ENSEADA DE BOTAFOGO

ENSEADA DE BOTAFOGO
"Andar pelo Rio, seja com chuva ou sol abrasador, é sempre um prazer. Observar os recantos quase que escondidos é uma experiência indescritível, principalmente se tratando de uma grande cidade. Conheço várias do Brasil, mas nenhuma tem tanta beleza e tantos segredos a se revelarem a cada esquina com tanta história pra contar através da poesia das ruas!" (Charles Stone)

VISTA DO TERRAÇO ITÁLIA

VISTA DO TERRAÇO ITÁLIA
“São Paulo, até 1910 era uma província tocada a burros. Os barões do café tinham seus casarões e o resto era pouco mais que uma grande vila. Em pouco mais de 100 anos passou a ser a maior cidade da América Latina e uma das maiores do mundo. É pouco tempo. O século XX, para São Paulo, foi o mais veloz e o mais audaz.” (Jane Darckê Avelar)

1.10.20

PASSEANDO COM PEDRO NAVA PELA GLÓRIA, SANTA TERESA E LAPA

Prédio onde morou Pedro Nava
Prédio onde morou Pedro Nava

Placa
PEDRO DA SILVA NAVA
1903-1984
Médico, escritor e poeta.
Mineiro de Juiz de Fora,
aqui residiu entre 1943 e 1984.
Sua obra destaca-se no
panorama cultural brasileiro. 

No início de seu quinto livro de memórias, Galo das Trevas, Pedro Nava rompe a sequência em que vinha contando sua vida até se formar em Medicina em Belo Horizonte e, antes de retomá-la agora sob o alter ego Egon, traz a narrativa para o tempo presente e como que passa em revista sua própria vida. Aí que ele descreve um passeio que costumava fazer, saindo de seu prédio na Rua da Glória, 190, onde até hoje uma placa indica que lá morou (fotos acima), pega a Rua Cândido Mendes, sobe a Hermenegildo de Barros até o mirante em Santa Teresa e desce pela Taylor até a Lapa. Foi esse percurso que reconstituí e mostro aqui. Em seguida o texto do Nava ilustrado com minhas fotos.


Meus passeios a pé pelo bairro seguem sempre os mesmos itinerários. Saio do meu 190 para a direita, transponho fachadas de arranha-céus. Na esquina, onde havia aquele café das madrugadas, existe hoje uma lanchonete. Virando à direita, começo a subir Cândido Mendes que gosto de chamar de D. Luísa. Essa dona que deu seu nome era a mulher de Joaquim Clemente da Silva Couto, nos terrenos de cuja chácara abriu-se o logradouro, em 1845. Meu tio Antônio Salles aí morou, no princípio do século, mais ou menos à altura dessa Casa da Suíça — onde residiram Rachel e Oyama. Assim, subindo, cada vez que troco os pés na marcha, sei que estou pisando lugares palmilhados pelos amigos, por meus tios Salles e Alice, por meu Pai quando vinha visitá-los. Galgo esse primeiro trecho fazendo essa reprodução do caminhado dos meus e vou calcando solos do ministro Hermenegildo de Barros, da prima Maricas do Juca Horta e suas filhas que moraram por aqui. Os passos de minha mãe também conheceram essas calçadas quando ela vinha ver a parenta. Povoando a rua de fantasmas, continuo minha ascensão. Nenhuma casa antiga, no princípio. Só os altos prédios, cujos térreos são ocupados pela alegria comercial de açougues, casas de ferragens, mais lanchonetes, barbearias, cabeleireiros femininos, drogarias, mercearias, farmácias. Entre elas, casa fechada, cada janela uma aparelhagem de ar-refrigerado, porta discreta e desde pela manhã o entra e sai de pares. Alta rotatividade. Estaco sempre a contemplar as fachadas dos belos sobradões de números 118 e 117. O último traz data na platibanda: 1882. 

Rua Cândido Mendes, 117

Rua Cândido Mendes, 118

Outra parada obrigatória é a esquina de D. Luísa com Hermenegildo de Barros que seguindo meu saudosismo gosto também de chamar rua do Chefe de Divisão Salgado. Numa das esquinas desse encontro e em terrenos ao lado, a demolição de duas antigas casas. Pela metragem quadrada dos lotes desnudados tem-se ideia do monstro que vai levantar-se no local. 

"tem-se ideia do monstro que vai levantar-se no local"

Consola a visão dos 17 e 19, casas datadas de 1896, dominando pela sua autenticidade. São de platibanda, dois andares e térreo habitável. A porta que sai do rés da rua tem a altura do térreo até a linha superior das janelas. Lembram certos sobradões da Bahia. 


Sobrados geminados à Rua Hermenegildo de Barros, 17 e 19


"A porta que sai do rés da rua tem a altura do térreo até a linha superior das janelas."


O 35 já é outro arranha-céu. Em frente, sem placa de numeração (mas entre o 32 e 36) ressalta um dos mais lindos chalés do bairro. As duas águas são alegradas na frente pelo rendado leve dos lambrequins e, na parte mais alta da fachada, duas janelinhas para arejamento do forro, conjugadas e protegidas por grade de serralheria tão cheia de curvas, alças, protuberâncias, bossas que nos seus restos de prateado o ferro se liquefaz e fica parecendo quebrado de espuma da crista de onda que fosse imobilizado na graça de sua posição — como em chapa de fotografia instantânea. 


"duas janelinhas para arejamento do forro, conjugadas e protegidas por grade de serralheria"


Vêm depois, do lado par, sobradões de portas e janelas com cercadura de granito. No lado ímpar eu vejo há dois anos o muro onde está gravada a capricho e a indelével piche a palavra corno e depois seta que aponta um portão. Acho reprovável indicação assim omissa: devia ser seguida da informação bravo ou manso — esclarecedora dos interessados. 


"sobradões de portas e janelas com cercadura de granito"


O 59 dir-se-ia que é sonoro como as clochetes da elevação, na missa. Esse zirzumbir prateado vibra retine nas serralherias das sacadas e do portão. 
Minha alma se entristece com a reforma aviltante por que passou o velho 67… Assim vou visitando meus amigos dessa subida. 


Rua Hermenegildo de Barros, 59. As serralherias (gradis) a que se refere o autor desapareceram.


"Minha alma se entristece com a reforma aviltante por que passou o velho 67." Observe que deste prédio só sobrou a fachada.


Paro diante dos gêmeos que viraram suas fachadas para a travessa Cassiano e de que um tem porta lateral para Hermenegildo, com o número 73. Parecem com nosso 106 de Aristides Lobo e pela travessa, acima, começa Ouro Preto. Longa extensão de construções reformadas, de paredões e baldios servindo para despejo de lixo — colchões, velhas poltronas eventradas, baldes furados, penicos descascados, bacias sem fundo, entulho despejo da vizinhança. Um pouco antes do 111, belo muralhão com escadas de pedra, conduzindo a terreno que derrama sua vegetação como gigantesco pote de avencas. Os degraus devem ter sido o acesso para casa ruída ou derrubada. 


Rua Hermenegildo de Barros, 73


"travessa, acima, começa Ouro Preto"

 "paredões e baldios servindo para despejo de lixo." Já não servem mais. A coleta de lixo e entulho tornou-se mais eficiente.

