ENSEADA DE BOTAFOGO

ENSEADA DE BOTAFOGO
"Andar pelo Rio, seja com chuva ou sol abrasador, é sempre um prazer. Observar os recantos quase que escondidos é uma experiência indescritível, principalmente se tratando de uma grande cidade. Conheço várias do Brasil, mas nenhuma tem tanta beleza e tantos segredos a se revelarem a cada esquina com tanta história pra contar através da poesia das ruas!" (Charles Stone)

VISTA DO TERRAÇO ITÁLIA

VISTA DO TERRAÇO ITÁLIA
“São Paulo, até 1910 era uma província tocada a burros. Os barões do café tinham seus casarões e o resto era pouco mais que uma grande vila. Em pouco mais de 100 anos passou a ser a maior cidade da América Latina e uma das maiores do mundo. É pouco tempo. O século XX, para São Paulo, foi o mais veloz e o mais audaz.” (Jane Darckê Avelar)

11.2.16

CARNAVAL 2016

Charge do Luscar, que foi do inesquecível Pasquim, meu vizinho e amigo nos anos 80 em Santa Teresa, agora vivendo em Sampa e cheio de verve como sempre

Salve a nossa querida Mangueira, campeã do Grupo Especial, salve a Tuiuti tão pertinho da Mangueira (geograficamente) e agora sua colega na "primeira divisão", salve o samba onde o nosso povo humilde e tão desassistido (que mora na favela ou no subúrbio, não em triplex à beira-mar com elevador privativo e cozinha de não sei quantas dezenas de milhares de reais) dá a volta por cima e deslumbra os brasileiros e o mundo oferecendo o maior espetáculo da face da Terra, os desfiles das escolas de samba, salve salve!

No “Carnaval da crise” fomos sábado ao segundo dia de desfile das escolas de samba da Série A, bem mais barato que o grupo especial (50 reais no setor turístico com cadeiras numeradas) mas belíssimo também... Domingo percorremos as ruelas e ladeiras estreitas do Morro da Conceição atrás da Banda da Conceição, um “Carnaval de Olinda”, imagino, no Rio de Janeiro. Segunda-feira, edição de Carnaval do tradicional Samba do Trabalhador no Clube Renascença no Andaraí. Terça-feira fui filmar (como fiz nos últimos anos) o concurso das turmas de bate bola na Cinelândia. O filme você pode ver no YouTube. Depois os blocos afro e outros na Graça Aranha (a Rio Branco agora está em obras), os divertidamente desafinados Amigos do Zé (Vem que tem axé / Chegou os amigos do Zé / No coração felicidade / Salve a malandragem!!!!!), a bateria tonitruante do Orunmilá e enfim quase onze da noite, nós mortos de cansaço, após longa concentração que parecia não acabar mais, eis que o Cacique inicia o desfile que encerrou o Carnaval de 2016!

Sambódromo (quase) lotado no desfile das escolas da Série A (a segunda divisão do samba) no sábado

Não foi desta vez que o Império Serrano subiu para o grupo especial

Acadêmicos do Cubango: mestre-sala e porta-bandeira

Acadêmicos do Cubango: A Grande Serpente Marinha e o Palácio de Netuno

Fim de desfile na Apoteose

Fim de festa na Apoteose

Bate bola categoria sombrinha

Bate bolas mirins

Sempre Jovem

Fim de festa: madrugada no metrô

7.2.16

CARNAVAL E CHUVA

Bonita crônica de Isabella Nelson (pseudônimo do jornalista e político Abner Carlos Mourão) publicada no jornal O Paiz de 7 de março de 1916


Suponho que os cariocas, com o seu decidido entusiasmo pelo carnaval, tivessem sentido na manhã de ontem um tristíssimo despertar, sentindo a chuva escorrer lá fora, desabaladamente…

Eu, por mim, amo a chuva. Quando acordo e ela cai, após alguns dias de sol intenso e de desmesurado calor tropical, penso logo no banho reparador que estão tomando as árvores. E precipito-me para a janela, na ânsia de vê-las, lavadas e verdes, com a alegria dos rebentos novos e todas as folhas cantando triunfalmente, sob as bátegas sonoras.

