ENSEADA DE BOTAFOGO

ENSEADA DE BOTAFOGO
"Andar pelo Rio, seja com chuva ou sol abrasador, é sempre um prazer. Observar os recantos quase que escondidos é uma experiência indescritível, principalmente se tratando de uma grande cidade. Conheço várias do Brasil, mas nenhuma tem tanta beleza e tantos segredos a se revelarem a cada esquina com tanta história pra contar através da poesia das ruas!" (Charles Stone)

VISTA DO TERRAÇO ITÁLIA

VISTA DO TERRAÇO ITÁLIA
São Paulo, até 1910 era uma província tocada a burros. Os barões do café tinham seus casarões e o resto era pouco mais que uma grande vila. Em pouco mais de 100 anos passou a ser a maior cidade da América Latina e uma das maiores do mundo. É pouco tempo. O século XX, para São Paulo, foi o mais veloz e o mais audaz.” (Jane Darckê Avelar)

15.3.18

PLANTA DA CIDADE DE SÃO SEBASTIÃO DO RIO DE JANEIRO COM SUAS FORTIFICAÇÕES (1713)


A Planta da Cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro com suas Fortificações, do Brigadeiro João Massé é a primeira das que se conhecem, a mostrar em escala correta, todo o centro urbano quando a cidade não alcançava ainda o local da futura Rua da Vala [atual Uruguaiana].

Faz parte do manuscrito desse engenheiro militar francês, a serviço de Portugal: “Relação de todas as fortificações e reparações necessárias para a conservação e defesa da cidade de S. Sebastião do Rio de Janeiro o do seu porto.” Rio de Janeiro, 1 de maio de 1714.

Massé foi um dos vários engenheiros que Lisboa nos enviou durante o século XVIII, com carta patente de Dom João V de 17 de junho de 1712 e encarregado de “fazer examinar e reparar as fortificações... e fazer as mais que forem necessárias para a defesa e conservação” da Cidade.

Nesta Planta vê-se nitidamente que a última rua cordeada [=alinhada] paralelamente ao mar era a dos Ourives [mutilada pela abertura da Av. Central e depois da Av. Pres. Vargas, correspondia às atuais Rua Rodrigo Silva e Rua Miguel Couto]; além só havia a Igreja do Rosário e uma ou outra casa. O morro de Santo Antônio estava como que isolado da cidade propriamente dita.

(Texto extraído de Raymundo de Castro Maya, A muito leal e heroica cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro, edição fac-símile de 2015, pag. 28  a edição original, hoje rara, foi de 1965. A planta original encontra-se no Arquivo Histórico Ultramarino de Lisboa.)


LEGENDA DA PLANTA, na ortografia atual, com explanações entre colchetes extraídas do artigo de Gilberto Ferrez, João Massé e sua Planta do Rio de Janeiro de 1713, publicado no Jornal do Brasil de 7 de setembro de 1958 e republicado na revista do IHGB, no 242, acessível no site do Instituto:



A - Fortaleza de S. Sebastião com suas obras feitas de novo, e dessinadas [projetadas, possível galicismo derivado de dessiné]

B - Baluarte dessinado no sítio em que está a Sé, com sua Linha de Comunicação [projeto,  não executado, de um baluarte ao Forte de São Sebastião por uma linha de comunicações protegida por muralhas, que tornaria o sistema defensivo esparso seiscentista do Castelo num conjunto fortificado mais poderoso]

C - O Colégio com sua cerca e ladeiras [colégio e igreja dos jesuítas com sua cerca e as duas ladeiras que lhe davam acesso rápido]

D - A Misericórdia [hospital e igreja]

E - Fortaleza antiga de Sto. Iago [velho forte de S. Tiago, mais tarde do Calabouço, que existiu junto ao atual Museu Histórico Nacional, e cujos últimos vestígios foram demolidos na década de 1950]

F - Cais dessinado [projeto de um cais ao longo de toda a marinha desde o Calabouço até São Bento, realizado em parte]

G - Armazéns del Rey / H - Casa da Moeda [todo este terreno ocupava o espaço e local exato da futura Casa dos Governadores, mais tarde Paço Real e Imperial]

I - Convento do Carmo [área ocupada pelo convento, cerca e igreja do Carmo]

L - Casas do Governador  e Alfândega [na Rua Direita, atual Primeiro de Março. A primeira com a mudança para o Largo do Carmo, transformar-se-ia em Casa dos Contos, sendo o seu local o do atual CCBB]

M - Convento de São Bento, com sua cerca e ladeira

N - Armazéns da Junta [armazéns da Junta do Comércio da Companhia Geral, criada em 1649, e que tinha o odioso monopólio do comércio entre o Brasil e Portugal]

O - Bateria da Prainha que deve ser reparada [pequena bateria que ficava na atual Praça Mauá]

P - Trapiche dos Terceiros [vasto trapiche no sopé do Morro da Conceição, pertencente à Ordem Terceira de São Francisco]

Q - Fortaleza da Conceição com suas comunicações ao mar, e o muro da Cidade

R - Casas do Bispo, com suas plataformas por diante [Palácio Episcopal, atual Serviço Geográfico do Exército]

SSS - Muro da Cidade [famoso projeto da muralha, fechando por completo a cidade, correndo do morro da Conceição ao do Castelo; as obras foram logo iniciadas, mas depois abandonadas, por suas deficiências e por impedir o crescimento normal da cidade]

T - Convento de Santo Antônio com sua cerca e ladeira, e uma obra dessinada na coroa do seu monte [projeto de um forte que também não se concretizou no cume do Morro de Santo Antônio]

V. - A Ilha das Cobras com suas fortificações dessinadas, e sua ponte de comunicação [projeto de remodelação da fortaleza da Ilha das Cobras]

X - Linha pontuada que mostra outro sítio, onde se pode atar o muro, se se quiser incluir os quartéis dentre dele [indicação de onde poder-se-ia construir uma muralha fechando a cidade desde o morro do Castelo até o mar; projeto de muralha não executado]

Afora as igrejas e conventos já mencionados, estão assinaladas por uma cruz as seguintes: São José, Cruz dos Militares, Candelária, Rosário, Nossa Senhora do Parto e, fora dos muros, de São Domingos.



ANEXO 1: Trecho do livro O Rio de Janeiro setecentista, do historiador Nireu Cavalcanti, sobre a vinda do engenheiro militar João Massé para reforçar a segurança do Rio (págs. 47-8):

Além dos prejuízos materiais, financeiros, documentais e humanos que causaram, as duas invasões francesas tornaram evidentes a vulnerabilidade do sistema de defesa da cidade, no qual haviam sido investidos durante 150 anos grandes somas de recursos públicos e de contribuições recolhidas ao longo de diversas gerações. Questionou-se também a capacidade técnica dos engenheiros e estrategistas militares portugueses com relação ao domínio da ciência das fortificações. Aquele foi um momento importante para a administração pública rever as estratégias e detectar as causas do fracasso do sistema de defesa do Rio de Janeiro.

