ENSEADA DE BOTAFOGO

ENSEADA DE BOTAFOGO
"Andar pelo Rio, seja com chuva ou sol abrasador, é sempre um prazer. Observar os recantos quase que escondidos é uma experiência indescritível, principalmente se tratando de uma grande cidade. Conheço várias do Brasil, mas nenhuma tem tanta beleza e tantos segredos a se revelarem a cada esquina com tanta história pra contar através da poesia das ruas!" (Charles Stone)

VISTA DO TERRAÇO ITÁLIA

VISTA DO TERRAÇO ITÁLIA
São Paulo, até 1910 era uma província tocada a burros. Os barões do café tinham seus casarões e o resto era pouco mais que uma grande vila. Em pouco mais de 100 anos passou a ser a maior cidade da América Latina e uma das maiores do mundo. É pouco tempo. O século XX, para São Paulo, foi o mais veloz e o mais audaz.” (Jane Darckê Avelar)

17.6.16

MORRO DO PINTO no SANTO CRISTO II

O MORRO DA JULES RIMET, CRÔNICA DE JOAQUIM FERREIRA DOS SANTOS PUBLICADA ORIGINALMENTE EM O GLOBO DE 30/6/2014. FOTOS DO MORRO DO PINTO TIRADAS EM 16 DE JUNHO DE 2016 PELO EDITOR DO BLOG.

Dizem — pode ser lenda urbana, pode ser a força de imaginação carioca —, dizem, na esquina das ruas Farnese e Mont’Alverne, que o morro é urbanizado assim porque Getúlio Vargas tinha uma amante na Rua Deolinda.

Torre da antiga fábrica Bhering aos pés do Morro do Pinto

A confirmar.

O Morro do Pinto é o da música do Geraldo Pereira, aquele em que o Escurinho — depois de ir ao Morro da Formiga procurar intriga, ir ao Morro do Macaco pra bater num bamba —, no final de seu périplo sincopado pelos morros do Rio, o Escurinho malemolente vai ao Morro do Pinto acabar com o samba.

Do Morro do Pinto dá para ver o Maracanã ao longe (centro esquerda, abaixo das bases dos morros). E os arranha-céus novos que  vão surgindo no Porto Maravilha

Pois eu, que não sou esse escurinho todo e quero mais que o samba peça passagem e vá em frente — eu tenho ido ao Morro do Pinto, no Cais do Porto, no intervalo de um jogo e outro da Copa. Vagueio sem rumo, na esperança de relaxar a hemoglobina e apascentar as hemácias, essas senhoras sanguíneas que me têm sido tão cruéis. Flano ao léu, zero o QI, os olhos cheios de uma cidade que poucos conhecem.

Travessa Sousa

Há quem enfrente a fila do bondinho do Corcovado para lá de cima observar a Zona Sul. Nada contra, mas quem ainda não colocou o cenário como pano de fundo num selfie do Instagram?

Eu tenho preferido entrar pela Rodoviária, pegar o Santo Cristo, subir a Rua Sara, atravessar a esquina com a Orestes, galgar a escadaria da Carlos Gomes, dobrar à direita na Rua do Pinto, entrar no Parque Machado de Assis e ficar lá de cima, embasbacado com o que vai embaixo — o avesso de um cartão postal que o mundo inteiro vem ver e a própria cidade desconhece. No canto esquerdo do olho, o prédio da Central; no direito, as antenas do Sumaré; no meio, 450 anos de história.

Coreto

O Morro do Pinto é um daqueles paraísos que o carioca desperdiça diariamente, preguiçoso de sair do seu quarteirão e descobrir que a cidade é maravilhosa não só por causa das curvas do Aterro, das curvas das garotas e das curvas das pedrinhas no calçadão. O Rio não entende o Rio, acha que isso aqui é só sal, sol e sul. Faz a curva no fim do calçadão do Leblon e volta para casa, crente que viu tudo o que interessa.

Igrejinha de Nossa Senhora de Montserrat, que os cariocas costumam ver de longe, da Av. Presidente Vargas, mas poucos sobem o morro para ver de perto

Eu lamento a falta de curiosidade do carioca ixperto, sempre nos mesmos engarrafamentos humanos e águas de coco, mas não perco tempo com isso. Sigo no caminho que mestre Jaguar ensinou, o de ir na contramão do turismo e das multidões, rumo ao âmago do lepo lepo, ao fundo do BIP-BIP, a Busca Insaciável do Prazer.

Troto ladeira acima do Morro do Pinto, vizinho do Morro da Conceição e da Providência, feliz como cabrito que foge do zoo congestionado das calçadas da Zona Sul. Passo pela esquina do bloco Pinto Sarado, cruzo com a arquiteta Bel Lobo, que tem um ateliê na fábrica da Bhering, e paro no hambúrguer do Omar, o Troisgros local.

Tranquilidade

Da varanda, cercado pelo canto dos galos, eu agora escorrego a vista por uma outra região da cidade, e varro as chaminés de São Cristóvão, os guindastes do cais do porto, as torres da Igreja da Penha e, nos dias mais claros, a unha rochosa do Dedo de Deus. Alguém na mesa ao lado conta a incrível história do bandido Zé Piroca, morador da Rua Sara, o soldado maluquete que um dia subiu o morro pilotando um tanque roubado do quartel da Quinta da Boa Vista.

Vista para a via férrea com a sombra do fotógrafo abaixo

Pode ser lenda urbana, mais uma conversa de bar, mas é disso também, de adoráveis assombrações, que se faz uma cidade. Fato indiscutível é que foi derrubada a casa do Seu Normando, na Rua Deolinda, onde, nos anos 70, Zeca Pagodinho e Beth Carvalho abriam a roda.

Velho bar

Os mais viajados vão achar que estão subindo as ladeiras da Alfama, o bairro de Lisboa — e há bandeiras de Portugal nas janelas, memória evidente de que antes de Getúlio, antes do Escurinho, o Morro do Pinto foi ocupado pelos portugueses no século XVIII. Eu, com menos milhagens, acho que estou de volta ao subúrbio, a uma foto do Malta ou a um maxixe do Sinhô. “Isso aqui é o melhor lugar do Rio para se criar marreco” — diz um morador, numa tradução ao carioquês de que ali há paz.