Porque as árvores cantam quando, em pleno verão, descem de muito alto as chuvas musicais… E a sua canção é tão doce, tão lírica, de um tão incomparável esplendor, que um poeta divino, de uma sensibilidade agudíssima — Guy Charles Cros — uma vez definiu o amor assim:

C’est la chanson de l’arbre, en juillet, sous l’averse. [É a canção da árvore, em julho, sob o aguaceiro.]



Bem defronte da minha casa fica um maravilhoso jardim adolescente. E são as suas pequenas árvores redondas, sempre sugando vorazmente a terra, sempre bebendo avidamente a chuva quando ela desce reconfortadora e benéfica, na incessante procura da energia que lhes permita desenvolverem-se e subirem para o sol, são essas pequenas árvores exuberantes, de um tão visível e magnífico ardor para a vida, as que mais amo entre todas as árvores da terra.

Vejo-as palpitar de prazer sob a chuva. E, quando o vento passa, agitam braços verdes e atiram umas nas outras e para o meu rosto milhares de gotas d'água e gritam, excitadas, arrepiadas, nervosas, como um bando de meninas travessas. 

E toda eu vibro, tanto essa agitação gárrula, indominável, bracejante, é comunicativa.

Se o sol tira perfumes rudes das plantas, produz a intensa exalação aromal dos matos aquecidos, a chuva faz a terra cheirar suavemente. E o ar fica tão frio, tão vivo, tão fino, que respirar é uma delícia tonificante.

Por isso, quando chove, eu me alegro e de uma profunda, imensa, seivosa alegria vegetal…

E todos os ritmos da chuva, desde os imprecisos e embaladores, até os mais estrepitosos, sinto-os cantar e correr e envolverem-me prodigiosamente.

Volto para a cama, cerro os olhos, e deixo-me ficar. E os ritmos prodigiosos me vão estesiando e readormecendo e sinto pouco a pouco fundirem-se na melancolia monocroma e monótona, que Guy Charles Cros pôs nestes versos:

“Froide, froide comme ton cœur, mon beau serpent,
avec un doux bruit collant
tombe la pluie, tombe la pluie...”
[Fria, fria como teu coração, minha bela serpente,
com um doce ruído colante
cai a chuva, cai a chuva...]

Oh! a voluptuosidade penetrante e tranquila, a felicidade incomparável de uma boa manhã de chuva estival!


3.2.16

CARNAVAL CARIOCA DE 1929 SEGUNDO MANUEL BANDEIRA

"O QUE É O CARNAVAL CARIOCA MESMO COM CHUVA", crônica de MANUEL BANDEIRA publicada em A PROVÍNCIA DE 3 de março de 1929. Ilustrações da REVISTA DA SEMANA.


O mau tempo prejudicou muito os festejos do Carnaval carioca, o carnaval popular, o das ruas — porque o dos salões, o da gente rica, esteve mais animado do que nunca. (No Copacabana Palace venderam-se entradas para 3 mil pessoas e setecentas mesas bordavam nos sete salões o retângulo central reservado aos dançarinos. Com a chuva incessante que caía a partir das quatro horas da tarde, não havia outra coisa a fazer senão entrar num teatro ou num hotel para maxixar ou beber. E havia às vezes lá dentro coisas curiosas de ver.

Baile do Copacabana Palace Hotel em foto publicada na Revista da Semana de 8 de março de 1924, segundo ela "a mais brilhante nota do Carnaval deste anno, reunindo em seus vastos e luxuosos salões a grande sociedade brasileira, numa festa admirável de belleza e alegria".

O hall e bar do Palace, por exemplo, é um ponto que intermitentemente assume aspectos divertidos. Ali se juntam os exemplares mais disparatados da sociedade: a menina de olhos ingênuos, prostitutas, artistas, o chefe de polícia, cocainômanos e canalhas, políticos. A alegria é provocada por meia dúzia de rapazes que beberam demais e circulam de copo na mão, cantando, dançando e dizendo à direita e à esquerda bestialidades engraçadas. Cheira-se o éter à vontade. Há quem traga lança-perfume só para o seu lenço. E quem o está gastando nos outros recebe de vez em quando pedidos de prise [=dose de droga na gíria da época] no lenço estendido. Alguns rapazes excedem-se e deitam-se num recanto do bar embriagando-se de éter indiferentes a tudo o mais.