"Os degraus devem ter sido o acesso para casa ruída ou derrubada"


O dito 111 é um casarão modernizado. Está pintado dum verde estridente, com tinta plástica. Essas tintas dão colorido novo que acentua e aumenta os vermelhos, os amarelos, os azuis, os róseos, todas as cores que eram usadas na pintura dos prédios coloniais e imperiais. Sua aplicação, longe de desvirtuar, como que revela e salienta os caracteres das nossas velhas edificações. Mais lances de paredões de pedra que o tempo foi desconjuntando e entre cujas frestas irrompem árvores que sobem renteando o muro sobre o qual espalham digitações de raízes que são como mãos magras mas potentes a segurar os punhados de monolitos que sem sua força ruiriam. Voltando ao que mencionei antes, vale dizer alguma coisa sobre a maneira como são tratadas nossas construções pelos que as reformam. Uns querem modernizá-las e suprimem toda a fantasia, enfeite belle-époque que salientava-se nas fachadas e florescia em torno às janelas e portas. As cores álacres da pintura são substituídas por um cinzento de cimento cheio de faiscações duras de mica. Mais valia derrubar a residência antiga que desfigurá-la desse jeito. Outros pensam que respeitam o tradicional querendo melhorá-lo e acrescentando à simplicidade primitiva das casas desornadas o excesso que lhes parece mais requintado. Exageram nos painéis de azulejo, nos jarrões de louça sobre os muros, nas pinhas em cima dos parapeitos, nas estátuas vidradas dos beirais. Os dois exemplos abundam nessa subida de Hermenegildo e depois, em toda Santa Teresa. 


"O dito 111 é um casarão modernizado." O verde estridente a que se refere Nava há muito virou um azul claro.


"lances de paredões de pedra que o tempo foi desconjuntando e entre cujas frestas irrompem árvores"


É justamente assim que acaba esse lance de via pública em cujo ângulo fronteiro fica a moradia que parece abandonada, onde viveu o ministro cujo nome passou à rua. É uma construção arnuvô [art nouveau] cheia de vidros coloridos fazendo coberturas apoiadas em estruturas de ferro. Num canto, essas vidraças de cima a baixo parecem cobrir elevador ou escada de caracol. Tem o número 158, dois andares na frente e três no lado que fica em Visconde de Paranaguá. 



"É uma construção arnuvô cheia de vidros coloridos"


Próximo existe pequeno belvedere dando sobre níveis inferiores e abrindo vista fantástica sobre a baía. Tem bancos de pedra para os namorados e os desocupados. Geralmente ninguém no lugar ermo e propício aos ladrões. Dele vê-se o mar, a ponta dos aterros onde está o Aeroporto Santos Dumont e, mais próxima, a do que vem do Flamengo e onde começaram, recentemente, grande construção de cimento armado destinada, dizem, a restaurante. Ninguém. Nenhum veículo. Só passa o vento que vai para o largo ou dele vem mais fresco sobre a testa e o corpo molhado do suor da ladeira vingada. 

Belvedere

"bancos de pedra para os namorados e os desocupados"


A "vista fantástica sobre a baía" foi em grande parte bloqueada pelos prédios


Depois da parada nestes altos visão ouro e azul, começa-se a descida. Duas opções. Taylor ou Visconde de Paranaguá. Ambas profundamente Rio velho e tão bairro da Glória que sempre hesito. Taylor principia numa ladeira curta e mais escabrosa que a do resto da rua. Do lado direito, grandes barrancos e em frente, o 159, bela e pequena casa do início do século [hoje desaparecida]. Logo em seguida, ribanceiras, do mesmo lado, que servem para despejo de lixo. Toda a encosta da montanha está coberta de utensílios imprestáveis e policrômicos, de restos de papel, de comida, de roupas que repugnam e revoltam a quem olha de perto aquela imundice acumulada pela negligência, descaso e incapacidade de nossa limpeza urbana.


A encosta que no tempo do Nava servia para o despejo de entulhos agora está limpinha. Palmas para a Comlurb.


A rua Taylor tem esse nome por ter sido aberta nos terrenos da chácara do Chefe de Divisão João Taylor. Certo em parte alta dessa propriedade — o que determinou a forma de crossa do logradouro. Seus números de 139 a 135 oferecem, a quem vai descendo, primeiro a vista de casinhas típicas do princípio dos 1900 e depois ruínas de muro com sobras de gradil e portão. A paisagem do resto da rua até sua chegada à esquina de Lapa é cheia de velhas casas cada qual oferecendo detalhes arquitetônicos casuais ou intencionais. 


À esquerda as "ruínas de muro" referidas pelo autor. À direita ficavam as "casinhas típicas do princípio dos 1900", derrubadas.


No 120-A, por exemplo, uma escadaria barranco acima teria sido solução para resolver a subida mas o ziguezague dos lances de degraus de ferro se acumulando e empilhando acaba desenhando uma geometria esticada que parece sanfona puxada de cima, enquanto os corrimãos de metal, polidos pelo uso e cintilando ao sol, ficam como raios que se baralhassem simetricamente. O 120, desvirtuado por aperfeiçoamento, deixa de ser convincente apesar de ter ficado bonito e alegre: azul e branco, pinhas e estátua de louça. A varanda canta em cima, atulhada de gaiolas de pássaros. Logo sobrados geminados da maior dignidade — o 114 tendo na platibanda a data 1894. Mas a mais curiosa e interessante edificação da rua é o 110 de que a graça reside na varanda cujas janelas são encimadas e têm por baixo painéis de madeira trabalhada a serra tico-tico, ostentando vazios favoráveis à ventilação. Fazem renda de Veneza. Do outro lado escarpas do morro. Às vezes as modificações introduzidas num prédio pela sua quantidade e variedade são como improvisos musicais na sua surpresa e fantasia. Os sobrados no alto de vasta amurada de arrimo de números 100 e 96 oferecem essa sugestão. 


Escadaria barranco acima, em ziguezague

"O 120, desvirtuado por aperfeiçoamento, deixa de ser convincente apesar de ter ficado bonito e alegre." As gaiolas de pássaros na varanda não existem mais. Observe no meio do telhado uma estátua de louça (que você vê ampliada na foto abaixo).



"sobrados geminados da maior dignidade"


Rua Taylor, 110. Os "painéis de madeira trabalhada a serra tico-tico" não existem mais.

Painel de madeira trabalhado a serra tico-tico. Imagem capturada por Raul Félix do documentário O Tempo e a Glória de Joaquim Pedro de Andrade.


"Do outro lado escarpas do morro"

Todo o lado ímpar diante das edificações que estamos descrevendo é composto de barrancos cheios de capim e lixo até ao número 45, sobrado de 1887 [duas correções: o número é 47 e a data, 1897], quatro janelas de frente, as de cima enriquecidas pelas varandas com serralheria representando dragões simétricos que se afrontam pelo olhar de ferro, bico, peitos, patas, garras — sobre fundo desenhado por florões e curvas da mais elaborada elegância. 


Sobrado no número 45

1897

"dragões simétricos que se afrontam pelo olhar de ferro, bico, peitos, patas, garras"


Depois de atravessar Conde de Lages, Taylor mostra à frente um belo trecho da rua da Lapa, mas antes de nela entrar, apresenta ainda três edificações dignas de atenção. A fachada lateral de casa avarandada numerada como 11 de Conde de Lages que é o Hotel Canarinho, com quartos para rapazes; um chalé de três janelas datado de 1886, beirais rendados de lambrequins, bandeirolas de vidro central que se ilumina ao dia como safira e um óculo de ventilação do forro, tão tecido e trabalhado que parece uma aplicação redonda; finalmente os lados de outro chalé, um dos mais lindos do bairro e numerado por Lapa 230. 


Antigo Hotel Canarinho, hoje aparentemente invadido.

Chalé de três janelas datado de 1886. Os lambrequins dos beirais desapareceram.
Óculo de ventilação do forro

Outro chalé, um dos mais lindos do bairro


Virando à direita, um pequeno trecho desta rua que pelo aspecto e caráter já é a da Glória. Piso com atenção a buraqueira. Dupla atenção: primeira por saber que palmilho o velho caminho da Lapa do Desterro, aberto na colônia pelo governador Vasqueanes; segunda atenção, para não quebrar os ossos no logradouro que duvido tenha símile — pelo desmazelo dos responsáveis por seu calçamento e limpeza. É como Sapucaia que tivesse passado por terremoto ou bombardeio. Entra-se. Vê-se janela onde, como aparição de outras eras, como uma espécie de celacanto, há uma velha rebocada que chama pela fresta das portadas postas de meia jota. Dizem que essa relíquia de uma prostituição superada faz a vida ali há mais de quarenta anos, que é de tudo e pelo jeito ainda tem freguesia. Conheço-a de vista de meus passeios a pé e quando ela da janela me rejuvenesce com seu discreto sinal de cabeça (entra, simpático) — nunca deixo de cumprimentá-la grave e profundamente como a uma grande dama. Depois desta, outras instituições: Hotel Cid, Empire Hotel, Escola Deodoro com sua fachada imunda, os portões enferrujando e breve deixando cair no chão as duas belas moldagens metálicas das armas do antigo Distrito Federal; o arranha-céu no 122 onde mora o nosso José Olympio e chegamos ao chafariz mandado erigir em 1772 pelo vice-rei e capitão-general-de-mar-e-terra d. Luís de Almeida Soares Portugal Alarcão Eça Melo Silva e Mascarenhas, conde de Avintes e marquês do Lavradio. 