Chalé
Eu respondo com um “amém”, passo pelo coreto da Igreja de N.S. de Montserrat, peço contrito que tudo fique como está e mais adiante, ainda na Rua Mont’Alverne, dou um tempo no Bar do Carlinhos para ouvir o compositor local Carlos Gomes de Oliveira. Ele canta, de sua autoria, conforme atesta documento lavrado em cartório, o samba “Para pegar o caranguejo é preciso molhar a mão na lama”. Ao fundo, na gaiola, um papagaio parece gritar disparates contra a especulação imobiliária que, alimentada pelas obras do Porto Maravilha, começa a subir o Pinto.

O gato na moto

Para não dizer que fui ao morro e perdi a Copa, de um dos mirantes vê-se o Maracanã. E ainda conto mais sobre o grande torneio internacional que nos acomete: nos anos 1980, em uma das fundições da Rua Capiberibe, outro maluco do bairro, o Peralta, derreteu a Taça Jules Rimet, roubada com dois comparsas.

Casas com fachadas de azulejos tombadas pela Prefeitura na Rua Farnese

Não é uma história muito edificante em meio a tantas ladeiras gloriosas — mas este é o Morro do Pinto. A Taça do Mundo acaba aqui.

Sacada

OBRIGADO POR VISITAR MEU BLOG. Clique no label "Morro do Pinto" abaixo para ver outras postagens neste blog sobre esse aprazível morro da Zona Portuária carioca. E veja meu vídeo sobre a visita que fiz ao morro:


15.6.16

VIAGEM NO VLT CARIOCA (VEÍCULO LEVE SOBRE TRILHOS)


O Veículo Leve sobre Trilhos (VLT), quando estiver plenamente implantado, interligará todo o Centro e Zona Portuária carioca em aproximadamente 28 km de trilhos e duas linhas com um total de 26 paradas, integrando todos os demais modais, como metrô (Estação Cinelândia e outras), trem urbano (Central), ônibus interestaduais (Rodoviária), aviões (Aeroporto Santos Dumont), barcas (Praça XV), bonde de Santa Teresa (perto da Cinelândia) e o Teleférico da Providência. Quando fiz o filme amador acima (15 de junho de 2016) o VLT estava funcionando parcialmente da Parada dos Navios, na Zona Portuária, até o Aeroporto Santos Dumont, com bondes mais ou menos de meia em meia hora, mas quando estiver funcionando plenamente, 24 horas por dia, o sistema terá capacidade de transportar 300 mil passageiros diários. O VLT é a nova encarnação do bonde que por um século transportou os cariocas cidade afora, mas extinto nos anos sessenta (com a honrosa exceção de Santa Teresa) para ser substituído pelo mal-sucedido "trólei" (ônibus elétrico)   — é o "bondinho do futuro". Um legado das Olimpíadas (junto com os BRTs, o Porto Maravilha e a expansão do metrô) pelo qual está de parabéns nosso prefeito (independentemente de posições ideológicas, partidárias, etc.) Seja bem-vindo e boa viagem (e clique no label bondes abaixo para ver nossas outras postagens sobre esse simpático veículo tão associado à história carioca)!

5.6.16

DICA DE FILME: SÃO SEBASTIÃO DO RIO DE JANEIRO – A FORMAÇÃO DE UMA CIDADE


Vi hoje o filme SÃO SEBASTIÃO DO RIO DE JANEIRO - A FORMAÇÃO DE UMA CIDADE e eis minha impressão, que publiquei no ADORO CINEMA. Para quem é apaixonado pelo Rio de Janeiro, para quem se interessa  pela história da Cidade Maravilhosa ou tem curiosidade em conhecer, para quem é de fora e vai visitar o Rio, o filme é nota dez, bem pesquisado, com ótima iconografia (mapas, gravuras, etc.), ótima fotografia, ótimo texto, ótimo material de arquivo, ótimos depoimentos. Agora para quem não está interessado por nada disso... vale o bonequinho dormindo de O Globo. Uma grande safadeza desse jornal que prejudica a carreira comercial de um filme que tem, sim, muitas virtudes.

1.6.16

RIO DE JANEIRO EM 1584: CARTA DE FERNÃO CARDIM

Como teria sido a cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro duas décadas após sua fundação? O jesuíta português Fernão Cardim, aqui esteve como secretário do visitador da companhia, de 1583 a 1598, retornando como provincial da companhia de 1604 a 1609, como lemos na Wikipedia. Em carta ao padre provincial de Portugal descreveu sua passagem pelo Rio de Janeiro, em dezembro de 1584. A carta encontra-se na obra Tratados da terra e gente do Brasil que pode ser acessada na Brasiliana Eletrônica. Os textos de Cardim fornecem uma visão privilegiada do Rio de Janeiro quinhentista, e os jesuítas se destacaram como protagonistas desse processo inicial de colonização. A seguir trecho da carta de Cardim.

Rio de Janeiro em 9/11/1599 em gravura de autor anônimo ilustrando a obra de Olivier van Noort Descrição da penosa viagem ao redor do mundo por Olivier van Noort). Foi o primeiro holandês a fazer uma viagem ao redor da terra, iniciada em 1598. Dos quatro navios iniciais, apenas um retornou, em 1601. A letra B no mapa mostra a cidade na época circunscrita ao Morro do Castelo e encosta. A letra D deve ser a fortaleza de Nossa Senhora da Guia, atual de Santa Cruz, e C deve ser o Pão de Açúcar, mal desenhado.

Do Espírito Santo partimos para o Rio de Janeiro, que dista ali 80 léguas. Dois ou três dias tivemos bom tempo, e logo nos deu um temporal tão forte, que foi necessário ficarmos árvore seca [mastreação de um navio com todos os panos ferrados] quase dois dias com muito perigo, por estarmos sobre uns baixos dos goitacazes mui perigosos [região de Campos dos Goytacazes], e não muito longe da costa. Ali estivemos a Deus misericórdia, e cada um se encomendava a Nossa Senhora quanto podia por vermos perto a morte. Deste perigo nos livrou Deus por sua bondade, e aos 20 de dezembro de 1584, véspera de São Tomé, arribamos ao Rio. Fomos recebidos do padre Ignacio Tolosa, reitor, e mais padres, e do Sr. Governador [Salvador Corrêa de Sá], que manco de um pé com os principais da terra veio à praia com muita alegria, e os da fortaleza também a mostraram com salva de sua artilharia. Neste colégio tivemos o Natal com um presépio muito devoto, que fazia esquecer os de Portugal; e também cá Nosso Senhor dá as mesmas consolações, e avantajadas. O irmão Barnabé Telo fez a lapa, e às noites nos alegrava com seu berimbau.