Baile do Copacabana Palace Hotel.

Outro espetáculo curioso é o do Teatro Fênix que se especializou em bailes para homens. Ali as senhoras pagam entrada porque não é possível distingui-las dos tipos que se fantasiam de mulher com uma perfeição em que não entra somente a habilidade e a arte, mas o temperamento também. E há-os de todas as cores, de todas as idades, de todos as classes, nacionais e estrangeiros. O círculo de mirones [=espectadores] toma com eles liberdades cruéis que vão do carinho acanalhado ao pontapé de troça. No meio disso sujeitos maduros, de capote, guarda-chuvas e óculos de tartaruga combinando com seriedade encontros acenando os dedos para ajustar preços. Aqui e ali, nas frisas e camarotes, a timidez de um grupo cuidadosamente mascarado trai a família que veio só para ver. Aquele português porém instalou-se com a sua gente numa mesa da platéia em plena bagunça. A mulher traz ao colo um menino de peito e amamenta-o ali mesmo. De um camarote bisnagam-lhe o seio exposto. O português dana-se, não por causa do seio mas por causa da criança: “Olha a criança, seu estúpido!” Passa lindo rapaz que a assistência aclama de miss Brasil. E João, que está comigo, confessa desesperado que há nos olhos da falsa mulher qualquer coisa que ele nunca encontrou nas mulheres de fato.

Como festa popular a segunda-feira, consagrada aos ranchos, é o dia mais característico. Esses ranchos resultaram da evolução dos antigos cordões, nenhum dos quais substitui na forma e organização primitivas. Eram blocos bem mais reduzidos que os ranchos atuais. Vinha à frente do estandarte um grupo de índios, caprichosamente fantasiados, executando umas danças de guerra que serviam para abrir caminho entre o povo; seguiam-se ao pé do estandarte os “velhos”, de passo grotesco, com as enormes cabeças de papelão oscilando em longos bastões; depois duas alas de sócios vistosamente trajados, tangendo as chulas [=canto seresteiro] no couro teso dos pandeiros; e atrás finalmente a canalha que não teve dinheiro para a fantasia, os amigos do clube ou simples curiosos.


O Ameno Resedá, o Flor de Abacate e outros grupos mais ricos começaram, de uns dez anos para cá, a aumentar e complicar o cortejo. Hoje são sociedades para julgamento de cujos préstitos o Jornal do Brasil, instituidor do Dia dos Ranchos, reúne no júri profissionais de cenografia, dança, música, e até de bordado — porque há um prêmio de estandarte que requer as luzes de um artista bordador. Os outros prêmios são de harmonia e enredo, fora os títulos de campeão e vice-campeão.

Nos ranchos há batedores a cavalo, clarins, comissões de honra precedendo o “enredo”, atrás do qual vem uma verdadeira banda instrumental e coros obrigados a engraçados regentes que andam de um lado para o outro atentos à harmonia do conjunto. A iluminação do cortejo, que a princípio era a querosene ou acetileno, é hoje feita de maneira engenhosa. O rancho inteiro fica envolvido num cordão de fio elétrico ligado a baterias dispostas num caminhão que fecha o préstito. De espaço a espaço saem ramais para as varas dos candelabros de quatro ou cinco lâmpadas elétricas, carregados a mão. Esse cordão ao mesmo tempo isola o rancho da massa popular. O efeito é muito característico.

Rancho carnavalesco Caprichosos da Estopa na noite de segunda-feira na Avenida Rio Branco. Revista da Semana de 25 de fevereiro de 1925.

Para dar uma ideia do que são os “enredos” basta citar dois deste ano. Os Caprichosos da Estopa [foto acima] apresentavam a história de Salomé “baseada na imortal obra do grande escritor inglês Oscar Wilde”. Os Parasitas de Ramos [foto abaixo] buscaram inspiração na história do Brasil revivendo cenas de costumes do nosso passado: os presos carregando água, a sinhá transportada na cadeirinha, o negro apanhando no pelourinho, os anjinhos das procissões… As personagens de todas essas cenas eram criancinhas, o que acrescia ainda mais a deliciosa ingenuidade do cortejo.

