ENSEADA DE BOTAFOGO

ENSEADA DE BOTAFOGO
"Andar pelo Rio, seja com chuva ou sol abrasador, é sempre um prazer. Observar os recantos quase que escondidos é uma experiência indescritível, principalmente se tratando de uma grande cidade. Conheço várias do Brasil, mas nenhuma tem tanta beleza e tantos segredos a se revelarem a cada esquina com tanta história pra contar através da poesia das ruas!" (Charles Stone)

VISTA DO TERRAÇO ITÁLIA

VISTA DO TERRAÇO ITÁLIA
“São Paulo, até 1910 era uma província tocada a burros. Os barões do café tinham seus casarões e o resto era pouco mais que uma grande vila. Em pouco mais de 100 anos passou a ser a maior cidade da América Latina e uma das maiores do mundo. É pouco tempo. O século XX, para São Paulo, foi o mais veloz e o mais audaz.” (Jane Darckê Avelar)

9.8.19

UMA SALA SEM LIVROS É COMO UMA CASA SEM JANELAS

ESTA POSTAGEM HOMENAGEIA LIVROS E BIBLIOTECAS. FOTOS TIRADAS NO REAL GABINETE PORTUGUÊS DE LEITURA E RESIDÊNCIA DO ESCRITOR HELIO BRASIL (RIO DE JANEIRO) E SEBO DO MESSIAS, CASA-MUSEU EMA KLABIN, FACULDADE DE DIREITO DO LARGO DE SÃO FRANCISCO E ANTIGA CASA DO MEU TIO (SÃO PAULO)


Se a escola é um templo, a biblioteca é seu santuário. Numa sala de aula, ensina-se, aprende-se, discute-se; numa biblioteca, você está em calma. Você lê, sozinho; você escuta, sozinho. E de repente você descobre que não está sozinho, que está na presença dos mestres e dos discípulos dos séculos passados...

Elie Wiesel, Sinais do Êxodo


A house without books is like a room without windows. No man has a right to bring up his children without surrounding them with books, if he has the means to buy them. It is a wrong to his family. He cheats them! Children learn to read by being in the presence of books. The love of knowledge comes with reading and grows upon it.

Tradução: Uma casa sem livros é como uma sala sem janelas. Nenhum homem tem o direito de educar seus filhos sem cercá-los de livros, caso tenha os recursos para comprá-los. É  uma injustiça com sua família. Ele a engana! Crianças aprendem a ler na presença de livros. O amor ao conhecimento advém  da leitura e cresce com base nela.  (A frase inicial é um aforismo talmúdico, que por sua vez evoca a frase atribuída ao romano Cícero: "Uma sala sem livros é como um corpo sem alma".)

Horace Mann, Life and Works of Horace Mann Volume 3 (às vezes erroneamente atribuído ao alemão Heinrich Mann)


Bücher sind Schokolade für die Seele. Sie machen nicht dick. Man muss nach dem Lesen nicht die Zähne putzen. Sie sind leise. Man kann sie überall mitnehmen, und das ohne Reisepass. Bücher haben aber auch einen Nachteil: Selbst das dickste Buch hat eine letzte Seite, und man braucht wieder ein neues.

Tradução: Livros são chocolate para a alma. Não engordam.  Depois de ler você não precisa escovar os dentes. São silenciosos. Podemos levá-los a toda parte, e sem passaporte. Os livros têm, porém, um defeito: mesmo o livro mais grosso tem uma última página, e é preciso obter um novo.

Antonie Schneider, Lea und König Wuff (às vezes erroneamente atribuído a outros autores)


Com dois, três ou quatro sentidos em alerta, agrada-me mais, ver a bibliofilia – a autêntica, a do colecionador sensível e inteligente que compra os livros para serem lidos, estudados e consultados – como foi definida por José Mindlin: uma loucura mansa. Ressaltando que loucura aqui se aproxima muito mais do sentido erasmiano do termo – a loucura como oposta à mediocridade dos excessos de sensatez – do que do desequilíbrio que leva o cidadão ao hospício. Se todos somos loucos, como ironizava Erasmo, a exceção seria o sujeito incapaz de despropósitos, ou seja, a súmula da mediocridade. Por provocar a loucura é que, paradoxalmente, o contato dos livros é salutar. E a loucura mansa costuma levar ao que o mundo mais precisa: tolerância, simplicidade de espírito, respeito pelo semelhante.