Após amplo debate sobre essa questão no Conselho Ultramarino, e dos pareceres de notáveis engenheiros portugueses [...] o rei decidiu enviar à cidade um especialista em fortificações, o engenheiro militar João Massé (técnico francês que servia a Portugal), para uma análise mais apurada da situação. Vinha ele com a incumbência de avaliar problemas, propor alterações e sobretudo projetar uma muralha de pedra capaz de proteger a cidade de ataques vindos do interior continental.

Acompanhando o novo Governador nomeado, [...] João Massé chegou à cidade em 1713, encontrando a guarnecida com 15 fortificações: Santa Cruz, São João, São Thiago, São Sebastião, da Praia Vermelha, Villegaignon, da Praia do Saco, de Nossa Senhora da Boa Viagem, da Ilha das Cobras, da Laje, reduto da Prainha, de São Bento, da Conceição, da praia de Santa Luzia e de Gragoatá.

Tendo aprovado no geral a distribuição dessas fortificações, o engenheiro francês propôs reformar algumas e aumentar a potência das baterias de outras, principalmente as de Santa Cruz, São João e Ilha das Cobras, porta de entrada da baía de Guanabara. Com o intuito de revigorar a defesa, projetou mais uma fortaleza, a se construir na pequena ilha de pedra chamada de Laje que dividia a entrada da barra em dois canais, além da muralha para proteger a retaguarda da Cidade.

A Fortaleza da Laje era uma proposta antiga que dividia as opiniões dos técnicos. Os críticos argumentavam que os custos das obras não compensavam os benefícios, porque as fortalezas de Santa Cruz e São João já guarneciam a entrada da Bahia. Tais argumentos haviam levado a coroa a protelar sua edificação. Todavia, com invasão de Duguay-Trouin, a posição hesitante do governo mudou a favor da imediata construção.
[...]
A proposta de construção de uma nova muralha cercando a cidade para defendê-la representava uma volta às suas origens, quando foi concebida como praça de fortificação, localizada primeiramente na região da Urca e, mais tarde, no Morro do Castelo.

ANEXO 2: Explicação sobre a muralha projetada, mas nunca concluída, do artigo já citado de Gilberto Ferrez. A revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro onde esse artigo foi publicado (pág. 388) também pode ser acessada e feito o download aqui:

S.S.S.  É o famoso projeto da muralha, fechando por completo a cidade pela parte do sertão, correndo do Morro da Conceição ao do Castelo. 

Esta muralha principiando no Morro da Conceição, próximo à ladeira do Bispo (Rua Major Daemon), cortaria terrenos então quase desabitados, passando por trás da ermida do Rosário, seguindo, em linhas gerais, um traçado paralelo ao que dentro de alguns anos seria a Rua da Vala (Uruguaiana), atravessaria o futuro largo da Carioca atingindo a encosta do Castelo, depois de ladear a igreja de N. Sra. do Parto e cruzar o caminho da Ajuda (Rua Chile).

As obras foram logo iniciadas, pois, em 1718, o Governador Antônio de Brito de Menezes dava conta do estado das mesmas [...]. 

A planta mostra detalhadamente todo esse grande projeto que depois foi abandonado por suas deficiências e por impedir o crescimento normal da cidade.

Nessa área, além da igreja mencionada, só está assinalada uma dezena de casas.


1.3.18

DOCUMENTO HISTÓRICO: CARTA DO PADRE ANCHIETA SOBRE A FUNDAÇÃO DO RIO DE JANEIRO


Esta carta é importante por diversos motivos. Primeiro, trata-se do único documento hoje existente de uma testemunha ocular da fundação do Rio. Segundo, é um dos dois documentos (ambos de Anchieta) que permitiram a Capistrano de Abreu fixar a data de fundação da cidade em 1o de março. Terceiro, nele vemos que a denominação São Sebastião foi adotada desde os primórdios da cidade, e não depois de vencida a batalha contra os franceses no dia de São Sebastião em 1567, como lemos em algumas fontes. Quarto, porque mostra (como também mostram outros documentos e mapas) que, seis décadas após a viagem de exploração de Gaspar de Lemos, em que a baía da Guanabara teria sido confundida com um rio, esta continuava sendo chamada de Rio de Janeiro (ou “boca do Rio de Janeiro” como lemos na carta de Anchieta, ou mesmo Rio da Guanabara como vemos em mapas franceses), ou seja, àquela altura aparentemente ainda se acreditava que fosse a desembocadura de um rio. Finalmente, mostra o incrível heroísmo dos fundadores de nossa cidade, enfrentando o oceano, a fome, a sede e os inimigos franceses e tamoios, sempre confiando na providência divina.

Imagem de Anchieta na Igreja de São Lourenço dos Índios (Niterói)

CARTA DO PADRE ANCHIETA AO PADRE DIOGO MIRÃO, DE 9 DE JULHO DE 1565, NARRANDO A FUNDAÇÃO DE SÃO SEBASTIÃO DO RIO DE JANEIRO (FONTE: CARTAS, INFORMAÇÕES, FRAGMENTOS HISTÓRICOS E SERMÕES do Padre Joseph de Anchieta, S.J. (1554-1594), Editora Civilização Brasileira, 1933)

De São Vicente se escreveu largamente o que aconteceu à armada, que da cidade do Salvador foi povoar o Rio de Janeiro este ano passado de 1564; partiu no fim do ano de 1564 (1), agora darei conta do que mais sucedeu.

Depois de passar muito tempo (2) em se reformar a armada de cordas, amarras e outras cousas necessárias, e esperar pelo gentio dos Tupinanquins, com os quais se fizeram pazes, indo duas vezes em navios às suas povoações a os chamar, para darem ajuda contra os Tamoios do Rio, os quais prometendo de vir, não vieram senão mui tarde e poucos, e tornaram-se logo de São Vicente, sem quererem com os nossos vir ao Rio, a qual foi a principal causa de muita detença que a armada fez em São Vicente; e, finalmente, depois de haver muitas contradições, assim dos povos de São Vicente, como dos capitães e gente da armada, aos quais parecia impossível povoar-se o Rio de Janeiro com tão pouca gente e mantimentos, o capitão-mor Estácio de Sá e o ouvidor geral Braz Fragoso, que sempre resistiram a todos estes encontros e contradições, determinaram de levar ao cabo esta empresa que tinham começado. E confiados na bondade e poder divino assentaram que se ficasse o ouvidor geral em São Vicente, fazendo consertar o galeão e a nau francesa [tomada no Rio de Janeiro], que se achavam comidos de busanos, e não estavam para poder navegar, e depois se viria com socorro ao Rio, e que o capitão-mor se passasse logo em sua nau capitânia e alguns navios pequenos e canoas a começar a povoação.