"um pequeno trecho desta rua que pelo aspecto e caráter já é a da Glória"


Escola Deodoro, em melhor estado de conservação do que na época em que foi descrita por Nava.


"o arranha-céu no 122 onde mora o nosso José Olympio"


Esse chafariz é como brasão da rua da Glória e mostra sua antiguidade colonial. Servia para aguada das embarcações quando a orla marítima era no nosso logradouro como ficou até o fim do século passado. Minha mãe, sempre que vinha ao nosso apartamento, olhava pela janela e dizia que conhecera o mar ali, onde está aquele parapeito que vai até ao Relógio. Essa linha pode ser vista como enrocamento e cais em gravuras de Rugendas. Ela possuía no meio reentrância quadrada, como aparece numa daquelas estampas, para abrigo das pequenas embarcações. Foi aterrada quando afastaram o mar. Pois tive a prerrogativa de ver suas pedras ao demolirem o Elixir de Nogueira [ver foto aqui] para erguerem o arranha-céu pegado ao meu. Das janelas da sala de jantar do nosso apartamento eu me aprazia em ver cavar buracos para os alicerces do prédio atual. Pois deu pano para mangas a amurada que apareceu e que fui ver de perto, feita de lajes monumentais ainda incrustadas de conchas. Era a parte mais recuada do antigo recôncavo de que falamos e demarcação continuada no nosso terreno pelos paredões atrás da garage. Moro pois em cima de área roubada do mar. Seu limite primitivo era o fundo do nosso apartamento; depois foi a amurada da Glória; posteriormente na primeira pista curva depois de Augusto Severo; mais tarde na última passagem de rolamento antes do Aterro, agora nas lindes externas deste. Olho com melancolia pelas minhas janelas da frente e calculo que cerca de um quilômetro de largura já foi tomado às águas, aqui na Glória. 

Esse chafariz é como brasão da rua da Glória e mostra sua antiguidade colonial.

Velho chafariz do Caminho da Glória (1772). Do livro Terra Carioca: Fontes e Chafarizes de Armando Magalhães Corrêa


Das alturas que descrevemos e onde fica a casa que pertenceu ao ministro Hermenegildo de Barros pode-se baixar não só por Taylor (assim acabamos de fazer) como por Visconde de Paranaguá. Essa via pública começa naquela e é primeiro uma reta que parece ter procurado a rua da Glória mas que recuou diante das escarpas do morro onde deixou o fundo de saco dum impasse. Descendo pelo outro lado, inflete-se em ângulo reto de modo que sua segunda parte está para a primeira como a haste de um T maiúsculo. Seu início faz-se por cerca duns cento e cinquenta degraus separados de dez em dez por patamares em cujo centro está plantada uma árvore. Aos lados dessa descida, sobrados e casas do início do século, restos de muros ruindo, casarões se desmantelando, baldios cheios de lixaria e a alegria das crianças naqueles batentes onde elas levantam suas fantasias e rolam suas aventuras. Há uma ruína no lado ímpar, mostrando fundos para a ladeira e tendo frente provável em Conde de Lages, que desafia a gravura — tanta a poesia que foi dada aos paredões se desarmando pela erva fina dumas folhinhas da forma de salsa miúda toda cerrada e fechada como se fosse reunião de avencas postas em gramado na beira das platibandas, molduras e beirais. Visconde de Paranaguá termina em Taylor por arrimos de pedra, muros do lado par e pelo inevitável arranha-céu no lado ímpar. Vira-se naquela, segue-se pequeno trecho e já damos em Conde de Lages. 


"Seu início faz-se por cerca duns cento e cinquenta degraus": escadaria da Rua Visconde de Paranaguá



"Aos lados dessa descida, sobrados e casas do início do século"

"Visconde de Paranaguá termina em Taylor por arrimos de pedra, muros do lado par e pelo inevitável arranha-céu no lado ímpar." Na verdade, a ladeira termina, no lado par, com a dilapidada mansão do Visconde de Paranaguá, comprada por um industrial português nos anos 1930 e frequentada então pela alta sociedade. Conhecida como Casarão dos Amores, foi imortalizada por poema de Manuel Bandeira cuja primeira estrofe diz: "Um dia destes a saudade / (Saudade, a mais triste das flores) / Me deu da minha mocidade / No Palacete dos Amores." Pelo que pude constatar, foi ocupada por um "coletivo" de estudantes e hoje abriga eventos.

Aqui outrora retumbaram hinos. Quando havia prostituição ostensiva no Rio, o trecho da zona que vinha da parte sul — transversais do Catete, Russel — comunicava-se com o da parte que ia para o norte pelos braços abertos das ruas da Glória e Conde de Lages que desaguavam nas calçadas felizes de Lapa, Joaquim Silva, Morais e Vale, do glorioso beco dos Carmelitas. Essa zona alegre continuava um tanto diluída, por Mem de Sá e Riachuelo, escondia-se um pouco e reaparecia apoteótica nos quarteirões prodigiosos do Mangue — que puseram Blaise Cendrars bestificado e dizendo que não vira ainda nada igual nos bairros prostibulares das partes do mundo que conhecera. Eu e os meus colegas da Assistência Pública, veteranos do seu Serviço Externo, somos, com as donas de bordel, os souteneurs, os cafetões, os malandros, os gigis, os carachués [=rufiões] e as próprias putas, os grandes conhecedores desse ambiente. Lavagens de estômago de envenenadas com fenol, permanganato, oxicianureto, sublimado, creolina — praticamo-las nos randevus de luxo e valhacoutos mais canalhas; caras trabalhadas à navalha, lombadas abertas em belas incisões esguichando sangue, contusões de porrete, ferimentos penetrantes, tripas ao léu, comas alcoólicos, êxtases de éter sulfúrico, estupores de cocaína — transportamos às centenas para entregar ao Serviço Interno do nosso antigo e desaparecido H.P.S. E éramos bem tratados, respeitados, em ambientes que nunca teríamos a ousadia de entrar sem as imunidades do avental branco e da malinha de madeira do socorro-urgente. Sempre penso nesse mundo iluminado, poético, trágico, sinistro e orgástico quando nos meus passeios pela Glória entro — como íamos começando a fazer antes dessa digressão — quando entro, dizia, numa rua Conde de Lages despida das galas de seus antigos festivais e vazia de suas multidões de machos em cio. [...] O quarteirão que se percorre por Conde de Lages e sua angulação até a Glória modificaram-se completamente. A população é de pessoal do comércio, famílias modestas, estudantes, gente simples. As aves de arribação procuraram outros pousos. [...] As velhas casas impluíram por si ou foram demolidas. Sobraram sobrados e térreos do princípio deste século — inconfundíveis pelas fachadas arnuvô e a rua segue quieta e apaziguadora até as paredes laterais da Escola Deodoro e do arranha-céu em frente — batentes abertos sobre o antigo Boqueirão, o Caminho da Olaria — hoje nossa rua da Glória — velha de duzentos para trezentos anos. 