Ubiratan Machado, "Descaminhos do Colecionador"

Escritor Helio Brasil em sua biblioteca

O livro é esse amigo que acompanha os seres humanos há séculos, possibilitando o crescimento interior. [...] Um de seus milagres consiste em tornar leve todo o peso terrestre feito de solidões, angústias e perdas. Sua amizade não trilha os caminhos do interesse, transpira sinceridade. Com ele aprendemos que só talento não basta para quem quiser se tornar um filosofo, cientista ou poeta, faz-se necessário o hábito da leitura. Esse amigo está pronto para dizer que, vivendo na sua companhia, a vida fica mais fácil. Matamos até a morte.

Cyro de Mattos, "Uma Amizade Antiga " (para ler a íntegra desta crônica, clique aqui)


O MELHOR AMIGO DO HOMEM, de IVO KORYTOWSKI

Qual o melhor amigo do homem?

Antes de tentar responder à pergunta, uma digressão: amiga virtual contou que, passando certo feriadão em Búzios, terminou livro da Lya Luft antes do planejado e, querendo comprar outro livro da autora pra preencher os dias que ainda ficaria lá (chovia, imagino), teve a surpresa de descobrir que Búzios não possui livraria. Tem bistrô, tem borracharia, tem loja de artesanato... mas nenhuma livraria (contou a amiga).

Voltando à pergunta inicial. Quanto ao maior inimigo do homem, ninguém pode negar: é o próprio homem. Homo lupus homini. Já o maior amigo é objeto de controvérsia. Dizem que o cachorro é o maior amigo do homem. Mas o cachorro exige quase tanta atenção quanto uma criança, faz cocô onde não deve, precisa ser levado pra passear e quando no cio... sai de baixo! Alguns, boca aberta e língua pendente, exalam um hálito pestilento que só o dono não sente...

“O bom livro é o melhor amigo”, lia-se nos marcadores de página de antigamente (hoje os marcadores trazem alguma propaganda). Ao contrário do cachorro, é o livro que nos leva pra passear, transpondo as fronteiras do espaço — do centro da Terra (Viagem ao centro da Terra) aos astros distantes (Viagem ao céu) — e do tempo (o livro é a máquina do tempo).

As pessoas costumam julgar as outras pelas posses: ano do carro, cartões de crédito recheando a carteira (a alegria dos assaltantes), grife da roupa, da bolsa, da caneta — as pessoas realmente reparam nesses detalhes. Já eu, julgo as pessoas pela biblioteca. Neste ponto, discordo em número, gênero e grau do poema do Pessoa que dizia que “livros são papéis pintados com tinta”.

Quando vou da primeira vez à casa de alguém, o que logo observo: se existem livros. Não me impressiona uma casa repleta de engenhocas — televisores de porrilhões de polegadas, aparelho de som com potência pra infernizar a vida de todo o quarteirão — se lá não habitam os escritores. Pra mim, casa sem livros, está faltando algo essencial — como se faltasse o reboco das paredes, o piso no banheiro. Confesso que daria muito mais valor a um humilde favelado em cujo barraco encontrasse estante com um ou outro livro de Machado, Lima Barreto, Paulo Coelho, do que a um ricaço em cuja mansão sobejassem pratarias e baixelas e móveis da época mas.. não se visse nenhum sinal de livro.

Dizem que o sexo é a melhor coisa da vida: sei lá, passar a noite devorando (o termo é este) um livro não fica muito atrás...

Última observação: assalta-se de tudo — da joalheria ao botequim. Até quem está rezando na igreja pode ter a bolsa furtada. Mas dos livros emana aura de sacralidade: alguém já ouviu falar de assalto a livraria?

Fui contar esta história pro gerente de vendas da minha Editora e ele foi logo derrubando o mito: “Nossa livraria lá da Tijuca já foi arrombada mais de uma vez. Donde você acha que vêm esses livros vendidos nas ruas?”


Texto extraído do meu ebook A arte da escrita: Trinta dicas para você aprender a escrever como os grandes mestres. A Dica 26 é: "Aprenda com os mestres: leia regularmente (e, se possível, convença-se de que o livro é o melhor amigo do homem)." Procure na Amazon. E não deixe de assistir aos meus vídeos no YouTube sobre literatura, como por exemplo este sobre Machado de Assis. Mas tem muitos outros (ver aqui). Inscreva-se no meu canal.




Agora uma declaração de amor de Alexei Bueno à sua vasta biblioteca, extraída de seu livro As Desaparições (G. Ermakoff, 2009):

ODE AMATÓRIA

Meus livros amados,
Como trepadeiras
Sobem, apinhados,
Paredes inteiras.

Alargam seus flancos
Por cômodos, quinas,
E erguem-se em barrancos
Fabricando esquinas.