Mapa da França Antártica mostrando que na década de 1550 ainda se acreditava que a Baía da Guanabara fosse a desembocadura de um rio. A baía é chamada de La Rivière de Ganabara autrement Rio Janeiro, e no fundo da baía desembocam dois rios com as designações "Rivière d'eau douce", rio de água doce (a baía sendo assim o "rio de água salgada"). Fonte: Maurício de Almeida Abreu, Geografia Histórica do Rio de Janeiro.

Partiu o capitão-mor só em sua nau aos 22 de Janeiro de 1565, e no mesmo dia veio ter à ilha de São Sebastião, que está 12 ou 13 léguas de São Vicente, onde esteve esperando pelos navios pequenos que se ficaram aviando, os quais partiram de Bertioga a 27 do mês [20 de janeiro segundo outra fonte], e ao seguinte dia vieram com a capitânia; os navios pequenos eram cinco somente, e os três deles de remos, e com eles vieram oito canoas (3), as quais traziam a seu cargo os Mamalucos de São Vicente, com alguns Índios do Espírito Santo, que o ano passado haviam ido com o capitão-mor, e alguns outros de São Vicente dos nossos discípulos cristãos de Piratininga, de maneira que toda a gente, assim dos navios como das canoas, poderiam chegar até 200 homens, que era bem pouco para se poder povoar o Rio, ao que se ajuntava o pouco mantimento que traziam, que se dizia poder durar 2 ou 3 meses; com tudo isto, como digo, chegamos à Ilha de São Sebastião onde já estava o capitão-mor, e aí dissemos missa, e se confessou e comungou alguma gente; e como comumente vinham com grande alegria e fervor confiados que com aquela pouca força e poder que traziam haviam de povoar, ajudados do braço divino, e que não lhes havia de faltar o mantimento nesta ilha, ordenou o capitão-mor que os navios de remos acompanhassem as canoas que daí por diante entravam já na terra dos Tamoios e era necessário cada dia pousarem em terra em algumas ilhas, e para virem mais seguras mandou meter gente em sua canoa, que vinha por popa de um navio, dando os seus escravos que a remassem com alguns Mamalucos; e deu-lhe Nosso Senhor tão bom tempo, que sempre os navios de remos chegavam a pousar onde elas estavam, até entrar na Ilha Grande (4), onde estiveram muitos dias esperando pela capitânia, a qual teve muitos ventos contra, até não poder aferrar pano como os navios pequenos, e foi forçada a arribar a uma ilha com a verga do traquete [=mastro de vante de navio veleiro] quebrado, e rendido o mastro grande.

Os Mamalucos e Índios enfadados de esperar tanto tempo pela capitânia, e forçados da fome, que quase já não tinham mantimentos, determinaram de o ir buscar a uma aldeia de Tamoios, que estava daí a 2 ou 3 léguas, e ajudou-os Cristo Nosso Senhor, que chegaram à aldeia e queimaram-a, matando um contrário, e tomando um menino vivo, e toda a mais gente se acolheu pelos matos; e com esta vitória alegres se mudaram todos ao outro porto da mesma Ilha Grande, onde tinham muita abundância de peixe e carne; a saber, bugios, cotias, caça do mato, e aí dissemos também muitas vezes missa, e se confessou e comungou muita gente, aparelhando-se para a guerra a que esperavam no Rio de Janeiro; porém ainda que muito trabalhamos nós pela nossa parte, e os capitães dos navios pela sua, não pudemos acabar com os Índios que esperassem pelo capitão-mor, como ele tinha ordenado, antes apartando-se dos navios se vieram para dentro de uma ilha chamada Marambaia, por entre aldeias dos Tamoios, caminho do Rio de Janeiro; e porque eram poucos e vinham em grande perigo, pareceu bem se viessem os Mamalucos após eles, e que todos eles juntos esperassem pelos navios numas ilhas que estão uma légua fora da boca do rio, às quais eles chegaram sem nenhum encontro de Tamoios, ou outro perigo algum (5).

Os navios ficaram esperando pela capitânia cinco ou seis dias, e por derradeiro parecendo-lhes que seria já passada de mar em fora, e temendo o perigo das canoas, partiram-se uma madrugada (6); e saindo pela boca da ilha viram a capitânia que esta noite havia entrado; e assim todos juntos, com muita alegria, começaram com próspero vento a ter vista das ilhas onde as canoas estavam esperando; mas não quis Nosso Senhor que chegassem aquele dia, antes acalmando o vento, e vindo depois outro contrário, junto com as grandes correntes das águas, tomou a capitânia a Ilha Grande, e no caminho esteve em grande perigo de se perder sobre a amarra em uma baixa (7). Os outros navios andaram com muito trabalho, ora a vela, ora a remos, dois ou três dias, para poderem tomar as ilhas (8), e acudir às canoas, que bem adivinhavam seriam tomadas dos contrários, ou tornadas para São Vicente, ou mui perto disso, como em verdade o estavam; porque havendo já seis ou sete dias que estavam esperando, faltando-lhes já o mantimento, comiam somente palmitos e peixes, e bebiam duma pouca água, de que todos estavam debilitados, e alguns doentes de câmaras [=diarreia]; e perdendo já a esperança dos navios chegarem tão cedo, determinaram de partir cada um para sua terra, a saber: os Índios do Espírito Santo com três canoas para a sua, e os Mamalucos com os Tupinanquins para São Vicente. E estando já assentados de efetuar esta sua determinação, viram um dos navios, que a força de braços e remos vinham já perto das ilhas, com cuja vista se alegraram, e esperaram alguns dois dias mais, até que chegaram quatro, que foi aos 27 de Fevereiro; e porque nestas ilhas não havia mais que uma pouca dágua, e a gente era muita; e as secas grandes, acabou-se e não havia mais que para beber um dia. Mas o Senhor, que tomou esta obra a seu cargo, mandou tanta chuva o dia que os navios ali chegaram, que se encheu o poço, e abastou a todos em quanto ali estiveram; e por nos mostrar que um particular cuidado tinha por nós, permitiu que a capitânia com outro navio que haviam arribado não viessem tão cedo, como todos queríamos, donde nasceu tornarem-se a amotinar não somente os Índios e Mamalucos, mas também alguns dos capitães dos navios querendo entrar dentro do rio, contra o regimento que o capitão-mor tinha dado, e tomavam por achaque, principalmente os Índios, não terem que comer, e que dentro do rio, com os combates que esperavam ter dos Tamoios, sofreriam melhor a fome; e começariam a roçar e cercar o lugar onde estava assentado que se havia de fundar a povoação.

