ENSEADA DE BOTAFOGO

ENSEADA DE BOTAFOGO
"Andar pelo Rio, seja com chuva ou sol abrasador, é sempre um prazer. Observar os recantos quase que escondidos é uma experiência indescritível, principalmente se tratando de uma grande cidade. Conheço várias do Brasil, mas nenhuma tem tanta beleza e tantos segredos a se revelarem a cada esquina com tanta história pra contar através da poesia das ruas!" (Charles Stone)

VISTA DO TERRAÇO ITÁLIA

VISTA DO TERRAÇO ITÁLIA
São Paulo, até 1910 era uma província tocada a burros. Os barões do café tinham seus casarões e o resto era pouco mais que uma grande vila. Em pouco mais de 100 anos passou a ser a maior cidade da América Latina e uma das maiores do mundo. É pouco tempo. O século XX, para São Paulo, foi o mais veloz e o mais audaz.” (Jane Darckê Avelar)

8.6.17

DOCUMENTO HISTÓRICO: UMA VIAGEM A PETRÓPOLIS EM 1846

Planta da Imperial Colônia de Petrópolis em 1854

Durante sua primeira viagem de volta ao mundo, a escritora e aventureira austríaca Ida Pfeiffer esteve no Rio de Janeiro, onde desembarcou em 17 de setembro de 1846 e que descreveu em termos nada lisonjeiros em seu livro Eine Frauenfahrt um die Welt (Viagem de uma mulher ao redor do mundo), publicado em Viena em 1850, como você poderá ver no verbete sobre ela na Wikipedia. Além da capital, a viajante visitou cidades serranas recém-fundadas por colonos alemães, entre elas Petrópolis e Nova Friburgo. O relato a seguir, de sua excursão até Petrópolis, pegando uma barca até o fundo da baía e de lá subindo a serra a pé, foi extraído do Capítulo III de seu livro e traduzido do alemão (com cotejo do texto inglês) pelo editor do blog. As fotos são de recentes visitas do editor do blog a essa encantadora cidade, cujo Museu Imperial está entre os melhores do país e cuja fábrica da Bohemia oferece aos apreciadores dessa bebida milenar uma experiência inesquecível (Prost!). As gravuras foram obtidas na Biblioteca Nacional Digital.  

Contaram-me tanto, aqui no Rio de Janeiro, sobre o rápido florescimento de Petrópolisuma colônia perto da capital fundada por alemães, sobre a magnífica região onde se situa e sobre as florestas virgens pelas quais passa uma parte do caminho que não consegui resistir ao desejo de fazer uma excursão até lá. Meu companheiro de viagem, Conde Berchtold, me acompanhou, de modo que pagamos em 26 de setembro [de 1846] duas passagens em uma das várias barcas que diariamente navegam até Porto da Estrela [Porto d'Estrella no original alemão, então um município, mais tarde incorporado a Magé], uma distância entre 20 e 22 milhas marítimas, de onde se deve prosseguir a jornada por terra. Navegamos por uma baía, notável por suas vistas realmente pitorescas e que, muitas vezes, me lembraram vivamente os lagos tão singulares da Suécia. Ela é circundada por encantadoras cadeias de montanhas e está cheia de pequenas ilhas e grupos de ilhas, às vezes cobertas por palmeiras e outras árvores e mato tão exuberante, que parece impossível que se possa pisar nelas, e outras vezes assomando do mar qual rochas colossais ou estão empilhadas livremente umas sobre as outras. Em muitas destas últimas é digna de nota a forma redonda, muitas vezes parecendo ter sido esculpida.

Nossa barca foi conduzida por quatro negros e um capitão branco. No início o vento, soprando nas velas desfraldadas, impeliu nossa barquinha, e os marinheiros aproveitaram esses momentos favoráveis para fazer uma refeição, constituída de uma boa porção de farinha de mandioca, peixe cozido, milho assado, laranjas, coco e outros tipos de nozes menores, e não faltou o pão branco, um artigo de luxo para os negros. No fundo fiquei satisfeita por ver aquelas pessoas sendo tão bem tratadas. Após duas horas o vento nos abandonou e os marinheiros tiveram de pegar os remos. Achei muito árdua a forma local de remar. Cada vez que mergulha o remo na água, o marinheiro precisava subir num banco à sua frente e depois, durante a remada, se lançar com força de volta para trás. Após duas horas deixamos o mar e adentramos à esquerda o rio Inhomirim
[Geromerim no original], em cuja embocadura fica uma hospedaria, onde paramos meia hora. Ali vi também um estranho farol consistindo em uma lanterna pendurada em uma rocha. A beleza da região termina, mas apenas para os leigos; para um botânico agora é que se torna magnífica e maravilhosa, pois as mais bonitas plantas aquáticas, especialmente a ninfeia, Pontedera e relva cipriota [tradução literal de cyprianische Gras, possivelmente o papiro de Chipre como observa um leitor - ver comentários], espalham-se na água e em torno dela. As duas primeiras se enroscam até o alto das arvorezinhas próximas, e a relva cipriota alcança uma altura de 1,8-2,4 metros. As margens do rio são planas e estão cercadas de arbustos e árvores jovens. Ao fundo erguem-se cadeias de montanhas. As casinhas, que vez ou outra aparecem, são construídas de pedra e cobertas de telhas, mas nem por isso se afiguram menos miseráveis.