"Os ranchos são a nota decorativa da alegria carioca, o carnaval dos pequenos, a kermesse dos humildes." Rancho Parasitas de Ramos na Revista da Semana de 13 de fevereiro de 1932.

É na praça Onze que esses ranchos são mais apreciados. Para lá aflui o povinho miúdo, a mulataria que dá cor e pitoresco ao carnaval famoso da praça. Ali há duas coisas gostosíssimas de ver: os “sambinhas” e as “batucadas”.

Os primeiros são rodas de baianas pegadas de colares de contas doiradas revezando-se em solos de samba. É impressionante espetáculo quando alguma boa velha cai na roda dançando de olhos fechados, religiosamente, como as macumbas.

As “batucadas” improvisam-se e desmancham-se logo porque a polícia dá-lhes caça. Consistem numa dança de capoeiragem ao som do batuque. Formado um largo quadrado ou retângulo o pessoal da rapa [=rasteira] entra a saltar, tentando derrubar uns aos outros ou aos que fecham o quadrado. De vez em quando um tombo de rasteira diverte os espectadores. Mas o prazer é perigoso: toda aquela gente tem cara inquietante e é de fato a pior malandragem da cidade. Volta e meia a brincadeira degenera em conflito e acaba em navalhadas.



Arlequim, ilustração de M. Constantino na Revista da Semana de 9 de fevereiro de 1929

Baile à Fantasia no Tijuca Tênis Clube na Revista da Semana de 9 de fevereiro de 1929

30.1.16

VELHOS FÍCUS COMO EU, de ARTUR DA TÁVOLA

O advogado, jornalista, radialista, escritor, musicólogo (tinha um lindo programa de música clássica na rádio MEC e estava escrevendo um livro sobre Schumann que nunca veio a lume) professor e político (votei nele para senador) ARTUR DA TÁVOLA (Paulo Alberto Artur da Tavola Moretzsohn Monteiro de Barros) escrevia lindas crônicas em O Dia, algumas reunidas em livros, ocasionalmente sobre as árvores cariocas. Morreu prematuramente, em plena atividade, aos 72 anos, em 2008, deixando saudades. Por isso resolvi "desencavar" esta linda crônica sobre os fícus que havia sido publicada nos primórdios deste blog em 2006.


Campo de Santana: "Vetustos sacerdotes!"

Chamo a sua atenção para os fícus [ficus microcarpa] de nosso Rio de Janeiro, árvore recatada, silenciosa, folha pequena, sem o charme da flor, da categoria de seres que prodigalizam amor em sadio anonimato; quanta gente nem sabe que árvore é o fícus!...

Campo de Santana

Mas ele existe, há séculos, e o Rio guarda alguns dentre os belos e vetustos exemplares de fícus. É árvore de vestes monacais. Despiu-se de vaidades mundanas. Existe para pássaros e sombra, produzindo, porém, para apreciadores especiais, a maior das delícias: as suas bolinhas portadoras das sementes (quase sempre caídas sobre o cimento da cidade grande). São pequenos figos, de onde advém o nome latino "fícus". Eles propiciam a deliciosa sensação de ir pisando as bolinhas que estalam ao peso do corpo, saborosa sensação de pisar crocante.

"...ao lado do Hotel Novo Mundo"

Mas se o amigo leitor ou doce leitora gostou do fícus e sua missão de servir e sombrear silente, após vê-los um a um pela Rua São Clemente ou Praia de Botafogo, Avenida Rui Barbosa e Praia do Flamengo, nesta, ao chegar na esquina da Rua Silveira Martins, olhe para o ângulo final do Palácio do Catete e que confina com a citada rua, ao lado do Hotel Novo Mundo. Ali esplende outra junção notável de fícus, responsável por visual denso, forte, generoso, prova da beleza introvertida desta árvore, benfeitoria anônima do Rio.