11.4.20

AS MURALHAS DE COMBATE ÀS EPIDEMIAS ESCONDEM A TRAGÉDIA SOCIAL E ESPACIAL DA POPULAÇÃO DA CIDADE MARAVILHOSA, de NIREU CAVALCANTI

desapegadas das coisas supérfluas

Dizem que algumas pessoas ao passarem por situação de morte iminente e sobreviverem, se transformam interiormente. Passam a levar a vida de forma construtiva, valorizando os demais seres humanos, buscando a paz, a alegria, o amor e desapegadas das coisas supérfluas. Disse, apenas algumas pessoas!

O mesmo ocorre nas grandes tragédias produzidas pela ganância humana e governos desumanos como as guerras. Ou, as catástrofes das chuvas, terremotos, tsunamis, erupções de vulcões, derretimento das geleiras, incêndios nas florestas e tantas outras hecatombes. Alguns países, estados, municípios e suas populações se transformam, após o serenar da tragédia, e fazem ações reconstrutivas materiais e, principalmente, humanas. Passam a viver um novo tipo de governo responsável e de sociedade mais justa e solidária.

O mesmo ocorre na Cidade Maravilhosa, após as tantas tragédias que a vitimam e a sua população? A história tem mostrado que governantes e sociedades se contentam com o tampão de esparadrapos na grande, fétida e horrorosa ferida, que aparece exposta pelas tragédias.

Vamos nos restringir às sucessivas epidemias que ocorrem e destroem vidas ao longo de nossa história. Os colonizadores trouxeram: a sífilis, tuberculose, varíola, lepra, a febre epidêmica, a guerra com arma de fogo e o regime da escravidão. Dizimaram milhares e milhares de índios e índias do Brasil e africanos trazidos e vendidos como escravos.

regime da escravidão

As doenças que aparecem externamente no corpo do enfermo foram sempre as que mais resultaram em pedidos da sociedade por ações concretas dos governantes para saná-las.

A lepra grassou já no século XVII e apavorou a sociedade convencida de que era doença transmissível. O governador Gomes Freire de Andrade (1733-1782) construiu, precariamente, o primeiro hospital destinado aos lázaros, em São Cristóvão. Os governos seguintes ampliaram e aperfeiçoaram as instalações do Lazareto. Foi uma ação positiva e permanente dos governantes.

as instalações do Lazareto

Surtos epidêmicos de varíola ocorreram sucessivamente ao longo dos séculos XVII ao atual XXI. A partir do final do século XVIII começa a aplicação da vacina, principalmente, nos escravos. Também a sífilis, o sarampo, doenças intestinais, gripes diversas, febres, escorbuto e erisipela ceifaram muitas vidas e são fartos os registros e relatórios das ações dos governantes e, principalmente, dos profissionais de saúde. Geralmente as ações eram voltadas para as doenças que mais apareciam negativamente, junto à população. Nunca eram atacadas as causas.

Iniciamos o Quadro de Óbitos no município do Rio de Janeiro, em 1903, por ser um ano marcante, para os estudiosos da questão Sanitária. O médico Oswaldo Cruz foi nomeado para dirigir o combate à principal epidemia (!) que grassava na cidade carioca: a Febre Amarela.

No entanto, podemos verificar que a Febre Amarela – “principal epidemia” (!) – estava em oitavo lugar entre as dez maiores moléstias que ceifavam vidas na Cidade Maravilhosa.

1) Tuberculose pulmonar = 2.736 mortos.
2) Moléstias do aparelho digestivo (a maioria de crianças) = 2.303 mortos.
3) Moléstias do aparelho circulatório = 2.077 mortos
4) Moléstias do aparelho respiratório = 1.597 mortos
5) Moléstias do sistema nervoso = 1.521 mortos
6) Varíola = 805 mortos
7) Paludismo agudo = 599 mortos
8) Febre Amarela = 584 mortos
9) Gripe = 490 mortos
10) Moléstias do aparelho urinário = 421 mortos

Para entendermos ─ se for possível ─ a “Escolha de Sofia” da Febre Amarela (584 mortos) em detrimento das demais nove moléstias que somam 12.549 mortos, perguntamos: quem foram os agentes políticos, econômicos, intelectuais e cientistas, do setor imobiliário e da imprensa, que se reuniram para determinar o enfrentamento da Febre Amarela, e não outras doenças mais letais, como a tuberculose?

enfrentamento da Febre Amarela

A população do município do Rio de Janeiro, em 1903, era cerca de 750 mil pessoas com parte vivendo na pobreza, passando fome, sem trabalho e enfurnada em aglomerações de habitações precárias, nas favelas, nos cortiços e casas de cômodos. No centro da cidade haviam se formado duas favelas: uma no morro de Providência, a primeira do Rio, e a outra no morro de Santo Antonio, no largo da Carioca. Esses morros, quando se inicia sua ocupação desordenada, possuíam cobertura vegetal arbórea e os terrenos eram espaçosos, permitindo que fosse feito loteamento popular para abrigar essa população. O custo dessas obras era inferior às do porto, da abertura de avenidas e outras obras de visibilidade política. Propostas nesse sentido foram feitas por engenheiros e arquitetos e alguns políticos. No entanto, as autoridades e seus apoiadores preferiram “sanear” a paisagem do centro da cidade mandando incendiar a favela de Santo Antonio e enviar os desalojados para engrossarem a favela de Mangueira – trecho denominado Santo Antonio.

Quem eram os seus moradores: parte dos velhos libertados pela Lei dos Sexagenários, conhecida como Lei Saraiva Cotegipe (13/09/1885), e da Lei Áurea (13/05/1888) que não contemplaram garantia de emprego e nem habitação para esses libertos. Tinha imigrantes portugueses, italianos e espanhóis, população rural vinda do interior do Estado, do Nordeste, do Espírito Santo e de Minas Gerais. Os desempregados e desabrigados pelas demolições dos cortiços e das casas de cômodos; soldados desertores, marginais, prostitutas e famílias pobres de trabalhadores, completavam o perfil populacional daquela favela. Ambiente propício para a tuberculose, a varíola, para as moléstias do aparelho digestivo e também para a febre amarela.

O primeiro quartel do século XX foi de grandes obras de urbanização da cidade, a construção do porto e das avenidas Central (atual Rio Branco), Francisco Bicalho, Rodrigues Alves e Beira Mar. A derrubada de morros, como o do Senado e do Castelo – crime do governo Carlos Sampaio contra o patrimônio histórico da cidade. Obras que não previram o assentamento da população pobre que habitava essa área, da qual foi expulsa.

O exemplo dessa mentalidade cruel que isola o fato de seu contexto foi a reurbanização da Quinta da Boa Vista. Era preciso concluir o projeto do paisagista Glaziou! Maravilha aplaudida por todos. Acontece que ao longo dos anos foram construídas moradias no terreno da Quinta, com a permissão do Imperador Pedro II e dos militares comandantes dos quartéis instalados na área. Eram cerca de 140 casas cujos moradores foram expulsos, sem indenização, por não serem donos dos imóveis. Em março de 1910 o ministro da Guerra comunicou ao da Viação que as casas habitadas por praças do 13o Regimento de Cavalaria, estavam desocupadas.

No mesmo ano surgiram barracos na encosta do morro do Telégrafo voltada para a Rua Visconde de Niterói e essa ocupação foi denunciada pela imprensa alertando as autoridades para o surgimento de uma nova favela no morro. A Prefeitura enviou o fiscal da região e um de seus engenheiros para verificar o que estava ocorrendo. O engenheiro vistoriou 12 barracos, constatou suas condições impróprias para moradia e que feriam as posturas municipais. Propôs que a Prefeitura construísse casas operárias para aquela gente em terrenos próximos ao morro.

Em maio de 1910 os moradores dos barracos foram convocados a comparecerem à sede da Prefeitura para a legalização dos barracos. Os invasores continuaram no morro do Telégrafo e não foram construídas as casas proletárias conforme proposta do técnico consciente.

Oito anos depois, 1918, já havia na batizada favela de Mangueira 49 barracões! Assim surgiu a imensa favela premiada por sua Escola de Samba Estação Primeira de Mangueira.

favela de Mangueira

As estatísticas da cidade do Rio de Janeiro, para o ano de 1914, registraram que 13.601 pobres moravam em 2.564 barracos espalhados pelos seus morros. A população total do município era estipulada em torno de 960.000 pessoas.