   Trouxemos no navio uma relíquia do glorioso Sebastião engastada em um braço de prata. Esta ficou no navio para a festejarem os moradores e estudantes como desejavam, por ser esta cidade do seu nome, e ser ele o padroeiro e protetor. Uma das oitavas à tarde se fez uma célebre festa. O Sr. governador com os mais portugueses fizeram em lustroso alardo de arcabuzaria, e assim juntos com seus tambores, pífaros e bandeiras foram à praia. O padre visitador com o mesmo governador e os principais da terra e alguns padres nos embarcamos numa grande barca bem embandeirada e enramada: nela se armou um altar e alcatifou a tolda com um pálio por cima; acudiram algumas vinte canoas bem esquipadas, algumas delas pintadas, outras empenadas, e os remos de várias cores. Entre elas vinha Martim Affonso [Arariboia], comendador de Cristo, índio antigo abaetê [homem bom e de palavra] e moçacára [amigo], sc. grande cavaleiro e valente, que ajudou muito os portugueses na tomada deste Rio. Houve no mar grande festa de escaramuça naval, tambores, pífaros e flautas, com grande grita e festa dos índios; e os portugueses da terra com sua arcabuzaria e também os da fortaleza dispararam algumas peças de artilharia grossa e com esta festa andamos barlaventeando um pouco à vela, e a santa relíquia ia no altar dentro de uma rica carola com grande aparato de velas acesas e música de canto de órgão, etc. Desembarcando viemos em procissão até a Misericórdia, que está junto da praia, com a relíquia debaixo do pálio; as varas levaram os da câmara, cidadãos principais, antigos e conquistadores daquela terra. Estava um teatro à porta da Misericórdia com uma tolda de uma vela, e a santa relíquia se pôs sobre um rico altar em quanto se representou um devoto diálogo do martírio do santo, com choros e várias figuras muito ricamente vestidas; foi asseteado [martirizado] um moço atado a um pau: causou este espetáculo muitas lágrimas de devoção e alegria a toda a cidade por representar ao vivo o martírio do santo, nem faltou mulher que não viesse à festa; por onde acabado o diálogo, por a nossa igreja ser pequena lhes preguei no mesmo teatro dos milagres e mercês, que tinham recebido deste glorioso mártir na tomada deste rio, a qual acabada deu o padre visitador beijar a relíquia a todo o povo e depois continuamos com a procissão e danças até nossa igreja: era para ver uma dança de meninos índios, o mais velho seria de oito anos, todos nuzinhos, pintados de certas cores aprazíveis, com seus cascavéis [guizos] nos pés, e braços, pernas, cinta, e cabeças com várias invenções de diademas de penas, colares e braceletes. Parece-me que se os viram nesse reino, que andaram todo o dia atrás deles; foi a mais aprazível dança que destes meninos cá vi. Chegados à igreja foi a santa relíquia colocada no sacrário para consolação dos moradores, que assim o pediram.

   Têm os padres duas aldeias de índios, uma delas de São Lourenço [na atual Niterói], um légua da cidade por mar; e a outra de São Barnabé [nas vizinhanças do rio Macacu], sete léguas também por mar, terão ambas três mil índios cristãos. Foi o padre visitador à de São Lourenço, aonde residem os padres, e dia dos Reis lhes disse missa cantada oficiada pelos índios com canto de órgão com suas flautas; casou alguns em lei de graça, e deu a comunhão a outros poucos. Eu batizei dois adultos somente, por os mais serem todos cristãos.

Esta capitania do Rio dista da Equinocial 23 graus para o Sul, e da Bahia 130 léguas. É muito sadia, de muitos bons ares e águas. No verão tem boas calmas [calores] algumas vezes, e no inverno mui bons frios; mas em geral é temperada. O inverno se parece com a primavera de Portugal: tem uns dias formosíssimos tão aprazíveis e salutíferos [salutares] que parece estão os corpos bebendo vida. E' terra mui fragosa [em que há muitas fragas, rochas escarpadas] e muito mais que a serra da Estrela; tudo são serrarias e rochedos espantosos, e tem alguns penedos tão altos que com três tiros de flecha não chega um homem ao chão e ficam todas as flechas pregadas na pedra por causa da grande altura; destas serras descem muitos rios caudais que de quatro e sete léguas se veem alvejar por entre matos que se vão às nuvens, e do pé de algumas destas serras até riba há uma grande jornada; são todas estas serras cheias de muitas e grandes madeiras de cedros, de que se fazem canoas tão largas de um só pau, que cabe uma pipa atravessada; e de comprimento que levam dez, doze remeiros por banda e carregam cem quintais de qualquer cousa, e outras muito mais. Há muitos paus de sândalos brancos, aquilo e noz-moscada e outros paus reais muito para ver. Agora se descobriu um pau que tinge de amarelo [tatajuba, árvore da família das urticáceas], como o brasil [pau-brasil] vermelho; é pau de preço; é abundante de gados, porcos e outras criações; dão-se nela marmelos, figos, romeiras, e também trigo se o semeiam; a um grão respondem 800 e mais e cada grão dá 50 e 60 espigas, das quais umas estão maduras, outras verdes, outras nascem; também se dão rosas, cravos vermelhos, cebolas-cecéns, árvores de espinho, todo gênero de hortaliça de Portugal; as canas também se dão bem, e tem três engenhos de açúcar, enfim é terra mui farta.

   A cidade está situada em um monte de boa vista para o mar [Morro do Castelo], e dentro da barra tem uma baía que bem parece que a pintou o supremo pintor e arquiteto do mundo, Deus Nosso Senhor, e assim é cousa formosíssima e a mais aprazível que há em todo o Brasil, nem lhe chega a vista do Mondego e Tejo: é tão capaz que terá 20 léguas em roda cheia pelo meio de muitas ilhas frescas de grandes arvoredos, e não impedem a vista umas às outras, que é o que lhe dá graça. Tem a barra meia légua da cidade, e no meio dela um lagoa de 60 braças em comprido, e bem larga que a divide pelo meio, e por ambas as partes tem canal bastante para naus da Índia; nesta lags [Lagea Rattier, Ilha da Laje] manda el-rei fazer a fortaleza, e ficará cousa inexpugnável, nem se lhe poderá esconder um barco; a cidade tem 150 vizinhos com seu vigário, e muita escravaria da terra.