Navegamos por 7 horas pelo rio e chegamos sem incidentes em Porto da Estrela, um lugar não desprovido de importância, por ser o entreposto das mercadorias que chegam do interior e daqui são transportadas por via aquática até a capital do Brasil. Existem lá duas bonitas hospedarias, bem como uma construção semelhante a um khan turco e um imenso telhado de tijolos apoiado em fortes pilares de pedra. O primeiro servia para as mercadorias e este último, para os tropeiros, que se haviam acomodado confortavelmente e preparavam seu jantar em fogueiras que ardiam alegremente. Esse tipo de alojamento noturno muito nos agradou, mas preferimos ir para a hospedaria “Estrela”, cujos quartos e camas limpinhos e refeições condimentadas foram mais atraentes.

PORTO DO ESTRELLA (PORTO DA ESTRELA), gravura de Victor Adam (1801-1866), em Rugendas, Johann Moritz, Viagem pitoresca através do Brasil. [gravura 13]

27 de setembro [de 1846]. De Porto da Estrela a Petrópolis são ainda 7 léguas. Normalmente esse trecho é transposto em muares, pagando-se quatro milréis por animal. Como no Rio de Janeiro esse caminho nos foi descrito como um bonito passeio, passando em parte por florestas maravilhosas e, além disso, bem movimentado e seguro, por ser a principal ligação com Minas Gerais [Minas Gueras no original], resolvermos percorrê-lo a pé, ainda mais porque o conde queria estudar a flora e coletar insetos. As primeiras duas léguas passavam por um vale largo, coberto na maior parte com denso matagal e bosques jovens e cercado por altas montanhas. Destacavam-se à beira do caminho os bonitos abacaxis silvestres que, ainda não totalmente maduros, brilhavam em cores rosadas. Infelizmente não são tão saborosos quanto sua beleza sugere e por isso raramente são colhidos. Fiquei encantada com os colibris, dos quais vi aqui mais da espécie menor. Não se consegue imaginar nada de mais delicado e gracioso que esses animaizinhos. Eles recolhem seu alimento dos cálices das flores, em volta dos quais esvoaçam feito borboletas, com as quais em seu rápido voo podem ser confundidos. Raramente os vemos parados em galhos. Depois de termos transposto o vale, chegamos na serra: assim são chamadas pelos brasileiros os picos das montanhas que precisam ser transpostas. Aquela à nossa frente media 914 metros de altura. Uma estrada larga e pavimentada subia a serra em meio à mata virgem.

Eu sempre imaginara que, em uma floresta virgem, as árvores tivessem troncos anormalmente grossos e altos. Não foi o que encontrei aqui. Talvez a vegetação seja densa demais, e os troncos principais são sufocados e apodrecem sob as massas de árvores menores, mato, trepadeiras e parasitas. Estas duas últimas espécies são tão comuns e cobrem tão completamente as árvores que muitas vezes mal se veem as suas folhas e, menos ainda, os troncos. Um botânico, Senhor Schleierer, nos assegurou que certa vez encontrou, em uma árvore, 36 tipos de trepadeiras e parasitas.

SILVA PRIMAEVA IN MONTE SERRA D'ESTRELLA, a floresta virgem que deslumbrou Ida Pfeiffer e o conde em gravura de Benjamin Mary (1792-1846)

Fizemos uma rica coleta de flores, plantas e insetos e seguimos tranquilos nosso caminho, encantados com os maravilhosos bosques e as não menos encantadoras vistas, que se descortinavam sobre montanha e vale até o mar e suas baías, às vezes até a capital.

As tropas frequentes, conduzidas por negros, assim como alguns caminhantes, dos quais encontramos muitos, nos tiraram qualquer medo, de modo que o fato de estarmos sendo seguidos por um negro nos passou despercebido. Mas ao nos encontrarmos num local um tanto solitário, ele saltou subitamente à frente, com um facão em uma mão e um laço na outra, veio em nossa direção e nos deu a entender, mais pelos gestos do que por palavras, que nos mataria e arrastaria até a floresta.