Lombadas, brochuras
Me olham das estantes,
Marroquins, nervuras,
Discretos, berrantes,

E neles me espiam
Gregos e sumérios,
Almas que extasiam,
Monstros deletérios.

Quinze mil amantes,
Bem embaixo, em cima,
Livro, o agora e o antes,
Palavra sem rima.

Que vida haveria,
Reles, pouca, porca,
Sem tal companhia,
Taça que se emborca.

Fólios, incunábulos,
Línguas e cidades,
Semblantes, vocábulos,
Desastres, vaidades,

Bulas, manuscritos,
Toda a espécie humana
Em grilhões escritos
Numa caravana

Que cruza o deserto
Nosso, soledade,
O longínquo, o perto,
O agora, a saudade,

De mãos dadas, nisto,
Filho, pai e avô,
Juntos Jesus Cristo
E o Doutor Petiot.

Sarabanda estática,
Vertical loucura,
Viagens, numismática,
Budismo, pintura,

E os autores todos,
Vivíssimos, mortos,
Ancestrais rapsodos,
Místicos absortos,

E entre os que pisaram
Nas poentas paragens
Os que em almas aram,
Tipos, personagens,

Todos, todos juntos,
E os florões, e espelhos,
Colofões defuntos,
Frontispícios velhos...

Que teria eu sido
Sem tal ebriedade,
Meu portão fendido
Para a eternidade,

Para o imenso, a viagem
Da alegria humana,
Sem mais dor, voragem
Que nos unge e irmana?

***

Outro poema do Alexei extraído do livro Naquele Remoto Agora de 2024 (Editora Anadiômene) sobre um fenômeno que também vivi quando decidi reduzir a biblioteca vendendo e doando centenas de livros (hoje leio mais livros eletrônicos no Kindle do que impressos em papel!): 

A QUEDA

Livros que reuni a vida inteira, 
Vejo-os partir, vendidos, devorados... 
Tomaram tudo, por todos os lados, 
Metódica invasão alvissareira.

Pensel morrer com eles. Grande asneira. 
Ou lê-los todos, sonhos defraudados. 
Os problemas e as pragas, irmanados, 
Filhos do inferno, abriram a porteira...

Dedicatórias, encadernações, 
Frontispícios, dourados e florões, 
Vão para alheias mãos nunca sonhadas.

Guardo as horas nas quais foram achados, 
Únicos uns, por anos procurados 
Outros, em meio a estantes desertadas.



São todos estes livros. Vasta vida
pulsando forte aqui, era após era
de pensamento nítido, quimera,
certezas, corvos de ilusão perdida.

Sim, esta é a sala nunca anoitecida.
Nada adormece. Tudo freme e gera
luzes e trevas do santo e da fera
que é o homem, sempre, de alma dolorida.

São todos estes livros que se falam,
singrando o tempo, em alegria ou pranto,
de tudo o que se criou ou se perdeu.

E em seu silêncio eles jamais se calam
De Beleza e Verdade. E ornam de espanto
o sonho de uma sombra que sou eu.

SONETO DA BIBLIOTECA, do poeta baiano Ruy Espinheira Filho, extraído do livro Uma história do paraíso & Outros poemas



"Consolation" do livro Trivia do escritor anglo-americano (nasceu nos EUA mas se tornou cidadão britânico) Logan Pearsall Smith, que se celebrizou por suas memórias, seus ensaios literários e sobre pregadores anglicanos do passado, e suas coleções de "trivialidades" (Trivia), reflexões filosóficas curtas sobre o quotidiano num estilo literário depuradíssimo. No original, sem tradução:


The other day, depressed on the Underground, I tried to cheer myself by thinking over the joys of our human lot. But there wasn't one of them for which I seemed to care a button – not Wine, nor Fame, nor Friendship, nor Eating, nor Making Love, nor the Consciousness of Virtue. Was it worth while then going way up in a lift into a world that had nothing less trite to offer?

Then I thought of reading – the nice and subtle happiness of reading. This was enough, this joy not dulled by Age, this polite and unpunishable vice, this selfish, serene, life-long intoxication.


Terminamos a postagem com um trecho do livro de memórias do escritor israelense Amós Oz, De amor e trevas, em que descreve a biblioteca do tio, o intelectual Yossef Klausner. Acompanha o texto uma foto de mim muitos e muitos anos atrás na biblioteca também do meu tio, marido da irmã de minha mãe, Heinz Flatauer, o "tio Henrique".