O combate e erradicação da febre amarela, ação positiva e elogiável, que teve todo apoio do governo federal e municipal – a cidade do Rio era a capital do Brasil – não teve investimento para eliminar as causas das demais epidemias. Nada foi feito para universalizar o esgotamento sanitário e o fornecimento de água potável para toda a cidade e sua população. A rede hospitalar e de postos de saúde cresceram inferiormente à demanda. O transporte público de massa dependia exclusivamente das linhas férreas construídas no Império: a Central do Brasil – nome republicano da antiga Pedro II – e da Leopoldina, que permitiram o crescimento da cidade para os subúrbios da Leopoldina, Zona Norte e Oeste. A malha mais urbanizada era atendida pelas linhas de bonde, em sua maioria pertencente à Light. Os fotógrafos registraram os bondes superlotados de passageiros.

linhas de bonde

A tuberculose, ou Peste Branca, exigia para seu tratamento: o isolamento do doente por vários meses, em local saudável, de bom clima, de preferência frio, arejado e ensolarado. Mas, o principal, era o doente ingerir alimentação saudável. A população pobre, e mais ainda os doentes, não tinham condições de realizar nenhuma das recomendações sanitárias, dependendo totalmente do poder público. Que por sua vez lavou as mãos para, higienizado, cuidar da Febre Amarela.

Os que tinham posse e estavam doentes, ou não, possuíam casas ou viajavam para a Europa, Petrópolis, Friburgo, Campos de Jordão e balneários mineiros. Os novos bairros do Leme, Copacabana e Ipanema eram oferecidos como o paraíso saudável do viver à beira-mar, respirando ares benéficos das brisas marítimas.

ares benéficos das brisas marítimas

Essa postura de ação pontual do poder púbico apoiada pela parte da sociedade dos não pobres se repetiu no enfrentamento da peste bubônica, ou Peste Negra, e da Gripe Espanhola, ou Influenza. Todas erradicadas com sucesso pelas ações públicas. A varíola também teve muito reduzida sua mortalidade.

A relação das 10 maiores “causa mortis” do ano de 1903, já visto anteriormente, para o ano de 1920 sofreu variações significativas: a Febre Amarela foi extinta e aparece com zero de registro. A Varíola teve apenas 4 óbitos o que indica sua breve extinção. A outra moléstia que caiu foi a do sistema nervoso que era de 1.521, descendo para 1.102. As demais moléstias subiram, sendo a do aparelho digestivo a que mais aumentou: de 2.303 para 5.235 mortos, passando a ser a primeira entre as dez maiores causadoras de óbitos. A tuberculose continua alta com 4.641 óbitos, ficando abaixo da Moléstia do aparelho digestivo.

Voltamos à pergunta inicial: a cidade do Rio de Janeiro foi liberta de suas moléstias causadoras de alto índice de mortalidade?

O MUNDO GLOBALIZADO DO COVID–19

O município do Rio de Janeiro, nesse ano de 2020, com a população estimada de 6.700.000 pessoas, apresenta deplorável quadro econômico (desemprego e subemprego), social com cerca de 1.300.000 moradores em favelas (em 1920 eram estimados 200.000 favelados) e loteamentos clandestinos precários. Os serviços públicos de saúde, educação, segurança e transporte de massa foram sucateados ou mal planejados ao longo dos 100 anos (1920-2020) e já não atendem à população usuária.

Mais grave é a poluição dos cursos d’águas, das lagoas e de toda a Baía de Guanabara e o desmatamento dos morros e das reservas florestais. Tão grave é o deficiente fornecimento de água potável, pela CEDAE, descartando mais de 30% da população, quanto o do esgotamento sanitário tratado, que atende abaixo desse outro serviço. Somando-se ao problema do lixo residencial, industrial e hospitalar cuja coleta não é universal, podemos afirmar que chegamos ao caos carioca.

Para agravar mais ainda o enfrentamento do COVID-19 – mais uma vez pontual e resultado da “Escolha de Sofia” – as velhas moléstias mortíferas continuam – a volta da febre amarela e do sarampo ─ acrescidas de novas moléstias de caráter nacional, que, em 2018, apresentaram os seguintes números de infectados e de mortos, no Brasil: dengue (240.000 /142); chikungunya (84.000 / 35) e a zica (8.024 / 4). Só nos resta rezar!

COMO REAGIR APÓS A TRAGÉDIA

Voltando ao início e acreditando que algumas pessoas, sociedades e governos se transformam para o bem depois de experiências trágicas, vamos sugerir ações duradoras para mudar as causas que nos levaram ao fundo do poço.

caos carioca

De caráter econômico:

Suspender o pagamento de juros da dívida pública brasileira – a interna e a externa fecharam o ano de 2019 no astronômico valor de R$ 4,249 trilhões de reais – e instituir grupo de especialistas para auditá-la. Quem possui essas cotas são os que possuem excedentes financeiros. Portanto, não vai pesar muito em seu bolso. O FMI já suspendeu o pagamento de países pobres. O STF brasileiro suspendeu o pagamento de juros da dívida dos estados à União.

1) Rever as taxas incidentes do Imposto de Renda sobre a renda dos brasileiros. 
2) Fazer a Reforma Tributária reduzindo o número de impostos e reduzindo alíquotas.
3) Fazer a Reforma Administrativa, fortalecendo e valorizando o serviço público. Acabar com a discrepância salarial entre os três poderes e estabelecer que todos os servidores tenham as mesmas regras de aposentadoria e de férias.
4) Fazer a Reforma Política. Aproveitar que terá de se adiar as eleições para prefeitos e, por isso ampliar seus mandatos para cinco anos, estender para os demais cargos de governadores e presidente e extinguir a REELEIÇÃO para o executivo.
5) Fazer as eleições para o Poder Legislativo antes do Poder Executivo para que elejamos parlamentos livres e independentes do Executivo. Reduzir o mandato de senadores para cinco anos e acabar com as suplências.

Construir um pacto federativo entre governo e sociedade para que todos os governos dediquem suas propostas e ações voltadas para a Educação, a Saúde, para o Transporte de passageiros e de carga eficientes. O saneamento sanitário e o abastecimento de água potável em todos os municípios brasileiros. Despoluir os rios, lagoas e mares, reflorestar as áreas degradadas e fiscalizar rigorosamente o meio ambiente.

Fazer o grande mutirão nacional para construção de habitação para cada família brasileira que hoje esteja vivendo em condições inadequadas.

pacto federativo

Professor arquiteto e historiador Nireu Oliveira Cavalcanti
Abril de 2020 – era do Coronavirus (COVID–19)

19.2.20

ADÈLE TOUSSAINT-SAMSON: UMA HISTÓRIA LÚGUBRE

O episódio a seguir, narrado pela viajante francesa Adèle Toussaint-Samson, que morou pouco mais de uma década no Rio de Janeiro em meados do século XIX, em seu livro Une Parisienne au Brésil, pode perfeitamente ter inspirado Machado de Assis a escrever seu conto O Esqueleto de 1875. Confiram o relato da Adèle.



A primeira vez que fui convidada no Rio para um dos bailes de São João, lembra-me que, dançando, lancei os olhos para o artista que se achava ao piano e fiquei impressionada pela estranha palidez de seu rosto. Tão extraordinária era que não pude resistir ao desejo de perguntar se esse moço, que poderia ter trinta e cinco anos, sofria de alguma enfermidade grave. Responderam-me que ficara assim desde o dia em que matara a mulher.