Não trazíamos nenhuma arma conosco, já que haviam nos dito que aquela viagem era totalmente segura, e como defesa contávamos apenas com nossos guarda-sóis. Eu possuía ainda um canivete, que imediatamente tirei da bolsa e abri, decidida firmemente a cobrar caro por minha vida. Na medida do possível, defendemo-nos dos golpes com nossos guarda-sóis. Mas estes não duraram muito. Além disso, ele conseguiu agarrar o meu que, com a luta, quebrou, restando comigo apenas um toco do cabo na mão. Mas durante essa luta, a faca escapou-lhe da mão e caiu alguns passos adiante. Corri até lá e achei que poderia pegá-la, mas ele, mais rápido do que eu, afastou-me com mãos e pés e se apoderou novamente dela. Ele a brandiu, raivoso, sobre minha cabeça e infligiu duas feridas, uma picada e um corte profundo, ambos no braço esquerdo. Achei que estava perdida, e somente o desespero me deu a coragem de fazer uso também do meu canivete. Tentei golpear o peito do negro, ele se esquivou e só consegui feri-lo com força na mão. O conde aproximou-se de um salto e agarrou o sujeito por trás, dando-me oportunidade de me erguer de novo do chão. Aquilo tudo transcorreu no espaço de alguns segundos. O ferimento deixara o negro raivoso. Ele rangeu os dentes como um animal selvagem e brandiu seu facão com uma rapidez aterrorizante. Logo o barão também tinha recebido um corte na mão inteira, e estaríamos certamente perdidos, se Deus não tivesse enviado ajuda. Ouvimos passos de cavalo no calçamento de pedras e imediatamente o negro nos deixou e saltou floresta adentro. Logo depois dois cavaleiros surgiram na curva do caminho. Corremos em direção deles. As feridas que sangravam muito, bem como nossos guarda-sóis retalhados, logo esclareceram nossa situação. Eles nos perguntaram que direção o fugitivo tomara, saltaram dos cavalos e tentaram capturá-lo. Seus esforços teriam sido em vão se dois negros não surgissem no caminho, oferecessem sua ajuda e logo capturassem o sujeito. Ele foi amarrado e, como não queria andar, recebeu uma boa surra, principalmente na cabeça, de modo que temi que seu crânio tivesse se fraturado. Mesmo assim não fez nenhuma careta e permaneceu, como que paralisado, deitado no chão. Os dois negros tiveram de levantá-lo para levá-lo até a casa mais próxima, enquanto ele dava mordidas, como um animal selvagem. Nossos salvadores, assim como o conde e eu, fomos juntos para que tratassem lá de nossos ferimentos e continuamos a viagem, não sem algum medo, principalmente quando cruzávamos com um ou mais negros, mas sem outro incidente e sempre admirando a encantadora paisagem.

A colônia de Petrópolis fica no meio de uma floresta virgema 762 metros do nível do mar. Foi fundada há apenas uns 14 meses [os primeiros colonos chegaram em 29 de junho de 1845], com o propósito principal de fornecer várias espécies de legumes e frutas europeias, que nos países tropicais só crescem a uma determinada altura, para o consumo da capital. Uma pequena fileira de casinhas compunha já uma rua, e numa praça iluminada erguia-se já a estrutura de madeira de uma grande construção, a residência de verão do imperador, mas que dificilmente teria um aspecto imperial, já que portas de entrada pequenas e estreitas contrastavam estranhamente com as janelas largas e grandes [com a modificação do projeto original, acrescentando o pórtico de granito ao corpo central, esse "defeito" foi sanado]. Em torno do palácio será construída a cidade. Mas existem muitas casinhas isoladas mais distante, nos bosques. Uma parte dos colonos, como os artífices, lojistas, etc. receberam pequenos terrenos na proximidade do palácio, os agricultores, terrenos maiores, mas que não chegam a dois hectares. Que miséria deve ter sofrido essa pobre gente em sua terra natal para procurar uma região estranha do mundo por uns poucos acres de terra.

PALAIS IMPÉRIAL DE PÉTROPOLIS (PALÁCIO IMPERIAL DE PETRÓPOLIS, ao fundo, ainda sem o pórtico, aparentemente), gravura de Eugène Ciceri (1813-1890)

Nossa boa velhinha que fez a viagem conosco da Alemanha até o Rio de Janeiro encontramos aqui junto ao seu filho. A alegria de poder compartilhar a vida de seu querido muito a rejuvenesceu nesse curto período. Seu filho tornou-se nosso guia. Ele nos mostrou a jovem colônia, situada em amplas ravinas. As montanhas em volta são tão íngremes que, quando se derrubam as árvores para uso agrícola, a terra fofa é facilmente removida pelas enxurradas.

A uma légua da colônia uma cachoeira cai, com grande estrondo, em uma garganta que ela própria cavou [provavelmente a Cascata do Itamarati - gravura abaixo]. Mais do que pela altura ou volume d'água, ela se destaca pelo belo contorno de montanhas que a cercam em forma de caldeirão e pela penumbra solene da floresta virgem circundante.

CASCADE D'HAMARATY [ITAMARATI] À PÉTROPOLIS, gravura de Eugène Ciceri (1813-1890). A Cascata do Itamarati é hoje conhecida como Cascata de Bulhões.
29 de setembro [de 1846]. Apesar de nosso incidente anterior, fizemos nossa viagem de volta a Porto da Estrela novamente a pé, pegamos uma barca e viajamos durante a bela noite até o Rio de Janeiro, onde chegamos contentes de manhã. Por toda parte, tanto em Petrópolis como também na capital, as pessoas se espantavam com o ataque às nossas vidas que sofremos, no qual sequer acreditariam se não exibíssemos os ferimentos. O sujeito foi considerado um bêbado ou maluco. Só depois ficamos sabendo da verdadeira causa. Seu senhor pouco antes o havia castigado por uma transgressão e, quando ele nos encontrou na floresta, achou que seria sua oportunidade de extravasar impunemente sua raiva contra os brancos.