O cheiro da imensa biblioteca de meu tio me acompanhará vida afora: o odor empoeirado e sedutor dos sete saberes ocultos, o perfume de uma vida silenciosa e retirada, dedicada à erudição, a vida quieta de um ermitão, o silêncio espectral que se elevava das profundezas do conhecimento e da doutrina, os sussurros vindos dos lábios de sábios mortos, o murmúrio dos pensamentos secretos de escritores que já então habitavam o pó, o gélido afago de autoridade das gerações passadas [...]

As quatro extensas paredes da alta biblioteca eram tomadas de ponta a ponta por livros, apinhados e comprimidos nas prateleiras, mas bem organizados, fileiras e fileiras de encadernações em tons escuros de azul, verde, marrom, e também negras, gravadas em ouro e prata. Em algumas prateleiras era tal a quantidade de livros que foi preciso arrumá-los apertados em fila dupla, uns na frente dos outros. E havia seções de livros com rebuscadas letras góticas que me faziam pensar em agulhas e torreões de castelos, e outras de livros sagrados hebraicos [...]

Nenhum cantinho de parede, por menor que fosse, fora deixado vazio de livros. E também sobre o assoalho empilhavam-se dezenas de livros, alguns abertos e virados com a lombada para cima, alguns cheios de pequenos marcadores de páginas, enquanto outros se juntavam, como rebanhos de carneiros assustados, sobre duas ou três cadeiras de espaldar alto destinadas às visitas, e até sobre o peitoril das janelas. [...] Algumas vezes me foi permitido percorrer com muito cuidado toda a biblioteca, de seção em seção, de prateleira em prateleira. Ali não havia nenhum quadro ou moldura. Nem vaso de plantas, nem um cantinho com objetos decorativos. Somente livros e mais livros, e silêncio, e aquele aroma maravilhoso, rico, das encadernações em couro e do papel amarelado, e cheiro de mofo, mas sutil, com um estranho traço de algas, e o odor de cola envelhecida, sabedoria, segredos e pó.

19.7.19

RARIDADE: TEXTO DE BALZAC SOBRE D. PEDRO II


D. Pedro II jovem, em foto de Harald Schultz

Existem escritores que florescem na juventude (alguns para viverem vidas breves, como os poetas românticos brasileiros), enquanto outros despontam na maturidade – caso do lusitano Saramago e do genial memorialista brasileiro Pedro Nava que publicou o primeiro volume de suas memórias aos 69 anos. E existem escritores que a gente gosta de ler na juventude, geralmente os românticos, que abordam os sentimentos elevados – Victor Hugo é um bom exemplo, aos 16, 17 anos cheguei a ler seu alentado Os Miseráveis em coisa de uma semana: vagabundo, passava o dia na praia lendo – enquanto outros escritores mais calcados na dura realidade requerem uma certa “maturidade” do leitor. É o caso de Balzac, que só agora, na casa dos sessenta anos, aprendi a realmente apreciar. Porque Balzac é um escritor por demais realista, e os jovens preferem sonhar. 

Mais realista do que os demais escritores ditos realistas, Tolstói, Dickens, o Machado da segunda fase. Não porque ele explore as realidades cruas do sexo, como fazem os autores naturalistas, e sim porque mostra a mesquinhez do espírito humano e a força do dinheiro. E se existem duas coisas que movem o mundo, são elas sexo & dinheiro. Não à toa Engels afirmou ter aprendido mais com Balzac sobre os pormenores econômicos do que com todos os historiadores, economistas e estatísticos.

Um fato sobre Balzac que muita gente ignora é que, conquanto imerso na Europa do século XIX, tinha uma ideia da existência do nosso Brasil. A palavra Brasil (pesquisei no meu ebook) é citada 22 vezes em sua Comédia Humana. É o país de origem do barão Montès de Montejanos em A prima Bete (J’aime le Brésil, c’est un pays chaud.), e foi lá que Maximiliano de Longueville enriqueceu, como lemos em O baile de Sceaux. Num momento de crise, Balzac chegou a cogitar em emigrar para cá, tanto é que escreveu para sua amada a condessa Hanska: “Creio que deixarei a França e irei levar meus ossos ao Brasil, num empreendimento louco e que escolhi justamente por causa da sua loucura.” 

Tudo isto é narrado na biografia de Balzac escrita por Paulo Rónai que abre a edição por ele organizada da Comédia Humana, até hoje um marco da tradução literária no Brasil. Outra informação interessante fornecida por Rónai é a existência de um artigo de Balzac sobre o imperador brasileiro D. Pedro II, publicado na revista Caricature de 23 de junho de 1831 sob o pseudônimo de Henry B. Em 7 de abril daquele mesmo ano, D. Pedro I abdicara a favor de seu filho e no dia 13 embarcara para a Europa. Esse artigo, descoberto e traduzido para o vernáculo por Victor Wittkowski, foi publicado no jornal Correio da Manhã de 9 de julho de 1944, depois no suplemento Letras e Artes de A Manhã, em 14/3/1948, para então cair no esquecimento. Estamos resgatando-o. As fotos do imperador foram obtidas na Hemeroteca Digital.