Jardim do Palácio do Catete

E, se por acaso for tão doido quanto o cronista e capaz de tanto amar o fícus caladão, saia, então, do bairro e vá para o lugar onde, em silêncio, estão os fícus mais severos e belos do mundo: a Praça da República, o Campo de Santana [foto superior]. Lá imperam, republicanos e centenários, fícus sublimes. Vetustos sacerdotes! Repare-lhes o tronco torcido pelas angústias do viver. Medite sobre as copas descomunais, prodigalizando ajuda, a despeito das dores e desilusões da casca de seu tronco. Consulte a si mesmo, sobre o significado daqueles zilhões de minúsculas folhas lustrosas, alheias a espalhafato. Descobrirá, então, a lição de vida desse monge vegetal.

Praça Nossa Senhora da Paz, Ipanema (antes da obra do metrô)

"Existe para pássaros e sombra..."

"...minúsculas folhas lustrosas, alheias a espalhafato"

"...a maior das delícias: as suas bolinhas portadoras das sementes"

Praia de Botafogo

Crônica extraída do livro Rio, um olhar de amor, de Artur da Távola. Fotos de fícus (da espécie ficus microcarpa) tiradas pelo editor do blog em diferentes pontos do Rio de Janeiro. Postagem originalmente publicada em julho de 2006.

15.1.16

VILA DA PENHA

Você conhece a Vila da Penha? Confesso que só recentemente vim a conhecer, inspirado pela postagem “Vila da Penha - Quanta Coisa” do blog do meu amigo Evandro. Lá ele faz um alerta importante: “Não confunda a obra-prima do mestre Picasso com a pica de aço do mestre-de-obra. Não confunda centavos novos com  sentar nos ovos e nem o cu com as calças. Não confunda, principalmente, Penha com Vila da Penha e com Penha Circular.”

Como é a Vila da Penha? Subúrbio aparentemente tranquilo (mas não imune à criminalidade, como qualquer bairro de cidade grande), ruas de nomes simpáticos (Rua da Inspiração, Rua da Coragem, Travessa da Amizade), casinhas de subúrbio singelas (e um ou outro prédio residencial baixo) e uma particularidade: lindos painéis de azulejos em fachadas de casas, com cenas bucólicas, bíblicas, alpinas, orientais etc. numa profusão que não se vê em nenhum outro bairro do Rio (ao que eu saiba).


O Dicionário da Hinterlândia Carioca do Nei Lopes sintetiza a história do bairro: “Típica região rural, de fazendas, pequenos engenhos e chácaras, sua expansão só começa a ocorrer na década de 1920. Na década seguinte, o arruamento e o loteamento exatamente denominado “Vila Penha”, projetado e executado pela Empresa Industrial de Melhoramentos do Brasil, consolidou a urbanização do bairro, que, com Getúlio Vargas, recebeu também, como vários outros do subúrbio, um conjunto residencial do IAPI, constituído principalmente de casas com pequenos terrenos, algumas das quais ainda existentes em sua forma original.” E vamos às fotos (a maioria, dos painéis, a grande atração do bairro).

Rua da Inspiração

Fiação e as típicas casinhas de subúrbio em meio a um ou outro prédio de classe média

Santa Bárbara no clássico losango de quatro azulejos, em platibanda de casa revestida de pedrinhas coloridas

Jesus Cristo em losango de quatro azulejos com moldura de pastilhas

Santo Antônio e o Menino Jesus

Besouro

Casa rosa

Pedras multicores
Cena bíblica em painel de azulejos de António Igrejas

Cena bucólica de moinho à beira do rio em painel de azulejos com moldura de pedra

Paisagem alpina

Paisagem oriental

Cena bucólica na platibanda de uma casa

Outra cena bíblica de António Igrejas de 1966 em fachada de prédio na Vila da Penha. Fotos do editor do blog.