Houve muito trabalho em os aquietar (9), porque em verdade o porto em que estávamos era mui perigoso, os navios não tinham breu, e faziam tanta água que era necessário grande parte do dia dar à bomba; os Índios não tinham que comer; os Portugueses não tinham para lho dar; porque havia quase um mês que com os partidos todos andavam fracos, e muitos doentes; finalmente determinaram os Índios de não esperar mais que um dia, e se a capitânia não chegasse, ou se meterem dentro do rio, ou se irem para suas terras, o que fora causa de grande desconsolação. Neste trabalho acudiu a Divina Providência, que logo aquele mesmo dia vimos três navios, que iam de cá da Baía com socorro, de mantimento, que era o de que a armada tinha maior necessidade; e ao seguinte (10), chegou a capitânia e outro navio, e assim todos juntos, em uma mesma maré, com grande alegria entramos pela boca do Rio de Janeiro, começando já os homens de ter maior fé e confiança em Deus, que em tal tempo socorrera as suas necessidades.

Logo ao seguinte dia, que foi o último de Fevereiro, ou primeiro de Março, começaram a roçar em terra com grande fervor e cortar madeira para a cerca (11), sem querer saber dos Tamoios nem dos Franceses, mas como quem entrava em sua terra, se foi logo o capitão-mor a dormir em terra, e dando ânimo aos outros para fazer o mesmo, ocupando-se cada um em fazer o que lhe era ordenado por ele, a saber: cortar madeira, e acarretá-la aos ombros, terra, pedra, e outras cousas necessárias para a cerca, sem haver nenhum que a isso repugnasse; desde o capitão-mor até o mais pequeno todos andavam e se ocupavam em semelhantes trabalhos; e porque naquele lugar não havia mais que uma légua de ruim água, e esta era pouca, o dia que entramos choveu tanto que se encheu, e rebentaram fontes em algumas partes, de que bebeu todo o exercito em abundância, e durou até que se achou água boa num poço, que logo se fez ; e como esta esteve em termos de se poder beber, secou-se de todo a lagoa, e além disto se achou uma fontezinha num penedo d'água muito boa, com que todos se alegraram muito, e se vão firmando mais na vontade que traziam de levar aquela obra ao cabo, vendo-se tão particularmente favorecidos da Divina Providencia.

Os Tamoios começaram logo a fazer ciladas por terra e por mar; mas os nossos não curavam senão de cercar-se e fortalecer-se, parecendo-lhes que não faziam pouco em defender dentro da cerca; mas Nosso Senhor, não querendo que se contentassem com isso, permitiu que aos 6 de Março viessem quatro canoas dos Tamoios, e fazendo uma cilada junto da cerca tomassem um Índio, que se desmandou, e indo já muito longe com sua presa deitaram os nossos as suas canoas ao mar, perseguiram os inimigos, e os fizeram saltar em terra e fugir pelos matos, deixando as canoas, arcos, flechas, espadas, e quanto nelas tinham, e o Índio, que escassamente tiveram tempo para os matar; os nossos os perseguiram pelo mato um bom pedaço, e não os podendo alcançar se tornaram trazendo-lhes as canoas e suas armas, que haviam deixado, e que foi um grande triunfo para os nossos cobrarem ânimo, e os tamoios enfraquecerem e temerem; assim daí por diante não ousavam aparecer senão de longe, e muitas canoas juntas.

Mapa de Luiz Teixeira de cerca de 1574 que permitiu que se determinasse o lugar exato onde a cidade foi fundada, antes objeto de polêmica. Observe que a Cidade Velha situa-se exatamente entre os morros Pao de Sucar e Cara de Cam! Fonte: Maurício de Almeida Abreu, Geografia Histórica do Rio de Janeiro, livro fundamental para quem quer se aprofundar nos estudos cariocas.

A 10 de Março vimos uma nau francesa, que estava légua e meia da povoação dentro do rio; e ao outro dia (12) foi o capitão-mor sobre ela com quatro navios, deixando na cerca a gente que parecia necessária, que ainda não era acabada; e sendo já junto dela, e começando a atirar de sua parte e doutra, os Tamoios, que aquela cilada tinham assim ordenado, saíram detrás de uma ponta em quarenta e oito canoas cheias de gente, e arremeteram com a cerca com tão grande ímpeto, e não havendo nela baluarte nem casa alguma feita em que se pudesse a gente recolher. Ajudou-nos Nosso Senhor, de maneira que andando no meio do terreiro descobertos, e chovendo flechas sobre eles, não os feriram, antes mataram alguns dos inimigos, e feriram muitos; e não contentes com isso arremeteram com eles fora da cerca, e os fizeram fugir e embarcar em suas canoas bem desbaratados. E esta vitória, a que se houve da nau francesa, a qual se entregou sem guerra aos nossos, e foi desta maneira que vendo vir o capitão-mor as quarenta e oito canoas sobre a cerca, meteu-se em um navio de remos por lhes ir acudir, deixando mandado aos outros capitães dos outros navios que ficassem em guarda da nau até pela manhã, que tornasse, ou se lhe mandasse recado; esta noite houveram falas dos Franceses, e falando-lhes um seu parente, que estava num dos navios, e dizendo-lhes que cedessem sem guerra, que o fariam de misericórdia com eles, mostraram folgar muito, e disseram que eram uns pobres mercadores que vinham ganhar sua vida, e que estavam já de caminho, levavam alguns Franceses dos que estavam em terra para França; que deixando-os ir se fiariam deles os outros que ficavam em terra. E porque eles tinham dado uma regueira em terra, e tinham consigo trinta canoas de Tamoios para despejar a nau, se se vissem em pressa, e queimá-la com dois barris de pólvora que tinham desfundados no convés com seus morrões, e eles acolheram-se à terra; porque não fosse o derradeiro erro pior que o primeiro do ano passado, que se fez em tomar outra nau, e deixar mais Franceses em terra; pareceu bem aos capitães, porque havia perigo na tardança de mandar recado ao capitão-mor, dar-lhes segurança, e prometer-lhes que eles alcançariam do capitão-mor que lho confirmasse e houvesse por bem, e com isto se entregaram e se vieram, porém ficando os Tamoios espantados de saber como se fiavam dos Portugueses; mas os Franceses, que estavam já na nau, e se iam para a França com os seus, temendo que lhes não cumprissem o que prometiam, vendo chegar os nossos navios a ela, lançaram-se ao mar, e a nado: fugiram à terra, à vista dos nossos sem se seguir trás deles. O capitão-mor e todos tiveram isto por grande mercê do Senhor, por ser este grande caminho para se desarreigarem do Rio de Janeiro os Luteranos que nele ficam, que serão até trinta homens, repartidos em diversas aldeias, e todos homens baixos, que vivem com os Índios selvagens, e determinou de cumprir o que seus capitães tinham prometido, ainda que teve algumas contradições de homens, que mais olham seu próprio interesse que o bem comum; mas sendo a maior parte de parecer que os devia deixar ir em paz, e que daquela maneira se fazia maior serviço a Deus e a Sua Alteza, e era caminho para mais facilmente se povoar e sustentar o Rio de Janeiro, lhes deu licença que se fossem, tomando-lhes a pólvora e a artilharia que era necessária para a cerca, deixando eles escrito aos seus que se fiassem de nós, e se saíssem dentre os selvagens, e se lançassem conosco, contando-lhes o bom tratamento que dos nossos haviam recebido; estes desta nau eram católicos, segundo as mostras que traziam, a saber: horas de Nossa Senhora, sinais, contas, e cruzes. Pelo que é de crer que lhes fez o Senhor esta misericórdia, porque não ficassem em terra, e se viessem com os outros, e aos nossos dessem grandíssima opressão favorecendo os Tamoios: determinava o capitão-mor à minha partida de lá, que foi o derradeiro de Março, a falar com os Franceses, levando-lhes um seguro real de Sua Alteza, e a carta de seus parentes para poder apartá-los dentre os Tamoios para que esses não sujeitem os Índios e em pouca força na costa do Brasil, se não vem socorro de Sua Altesa, pelo qual todos estão esperando.