D. Pedro II, D. Teresa Cristina e comitiva nas pirâmides do Egito, foto de J. Pascal Sébah de 1871

DOM PEDRO II, por HONORÉ DE BALZAC

Há uma doença grave mais contagiosa do que a gripe e a cólera-morbus e que se alastra caprichosamente: é a cólera popular que impele as nações a derrubarem os reis, não porque os não queiram – como se há de viver sem eles? – mas apenas pelo gosto de os mudar, de ver caras novas, de saber ao certo quanto pesa uma majestade.

Um dia é o povo francês, original em tudo; depois o belga, o polaco e outros, aqui e acolá. Hoje, é o brasileiro. O povo do Brasil preza, venera o seu soberano que o lavou com o sabão da independência; não lhe quer, pois, nenhum mal. Mas o rei reinou; logo, passe-se a outro.

Como o primeiro homem duma nação passa por ser coisa rara, preciosa, o brasileiro escolheu acaso, para o reger, uma longa experiência, ou cãs veneráveis? Não. O brasileiro gosta de rir; em consequência, toma para imperador um cidadão de cinco anos: D. Pedro II d’Alcântara (João-Carlos-Leopoldo-Salvador-Bibiano-Francisco Xavier de Paula-Leocádio-Miguel-Gabriel-Rafael-Gonzaga.

O nome é um tanto extenso, em verdade. Nos dias dos “vivas”, tornar-se-á estafante. Grita-se menos; e pronto! Se o novo monarca não teve tempo de fazer bem ao seu povo, pelo menos ainda não mandou enforcar ninguém. É já um antecedente mui gracioso da sua parte.

D. Pedro II em trajes gaúchos, foto de Luiz Terragno de 1865

Compreende-se facilmente que, até agora, a carreira política desse jovem soberano seja muito limitada; dos feitos do seu reino temos conhecimento de um só. Ei-lo:

No dia em que a nação proclamou o seu capricho, o preceptor do jovem príncipe apressou-se a procurar o discípulo, para lhe anunciar a sua nova profissão. Encontrou-o num palacete, distante algumas milhas do Rio de Janeiro, no momento em que se dignara tomar ovos quentes e leite no seio da risonha natureza brasileira onde todo galho de árvore embala um macaco à guisa de pardal. Arrebatando o príncipe aos encantos da merenda e dos sajus [espécie de pequenos macacos], o preceptor comunicou-lhe que, desde duas horas, tudo nele era majestade da cabeça aos pés, e levou-o ao paço.

No caminho, o pedagogo julgou-se autorizado a recitar ao soberano máximas de moral e congratulações. Ia abrir a boca, quando um grosso pingo d'água o advertiu de que chovia. Em lugar de eloquência, o nosso magister tratou então de procurar um abrigo.

Dom Pedro II, mais lesto, chegou em breve a uma choça, a cuja porta bateu energicamente, como convém a um monarca sem guarda-chuva. Assomou então à janelinha uma velha brasileira de tez acobreada, sulcada de rugas – verdadeira cara de mau tempo – que perguntou quem lhe acordava assim o gato!

– Oh! Abra duma vez, bruxa! – respondeu cortesmente o fedelho. – Eu sou João-Carlos-Leopoldo-Salvador-Bibiano-Francisco Xavier de Paula-Leocádio-Miguel-Gabriel-Rafael-Gonzaga-Dom Ped...

– Misericórdia, Nossa Senhora! – atalhou a velha. – Então vá pedir pousada a outra parte. Na minha cozinha não há lugar para tanta gente.

E fechou a janela.


D. Pedro II em 1883. Foto de Joaquim Insley Pacheco


10.7.19

FACULDADE DE DIREITO DA UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO

Convento e Igreja de São Francisco em foto de cerca de 1862 de Militão Augusto de Azevedo. Desde sua aula inaugural, em 1 de março de 1828, o "curso jurídico", depois Academia de Direito e, a partir de 1854, Faculdade de Direito ocupou as dependências do antigo convento.


A faculdade em foto de Frédéric Manuel de 1906. Uma restauração em 1884 retirara do convento seu aspecto original da foto anterior, substituindo o beiral por uma platibanda, acrescentando um pórtico alto, além de outras modificações.