NOTA: Uma versão em inglês do livro de Ida Pfeiffer é oferecida gratuitamente em ebook na Amazon.

Imperial Fazenda do Córrego Seco, gravura de Franz Xaver Nachtmann (1799-1846, em Spix, Johann Baptist von, 1781-1826. Atlas zur Reise in Brasilien. p. [Gravura 24-A]


APÊNDICE: ALGUMAS LINHAS SOBRE A FUNDAÇÃO DE PETRÓPOLIS

A história da fundação de Petrópolis começa pelo decreto imperial de 16 de março de 1843, que ordenou a construção de um palácio de verão em terras da Imperial Fazenda de Córrego Seco, em uma garganta no alto da serra da Estrela, e a criação de uma povoação em torno segundo um arruamento previamente traçado (Petrópolis foi portanto a primeira “cidade planejada” do Brasil). Coube ao major de engenheiros Julio Frederico Koeler a construção do palácio e o planejamento da povoação. Por falta de verbas, somente no início de 1845 foi o Imperador até a serra marcar os lugares da igreja, do palácio, etc. e em maio daquele ano foi assentada a pedra fundamental do palácio [foto abaixo] e começaram as obras. Em 29 de junho chegaram em Petrópolis os primeiros colonos alemães, recém-aportados no navio Virginia e originalmente contratados para trabalharem nas estradas da província. Já na época se discutia a conveniência de trocar a mão de obra escrava por colonos importados.

Museu Imperial

Na pág. 2 do Jornal do Commercio de 17 de novembro de 1845 encontramos informações preciosas sobre esse início da história da cidade de Petrópolis (este e outros textos foram convertidos à ortografia atualmente vigente pelo editor do blog):

S.M. o Imperador houve por herança uma fazenda denominada Córrego Seco. Por decreto de 16 de março de 1843 ordenou ao seu mordomo que, a expensas da casa imperial, erigisse ali um palácio com as necessárias dependências e jardins, e que aos cidadãos que também quisessem edificar aforasse prazos de terras, sob a condição de se sujeitarem ao alinhamento que se lhes prescrevesse, a fim de se poder fazer uma povoação regular. A esta povoação concedeu o mesmo augusto senhor, sem ônus algum, todo o terreno para uma igreja com a invocação de S. Pedro de Alcântara, e para um cemitério; obrigando-se a dar as alfaias e vasos sagrados que requer o culto divino.

O restante da fazenda do Córrego Seco mandou o imperador que fosse arrendada ao major Koeler, com a condição de promover este o aforamento das terras da mesma fazenda.

O estabelecimento fica no alto da serra da Estrela, nove léguas distante desta capital, sendo cinco por mar e quatro por terra; tem meia légua de comprido e uma de fundo, formando duas meias léguas quadradas.

O mordomo não pôde logo principiar a construção do palácio; porque, além de S.M. o Imperador haver concedido duzentos contos da sua dotação a favor das necessidades públicas, acresceram as despesas do seu casamento, dos de S.A. a Senhora D. Januária e de S.A. a Senhora Princesa de Joinville; o que tudo impediu que se pudessem distrair [=desviar] dinheiros para outros dispêndios.

No começo deste ano [1845], porém, foi o Imperador marcar os lugares da igreja, do palácio, etc. e em maio se deu princípio às obras, ficando delas encarregado o major Koeler; o qual rescindiu o contrato de arrendamento já mencionado. Quando se estava nestes preparatórios, chega em junho do porto de Dunquerque o navio Virginia, trazendo a bordo 160 colonos, dos que tinham sido contratados para trabalhar nas estradas da província. O mordomo, autorizado por S.M. Imperial, ofereceu ao vice-presidente do Rio de Janeiro, o Sr. Conselheiro Cândido Batista de Oliveira, as terras de Petrópolis para habitação dos colonos, visto que as obras da estrada da serra lhe estão contíguas, e é cortada pela estrada normal, que pela serra passa. Aceita a oferta, partiram os colonos para Petrópolis, vindos de Niterói ao arsenal da marinha, onde S.M. Imperial se dignou ir vê-los, e lhes assegurou a sua proteção por meio de alocuções que fizeram os Srs. Theremin e Riedil, mandando dar a cada indivíduo cinco mil réis.

No dia de São Pedro [29 de junho] entraram em Petrópolis os primeiros colonos, sendo acolhidos pelo seu compatriota o major Koeler, que do Imperador em pessoa tinha tido a honra de receber as ordens para assim o praticar. No dia 15 de julho distribuiu a cada casal uma data [=doação] de cinco mil braças de superfície de boas terras de cultura, ferramenta, semente e de todos os socorros necessários, como lhe fora ordenado. De então para cá têm subido para Petrópolis quase todos os colonos que o Exm. Sr. Aureliano mandara contratar, e têm recebido da munificência imperial os mesmos benefícios que receberam os primeiros.