   Os padres têm aqui o melhor sítio da cidade [o colégio dos jesuítas no morro do Castelo, terceiro colégio do Brasil, fundado pelo padre Manuel da Nobrega em 1567]. Têm grande vista com toda esta enseada defronte das janelas: têm começado o edifício novo, e têm já 13 cubículos de pedra e cal que não dão vantagem aos de Coimbra, antes lha levam na boa vista. São forrados de cedro, a igreja é pequena, de taipa velha. Agora se começa a nova de pedra e cal [Igreja de Santo Inácio], todavia tem bons ornamentos com uma custódia de prata dourada para as endoenças, uma cabeça das Onze Mil Virgens, o braço de São Sebastião com outras relíquias, uma imagem da Senhora de São Lucas. A cerca é cousa formosa; tem muito mais laranjeiras que as duas cercas de Évora, com um tanque e fonte; mas não se bebe dela por a água ser salobra; muitos marmeleiros, romeiras, limeiras, limoeiros e outras frutas da terra. Também tem uma vinha que dá boas uvas, os melões se dão no refeitório quase meio ano, e são finos, nem faltam couves mercianas bem duras, alfaces, rabões e outros gêneros de hortaliça de Portugal em abundância: o refeitório é bem provido do necessário; a vaca na bondade e gordura se parece com a de Entre-Douro e Minho; o pescado é vário e muito, são para ver as pescarias da sexta-feira, e quando se compra vai o arrátel [unidade de medida] a quatro réis, e se é peixe sem escama a real e meio, e com um tostão se farta toda a casa, e residem nela de ordinário 28 padres e irmãos afora a gente, que é muita, e para todos há. Duvidava eu qual era melhor provido, se o refeitório de Coimbra se este, e não me sei determinar: quanto ao espiritual se parece na observância bom concerto e ordem com qualquer dos bem ordenados de Portugal; e estes padres velhos são a mesma edificação e desprezo do mundo, e esta fruta colheram cá por estes matos sem prática nem conferências, e são um espelho de toda virtude, e muito temos os que de lá viemos para andar, se havemos de chegar a tanta perfeição da sólida e verdadeira virtude da Companhia.

   Nas oitavas do Natal ouviu o padre visitador as confissões gerais, e renovaram-se os votos dia de Jesus, e aquele dia preguei em nossa igreja, houve muitas confissões e comunhões por causa da festa e jubileu. 

15.5.16

ARCO DO TELES

Largo do Paço, gravura de Louis Buvelot de 1845 obtida na Biblioteca Nacional Digital. O Arco do Teles está sob a seta.

O Arco do Teles era originalmente uma passagem por uma das três casas coloniais de uso misto (residencial e comercial) de meados do século XVIII de propriedade do juiz de órfãos Francisco Teles Barreto de Meneses ligando o Largo do Paço (atual Praça XV) ao Beco do Arco do Teles (atual Travessa do Comércio), como vemos na gravura acima, sob a seta. O Arco sobrevive até hoje, tombado pelo IPHAN em 1938, só que das três casas coloniais originais só restam as fachadas dianteira e traseira da casa central acopladas a prédios modernos, como você pode ver na primeira foto abaixo. 

No Capítulo II de O Rio de Janeiro no Tempo dos Vice-Reis, Luís Edmundo assim descreve as casas do Teles e seu Arco: “À direita, na linha do casario que avança para a praia, as casas do Teles, com os seus balcões verdoengos [=esverdeados] e os seus telhados íngremes e pardos. Na linha do rés-do-chão, vê-se a porta que dá entrada à bodega do francês Philippe, uma das mais populares figuras da cidade e que a profissão de bodegueiro liga à de intérprete, agente de câmbio e mais negócios. A sua tasca é uma das mais populares, sítio onde vão parar os viajantes vindos de Minas e de S. Paulo e onde, por vezes, dormem. Que os que estão em trânsito no porto podem descer, mas não podem dormir em terra. O Arco do Teles abre adiante a face escancarada e suja. É uma passagem curta, onde se amontoam e desaparecem mendigos, rascoas [=meretrizes], vadios e soldados." (Ver ilustração ao final da postagem.)

Arco do Teles visto da Praça XV. Observe que a fachada da casa colonial está encaixada entre os prédios modernos.

A casa colonial, abstraindo-se os prédios modernos

Chegando mais perto

Vamos entrar? Em outras eras a passagem não era tão segura assim, como lemos no texto do Coarary

O texto a seguir foi extraído da obra-prima de Vivaldo Coaracy Memórias da cidade do Rio de Janeiro:

O Arco do Teles está hoje tombado como monumento histórico. Policiado e relativamente asseado, serve quase exclusivamente para a passagem de caminhões que nele carregam ou descarregam mercadorias dos depósitos situados na travessa. Nem sempre, porém, assim foi. Passagem nobre e bem frequentada no tempo dos vice-reis, prestigiado pela vizinhança do Senado da Câmara e proximidade do Paço, decaiu e abastardou-se com o correr dos anos. Por proporcionar abrigo das intempéries, por ser sombrio, tornou-se o Arco do Teles uma espécie de Pátio dos Milagres, valhacouto de vagabundos, refúgio de delinquentes e palco de cenas vergonhosas, pouso de desacreditados tipos de rua como o Filósofo do Cais, a Bárbara Onça, e outros.

À entrada do arco existia primitivamente um dos pequenos oratórios abundantes na velha cidade: simples nicho abrigando uma imagem diante da qual geralmente ardia uma luz. Eram demonstrações da devoção do proprietário dos prédios e diante de muitos desses nichos se reuniam, em certos dias da semana, moradores da vizinhança para rezar ladainhas. No oratório do Arco do Teles venerava-se a imagem de Nossa Senhora dos Prazeres. Tão escandalosas, porém, eram as cenas que a imagem presenciava que, revoltado com semelhante profanação, um dos moradores da zona, Manuel Machado de Oliveira, tomou a iniciativa de remover a santa imagem para a Igreja de Santo Antônio dos Pobres, onde até hoje se encontra.