A FACULDADE DE DIREITO DA USP, NO LARGO DE SÃO FRANCISCO, CENTRO PAULISTANO, OFERECE VISITAS MONITORADAS NA ÚLTIMA SEXTA-FEIRA DE CADA MÊS ÀS 14H30. VOCÊ PODE AGENDAR PELO E-MAIL visitasfd@usp.br. FOTOS TIRADAS DURANTE UMA DESSAS VISITAS. 
TEXTO REPRODUZIDO DO FOLHETO DISTRIBUÍDO NA VISITA.

Durante a década de 1930, o antigo convento foi demolido para dar lugar ao edifício de feições monumentais, em estilo neocolonial, que conhecemos hoje como Prédio Histórico. Para uma aula sobre este e outros estilos arquitetônicos adotados no Brasil veja nossa postagem sobre a evolução da arquitetura carioca clicando aqui.

Criada em 11 de agosto de 1827, com a fundação dos primeiros cursos jurídicos do Brasil, a Faculdade de Direito de São Paulo veio responder aos anseios de consolidação da emancipação recém-conquistada pelo país. Sua finalidade inicial era formar governantes e administradores públicos que viriam estruturar e conduzir o país independente.

Vitral na escadaria mostrando a faculdade quando ainda ocupava o antigo convento.

A princípio, fora instalada nas dependências de um convento erigido no Largo de São Francisco durante o século XVII. A presença de uma biblioteca e de um rico acervo constituído ao longo de anos e anos pelos frades franciscanos foi determinante para que o local fosse escolhido para sediá-la. 

A faculdade abriga várias obras de arte, entre elas, quadros de ex-diretores. Neste vemos Herculano de Freitas, diretor de 1916-25.

Durante a década de 1930, no entanto, o antigo convento foi demolido para dar lugar ao edifício de feições monumentais que conhecemos hoje como Prédio Histórico. Projetado por Ricardo Severo, considerado o sucessor de Ramos de Azevedo, o novo edifício inaugurou o estilo neocolonial, que congregou a arquitetura moderna e elementos do barroco luso-brasileiro, preservando um pouco da tradição cultural presente no antigo convento. As obras só seriam concluídas na década de 1940.

A biblioteca. Os livros estão agrupados não por assuntos, mas por altura, sendo localizados por um sistema de indexação.


Observe que livros de diferentes assuntos, mas mesma altura, compartilham a estante.

A Faculdade de Direito de São Paulo foi a primeira a integrar a Universidade de São Paulo (USP) por ocasião de sua fundação em 1934.

Em 2002, todo o conjunto arquitetônico do Prédio Histórico foi tombado pelo Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico, Arqueológico, Artístico e Turístico do Estado de São Paulo (Condephaat).

Salão Nobre


Sala da Congregação

Nesses quase dois séculos de história, a Faculdade de Direito legou ao país bem mais do que previa o seu propósito original.

Seus estudantes e egressos não apenas ajudaram a lançar as bases do Estado brasileiro e ocuparam postos de relevo nos quadros do Executivo, do Legislativo e do Judiciário, tornando-se presidentes da República, governadores, prefeitos, deputados, senadores, ministros e juízes. Alguns deles foram protagonistas de importantes movimentos nacionais, como o abolicionismo, o republicanismo, o constitucionalismo e a campanha das Diretas Já. Entre eles, figuram nomes conhecidos da história nacional, como Prudente de Moraes, José Antonio Pimenta Bueno, José Bonifácio de Andrada e Silva (o Moço), Ruy Barbosa, Campos Sales, Ulysses Guimarães e Franco Montoro e muitos outros.

Sala da Congregação: reprodução do decreto criando os cursos jurídicos

Outros, alimentando o clima de efervescência cultural que a Faculdade de Direito instaurou em São Paulo, legaram ao país algumas das mais importantes obras da literatura brasileira. É o caso dos poetas Castro Alves, Fagundes Varella e Álvares de Azevedo, de Monteiro Lobato e, mais recentemente, de Lygia Fagundes Telles, alguns deles nomeados imortais pela Academia Brasileira de Letras.

Retratos dos ex-reitores

Não é por acaso que costuma-se dizer que a história da Faculdade de Direito se confunde com a história do país e de São Paulo.


Em suas dependências, distribuem-se registros de marcos e acontecimentos históricos de grande significado para a Faculdade e seus estudantes, como o túmulo do professor Julius Frank, construído em 1842, e a pedra fundamental do edifício para o qual seria transferido o curso de Direito na Cidade Universitária, arrancada de sua origem por estudantes contrários à transferência e instalada no Largo de São Francisco em 1973 com os dizeres "Quantas pedras forem colocadas, tantas arrancaremos".