11.1.16

ESTÁTUA DE NOSSA SENHORA NO LARGO DO MACHADO: DESMASCARANDO UMA LENDA URBANA



No Largo do Machado, no alto de um pedestal, ergue-se uma estátua de Nossa Senhora da Imaculada Conceição que tem uma história interessante e está ligada a uma lenda urbana. A estátua foi inaugurada em 8 de dezembro de 1954 no dia do centenário da promulgação, pelo Papa Pio IX, do dogma da Imaculada Conceição. A estátua, que antes adornava o jardim do Palácio São Joaquim (Nunciatura Apostólica) na Glória, foi doada à Prefeitura pelo Cardeal Dom Jaime Câmara. Em suas Memórias, o cardeal conta que a estátua seria do escultor genovês Canova e teria sido adquirida pelo Cardeal Arcoverde quando construiu o palácio. Uma estátua do eminente Canova numa praça do Rio de Janeiro? Ampliando a fotografia da base da estátua, obtida no excelente site As histórias dos monumentos do Rio de Janeiro da gerente de Monumentos e Chafarizes da Prefeitura, Vera Dias (a estátua está lá no alto e não dá para você, que passa pela praça, fotografar a base), observa-se que a estátua traz esta assinatura: "G NAVONE GENOVA 1907". Ou seja, a estátua não é realmente do Canova, infelizmente, e sim do escultor genovês Giuseppe Navone, “um daqueles numerosos, hábeis e absolutamente esquecidos artífices que criaram pilhas de monumentos funerários no mundialmente célebre Camposanto di Genova”, segundo informa Alexei Bueno, ex-diretor do INEPAC. Ainda segundo Alexei, “Essa história do Canova é mais uma lamentável lenda urbana. De início, a estátua não tem absolutamente nada do seu estilo, nada a ver com aquele seu classicismo muito limpo e elegante. Depois, ainda me dei ao trabalho de examinar, de cabo a rabo, exaustivamente, o volume, que tenho, da Opera completa del Canova [...] e não existe nada que nem se assemelhe”.

Assinatura da estátua (foto obtida no site de Vera Dias)

Memórias de Dom Jaime Câmara organizadas pelo Monsenhor Ivo Calliari (foto cedida por Vera Dias) 

1.1.16

RIO (e PARIS) QUARENTA GRAUS NO TEMPO DE EÇA DE QUEIROZ

Meu pai contava que “no seu tempo” no bonde de primeira classe só se podia viajar de terno. Eu próprio peguei a época em que no Municipal só se entrava de terno e gravata (na minha insubordinação adolescente cheguei a ser barrado naquele austero teatro por querer burlar o regulamento). E havia um restaurante no Centro, Timpanas, que só aceitava comensais de terno. Até hoje em certos cargos — desembargador, diretor, senador — o traje passeio completo é de lei. Em em pleno Centro do Rio 40 Graus no verão vemos gente empapada de suor padecendo nos seus ternos, embora ultimamente um movimento pela dispensa desse traje no verão e até pelo uso de bermudas tenha se esboçado.

Em suas crônicas jornalísticas postumamente reunidas em Ecos de Paris, o grande escritor português Eça de Queiroz aborda o tema do calor de 40 graus no Rio e em Paris e prevê que no dia em que os trajes se tornarem mais informais “toda a cidade vai sambar” (não foram bem esses termos que ele empregou mas...) E uma consideração final: quem acha que calores de quarenta graus são novidades do aquecimento global tem no texto de Eça o devido desmentido.


"Aí no Rio, segundo me afirmam, mesmo no Verão, se anda de sobrecasaca de pano. É um lamentável excesso de decoro social. Ainda se compreendia no tempo do império, quando a constante sobrecasaca preta do imperador dominava nas instituições, e portanto determinava os costumes. Hoje a república devia apagar esse verdadeiro vestígio do velho regime, e derrubar a tirania do pano e do chapéu alto. Estou convencido mesmo que essa grande reforma influiria vantajosamente no estado dos espíritos. Um povo que com quarenta graus de calor, anda entalado em casimiras sombrias e sobrecarregado com um chapéu alto de cerimônia, é necessariamente um povo constrangido, cheio de vago mal-estar, propenso à melancolia e ao descontentamento político. Que a esse povo seja permitido pôr na cabeça um fresco chapéu de palha, e refrigerar o corpo com cheviotes claros, alegres e leves – e ele respirará consolado, e tudo desde logo lhe parecerá aprazível na vida e no Estado.


Paris fugiu de Paris. Com este calor de fenômeno (quarenta graus à sombra) em que se pode torrar o café dentro das casas, só com estendê-lo simplesmente sobre o chão, a população abandonou a cidade, num verdadeiro êxodo, e maior que o de Moisés, porque esse foi só de quarenta mil hebreus, e daqui, segundo afirmam os jornais, abalaram ontem, em centenas de comboios, cerca de cento e trinta mil pessoas.