Em começos do corrente século [século XX], em ação conjunta, a Polícia e a Prefeitura promoveram o saneamento moral e material do Arco do Teles e desde então, removida das proximidades a Praça do Mercado, modificados os costumes, ele ficou sendo simples passagem para trânsito comercial.

Em 1750, como já ficou registrado, a Câmara cedeu a sua casa, sobre a Cadeia Velha, para sede do Tribunal da Relação que acabava de ser criado no Rio de Janeiro. Passou a Casa das Vereanças a funcionar então no lado oposto do Largo, nas casas de Teles de Meneses de que alugou uma parte dos sobrados onde instalou todos os seus serviços de secretaria. Estava aí alojada quando, em 1757, a provisão régia de 11 de março lhe concedeu o título de Senado da Câmara.

Nos baixos, ou pavimento térreo, das casas dos Teles funcionavam várias lojas de pequenos mercadores. Entre elas, havia a de um belchior ou adeleiro, Francisco Xavier, mais conhecido por alcunha popular que a decência não permite reproduzir, mas que consta de autos antigos. Na noite de 20 de julho de 1790, irrompeu violento incêndio nessa loja. No empenho de salvar as mercadorias que ali guardava e representavam todos os seus haveres, pereceu nas chamas o belchior e com ele um menino que lhe servia de caixeiro e criado. O fogo propagou-se aos sobrados e comunicou-se à casa da Câmara, destruindo não só os móveis, alfaias e pertences, como o precioso arquivo municipal, do qual apenas se salvaram uns poucos livros que se encontravam eventualmente em poder do escrivão do Senado da Câmara. [...]

A perda irremediável do arquivo municipal representou prejuízo de extensas consequências. Até hoje, muitos pontos obscuros da história da cidade e numerosas controvérsias sobre a origem de posses territoriais e seu caráter alodial ou enfitêutico, não podem ser esclarecidos com exatidão em resultado daquele incêndio. [...]

O juiz Francisco Teles Barreto de Menezes mandou reconstruir os prédios de sua propriedade que o incêndio destruíra em parte. Quanto ao Senado da Câmara, passou a funcionar em prédios alugados, sucessivamente na Rua do Ouvidor, na Rua Direita, no Consistório da Igreja do Rosário, sem sede própria, até instalar-se por fim, em 1825, em casa especialmente construída, no Campo da Aclamação [...]

Vivaldo Coaracy, Memórias da Cidade do Rio de Janeiro, Coleção Rio 4 Séculos, pp.42-43

Arco do Teles visto da Travessa do Comércio.

Aqui também se vê claramente que o Arco hoje fica sob um prédio moderno.

Arco do Teles em ilustração de Washt Rodrigues para O Rio de Janeiro no Tempo dos Vice-Reis de Luís Edmundo

1.5.16

ANTIQUALHAS CARIOCAS: CONSTRUÇÕES MAIS ANTIGAS & RELÍQUIAS DA FUNDAÇÃO

PESQUISA DE IVO KORYTOWSKI

Em postagem recente, onde procuramos as casas residenciais urbanas mais antigas ainda existentes no Rio (ver aqui), chegamos até o século XVIII. Hoje retrocederemos ainda mais para descobrirmos quais as construções (e outras relíquias) sobreviventes do primeiro meio século de nossa cidade. À medida que uma cidade evolui no tempo, vai se renovando, restando cada vez menos vestígios de seus primórdios. O próprio Freud observou esse fato ao traçar (em O mal-estar na civilização) um paralelo entre a evolução de Roma e da mente. Da Roma antiga restam hoje, em meio à metrópole contemporânea, relíquias como as ruínas do antigo Foro e o Coliseu. Tomando outra cidade: da Londres medieval resta o complexo da Torre de Londres, vestígio do passado em meio à cidade moderna.

E no Rio de Janeiro, que construções & relíquias restam do primeiro meio século aproximadamente de existência da cidade? É o que veremos agora. As relíquias estão mais ou menos em ordem de antiguidade, mas com margem de erro, já que algumas datas são imprecisas. Não sou historiador profissional, de modo que, se você detectar algum equívoco ou omissão, por favor avise para ivokory@gmail.com.

1) MARCO DA FUNDAÇÃO, TÚMULO DE ESTÁCIO DE SÁ & IMAGEM DE SÃO SEBASTIÃO

Marco da Cidade do Rio de Janeiro de mármore português. Sua forma assemelha-se à de um paralelepípedo alongado e de pequena espessura. Numa das faces estão em relevo as quinas portuguesas e na outra a cruz que figurava nas caravelas e galeões dos conquistadores lusitanos, como explica Araújo Viana em artigo sobre as artes plásticas no Brasil e no Rio publicado na Revista do IHGB no 78.

Túmulo de Estácio de Sá
Imagem de São Sebastião

Em 1o de março de 1565, Estácio de Sá, sobrinho de Mem de Sá, fundou, numa praia abrigada entre os morros Cara de Cão e Pão de Açúcar (atual Praia de Fora, na Fortaleza de São João, bairro Urca), bem na entrada da baía, a cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro como base de ataque aos invasores franceses e seus aliados tamoios, ali assentando o marco de fundação, em pedra de lioz portuguesa. A designação São Sebastião homenageou o ainda menino rei de Portugal Dom Sebastião, que viria a morrer na batalha de Alcácer-Quibir. Dois anos depois, em 1567, Estácio de Sá, morto em combate por uma “flecha perdida”, foi enterrado naquele núcleo primitivo (a “Cidade Velha”), num templo improvisado, de pau-a-pique, coberto de sapê. Com a derrota dos invasores e transferência da cidade para a "cidadela" do Morro do Castelo, construiu-se no alto do morro a Igreja Matriz de São Sebastião, inaugurada em 1583, sendo para lá transladados os restos mortais de Estácio, que ganhou uma lápide em mármore português com os dizeres: " "AQVI IAZ ESTACIO D SA A PR CAPITAÔ. ECOQVISTADOR DESTA TERRA E CIDADE E A CAMPA. MANDOV FAZER SALVADOR COREA. DE SA A SEV PRIMO. SEGDO, CAPITAÔ E GDOR. CÔ SVAS ARMAS E ESTA CAPELA ACABOV O ANO DE 1583." Traduzindo: "Aqui jaz Estácio de Sá, primeiro capitão e conquistador desta terra e cidade, e a campa mandou fazer Salvador Correa de Sá, seu primo segundo, capitão e governador, com suas armas e esta capela acabada no ano de 1583."