Túmulo do professor Julius Frank

Mas a Faculdade de Direito abriga também monumentos que registram e homenageiam momentos decisivos da história nacional, como o Monumento ao Soldado Constitucionalista e a Tribuna Livre, de onde o inesquecível mestre Goffredo da Silva Telles Jr. pronunciou sua Carta aos Brasileiros e defendeu a democracia em plena ditadura militar.

Retrato de Frei Galvão no local onde, segundo a tradição,  estaria situada a sua cela no convento. Nesse mesmo local existe uma relíquia do santo.

Que essas Arcadas continuem a sustentar sonhos, ideais e lutas da nação brasileira por muitos outros séculos!


As famosas arcadas

Memorial aos acadêmicos mortos na Revolução Constitucionalista: "Quando se sente bater / No peito heroica pancada / Deixa-se a folha dobrada / Enquanto se vai morrer..."

24.6.19

CENTRO CULTURAL SÃO PAULO



O Centro Cultural São Paulo é ao mesmo tempo uma pujante obra de arquitetura e paisagismo & magnífico espaço de convivência e lazer cultural. Com estrutura de concreto e aço, segue à risca três dos cinco princípios da “nova arquitetura” enunciados por Le Corbusier. Primeiro, planta livre, independente da estrutura do prédio, permitindo a livre alocação das paredes. Na prática, significa um espaço interno não compartimentalizado como num prédio convencional. Você tem amplos espaços sem divisórias, permitindo uma circulação quase tão livre como se estivesse ao ar livre. Segundo princípio, fachada livre, igualmente independente da estrutura do prédio, proporcionando abertura máxima. E, terceiro, o “terraço jardim”: belíssimo jardim suspenso – pairando acima das pessoas, da biblioteca, da gibiteca, das exposições, do café, do cinema, do teatro... – com horta e tudo, cercado de prédios por todos os lados como não podia deixar de ser em São Paulo. Um oásis na metrópole, a “praia” do paulistano. A entrada é gratuita e o centro fica colado numa estação de metrô (Vergueiro).

Jardim Suspenso, cercado de prédios por todos os lados

Cinema em Transe

Escada para o Jardim Suspenso

Expressão corporal

Em sua dissertação de mestrado TRÊS CENTROS CULTURAIS NA CIDADE DE SÃO PAULO, Roberto Cenni conta que “O vale do rio Itororó teve sua ocupação iniciada com fazendas, quilombos, locais de açoites de escravos e pequenas chácaras, sendo posteriormente aberta a avenida 23 de Maio. Na encosta do vale havia casas de grandes quintais, com frente para a rua Vergueiro, em cujo leito subterrâneo foi construído o metrô. Na administração de Miguel Colassuono surgiu o Projeto Vergueiro (julho de 1973), uma tentativa de reurbanização da área resultante das desapropriações efetuadas pela Companhia do Metropolitano de São Paulo para a construção de sua linha norte-sul. Contando com uma área de 300.000 metros quadrados, o terreno apresentava um grande desnível entre a rua Vergueiro e a avenida 23 de Maio e, segundo o projeto da EMURB - Empresa Municipal de Urbanização, ali seriam construídos um complexo de torres de escritórios, hotéis e um shopping-center, sendo o espaço restante destinado à construção de uma gigantesca biblioteca pública municipal e de alguns prédios comerciais.”

Juventude no CCSP

Arquitetura de amplos espaços, sem divisórias

Pichação (artística?)

Eva, escultura de mármore de Victor Brecheret de 1920

Dois anos depois o prefeito Olavo Setúbal substituiu o projeto Vergueiro original por outro, mais voltado para a cultura, que na administração seguinte, de Reinaldo de Barros, foi enfim reformulado em um centro cultural multidisciplinar, “apoiando-se em duas justificativas básicas, a localização privilegiada e as enormes proporções de um edifício que, se destinado apenas à função de biblioteca, teria excessiva capacidade ociosa”. Ainda segundo a tese de Cenni, “O projeto do CCSP, realizado pelo escritório do arquiteto Eurico Prado Lopes e tendo como co-autor Luiz Benedito Castro Telles, resultou num prédio baixo, que explora a imensidão dos espaços longitudinais em seus quatro pavimentos, os quais se adequaram exatamente à forma de talude do terreno que caracteriza a topografia da região. O conjunto massivo de concreto e aço acaba por se assemelhar, de acordo com alguns observadores, a um portentoso porta-aviões.”

Série Guerrilheiras do fotógrafo Marcos Cimardi

Rafael Vilarouca, Sala de Estar

São Paulo ontem e hoje: encontro da Rua José Bonifácio com Rua de São Francisco.