Só ficaram os empregados públicos. E ainda assim, havia há dias uma administração de bairro em que todos os empregados, desde o chefe ao contínuo, se achavam no campo ou no mar.

Era um vizinho da repartição, um lojista, que fazia o serviço, por dedicação cívica.

Em todos os Campos Elísios, só raramente se avista alguma carruagem arquejante. Toda a folhagem das árvores secou.

Aqui e além, nas ruas desertas, passa por vezes, fugindo à pressa, um guarda-sol: é um dos derradeiros parisienses que corre do café onde se atestou de cerveja para outro café onde se vai inundar de limonada. Os cavalos das carroças trazem chapéu; e a acreditar os jornais, já se pensa em lhes fazer usar, por causa da grande reverberação da luz, lunetas defumadas.

Todavia Londres está mais ardente. Aí o calor produz quase uma crise nos costumes. Ontem os membros do parlamento celebraram a sessão, na Câmara dos Comuns, em mangas de camisa.

20.12.15

NATAL NOS VELHOS TEMPOS

Igrejinha de Copacabana pelo artista plástico Camões

Como teria sido o Natal brasileiro antes de sua "europeização" e da adoção da árvore de Natal e do Papai Noel? A julgar pelo conto do Machado de Assis, Missa do Galo ("Era noite de Natal. Havendo ajustado com um vizinho irmos à missa do galo, preferi não dormir; combinei que eu iria acordá-lo à meia-noite."), por Um Passeio Pela Cidade do Rio de Janeiro de Joaquim Manuel de Macedo (autor de A Moreninha) e pela crônica Como se Ouve a Missa do Galo de João do Rio, publicada em 1906, a grande atração da véspera do Natal era a missa do galo. As pessoas acorriam à missa em massa como hoje vão à queima de fogos do Réveillon. Mas a missa em si, mero pretexto para brincadeiras, paqueras, bebedeiras. Pelo menos é o que se depreende da crônica saborosa do João.

 
Igrejinha de Copacabana em cartão postal de 1910

COMO SE OUVE A MISSA DO GALO (trechos), de JOÃO DO RIO

Eu estava exatamente defronte da igreja de Santana, dispondo de um automóvel possante. Era a mais que alegre hora da meia-noite que alguns temperamentos românticos ainda julgam sinistra. Aquele trecho da cidade tinha um aspecto festivo, um estranho aspecto de anormalidade. (...)

Grupos de rapazes berravam graças, bondes paravam despejando gente, vendedores ambulantes apregoavam doces e comestíveis; todos os rostos abriam-se em fraterna alegria, e naquela sarabanda humana, naquele vozear estonteante, uma nota predominava – a do namoro. Os rapazes estavam ali para namorar, para aproveitar a ocasião. (...)

Copacabana devia ser divertido. Tomei de novo o automóvel e disse ao chauffeur:

– Para Copacabana.

Naquele delicioso percurso da Avenida Beira-Mar, toda ensopada de luz elétrica, outros automóveis de toldo arriado, outros carros, outras conduções corriam na mesma direção. Homens espapaçados nas almofadas davam vivas, mulheres de grandes chapéus estralejavam risos, era uma estrepitosa e inédita corrida para Cítera [ilha do Egeu famoso pelo templo a Afrodite]

(...) Cerca de três mil pessoas – pessoas de todas as classes, desde a mais alta e a mais rica à mais pobre e à mais baixa, enchia aquele trecho, subia promontório acima [em direção à igrejinha de Copacabana]. E o aspecto era edificante. Grupos de rapazes apostavam em altos berros subir à igreja pela rocha; mulheres em desvario galgavam a correr por outro lado, patinhando a lama viscosa. Todos os trajes, todas as cores se confundiam num amálgama formidável, todos os temperamentos, todas as taras, todos os excessos, todas as perversões se entrelaçavam. (...)

De todos os lados partiam cantos de galo. Os cocoricós clássicos vinham finos, grossos, roufenhos, em falsete: – Cocoricó! Cocoricô!

– Já ouviste cantar o galo?
– Pois hoje não é a missa dele?
– Cocoricó! pega ele pra capar!
– Pega!