Imagine o efeito que sobre mim produziu tal resposta! Quis logo conhecer os detalhes dessa trágica aventura, e eis o que me contaram:

O senhor M..., um de nossos compatriotas, chegara três meses antes com sua mulher, moça e lindíssima, contratada como cantora nos teatros do Rio. Aos pés da encantadora artista choviam, todas as noites, os buquês e as cartas, e entre os mais apaixonados fez-se logo notar um jovem doutor da cidade, que tinha feito seus estudos na França, e cujo espírito havia assumido o tom zombeteiro e cético próprio dos parisienses. A moça correspondeu logo à paixão que inspirava e tornou-se amante do doutor. Começando o marido a desconfiar de alguma coisa, fez várias cenas de ciúme para a mulher. Entretanto, não tinha ainda certeza.

Um dia, ao vê-la pronta para sair, mais adornada que de costume, teve a intuição de que ela ia a um encontro amoroso e, colocando-se à sua frente:

– Não sairás! disse-lhe.

– Hei de sair! replicou ela, dirigindo-se para a porta. Então, o marido, puxando do peito uma pistola que mantinha lá escondida, desfechou aqueles dois tiros à queima-roupa contra sua jovem esposa, que se estendeu sem vida a seus pés; feito o que, foi entregar-se à prisão. Depois de ser julgado, foi absolvido pela lei, e ficou no país, onde a cada passo encontrava o homem que o desonrara. Teve a triste coragem de matar a mulher, mas não teve a de matar o homem.

Manchado por este crime, trazendo daí em diante, como eterno estigma, essa palidez cadavérica, continuava, entretanto, a vir às noites tocar polcas e quadrilhas para a juventude brasileira dançar, pois seu crime o pusera, até certo ponto, em moda.

Esta narração gelou-me; meus olhos não podiam se desviar desse homem, a quem geralmente lastimavam, enquanto eu não achava para ele, ao observá-lo, senão esta palavra: “Covarde!” O baile perdeu logo para mim, pouco a pouco, toda sua alegre fisionomia: a nota lúgubre dominava nele. Julguei-me sob o domínio de um conto de Hoffmann; parecia que um vampiro dirigia a dança. Pensei muitas vezes nessa jovem e bela criatura, morta sem piedade na flor da idade, e quis saber se o amante teria, ao menos, conservado sua lembrança. Responderam-me que, quando a moça morreu, mostrara grande dor, e fizera mesmo resgatar secretamente os restos mortais de sua amante. Isso me enterneceu.

Alguns anos depois consegui completar as informações sobre a aventura. Ei-las:

Soube que o amante, doutor em medicina, como ficou dito, fizera preparar e articular o esqueleto de sua antiga amante e, algumas vezes, depois de beber, chegara a dizer a alguns de seus mais íntimos amigos:

“Querem saber em que se transforma, depois da morte, uma mulher jovem e bonita, loura, branca e rosada? Vou mostrar-lhes!”

O doutor abria então um armário e, indicando com o dedo, sorridente, um horrível esqueleto de dentes brancos, que havia sido a formosa criatura cuja beleza ainda é proverbial no Brasil e que fora assassinada por causa dele:

“Eis aí!” dizia.

17.2.20

ADÈLE TOUSSAINT-SAMSON SOBRE A QUALIDADE DA ÁGUA CARIOCA



Da era colonial para cá muita coisa melhorou: não temos mais escravos, o cocô já não é mais lançado no mar, a febre amarela não dizima mais a população etc. Mas uma coisa piorou: a qualidade da água. Vejam a descrição de nossa água pela viajante francesa Adèle Toussaint-Samson em seu livro Une Parisienne au Brésil, publicado em 1883:

Du reste, l'eau est si bonne à Rio, que cette boisson est presque un régal. Aussi le Brésilien en boit-il, dans sa soirée, quatre ou cinq verres; elle est si limpide, si parfumée, si légère, cette eau de la Carioca, qui serpente sur de blancs cailloux, à travers les plantes aromatiques, et vous arrive toute fraîche et pleine de senteurs, qu'on s'en souvient toujours, et que le Brésilien a raison de dire : « Quand on a bu » cette eau-là, on n'en peut plus boire » d'autre. »

Além disso, a água é tão boa no Rio, que essa bebida é quase uma delícia. Também o brasileiro bebe quatro ou cinco copos à noite. É tão límpida, tão perfumada, tão leve essa água do Carioca, que serpenteia sobre seixos brancos, através das plantas aromáticas e chega até você totalmente fresca e cheia de odores, que sempre nos lembramos dela, e os brasileiros têm razão de dizer: “Quando alguém bebeu dessa água, não consegue mais beber outra.”

10.1.20

OS CORTIÇOS COLONIAIS E AS VILAS INTIMISTAS DO ECLETISMO, de MILTON TEIXEIRA

Cortiço do final do século XIX no Morro do Livramento, uma "avenida" como diziam na época, e o mais incrível é que as casas não estão adulteradas. A porta de arco abatido em granito, no primeiro plano, é mais velha.

As raízes das vilas urbanas do final do século XIX podem ser encontradas no seu antepassado colonial mal comportado: o cortiço. Surgiram tais habitações coletivas ainda no século XVIII, parece-nos, derivadas das estalagens onde pernoitavam os tropeiros que chegavam de Minas Gerais. Seu número se multiplicou no século XIX, principalmente depois de 1850, quando ocorreu grande migração para a área urbana do Rio de Janeiro.

O cortiço era, antes de qualquer coisa, uma habitação particular coletiva para pobres, ex-escravos, imigrantes ou viajantes. Era erguido por vezes num simples lote urbano, onde caberia normalmente uma casa comum. Na testada urbana do lote, era levantada uma a duas casas de sobrado, onde, numa delas, por vezes, morava o dono do cortiço. No térreo funcionava um comércio, padaria, açougue ou armazém, que ajudava o estabelecimento a suprir-se de gêneros de primeira necessidade. Ao lado ou entre os dois sobrados, havia a entrada de uma pequena ruela, chamada, por eufemismo, de “avenida”. De ambos os lados da avenida, existiam pequenos cubículos constituídos por um único ambiente, com porta e janela. Nos fundos da avenida, tanques para lavagem de roupa, coradouros, pias e latrinas coletivas, de uso restrito da população do cortiço.

Cortiço na rua Bento Ribeiro, perto da Central

Alguns cortiços possuíam dois andares, sendo a ascensão aos cubículos superiores feito por escadas que davam acesso a uma varanda coletiva. Sobre as portas, às vezes existia uma bandeira gradeada para ventilação. Os cubículos eram numerados, invariavelmente, em algarismos romanos. Na entrada, à guisa de lavabo, existia uma pia para os visitantes lavarem as mãos. A intimidade familiar inexistia e realmente eram habitações muito insalubres com as latrinas usadas por todos, moços e velhos, homens e mulheres. Hoje restam na cidade apenas seis deles, sendo três na rua Senador Pompeu e dois na rua Sacadura Cabral – curiosamente hoje todos tombados pela Municipalidade como importantes bens culturais da cidade.

Depois de 1850 começou lentamente uma migração constante de europeus para o Rio de Janeiro, bem como, em sentido inverso, de ex-escravos do campo para a cidade. Com as latrinas coletivas, os cortiços logo foram culpabilizados pelas epidemias infecto-contagiosas que desde essa época atingiram a cidade na época do verão. Desde 1870 surgiram leis restritivas à sua construção na área urbana da cidade, mas seu número só fez crescer até os primeiros anos da República, quando os primeiros prefeitos lhe dedicaram uma guerra sem trégua. O maior cortiço de todos, era o “Cabeça de Porco”. Ficava na base do morro do Livramento, onde hoje está o túnel João Ricardo, próximo à Central do Brasil. Seu nome, dizia-se, derivava de um porco de louça usado como enfeite sobre a entrada principal. Moravam nele cerca de 4.000 pessoas e possuía mais de vinte casas comerciais. Foi destruído em fins de janeiro de 1893 por uma tropa de cavalaria chefiada pelo Prefeito Barata Ribeiro, que enfrentou forte oposição de deputados que defendiam os donos de cortiço, dentre elas, Dona Felicidade Perpétua de Jesus, proprietária majoritária do “Cabeça de Porco” e de outros cortiços na região portuária.