É admirável a atividade que tem o major Koeler empregado no distribuir terras, no assentar os colonos, socorrê-los e animá-los. [...]

Enquanto porém os colonos não tiram do seio da terra tudo quanto lhes é necessário para a sua subsistência, isto é, enquanto as suas plantações não produzirem, está providenciado que eles trabalhem nas obras da estrada e na construção do palácio; de sorte que vão já ganhando dinheiro por seus ofícios, e ao mesmo tempo vão cuidando nas suas lavouras e na edificação daquelas de suas casas que ainda se acham por acabar. E quando vierem a produzir as suas lavouras, eles já estarão livres e desembaraçados das dívidas que contraíram com a província para as suas passagens.

Praça Dom Pedro II. Estátua do Imperador de 1911.

O Imparcial, Folha Política e Comercial, de 24 de maio de 1845, na seção referente à Família Imperial, informa sobre uma viagem do Imperador a Córrego Seco para assentar a pedra fundamental do palácio:

SS. MM. estão em vésperas de uma viagem à sua fazenda do Córrego Seco; onde o Imperador vai assentar a primeira pedra do palácio que ali mandou edificar, criando juntamente uma cidade com o título de Petrópolis.

Janelas do Museu Imperial

No Jornal do Commercio de 17 de fevereiro de 1945, Julio Frederico Koeler, planejador da cidade, havia comunicado:

No alto da serra da Estrela, em espaçosa garganta, é situada a fazenda do Córrego Seco, chamada hoje Petrópolis, que pertence a S.M. o Imperador. Por ali passa a maior parte do comércio de Minas, Goiás e Mato Grosso, e o governo provincial já mandou delinear e construir a estrada normal, que, em seguida à nova da serra, atravessa a fazenda.

S.M.I. [Sua Majestade Imperial] acaba de ordenar a construção do seu palácio de verão na Petrópolis, e o abaixo assinado [Koeler] se acha incumbido da direção e administração desta obra, com ordem de aprontar, até 1o de outubro do corrente ano, tal parte dela que possa servir para aposento provisório do mesmo augusto senhor.

S.M. o Imperador, querendo franquear os benefícios e os gozos que promete a habitação na Petrópolis, permite que ali se forme uma povoação, e para este fim ordenou que se arruasse uma porção de terreno, mandando ao mesmo tempo ao Exm. Mordomo que consentisse na divisão das terras de Petrópolis em prazos de foro perpétuo, de cuja ordem resultou efetuar-se o contrato que possui o abaixo assinado, do arrendamento de toda a fazenda.  

PANORAMA DE PETRÓPOLIS, gravura de Sabatier em Ribeyrolles, Charles, 1812-1860. Brazil pittoresco : album de vistas, panoramas, monumentos.... p. [gravura 19]
A Gazeta Oficial do Império do Brasil, na edição de 6 de outubro de 1846, relata o testemunho de um estrangeiro, dedicado ao estudo da colonização, sobre o “bom resultado que vai apresentando o estabelecimento de colonização formado debaixo dos auspícios de S.M. o Imperador, em Petrópolis”. “Confesso”, diz esse estrangeiro, “que não acreditava que dentro dos limites dos trópicos se pudessem achar terras e um clima adaptados para uma povoação alemã; mas Petrópolis veio convencer-me de que minha opinião era mal fundada, e declaro que as minhas esperanças foram a todos os respeitos excedidas.” “Em cima da Serra e em Petrópolis o clima é inteiramente diferente do do Rio; o termômetro durante os dez dias de minha residência naquele estabelecimento nunca excedeu 72o Fah. [22o C] ao meio-dia; descendo a 50o [10oC] de manhã e de noite, o que tornava a temperatura mui fresca.” “Dificilmente se acreditará que a colônia só fosse fundada no ano próximo passado; grande número de colonos já tem boas casas cercadas de hortas com toda a casta de hortaliça; seus campos já estão em grande extensão cultivados; tudo parece ser obra de anos, e só conta um ano de existência! Os colonos e as crianças com faces rosadas não parecem transportados para regiões tropicais; todos anunciam saúde e contentamento.” “Os vales com seus regatos pelos diferentes quarteirões de que se compõe a colônia, os seus campos e pitorescos caminhos que dão trânsito por toda ela, apresentam um aspecto verdadeiramente encantador.” “Os colonos estão satisfeitos com seus lotes; o jornal [remuneração salarial por dia de trabalho] que recebem nas obras públicas chega para seu sustento, e de nada se queixariam se houvesse regularidade no pagamento.”