Antes que a nau francesa se partisse, fizeram os Tamoios outra cilada de vinte e sete canoas (13), aos quais ela tirou muitos e bons tiros, o que também será a ajuda para eles lhes darem' pouco credito e amor, e facilmente fazerem pazes com os Portugueses, se forem deste Reino favorecidos, e assim ficar são o Rio; e estas traziam nove ou dez e meteram esses nossos mão com tanto pulso que foi flechada a gente de seis aldeias que se fez em terra para os defender, e alguns dos nossos saíram após eles, e houve uma brava peleja, em que foram feridos dez ou doze dos nossos, e alguns de flechadas mui perigosas, as quais pela misericórdia de Deus facilmente sararam; mas dos contrários foram muitos os feridos, os quais os nossos viam levar a rasto pela praia, e meter nas canoas, e assim os foram perseguindo por mar e por terra, quase até meio caminho de suas aldeias, e tomaram-lhes uma canoa, e tornaram-se com grande vitória: gloria seja ao Senhor!

Ao derradeiro dia de Março parti do Rio de Janeiro para esta cidade, por mando da santa obediência (14), com um homem tomado da Capitania de Ilhéus, chamado João D’Andrade, o qual havia sido chamado de São Vicente pelo capitão-mor a buscar mantimentos a estas capitanias, e por sua boa indústria e diligência chegou ele, como acima digo, no mesmo dia e maré que a armada chegou de São Vicente, e de caminho levou cinco homens brancos, que resgatou dentre os Tamoios aquém do Cabo-Frio, os quais se haviam perdido em um navio que antes de João D’Andrade fora mandado a buscar mantimentos; e depois de estar no Rio todo este tempo, e achando-se nos combates que tenho referido, o tornou o capitão-mor, por se fiar de sua diligência, a mandar a negociar mais mantimento, porque a falta dele é que lhes faz uma maior guerra.

Já á minha partida tinham feito muitas roças em derredor da cerca, plantados alguns legumes e inhames, e determinavam de ir a algumas roças dos Tamoios a buscar alguma mandioca para comer, e a rama dela para plantar; tinham já feito um baluarte mui forte de taipa de pilão com muita artilharia dentro, com quatro ou cinco guaritas de madeira e taipa de mão, todas cobertas de telha que trouxe de São Vicente, e faziam-se outras e outros baluartes, e os Índios e Mamalucos faziam já suas casas de madeira e barro, cobertas com umas palmas feitas e cavadas como calhas e telhas, que é grande defensão contra o fogo. Os Tamoios andavam se ajuntando para dar grande combate na cerca (15); já havia dentro do Rio oitenta canoas, e parece-me que se ajuntariam perto de duzentas, porque de toda a terra haviam de concorrer à ilha, e dizia-se que fariam grandes mantas de madeira para se defenderem da artilharia e balroarem [=abalroarem] a cerca; mas os nossos tinham já grande desejo de chegar àquela hora, porque desejavam e esperavam fazer grandes cousas pela honra de Deus e do seu rei, e lançar daquela terra os Calvinos, e abrir alguma porta para a palavra de Deus entrar os Tamoios: todos viviam com muita paz e concórdia; ficava com eles o Padre Gonçalo d'Oliveira, que lhes dizia cada dia missa, e confessava e comungava a muitos para a glória do Senhor.

O maior inconveniente que ali havia, ultra da fome, é que estão lá muitos homens de todas as capitanias, os quais passa de ano que lá andam, e desejam ir-se para suas casas (como é razão): se os não deixam ir perdem-se suas fazendas, e se os deixam ir fica a povoação desamparada, e com grande perigo de serem comidos os que lá ficarem, de maneira que por todas as partes há grandes perigos e trabalhos, e se não fosse o capitão-mor amigo de Deus e afável, que nunca descansa de noite e de dia, acudindo a uns e a outros sendo o primeiro nos trabalhos, e terem todos grande e certa confiança que Sua Alteza proverá, tanto que souber estar já feito pé no Rio de Janeiro, que tão temeroso era, ainda lá nessas partes tão remotas; e que se agora se não leva ao cabo esta obra, e se abre mão dela, tarde ou nunca se tornará a cometer; já creio que houveram rebentados muitos e desamparados quase todos, máxime [=principalmente] tendo novas que deram aqueles homens que saíram do cativeiro dentro os Tamoios, os quais souberam de uma nau francesa, que ali estava, que estava o sobrinho de Villegaignon (16), capitão que foi da antiga fortaleza, para vir ao Rio de Janeiro e São Vicente com uma grossa armada; a cerca que tem feita não é mais que um pé a tomar posse da terra, sem se poder dilatar nem sair dela sem socorro de Sua Alteza, a quem Vossa Reverendíssima deve lembrar e incitar que logo proveja, porque ainda que é cousa pequena a que se tem feito, contudo é maior, e basta-lhe chamar-se cidade de São Sebastião para ser favorecida do Senhor, e merecimentos do glorioso mártir; e acrescentada de Sua Alteza que lhe tem tanta devoção e obrigação (17). Esta é a breve informação do Rio de Janeiro; resta pedir a Vossa Reverendíssima nos encomende e faça encomendar muito a Nosso Senhor, e tenha particular memória dos que residem e ao diante residirão naquela nova povoação, oferecidos a tantos perigos, da qual se espera haver de nascer muito fruto para glória do Senhor e salvação das almas.

Desta cidade do Salvador da Baía de Todos os Santos, aos 9 de Julho de 1565,

Minimus Societatis Jesu.