Antiga vila operária da Fábrica Aliança na Rua Pires de Almeida, Cosme Velho. 

Em fins de 1902, o Prefeito Francisco Pereira Passos, coadjuvado por seu Diretor da Saúde Pública, Oswaldo Cruz, desenvolveu sistemática oposição a essas habitações populares, tendo destruído a maioria delas. Os restantes foram abaixo nas administrações que se sucederam até 1930. O último cortiço foi construído em 1917, na rua Senador Pompeu. Foi o derradeiro Moicano. Conta-se que chegaram a existir mais de trezentos somente na área Central, mas os havia desde a Glória ao Humaitá, sendo que em Botafogo (Rua Assunção) ficava o que inspirou ao escritor Aluísio Azevedo o seu famoso livro.

As vilas surgiram no ocaso dos cortiços. Em 1888, com a Lei Áurea, ocorreu uma grande migração de ex-escravos para a Côrte. Isso estimulou os determinados investidores, principalmente ingleses, em aproveitar essa mão de obra disponível e barata, que se juntava agora às dos imigrantes europeus para investir no mercado fabril do Rio de Janeiro. Nos últimos anos do século XIX surgiram então várias fábricas de tecidos pela cidade, das zonas Sul a Oeste, que absorveu essa oferta barata. Surgiram, assim, em rápida sucessão: a Progresso Industrial, em Bangu; a Aurora, no Humaitá; a Corcovado, na Lagoa; a Carioca, no Jardim Botânico; a São Félix, na Gávea; a Aliança, em Laranjeiras; a Confiança, em Vila Isabel, e muitas outras, têxteis ou não. Como o Governo não se interessava pela construção de casas populares, os empresários tiveram de fazê-las. Pegaram alguma experiência das vilas operárias europeias, bem como a algo da realidade luso-brasileira dos cortiços.

Remanescente da antiga vila operária da Fábrica Bangu

As primeiras vilas operárias eram bem diferentes dos velhos cortiços. Todas as unidades eram compostas de, no mínimo sala, quarto, cozinha, coradouro e banheiro. Ainda eram geminadas, como nos cortiços e, assim como estes, o acesso era feito por uma única via, usança que permitia melhor controle sobre a entrada e saída dos empregados. Na entrada da “avenida”, casas altas para os supervisores. Algumas dessas vilas eram imensas, em especial a da Fábrica Bangu, que possuía igreja, escolas para os dois sexos, posto médico, mercado e clube desportivo, além de um teatro. A Fábrica Corcovado possuía cerca de treze mil operários e podia contar até com um hospital, igreja Católica e templo Metodista. A família era amparada por quatro planos previdenciários e a vila contava com infraestrutura de cidade. A vila da Fábrica Carioca, na rua Pacheco Leão, era motivo de orgulho nacional, projetada segundo os preceitos modernos de higiene, com clubes, escolas, mercados e bandas de música. Para o operário usufruir disso era-lhe feito pequeno desconto na folha de pagamento. Mas, se embebedasse, chegasse tarde à casa ou pior, organizasse greves ou delas participasse, era demitido e toda a sua família perdia a moradia e benefícios.

Para fugir a esse controle, muitos operários desistiam de morar na vila da fábrica. Colocavam toda a família para trabalhar e, com uma renda melhor, podia então alugar uma casa de vila particular, onde o controle patronal era menor. Essas vilas particulares seguiram o padrão dos cortiços coloniais. O dono era normalmente um português. Uma a duas casas grandes marcava a entrada, onde no térreo funcionava um comércio; o acesso era pela “avenida”, mas as semelhanças acabavam aí. As casas ainda eram geminadas, mas agora todas possuíam banheiro e área de serviços individualizados.

Cortiço num velho sobrado na Rua Costa Ferreira, 70 (Centro) tombado pelo município. Com dois pavimentos, é uma habitação coletiva característica da segunda metade do século XIX.

Um dos maiores defensores das vilas operárias foi o construtor Antônio Januzzi. Nascido em Cosenza, Itália; trabalhou na construção civil de seu país como autodidata, tendo apenas algumas aulas de desenho. Migrou em 1881 para Buenos Aires, onde trabalhou numa pedreira. Em 1885 embarcou num mercante como clandestino para o Rio de Janeiro, onde arrumou trabalho na construção do elevador a vapor para Santa Teresa, obra inaugurada em 1886. Reconhecido o seu talento, ganhou muitos admiradores e montou a maior empresa de construções da cidade, onde fazia do projeto à construção. Dotado de talento nato, chegou a ganhar encomendas oficiais e não foi à toa que construiu mais de trinta prédios somente na Avenida Central em 1904/05. Era dono do morro da Viúva, no Flamengo, onde fornecia pedra para todas as obras da cidade. Sua amizade com Pereira Passos rendeu-lhe bons contratos.

Januzzi era presbiteriano e considerava a missão de construir para os pobres uma cruzada religiosa. Para ele, a casa era o tijolo da família e esta o alicerce da sociedade. Era propugnador da ideia da construção de casas dignas para os operários e chegou a escrever um livro sobre o assunto, e a fundar uma empresa apenas para construção de vilas particulares: a Evonéas Fluminense. Januzzi começou construindo as vilas da Fábrica Carioca, ainda existente. Aproveitou a baixa dos preços dos terrenos no Humaitá, Botafogo, Catete, Laranjeiras, Vila Isabel e São Cristóvão para comprar velhos palacetes da época da escravidão, demoli-los e, em seu lugar, construir pequenas vilas. Trabalhou muito para os maiores donos de vilas do Rio de Janeiro: Conde Modesto Leal, Luís Camuirano, Antônio Valentim do Nascimento, Conde São Salvador de Matosinhos, Visconde de Santa Isabel e Visconde de Moraes. Para estes nababos de além-mar, ergueu dúzias de vilas por todos os bairros da cidade, sendo algumas delas tão grandes que deram origem a ruas, como a Camuirano, a Muniz Barreto, e a Barão de Itambi.

Cortiço na Rua Senador Pompeu, 34. Tombado pela Prefeitura.  O cortiço de dois pavimentos foi construído, no final do século XIX, para atender a população de baixa renda.

Com o passar dos anos, morar em vila deixou de ser coisa de operário para se transformar num estilo de vida. As vilas evoluíram e passaram a ficar mais luxuosas, bem acabadas e com detalhes primorosos de arte, serralheria, estuque, etc. Algumas passaram a ter nomes altivos ou a se chamar bairros, como São Jorge, no Catete. Das melhores vilas da década de 20, estão as: Vila Abrunhosa, na rua da Passagem e os Apartamentos George, na rua São Clemente, ambas em Botafogo. Esta última parece um vilarejo inglês, projetada e construída por Eduardo Pederneiras, o maior sucessor de Januzzi (falecido em 1949) na construção civil no Rio de Janeiro.

Em 1931 Getúlio Vargas literalmente decretou o fim das vilas. Agora as casas operárias passariam a ser construídas pelo Estado e não mais por particulares. No mesmo ano ele criou o Instituto Nacional de Previdência e seis Institutos de Aposentadorias e Pensões, autarquias que possuíam, – dentre outras funções -, a missão de construir casas populares para o povo – IAPI, IAPC, IAPB, IAPM, IAPTEC, etc. Logo depois o mesmo presidente congelou os aluguéis, tirando o motivo maior de existência das vilas: o pequeno aluguel que gerava a renda mensal que permitia a vida confortável dos donos de vilas lusitanos. Isso desestimulou também a iniciativa particular de construí-las, pois as casas eram já alugadas por muito baixo preço. Muitas vilas foram então vendidas e algumas até demolidas. Agora os donos dos terrenos mudaram a orientação, passando a erguer pequenos prédios residenciais multifamiliares de até cinco andares, sem elevadores, com um ou mais apartamentos por andar. Eram as famosas “Casas de Apartamentos”, cuja moda perdurou até o fim da Segunda Guerra Mundial, até que a especulação imobiliária também as desbancou e fez surgir o prédio de apartamentos moderno.