Catedral neogótica São Pedro de Alcântara (1846)

O relatório da Sessão Imperial da Abertura Da Assembleia Geral Legislativa, em 3 de maio de 1846, publicado no Anuário Político Histórico e Estatístico do Brasil, na seção dedicada à Família Imperial, ao se referir a Petrópolis, revela que “Ali se acha assentada, e em mui próspero estado, uma colônia alemã, que conta 1.921 pessoas, a qual com alguns nacionais e poucos estrangeiros de outras nações, forma o núcleo de uma linda, salubre e populosa cidade, para a qual se acham lançadas as primeiras linhas, e que, em mui poucos anos, se desenvolverá debaixo dos auspícios e do nome do seu augusto fundador” (p. 6) Mais adiante (p.43), informa: “Um dos mais ardentes desejos dos colonos, que ali se acham, é o de serem cidadãos brasileiros, e partilharem assim todos os ônus e encargos dos cidadãos do estado que os recebe e protege”.



Palácio de Cristal, raro exemplar dos pavilhões da arquitetura do ferro do séc. XIX (1879)

O Mapa Estatístico das Colônias Existentes em Todo o Império do Relatório do Ministério do Império de 1848 apresentado à Assembleia Geral Legislativa informa que Petrópolis contava naquele ano com 2.473 colonos. “O número dos colonos notado compreende somente os alemães, sendo deles 1.301 do sexo masculino e 1.172 do sexo feminino; daqueles 485 são maiores de 10 anos, e destes 426 da mesma idade; as famílias são 475, repartidas pelos 20 quarteirões em que se divide a colônia. Há 1.584 católicos e 889 protestantes; 955 casados e 143 solteiros em estado núbil; sabem ler e escrever 1.652–Contém a colônia 658 casas, afora 38 que estão se edificando; possui muito bons hotéis, excelentes armazéns, e muitas oficinas em constante trabalho.”

Visita à fábrica da Bohemia

Petrópolis é "um dos principais berços da produção cervejeira no Brasil", como informa a exposição na sede histórica da Companhia Cervejaria Bohemia, a cervejaria mais antiga do país em funcionamento. No Anuário Político Histórico e Estatístico do Brasil de 1847 existe uma menção à atividade cervejeira na colônia: 

Existem já na colônia dois engenhos de serrar; uma fábrica de cerveja; trata-se de estabelecer outra de sabão; alguns colonos preparam a potassa; e um alemão que se retirou do comércio da Corte se dedica à criação do bicho-da-seda, e tem já uma plantação de amoreiras, que ali crescem com rapidez.

Um estudo interessante sobre a colonização alemã em Petrópolis é a tese de mestrado EMIGRANTES ALEMÃES E A SUA INSERÇÃO NO PROCESSO HISTÓRICO DE FORMAÇÃO DA POVOAÇÃO – PALÁCIO DE PETRÓPOLIS (1845 – 1886) de JORGE OLMAR MARIALVA COPELLO que pode ser acessada clicando aqui.

27.5.17

OS SUBÚRBIOS DE TURIAÇU, ROCHA MIRANDA & HONÓRIO GURGEL

Fábrica Piraquê, do outro lado da via férrea, em Turiaçu, vista do Parque de Madureira: "o parque é um oásis de lazer e convivência numa região suburbana antes totalmente carente de áreas assim"

"quando passava pela passarela que conduz ao outro lado da via férrea, na altura da Fábrica Piraquê, ficava curioso em saber o que existe do lado de lá"

Painel de azulejos na fachada de uma casa em Turiaçu

Não sei se Eduardo Paes será pego pela Lava Jato, mas sei que deixou um legado para a cidade: a nova orla no Centro Histórico, o BRT, o VLT e o Parque de Madureira. Quem não conhece o subúrbio não sabe, mas o parque é um oásis de lazer e convivência numa região suburbana antes totalmente carente de áreas assim. O parque atende a quatro subúrbios – Madureira, Turiaçu, Rocha Miranda e Honório Gurgel – e desmente aquele preconceito da elite de que o “povo” não “cuida” dos bens públicos, depreda, emporcalha, essas coisas. A galera do subúrbio cuida do parque como se fosse sua própria casa. Mas não é exatamente este o tema desta postagem.

Primeira Igreja Batista de Turiaçu

"Nesses bairros mais remotos a ação do Estado ainda é tênue"

"Num botequim, um grupo de cidadãos joga um carteado em plena hora de expediente"

A viagem até a estação Mercadão de Madureira (antiga estação Magno) já é uma aventura. O trem para Belford Roxo sai da Central mais ou menos de meia em meia hora (12:20, 12:51, 13:21, 13:51, está no site da Supervia) e passa por lugares onde você jamais passaria normalmente, por exemplo, dentro da favela do Jacarezinho, onde você chega a ver uma minicracolândia, imunda, à margem da via férrea, gente misturada com lixo. 

Vivenda São Jorge (Turiaçu)

"Na Igreja de Santa Rita aprecio os belos painéis de azulejos da Paixão de Cristo pintados por Manoel Félix Igrejas"

Igreja Presbiteriana de Rocha Miranda

Nas vezes em que fui ao Parque de Madureira, quando passava pela passarela que conduz ao outro lado da via férrea, na altura da Fábrica Piraquê, ficava curioso em saber o que existe do lado de lá. Pois hoje (depois de um estudo prévio no Google Maps para não entrar em áreas de risco) fui até lá. O bairro chama-se Turiaçu. Depois vem Rocha Miranda e Honório Gurgel.