NOTAS

(1) Deve ser erro de cópia. A armada de Estacio de Sá chegou à barra do Rio de Janeiro em fevereiro de 1564, havendo partido da Baía em princípios desse ano. Como porém aportou no Espírito Santo, onde recebeu numeroso socorro e portanto se demorou, é possível que a partida da Baía se desse em fins de 1563, sendo essa a data escrita por Anchieta. A chegada ao Rio em fevereiro de 1564 é confirmada por B. da Silva Lisboa (Anais, cap. 8), que precisa o dia: 6.
(2) A armada partiu do Rio de Janeiro para São Vicente depois da Páscoa (2 de abril) de 1564.
S. de Vase. (o. c , 1. 3, n. 63-4).
(3) Compunha-se a armada, segundo S. de Vasc., de "seis navios de guerra, alguns barcos ligeiros e nove canoas de mestiços e Índios".
(4) Segundo presume Capistrano, a partida de São Sebastião se deu a 1 de fevereiro e a chegada á Ilha Grande a 4 ou 5.
(5) Segundo Capistrano, a 10 de fevereiro.
(6) A partida da Ilha Grande foi a 15 de fevereiro segundo Capistrano.
(7) Passou-se isso a 16 de fevereiro segundo Capistrano.
(8) Os navios juntaram-se ás canoas nas ilhas fora da baía a 21 de fevereiro, segundo supõe Capistrano.
(9) Foi então que se deu o "caso digno de memória" de que fala S. de Vasconcelos. Para conter os Índios "lhes empenhou Joseph [José de Anchieta] sua palavra", afirmando "que antes que o sol chegasse a tal parte do céu, mostrando-lha, chegariam sem dúvida os mantimentos, e após eles pouco depois a nau capitânia", o que de fato se deu.
(10) A 28 de fevereiro.
(11) Os portugueses se fortificaram "com trincheiras e fossos, no lugar onde depois chamaram Vila Velha, junto a um penedo altíssimo, que pela forma se diz Pão de Açúcar, e outra penedia, que por outro lado cercava, com que ficavam em parte defendidos" (S. de Vasc.). Quase textualmente é também o que diz frei Bernardo da Cruz, na Crônica de D. Sebastião, p. 351, escrita em 1586 mas só publicada em 1837.
(12) A tomada da nau foi a 13 de março, segundo Varnhagen, ou nesse ou no dia anterior, conforme Capistrano.
(13) Foi esta cilada a 10 de março, segundo S. de Vasconcelos, combatendo os portugueses em "dez canoas com duas lanchas de remo".
(14) Anchieta seguiu para a Baía a fim de ser aí ordenado pelo bispo d. Pedro Leitão. Ao passar pelo Espírito Santo, visitou a casa da Companhia e as aldeias indígenas, a mandado de Nobrega. Este partiu logo de São Vicente para o Rio de Janeiro com alguns companheiros. Na Baía Anchieta fez ver a Mem de Sá a necessidade de enviar nova armada ao Rio de Janeiro para consolidar a conquista, armada que partiu da cidade do Salvador em novembro de 1566, nela embarcando o canarino em companhia do governador, provincial Luiz da Grã, visitador Inácio de Azevedo e bispo d. Pedro Leitão. A chegada ao Rio foi a 18 de janeiro de 1567.
(15) O ataque, de que Anchieta só chegou a presenciar os preparativos, se deu nos primeiros dias de junho, feito por 3 naus francesas e 130 canoas tamoias.
(16) Bois-le-Comte se achava na Europa por esse tempo.
(17) D. Sebastião, que reinaria ainda durante treze anos.

13.2.18

CARNAVAIS DE OUTRORA, de MANUEL BANDEIRA (1938)

Carnaval de rua no início do séc. XX. Foto obtida na Biblioteca Nacional Digital.

Conheci ainda o carnaval do papel-picado, dos limões-de-cheiro e do Zé-Pereira. O carnaval do Recife, na Rua da União, entre 1892 e 1896. O Zé Pereira 

Bum! Bum! Bum!
Bum! Bum-bum-bum!
Zé-Pereira!

era o baixo-contínuo que alimentava, sustentava toda a dissonante polifonia carnavalesca. Em casa de meu avô, nas casas da vizinhança, muito antes dos dias gordos, compravam-se as grandes folhas de papel de seda, brancas, verdes, azuis, cor-de-rosa, e durante semanas as tesouras trabalhavam picando papel em minúsculos quadradinhos. Eu ainda não tinha dez anos, mas já achava insensato levar horas preparando um punhado de papel picado que se iria embora pelos ares num gesto de mão que durava um segundo. Assisti ao aparecimento dos primeiros confetti, que me deslumbraram, das primeiras bisnagas, que eram como as de pasta dental atuais, das primeiras serpentinas. Das fantasias, a que mais me impressionava eram os dominós negros, as que me pareciam mais estranhas, mais misteriosas, mais poéticas.

Em 96 vim para o Rio e conheci o carnaval carioca, tão diferente do de hoje. Impossível dizer dele o que mestre Machado de Assis disse do Natal. O centro da cidade não era então a avenida Rio Branco; era uma das ruas mais estreitas e mais curtas da cidade, e também a mais elegante – a Rua do Ouvidor. Imagine-se toda a população da cidade querendo brincar na Rua do Ouvidor! O momento capital do desfile das grandes sociedades era na Rua do Ouvidor. As mais belas senhoras da cidade estavam nas sacadas.

Depois adoeci e durante anos, muitos anos, não vi senão os carnavais das cidadezinhas do interior. No Rio abriu-se a Avenida. A Rua do Ouvidor foi perdendo o seu prestígio. Quando voltei a ver o carnaval carioca, já era ele como o descreve Mário de Andrade no seu grande poema, que é de 1923:

... sangue ardendo povo chiba frêmito e clangor
Risadas e danças
Batuques maxixes
Jeitos de micos piricicas
Ditos pesados, graça popular
Coros luzes serpentinas
Coriscos coros caras colos braços serpentinas serpentinas
Sambas bumbos guizos serpentinas serpentinas


Mário esqueceu-se do éter dos lança-perfumes. Cheirava-se éter à vontade. Havia bebedeiras de éter, sobretudo no bar e no hall do Palace Hotel, o que celebrei devidamente no meu “Rondó do Palace Hotel”:

Deus do céu! que alucinação!
Há uma criatura tão bonita,
Que até os olhos parecem nus:
Nossa Senhora da Prostituição!
– “Garçom, cinco Martinis! Os
Adolescentes cheiram éter
No hall do Palace.

Depois... Depois o carnaval carioca passou a ter fama internacional. Criou-se um Departamento de Turismo, que começou a fazer propaganda do nosso carnaval. Instituíram-se prêmios. Não sei por que, se por isto ou por aquilo, ou por coisa nenhuma, a festa entrou a murchar, e o certo é que o carnaval verdadeiro, o carnaval de rua só serve hoje para fazer cinema ou tentar uma Rita Hayworth a dar as caras por estas bandas. O carnaval visto por Mário de Andrade em 1923 não existe mais...

1.2.18

TURMAS DE BATE-BOLAS (CLÓVIS) NO CARNAVAL DO RIO DE JANEIRO

O TEXTO ABAIXO É A CONCLUSÃO DE TRAMAS SIMBÓLICAS: A DINÂMICA DOS BATE-BOLAS NO RIO DE JANEIRO DISSERTAÇÃO DE MESTRADO DE ALINE VALADÃO VIEIRA GUALDA PEREIRA. O TEXTO INTEGRAL DA TESE PODE SER ACESSADO AQUI. VÍDEO E FOTOS DO EDITOR DO BLOG & ESPOSA.