Revalorizadas no final do século XX, as vilas foram tombadas como patrimônio urbano e se converteram em opção elegante de moradia. Descobriu-se que com apenas uma pequena grade na entrada, consegue-se fácil a segurança necessária. A casa de vila, mesmo com a intimidade um tanto comprometida, voltou a ser uma rara oportunidade de residir numa residência unifamiliar individualizada em meio ao caos em que se converteu a maioria dos bairros residenciais da cidade.

Pequena Itália (Vila Operária Sauer da Fábrica Carioca) no Jardim Botânico

Texto gentilmente cedido pelo professor Milton Teixeira. Fotos do editor do blog.

10.12.19

SÃO PAULO, crônica de CYRO DE MATTOS


(Para Samuel Penido - em memória)

O Brasil é uma nação com várias nações dentro de seu território de dimensões continentais. Encontramos em São Paulo todas essas nações brasileiras com pessoas vindas dos lugares mais distantes do País. Nessa cidade com uma superpopulação sempre crescente ouvimos, diariamente, vozes estranhas, costumes vindos de povos que possuem tradições das mais singulares.

costumes vindos de povos que possuem tradições das mais singulares


O homem do interior que pisa pela primeira vez nessa aldeia global fica como peixe fora d’água. Impressiona-se com a paisagem feita de cimento e aço, de grandes edifícios, que buscam as nuvens mais altas. No asfalto, pneus cantam, o homem passa anônimo e veloz nessa forja gigantesca que nunca descansa.

Corre no tempo que nessa cidade trabalho e dinheiro andam de mãos dadas. O homem aqui tem que ganhar dinheiro com unhas e dentes numa maratona suicida. O coração financeiro da cidade é a Avenida Paulista com o seu modo intenso de estipular o mundo.

de grandes edifícios, que buscam as nuvens mais altas

Riqueza e pobreza são vizinhas em São Paulo. Ao céu aberto e nas galerias, elas estão juntas, vivem em seu ritmo tumultuado. Soltam fumaça nas fábricas com suas inúmeras chaminés, que tornam o sol pálido, as nuvens cinzentas e o ar que tosse constante. Prenhe de detritos, o Tietê percorre a cidade na descida triste inventada por bocas de vômito. Um rio com sua mágoa desce no curso viscoso, pulmões quase sem ar nas águas escuras, como a dizer SOS São Paulo antes tarde do que nunca.

 fábricas com suas inúmeras chaminés

Falam que o ser humano em São Paulo está prisioneiro num tempo de bruma. Diluído na multidão. É um partir que não chega, um caminhar sem parar. Hospitais, escolas, igrejas, fichários, descargas de fumaça, lá se vai o fiel habitante sem bagagem e com suas armas que comovem. Nas esquinas, bares, restaurantes, danceterias, madrugadas. Nos motéis com fumos, com cio, álcool, drogas. Colmeia gigantesca, aqui o homem tem a língua presa na sua ânsia de falar com solidariedade e doçura. Esse homem sem nome na selva de pedra. No shopping center, no subsolo, na Avenida São João, no estádio, no metrô, no supermercado, na fábrica, no elevador. O homem e seus dentes de fera naquele velho aprendizado de ter uma vida com sobras. Nessa cidade onde o povo é fluxo e refluxo em torno de si mesmo, tão luta.

O homem tão do mundo, vivendo o seu medo na cidade enevoada.

dentes de fera

Você acha um lugar ao sol na praça, onde os pombos fazem uma bela aparição. Igual à Cinelândia, no Rio de Janeiro. Os pombos fazem uma bela formação, baralham em festa tormentas, suavizando o animal insano, o desarmado pedestre, o audaz andarilho diário em seu estado de graça.


  • Cyro de Mattos é autor de mais de 50 livros, de diversos gêneros. Também editado no exterior, Do Pen Clube do Brasil e Academia de Letras da Bahia. Doutor Honoris Causa da Universidade Estadual de Santa Cruz (Bahia). Premiado no Brasil, Portugal, Itália e México. Fotos tiradas em São Paulo pelo editor do blog.

o animal insano

1.12.19

LIQUIDAÇÃO PARA ENTREGA DO PRÉDIO, crônica de OSVALDO MOLES

PUBLICADA ORIGINALMENTE NO DIÁRIO DA NOITE PAULISTANO DE 23 DE AGOSTO DE 1949


Enquanto os grandes cronistas literários da imprensa carioca têm sua memória preservada e suas obras reeditadas, o grande cronista paulistano pós-Alcântara Machado, Osvaldo Moles, praticamente caiu no esquecimento – sequer nome de rua virou. Eu mesmo só vim a descobri-lo ao ler a ótima biografia do Adoniram Barbosa escrita por Celso de Campos Jr. Além de cronista exímio, Osvaldo foi um colosso do rádio, em sua época de ouro, em que desempenhava o papel – informar, divertir, distrair – mais tarde assumido pela televisão. Osvaldo escrevia de tudo, esquetes humorísticos, programas culturais, e foi graças aos seus textos que Adoniram viveu uma grande fase como “ator” radiofônico antes de se celebrizar por seus sambas paulistanos "em linguajar popular" nos anos 1950. 

Alberto Helena Jr., em seu prefácio à biografia de Adoniran Barbosa escrita por Celso de Campos Jr., assim descreve Osvaldo Moles: “ [...] um homem da renascença moderna, com traços de enciclopedista – pioneiro da publicidade eletrônica, radialista, poeta, roteirista de cinema e cronista maior da cidade, legítimo herdeiro de Mário de Andrade, Alcântara Machado e Juó Bananere.”

Aqui está uma crônica do Osvaldo publicada originalmente no Diário de Noite paulistano de 23/8/1949.

Olhar vitrinas pachorrentamente, domingueiramente, é bem um interesse, um divertimento de senhoras pobres que esperam a visita da cegonha, a única visita que pobre recebe com bolacha de água e sal. Mas, como dizíamos, espiar vitrinas, sonhar diante dos preços reduzidos pela época, é o tipo do cinema de gente sem dinheiro. Várias coisas constituem o cinema de pobre: – o bonde que passa cheio de pernas, o desenlace do trabalho nas fábricas e as vitrinas da cidade, aos domingos à noitinha.

A Rua Direita, por exemplo, já entendeu que a gente que vai lá aos domingos não é essa gente que as agências de publicidade chamam de “classe B” e de poder aquisitivo médio. Portanto, os comerciantes da Rua Direita fecham cedo suas vitrinas aos domingos, dando margem a mais um ditado das populações que invadem a rua nas noites de domingo:

– Nego num oia vitrina. Mastiga a escuridão.

Mas as da Rua Barão de Itapetininga estão abertas aos domingos à noite. E é para lá que correm os “marcianos”. Marciano é essa gente que quase nunca anda no centro da cidade e que só desce de Marte, o bairro distante, nos dias de exceção. É por isso que agora que o comércio anda apertado, nunca tanta gente olhou vitrina com tanta cobiça no olhar. Começaram a descer os preços, a cidade anda repleta de liquidações. E aqueles risquinhos que cortam os preços altos têm mais fascinação para as donas de casa do que toda a fantasia de Goethe.

É por isso que o velho Montesquieu acreditava na honestidade das massas. Não porque estas sejam cândidas, mas porque só o homem do povo tem o dom de acreditar e de fazer, com sua fé, um movimento que abale o mundo. Ainda se acredita nas liquidações, como ainda se acredita no jogo do bicho. E é essa crença da mulher gorda que leva o marido, a filharada, os cunhados, a família inteira ao centro da cidade, para devanear diante das vitrinas abarrotados de artigos liquidados “a qualquer custo, para reforma do prédio”.

Por sua vez, os comerciantes acham que a coisa vai mal... muito mal! Vai muito mal porque agora não é mais o tempo em que eles podiam ganhar mil por cento. Hoje em dia estão quase na miséria os comerciantes. Só conseguem arrancar um lucro de novecentos e cinquenta por cento.