro ali? É um obelisco
De treva: cone erguido pela noite
Para marcar por toda a eternidade
O lugar onde o poeta foi perjuro.
Ali tombei, ali beijei-te ansiado
Como se a vida fosse terminar
Naquele louco embate. Ali cantei
À lua branca, cheio de bebida
Ali menti, ali me ciliciei
Para gozo da aurora pervertida.

PoemasDeCopacabana3

Sobre o banco de pedra que ali tens
Nasceu uma canção. Ali fui mártir
Fui réprobo, fui bárbaro, fui santo
Aqui encontrarás minhas pegadas
E pedaços de mim por cada canto.
Numa gota de sangue numa pedra
Ali estou eu. Num grito de socorro
Entreouvido na noite, ali estou eu.
No eco longínquo e áspero do morro
Ali estou eu. Tu vês essa estrutura
De apartamentos como uma colmeia
Gigantesca? Em muitos penetrei
Tendo a guiar-me apenas o perfume
De um corpo de mulher a palpitar
Como uma flor carnívora na treva.
Copacabana! ah, cidadela forte
Desta minha paixão! a velha lua
Ficava no seu nicho me assistindo
Beber e eu muita vez a vi luzindo
No meu copo de uísque, branca e pura
A destilar tristeza e poesia...
Copacabana! réstia de edifícios
Cujos nomes dão nome ao sentimento!...
Foi no Leme que vi nascer o vento
Certa manhã, na praia. Uma mulher
Toda de negro no horizonte extremo
Entre muitos fantasmas me esperava
A moça dos antúrios, deslembrada
A senhora dos círios, cuja alcova
O piscar do farol iluminava
Como a marcar o pulso da paixão
Morrendo intermitentemente. E ainda
Um brilhar de punhal, um riso acústico
Que não morreu. Ou certa porta aberta
Para a infelicidade: inesquecível
Frincha de luz a separar-me apenas
Do irremediável. Ou o abismo embaixo
Aberto, elástico, e o meu ser disperso
No espaço em torno, e o vento me chamando
Me convidando a voar... (Ah, muitas mortes
Morri entre essas máquinas erguidas
Contra o tempo!) Ou também o desespero
De andar, como um metrônomo, para lá
E para cá, marcando o passo do impossível
À espera do segredo, do milagre
Da poesia.

PoemasDeCopacabana4

Tu, Copacabana,
Mais que nenhuma outra foste a arena
Onde o poeta lutou contra o invisível
E onde encontrou enfim sua poesia
Talvez pequena, mas suficiente
Para justificar uma existência
Que sem ela seria incompreensível.

PoemasDeCopacabana5

POEMA DE COPACABANA
Nertan Macedo

(Mas há quem vele porque te ama,
Praia de cinza, violentada).
Copacabana de madrugada,
Abandonada a um mar cinzento;
Copacabana de madrugada
Exala um ar de indiferença.
Porque só nós estamos vendo
Copacabana abandonada,
Copacabana de madrugada:
Cinza espalhada num mar de cinza,
Cinza espalhada num mar de bruma,
Cinza cobrindo arranha-céus...
Copacabana está sozinha,
Violentada, prostituída,
Quem nesta hora te conhece
Sem riso, nua como uma noiva,
Lívida, triste, despenteada?
Vingo momentos de vã pureza,
Teu sol dourado, teu corpo branco,
Tuas manhãs mistificadas.
Copacabana de madrugada -
Tristeza, bruma, álgidos ventos... -
(Mas há quem vele porque te ama,
Praia de cinza, violentada).

PoemasDeCopacabana6

COPACABANA
Igor Fagundes

como se caminhasse rumo ao Leme
e viesse o sol pousar ao fim da tarde
na mochila, rumo à sede de entregá-lo
a algum poente que não fosse só miragem

aqui, onde há saudade em cada grão de areia
sobre os pés e a chamam dentro: maresia
de um menino cuja sombra traz o atlântico
de teu corpo – luz maior do que a avenida

aí, onde o verde dos olhos dita o trânsito
e um vento avança pelos lábios, sem buzinas
sem faróis, pois não há noite em céus da boca
e feito asfalto, é nossa pele a travessia

aqui, onde nas mãos terás copacabanas:
um forte ao fundo, a vista curva da varanda
a multidão em nós, teus fogos de artifício
o arpoador além do olhar, tramando abismos

como se nos bastássemos de morros, túneis
da Tonelero ao Rebouças, da Isabel ao Cantagalo
da tua voz ao meu chamado, este destino:
mochila aberta, entrego o sol ao teu caminho