"nas calçadas, tão acidentadas quanto a superfície lunar"

Esquina em Honório Gurgel

"casinhas singelas, embora algumas com acabamento modernoso nem sempre de bom gosto"

Nesses bairros mais remotos a ação do Estado (especificamente, da Prefeitura) ainda é tênue: os carros estacionam impunes nas calçadas, que não são de pedras portuguesas como nos bairros nobres, mas de um cimento ou pedrinhas ou mesmo terra, tão acidentadas quanto a superfície lunar. Existem bolsões de classe média, com casinhas singelas, embora algumas com acabamento modernoso nem sempre de bom gosto. Mas tem muita casa mal-acabada, algumas com tijolos aparentes, e nos morrinhos mais ao longe as indefectíveis favelas, que dão o contraste tão típico do Rio. E pichações emporcalham tudo. Num botequim, um grupo de cidadãos (alguns com cara de aposentados, outros não) joga um carteado em plena hora de expediente. Desconfiados  porque tirei uma foto (de longe), alertam que em certas áreas (Chapadão e adjacências) fotógrafos são recepcionados a bala. Bala perdida?, observo, irônico. Não, bala achada, respondem.

Igreja Batista Central em Honório Gurgel

Verde e amarelo em Honório Gurgel

Estação Honório Gurgel

Na Igreja de Santa Rita aprecio os belos painéis de azulejos da Paixão de Cristo pintados por Manoel Félix Igrejas, de que tomei conhecimento graças ao blog A Vida Numa Goa do meu amigo Evandro von Sydow. Em Rocha Miranda fotografo a graciosa igrejinha presbiteriana com elementos neogóticos. Em Honório Gurgel, a imponente Igreja Batista Central, que vista do parque de Madureira parece um castelo, sobre discreta colina. No acesso à Estação Honório Gurgel, um pessoal com fenótipo de traficante. O trem chega cheio, mas sempre cabe mais um (como aprendemos há alguns anos na propaganda do Rexona). Aí está o verdadeiro povo, miscigenado, desassistido, longe dos barzinhos de Zona Sul onde outrora a “esquerda festiva” discutia, e hoje a esquerda "raivosa" discute (imagino) as utopias que supostamente “salvarão” este povo cujo cheiro sequer conhecem. Uma criança abre um berreiro. Um ambulante, com um vozeirão, oferece empadas quentinhas por um real! Dentro de um trem! Outros vendedores oferecem artigos variados a preços bem abaixo do comércio estabelecido que (segundo reportagem investigativa recente do Extra) procederiam do sem-número de caminhões de entrega assaltados por esse Rio de Janeiro afora. Na viagem alguém me conta que certa vez virou a noite trabalhando e, quando saiu da firma às seis da manhã, pego numa blitz da polícia, os guardas, vendo seus olhos vermelhos (de sono), acharam que fosse maconheiro. "Quem não tem colírio usa óculos escuros", observo, citando a genial frase do Maluco Beleza.

Mas tem muita casa mal-acabada, algumas com tijolos aparentes

Na minha andança suburbana consegui tirar algumas fotos aproveitáveis. Curtam!

15.5.17

BARRA DE GUARATIBA

Casas, telhados, barcos...

Buraco no muro

Manoel Teixeira, simpático guia local (atrás dele, painel em seu bar com fotografias da história de Barra de Guaratiba)

Restinga de Marambaia

Capela de Nossa Senhora da Saúde no Morro da Vendinha, de 1750, aproximadamente. Missas no último domingo de cada mês, de manhã cedo.

MATÉRIA DE CLÁUDIA BELÉM PUBLICADA NO JORNAL DE BAIRRO DE O GLOBO DE 23/7/1989 SOBRE O LIVRO (HOJE RARO) BARRA DE GUARATIBA: SUA VIDA, SEU POVO, SEU PASSADO, DE FRANCISCO ALVES SIQUEIRA, CONHECIDO COMO SEU CHIQUINHO

A colonização de Barra de Guaratiba foi iniciada em 1579, com Manoel Velloso Espinha, que morava na antiga Vila de Santos e conseguiu a doação das terras através de sesmarias. Havia índios na região, mas foram expulsos pelos homens brancos, que aos poucos tomaram a terra.

Segundo os documentos encontrados por Francisco, em 1750 já havia muitos escravos na região, que pertenciam ao donatário da terra, Dom Fradique de Quevedo Rondon, que no mesmo ano doou parte delas para a matriz de São Salvador.

Francisco também descobriu, através de suas pesquisas, que há indícios de que em 1710 houve uma invasão francesa da cidade do Rio através de Barra de Guaratiba. Comandados pelo corsário Duclerc, os franceses teriam sido vencidos pela própria natureza, que dificultou o acesso ao Centro da cidade.

A atual igreja de Nossa Senhora da Saúde, que fica no alto do morro da Vendinha, nasceu de uma casa de orações. Já a Igreja de Nossa Senhora das Dores foi construído em 1776. Todo o material e os operários vieram de Parati e de Angra dos Reis de barco – o único meio de transporte naquela época que alcançava Barra de Guaratiba. Os moradores viviam de seus próprios recursos, sem poderem contar com o apoio externo.