O marco da fundação da cidade na lateral da Igreja de São Sebastião, Morro do Castelo. Fonte: Guia da Cidade do Rio de Janeiro de Paula Pessôa, acessado na Biblioteca Nacional Digital

O marco da fundação da cidade é colocado, por marinheiros e soldados, na carreta de artilharia que a transportou do Morro do Castelo, prestes a ser arrasado, para o convento provisório dos capuchinhos na Tijuca. Fonte: Revista da Semana de 28/1/22

Por ordem de Salvador Correia de Sá, o marco da Vila Velha foi transportado para o morro em que jazia o fundador da cidade, permanecendo na entrada do templo. Esta serviu de Catedral de 1676, quando a prelazia de São Sebastião foi promovida a diocese, até 1734, quando a catedral desceu para a Várzea, e em 1842, então abandonada e decadente, a igreja passou para as mãos dos frades capuchinhos, que a reformaram e construíram seu convento ao lado. Com o arrasamento do morro, no dia 20 de janeiro de 1922 (ver Revista da Semana de 28/1/22 e foto acima), após missa campal diante da Igreja, três relíquias da cidade — o marco, a lápide e a imagem de São Sebastião trazida para o Rio por Estácio de Sá  desceram o morro em um cortejo de que participou o Prefeito, Ministro da Guerra, Embaixador de Portugal e uma multidão, percorreram a Av. Rio Branco, Avenida Marechal Floriano, Avenida do Mangue (atual Francisco Bicalho), até chegarem ao convento provisório dos capuchinhos na Rua Conde de Bonfim, 3, Tijuca, nova morada das relíquias. Com a construção da Igreja de São Sebastião dos Capuchinhos, as três relíquias foram levadas para lá, onde podem ser vistos até hoje. A igreja de 1928 em estilo neobizantino fica na Rua Haddock Lobo, 266 (Tijuca), a menos de 500 metros da estação de metrô Afonso Pena. 


Mapa de Luiz Teixeira de cerca de 1574 que permitiu que se determinasse o lugar exato onde a cidade foi fundada, antes objeto de polêmica. Observe que a Cidade Velha situa-se exatamente entre os morros Pao de Sucar e Cara de Cam!  Observe também que a cidade se chamava de S. Sebastiam (São Sebastião) e que Rio de Janeiro era o nome da baía. Fonte: Maurício de Almeida Abreu, Geografia Histórica do Rio de Janeiro, livro fundamental para quem quer se aprofundar nos estudos cariocas.

Na Praia de Fora, local onde teria sido assentado o marco original, o Instituto Histórico e Geográfico erigiu, em 7 de setembro de 1914, um marco comemorativo novo. Além disso, uma réplica da lápide de Estácio encontra-se no monumento ao fundador da cidade, no Aterro. Uma curiosidade: quando se planejava a urbanização da Esplanada do Castelo, recém-criada com a destruição do morro, cogitou-se em construir um monumento à fundação da cidade que ficaria numa praça sob o ponto exato onde se erguia a Igreja de São Sebastião, aonde seriam transferidos o marco de fundação e a lápide de Estácio. Na Revista da Semana de 29 de junho de 1929, em matéria intitulada “A Remodelação do Rio”, lemos: “Na praça central da esplanada do Castelo, na vertical precisa do local em que se achava, antes do arrasamento do Morro, o túmulo de Estácio de Sá, fundador do Rio de Janeiro, será erguido o monumento da fundação da cidade.” Como tantos outros planos, este tampouco saiu do papel.

2) REDUTOS MILITARES NA URCA


Reduto São Diogo (1618, o último do conjunto)

Portão histórico do Reduto São Diogo (1618)

Ruínas do reduto São Teodósio (1572)

Ruínas do reduto São Teodósio (1572)

Canhão Armstrong no reduto São Teodósio. As ruínas da foto superior estão abaixo da amurada (1572)

Na margem ocidental da entrada da Baía da Guanabara, atual bairro da Urca, tão logo se fundou o núcleo original da cidade (a Cidade Velha) tratou-se de fortificá-lo a fim de defendê-lo contra franceses e tamoios. Com o correr do tempo, uma série de redutos (fortes independentes) foram sendo construídos, a saber (ver também postagem Fortaleza de São João neste blog clicando aqui).

► 1565 Reduto São Martinho, o reduto original, na Praia de Fora, do qual não restam vestígios
► 1572 Reduto São Teodósio, na base nordeste do Morro Cara de Cão, do qual restam algumas ruínas, reforçado em 1875 com canhões Armstrong e Krupp
► 1578 Reduto São José, na base oriental do Morro Cara de Cão, modernizado em 1872, dando lugar ao atual Forte São José
► 1618 Reduto São Diogo, na Praia de Fora, do qual resta o portão histórico com vão de arco abatido, ladeado por pilastras robustas. Este portão, construção de alvenaria, é encimado por frontão com volutas barrocas, o qual termina por uma pira, segundo informações do site do IPHAN.

3) LARGO E FRAGMENTO DA LADEIRA DA MISERICÓRDIA





Ladeira da Misericórdia

No Largo da Misericórdia, situado entre o Museu Histórico Nacional, os prédios antigos da Santa Casa (com a Igreja de N.S. do Bonsucesso encaixada no meio) e o Museu da Imagem e do Som (mapa acima), sobrevive uma relíquia que poucos cariocas conhecem: o início da antiga Ladeira da Misericórdia (foto acima) que ligava esse largo ao alto do Morro do Castelo (como vemos na foto aérea abaixo, acima da seta). Primeira via carioca a ser calçada, em 1617 (segundo Gastão Cruls, ou 1616, segundo Brasil Gerson). “Do calçamento da ladeira só são originais as pedras grandes do centro, imensas, muito gastas. As menores dos lados são visivelmente novas, talvez postas por cima das originais”, informa Alexei Bueno.