Os bate-bolas são personagens característicos do carnaval do Rio de Janeiro. Entretanto, conforme pudemos ver, sua manifestação não tem tanta projeção quanto outras manifestações carnavalescas populares locais, como os desfiles de escolas de samba e os blocos carnavalescos da cidade do Rio de Janeiro, por exemplo.

Apesar de sua visibilidade relativamente pequena num âmbito maior, nos lugares em que as turmas de bate-bolas se manifestam, elas costumam ser extremamente expressivas, principalmente pela sua capacidade de mobilizar o público local, atraindo olhares e gerando as mais diversas expectativas e espécies de comentários.



A manifestação das turmas de bate-bola parece estar em expansão. Ouve-se falar de muitos novos nomes de turmas de bate-bolas surgindo no universo carnavalesco popular do Rio de Janeiro a cada ano; também se percebe a presença dos grupos de bate-bolas em localidades do município – e até mesmo do Estado do Rio de Janeiro – onde, até então, não era comum encontrá-los. Com isso, a manifestação tem alcançado uma visibilidade aparentemente crescente na sociedade em geral.

Apesar destas possíveis evidências de crescimento da manifestação das turmas de bate-bolas no carnaval do Rio de Janeiro contemporâneo, vimos que poucos estudos acadêmicos se voltaram a produzir um conhecimento mais aprofundado sobre a brincadeira, e os poucos que existem limitam-se, na maioria dos casos, a estabelecer descrições baseadas em maneiras generalizadas de brincar de bate-bola.



Percebemos que os textos sobre os bate-bolas tendem a se concentrar em algumas das facetas da brincadeira, que são aquelas que se mostram mais constantes, deixando de abordar e de explicar as diferenças e variações da manifestação. Além disso, vimos que mesmo os aspectos contemplados nos estudos descritivos devem ser aplicados, hoje em dia, cuidadosamente, pois muitos deles mostram-se defasados em relação às novas formas de visualidade e de performance características das manifestações das turmas de bate-bolas da atualidade.

Para entendermos a manifestação das turmas de bate-bolas contemporâneas de uma forma mais totalizante e atualizada, buscamos considerar todo tipo de informação possível sobre ela, de fontes diversas. Assim, além de recorrermos aos estudos acadêmicos pregressos, recorremos também à mídia impressa, à mídia digital, à sociedade em geral (que chamamos de senso comum), aos fantasiados e às pessoas envolvidas direta e indiretamente na realização das brincadeiras dos bate-bolas contemporâneos, de forma a registrarmos e compreendemos as visões correntes em cada um desses meios.



O que percebemos não foi um consenso, mas sim uma coexistência de formas variadas e até mesmo controversas de entendimento da manifestação. Para alguns, a brincadeira contemporânea dos bate-bolas relaciona-se à tradição, mas para outros, à inovação; para alguns, trata-se de uma prática relacionada à marginalidade, mas para outros, é uma forma genuína de arte e de cultura popular; para uns relaciona-se à agressividade e à violência, mas para outros, é brincadeira e diversão; para uns é sinônimo de pobreza e miséria, mas para outros, é sinal de status pelo dispêndio.

Para buscarmos entender o que teria levado a este conflito de visões da atualidade, pesquisamos brevemente o histórico da manifestação dos bate-bolas no Rio de Janeiro. Percebemos que em relação às origens da manifestação também há desencontros, lacunas e controvérsias. Algumas histórias situam o nascimento dos bate-bolas no bairro de Santa Cruz, no município do Rio de Janeiro, na década de 1930. Porém há registros escritos que falam de fantasias similares em épocas anteriores a esta década. Além disso, há quem defenda a história de que os bate-bolas seriam oriundos da zona norte da cidade.



Embora tenhamos levantado algumas questões acerca das narrativas históricas sobre os bate-bolas, sabemos que este é um assunto que merece ser visto com mais atenção, e que necessita de uma pesquisa mais específica, atenta às diferenças terminológicas que denominam a brincadeira e também às influências assimiladas pela manifestação no decorrer do tempo, pois as observações que fizemos se prestaram somente a demonstrar de maneira breve a existência de incoerências e de diferentes interesses subjacentes a cada história de origem que analisamos.

Além das informações teóricas, acompanhamos, registramos e analisamos certas práticas de algumas turmas de bate-bolas por meio de análise etnográfica. Através destes registros, concluímos que as turmas de bate-bolas contemporâneas são grupos que instituem certas identidades, compartilhadas coletivamente. Compreendemos as turmas de bate-bolas como espécies de grupamentos comunitários porque notamos a existência, em níveis diferenciados, de elementos simbólicos de manutenção de identidades coletivas em todas as turmas analisadas, como por exemplo a existência de nome, de emblemas, de lemas, bandeiras, e também, de histórias e ideais, entre outros elementos.



Percebemos que as turmas de bate-bolas contemporâneas empreendem leituras particularizadas do personagem bate-bola, que, no Rio de Janeiro, seria a representação local de uma espécie de arquétipo global de comicidade (que tem sido encontrado representado com feições próprias em diferentes localidades do Brasil e do mundo). Falamos em leituras particularizadas porque não encontramos um padrão rigoroso e estável da manifestação do bate-bola balizando as formulações e reformulações das brincadeiras de cada turma. Ao contrário, presenciamos a existência de repertórios abertos de elementos materiais e performáticos com significados flutuantes, a partir dos quais as turmas elaboraram suas “versões” para a fantasia e para o comportamento dos bate-bolas.

Como forma de ilustrar a multiplicidade e a variabilidade características dos elementos componentes da manifestação das turmas de bate-bolas, expusemos alguns dos elementos materiais e performáticos captados das turmas de bate-bolas observadas no momento da pesquisa. Mostramos que estes elementos são variados, que são opcionais e que são abertos à ressignificação. Mostramos ainda que os repertórios material e performático são dinâmicos e que se alimentam de elementos do cotidiano dos brincantes que, por sua vez, ao serem incorporados à brincadeira dos bate-bolas operam o duplo de adquirirem outras significações e de, ao mesmo tempo, conferirem outras significações à manifestação.



Entretanto, como também tivemos a oportunidade de verificar, as incorporações de elementos à manifestação dos bate-bolas não se dá de maneira completamente livre. Ela se submete à compreensão mais ou menos consensual que se tem da manifestação no universo conceitual compartilhado por todos os bate-bolas. Isto fica claro ao observarmos a classificação das turmas de bate-bolas em “estilos”, que são as categorias criadas pelos brincantes e correntes no universo conceitual da manifestação, e que se estabelecem por meio de identificações / diferenciações entre as turmas.