PoemasDeCopacabana7

COPACABANA
Fernando Py

Mineral de tão ausência
paisagem retorno - areia
na palma da mão em concha
de onde escorre toda a infância
presa na praia perene
entre gritos e buzinas
e opressão de edifícios
sumida em crateras de asfalto

          desculpe o transtorno
         
estamos instalando o cérebro eletrônico

arrepio de tão moderno
castelos outrora
deserto de amor em selva maquinária
de onde escorre saliva de betume
cravo em cruz na crosta condenada
entre pés e pés — passeio destroço
no rio preto sempre interrupto e plão

          DESCULPE O TRANSTORNO
          ESTAMOS INSTALANDO
          O CÉREBRO ELETRôNICO

choque de dois habitando o mesmo corpo
épocas longes visitando a memória
mastro emergindo na onda primitiva
avião
brinquedo e criança na praia soterrados

          desculpe o transtorno

gravata e barba inúteis se acrescentam

PoemasDeCopacabana8

ao passado nos olhos
que água veem — colunas desabando
aos pés cuja nudez na areia se agasalha
e espuma nas mãos um pingo lasso
cola-se à pele — comunhão discreta

          estamos instalando o cérebro eletrônico

edifício em ruínas — sempre dois
brigando no corpo
presença do ontem nos gestos e na roupa
ciência maior e menos entregar-se
praia distante embora aqui
edifício em construção

                    crise
do ontem no hoje se expandindo

          desculpe o

as mesmas ondas onde? a pele primavera
onde? riso bebido em laranjada onde?
onde a lembrança mínima da praia?

          transtorno

caramujo inaudível ânfora da tarde
e a noite se avizinha apascentando

          estamos instalando

fios de essência ligam-se à medula
colorindo o princípio do velho
Copacabana pérola
          infinito
matemática

          o cérebro eletrônico

pesquisando a justeza das crateras
onde mais que todos mineral
isento de pureza e acalanto
o maduro obriga a infância a destruir-se.

PoemasDeCopacabana9

LUAR SOBRE COPACABANA
Celso Japiassu

Névoa e gás envolvem a lua,
paredes e muros de Copacabana.
Reflexos imitam a lua, deságuam
nas línguas negras,
são estranhos animais.

Invisível-indivisível, o corpo
anda: corpos velhos sob a lua.
Os velhos passam, não são vistos.
São peixes transparentes contra a água
de outros corpos na rua.

Entre o mar e os edifícios
o areal rompe as ondas,
suja os olhos e a boca,
constrói no ar seu roteiro.
Deixa traços no caminho.

Uma noite sem mistério
ou sonho. Um homem senta-se ao bar,
aspira o hálito do tempo,
bebe ao futuro. As horas,
uma a uma, desperdiçam seus sinais.

O movimento dos vultos,
cães silenciosos, homens apagados
misturados ao trânsito da noite.
O tempo espelha sua lâmina
no refluxo das águas.

O sereno, as sombras e o silêncio
juntam-se nas esquinas das ruas
e avenidas do Leme ao Posto Seis.
Transitam além dos olhos, na alma
que não consegue adormecer.

Há um território do sono
explorado pelo mar e seus ruídos,
habitação do medo, onde fantasmas
balbuciam sortilégios e os mortos
são aves recolhidas pelo vento.

PoemasDeCopacabana10
baconacapa
Cairo de Assis Trindade
(do livro Poezya que porra é essa?)

depois que eu descobri copacabana
esqueci a sonhada ida à grécia
o pôr de sol do sul na primavera
e o meu encanto por viver cigano

depois que eu conheci copacabana
desisti de ir pra lá de bagdah
pra paris ou qualquer outro lugar
mesmo que mais sagrado ou mais sacana

depois que mergulhei em suas águas
e me afoguei em sua noite insana
jamais voltei a ser o mesmo cairo

se me perdi nesta babel humana
quero morrer aqui em minha praia
e ir surfar no céu de copacabana

Fotos da Praia de Copacabana (em diferentes dias e horários) tiradas pelo editor do blog. Mas nem sempre o mar está calminho como nessas fotos; temos dias de mar nervoso também. Para ver nossas outras postagens sobre esse bairro carioca clique no marcador “Copacabana” abaixo.

28.1.10

ESPERANÇA DE PAZ PARA O RIO III

Diagrama obtido em O Dia online. Para ler a matéria completa clique no título da postagem acima. Para ler outras postagens neste blog sobre a violência & pacificação, clique no marcador "violência" abaixo. 