Céu paulistano

Num domingo de outono, ao travar conhecimento com o Centro Cultural São Paulo, o que vejo? Jovens e mais jovens estudando, com cadernos, calculadoras, livros, e uma galera menos jovem jogando xadrez. No jardim, gente civilizadamente lendo, conversando, refletindo, namorando. Após um trimestre (iniciado em 15 de março de 2019) morando em São Paulo, enfim percebi a diferença cultural entre São Paulo e Rio. Onde no Rio você vai encontrar, em pleno domingo ensolarado, uma única pessoa que seja, num local público, estudando? Vamos e venhamos, o carioca é mais chegado a uma praia, um samba, uma cerveja, um som alto. Assim como Roma difere de Milão e Munique difere de Berlim, Sampa, conquanto próximo, difere do Rio. São culturas e formações e histórias bem diferentes. A diversidade brasileira, salve, salve.

Mosaico: arara

14.6.19

DOMINGOU NO IBIRA, de MÁRIO VIANA

CRÔNICA PUBLICADA ORIGINALMENTE NA VEJA SP DE 31 DE AGOSTO DE 2018. FOTOS DO EDITOR DO BLOG.

Começo pedindo desculpas aos fãs da Paulista Aberta — eu, entre eles —, mas a verdadeira cara de São Paulo se mostra todo domingo no Parque Ibirapuera. Vem gente de todo canto, figuras de todo tipo, com a certeza de que serão bem recebidas nas alamedas lotadas de bikes, cães, atletas e preguiçosos.

Não há modelitos a seguir, o à-vontade impera. Lá estamos entre feios e bonitos, gordos e magros, casais gays e crianças barulhentas, gringos e nativos. Tem de tudo, como sempre acontece em São Paulo.

Inaugurados em 1954, os 158 hectares do Parque Ibirapuera parecem insuficientes para receber todo mundo que cruza seus portões aos domingos. Só em 2017, foram 14 milhões de visitantes, um número que seguramente nem passava pela cabeça do então prefeito da cidade, José Pires do Rio, quando, nos anos 1920, ele chegou a ventilar a ideia de criar um espaço nos moldes dos parques europeus na área antigamente ocupada por uma tribo indígena. A ideia afundou nas partes alagadiças da região.

Foi só em 1927 que a coisa começou a pegar. Um funcionário da prefeitura chamado Manequinho Lopes — o que dá nome ao viveiro — passou a plantar eucaliptos na região, para “chupar” a água. Resumindo a ópera: a ideia ressurgiu e, quando a cidade comemorava seu quarto centenário, foi inaugurado o parque que conhecemos hoje.

Tenho certeza de que nenhum dos barulhentos skatistas que se exibem em manobras, às vezes geniais, outras vezes amadoras, sabe dessa história. Os casais de namorados, que embaralham pernas, braços e bocas nos gramados, também não pensam nisso. O que importa para eles é ter um espaço amplo e que possa ser chamado de seu, mesmo que por alguns breves rodopios e amassos.

A cidade respira e desfila no parque. Há quem vá para visitar os ótimos museus — o de Arte Moderna e o Afro Brasil, sempre com mostras atraentes, e o de Arte Contemporânea, que ocupa o antigo prédio do Detran, já fora do Ibira. Aliás, é do terraço dele que se tem uma vista linda do parque, vale a visita. Outros vão paquerar, fazer piquenique ou só bater perna.

Entre cerejeiras em flor e sabiás saltitantes, tudo é bacana e, ao mesmo tempo, caótico no domingão do Ibira. Outro dia — um domingo, claro —, encontrei a amiga Carla Jimenez, sentada extasiada diante do lago. “Como é bom ficar contemplando”, disse ela, que tinha ido a pé da Pompeia até lá. “A gente, às vezes, esquece de curtir a cidade.”

É claro que o domingo no parque não é uma amostra do paraíso. Se fosse, nem seria São Paulo. Tem banheiro cheio, faltam opções de lanche, alguns ciclistas acreditam que estão disputando medalha de ouro numa prova olímpica e de vez em quando dá trabalho convencer o dono daquele bloodhound de que seu pet é enorme e não merecia ser batizado de Pipoca.

O encontro e a convivência de universos tão disparatados é que dão o tom ao domingão. É a “cota de natureza”, que saboreamos antes de voltar à rotina dos ônibus lotados, trânsito lento e contas a pagar. O sabiá que saltitava poucos parágrafos acima continuará cantando em nossa memória por mais alguns dias, até que chegue outro domingo.