Um estilo pode ser compreendido como uma articulação de determinados elementos materiais com outros determinados elementos performáticos, associados a certos tipos de comportamentos. Ao relacionarmos uma amostragem dos estilos que identificamos no decorrer da pesquisa, privilegiamos a exibição visual dos elementos materiais a se combinarem para caracterizar cada estilo analisado – através da representação destes elementos no formato de desenho técnico. Elaborando a legenda com os desenhos técnicos, pudemos oferecer uma noção imediata das diferenças materiais de elementos tidos como genéricos – como o macacão, a casaca, a máscara e os adereços de cabeça, mão, pernas e pés –, marcando visualmente as diferenças materiais existentes entre eles. Em seguida, mostramos cada estilo analisado e suas respectivas articulações dos elementos materiais e elementos performáticos, e os tipos de comportamento associados a cada combinação específica.



Demonstramos que o repertório de estilos também não é fechado ou estável, demonstrando que além de se constituir com base em elementos de repertórios abertos e instáveis, um estilo pode também mudar de configuração, novos estilos podem ser constantemente criados, antigos estilos podem ser renomeadas e há estilos que podem deixar de existir. Além disso, mostramos haver a possibilidade das turmas de bate-bolas migrarem entre estilos.

Com isso tudo que se pesquisou e que se observou, não poderíamos deixar de perceber como características marcantes da manifestação das turmas contemporâneas de bate-bolas a capacidade de hibridismo, de dinâmica e de dissenso, reforçadas pela existência de diferentes formas de brincar sob uma designação genérica.



Em dados tipos de abordagem teórica, a dinâmica e o dissenso característicos da manifestação poderiam levar até mesmo a se desqualificar a brincadeira dos bate-bolas enquanto objeto cultural, pois a cultura popular normalmente oscila entre duas concepções clássicas: aquela que entende o popular como sendo o campo de resistência às investidas dos meios massivos, da autonomia simbólica e da perpetuação da tradição através da conservação dos costumes; ou aquela que compreende o popular como o campo da submissão às investidas efêmeras da indústria cultural, da passividade simbólica e da ignorância ou da negação das raízes culturais.

O que vimos na manifestação dos bate-bolas contemporâneos não se enquadra nem em uma nem na outra destas concepções de cultura popular. Para nós, a cultura popular é, ao contrário, o terreno no qual as transformações são operadas. Ela não se expressa nem pela autonomia pura, nem pelo total encapsulamento; nem como algo inteiro e coerente, nem como algo corrompido, mas sim como a tensão entre estas polaridades. E, enquanto tensão, a cultura popular engendra movimento.



Para os Estudos Culturais as impurezas são características inerentes ao objeto cultural, pois um objeto cultural seria estabelecido num processo constante de contatos e influências. A cultura popular seria a arena de disputa simbólica pela definição dos objetos culturais, cujos significados permaneceriam sempre conflituosos e contestados. Por isso, adotamos os Estudos Culturais como campo teórico para subsidiar a análise da manifestação, tal qual ela se apresenta nos dias de hoje, em sua totalidade, e considerando as suas constantes atualizações.

No caso da manifestação das turmas de bate-bolas contemporâneas, as lutas simbólicas nas quais os brincantes estão envolvidos podem ser observadas por dois prismas: pelo da disputa simbólica entre as turmas, na qual está em jogo a definição hegemônica da manifestação das turmas de bate-bolas; e pelo da disputa simbólica sobre a definição dos objetos apropriados do cotidiano e incorporados aos repertórios de bens simbólicos da manifestação.



Quanto às disputas simbólicas entre as turmas, que são as que mais nos interessam, afirmamos serem lutas em processo porque não identificamos a existência de uma definição hegemônica da brincadeira que norteie os caminhos a serem percorridos pelos brincantes, na constituição de sua prática, de uma forma fechada, inequívoca. Também não vimos, na constituição das formas particulares de brincar, uma total liberdade de se autoformularem de maneira muito dissonante em relação ao que se costuma praticar no universo maior da manifestação.

Compreendemos a manifestação dos bate-bolas como um objeto cultural complexo, tenso, disputado, uma espécie de luta onde se lida com adesões e recusas simbólicas. Nesta manifestação, percebe-se que os brincantes ora se submetem às regras alheias, ora determinam regras para o jogo. São agentes culturais em potencial, e sua ação se manifesta por meio do consumo particularizado, ou seja, pelas formas próprias de uso dos bens simbólicos estabelecidos no seio do universo conceitual da manifestação.



Compreendemos, finalmente, que a manifestação dos bate-bolas não deve ser definida em ambiente externo ao universo simbólico da manifestação, pois cabe aos bate-bolas da contemporaneidade decidirem o que é, atualmente, a manifestação das turmas de bate-bolas.

Esperamos, com nossas argumentações, termos contribuído com informações mais atualizadas e abrangentes sobre a manifestação das turmas de bate-bolas, em sua complexidade atual. Esperamos também ter levantado mais uma possibilidade de abordagem do conceito de cultura popular, o que acreditamos ser de extrema relevância nos dias atuais, em virtude da ocorrência de tantas manifestações tidas como fronteiriças, ou impuras, e que estão aguardando por consideração.



Como complemento deste trabalho, em continuidade à análise da manifestação das turmas de bate-bolas contemporâneas em suas interações, acreditamos ser relevante abordar mais detalhadamente a relação da manifestação das turmas de bate-bolas contemporâneas com o contexto social mais amplo, considerando melhor as leituras da manifestação promovidas por agentes culturais externos ao universo simbólico da manifestação das turmas dos bate-bolas.

Acreditamos também que seja relevante realizar uma pesquisa histórica detida naqueles que teriam sido os modelos de comicidade popular sobre os quais a manifestação dos bate-bolas veio se definindo ao longo do tempo e que, ao que parece, possuem raízes bem mais profundas e bem menos lineares do que aquilo que investigamos até aqui.



Vemos as manifestações das turmas de bate-bolas contemporâneas como uma expressão cultural popular extremamente potente e em franca expansão. Acreditamos que as disputas simbólicas acerca da definição do seu conceito perdurarão por muito tempo, e que com isso, nos brindarão com muitos novos espetáculos de fecundidade estética, de criatividade e de talento; afinal, ao contrário de tantas outras brincadeiras carnavalescas que surgiram e desapareceram ao longo dos anos, a brincadeira dos bate-bolas permanece, dando uma prova de que a sua abertura às assimilações do cotidiano tem sido uma garantia de longevidade.

Desejamos que num futuro próximo os bate-bolas venham a ser reconhecidos e valorizados no cenário carnavalesco do Rio de Janeiro mais por sua beleza e por sua expressividade plástica, do que por qualquer espécie de demérito que, porventura, seja associado à sua manifestação, pois entendemos a manifestação das turmas de bate-bolas contemporâneas como uma genuína e inequívoca expressão da cultura e da arte populares.