25.1.10

CASA DE BANHO DE D. JOÃO VI NO CAJU

(MUSEU DA LIMPEZA URBANA DA COMLURB)

Cemitério Comunal Israelita
O bairro do Caju está um tanto degradado, imprensado entre a Avenida Brasil (foto abaixo), Linha Vermelha e acesso à Ponte Rio-Niterói. Mas já foi um bairro aprazível. Lá D. João VI tomava seus banhos de mar. Uma boa parte do bairro passou a ser ocupada (a partir de meados do século XIX) por cemitérios. No Caju também fica, desde o início do século XX, o Arsenal de Guerra do Rio (antes situado onde hoje fica o Museu Histórico Nacional). Aproveitei uma visita aos túmulos dos meus pais no Cemitério Comunal Israelita (foto acima) para dar um rolê até a Casa de Banho de D. João VI, atual Museu da Limpeza da Comlurb. Aqui estão as fotos de minha incursão pelo Caju (a da Avenida Brasil e as duas últimas tiradas de dentro do ônibus expresso Estácio-São Cristóvão-Caju, com ponto final na Estação Estácio do metrô).

Avenida Brasil
"um bairro aprazível"
CASA DE BANHO D. JOÃO VI
MUSEU DA LIMPEZA URBANA

Casa da família Tavares Guerra, próxima à Quinta do Caju, conhecida como Casa de Banho D. João VI, foi frequentada pelo monarca por volta de 1817, por indicação médica. O prédio (uma casa térrea de arrabalde) é um raro exemplar da arquitetura do final do século XVIII ou início do século XIX. Segundo o Guia da arquitetura colonial, neoclássica e romântica do Rio de Janeiro, "este exemplar de casa de chácara apresenta diversas características do vocabulário formal colonial, como a sua volumetria simples marcada pelo grande telhado de quatro águas e por uma água-furtada à moda trapeira, os vãos de arco abatido e as telhas do tipo capa e canal". Tombada pelo IPHAN em 1938, foi restaurada pela COMLURB em 1996 para abrigar o Museu da Limpeza Urbana. Conta parte da história da cidade, como se desenvolveu e resolveu seus problemas, dando condições de vida a seus habitantes, promove atividades com visitas guiadas e recreação, como também seminários, exposições temporárias e apresentações culturais.

Endereço: Praia do Caju, 385 (pesquise no Google Maps)
Telefone: 3890.6021
Visitação: de terça a sexta, de 10h às 17h;
Sábados e domingos, de 13h às 17h.
PS. Em dezembro de 2012, retornando ao local, constatei que o museu não estava mais aberto à visitação.

Rua Praia do Caju (a praia agora só existe no nome)
Casa de Banho de D. João VI (lateral)
Casa de Banho de D. João VI (entrada)
Busto de D. João VI
Em frente à Casa de Banho. Seria até bucólico, não fosse o elevado de acesso à Ponte Rio-Niterói atrás.
O CAJU
HENRIQUE VELTMAN

[...] Nos anos 1940, como os banhos de mar tinham caráter terapêutico, as pessoas iam para a Praia do Caju ao raiar do dia, às vezes ainda de madrugada. Vestiam geralmente, como trajes de banho, duas peças feitas de um tecido felpudo de lã: calça até os tornozelos, camisa de mangas compridas, franzida e com uma espécie de lapela.

Não me lembro bem dos nossos calções de banho. Mas os maiôs de dona Raquel − e das outras mães − também, eram terríveis.

O Caju se enchia, então, de famílias cobertas de mantas e cobertores discretos, recebendo nas manhãs a ainda mais discreta bênção do iodo, aspirando pelas narinas aquela mistura feita de sargaço, água salgada, areia suja de algas.
[...]

Um pouco de história. O Rio de Janeiro do início do século 19 era uma cidade infestada por carrapatos, mosquitos e outros insetos, que não poupavam nem mesmo os integrantes da família real portuguesa. Dom João VI foi um dos que mais sofreram. Uma ferida na perna, fruto da mordida de um carrapato, infeccionou e ele teve que buscar ajuda.

Para tratar a saúde, foram recomendados a Dom João VI banhos de mar. De São Cristóvão − onde ficava a família real portuguesa − até o Caju, havia um caminho fácil de ser percorrido. Aquele mesmo que nós, crianças judias do século 20, percorríamos em busca do milagroso iodo...

O Caju era um balneário, com muitos terrenos à beira de uma Baía da Guanabara ainda limpa. O mar batia na beira de uma casa construída no começo do século 19 e que até hoje está preservada como um símbolo da história do Rio. É a Casa de Banho de Dom João VI.

Dom João era imperador. Por isso, ele não se trocava na frente de qualquer um. Usava a casa como vestiário. Dizem ainda que, com medo de caranguejos e outros bichos do mar, ele tomava banho dentro de um barril em vez de mergulhar.