Foi assim até o início do século [XX], quando foi instalado o trem que ligava o bairro a Campo Grande. Em 1928, o então Presidente Washington Luiz mandou abrir uma estrada ligando Barra a Ilha de Guaratiba. Até meados da década de 60, o bairro também era assistido pelo bonde.

Uma das histórias que Francisco conta em seu livro faz parte, até hoje, do lendário da Barra. Uma noite, no início do século, um grupo de pescadores saiu para um local chamado parcel [leito do mar de pouca profundidade]. Quando já estavam no pesqueiro, começou um forte nevoeiro. Sem saber o que fazer, os pescadores se perderam em discussões. No grupo, estava uma das figuras mais conhecidas na região, seu Bitinho, avô de Francisco. Experimentado nas manhas do mar, ele decidiu que o melhor a fazer era seguir para o porto do Rio de Janeiro. Mas a dúvida era grande, pois não havia como se guiar. Pela bússola, seu Bitinho conseguiu ir até o Rio, onde esperaram o amanhecer para voltar à Barra em segurança.

Algumas outras histórias típicas de conversas de pescadores fazem parte do livro. Francisco conta que em 11 de julho de 1984 uma lula pesando cinco quilos e semimorta foi encontrada na beira da água pelo pescador Atílio Soares. Francisco mostra uma foto que não mente: a lula é mais alta que o neto do pescador, que tinha 3 anos na época.


Morador de Barra de Guaratiba em frente à sua casa

Vista do camping Barra de Guaratiba

Restinga de Marambaia

Telhados e flores

Escadinhas no Morro da Vendinha

TRECHO DO CAPÍTULO VII, "A INVASÃO", DO LIVRO A INVASÃO FRANCESA DO BRASIL DE ANDRÉ LUIS MANSUR E RONALDO MORAIS

Situada ao pé de alguns morros, a praia de Barra de Guaratiba é bastante frequentada hoje por moradores da Zona Oeste do Rio. De mar aberto, é um pouco agitada e, provavelmente, de desembarque difícil para os navios da época de Du Clerc. Mas talvez exatamente por este motivo era o único trecho do litoral carioca desguarnecido. Como o comandante francês sabia disso? O escritor francês Henry Malo, em trabalho apresentado no I Congresso de História da Expansão Portuguesa no Mundo, afirma, apoiado em documentos consultados no Arquivo Colonial de Lisboa, que quatro negros fugidos de plantações subiram a bordo da Nau Capitânia, fundeada na Baía da Ilha Grande, e indicaram ao comandante francês a praia da Barra de Guaratiba como o melhor local para a invasão. Outros documentos, inclusive franceses, confirmam a informação.

O desembarque foi feito na manhã de 11 de setembro, uma data que três séculos depois seria sempre lembrada pelo ataque terrorista às torres do World Trade Center, nos Estados Unidos. Acredita-se que os franceses entraram com seus navios pelo canal que separa a parte leste da Restinga da Marambaia da terra firme. A dúvida é se os navios ficaram ancorados na própria praia da Barra de Guaratiba, de mar aberto, ou se entraram pela Baía de Sepetiba, de águas bem mais calmas. Desembarcados, enfrentaram apenas alguns tiros de mosquete dados por moradores, que fugiram logo em seguida.

Quando olharam para os morros em frente à praia, os franceses devem ter pressentido a série de dificuldades que teriam pela frente, a uma distância de cerca de 40 quilômetros do centro da cidade através de montanhas, vegetação espessa e carregando pesados armamentos.

Informado pelo Capitão de Cavalos Joseph Ferreira Barreto, responsável pela defesa de Guaratiba até Santa Cruz, o governador Francisco de Castro Morais soube do desembarque francês já na noite de 11 de setembro. [...]

Como não foi encontrado nenhum diário da viagem de Du Clerc, não se sabe exatamente qual caminho os franceses tomaram, mas o mais indicado é que eles tenham evitado as montanhas, devido às dificuldades logísticas, e seguido pelas matas, passando pela serra da Grota Funda e chegando ao Engenho da Vargem dos Padres de São Bento e depois ao Engenho do Camorim, os dois, segundo a documentação da época, saqueados pelos corsários. As munições podiam ser transportadas individualmente ou em pequenos carros puxados por homens, mas peças grandes de desembarque, como canhões, ficaram nos navios para serem utilizadas como apoio às batalhas aguardadas para o centro da cidade. Isso, é claro, se os franceses conseguissem ocupar as fortalezas da Baía de Guanabara, o que abriria caminho para a entrada da esquadra.

Embora não haja nenhum relato, há suspeita de que os corsários tenham saqueado o Convento do Carmo, em Pedra de Guaratiba, bem perto dali e que possuía fazenda, gado, cavalos e um engenho de açúcar.


Capela de Nossa Senhora das Dores no Caminho dos Pescadores

O mar

Barquinho

Casas morro acima. Fotos do editor do blog.