A igrejinha [de Copacabana] estava toda iluminada exteriormente à luz elétrica. Defronte de sua fachada lateral haviam armado um botequim. A turba arfava aí, presa entre a bodega e o templo...

(Do livro A alma encantadora das ruas, de João do Rio, organizado por Raúl Antelo e publicado pela Companhia das Letras)



Igrejinha de Copacabana em antiga foto de Marc Ferrez

UM PASSEIO PELA CIDADE DO RIO DE JANEIRO (trecho), de JOAQUIM MANUEL DE MACEDO

As festas do Natal estendiam-se, como ainda hoje, do dia 25 de dezembro do ano que acabava até 6 de janeiro do novo que começava. Nelas, porém, predominavam os dias de Natal, de Ano Bom e de Reis. 

O dia de Natal era notável pela missa chamada do galo, pelas ceias alegres que a precediam e que tão famosas eram, e pelos presépios que se abriam ao público, e a que concorriam chusmas de visitadores. 

No fim do século passado, os presépios mais estimados do Rio de Janeiro eram três. O da ladeira de S. António, que os religiosos franciscanos apresentavam anualmente. O do convento da Ajuda [onde hoje fica a Cinelândia], mais pequeno que o precedente talvez, porém mais curioso e atrativo, porque ao mesmo tempo em que se viam as figuras do presépio, se ouviam cantos religiosos e análogos ao assunto, entoados pelas freiras. E incontestavelmente superior a ambos, o presépio do Livramento, na casa que fica ao lado direito da capela de N. S. do Livramento. 

Estes presépios conservavam-se abertos e patentes ao público em todas as noites, desde a do Natal até à de Reis.

(Do capítulo "A Capela e o Recolhimento de N. S. do Parto")

Nota: A igrejinha, citada na crônica de João do Rio, situava-se onde hoje se ergue o Forte de Copacabana. Uma dica para cariocas e visitantes: o forte, que abriga o Museu Histórico do Exército, está aberto à visitação. De lá você desfruta vistas magníficas das praias de Copacabana, Arpoador e Ipanema. Saiba mais sobre o forte clicando em FORTE DE COPACABANA no GUIA DO RIO no cabeçalho deste blog. 

19.12.15

INAUGURAÇÃO DO MUSEU DO AMANHÃ

TEXTO DE RAFAEL TEIXEIRA PUBLICADO ORIGINALMENTE NA VEJA-RIO DE 12/12/205 E FOTOS (TIRADAS NA VÉSPERA DA INAUGURAÇÃO, COM O MUSEU AINDA VAZIO) DE SANDRA SANTOS


Em Atlas, seu último livro publicado em vida, o argentino Jorge Luis Borges escreveu, a respeito de um dos maiores desertos do mundo: “Ao pé das pirâmides, tomei um punhado de areia, caminhei alguns passos, despejei-o um pouco à frente e disse para mim mesmo: eu modifiquei o Saara”. O trecho, simbolicamente, adorna uma parede do Museu do Amanhã, o mais novo centro cultural da cidade, construído em uma área de 34 000 metros quadrados na Zona Portuária, defronte à renovada Praça Mauá e às margens da Baía de Guanabara. Com linhas arrojadas projetadas pelo estrelado arquiteto espanhol Santiago Calatrava, o espaço abre finalmente suas portas ao público no próximo sábado (19), após cinco anos de obras que consumiram 215 milhões de reais. Dentro do edifício estão reunidas atrações de alta tecnologia que convidam o visitante a refletir sobre a construção do futuro com base no impacto das ações humanas no planeta. “Queremos que as pessoas sejam inspiradas por aquela ideia do Borges”, diz o físico e doutor em cosmologia Luiz Alberto Oliveira, curador do museu, referindo-se ao conceito evocado no texto do escritor, de que profundas transformações coletivas começam com pequenos gestos individuais.
O coração do museu é uma exposição de longa duração instalada no 2º piso, em uma galeria com 300 metros de comprimento. Cinco perguntas fundamentais, que acompanham a humanidade desde os seus primórdios, norteiam a visita: de onde viemos, quem somos, onde estamos, para onde vamos e como queremos ir? (Leia mais na Veja-Rio clicando aqui.)