Hoje, no Caju, não há sinal de praia. A área foi aterrada para a construção do porto e da Ponte Rio-Niterói. A Casa de Banho é o Museu da Comlurb, com a memória da limpeza urbana do Rio, mas guarda um busto de Dom João VI, para que ninguém esqueça que, além da garotada da Praça Onze, a realeza já frequentou a Praia do Caju. (Crônica publicada originalmente no Boletim ASA de set-out/2007)



Parque São Sebastião
Ao longe o Corcovado (fotos do editor do blog — clique no label "Caju" abaixo para ver nossa outra postagem sobre o bairro )

14.1.10

RIO VISTO DO ALTO III


Bem no início de seu livro Centro (coleção Cantos do Rio da Editora Relume-Dumará), Antônio Torres descreve a vista deslumbrante do alto do edifício Conde Pereira Carneiro (Av. Rio Branco, 110 — 133 metros, 43 andares). Nunca subi ao alto desse prédio, nem sei se me deixariam entrar. Mas outro dia tive a oportunidade de subir ao vigésimo-sétimo andar de um prédio também alto e que não fica muito distante: o antigo prédio do Banerj, na Rua da Ajuda, com 115 metros e 34 andares, hoje ocupado por órgãos do governo do estado. Compartilho com vocês as fotos tiradas pelas janelas e trecho do livro do Antônio Torres.

Esplanada do Castelo (primeiro plano) e Baía da Guanabara. Observe (da esquerda para a direita) a ponte Rio-Niterói, Ilha das Cobras, Ilha Fiscal, um catamarã vindo de Niterói e o Albamar.

Edifício Cândido Mendes (o prédio grandão e pretão, com 154m), Igreja de N.S. do Carmo (à esquerda do prédio grandão, só se veem as duas torres) e a Ilha das Cobras atrás. No fundo dá para ver a Serra do Mar.

Trecho do livro Centro de Antônio Torres:

É aqui, da sacada do último andar, que o personagem desta história vai dar uma olhada na cidade, antes de partir para a sua caminhada até o Santos Dumont. O panorama visto de cima é apavorantemente fascinante. Entrecortado por arranha-céus tentaculares — entre os quais se destaca o megalômano Centro Cândido Mendes — , ao primeiro olhar já dá uma boa medida dos embates travados entre a construção civil e a natureza, desde que a cidade, fundada por Estácio de Sá no sopé do Pão de Açúcar no dia 1o de março de 1565, foi transferida por seu tio Mem de Sá para o morro do Castelo, em 1567. Tudo começa aí. E com 200 habitantes urbanos. Nas batalhas pela sua posse e ocupação, nem só os donos da terra — tamoios, tupinambás e tupiniquins — foram varridos do mapa. Mas também morros, lagoas, charcos, mangais, pântanos e pedaços do mar.

Cá estamos: com a respiração em suspenso e uma incontrolável tremedeira nas pernas. A contemplar, sobre telhados de amianto e antenas parabólicas, uma paisagem paradisíaca. A baía de todos os tráficos, porta de entrada de piratas, corsários, mercadores de escravos e tudo o mais que possamos imaginar. Barcos partindo e chegando, aviões descendo, carros passando sobre a maior ponte urbana do mundo. Aqui de cima há muito o que se mirar.

Praça Melvin Jones.

Avenida Rio Branco (só o traçado, a avenida propriamente dita não se vê).

Largo da Carioca, Convento e Igreja de Santo Antônio, Igreja de São Francisco da Penitência, Rua da Carioca (com a Praça Tiradentes no final) e Edifício De Paoli (à direita).

Está vendo a torre da Central do Brasil? À direita o edifício De Paoli.

Observe o aeroporto Santos Dumont.

Selva de Pedra (fotos do editor do blog; para ver outras postagens semelhantes, clique no label "Rio visto do alto" abaixo).

17.12.09

RIO DAS ALTURAS

FOTOS AÉREAS DE NILO LIMA


RIO DAS ALTURAS: Assim se chama o livro recém-publicado pela Editora Andrea Jakobson com fotos deslumbrantes, tiradas de helicóptero por Nilo Lima. Em seu site Das Alturas, diz Nilo: “Há mais de 10 anos, fotografar voando tem sido minha paixão. Adoro as nuvens, a sensação do vôo, as cores do Rio e o clique da minha Nikon.” As fotos desta postagem são de um PPS (slides do Power Point) que circulou pela Internet. Outras fotos, disponibilizadas para uso não-comercial, você encontra em Das Alturas. Para mais informações sobre o livro clique aqui.