Ponta do Calabouço, Casa do Trem & Arsenal de Guerra (atual Museu Histórico Nacional), Largo da Misericórdia, Santa Casa antiga e nova, ladeira da Misericórdia (acima da seta branca), Morro do Castelo etc. Foto aérea de Jorge Kfuri obtida na Biblioteca Nacional Digital.

Com a derrota dos franceses e de seus aliados tupinambás, a cidade transferiu-se da “Cidade Velha”, na atual Urca, para o Morro do Castelo. Mas logo a cidade começou a descer, pela Ladeira da Misericórdia, até o Largo da Misericórdia, primeiro “espaço livre público com características de praça a se formar no tecido urbano carioca”, como diz Jacques Sillos em Largo da Misericórdia: 1565-2015. A cidade se estendeu originalmente pela Rua Direita da Misericórdia a São Bento (ou seja, o caminho mais curto entre o bairro da Misericórdia, aos pés do Morro do Castelo, e o Morro de São Bento, onde se instalaram os beneditinos), rua esta que, com a transferência da sede administrativa para o Largo do Paço (atual Praça XV), dividiu-se em Rua da Misericórdia, até esse Largo (hoje desaparecida), e rua Direita, atual Primeiro de Março).

Diz ainda Jacques Sillos: “No Rio de Janeiro, o estabelecimento da Ordem da Misericórdia, no sopé do Morro do Castelo, resultou na construção de uma igreja, um hospital, um orfanato e um cemitério, todos no entorno de uma área livre onde havia sido aberta a principal ladeira que fazia a ligação entre a parte baixa da cidade e o morro. Esse lugar, que foi de imediato denominado Largo da Misericórdia, logo se caracterizou como o primeiro e principal espaço público privilegiado para festas e manifestações religiosas na Várzea da Cidade.” 

Com o arrasamento do Morro do Castelo, destruição do bairro da Misericórdia para instalação da Exposição do Centenário da Independência de 1922 e enfim desaparecimento da própria Rua da Misericórdia, do núcleo original restaram o largo e o fragmento da ladeira.

4) IGREJA DE NOSSA SENHORA DE BONSUCESSO


Capela da Santa Casa (ou seja, Igreja de N.S. de Bonsucesso), foto de Augusto Malta de maio de 1921. Na placa à esquerda da igreja, lê-se: SERVIÇO FUNERÁRIO

De nossas três primeiras igrejas não restam vestígios (ou melhor, restam pouquíssimos, como veremos): a primeira, na Cidade Velha (Urca) improvisada de pau-a-pique e teto de taipa desapareceu junto com todo o núcleo original depois que a cidade transferiu-se para o Morro do Descanso (depois do Castelo). A igreja de São Sebastião, nossa primeira Sé, e a de Santo Inácio, dos jesuítas, desapareceram com o arrasamento do morro nos anos 1920. Assim que a cidade desceu e espraiou-se pela Várzea construiu-se nossa primeira igreja na “cidade baixa”, de Nossa Senhora da Misericórdia ladeada pelo prédio antigo da Santa Casa da Misericórdia à direita e seu Recolhimento das Órfãs à esquerda. Essa igreja original, com seu frontão triangular típico do estilo maneirista vigente nos templos da época (como vemos na igreja do Mosteiro de São Bento), pode ser vista até hoje, com outro nome, Nossa Senhora de Bonsucesso, e acrescido de um “puxadinho” do século XVIII, a torre sineira superior com seus adornos. No seu interior, sobrevivem os retábulos da igreja dos jesuítas trazidos para lá quando de sua demolição. Mais informações sobre essa igreja neste blog podem ser obtidas na postagem IGREJAS HISTÓRICAS DO CENTRO DO RIO  que você pode acessar clicando aqui.

5) PRÉDIO VELHO DA SANTA CASA

Parte de um mapa de 1760 mostrando o Forte do Calabouço, Casa do Trem (hoje integrando o complexo do Museu Histórico Nacional), Recolhimento das Órfãs à esquerda da Igreja (marcada com uma cruz) e o prédio antigo da Santa Casa da Misericórdia, à direita da Igreja


Igreja de N.S. de Bonsucesso e o prédio antigo da Santa Casa da Misericórdia à sua direita 

A Santa Casa de Misericórdia é uma irmandade que tem como missão o tratamento e sustento a enfermos e inválidos, além de dar assistência a “expostos” recém-nascidos abandonados na instituição, fundada em Portugal pelo rei Dom Manuel em 1498, como lemos na Wikipedia. No Brasil, a Irmandade se estabeleceu ainda no período colonial, as primeiras Santas Casas instalando-se em Olinda (1539), Santos (1543), Salvador (1549) e Rio de Janeiro (1582).

Em 1852 a Santa Casa ganhou sua monumental sede neoclássica na Praia de Santa Luzia, atual Rua de Santa Luzia. Mas as instalações antigas no Largo da Misericórdia, à direita da Igreja de Nossa Senhora do Bonsucesso (foto acima), com seu Recolhimento das Órfãs à esquerda da igreja, subsistem até hoje. Seu andar térreo é seguramente do século XVI, o segundo andar do século XVII e o terceiro, do XVIII, segundo informação de Alexei Bueno. A Santa Casa da Misericórdia aparece em mapas antigos, como o de 1760, do qual mostro apenas um “recorte” acima. Vemos aí claramente o Recolhimento (das Órfãs), a (Santa Casa da) Mizericordia, Forte do Calaboiço (Calabouço, demolido) e a (Casa do) Trem, que hoje integra o conjunto do Museu Histórico Nacional.


Recolhimento das Órfãs da Santa Casa da Misericórdia

6) CONVENTO DO CARMO


Vista do Largo do Carmo (atual Praça XV) em 1818 pot Franz Joseph Frübeck. À esquerda, o Paço Real, ao centro, o Convento do Carmo e à sua direita a Capela do Senhor dos Passos (onde hoje desemboca a rua Sete de Setembro), a Capela Real, então funcionando como Sé, e a Igreja da Ordem Terceira do Carmo. Foto obtida no site Diário do Rio.

O antigo Convento do Carmo, na Praça XV, teve um desenvolvimento paralelo ao da Santa Casa da Misericórdia: andar térreo do século XVI, segundo andar do século XVII e terceiro andar do século XVIII, segundo informa Alexei Bueno. Onde hoje se ergue a Igreja de Nossa Senhora do Carmo (Praça XV), originalmente existia uma ermida dedicada a Nossa Senhora do Ó, de origem desconhecida. Nela se alojaram por um breve tempo os frades beneditinos, antes de se mudarem para seu local definitivo, o Morro de São Bento, onde estão até hoje. Depois a ermida foi ocupada pelos frades franciscanos com a missão de abrir um convento da Ordem do Carmo, que vieram a construir no terreno ao lado, lá residindo até 1808, quando foram desalojados para que o convento abrigasse várias dependências da corte, no andar térreo, e os aposentos de Dona Maria I, a Louca no pavimento nobre, “onde passou os seus últimos anos de vida a triste soberana com o espírito envolto nas trevas da demência”, como conta Vivaldo Coaracy nas Memórias da cidade do Rio de Janeiro (p. 23). Conta ainda Coaracy: “Todos as tardes acostava ao largo portão do Convento uma sege real em que, acompanhada de duas ou mais açafatas, tomava lugar a rainha para o passeio, a 'tomar ares', que a medicina do tempo aconselhava como convindo à sua enfermidade. Quando o povo, à passagem da carruagem do Paço, se descobria respeitoso, dona Maria escondia o rosto atrás do leque aberto para que a não reconhecesse o demônio que, temia ela, andava à sua espreita.” Após sucessivas mudanças os carmelitas enfim se fixaram no Seminário da Lapa do Desterro, no Largo da Lapa, onde estão até hoje, agora num prédio moderno na Rua Morais e Valê, 111.

Antigo Convento do Carmo: Andar térreo do século XVI

O convento já abrigou diversas instituições, entre elas o Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro e a Academia de Comércio e Museu Comercial (a partir de 1910), chegou a ter a fachada descaracterizada por uma reforma ecletizante em 1906 e foi ameaçado de demolição nos anos sessenta para dar lugar a uma nova sede do Banco do Brasil, mas acabou tombado em 1964 e restaurado pelo IPHAN, vindo a abrigar a Universidade Cândido Mendes.


Antigo Convento do Carmo (Praça XV)


7) IGREJA DE SANTO ANTÔNIO

Convento e Igreja de S. Antonio e Igreja dos Terceiros de S. Francisco da Penitencia, litografia de Heaton e Rensburg de 1845-46

Já no início do século XVIII os frades franciscanos se estabeleceram no Morro de Santo Antônio, onde ergueram sua casa conventual provisória (substituída na segunda metade do séc. XVIII pelo convento que vemos hoje em dia) e a igreja (gravura acima, sob a seta), construída entre 1608, data da colocação da pedra fundamental, e 1615 segundo Vivaldo Coaracy, embora sofresse reformas e restaurações posteriores.

Na reforma dos anos 1920 o frontão triangular maneirista original (que você observa na gravura acima) foi substituído por um frontão neocolonial (que é o aspecto da igreja que todos nós nos acostumamos a ver no decorrer de nossas vidas e que você vê na foto abaixo), mas recentemente tentou-se restaurar o aspecto original (num trabalho ainda imperfeito, já que faltam a linha da cimalha entre o frontão e o frontispício, as sobrevergas das três janelas e os coruchéus globulares do frontão, como bem observa Alexei Bueno). O Convento do lado esquerdo da igreja, edificação da segunda metade do século XVIII (em substituição à residência provisória dos frades franciscanos existente ali desde o início do século XVII), constitui uma sólida massa edificada de três andares, com pequenas e espaçadas janelas. No interior da igreja, as pinturas que ornam a capela-mor e os trabalhos de talha nela encontrados, juntamente com os outros dois altares da nave, formam um raro conjunto de obras que mantêm a feição do gosto artístico do nosso barroco inicial.A Igreja do Convento de Santo Antônio é descrita em mais detalhes neste blog na postagem IGREJAS HISTÓRICAS DO CENTRO DO RIO (Parte 2.5). Para ir até lá (numa janela separada) clique aqui.


Convento e igreja de Santo Antônio com o frontão neocolonial, e Igreja da Ordem Terceira de são Francisco da Penitência, em foto de Malta de 4 de maio de 1930  

8) MOSTEIRO DE SÃO BENTO E SUA IGREJA


Pão de Açúcar (ao fundo, esquerda, um tanto desproporcional), Morro do Castelo (Centro) e Mosteiro de São Bento (direita) vistos da Ilha das Cobras. Desenho a bico de pena de autor desconhecido de 1836-39. 

Os beneditinos chegaram no Rio de Janeiro em 1589 e em 1590 Manuel de Brito e seu filho, proprietários de uma sesmaria tendo o Morro de São Bento encravado em seu centro, cederam aos monges beneditinos a posse do morro. Lá já existia uma capela a N.S. da Conceição e ao seu lado um albergue precário onde os monges se acomodaram, segundo conta Vivaldo Coaracy em suas Memórias da cidade do Rio de Janeiro (p.6). Em 1617 desenhou-se a planta de uma igreja nova, construída de 1633 a 1641. Terminada a edificação da igreja, cuidou o abade de erguer o mosteiro para substituir o modesto albergue. Segundo Vieira Fazenda, que consultou documentos antigos, a construção do novo mosteiro começou em 1652. Novas ampliações e reformas no conjunto (mosteiro e igreja) nos séculos XVII e XVIII deram-lhe a feição que vemos hoje.

A fachada austera da igreja, em estilo maneirista (renascentista português tardio), contrasta com a exuberância da talha barroca interna. A igreja é descrita em mais detalhes neste blog na página Mosteiro de São Bento.

9) CAPELAS RURAIS

Capela de Nossa Senhora da Cabeça 

No Rio de Janeiro sobrevivem várias capelas rurais das primeiras décadas do século XVII, mas a única que preservou suas feições originais, sem nenhum acréscimo nem reforma descaracterizadora, foi a Capela de Nossa Senhora da Cabeça. Veja mais informações sobre essa singela capela, hoje situada nos terrenos da Casa Maternal Mello Mattos (final da Rua Faro), na postagem QUAL A IGREJA MAIS ANTIGA DO RIO DE JANEIRO? deste blog. Para acessar clique aqui. Lá você também verá as outras capelas rurais mais ou menos da mesma época, mas que não preservaram tão fielmente as características originais.